quarta-feira, 7 de março de 2012

O PIB da ineficiência

O Estado de S. Paulo

Da Redação

Baixo crescimento, alta inflação e piora das contas externas marcaram a economia

brasileira em 2011

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7%, segundo o cálculo divulgado ontem pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A inflação chegou a 6,5% e bateu no teto da
meta. Foi impulsionada não só pela alta dos preços internacionais de petróleo, metais e produtos
agrícolas, mas também por uma forte demanda de consumo. Além disso, pioraram as transações
com o exterior. A receita de exportações de bens e serviços elevou-se 4,5%, enquanto a
despesa com importações subiu 9,7%. Mais uma vez o setor externo deu uma contribuição
negativa para o PIB, subtraindo 0,7% do crescimento. Essa tendência, observada há alguns
anos, deve acentuar-se neste ano, a julgar pela evolução do comércio exterior brasileiro no primeiro
bimestre e pelas projeções tanto oficiais quanto do setor privado.
Se dependesse apenas da demanda interna, a economia brasileira teria crescido 3,4%, de acordo com
os dados do IBGE. Mas a indústria foi incapaz de atender ao apetite dos consumidores, por causa dos
custos elevados e da valorização do real. Com o real valorizado, os produtos nacionais ficam mais
caros, quando seu preço é convertido em dólares ou euros. Além disso, o dólar barato estimulou as
viagens ao exterior, bem como as remessas de lucros e dividendos, e também esses fatores
pesaram nas contas.
Houve um claro descompasso na economia brasileira. O consumo das famílias cresceu 4,1%,
impulsionado pela expansão do emprego, pelo aumento de 4,8% da massa de salários reais e por
empréstimos pessoais 18,3% maiores que os do ano anterior. Enquanto isso, a produção industrial
avançou apenas 1,6% - deslocada pela competição estrangeira - e a de serviços, 2,7%. A
inflação teria certamente superado a marca de 6,5%, se a importação não tivesse coberto
uma parcela considerável da demanda dos consumidores.
O governo aponta como dado positivo a expansão de 4,7% no investimento em máquinas,
equipamentos, construções e obras públicas. O crescimento do PIB, segundo o discurso otimista,
foi puxado pela aplicação de recursos no fortalecimento da capacidade produtiva e, portanto, o Brasil
está no caminho certo. No entanto, o investimento, equivalente a 19,3% do PIB segundo as contas
do IBGE, continua longe do necessário para um crescimento econômico igual ou superior a 5% ao
ano sem pressões inflacionárias e sem grave desequilíbrio externo.
Esse nível mínimo de investimento, segundo cálculos correntes entre profissionais
independentes e economistas do governo, deve corresponder a uns 24% do PIB. Mas a diferença entre
o valor investido nos últimos anos e o mínimo desejável não é o único problema, quando se trata do
objetivo de ampliar e modernizar a capacidade produtiva. A poupança interna ficou em 17,2% do PIB,
no ano passado. A diferença entre o valor poupado e o investido foi coberta com recursos externos.
Em princípio, não há problema na captação de poupança estrangeira para investir. Mas a distância
entre a poupança atual e a necessária para um crescimento sem risco de grandes desajustes também
é muito ampla. Isso se deve principalmente à propensão do governo para a gastança. Essa propensão
limita a capacidade de poupança do setor público e, ao mesmo tempo, dificulta qualquer revisão
séria do sistema tributário. Impostos excessivos e mal concebidos encarecem a compra de
máquinas e equipamentos e acabam limitando também o investimento privado.
A baixa taxa de poupança, especialmente do setor público, dificulta a redução do juro real no Brasil e
também isso impõe restrições importantes às políticas de reforço produtivo das empresas. Essa
constatação foi confirmada há poucos dias por um estudo de economistas do Fundo Monetário
Internacional. Em suma: os dados da economia brasileira em 2011 apontam para algo
mais grave que problemas conjunturais. Refletem deficiências associadas a um padrão
de governo ineficiente e perdulário. O País pode voltar a crescer mais que em 2011, mas dentro
de limites estreitos, enquanto aquele padrão persistir.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O ponto final na discussão sobre o Código Florestal

Conceito de anistia e benefício a grandes desmatadores são refutados por especialistas
 
