sábado, 26 de agosto de 2017

ANDANDO COM D'US - PARASHÁ SHOFTIM 5777

"Certa vez um policial antissemita viu dois judeus religiosos em uma moto. Ele quis dar uma multa naqueles judeus, mas precisava de algum motivo para isso. Montou em sua moto e começou a acompanhá-los, sabendo que mais cedo ou mais tarde eles fariam alguma manobra proibida. Provavelmente parariam a moto sobre a faixa de pedestres, ultrapassariam de maneira perigosa ou fariam uma conversão sem acionar o pisca alerta. Era só questão de tempo para poder multá-los.

Porém, o tempo começou a passar e o policial não os via cometendo absolutamente nenhuma falha. Eles respeitavam todas as leis de trânsito, acionavam o pisca alerta antes de qualquer conversão, aguardavam pacientemente o sinal verde e não andavam entre os carros. Depois de mais de meia hora perseguindo os dois judeus, o policial não aguentou mais. Muito irritado, ele mandou-os descerem da moto e disse:

- Vou falar a verdade para vocês. Estou há meia hora acompanhando a moto de vocês, de olho em tudo o que vocês fazem, e estou impressionado. Vocês não fizeram absolutamente nada errado! Como isto é possível?

- É fácil para nós evitarmos fazer coisas erradas - respondeu um dos judeus - pois sabemos que D'us está nos observando o tempo inteiro. Quando andamos de moto, sabemos que D'us está conosco na moto.

O policial, ao escutar isso, deu um sorriso maldoso, tirou do bolso seu talão de multas e disse:

- 3 na moto? Estão multados..."

Apesar da piada, o verdadeiro segredo de não cometermos transgressões é vivermos com a certeza de que a presença de D'us está sempre conosco, em tudo o que fazemos, mesmo nos pequenos detalhes do cotidiano.
Nesta semana lemos a Parashá Shoftim (literalmente "Juízes"), que começa nos ensinando sobre a importância de estabelecermos um sistema de justiça, com juízes para fazerem os julgamentos e policiais para fazerem a lei se cumprir na prática, como está escrito: "Vocês devem estabelecer para vocês juízes e policiais nas cidades que D'us está dando para vocês" (Devarim 16:18).

De acordo com algumas opiniões, a divisão das Parashiót semanais da forma que nós seguimos atualmente ocorreu na época do Exílio da Babilônia, após a destruição do Primeiro Beit HaMikdash (Templo Sagrado). Porém, na própria Torá já há um sistema de divisão de assuntos, também chamado de "Parashiót". Em um Sefer Torá temos as "Parashiót Petuchót" (literalmente "trechos abertos") e as "Parashiót Stumót" (literalmente "trechos fechados"). Explicando de maneira superficial, no Sefer Torá uma "Parashá Petuchá" começa como uma nova linha em relação ao assunto anterior e define um novo capítulo, enquanto uma "Parashá Stumá", apesar de separada por alguns espaços em branco, começa na mesma linha do assunto anterior e define apenas um novo parágrafo.

O primeiro assunto trazido na nossa Parashá, que fala sobre o estabelecimento de juízes, é uma "Parashá Stumá", isto é, não define um novo capítulo em relação ao assunto anterior, apenas um novo parágrafo. A Parashá da semana passada, Reê, terminou com o ensinamento dos "Shalosh Regalim", as três grandes Festividades (Pessach, Shavuót e Sucót) nas quais cada judeu tinha a obrigação de ir até Jerusalém para oferecer um Korban (sacrifício) no Beit Hamikdash. O último dos Shalosh Regalim mencionados na Parashá é a Festa de Sucót, na qual dormimos por uma semana em cabanas ao ar livre. Se a Torá não fez nenhuma "quebra" entre estes dois assuntos, significa que há alguma conexão forte entre eles. Qual é a mensagem que a Torá está nos transmitindo?

Existem leis que definem como deveriam ser estabelecidos os Tribunais de Justiça em cada cidade da Terra de Israel. De acordo com o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), cada cidade deveria ter um "Pequeno Sanhedrin", composto por 23 juízes. Além disso, cada juiz precisava ter dois suplentes, chegando a um total de 69 juízes para compor o Tribunal de Justiça local. E a obrigação do estabelecimento de um "Pequeno Sanhedrin" se aplicava a qualquer cidade com mais de 120 habitantes.

Porém, este ensinamento do Rambam desperta um grande questionamento. Qual é a lógica de estabelecer um Tribunal de Justiça composto por 69 juízes em uma cidade de 120 habitantes? Quantos casos judiciais este Tribunal teria que julgar para justificar este número tão grande de juízes em uma cidade com tão poucas pessoas? E se até pequenas cidades de 120 habitantes tinham um Tribunal de Justiça, então o número de Tribunais em toda a Terra de Israel chegava a milhares. Qual é a necessidade de tantos Tribunais de Justiça e de tantos juízes?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a função de um Tribunal de Justiça não é apenas aplicar a lei e fazer a justiça prevalecer. Além de obviamente manter a ordem e a justiça, o juiz deve ser um canal para as palavras de D'us. Ele tem a obrigação de criar uma sociedade na qual presença de D'us pode ser constantemente sentida. Mas por que isto é tão importante? O papel do juiz não deveria ser apenas causar o temor nas pessoas de que o descumprimento da lei tem como consequência a aplicação de castigos pelo Tribunal?

A experiência demonstra que um sistema de justiça construído apenas com base na premissa de que as pessoas não cometerão transgressões por medo das consequências normalmente não tem sucesso. Por exemplo, quando a pessoa percebe que há brechas na lei, ela se sente estimulada a transgredir. Quanto menores forem os riscos de ser pego e punido e maiores forem os ganhos com a transgressão, maior será o número de pessoas que optará por transgredir a lei. É justamente isto que está ocorrendo na atual crise política brasileira. A aplicação da lei no Brasil é extremamente falha e os políticos sabem que, enquanto a chance de realmente serem punidos é muito pequena, a possibilidade de desvio de dinheiro envolve milhões de reais. Isto causa com que a grande maioria dos políticos decida que vale a pena ser desonesto e desrespeitar a lei. Mesmo aqueles que são pegos pela justiça, principalmente através das delações, acabam sendo soltos pouco tempo depois ou pegam penas muito pequenas, desproporcionais aos milhões desviados. Em outras palavras, há muita corrupção no Brasil pois, na maioria dos casos, os crimes não são punidos pela justiça, fazendo com que o crime "valha a pena".

Porém, isto não acontece apenas no Brasil. Em qualquer lugar do mundo, em épocas de desastres naturais, guerras ou apagões, aumenta muito o número de delitos, como saques a lojas e casos de violência. Por que? Quando a cidade está um caos, as pessoas sabem que a polícia não dará conta de prender todos os transgressores e, por isto, se sentem estimuladas a cometer maus atos. É o que nos ensinam os nossos sábios: "Se não fosse pelo temor (das autoridades), a pessoa engoliria seu companheiro vivo" (Pirkei Avót 3:2).

Então qual é a solução para desenvolvermos uma sociedade justa e equilibrada? Enquanto no Brasil as manchetes dos jornais estão sempre recheadas de notícias sobre roubos e desvios, na cidade de Bnei Brak, em Israel, frutas são oferecidas na rua sem vendedor e livros são vendidos nas sinagogas sem ninguém vigiando. Há apenas uma caixinha onde o comprador deixa o dinheiro da compra, sem nenhum tipo de controle. E o mais incrível é que a cidade de Bnei Brak não tem nenhuma delegacia de polícia. Qual é o segredo? A Torá nos ensina que há apenas um sistema efetivo para impedir que as pessoas cometam transgressões: quando entendemos que há algo intrinsecamente errado em violar a lei, independente de qualquer futura punição aplicada pela Justiça ou pela polícia. Portanto, um judeu não deve cumprir as leis apenas pelo medo do castigo aplicado pelo Tribunal, mas principalmente pelo medo da transgressão por si só. Quando as pessoas vivem com a consciência de que D'us vê tudo o que ocorre e que todos os nossos atos têm consequências, desenvolvem uma sociedade verdadeiramente honesta.

Podemos utilizar este conceito para responder os nossos questionamentos. Apesar de um juiz também ter como função a aplicação dos castigos aos que transgridem a lei, sua principal contribuição deve ser justamente criar esta atmosfera necessária de temor a D'us. Se o propósito do sistema judicial fosse apenas criar o medo do castigo, não seriam necessários tantos juízes, ao contrário, um reforço da força policial seria muito mais efetivo. Porém, como o propósito principal de um juiz é criar uma sociedade onde a presença de D'us é palpável, então é possível entender a necessidade de tantos juízes, até mesmo em cidades tão pequenas.

