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sábado, 24 de setembro de 2016

AMOR PELO MATERIAL OU PELO ESPIRITUAL - PARASHÁ KI TAVÔ 5776

Certa vez o Rav Yitzchak Meir Rotenberg zt"l (Polônia, 1799 - 1866), mais conhecido como Chidushei Harim, estava viajando em uma carruagem puxada por dois cavalos. Depois de alguns quilômetros de viagem, um dos cavalos repentinamente caiu morto no chão. O condutor da carruagem, um homem muito simples, sentiu uma terrível tristeza pela perda de seu precioso cavalo. Sem alternativa, a viagem foi retomada com apenas um cavalo. Não haviam viajado muito quando o segundo cavalo também caiu morto no chão. O dono dos cavalos ficou arrasado. Aqueles cavalos significavam muito para ele, eram seu sustento, eram sua vida. Completamente desolado, o homem sentou-se no chão, abaixou a cabeça e começou a chorar. Chorou sem parar por um longo tempo, um choro amargo e triste. Chorou tanto que acabou morrendo ali mesmo.

O Chidushei Harim ficou muito assustado com aquela cena. Porém, o mais impressionante aconteceu naquela noite. Ele teve um sonho muito real, no qual viu o condutor da carruagem que havia morrido. Aquele homem, uma pessoa boa e pura, havia recebido o Olam Habá (Mundo Vindouro). Mas o que mais chamou a atenção do Chidushei Harim é que o Olam Habá daquele homem era uma linda carruagem puxada por dois magníficos cavalos.

O Chidushei Harim acordou assustado, pois entendeu o significado daquele sonho. Nosso Olam Habá é criado pelo que damos valor no Olam Hazé (mundo material). Para aquele homem, o que ele mais dava valor na vida eram seus cavalos e sua carruagem. Portanto, foi isso o que ele recebeu para toda a eternidade. 
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Nesta semana lemos a Parashá Ki Tavô (literalmente "Quando vierem"). A Parashá começa descrevendo a cerimônia de "Bikurim", na qual os primeiros frutos das sete espécies da Terra de Israel eram levados ao Beit Hamikdash (Templo Sagrado) e oferecidos ao Cohen. Além disso, a pessoa que oferecia os Bikurim lia uma enorme declaração de agradecimento a D'us por todas as bondades que havia recebido, desde a época dos nossos patriarcas, passando pela saída do Egito e terminando na conquista da Terra de Israel, uma terra boa e fértil. Mas grande parte da Parashá é dedicada a uma dura advertência, na qual Moshé ressalta os devastadores castigos que poderiam recair sobre o povo judeu caso se desviassem e não seguissem os caminhos da Torá. Qual é a conexão entre a oferenda dos Bikurim e as advertências?

Além disso, sabemos que estas advertências da Torá não foram apenas ameaças vazias. Infelizmente muitas destas tristes profecias se cumpriram na época da destruição dos nossos dois Templos e em outras épocas da nossa história. Porém, no meio das advertências trazidas pela Parashá, a Torá faz uma interrupção com o seguinte versículo: "Pelo fato de você não ter servido a Hashem, teu D'us, com alegria e bom coração, quando havia abundância em tudo" (Devarim 28:47). O que significam estas palavras?

O entendimento mais simples deste versículo é que tragédias recaem sobre o povo judeu quando não cumprimos as Mitzvót com alegria, apesar de termos sido abençoados com abundância em tudo (em hebraico "Rov Kol"). D'us não cobra um Serviço Divino exemplar nos momentos de dificuldades e aperto, pois Ele sabe o quanto é difícil nos concentrarmos nas nossas Mitzvót quando nosso coração está angustiado com as dificuldades e preocupado com problemas como a falta de dinheiro para pagar as contas no final do mês. Mas que desculpa temos quando está tudo bem, quando temos tranquilidade e abundância? Por isso, nestes momentos de Brachá (benção), a cobrança é muito mais severa e a falha em servir D'us com alegria e agradecimento é considerado algo muito mais grave e sem justificativas. A Parashá junta o assunto dos Bikurim com as advertências para nos ensinar a reconhecer o que temos de bom, as Brachót que temos na vida, e utilizar este sentimento para melhorar nosso Serviço Divino cotidiano. Caso não nos esforcemos para reconhecer o que temos de bom, faremos nosso Serviço Divino sem alegria, apesar de todas as Brachót que recebemos, e isto será considerado por D'us como algo muito grave.