Redação
A Câmara dos Deputados deve votar nesta terça (06) ou quarta-feira (07) a versão final do novo Código Florestal. A proximidade da votação trouxe à tona velhas dúvidas sobre a nova legislação. Por isso, o Sou Agro recuperou diversas entrevistas, inclusive de ambientalistas, que mostram que o projeto de lei em votação não dará anistia para os grandes desmatadores ilegais.
As mudanças feitas pelos senadores deixaram claro que não há anistia – a palavra nem aparece no projeto de lei. Na realidade, as multas poderão ser suspensas, caso os proprietários rurais se comprometam a recompor as matas que não deveriam ter sido derrubadas. Se a recomposição não for cumprida, as multas voltam a valer.
Mesmo assim, algumas pessoas podem achar injusto que as multas já aplicadas sejam suspensas. O objetivo dos legisladores com a possibilidade da suspensão, no entanto, é trazer o maior número de agricultores para a legalidade e estimulá-los a recompor as florestas. Afinal, o que vale mais: a multa devida ou a floresta em pé?
“A reforma dó Código vai trazer mais segurança jurídica e encorajar os produtores a fazerem seu cadastramento ambiental rural (CAR)”, disse o pesquisador da RedeAgro Rodrigo Lima, advogado que acompanha as principais negociações ambientais internacionais. A adesão ao CAR será condição essencial para que o produtor tenha suas multas ambientais suspensas.
Para Feldmann, é mais eficaz estimular a preservação do que punir os infratores. “Legislações baseadas na criminalização são um equívoco recorrente”, critica. Para ele, mesmo o novo Código continuou muito centrado na política de comando e controle, e não nos instrumentos econômicos de estímulo.
Pequenos são mais beneficiados
Além disso, os números mostram que os grandes beneficiários da reforma do Código Florestal serão os pequenos agricultores, e não os grandes. As propriedades de até quatro módulos fiscais – medida variável considerada como teto da pequena propriedade – não terão que recompor integralmente as reservas legais e áreas de preservação permanente (APPs) de margem de rio que já tiverem sido desmatadas.
Em propriedades pequenas, respeitar a soma da reserva legal (no mínimo 20% da área total) mais as APPs pode significar a total inviabilidade da produção dentro da lei. Por isso, duas possibilidades do novo Código Florestal vão ajudar os pequenos produtores como Élcio Evangelista, de Cabo Verde (MG). A primeira delas é a de poder cumprir a obrigação de reserva legal dentro das APPs e a segunda é a de recompor apenas 15 metros de mata de cada lado dos cursos d’água.
“As exceções para os pequenos produtores são eficientes para estimulá-los a se regularizar junto aos órgãos ambientais, já que é impossível fiscalizar todas as propriedades do País”, ressaltou o coordenador da RedeAgro, André Nassar. “Muitas pessoas são contra as mudanças no Código porque não fazem ideia dos desafios de gerir uma propriedade, fazê-la produzir com sustentabilidade e preservando o meio ambiente”, disse, em outubro de 2011, o presidente da Federação dos Trabalhadores Agrícolas do Estado de São Paulo (Fetaesp), Braz Albertini.
Diversas outras entidades que representam os pequenos agricultores, em especial a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), também se posicionaram a favor da reforma do Código Florestal.
http://www.souagro.com.br/o-ponto-final-na-discussao-sobre-o-codigo-florestal

domingo, 4 de março de 2012

Relativismo Totalitário

Eguinaldo Hélio de Souza
Precisamos entender um pouco nossa civilização, que um dia foi chamada de cristã e que dia após dia torna-se mais anticristã.
Primeiro veio a liberdade de pensamento, de expressão, de religião. Cada um podia pensar o que quisesse, dizer o que bem entendesse, crer em qualquer coisa. E assim nosso mundo tornou-se um multiverso, com centenas de ideias e crenças diferentes e distintas. Nenhum problema. Até aqui, tudo bem.
De repente, alguém disse que o pensamento e as crenças do outro estavam errados e que suas palavras também estavam errados. Então surgiu alguns e começaram a dizer que nada estava errado porque tudo era relativo. Não havia preto ou branco, só cinza. Bem ou mal dependia do conceito de cada um. Também não havia nenhuma certeza em religião alguma. Todas estavam certas.
Parecia uma boa saída para que religiões e opiniões diferentes pudessem caminhar juntas sem se chocarem. Todo mundo estava certo, não havia verdades absolutas para serem defendidas. Sem perceber, essa filosofia, chamada relativismo, matou a verdade onde quer que ela se encontra-se. A verdade é absoluta por sua própria natureza. É como a esfericidade do globo ou a redondeza do círculo. Se tirarmos o absoluto da verdade não existe mais nada.
O cristianismo se sustenta sobre o fato da verdade absoluta. Suas afirmações são definitivas. Jesus é a Verdade com “V” maiúsculo e não uma entre tantas verdades que temos por aí. Só Nele há salvação e em nenhum outro (Atos 4.12). A Bíblia é a Palavra de Deus, onde a estrutura da realidade é devidamente representada e suas normas morais são indiscutíveis e definitivas. Os mandamentos de Deus são o fundamento absoluto do certo e o do errado.
Com o relativismo nossa sociedade pluralista foi se tornando cada dia menos cristã e agora vai se tornando cada dia mais anticristã. Os valores morais e espirituais do cristianismo, por serem absolutos, vão sendo sufocados por políticas estatais que não se ajustam a tal relativismo. Pelo menos em três áreas isso é visível