Esta também é a conexão com a Festa de Sucót, na qual abandonamos nossas casas e, por uma semana, vivemos na "sombra de D'us". Da mesma forma que o propósito de um juiz é trazer à sociedade uma atmosfera da presença de D'us, a Sucá também é um lugar onde a presença de D'us é sentida de uma maneira mais palpável. E um dos principais motivos de passarmos uma semana inteira dentro da Sucá é para trazermos para o ano inteiro esta percepção mais palpável da presença de D'us entre nós.

Estamos entrando no mês de Elul, o último mês antes do nosso julgamento de Rosh Hashaná. É a chance de consertarmos os nossos erros e fazermos decisões verdadeiras de melhorar. A claridade de que D'us está sempre perto é fundamental para evitarmos as transgressões e para nos incentivar no nosso crescimento espiritual. Normalmente erramos por termos sempre desculpas e justificativas para fugir das nossas responsabilidades. Mas com a consciência de que D'us está presente em cada momento podemos ser mais honestos com nós mesmos. Além disso, viver constantemente com D'us ao nosso lado nos dá muito mais segurança e tranquilidade. 
"D'us está onde permitem que Ele entre" (Kotzke Rebe)
Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12

sábado, 19 de agosto de 2017

BONDADES VERDADEIRAS - PARASHÁ REÊ 5777

"Um soldado americano que participou da terrível guerra do Vietnã, após meses sem contato com a família, conseguiu ligar para os seus pais, que viviam em São Francisco, e lhes disse:

- Queridos pais, a guerra acabou, estou voltando para casa. Mas eu queria pedir a vocês um favor. Eu tenho um amigo, que lutou comigo na guerra, e queria que ele viesse morar conosco em casa. Ele não tem para onde ir.

- Claro, meu filho, nós adoraríamos conhecê-lo! - disseram os pais.

- Mas há algo que vocês precisam saber - disse o filho - Ele foi ferido na última batalha que participamos. Pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. O pior é que ele não tem família nem outro lugar para ir. Por isso eu gostaria que ele viesse morar conosco, para podermos ajudá-lo.

- Eu sinto muito em ouvir isso, filho. Talvez nós podemos ajudá-lo a encontrar um lugar onde ele possa morar e viver tranquilamente. Mas alguém com tanta dificuldade seria um grande fardo para nós. Temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que alguém assim interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar pra casa e esquecer este amigo. Não se preocupe, ele encontrará uma maneira de viver...

Neste momento o filho desligou o telefone. Alguns dias depois os pais receberam um telefonema da polícia de Nova York. O filho havia morrido depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio. Os pais, angustiados, voaram para Nova York e foram levados para identificar o corpo do filho. Eles o reconheceram, mas descobriram algo terrível: o filho havia sido ferido na guerra e tinha perdido um braço e uma perna..."

Achamos fácil amar aqueles que são bonitos ou divertidos, mas não gostamos das pessoas que nos incomodam ou nos fazem sentir desconfortáveis. E você? O seu amor tem condições?
Na Parashá desta semana, Reê (literalmente "Veja"), um dos assuntos trazidos é a Mitzvá de Tzedaká, ajudar e se importar com as pessoas necessitadas. E assim está escrito: "Se houver alguma pessoa destituída entre vocês, algum dos seus irmãos em alguma das suas cidades... você não deve endurecer seu coração nem fechar sua mão para seu irmão destituído. Ao contrário, você deve abrir sua mão para ele; você deve emprestar o que ele necessita, tudo o que está faltando para ele" (Devarim 15:7,8). É interessante perceber que o versículo começa com as palavras "você deve abrir sua mão para ele", como se estivesse referindo-se a uma doação generosa, um presente ao pobre destituído, mas depois o versículo continua com a linguagem "emprestar o que ele necessita", referindo-se apenas a um empréstimo. Por que o versículo aparentemente mudou o contexto da ajuda ao pobre?

De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), das palavras "você deve abrir sua mão para ele" aprendemos que, quando estamos diante de alguém destituído, devemos ajudá-lo dando-lhe dinheiro com generosidade, sendo proibido comportar-se de maneira mesquinha. Porém, das palavras "você deve emprestar" aprendemos que, caso a pessoa se sinta humilhada por estar recebendo algo de presente, sem nenhum tipo de esforço, então devemos ajudá-la através de um empréstimo, permitindo que ela mantenha sua dignidade e sua autoestima.

Nos versículos seguintes a Torá traz uma dura advertência em relação ao empréstimo de dinheiro a um necessitado: "Se cuide para que um pensamento ruim não suba ao seu coração e você diga: 'Se aproxima o sétimo ano, o ano da Shemitá', e seus olhos serão maldosos com seu irmão destituído e se recusará a dar para ele. E ele apelará contra você para D'us e será uma transgressão para você" (Devarim 15:9). O versículo está nos ensinando sobre uma pessoa que se recusa a emprestar dinheiro ao necessitado por causa da aproximação do ano de Shemitá. E por que a pessoa se recusaria a fazer um empréstimo a um necessitado? Pois a cada sete anos completamos um ciclo de Shmitá. No sétimo ano deste ciclo não podemos trabalhar nos campos e nem ter proveito financeiro das nossas colheitas na terra de Israel. Além das implicações agrícolas, também há implicações financeiras. Por exemplo, qualquer dívida é automaticamente anulada após a passagem do ano de Shemitá. Por isso a pessoa tem medo que, ao emprestar dinheiro próximo ao ano de Shemitá, não haverá tempo suficiente para que a dívida seja paga e ela será automaticamente cancelada, causando uma perda. A Torá então nos adverte a não sermos mesquinhos e não deixarmos de emprestar a um necessitado, mesmo quando o ano de Shmitá estiver próximo e a chance da pessoa não pagar a sua dívida for maior.

Porém, é difícil entender por que a Torá traz esta advertência logo depois do ensinamento anterior. De acordo com a explicação de Rashi, o versículo estava falando sobre uma pessoa que estava disposta a doar seu dinheiro com generosidade para uma pessoa necessitada, sem exigir nada em troca, e decidiu fazer a bondade através de um empréstimo apenas pela dignidade da pessoa necessitada, para que ela não se sentisse humilhada. Então por que a Torá precisou logo depois dar esta advertência para que a pessoa não deixasse de ajudar com um empréstimo quando se aproximasse o ano de Shmitá? Se a pessoa já estava disposta a dar todo o dinheiro como presente, por que estaria preocupada com o cancelamento da dívida?

Explica o Rav Yohanan Zweig que D'us, nosso Criador, conhece todos os mecanismos psicológicos que atuam sobre o ser humano. Quando uma pessoa dá um presente a um necessitado, ela experimenta um sentimento de preenchimento e alegria, uma sensação de realização. Normalmente este sentimento de "nobreza da alma" que sentimos é o que nos motiva a fazermos atos de bondade, como doar dinheiro a um pobre. Mas quando a pessoa ajuda o próximo através de um empréstimo, este sentimento de preenchimento e "nobreza da alma" é diminuído. A pessoa já não sente de maneira tão forte esta sensação de realização.

Além disso, se por algum motivo a dívida for cancelada, como acontecia após o ano de Shemitá, o destituído não reconhece a bondade daquele que "deu" o dinheiro e não atribui a ele a "boa sorte" de não precisar mais pagar a dívida. E o benfeitor, que fica sem o dinheiro do seu empréstimo, acaba sentindo que aquele que recebeu o dinheiro tirou vantagem dele. Certamente esta é uma experiência muito menos satisfatória do que quando a bondade é feita através de uma doação. Mesmo que, no final das contas, o efeito será o mesmo, isto é, nos dois casos a pessoa necessitada ficará com o dinheiro do benfeitor, quando o ato é feito através de uma doação ele vem com um sentimento de preenchimento, enquanto quando o ato é feito através da "doação forçada" de um empréstimo não pago ele vem acompanhado de um sentimento amargo.

A Torá está nos revelando algo impressionante sobre a psicologia do ser humano: mesmo quando fazemos bondades ao próximo, um dos principais motivadores é o nosso próprio bem estar. Portanto, isto não é uma bondade completa, e sim uma bondade "condicional", que depende do quanto estamos sentindo que também estamos ganhando e nos sentindo preenchidos com o nosso ato de doação. É por isso que a Torá sentiu a necessidade de advertir a pessoa que faz a bondade ao necessitado através de um empréstimo de dinheiro. Por ser algo que causa uma experiência muito menos satisfatória, o empréstimo já não é feito com tanta alegria quanto uma doação. Associado com o iminente risco de perder o dinheiro do empréstimo no ano de Shemitá, a pessoa acaba se tornando egoísta e não tem mais vontade de emprestar. A Torá então afirma que isto é um mau ato, baseado no nosso egoísmo e com consequências espirituais negativas.

