sexta-feira, 25 de novembro de 2011

VIVER PARA TRABALHAR? - PARASHÁ TOLDOT 5772

"Um pequeno grupo de "Yiddishe Mames" se encontrou em um restaurante da cidade. A conversa seguia animada, cada uma se apresentando e contando sobre sua vida. Em certo momento elas resolveram falar sobre suas famílias. Então cada uma tirou de sua bolsa a foto do maior orgulho de suas vidas: seus filhos. A primeira apontou na foto um rapaz e disse:
- Esse é o meu Moishele. É o meu orgulho. Ele é o médico-chefe do maior hospital da cidade.
Outra mãe apontou uma moça em uma foto e disse, com os olhos brilhando:
- Esta é minha Sarale. Ela é a arquiteta-chefe do maior escritório de arquitetura da cidade.
E assim foram apresentados vários engenheiros, advogados e economistas, até que uma das mães apontou o filho em uma foto e disse:
- Esse é o meu Yossele. Veja que cara de bom menino. Ele é rabino.
Então todas as mulheres olharam horrorizadas para ela. Uma delas, tomando coragem, disse:
- Rabino? Isso lá é profissão decente para um bom rapaz judeu?"
Atualmente as profissões não são apenas uma forma de conseguir o sustento, elas se transformaram na essência da pessoa. Você pode ser respeitado se for um bom advogado, médico ou engenheiro, mesmo que seja um ser humano medíocre. Será que este é o nosso verdadeiro valor?
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A Parashá desta semana, Toldot, começa descrevendo o nascimento dos dois filhos gêmeos de Itzchak: Yaacov e Essav. Apesar de terem sido criados na mesma casa, desenvolveram características e aptidões completamente diferentes. Enquanto Yaacov dedicou seu tempo para trabalhar seu caráter e tornar-se, a cada dia, uma pessoa melhor, Essav deixou-se levar por seus instintos e desejos, comportando-se como um animal que buscava desesperadamente prazeres. Essav se entregou de corpo e alma ao trabalho, enquanto Yaacov decidiu dedicar-se à espiritualidade, como está escrito "E cresceram os jovens, e tornou-se Essav um homem que sabia caçar, um homem do campo, e Yaacov era um homem íntegro, que se sentava nas tendas" (Bereshit 25:27).
De todos os maus atos e erros de Essav, talvez o que mais representa seu desvio e sua perda de espiritualidade foi o famoso episódio da venda da primogenitura. Por ter nascido antes, Essav tinha direito de receber de seu pai uma Brachá (benção) de primogenitura. Mas Essav, voltando um dia do campo, completamente exausto por ter se dedicado no limite de suas forças ao seu trabalho, viu seu irmão Yaacov cozinhando e trocou sua primogenitura por um prato de lentilhas.
Este episódio, ao ser analisado de uma maneira mais profunda, desperta muitos questionamentos. Como Essav concordou em vender sua primogenitura por um simples prato de comida? Poderíamos pensar que Essav não se importava com sua espiritualidade, mas isto não é verdade, pois nossos sábios ensinam que Essav se esforçava para cumprir com perfeição a Mitzvá de Kibud Av ve Em (Honrar os pais). Se ele não acreditava em espiritualidade, por que se esforçava tanto para cumprir esta Mitzvá? Além disso, quando Essav soube que seu irmão Yaacov já havia recebido a Brachá, ele se desesperou, como está escrito: "E Essav levantou sua voz e chorou" (Bereshit 27:38). Se ele não se importava com sua espiritualidade, então por que chorou de forma tão amarga por ter perdido uma Brachá?
Também a conduta de Yaacov desperta questionamentos. Por que ele não tentou oferecer algo mais tentador, para garantir que Essav aceitaria vender sua primogenitura? Como ele sabia que Essav aceitaria vendê-la por um simples prato de comida?
Quando Adam Harishon (Adão) pecou ao comer do fruto que D'us havia proibido, ele foi amaldiçoado, como está escrito: "Amaldiçoada é a terra por sua causa. Com sofrimento você comerá todos os dias da sua vida... com o suor do seu rosto você comerá pão" (Bereshit 3:17,19). O que isto significa? Que antes do seu grave erro, Adam estava em um nível muito elevado e conseguiria seu sustento sem dificuldades, podendo concentrar todas as suas energias no crescimento espiritual. Mas a partir do momento que Adam caiu espiritualmente, e junto com ele toda a humanidade, a busca pelo sustento transformou-se em um grande teste. O trabalho, algo que deveria ser secundário em relação à espiritualidade, tornou-se o centro da vida das pessoas.