Relativismo moral

Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo! (Isaías 5.20)
O certo e o errado não possuem mais um padrão absoluto. Antes ele até poderia ser estabelecido pela maioria, mas agora as minorias também podem impor suas normas morais através de ações políticas. Basta lembrar do gayzismo, esse movimento que está tentando transformar uma prática sexual condenada universalmente no mundo e na história em uma casta privilegiada que não pode ser criticada de forma nenhuma. Uma ação que um dia foi crime hoje criminaliza quem a condena.
O mesmo podemos dizer da bruxaria. Outrora definia práticas demoníacas e condenáveis. Hoje seus praticantes a ensinam para crianças e adolescentes até com certo glamour.
O cristianismo vai sendo discriminado por condenar práticas imorais, demonstrando que existe o certo e o errado.

Relativismo cultural

“Quando entrarem na terra que o SENHOR, o seu Deus, lhes dá, não procurem imitar as coisas repugnantes que as nações de lá praticam. (...) O SENHOR tem repugnância por quem pratica essas coisas, e é por causa dessas abominações que o SENHOR, o seu Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês (Deuteronômio 18.9, 12)
As culturas foram sacralizadas, isto é, tudo nelas se tornou intocável. Quando o cristianismo começou a singrar os mares, o canibalismo, o infanticídio e a queima de viúvas sobre os túmulos dos maridos foi abolido. Entendia-se que aqueles elementos eram errados porque eram condenados pela revelação divina na Palavra de Deus.
Se fosse hoje os europeus seriam criticados e criminalizados por se escandalizar com os sacrifícios humanos dos astecas, por exemplo. Os antropólogos condenam qualquer atividade missionária, pois, isso alteraria a cultura indígena. O infanticídio comum entre certas tribos não pode ser proibido porque é “cultural”. Todo mal é cultural. E nem todos os aspectos de uma cultura são aprovados por Deus.
O cristianismo vai aos poucos sendo marginalizado por colocar Deus acima da cultura.

Relativismo religioso

Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus pelos israelitas é que eles sejam salvos. Posso testemunhar que eles têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento. (Romanos 10.1, 2)
Absolutamente, só H2O forma a água. Dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Nada diferente disso será água, pelo menos não como a conhecemos naturalmente. A realidade tem uma estrutura absoluta.
Mas no trato com as coisas espirituais o relativismo quer igualar tudo. Tanto faz se uma religião prega o amor ao próximo e o sacrifício em favor dos outros, como faz o cristianismo ou se fura um boneco para destruir a vida do inimigo, como no Vodu. Todas as religiões têm o mesmo valor.
Na Inglaterra um presidiário ganhou o direito de praticar o satanismo na cadeia. É a liberdade religiosa.
Qualquer crítica que o cristianismo faça à outras religiões começa a ser considerado ofensa grava. Em alguns lugares dos EUA já não se pode falar Feliz Natal para não ofender adeptos de outras religiões. Em certos países pregar o Evangelho é proselitismo e é considerado ilegal. E não estamos falando de países muçulmanos, mas daqueles que um dia foram chamados de cristãos.
O cristianismo está sendo condenado por se declarar único caminho capaz de ligar o homem a Deus. Seu exclusivismo choca-se com o relativismo secular.
Os absolutos do cristianismo estão se chocando com o relativismo secular. E o secularismo é a filosofia oficial dos Estados. Isso significa que cada vez mais o cristianismo será tolhido pelas políticas estatais. Leis anticristãs se tornarão cada vez mais influentes. Essa é a nossa situação.
Urge uma resposta nossa. E essa resposta depende de nossa visão de cristianismo e de mundo. Deus nos ajude a tomarmos as atitudes certas.

