sexta-feira, 31 de maio de 2013

OS FRUTOS DOS NOSSOS ATOS - PARASHÁ SHLACH 5773

 

"O Rav Yitzchak Elchanan Spector foi um dos maiores rabinos de sua geração. Ele era um grande estudioso de Torá e publicou muitos livros. Certa vez, um homem muito rico foi à sua casa e ofereceu doar uma grande soma de dinheiro para que o Rav Yitzchak Elchanan pudesse publicar seus livros. Porém, ao invés de responder, o rabino olhou bem nos olhos daquele homem e contou uma história:

- Quando eu tinha sete anos de idade, eu fiquei órfão e vivia em um terrível estado de pobreza, passando todos os tipos de necessidade. Eu não tinha nem mesmo sapatos, e sofria muito com o frio. Mas apesar das necessidades, eu tinha muita vergonha de pedir ajuda para as pessoas. Certa vez eu me enchi de coragem e fui à casa de uma pessoa muito rica, implorando por algum dinheiro. Eu não precisava muito, apenas um par de sapatos e um pouco de comida. Mas tudo o que eu recebi daquele homem rico foi uma porta na cara.

- Se eu tivesse comprado sapatos – continuou o Rav Yitzchak Elchanan – eu certamente teria estudado muito melhor e poderia ter escrito livros ainda mais profundos e interessantes do que os que eu escrevi.

- Portanto – finalizou o Rav Yitzchak Elchanan – você acha que eu tenho que dar o mérito de financiar a publicação dos meus livros justamente àquela pessoa que um dia me fechou a porta na cara, sem me dar nem mesmo um par de sapatos para usar nos dias mais frios de inverno? Certamente que não. Então me perdoe, mas não tenho absolutamente nenhum interesse no seu dinheiro"

Não levamos em consideração as consequências futuras dos nossos atos. Por isso, muitas vezes não percebemos que as consequências de atos impensados podem se propagar e causar muito mais danos do que imaginávamos.


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Na Parashá desta semana, Shlach, a Torá traz um dos mais graves incidentes que ocorreram com o povo judeu no deserto: o pecado dos espiões. Mesmo após D'us ter garantido que Israel era uma terra fértil e boa, de onde fluía leite e mel, e mesmo depois de todas as provas do poder infinito de D'us, quando Ele esmagou o poderoso império egípcio com 10 pragas, o povo judeu não confiou Nele. O povo exigiu que a terra de Israel fosse previamente verificada, e para isso foram enviados 12 espiões. Mas o que deveria ter sido apenas uma missão de reconhecimento se transformou em uma grande tragédia: 10 espiões voltaram falando mal de Israel e desestimularam o povo, argumentando que era uma terra de gigantes, impossível de ser conquistada. O povo chorou, perdendo o mérito de entrar na terra de Israel. D'us decretou que aquele dia, Tishá be Av (dia nove do mês de Av), seria um dia de choro para todas as gerações. Toda aquela geração morreu no deserto e somente uma nova geração entrou em Israel.

Se para o povo judeu as consequências foram tão negativas, para os 10 espiões que falaram mal da terra as consequências foram ainda mais trágicas. Além deles terem sofrido uma morte terrível, o Talmud (Sanhedrin 108 a) afirma que eles também perderam sua vida eterna no Olam Habá (Mundo Vindouro).

Desta afirmação do Talmud surge uma grande dúvida. Explica o Rambam (Maimônides) que D'us nos julga de acordo com os nossos atos. Se os méritos de uma pessoa são maiores do que suas transgressões, ela é considerada Tzadik (Justo), mas se suas transgressões são maiores do que seus méritos, então ela é considerada Rashá (malvado). Quando uma pessoa é rotulada por D'us como Tzadik ou Rashá, isto tem uma grande diferença em como será o Mundo Vindouro da pessoa. Se o Talmud conta que os espiões não tiveram Mundo Vindouro, isto significa que eles foram rotulados como Reshaim, isto é, que suas transgressões era maiores do que seus méritos.