A Parashá nos ensina que D'us também se importa com as nossas motivações quando fazemos bons atos. Obviamente que o ato de ajudar é importante, mas se não fazemos pelas motivações corretas, o ato fica vazio. Além disso, se a motivação dos nossos bons atos for apenas a nossa própria satisfação, deixaremos de fazer bondades quando elas não nos agradam. Escolheremos a quem ajudar de acordo com a nossa empatia com a pessoa e não de acordo com as necessidades de cada um. Deixaremos de fazer bondades caso nos causem dificuldades ou esforços. Isto certamente limita o nosso potencial de bondade e, portanto, nos afasta de D'us.

D'us criou o mundo apenas por bondade e Sua bondade é infinita e incondicional. Se queremos que nossos atos emulem os atos de D'us, devemos nos esforçar para que nossas bondades sejam completas, tanto nos atos quanto nas intenções. Ao fazer a bondade, devemos pensar na satisfação daquele que recebe, não no nosso próprio preenchimento e bem estar. Normalmente traduzimos a palavra "Tzedaká" como "caridade", mas na realidade Tzedaká significa "justiça". Quando estamos ajudando um irmão necessitado, estamos fazendo apenas justiça, pois o que D'us nos dá "a mais" é apenas para que possamos ajudar as outras pessoas que necessitam. D'us intencionalmente faz uma distribuição desigual das rendas para que as pessoas possam se ajudar e se preocupar umas com as outras e, com isso, acumular méritos espirituais para o Olam Habá (Mundo Vindouro). Tudo o que temos foi dado por D'us e Ele quer que utilizemos nossos bens de forma a criar um ciclo de ajuda mútua. Desta maneira, cada um de nós pode contribuir para criar um mundo mais justo e mais feliz

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 11:26-16:17, Is. 54:11-55:5

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PASSANDO POR UMA PONTE ESTREITA - PARASHÁ EKEV 5777

"Dois amigos, Avraham e Jacques, resolveram fazer uma viagem de navio. Estavam aproveitando cada segundo da viagem, até que o navio atravessou uma terrível tempestade. O mar estava revolto e enormes ondas golpeavam o casco. A água começou a entrar no convés, colocando em risco a segurança de todos os passageiros. Sentindo que a situação se complicava cada vez mais, o capitão do navio emitiu um pedido de socorro para todos os barcos da região. O navio começou a tombar para um dos lados, deixando todos apavorados. Estava claro que o naufrágio era iminente.
 Foi então que um barco da guarda costeira apareceu. Todos respiraram aliviados, estavam salvos. O barco encostou ao lado do navio e os marinheiros colocaram uma tábua de madeira ligando as duas embarcações, formando uma estreita ponte. Aos poucos cada um dos passageiros do navio foi atravessando por aquela tábua para chegar, são e salvo, ao barco de resgate.
 Quando chegou a vez de Avraham atravessar, ele sentiu muito medo. A tábua parecia instável e estreita. Olhando para baixo era possível ver o mar revolto e as ondas se chocando com força contra a embarcação. Precisava se concentrar, sem olhar para os lados, apenas para a frente. Cada passo que ele dava era cuidadoso e preciso. Somente assim ele conseguiu atravessar e chegar ao outro lado.
 Porém, Jacques não se importou com os perigos. Quis atravessar a estreita tábua de maneira "descolada". Apesar dos avisos dos marinheiros, ele não tomou nenhum cuidado. Atravessou olhando para os lados, mexendo no celular, com passos descuidados. Quase no meio da travessia ele pisou em falso e caiu no mar. Foi necessário jogar uma bóia para salvá-lo. Jacques saiu da água completamente encharcado. Mas o pior foi a vergonha e a humilhação de ver todos os passageiros do navio dando gargalhadas de sua situação"
 Nossa vida se assemelha a uma caminhada em uma ponte estreita. Podemos cumprir as Mitzvót de maneira cuidadosa, com a certeza de que assim chegaremos "ao outro lado", ou de uma maneira mecânica, sem atenção e sem as intenções corretas, correndo o grande risco de acabar tropeçando no caminho.
Nesta semana lemos a Parashá Ekev (literalmente "Se"), na qual Moshé continua seu discurso de encorajamento para o povo judeu, que estava prestes a entrar na Terra de Israel. Moshé tinha uma grande preocupação com o contato que os judeus teriam com os outros povos, que eram idólatras e poderiam influenciá-los de forma negativa, desviando-os do caminho de D'us.

Uma das advertências que Moshé deu ao povo é parte dos versículos que compõem o Shemá Israel: "Se cuidem, para que seus corações não sejam enganados e vocês se desviem, sirvam outros deuses e se curvem para eles" (Devarim 11:16). Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que a linguagem "se desviem" se refere a se afastar da Torá, tanto do seu estudo quanto do seu cumprimento. A consequência deste afastamento está na continuação do versículo, "e sirvam outros deuses". Rashi está afirmando que aquele que se afasta da Torá não fica no "vazio", ele automaticamente se encaminha para se conectar com as idolatrias.

Quando escutamos esta afirmação de Rashi ficamos tranquilos, pois sentimos que estas palavras não se aplicam a nós. Pelo fato de cumprirmos as Mitzvót e nos cuidarmos das transgressões da Torá, que são as ferramentas para chegarmos à perfeição, acreditamos que estamos fazendo tudo o que necessitamos para o nosso crescimento espiritual. Do momento em que acordamos até a hora em que vamos dormir estamos cercados de Mitzvót por todos os lados, que nos conectam com D'us. Mitzvót como Tzitzit, Tefilin, Mezuzá, Kriat Shemá e Brachót nos mantém conectados com D'us o dia inteiro. Por isso sentimos que não há com o que se preocupar em relação à esta advertência da Torá. Porém, não é tão simples assim.

Ao explicar as terríveis consequências de se desviar da Torá, Rashi traz como exemplo uma situação vivida por David HaMelech, quando ele se afastou por um tempo do estudo da Torá, como está escrito: "Pois hoje me afastaram de me conectar com a herança de D'us e me disseram: 'Vá e sirva outros deuses'" (Shmuel 1 26:19). Com estas palavras, David HaMelech estava dando seu testemunho para as futuras gerações de como ele se sentiu espiritualmente prejudicado quando se afastou da Torá.

Porém, deste versículo citado por Rashi surge um grande questionamento. Em que contexto isto ocorreu? Shaul HaMelech estava perseguindo David para matá-lo, pois algumas pessoas haviam falado mentiras para Shaul em relação a David. Para salvar sua vida, David teve que fugir e, por algum tempo, não pôde se dedicar como gostaria ao estudo de Torá. Mas se David não pôde se dedicar ao estudo da Torá por estar fugindo para salvar sua vida, então por que ele sofreu consequências espirituais? Entenderíamos se isto tivesse ocorrido em uma situação na qual ele tivesse intencionalmente abandonado o estudo da Torá, mas David HaMelech estava em uma situação na qual ele se afastou por motivos de força maior, para salvar sua própria vida!

Existem muitos paralelos entre o mundo material e o mundo espiritual. Por exemplo, quando uma pessoa coloca a mão no fogo, ela se queima. Isto não ocorre como um castigo, e sim como uma consequência natural, pois o fogo queima. Mesmo se alguém coloca a mão no fogo porque está sendo obrigado, também vai se queimar. O mesmo ocorre com nossa espiritualidade. Quando a pessoa se afasta da Torá, a consequência natural é uma imensa queda espiritual. Rashi quis nos ensinar que mesmo se isto ocorre de uma maneira forçada, como no caso de David Hamelech, ainda assim as consequências espirituais são sentidas. David Hamelech não foi castigado espiritualmente por ter se afastado da Torá, mas sofreu as consequências espirituais naturais deste afastamento. E se isto se aplica a uma situação de "força maior", muito mais se aplica a uma situação na qual a pessoa se afasta da Torá por vontade.

Imaginamos que o conceito de se afastar da Torá somente se refere àquele que não estuda Torá ou que não cumpre Mitzvót. Porém, nos ensina o profeta: "E disse D'us: 'Pois este povo se aproxima de Mim; com suas bocas e seus lábios eles Me honram, mas seus corações estão afastados de mim e seu temor a Mim se tornou "Mitzvót Anashim Melumadá" (literalmente "comandos de pessoas, aprendidos por hábito"). Portanto Eu continuarei trazendo escuridão sobre o povo, escuridão sobre escuridão, e se perderá a sabedoria dos sábios e o entendimento dos cultos se ocultará" (Yeshayahu 29:13).

De acordo com os nossos sábios, a linguagem "Mitzvót Anashim Melumadá" utilizada no versículo se refere ao cumprimento das Mitzvót sem vitalidade e sem vontade. Uma Mitzvá feita sem Kavaná (intenção) se compara a um corpo sem alma. É como um corpo, com todos os seus membros e órgãos em perfeito estado, cada um em seu devido lugar, mas sem a alma que dá a vitalidade a todos eles. Portanto, pela rigorosidade da linguagem do profeta, vemos o quanto é grave cumprir as Mitzvót de maneira simplesmente mecânica. De acordo com o livro Lekach Tov, quando a pessoa cumpre as Mitzvót de maneira mecânica, sem sentimento, isto também é considerado um afastamento da Torá, com todas as suas implicações espirituais.