sábado, 3 de março de 2012

Porque a direita sumiu

Escrito por Olavo de Carvalho

Geisel (em pé) e Sylvio Frota: uma guinada à esquerda afastou o conservador. - Arquivo AE
Em artigo recente, João Mellão Neto define muito corretamente o espírito do conservadorismo, mas falha em explicar por que a direita se enfraqueceu no Brasil ao ponto de todos os candidatos, nas duas últimas eleições presidenciais, serem de esquerda. (ver http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,uma-nova-direita--por-que-nao-,839845,0.htm).
Isto aconteceu, diz ele, porque a direita apoiou a ditadura e a ditadura não respeitou os direitos humanos. Esse diagnóstico revela mais sobre a mente que o produziu do que sobre os fatos a que pretende aludir.
Mellão, com toda a evidência, aceitou a narrativa histórica dos adversários e argumenta contra eles numa perspectiva que, no fim das contas, continua sendo a deles.
Ninguém entenderá a história do período militar sem estar consciente de que em 1964 não houve um golpe, porém dois: o primeiro removeu do poder um governante odiado pela população, que foi às ruas aplaudir entusiasticamente a derrubada do trapalhão esquerdista. O segundo, meses depois, traiu a promessa de restauração democrática imediata e iniciou o longo e deprimente processo de demolição das lideranças políticas conservadoras, substituídas, no poder, por uma elite onipotente de generais e tecnocratas "apolíticos".
  A grande ironia das duas décadas de governo militar foi que este, movendo céus e terras para liquidar a esquerda armada, nada fez contra a desarmada, mas antes a cortejou e protegeu, permitindo que assumisse o controle de todas as instituições universitárias, culturais e de mídia, fazendo daqueles vinte anos "de chumbo" uma época de esfuziante prosperidade da indústria das ideias esquerdistas no Brasil.
  Vasculhem a história do período e verão que, se o governo perseguia e amaldiçoava a violência guerrilheira, ao mesmo tempo nada fazia para combater o comunismo no plano ideológico, muito menos para ensinar à nação o valor perene dos princípios conservadores, que pouco a pouco foram caindo no total esquecimento até tornar-se como que uma língua estrangeira, desaparecida do cenário público decente já antes de os líderes esquerdistas mais notórios voltarem do exílio.
  À imperdoável omissão dos governos militares no campo da guerra cultural e ideológica somou-se o desprezo da clique oficial pela classe política e as grandes lideranças conservadoras foram sendo apagadas, uma a uma, como velas sob um vendaval.
  Foi durante aquele regime que vozes poderosas do campo conservador, como as de Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, foram caladas, enquanto outras, como as de Pedro Aleixo e Paulo Egídio Martins, foram menosprezadas e esquecidas, e outras ainda, como a de Roberto de Abreu Sodré, acabaram se acomodando à mediocridade oficial até perderem toda relevância própria.
  Tanto foi assim que, quando o governo Geisel deu sua virada à esquerda, adotando uma política nuclear antiamericana, estimulando o mais obsceno "terceiromundismo" na diplomacia e até fornecendo armas, dinheiro e assistência técnica para Fidel Castro invadir Angola, não se ouviu um protesto sequer das lideranças civis.
A única resistência que apareceu, vinda do campo militar por meio do valente general Sylvio Frota, foi logo sufocada sob acusações de "golpismo" e aplausos gerais ao presidente triunfante que estrangulara a "linha dura".
  Nas universidades, a direita foi sistematicamente preterida na distribuição de verbas e cargos, que a generosidade insana do governo prodigalizava aos esquerdistas na ilusão de neutralizá-los ou seduzi-los (o processo, de indecência sem par, é descrito em http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/QTMFB.pdf) pelo estudioso venezuelano Ricardo Vélez Rodriguez, um dos mais abalizados conhecedores da vida universitária no Brasil).
  Até mesmo no jornalismo foi ainda durante o período militar que a esquerda assumiu de vez o controle das redações (v. meus artigos em
e http://www.olavodecarvalho.org/semana/111130dc.html), enquanto porta-vozes fulgurantes do pensamento conservador, como Gustavo Corção, Lenildo Tabosa Pessoa e Nicolas Boer, iam sendo jogados para escanteio sem que ninguém desse pela sua falta.
  A direita pensante e atuante foi, literalmente, esmagada pela ditadura, que ao mesmo tempo, na esperança idiota de dividir os adversários e ganhar o apoio de uma parte deles, abria as portas e os cofres das instituições de cultura para o ingresso da revolução gramsciana.
  Quando terminou a era dos governos militares, em 1988, só o povão mudo, desprovido de canais para fazer valer suas opiniões, era ainda conservador no Brasil, enquanto o espaço cultural inteiro – mídia, movimento editorial, universidades, escolas secundárias e primárias, etc. – já era ocupado, gostosamente, pela multidão de tagarelas da esquerda que ainda mandam e desmandam no panorama mental brasileiro.
  Aos sucessos retumbantes que obteve na economia e no combate às guerrilhas, a ditadura aliou, em triste compensação, uma cegueira ideológica indescritível, que expulsou a direita do cenário público e entregou o espaço àqueles que até hoje o dominam.
  Cabe, nesse contexto, lembrar mais uma vez o dito de Hugo Von Hofmannsthal, segundo o qual nada está na política de um país que primeiro não esteja na sua literatura (tomada em sentido amplo de alta cultura). A direita saiu da política nacional porque, com a complacência e até a ajuda do governo militar, foi primeiro banida da cultura nacional.
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