É este o fundamento que está sendo ensinado na nossa Parashá. Por que a Torá ressalta que a venda da primogenitura ocorreu quando Essav estava voltando do campo? Para ensinar que Essav estava tão "viciado" em seu trabalho que havia transformado-o em seu único objetivo de vida. Ele colocava tanta energia nisto que não tinha mais forças nem mesmo para distinguir que tipo de comida estava na panela. E assim ele pediu para Yaacov: "Derrame sobre mim, agora, um pouco desta coisa vermelha, pois eu estou exausto" (Bereshit 25:30). Por ter investido tanto no material, com tanta energia, ele acabou se afastando completamente do espiritual.
Explica o Rav Eliahu Lopian, baseado em ensinamentos do Sforno, um famoso comentarista da Torá, que Essav se especializou em enganar as pessoas, em especial seu pai, fingindo ser um Tzadik. Ele demonstrava se importar com os detalhes das Mitzvót, enquanto na verdade sua única preocupação era com o mundo material. Mas a verdade é que Essav, o grande enganador, não enganou apenas ao seu pai. A sua maior "proeza" foi a forma como ele conseguiu enganar a si mesmo. Ele tinha um potencial espiritual gigantesco, no mesmo nível dos outros patriarcas. Mas ele conseguiu convencer a si mesmo de que não havia nenhuma contradição entre dedicar sua vida à busca de prazeres e ao mesmo tempo tentar ser uma pessoa com espiritualidade. Na sua cabeça havia realmente pensamentos de claridade e retidão, mas não em seu coração.
Todas vezes em que havia uma luta entre o intelectual e o emocional, Essav deixava que seu coração fosse vitorioso, como diz o Midrash (parte da Torá Oral): "Os Reshaim (malvados) são controlados por seus corações". E assim também confirma o versículo: "E disse Essav em seu coração: se aproximam os dias de luto pelo meu pai, e então eu matarei meu irmão Yaacov" (Bereshit 27:41). Em sua cabeça ele tinha claro qual era a gravidade de cometer um assassinato, mas em seu coração queimava o desejo de vingança. Por isso, apesar de dar valor ao espiritual, Essav escutou seu coração até chegar ao fundo do poço, quando vendeu a primogenitura por um prato de comida.
Yaacov conseguiu perceber que Essav havia despencado espiritualmente. Ao ver que Essav não se importava nem mesmo com o que havia de comida na panela, entendeu que ele estava em um nível tão baixo que faria um péssimo uso da Brachá de primogenitura, e por isso decidiu comprá-la. E vendo o estado decadente de Essav, percebeu que não seria necessário oferecer mais do que um prato de comida.
Ensina o mais sábio de todos os homens, Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Não há nada de novo sob o sol" (Kohelet 1:9). Em nossas vidas somos diariamente submetidos ao mesmo teste ao qual Essav foi submetido e derrotado: o teste da luta pelo sustento. Será que nós conseguimos vencer este teste?
Atualmente, ao invés de olhar nossa profissão apenas como uma necessidade, ao invés de entender que ela "compete" com nosso crescimento espiritual, optamos por investir nela todos os nossos esforços. Querendo garantir um bom sustento, querendo alcançar nossos prazeres desejados, deixamos que nosso trabalho se torne nossa vida. É interessante perceber que, sempre quando alguém se apresenta, menciona também sua profissão, pois é como se fosse parte da sua essência. E por causa de todo e esforço e pressão do trabalho no dia a dia, não sobra tempo para refletir sobre o propósito verdadeiro da vida. Mesmo quando alguém tenta despertar as pessoas que estão imersas no trabalho, a resposta é sempre a mesma: "Não tenho outra escolha". Será que realmente não temos escolha? Não poderíamos abrir mão de um pouquinho do nosso conforto por um pouco mais de espiritualidade em nossas casas? Não poderíamos nos esforçar um pouquinho mais para inserir mais conteúdo em nossas vidas?
Para garantir o sustento de nossas famílias, não precisamos estudar e trabalhar 24 horas por dia, sem sobrar nenhum segundo para investir em espiritualidade. Uma das bases da Emuná (fé) é que D'us pode nos mandar o sustento mesmo se tivermos uma vida equilibrada entre o material e o espiritual. Portanto, toda vez que dizemos "não tenho outra escolha", estamos apenas procurando desculpas. Temos que tomar muito cuidado para não cair no mesmo erro de Essav, que se tornou, acima de tudo, um especialista em enganar a si mesmo.

"Você trabalha para viver ou vive para trabalhar?"

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/

Gn. 25:19-28:9, 1Sm 20:18-42, Rm.9:1-13 (Machar Chodesh)

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