David HaMelech, por seu afastamento da Torá, sentiu o quanto isto o aproximou de servir outros deuses. Ninguém o comandou a servir outros deuses, mas ele sentiu em sua espiritualidade uma queda tão grande que era como se alguém o tivesse aproximado de uma idolatria e o tivesse ordenado a servi-la. Ele não se apoiou em seu incrível nível espiritual e no seu vasto conhecimento de Torá para achar que estava protegido. E se isto ocorreu com David HaMelech, muito mais pode ocorrer com cada um de nós.

Porém, não sentimos que o nosso afastamento da Torá, mesmo quando não ocorre por "força maior", nos aproxima das idolatrias. Podemos até sentir um pequeno "esfriamento" espiritual, mas com certeza não sentimos o mesmo que David HaMelech sentiu. Isto ocorre justamente porque, mesmo quando nós cumprimos as Mitzvót e estudamos Torá, fazemos como "Mitzvót Anashim Melumadá". Infelizmente já estamos tão afastados de D'us que nem mais sentimos, quando deixamos de estudar Torá ou cumprir Mitzvót, que algo nos falta. E talvez não há tragédia maior do que perder a nossa espiritualidade e nem mesmo sentir isto.  

No livro "Mito de Sísifo", Albert Camus descreve a realidade da grande maioria das pessoas: "Levantar, metrô, quatro horas no escritório ou na fábrica, refeição, mais quatro horas de trabalho, metrô, refeição e dormir. Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado, no mesmo ritmo constante. Na grande maioria dos casos as pessoas seguem neste caminho facilmente. Mas um belo dia ela desperta e se questiona: Por que?". Infelizmente o que Albert Camus está descrevendo não se aplica apenas a pessoas afastadas da Torá e das Mitzvót. Muitas vezes nós cumprimos as Mitzvót apenas de maneira mecânica, dia após dia, ano após ano, sem sentimento e sem vivacidade. Deixamos nossa vida e nossas Mitzvót caírem no comodismo.

Precisamos fugir deste tipo de "sonolência espiritual". Precisamos sair da indiferença e começar a cumprir as Mitzvót com seriedade e reconhecimento. Precisamos estudar as Halachót para saber como cumprir as Mitzvót da maneira correta. A vida é como uma ponte estreita, precisamos ser cuidadosos com cada passo, com cada Mitzvá. Mas, acima de tudo, precisamos viver com entusiasmo. Somente com esta energia, com concentração e com foco conseguiremos atravessar a estreita ponte da vida e atingir o nosso objetivo.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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sábado, 5 de agosto de 2017

QUANTO VALE UMA TEFILÁ? - PARASHÁ VAETCHANAN 5777

"Yaacov viveu uma vida de muita pobreza. Não havia comida suficiente para alimentar sua família, ele não conseguia pagar suas contas e nunca em sua vida conseguiu ajudar outros necessitados. Ele não tinha idéia de como mudar esta terrível situação. Tentou diversos tipos de trabalho, mas o dinheiro nunca era suficiente.

Certa vez um amigo lhe contou que havia escutado que na casa onde Yaacov vivia havia um incrível tesouro enterrado sob as tábuas do assoalho, mas Yaacov não acreditou. Outras pessoas também comentaram a mesma coisa, mas Yaacov continuava cético. De tempos em tempos ele dava uma pancada no assoalho com o calcanhar, mas sem muita vontade, para ver se escutava o som de moedas, mas escutava somente um som oco.

Quando Yaacov já estava velhinho, certo dia sentiu que suas forças terminavam. Em seu leito de morte, viu quando uma pessoa entrou em sua casa, levantou uma tábua solta do assoalho e retirou de lá um baú cheio de ouro e pedras preciosas. A riqueza que poderia ter dado a Yaacov e sua família uma vida digna estava dentro daquele baú. Diante dos seus olhos escurecidos passaram os detalhes de toda a sua vida miserável. O remorso de nunca ter procurado o tesouro foi uma facada no coração de Yaacov, que deu seu último suspiro e morreu".

Este sentimento de remorso certamente estará presente em todos aqueles que não acreditam e não utilizam a força da Tefilá (reza). Muito do que a pessoa precisa na vida já está pronto para ela, só falta ela pedir para D'us. Mas nós não pedimos. Nos esforçamos, trabalhamos mais e mais, mas não fazemos o mais importante: Tefilá.
Nesta semana lemos a Parashá Vaetchanan (literalmente "Eu implorei"), na qual Moshé continuou recordando os principais acontecimentos dos 40 anos em que o povo permaneceu no deserto, entre eles a reclamação do povo por água, que causou com que Moshé batesse na pedra ao invés de falar com ela, recebendo o decreto espiritual de não entrar mais na Terra de Israel. Porém, mesmo assim Moshé não desistiu e continuou implorando para que D'us revogasse o decreto. Nossos sábios explicam que a linguagem "Vaetchanan" tem o valor numérico de 515, que corresponde ao número de vezes que Moshé Rabeinu rezou e implorou para que pudesse entrar em Israel, tamanho era o seu amor pela Terra e pelas Mitzvót que poderia cumprir lá.

Porém, há alguns questionamentos em relação a este ensinamento. Moshé, apesar de se assemelhar a um anjo, fez um erro que, em seu nível, foi algo muito grave, pois perdeu a oportunidade de santificar o nome de D'us diante do povo, o que os ajudaria em sua elevação espiritual. Foi por isso que D'us o castigou com um decreto tão duro. Portanto, se D'us já havia feito um decreto nos mundos espirituais, de que adiantava Moshé rezar?

Além disso, Rashi (França, 1040 - 1105) nos ensina que, em Lashon HaKodesh (língua através da qual D'us criou o mundo), existem 10 linguagens diferentes para reza. O que representa a linguagem "Vaetchanan" e por que Moshé escolheu justamente esta linguagem para transmitir ao povo que ele havia rezado?

Outro questionamento surge quando observamos o conteúdo da reza de Moshé. A Parashá começa com as seguintes palavras: "Eu implorei a D'us naquele momento e disse: 'D'us, você começou a mostrar ao Seu servo a Sua grandeza e a Sua mão forte, pois quem é como D'us no Céu ou na terra que pode fazer como Suas ações e Seu poder? Por favor, deixe-me atravessar e ver a boa terra que está do outro lado do Jordão'" (Devarim 3:23-25). Percebemos que, antes de fazer seu pedido, Moshé se alongou em louvores a D'us. Mas D'us precisa de louvores? Por que Moshé não foi direto ao ponto?

E, finalmente, se D'us sabe tudo, Ele já sabia que Moshé queria entrar na Terra de Israel, já conhecia o amor dele pela Terra e sua vontade de cumprir as Mitzvót. Então por que Moshé precisou pedir?

Explicam os nossos sábios que da Tefilá de Moshé Rabeinu aprendemos muitos ensinamentos práticos para nossa própria Tefilá. Por exemplo, o Talmud (Brachót 10a) afirma que "mesmo que uma espada afiada esteja colocada sobre o pescoço de uma pessoa, ela não deve desistir da misericórdia de D'us". Isto vale para situações do mundo material, como uma pessoa literalmente em uma situação de perigo de vida, mas também vale em relação à anulação de decretos espirituais. Moshé, mesmo sabendo que havia um decreto espiritual que o impedia de entrar em Israel, não deixou de rezar.

Mas de onde Moshé aprendeu que a Tefilá pode anular até mesmo decretos Celestiais? Observando os atos de D'us. Quando houve o decreto de destruição de todo o povo judeu, após a terrível transgressão do bezerro de ouro, D'us falou para Moshé "E agora Me deixe, e Minha fúria queimará sobre eles e Eu os destruirei, e Eu farei de você um povo grande" (Shemot 32:10). Moshé então se perguntou: "Por acaso eu estou segurando D'us e O impedindo de cumprir o Seu decreto? Por que Ele está dizendo 'Me deixe'?". Moshé entendeu que D'us estava dizendo: "Está nas suas mãos salvar o povo judeu. Depende da sua Tefilá. Se você Me deixar, isto é, se você não fizer nada, Eu destruirei o povo. Mas sua Tefilá pode anular o decreto Celestial". Por isso Moshé entendeu que a Tefilá também tinha força para cancelar o decreto de não poder entrar na Terra de Israel.