Fonte: www.dcomercio.com.br/index.php/opiniao/sub-menu-opiniao/83265-porque-a-direita-sumiu

sexta-feira, 2 de março de 2012

FUGINDO DA HONRA - PARASHÁ TETSAVÊ E PURIM 5772

"Gabriel, rabino de uma pequena cidade nos Estados Unidos, certa vez abandonou sua congregação na véspera do dia mais sagrado do ano, Yom Kipur, deixando todos desesperados. Inventando um motivo urgente para viajar, ele pegou um vôo para Miami para mergulhar, de maneira incógnita, no seu maior vício: o golfe.
Sob um boné, óculos escuros e um falso nome, o rabino passou o dia sagrado de Yom Kipur jogando golfe, uma partida atrás da outra. Apesar do vício, ele mal sabia dar tacadas. Mas naquele dia algo inacreditável aconteceu. Não apenas ele deu boas tacadas, mas várias vezes acertou o buraco na primeira tacada, feito conseguido apenas por jogadores profissionais. Um verdadeiro milagre! Uma multidão se juntou em volta daquele homem para vê-lo jogar. Em pouco tempo ele se tornou o assunto da cidade.
Lá em cima os anjos se agitaram. Um rabino, fugindo de suas responsabilidades, desrespeitando o Yom Kipur, e D'us lhe dá de presente várias tacadas perfeitas? Onde está a justiça? Finalmente D'us se explicou:
- Não estou dando um presente para ele, ao contrário, estou dando um castigo para o resto de sua vida. Apesar de ter conseguido tantas boas tacadas, para quem ele vai contar?"
Apesar de ser apenas uma piada, na vida real estamos sempre em busca de honra. Grande parte da alegria que sentimos por um feito é o reconhecimento que recebemos dos outros. Mas assim ensinam os nossos sábios: "Todo aquele que persegue a honra, a honra foge dele. Mas aquele que foge da honra, um dia a honra o alcançará".
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Na Parashá desta semana, Tetsavê, a Torá se aprofunda na descrição das roupas utilizadas pelo Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) durante os serviços realizados no Mishkan (Templo Móvel). A Parashá também descreve a escolha e a consagração de Aharon e seus filhos como os primeiros Cohanim (sacerdotes) do povo judeu.
Mas há algo muito intrigante nesta Parashá, um detalhe que a torna diferente de todas as outras Parashiót da Torá. Desde o nascimento de Moshé, evento descrito na Parashá Shemot, seu nome aparece diversas vezes em todas as Parashiót. Porém, na Parashá desta semana, o nome de Moshé não é mencionado nenhuma vez. Por que?
Para encontrar a resposta, precisamos voltar um pouco no tempo. Quarenta dias depois da entrega da Torá, o povo judeu errou as contas de quantos dias Moshé permaneceria no Monte Sinai. Imaginando que o grande líder Moshé havia morrido, os judeus se desesperaram e construíram um bezerro de ouro como novo intermediário entre eles e D'us. O erro foi considerado tão grave que D'us quis destruir o povo inteiro. Moshé implorou para que fossem perdoados e fez para D'us um pedido aparentemente estranho: "E agora, se Você puder ao menos perdoar o pecado deles! Mas se não, por favor me apague do Seu livro que Você escreveu" (Shemot 32:32). Em outras palavras, Moshé estava pedindo para que D'us perdoasse o povo judeu, mas se isto não fosse possível, que o apagasse da Sua Torá.
É muito louvável toda a preocupação de Moshé com os judeus e tudo o que ele fez para salvá-los. Porém, como entender este pedido de Moshé? O que apagá-lo da Torá mudaria no decreto de destruição do povo, consequência do grave pecado do bezerro de ouro?
Explicam os nossos sábios que cada um é julgado de acordo com seu nível espiritual. Quanto maior o nível de uma pessoa ou povo, maior é a rigorosidade do seu julgamento. Por que? Pois quanto maior o nível de uma pessoa, mais ela influencia o mundo inteiro e, portanto, seus erros atingem de forma mais intensa as pessoas. Comparando com uma empresa, se o faxineiro comete um erro, a empresa fica um pouco mais suja, mas não deixa de funcionar. Porém, se o presidente comete um erro, a empresa pode falir.
Portanto, este foi o pedido de Moshé. Ele sabia que estava em um nível espiritual muito alto, o que elevava o nível do povo como um todo, fazendo com que o julgamento deles fosse mais rigoroso. O amor de Moshé pelo povo judeu era tão grande que ele pediu a D'us, caso o povo não tivesse méritos para ser perdoado naquele nível alto, que Ele o apagasse da Torá, automaticamente abaixando o nível do povo, fazendo com que o julgamento fosse mais leniente e dando a eles a chance de serem perdoados.
Daqui aprendemos a força das nossas palavras. Mesmo que o pedido foi condicional e D'us perdoou o povo, as palavras de Moshé foram cumpridas e seu nome foi apagado, não de toda a Torá, mas de uma Parashá inteira.
Porém, desta explicação fica um grande questionamento. O fato do nome de Moshé ter sido retirado de uma Parashá inteira da Torá parece ter sido um castigo para ele. Mas é difícil entender por que Moisés deveria ter sido punido por exibir um nível tão alto de auto-sacrifício pelo povo judeu. E, além disso, por que D'us escolheu justamente a Parashá Tetsavê?