Mas como isto é possível? Quando Moshé enviou os espiões para Israel, ele sabia da dificuldade da missão e, justamente por isso, enviou apenas pessoas completamente íntegras e justas. Os comentaristas da Torá explicam que os espiões eram pessoas espiritualmente muito elevadas, os maiores de sua geração. Portanto, certamente eles faziam centenas de Mitzvót todos os dias. Então como pode ser que uma única transgressão "arrancou" todos os bons atos que eles fizeram durante a vida, a ponto de perderem até mesmo o Mundo Vindouro? Se a maioria dos atos deles eram bons e retos, por que apenas um mau ato tirou deles o status de Tzadikim e colocou-os na categoria de Reshaim?

Explica o Rambam que o conceito de Tzadik ou Rashá não é medido através da quantidade de transgressões e méritos, e sim através do tamanho das transgressões e méritos. Isto quer dizer que uma pessoa ruim, que a vida inteira fez coisas erradas, pode meritar o Mundo Vindouro através de uma única Mitzvá, e uma pessoa que fez bons atos a vida inteira pode perder seu Mundo Vindouro por causa de uma única transgressão. Como isto funciona?

Os cálculos de D'us não são como os cálculos humanos, pois Ele, em Sua perfeição, pode levar em consideração muitos pontos que são impossíveis de serem considerados pelos seres humanos, por causa das nossas limitações. Detalhes de uma Mitzvá ou de uma transgressão podem fazer com que elas tenham um peso muito maior ou menor. Por exemplo, uma transgressão feita com vontade, sem nenhuma tentativa de evitá-la, certamente tem um peso muito maior do que uma transgressão feita depois de muita luta interna. E, ao contrário, uma Mitzvá feita com Cavaná (intenção) e com todo o cuidado tem um peso muito maior do que uma Mitzvá feita sem atenção.

Além disso, há outro ponto que faz com que uma transgressão os uma Mitzvá fique mais pesada: os frutos que ela cria. Todos os nossos atos tem consequências, mas às vezes as consequências não são apenas para nós mesmos, pois atingem também outras pessoas. Quanto mais pessoas são atingidas por uma transgressão ou por uma Mitzvá, maior é o peso dela. Por exemplo, uma pessoa espiritualmente elevada que faz "Hilul Hashem" (denigre o nome de D'us) através de atos que não condizem com seu nível espiritual elevado, ensinando para as pessoas a se comportarem de maneira equivocada, terá sua transgressão multiplicada de acordo com o número de pessoas que foram influenciadas e o nível de influência sobre cada uma delas. Detalhes como estes apenas D'us, que tem controle sobre todo o universo, pode saber.

Com este conceito é possível entender a gravidade do erro dos espiões. Quando eles falaram Lashon Hará da terra, causaram uma histeria coletiva no povo judeu e fizeram com que uma geração inteira, de pessoas muito elevadas espiritualmente, perdesse o mérito de entrar em Israel. Por isso o castigo deles foi também tão pesado, pois foi proporcional a todos os frutos que saíram da transgressão que eles cometeram. Foi causado um grande Hilul Hashem, pois pessoas que deveriam ter sido vistas como exemplo de Emuná (fé) causaram com que uma geração inteira chorasse de desespero. E este choro de Tishá be Av, fruto daquela transgressão, ainda persiste até os nossos dias. É por isto que, apesar de todas as Mitzvót que os espiões já tinham feito em suas vidas, com uma única transgressão eles colocaram tudo a perder.

Mas ensinam nossos sábios que a bondade de D'us é centenas de vezes maior do que Sua justiça. Se as consequências dos frutos que saem de um mau ato são tão negativas, muito maiores são as consequências positivas de um ato de "Kidush Hashem (santificar o nome de D'us), quando ensinamos para as pessoas, através dos nossos bons atos, como elas devem se comportar. Quanto mais pessoas são influenciadas pelos nossos bons atos, quanto mais bons frutos vêm ao mundo, maior o nosso mérito para toda a eternidade.

Por isso, devemos prestar atenção em cada pequeno ato que fazemos. Costumamos fazer atos de forma impensada justamente por não levarmos em consideração até onde as consequências podem chegar. Temos que lembrar que nada passa despercebido aos olhos de D'us, e Ele espera que, ao invés de desviar as pessoas, possamos utilizar cada ato para ensinar lições de boa conduta a todo o mundo, cumprindo nossa missão de ser uma "Luz para as nações" e multiplicando nossos méritos para o Mundo Vindouro.

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 13:1-15:41, Js 2:1-24, Hb. 3:7-19

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