Um segundo ponto que aprendemos da Tefilá de Moshé é a linguagem utilizada por ele. "Vaetchanan" vem da linguagem "Lechanen", que significa "agraciar". Rashi explica que esta expressão se refere a "Matanat Chinam", um "presente gratuito". Normalmente pedimos para D'us as coisas com o sentimento de que Ele está nos devendo, como se fosse obrigação Dele nos dar o que precisamos. Achamos que somos tão bons e corretos que temos o direito, pelos nossos méritos, de cobrar de D'us, como se disséssemos: "Minha parte eu já fiz, D'us. Agora faça a Sua parte". Porém, não é assim que os Tzadikim (Justos) se comportam. Quando eles pedem algo para D'us, o fazem com o sentimento de que receberão um presente gratuito, isto é, eles sabem que não merecem receber nada e que tudo o que D'us nos dá é apenas por causa da Sua infinita Misericórdia. Os Tzadikim sentem como se sempre estivessem devendo para D'us e nunca cobram nada Dele. Assim também deve ser a intenção dos nossos pedidos durante a Tefilá, não como uma cobrança de D'us, e sim como um pedido baseado na Sua misericórdia infinita.

Aprendemos também de Moshé que, antes de pedir algo para D'us, devemos louvá-Lo e engrandece-Lo. É por isso que a nossa principal Tefilá, a Amidá, é dividida em três partes: Louvores, Pedidos e Agradecimentos. Antes de começarmos a pedir algo, louvamos a D'us e reconhecemos a Sua grandeza. D'us não precisa dos nossos louvores, mas nós precisamos, para que antes de nos dirigirmos a D'us possamos lembrar quem Ele é. Para falar com um presidente, uma pessoa precisa de meses de espera, além de passar por um verdadeiro exército de secretárias e assessores. Mas com D'us, o Rei dos reis, é o contrário. Apesar Dele ser infinito, enquanto nós somos insignificantes diante Dele, mesmo assim Ele nos escuta e anseia pela nossa Tefilá.

Finalmente, se D'us sabe tudo, então por que precisamos pedir? Para que possamos colocar no nosso coração a certeza de que tudo vem Dele. Muitas vezes nos perdemos na escuridão e confusão do mundo material. Achamos que a cura vem do médico e dos remédios. Achamos que encontrar a nossa "alma gêmea" depende das pessoas que vão nos apresentar alguém que combina conosco. Achamos que o dinheiro vem do nosso esforço e da nossa inteligência. Tudo isso é uma grande enganação. A Tefilá nos dá a claridade de que tudo vem de D'us. Devemos fazer o nosso esforço, mas nunca esquecendo que tudo vem Dele. É por isso que, mesmo D'us sabendo o que necessitamos, nós precisamos pedir.

O Rav Chaim Vologziner zt"l (Lituânia, 1749 - 1821) explica que as palavras do versículo "Ele (D'us) reconta para a pessoa quais foram os seus atos" (Amós 4:13) se referem à revelação que as pessoas terão, no Mundo Vindouro, em relação aos presentes que elas teriam recebido se tivessem acreditado na força da Tefilá e a tivessem utilizado. Será mostrado para estas pessoas como suas Tefilót teriam feito diferença se tivessem sido ditas com concentração e sinceridade. A pessoa doente poderia ter se curado, o casal sem filhos poderia ter sido atendido e a pessoa procurando por uma esposa poderia ter encontrado. Assim afirma o Talmud (Brachót 6b): "Há coisas que estão no topo do mundo, porém as pessoas desprezam". Rashi explica que este ensinamento se refere a coisas elevadas como a nossa Tefilá, que podem mudar a nossa vida, neste mundo e no Mundo Vindouro, e mesmo assim nós não damos o devido valor.

De acordo com o Midrash (parte da Torá Oral), no versículo "Eu implorei a D'us naquele momento e disse", a linguagem "e disse" se refere a um ensinamento de Moshé para as futuras gerações. Moshé estava dizendo que ninguém deve se desesperar nem desanimar diante de uma situação difícil. Da mesma forma que ele nunca desistiu e continuou rezando mesmo após D'us ter decretado que os portões da Terra de Israel estavam trancados para ele, nós também nunca devemos desistir da misericórdia de D'us.

Depois da destruição do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado), uma divisória de ferro nos separou do nosso "Pai Celestial". Porém, um portão nunca foi fechado: o portão das lágrimas. A Tefilá é chamada de "o serviço do coração". Portanto, o principal é abrir o nosso coração, colocando toda a nossa confiança em D'us, cuja Misericórdia é infinita. Como um pai que ama seu filho, D'us quer nos dar tudo o que precisamos. Ele está ansiosamente aguardando apenas a nossa Tefilá.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O FOGO DAS DISCUSSÕES - PARASHÁ KORACH 5777

"Por causa dos conflitos que ocorreram durante a Revolução Russa, em 1917, uma quantidade muito grande de judeus foi viver em Radin, na Polônia. Chegando lá, muitos dos novos moradores decidiram criar um novo "Chevra Kadisha" (entidade responsável pelos cuidados com os mortos e com os rituais de sepultamento) na cidade, apesar de já existir há muitos anos em Radim um "Chevra Kadisha". Um mal estar se formou na cidade, dando indícios de que uma grande Machloket (discussão destrutiva) se iniciaria por causa deste assunto.

No Shabat, no final da Tefilá de Shacharit, o rabino Isroel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, se levantou, se direcionou ao púlpito e pediu a permissão para falar algumas palavras. E assim ele começou:

- Meus queridos irmãos, mesmo se tivessem me oferecido mil rublos para vir dar um discurso aqui na sinagoga, eu não teria aceitado. Eu já estou velho e cada instante da minha vida é tão precioso que por nenhum dinheiro do mundo eu venderia o meu tempo. Mas eu senti que há uma enorme necessidade de hoje dizer algumas palavras para vocês. Eu estou aqui na cidade há mais de 50 anos, eu me lembro de todos os judeus que passaram por esta sinagoga. Onde eles estão hoje? De alguns restaram apenas os túmulos no cemitério. Muitos de vocês ainda não haviam nem nascido. Outros, que eram apenas crianças, hoje estão entre os mais velhos da comunidade. Que D'us queira que todos possamos ter vidas longas, mas sabemos que no final das contas todos iremos para "lá" e teremos que prestar contas de tudo o que fizemos aqui.

- E saibam, meus senhores - continuou o Chafetz Chaim, com a voz emocionada - que este assunto de Machloket é algo muito grave. Até mesmo aquele que cumpre muitas Mitzvót, quando se envolve em uma Machloket, é como se tivesse jogado seus méritos dentro de um pacote furado. Tenho certeza de que quando vocês entenderem "lá" o nível de rigorosidade do julgamento, tentarão de tudo para se salvar. Talvez vocês dirão no Tribunal Celestial: 'Havia um judeu na nossa cidade, chamado Isroel Meir, que o consideravam um grande sábio de Torá. Ele viu toda a Machloket e ficou em silêncio'. Por isso eu estou aqui hoje, para pedir por favor que vocês não mencionem meu nome. Eu já tenho o meu "pacote" e não sei como farei para passar o meu julgamento. Portanto, não posso receber sobre mim a responsabilidade dos outros.

De repente, o Chafetz Chaim começou a chorar, um choro amargo e triste, e todo o seu corpo tremia de medo. As pessoas da cidade ficaram tão sensibilizadas que imediatamente receberam sobre si cancelar a criação da nova "Chevra Kadisha". Além disso, para trazer de volta a paz para a cidade de Radin, decidiram que nos próximos três anos ninguém teria que pagar os custos dos enterros, tudo seria feito apenas através de atos voluntários, um ato de "Chessed Shel Emet" (bondade verdadeira)".

Infelizmente muitas vezes entramos em brigas e discussões por não saber a gravidade dos nossos atos. A Machloket é um fogo que queima e destrói, tanto neste mundo quando no Mundo Vindouro.

A Parashá desta semana, Korach, é uma incrível demonstração de que a nossa Torá é um livro de Emet (verdade). A Torá não esconde nem encobre nenhuma transgressão, mesmo as cometidas por Tzadikim (pessoas justas e corretas). Além disso, ao estudarmos sobre os erros cometidos por outras pessoas, podemos aprender valiosos ensinamentos para as nossas vidas, e de forma muito mais objetiva, pois é mais fácil enxergar os erros dos outros do que os nossos próprios erros.

A Parashá descreve um triste episódio que envolveu inclusive pessoas da tribo espiritualmente mais elevada do povo judeu, a tribo de Levi. Motivado pela inveja e pela busca de honra, Korach, um homem da tribo de Levi, iniciou uma rebelião contra Moshé e Aharon, seus primos. Através de sua lábia, Korach conseguiu envolver mais 250 homens da tribo de Levi em uma disputa contra a liderança de Moshé. O principal argumento de Korach era que as escolhas de Moshé como líder e Aharon como Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) haviam sido planejadas por eles mesmos e não haviam sido uma indicação de D'us. Para alcançar seu objetivo, Korach usou a força da "Leitzanut" (fazer palhaçada com coisas sérias), ridicularizando em público os ensinamentos de Moshé e tentando mostrar contradições que provavam que ele não era uma pessoa elevada.