Moshé é o modelo da Torá de humildade, de auto-anulação. De todas as boas características de Moshé, a única que a Torá ressalta, diversas vezes, é a sua humildade. Apesar de ter sido o escolhido de D'us para salvar e liderar o povo judeu, mesmo sabendo do seu elevado nível espiritual, ao qual nenhum homem jamais chegou e jamais chegará, ele fugia de qualquer reconhecimento ou honra. Todos os seus atos eram com as intenções mais puras e elevadas. Para alcançar a paz, ele abaixava a cabeça diante das pessoas que zombavam dele e o menosprezavam, como ocorreu no episódio da rebelião de Korach. Se ele cometia alguma falha, aceitava humildemente seu erro, sem nenhuma vergonha. Quando não sabia algo, assumia diante de todos e procurava a resposta com D'us.
Uma das maiores demonstrações de humildade de Moshé foi quando D'us se revelou para ele, através do arbusto que queimava e não se consumia, e o escolheu como o salvador do povo judeu. A Torá descreve que por sete dias D'us insistiu, mas Moshé recusou o cargo, como está escrito: "Moshé respondeu para D'us: Quem sou eu para ir ao faraó e para tirar o meu povo, os Filhos de Israel, do Egito?" (Shemot 3:11). Por que? Pois achava que Aharon, seu irmão, era mais qualificado para ser o líder, considerava que ele tinha um nível espiritual ainda maior que o seu. D'us ficou furioso com Moshé após tantas recusas. Qual foi a consequência desta fúria de D'us? Explica Rashi, comentarista da Torá, que Moshé originalmente estava destinado a ser, além do líder do povo, o Cohen Gadol. Mas após insistir tanto para que Aharon fosse o escolhido, D'us então escolheu Aharon no lugar de Moshé para ser o Cohen Gadol.
A Parashá Tetsavê foi escolhida para que o nome de Moshé não aparecesse por ser justamente a Parashá do Cohen Gadol. O que ocorreria se o nome de Moshé estivesse escrito nesta Parashá? As pessoas pensariam: "era Moshé quem deveria ter sido o Cohen Gadol, não Aharon". Por isso Moshé, na sua humildade gigantesca, pediu para que seu nome não fosse nem mesmo mencionado nesta Parashá. Hashem escutou seu pedido e aceitou. Portanto, o nome de Moshé não ter aparecido não foi um castigo, foi um prêmio à sua humildade.
As pessoas que correm atrás da honra, se a alcançam, não desfrutam mais do que poucos instantes e depois são esquecidos para sempre. Com Moshé, que conseguiu combinar sua grandeza com a característica da humildade, aconteceu exatamente o contrário. Moshé, durante toda sua vida, tentou fugir da honra. Mas no final, ela o alcançou. Até hoje Moshé é lembrado, não apenas pelos judeus, mas como um exemplo para o mundo, uma referência, um modelo almejado por todos.
Qual a fórmula para alcançar a humildade verdadeira? Colocar no coração a certeza que tudo vem de D'us. Nossas aptidões, nossa inteligência, nossa força. Moshé sabia do seu valor, mas ao mesmo tempo sabia que tudo dependia de D'us, ele não podia nem mesmo levantar um dedo sem o consentimento do Criador.
É interessante perceber que a Parashá Tetsavê quase sempre antecede a festa de Purim, que começa na noite da próxima quarta-feira (em Jerusalém, na noite de quinta-feira). Umas das principais Mitzvót de Purim é a leitura da Meguilat Ester, que conta a história da milagrosa salvação do povo judeu nos dias de Mordechai e Ester, durante o exílio babilônico. A história conta que Haman, um homem que odiava o povo judeu, subiu ao poder e decretou a "solução final" dos judeus. Uma série de eventos, aparentemente desconectados, mudou os rumos da história e o povo judeu, além de ser salvo, destruiu todos os seus inimigos, começando pelo próprio Haman.
Uma aparente "coincidência" conecta a Meguilat Ester com a Parashá Tetsavê. Na Meguilat Ester também há algo que a torna diferente de todos os outros livros do Tanach (Torá, Profetas e Escrituras): o nome de D'us não é mencionado nenhuma vez. Por quê?
Quando coisas acontecem em nossas vidas, muitas vezes associamos ao acaso. Não conseguimos conectar os acontecimentos, não conseguimos enxergar que há um plano por trás de tudo. Porém, temos que saber que existe um "Maestro" no mundo, que orquestra todos os acontecimentos com maestria e perfeição. Este é o mais profundo ensinamento da Meguilat Ester: apesar do nome de D'us não ser mencionado nenhuma vez, ao refletirmos sobre toda a história de Purim, percebemos que Ele controla tudo. Todos os eventos estavam conectados, como notas isoladas que, quando tocadas juntas, formaram uma bela sinfonia. E assim também é nossa vida, uma série de notas que, tocadas juntas, formarão uma bela sinfonia. Quanto mais colocarmos no coração esta certeza, mais tranquilidade e mais humildade teremos em nossas vidas.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Ex. 27:20-30:10, Hb. 13:10-16