Infelizmente as consequências desta rebelião foram trágicas. Os líderes da rebelião, Korach, Datan e Aviram, foram tragados pela terra junto com suas famílias e seus pertences, um milagre aberto de D'us, algo que nunca havia ocorrido na história. Além disso, os 250 homens da tribo de Levi que também participaram da rebelião, ao oferecerem um incenso que D'us não havia comandado, foram consumidos por um fogo celestial. D'us havia demonstrado, de maneira aberta e milagrosa, que Moshé estava certo e Korach e seus seguidores eram os verdadeiros transgressores. Porém, para a nossa surpresa, tudo isto não foi suficiente para acabar com a força da Machloket. Outros milagres e tragédias tiveram que acontecer para que a situação se acalmasse.

Apesar de sabermos que as Machlokot criam desunião, algo que enfraquece muito o povo judeu, estamos longe de entender os verdadeiros efeitos do "fogo" de uma Machloket sobre o ser humano. De acordo com o Rav Leib Chassman zt"l (Lituânia,1869 - Israel, 1935), da nossa Parashá podemos entender a gravidade e a profundidade da transgressão de criar Machlokot. As Machlokot cegam e desviam o nosso coração, nos afastando dos caminhos de D'us. A prova disto é que, mesmo após todas as provas que D'us deu ao povo sobre a escolha Divina de Moshé e o quanto ele era correto, através da morte milagrosa de todos os rebeldes, mesmo assim o povo continuou reclamando, demonstrando que o fogo da Machloket ainda não havia se extinguido, como está escrito: "E no dia seguinte, reclamou toda a congregação dos Filhos de Israel sobre Moshé e Aharon, dizendo: 'Vocês mataram o povo de D'us'" (Bamidbar 17:6). Depois de um milagre tão grande, feito diante dos olhos de todo o povo, eles ainda não acreditaram em D'us, demonstrando que a Machloket cega os nossos olhos e entorpece o nosso coração. Esta obstinação custou caro ao povo judeu, que foi castigado com uma dura praga, como está escrito: "E foram os mortos na praga 14.700 pessoas" (Bamidbar 17:14).

Porém, o mais assombroso é perceber que nem mesmo a morte de tantas pessoas foi suficiente para apagar o fogo da Machloket. Logo depois desta praga, D'us fez ainda mais uma demonstração milagrosa de que Aharon era o verdadeiro escolhido para ser o Cohen Gadol. O líder de cada tribo trouxe um cajado, com o nome da tribo escrito nele. Aharon, representando a tribo de Levi, também trouxe o seu cajado. Todos eles foram colocados dentro do Mishkan e, no dia seguinte, o cajado de Aharon milagrosamente tinha florescido e brotado amêndoas. Este era o sinal definido por D'us, como está escrito: "E será o homem que for o escolhido, seu cajado vai brotar, e Eu farei diminuir as reclamações dos Filhos de Israel" (Bamidbar 17:20). Destas palavras aprendemos que até este evento milagroso dos cajados o povo judeu continuava reclamando, mesmo que já haviam ocorrido diversas provas de que Moshé e Aharon estavam com a razão. Somente então terminou a força da Machloket, o "fogo" iniciado por Korach e seus seguidores.

A Parashá, portanto, traz uma demonstração assustadora da força de uma Machloket, um fogo que, quando aceso, dificilmente consegue ser controlado e apagado, causando muitas tragédias dentro do povo judeu. Quando uma pessoa entra em uma discussão, dificilmente mantém a sua claridade e a sua objetividade, pois a partir deste momento ela não busca mais a verdade, e sim apenas vencer a discussão. Por isso, mesmo quando fica claro que a pessoa está errada, ela continua em sua cegueira, não querendo enxergar o que é óbvio.

Pensamos que Machlokot destrutivas ocorrem apenas em grandes discussões. Mas a verdade é que mesmo dentro das famílias, dentro de grupos de amigos e dentro das sinagogas são criadas Machlokot, às vezes até mesmo por motivos banais. Enquanto um fogo está apenas no palito de fósforo, temos total controle sobre seus efeitos. Mas a partir do momento em que o fogo começa a se espalhar, com muita facilidade perdemos o controle. O fogo tem um incrível poder destruidor, causando dezenas ou centenas de vítimas em questão de minutos. Assim também são as Machlokot, mesmo quando achamos que elas estão "sob controle", com muita facilidade podem acabar se espalhando e deixando vítimas pelo caminho.

Como foi mencionado pelo Chafetz Chaim, após os 120 anos todos nós prestaremos contas dos nossos atos. A Machloket queima e destrói os nossos méritos. Mesmo Korach, um grande Tzadik, que certamente havia feito milhares de Mitzvót na vida, perdeu tudo por causa de sua Machloket. 250 homens da tribo de Levi, que não haviam participado de outras terríveis transgressões feitas pelo povo judeu no deserto, como o bezerro de ouro e o envio dos espiões, acabaram tropeçando por causa da Machloket. Por isso, não importa o nosso nível, devemos tentar fugir das discussões, para não termos problemas no nosso julgamento no Olam Habá e possamos ter o mérito de uma vida longa e cheia de Brachót neste mundo.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22

sexta-feira, 9 de junho de 2017

RECLAMANDO DE BARRIGA CHEIA - PARASHÁ BEHAALOTECHÁ 5777

"Havia uma pequena cidade no Oriente Médio que era muito famosa por sua deliciosa carne de cervo. De várias partes do mundo as pessoas viajavam para lá somente para poder provar aquele sabor tão delicioso e especial. O povo judeu, ao sair do Egito, estava acampando no deserto não muito longe daquele lugar. Os judeus também escutaram sobre aquela carne gostosa e tiveram desejo de saboreá-la. Alguns judeus pensaram que seria uma boa ideia desviar-se um pouco da rota para poder ir àquele lugar e desfrutar da famosa carne de cervo. Porém, necessitavam da aprovação de Moshé Rabeinu, já que o povo judeu não fazia nada sem seu consentimento. Quando alguém por fim tomou coragem de pedir a Moshé permissão para ir àquele lugar, ele negou. Por mais que tentassem convencê-lo de que valeria a pena, não conseguiram. Até que um deles pediu a Moshé:

- Por favor, Moshé, nos explique por que não! O que há de errado?

Moshé, com enorme paciência, respondeu:

- Vou explicar o que acontece. Todos os dias de manhã cai no nosso acampamento o Mán, um "pão do céu". Mesmo que já estamos acostumados, é um alimento milagroso em várias aspectos. Por exemplo, conforme os raios do sol começam a brilhar, o Mán que não foi recolhido pelo povo se derrete e forma um pequeno riacho, que flui para um rio. Então os cervos daquele lugar bebem a água desse rio e, consequentemente, parte do Mán derretido, diluído na água, entra em seus corpos. Por isso as pessoas desfrutam tanto do sabor desta carne. Por que vocês, que têm aqui todos os dias o Mán fresco, querem ir até lá comer resíduos?"

Esta história, adaptada de um Midrash, nos ensina que muitas vezes buscamos a felicidade e o propósito de nossas vidas em lugares distantes do judaísmo. Sacrificamos muitas coisas para isso, sem nos dar conta que dentro da Torá podemos encontrar a verdadeira felicidade. Então por que se contentar com os resíduos dela?

Nesta semana lemos a Parashá Behaalotechá (literalmente "quando você acender"), que começa com o comando de D'us para que Aharon HaCohen fizesse o acendimento diário da Menorá. Depois disso a Parashá traz um versículo de louvor para Aharon, afirmando que "E assim fez Aharon... conforme D'us ordenou a Moshé" (Bamidbar 8:3). Mas o que este louvor tem de especial? Não era o esperado de Aharon, uma pessoa tão elevada espiritualmente, que ele cumprisse exatamente o que D'us ordenou? A resposta está na continuação da Parashá, que começa a descrever muitos atos de rebeldia do povo judeu. Por exemplo, a Parashá traz uma das reclamações que o povo judeu fez no deserto, por causa de comida, como está escrito: "E a multidão que estava entre eles sentiu um enorme desejo e mais uma vez também choraram os Filhos de Israel. E eles disseram: 'Quem nos alimentará com carne?'" (Bamidbar 11:4).

Quem era esta "multidão"? De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, tratava-se dos "Erev Rav", egípcios que se misturaram com o povo judeu durante a saída do Egito. Eles estavam em um nível espiritual muito baixo, por isso começaram a reclamar e a chorar por causa do desejo de comer carne. Infelizmente o povo judeu acabou se unindo a eles no choro e foram duramente castigados.