ELES CHEGARAM LÁ: DUPLA DE ESPECIALISTAS DEFENDE O DIREITO DE ASSASSINAR TAMBÉM OS RECÉM-NASCIDOS

Os neonazistas da “bioética” já não se contentam em defender o aborto; agora também querem a legalização do infanticídio! Eu juro! E ainda atacam os seus críticos, acusando-os de “fanáticos”. Vamos ver. Os acadêmicos Alberto Giublini e Francesca Minerva publicaram um artigo no, ATENÇÃO!, “Journal of Medical Ethics” intitulado “After-birth abortion: why should the baby live? - literalmente: “Aborto pós-nascimento: por que o bebê deveria viver?” No texto, a dupla sustenta algo que, em parte, vejam bem!, faz sentido: não há grande diferença entre o recém-nascido e o feto. Alguém poderia afirmar: “Mas é o que também sustentamos, nós, que somos contrários à legalização do aborto”. Calma! Minerva e Giublini acham que é lícito e moralmente correto matar tanto fetos como recém-nascidos. Acreditam que a decisão sobre se a criança deve ou não ser morta cabe aos pais e até, pasmem!, aos médicos.
Para esses dois grandes humanistas, NOTEM BEM!, AS MESMAS CIRCUNSTÂNCIAS QUE JUSTIFICAM O ABORTO JUSTIFICAM O INFANTICÍDIO, cujo nome eles recusam — daí o “aborto pós-nascimento”. Para eles, “nem os fetos nem os recém-nascidos podem ser considerados pessoas no sentido de que têm um direito moral à vida”. Não abrem exceção: o “aborto pós-nacimento” deveria ser permitido em qualquer caso, citando explicitamente as crianças com deficiência. Mas não têm preconceito: quando o “recém nascido tem potencial para uma vida saudável, mas põe em risco o bem-estar da família”, deve ser eliminado.
Num dos momentos mais abjetos do texto, a dupla lembra que uma pesquisa num grupo de países europeus indicou que só 64% dos casos de Síndrome de Down foram detectados nos exames pré-natais. Informam então que, naquele universo pesquisado, nasceram 1.700 bebês com Down, sem que os pais soubessem previamente. O sentido moral do que diz a dupla é claro: soubesse antes, poderia ter feito o aborto; com essa nova leitura, estão a sugerir que essas crianças poderiam ser mortas logo ao nascer. Não! Minerva e Giublini ainda não haviam chegado ao extremo. Vão chegar agora.
Francesca Minerva; o riso mais franco da morte



Francesca Minerva; o riso mais franco da morte
Por que não a adoção?Esses dois monstros morais se dão conta de que o homem comum, que não é, como eles, especialista em “bioética”, faz-se uma pergunta óbvia: por que não, então, entregar a criança à adoção? Vocês têm estômago forte?. Traduzo trechos da resposta:
“Um objeção possível ao nosso argumento é que o aborto pós-nascimento deveria ser praticado apenas em pessoas (sic) que não têm potencial para uma vida saudável. Conseqüentemente, as pessoas potencialmente saudáveis e felizes deveriam ser entregues à adoção se a família não puder sustentá-las. Por que havemos de matar um recém-nascido saudável quando entregá-lo à adoção não violaria o direito de ninguém e ainda faria a felicidade das pessoas envolvidas, os adotantes e o adotado?
(…)
Precisamos considerar os interesses da mãe, que pode sofrer angústia psicológica ao ter de dar seu filho para a adoção. Há graves notificações sobre as dificuldades das mães de elaborar suas perdas. Sim, é verdade: esse sentimento de dor e perda podem acompanhar a mulher tanto no caso do aborto, do aborto pós-nascimento e da adoção, mas isso NÃO SIGNIFICA que a última alternativa seja a menos traumática.”
A dupla cita trecho de um estudo sobre mães que entregam filhos para adoção: “A mãe que sofre pela morte da criança deve aceitar a irreversibilidade da perda, mas a mãe natural [que entrega filho para adoção] sonha que seu filho vai voltar. Isso torna difícil aceitar a realidade da perda porque não se sabe se ela é definitiva“.

Voltei

É isso mesmo! Para a dupla, do ponto de vista da mulher, matar um filho recém-nascido é “psicologicamente mais seguro” do que entregá-lo à adoção. Minerva e Giublini acabaram com a máxima de Salomão. No lugar do rei, esses dois potenciais assassinos de bebês teriam mesmo dividido aquela criança ao meio.
Querem saber? Essa dupla de celerados põe a nu alguns dos argumentos centrais dos abortistas. Em muitos aspectos, eles têm mesmo razão: qual é a grande diferença entre um feto e um recém-nascido? Ao levar seu argumento ao extremo, deixam a nu aqueles que nunca quiseram definir, afinal de contas, o que era e o que não era vida. Estes dois não estão nem aí: reconhecem, sim, como vida, tanto o feto como o recém-nascido. Apenas dizem que não são ainda pessoas no sentido que chamam “moral”.
Notem que eles também suprematizam, se me permitem a palavra, o direito de a mulher decidir, a exemplo do que fazem alguns dos nossos progressistas, e levam ao extremo a idéia do “potencial de felicidade”, o que os faz defender, sem meios-tons, o assassinato de crianças deficientes — citando explicitamente os casos de Down.
O Supremo e os anencéfalos
O Supremo Tribunal Federal vai liberar, daqui a algum tempo, os abortos de anencéfalos. Como já afirmei aqui, abre-se uma vereda para a terra dos mortos, citando o poeta. Se essa má-formação vai justificar a intervenção, por que não outras? A dupla que escreveu o artigo não tem dúvida: moralmente falando, diz, não há diferença entre o anencéfalo e o recém-nascido saudável. São apenas pessoas potenciais. Afinal, para essa turma, quem ainda não tem história não tem direito à existência.
Um outro delinqüente intelectual chamado Julian SavulescuA reação à publicação do artigo foi explosiva. Os dois autores chegaram a ser ameaçados de morte, o que é, evidentemente, um absurdo, ainda que tenham tentado dar alcance científico, moral e filosófico ao infanticídio. No mínimo a gente é obrigado a considerar que os dois têm mais condições de se defender do que as crianças que eles defendem que sejam mortas. A resposta que dão à hipótese de adoção diz bem com quem estamos lidando.
Savalescu: o prosélito da morte de bebês agora acusa a perseguição dos fanáticos
Savulescu: o prosélito da morte de bebês agora acusa a perseguição dos fanáticos
Julian Savulescu é o editor da publicação. Também é diretor do The Oxford Centre for Neuroethics. Este rematado imbecil escreve um texto irado defendendo a publicação daquela estupidez e acusa de fundamentalistas e fanáticos aqueles que atacam os dois “especialistas em ética”. E ainda tem o topete de apontar a “desordem” do nosso tempo, que estaria marcado pela intolerância. Não me diga!!!
O que mais resta defender? Aqueles dois potenciais assassinos de crianças deveriam dizer por que, então, não devemos começar a produzir bebês para fazer, por exemplo, transplante de órgãos. Se admitem que são pessoas, mas ainda não moralmente relevantes, por que entregar aos bichos ou à incineração córneas, fígados, corações?
Tudo isso é profundamente asqueroso, mas não duvidem de que Minerva, Giublini e Savulescu fizeram um retrato pertinente de uma boa parcela dos abortistas. Se a vida humana é “só uma coisa” e se os homens são “humanos” apenas quando têm história e consciência, por que não matar os recém-nascidos e os incapazes?
Estes são os neonazistas das luzes. Mas não se esqueçam, hein? Reacionários somos nós, os que consideramos que a vida humana é inviolável em qualquer tempo.
Texto publicado originalmente às 21h03 desta quinta
Por Reinaldo Azevedo
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

quinta-feira, 1 de março de 2012

Heraldo, a cor e a alma

Demétrio Magnoli
O Estado de S.Paulo

A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como "negro de alma branca" e escreveu que o jornalista "não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde".
Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades - na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação. Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder. Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog infame.
Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a natureza de sua injúria racial tem. "Negro de alma branca", uma expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do "traidor da raça". No passado serviu para traçar um círculo de desonra em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o cenário que a infâmia almeja conservar oculto.
O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948, instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente não o classificariam como "branco de alma negra", pois uma "alma negra" não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan não traiu a sua "raça". Sob a lógica pervertida do pensamento racial, eles o designariam como "branco de alma branca", embutindo numa única expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca. Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria "raça", ele figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois (1868-1963), "pai fundador" do movimento negro americano, congratulou Adolf Hitler, um "branco de alma branca", pela promoção do "orgulho racial" dos arianos.
Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é qualificado como "um negro da Casa Grande da Rede Globo", que "não dignifica a sua ancestralidade e origem" pois "nunca fez um comentário quando a emissora se posiciona contra as cotas". No fim, os dois linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a (atual) opinião de Amorim.
O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente os indivíduos "desviantes". O economista Thomas Sowell produziu uma obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em 1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista, assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda, um marxista - mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei. Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de "negros de alma branca" pela Santa Inquisição dos novos arautos da raça.
A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas de preferências raciais - e também o de não opinar sobre o tema. Como, entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito menor de direitos - efetivamente, entre as três opções, só está autorizado a abraçar uma delas.
Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da "raça branca" são indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da "raça negra" dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar, obedientemente, diante de seus "líderes raciais", os guardiões da "ancestralidade e origem". Hoje, como nos tempos da segregação oficial americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica principalmente os negros.