Mas como entender este comportamento do povo judeu? Imagine um grupo de banqueiros, vestidos com os ternos mais finos, saindo de uma importante reunião de negócios na qual fizeram transações de bilhões de dólares. Os banqueiros então olham para um grupo de crianças brincando na areia e subitamente desejam brincar junto com elas. Os banqueiros tiram seus ternos caros, arregaçam as mangas de suas camisas importadas e se sentam para brincar na areia. Porém, quando uma das crianças percebe que havia pouca areia para brincar, começa a chorar. Ao escutar o choro da criança, os banqueiros também ficaram tristes pela falta de areia e também começam a chorar. É difícil imaginar que um quadro destes possa realmente acontecer, a não ser que o grupo de banqueiros enlouqueça completamente.

Da mesma forma, como podemos entender o comportamento do povo judeu, que se uniu aos "Erev Rav" para chorar por carne? Os judeus estavam em um nível muito elevado, haviam presenciado no Egito enormes milagres e tinham recebido a Torá diretamente de D'us no Monte Sinai. Além disso, não faltava nada de alimento para eles. Recebiam diariamente o Mán, um alimento que literalmente caía do céu para alimentá-los. Nem mesmo o prazer da gastronomia faltava ao povo judeu, pois além de o Mán conter todos os nutrientes necessários para manter o povo judeu saudável, ele também podia ter o gosto que as pessoas desejassem. Então qual era o problema do povo judeu? O que faltava para eles?

A pergunta fica ainda mais forte quando lemos a continuação da reclamação do povo judeu: "Nos lembramos do peixe que nós comíamos de graça no Egito" (Bamidbar 11:5). Como pode ser que o povo judeu preferia a comida do Egito, que vinha misturada com lágrimas e com o sangue de suas feridas, ao invés do Mán, que era comido com gosto e com tranquilidade? Além disso, o que quer dizer que o peixe era "de graça"? A Torá nos ensina que nem mesmo a palha era dada de graça para que eles fabricassem os tijolos!

Explica Rashi algo impressionante: a expressão "de graça" significa "sem Mitzvót". A comida que eles comiam no Egito não era gratuita, mas era sem Mitzvót, isto é, eles comiam sem obrigações. Podiam comer o que quisessem e da maneira que quisessem, não havia regras. Isto demonstra a força que o materialismo exerce sobre o ser humano. Mesmo que eles estavam em um nível espiritual elevado, mesmo que eles tinham tudo de bom, o materialismo os puxava para baixo, a ponto de reclamarem sobre a falta de carne mesmo tendo tudo de bom na vida. Pelo prazer de viver uma vida sem regras e sem leis, sentiram saudades dos dias de escravidão.

Qual foi a resposta de D'us para a reclamação do povo judeu? O próximo versículo da Torá diz: "E o Mán era como a semente do coentro e sua cor era como a cor do cristal" (Bamidbar 11:6). Segundo Rashi, é como se D'us estivesse dizendo: "Vejam, seres humanos, sobre o que os Meus filhos estão reclamando!". D'us quis ressaltar como era uma reclamação sem cabimento, o famoso "reclamar de barriga cheia".

O terrível efeito do materialismo e da busca por prazeres foi ressaltado na Parashá da semana passada, Nassó, com a justaposição de dois assuntos: a mulher "Sotá" e a pessoa que recebia sobre si o voto de "Nazir". A Sotá era uma mulher que, por causa de seus desejos materiais desenfreados, se colocou em uma situação de suspeita de infidelidade. Ela então precisava passar por uma degradante cerimônia pública para demonstrar sua inocência. Logo depois a Torá fala sobre o voto de Nazir, quando alguém voluntariamente recebia sobre si algumas proibições, como se abster do prazer de beber vinho. Por que a Torá juntou estes dois assuntos? De acordo com o Talmud (Sotá 2a), isto nos ensina que todo aquele que assistia uma mulher Sotá passando por aquela cerimônia degradante deveria imediatamente receber sobre si um voto de Nazir e se afastar do prazer do vinho, para diminuir sobre si o impacto do materialismo.

É interessante perceber que, de acordo com a linguagem do Talmud, todas as pessoas que tivessem assistido a cerimônia de Sotá deveriam receber sobre si o voto de Nazir, inclusive se fossem pessoas muito elevadas espiritualmente, pessoas de comportamento impecável. Apesar de estarmos falando de uma mulher baixa e corrompida, que naturalmente não era um modelo de vida para ninguém, mesmo assim o Talmud ressalta que todos precisavam fazer o voto de Nazir. Isto nos ensina que a força do materialismo é tão intensa sobre o ser humano que mesmo uma pessoa elevada espiritualmente não está a salvo de se desviar e de sofrer um enorme tropeço. A Torá traz exemplos de gigantes espirituais, como Korach e os líderes das tribos que foram espionar a Terra de Israel, que após viverem uma vida inteira de santidade e retidão, acabaram em um instante se desviando e caindo em um abismo espiritual. Por isso nossos sábios ensinaram: "Não confie em você mesmo até o dia da sua morte" (Pirkei Avót 2:4).

Se isto se aplica até mesmo a gigantes espirituais, certamente nós, pessoas comuns, devemos ser ainda mais cuidadosos com os tropeços do mundo material. Se o povo judeu caiu por influência dos Erev Rav, e se mesmo essoas grandes precisavam tomar uma atitude drástica após assistir uma cerimônia de Sotá, também devemos estar muito atentos com as influencias que recebemos. Acabamos nos expondo a notícias que banalizam a desonestidade, a traição e a promiscuidade. E o maior perigo vem do fato de vivermos em uma sociedade que justifica comportamentos distorcidos e os transformam em "corretos". Grandes transgressões se transformam em "parte da vida cultural e seus progressos".

Aharon foi elogiado pela Torá pois, apesar de toda a pressão social, ele conseguiu se manter íntegro e cumpriu a vontade de D'us. É nossa obrigação se afastar das influências negativas. Devemos blindar nossas casas, não apenas pelas nossas crianças, mas também por nós mesmos, pois todos estamos expostos às forças do materialismo. Temos a nossa Torá, a fonte de toda a sabedoria. Não precisamos nos expor em busca de felicidade e prazer, procurando fontes duvidosas, sendo que temos a principal fonte de felicidade nas nossas mãos. Muitas vezes abandonamos a Torá em busca de novos prazeres, mas acabamos ficando apenas com os resíduos.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 8:1-12:16, Zc 2:10 -4:7

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O VALOR DA TORÁ - PARASHÁ BAMIDBAR E SHAVUÓT 5777

"Certa vez um pobre bateu na porta de Shimon, um grande erudito de Torá, um homem extremamente justo e piedoso. Quando Shimon viu que não tinha nada para dar ao pobre, ficou muito triste. Em total desespero, viu na mesa da sala uma pulseira de sua esposa. Achou que era uma pulseira simples, algo de pouco valor. Sem pensar duas vezes, pegou a pulseira e deu ao pobre, que agradeceu e foi embora.

Alguns minutos se passaram e a esposa de Shimon entrou em casa. Quando ela percebeu que a pulseira não estava na mesa, começou a procurar desesperada por toda a casa. Foi então que Shimon contou que um pobre faminto havia batido na porta e havia pedido dinheiro, mas como ele não tinha encontrado nada para dar ao pobre, acabou dando a pulseira. A mulher, não acreditando no que havia acabado de escutar, falou:

- Shimon, você ficou louco? Aquela pulseira valia muito dinheiro! Custou mais de R$ 500,00!

Quando Shimon escutou aquilo, imediatamente saiu correndo atrás do pobre, gritando. O pobre não estava muito longe quando viu Shimon correndo em sua direção, com o rosto desesperado. O pobre se assustou, achando que aquele homem havia se arrependido de sua doação e estava vindo pegar a pulseira de volta. Quase que instintivamente ele começou a correr, fugindo de Shimon. As pessoas da cidade, quando viram Shimon perseguindo o pobre aos berros, também se uniam à perseguição. Quando finalmente o pobre foi alcançado, ele gritou:

- Me deixem! Por que vocês estão me perseguindo? Eu não sou ladrão! Este homem me deu a pulseira, ela é minha!

Shimon tratou de acalmar os ânimos. Pediu desculpas a todos pelo transtorno causado. Depois, com uma voz tranquila e amigável, virou-se para o pobre e disse:

- Meu querido, D'us me livre querer pegar a pulseira de volta. Eu dei de coração, ela é sua. Eu estou correndo atrás de você apenas porque descobri que a pulseira é valiosa, muito mais do que eu imaginei. Portanto, quando você for vender, não peça menos do que R$ 500,00".

Esta é a essência de Shavuót, a Festa da entrega da Torá. Porém, mais do que nos entregar a Torá, D'us também quer que saibamos o verdadeiro valor dela, para que não a desprezemos ou a troquemos por coisas baratas.

Nesta semana começamos um novo livro da Torá, Bamidbar (literalmente "No deserto"). Neste livro são detalhados muitos acontecimentos importantes que ocorreram durante os 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto, como o erro dos espiões, as constantes reclamações por água e comida e as guerras contra outros povos. A Parashá desta semana, Bamidbar, descreve a formação do povo judeu durante as viagens e a forma como acampavam, divididos em tribos, cada tribo com sua posição muito bem definida.

Quando refletimos sobre os 40 anos do povo judeu no deserto, algo nos chama a atenção. Foram anos de muitas dificuldades. O deserto é um local inóspito, difícil para o ser humano viver. É um local sem água, sem comida e com muitos perigos naturais. Além disso, D'us testou muitas vezes o povo judeu, fazendo-os acampar por longos períodos em locais não muito agradáveis, enquanto algumas vezes, quando chegavam a um oásis paradisíaco, ficavam apenas poucos momentos. Os judeus já haviam passado 210 anos como escravos, submetidos às maiores crueldades, com castigos físicos e psicológicos. Por que D'us não os tirou do Egito de uma maneira mais tranquila, sem tantas dificuldades?

A resposta está na próxima Festividade do calendário judaico, Shavuót, o dia da entrega da Torá no Monte Sinai. Na próxima 3ª feira de noite (30 de maio) começa a Festa de Shavuót e os homens do povo judeu têm o importante costume de passar a noite inteira acordados, estudando Torá. Mas a entrega da Torá não foi um evento simples, envolveu detalhes que nos ensinam lições preciosas. Por exemplo, quando Moshé fez uma "revisão" de toda a Torá, no livro de Devarim, ele trouxe um ensinamento interessante: "E disse (Moshé): "D'us veio do Sinai. Ele brilhou para eles desde Seir, tendo aparecido para eles desde o Monte Paran" (Devarim 33:2). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que este versículo se refere ao momento em que D'us, antes de entregar a Torá ao povo judeu, também a disponibilizou às outras nações do mundo. D'us ofereceu a Torá aos descendentes de Essav, que viviam na terra de Seir. Porém, quando eles descobriram que a Torá continha o mandamento de "Não assassinarás", eles a rejeitaram, argumentando que eles eram pessoas violentas por natureza e, portanto, não poderiam cumprir este mandamento. Algo similar aconteceu com os descendentes de Ishmael, que viviam no Monte Paran. Eles também rejeitaram a Torá ao escutar que ela continha o mandamento "Não furtarás", argumentando que o roubo era algo que já fazia parte de sua natureza.

Porém, este ensinamento precisa de esclarecimentos. Em primeiro lugar, estas duas Mitzvót que os outros povos rejeitaram, "Não matarás" e "Não furtarás", também fazem parte das "7 Mitzvót de Bnei Noach", que são as Mitzvót que todos os povos do mundo têm obrigação de cumprir. Portanto, se eles já estavam automaticamente obrigados a cumprir estas Mitzvót, por que as utilizaram como justificativa para não receber a Torá?

Além disso, as Mitzvót que aparecem nas "7 Mitzvót de Bnei Noach" são aparentemente muito mais rigorosas do que as Mitzvót da Torá. Por exemplo, de acordo com a Torá, se alguém furta, sua punição é pagar o dobro do valor furtado. Já as Mitzvót de Bnei Noach preveem uma punição capital para esta mesma transgressão, um castigo muito mais duro. Outra diferença importante é que, para uma pessoa ser condenada de acordo com a Torá, é necessário que o transgressor tenha sido previamente avisado de que seu ato é passível de castigo e que duas testemunhas tenham visto a transgressão. Isto não é exigido para aplicar uma punição de acordo com as Mitzvót de Bnei Noach. Portanto, por que os outros povos rejeitaram a Torá argumentando que eles não poderiam cumprir justamente as mesmas Mitzvót que eles já estavam obrigados a cumprir, e de uma maneira muito mais rigorosa?

A resposta está em um interessante ensinamento do Rambam (Espanha, 1135 - Egito, 1204), na introdução dos seus comentários sobre o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas). Ele faz o seguinte questionamento: Qual é o maior nível espiritual no nosso serviço Divino, quando naturalmente não temos o desejo de fazer uma transgressão ou quando temos um intenso desejo e, após uma intensa luta interna, finalmente conseguimos vencer nosso Yetser Hará (má inclinação) e cumprir a vontade de D'us? O Rambam chega à conclusão de que há na Torá duas categorias de Mitzvót negativas (transgressões que devemos evitar). Há transgressões que naturalmente sentimos a obrigação de evitá-las, pois entendemos que não evitá-las é algo intrinsecamente errado, como assassinar, roubar ou cometer adultério. A segunda categoria de Mitzvót são aquelas que não teríamos intelectualmente a consciência de que são proibidas e somente evitamos porque D'us nos proibiu, como cozinhar carne com leite e vestir roupas com Shaatnez (mistura de lã com linho).

Em relação às Mitzvót que não teríamos consciência de que são intrinsecamente erradas, o maior nível de cumprimento é, apesar de desejar transgredi-las, conseguir se conter porque D'us nos comandou, como diz o Midrash: 'Ensina o Rav Elazar ben Azaria: "A pessoa não deve dizer "Eu me abstenho de comer porco porque não gosto", e sim "Eu gosto de porco, é saboroso, mas eu não como apenas porque D'us me comandou a não comer"'. Já em relação às transgressões que naturalmente identificamos como sendo erradas, a Torá nos ordena a nem mesmo desejar fazê-las. A pessoa que evita fazer estes tipos de transgressão, mas no seu interior ainda deseja fazê-las, está cumprindo estas Mitzvót de maneira incompleta. O maior nível de cumprimento deste tipo de Mitzvá é a pessoa abominar estes atos errados em seu coração.

Explica o Rav Yohanan Zweig que a diferença entre as 613 Mitzvót da Torá e as 7 Mitzvót de Bnei Noach não é apenas quantitativa, mas também qualitativa. As 7 Mitzvót de Bnei Noach são essencialmente leis que garantem que a sociedade não se autodestruirá. Das pessoas que cumprem as Mitzvót de Bnei Noach é exigido apenas que elas façam ou deixem de fazer alguns tipos de atos, como não roubar ou não matar, mas não é exigido que elas transformem a Mitzvá em parte de suas próprias essências. Não há, nas Mitzvót de Bnei Noach, nenhuma obrigação em relação aos pensamentos e à sensibilidade. Já as Mitzvót da Torá são mais do que apenas garantias de uma sociedade harmônica e equilibrada. As Mitzvót da Torá exigem que nos transformemos em um reflexo do nosso Criador. Isto somente pode ser alcançado se incorporarmos as Mitzvót à nossa essência. Quando cumprimos o "Não furtarás", não estamos apenas deixando de cometer um crime, é exigido de um judeu que ele abomine o ato de furtar e que internalize isso em sua própria essência.

As Mitzvót que os outros povos do mundo rejeitaram na entrega da Torá se enquadram na categoria das que naturalmente sentimos que são erradas. Na realidade, todas as Mitzvót de Bnei Noach estão nesta categoria. Porém, enquanto os povos cumprem estas Mitzvót como sendo Mitzvót de Bnei Noach, eles não entram na proibição de desejar transgredi-las. O que D'us estava oferecendo para os outros povos era um nível completamente diferente de cumprimento das Mitzvót, que causaria neles uma mudança qualitativa como seres humanos. Há uma enorme diferença entre ser comandado a evitar transgredir algo e ser comandado a repudiar este ato em sua essência, isto é, até mesmo em pensamentos. Foi este novo nível, o cumprimento das Mitzvót de maneira que elas nos transformem, que os outros povos rejeitaram.

Quando D'us nos deu a Torá, Ele não nos deu apenas mandamentos. Ele nos deu a possibilidade de nos transformarmos em pessoas melhores, de quebrarmos os nossos traços de caráter negativos e transformá-los em características positivas. Isto não é algo fácil, exige trabalho e dedicação. A saída do povo judeu do Egito não foi através de um caminho fácil, pois D'us já estava nos preparando para uma vida de desafios e dificuldades, que é o que nos leva a um crescimento. O descanso e o comodismo podem ser agradáveis ao corpo, mas não nos leva a níveis mais elevados de espiritualidade.

Shavuót significa receber novamente a Torá em nossas vidas. Não somente o cumprimento dos mandamentos apenas como atos no nosso cotidiano, mas como ferramentas para nos transformar em pessoas mais justas, mais honestas, mais tranquilas e mais bondosas. Em Shavuót podemos reconhecer o maravilhoso presente que D'us nos deu, de valor inestimável. E esta nova energia conquistada em Shavuót pode, e deve, ser levada para o nosso ano inteiro.

Shabat Shalom e Chag Sameach

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
NÚMEROS l:l – 4:20, Os 2:1-22