Além desta explicação mais simples, o Rav Ytzchak Luria zt"l (
Israel, 1534 - 1572), mais conhecido com Arizal, um dos maiores Cabalistas da história do povo judeu, traz uma explicação mais profunda deste versículo. De acordo com o Arizal, o que a Torá está nos ensinando é que, mesmo se a pessoa cumpre as Mitzvót com certo grau de alegria, mas a principal alegria da sua vida não se deriva do seu Serviço Divino, e sim de uma alegria de "Rov Kol", que se refere às outras fontes de alegria, então a pessoa está desconectada da espiritualidade. E quando alguém se desconecta da espiritualidade, a conseqüência é que tragédias recaem sobre ela. Portanto, de acordo com esta explicação, a Torá está nos ensinando que não é suficiente apenas sentir alegria no nosso Serviço Divino, mas que a alegria que sentimos com este preenchimento espiritual deve ser muito maior do que qualquer outro prazer que se deriva dos nossos esforços no mundo material. Sentir esta alegria verdadeira é uma parte muito importante do nosso Serviço Divino.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que esta mensagem é especialmente importante para Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, que se aproxima. O principal trabalho que devemos fazer em Rosh Hashaná é reconhecer D'us como sendo o nosso Rei. Porém, na prática, como fazemos isso? Um aspecto significativo de reconhecer D'us como o nosso Rei é saber que Ele é a única Fonte de todo o prazer que verdadeiramente nos preenche e que qualquer outra fonte de prazer é vã e sem sentido. É por isso que Rosh Hashaná vem antes de Yom Kipur, pois este é um pré-requisito na nossa limpeza espiritual de Yom Kipur. Quando os desejos de uma pessoa não são direcionados para o nosso Serviço Divino, então eles são automaticamente desviados para os prazeres do mundo material, tornando-se praticamente impossível não cometer transgressões. Há muitos momentos na vida em que os desejos de uma pessoa se chocam com suas aspirações de cumprir a Vontade de D'us, causando um prejuízo ao cuidado que a pessoa tem com as Mitzvót. Portanto, qualquer arrependimento em Yom Kipur é incompleto se não mudarmos a perspectiva de como enxergamos a vida. Enquanto "dividirmos" o prazer de nos conectarmos espiritualmente a D'us com os prazeres do mundo material, nossa limpeza de Yom Kipur ainda deixará manchas que não foram apagadas.

Este conceito fica claro com a história que aconteceu com o Chidushei HaRim, através da qual aprendemos que uma pessoa que está presa aos seus desejos materiais, mesmo que consiga evitar as transgressões, ainda assim se deparará com consequências desagradáveis, pois a pessoa que se conecta de uma maneira muito forte com o mundo material termina perdendo sua conexão espiritual. Porém, ao refletirmos sobre esta história surge um grande questionamento. Por que o Chidushei Harim se assustou com o que viu em seu sonho? Se a carruagem e os cavalos eram coisas que aquele homem apreciava tanto, qual é o problema desta ser a sua recompensa no Olam Habá? Ele não ficou feliz com o que recebeu?
   
O Rav Yssocher Frand responde esta pergunta com uma história pessoal. Quando ele era pequeno, seu sonho era ganhar um estilingue para brincar com os meninos da rua. Porém, apesar de ter pedido aos pais diversas vezes, eles nunca concordaram em lhe dar um estilingue. Imaginem se, no dia do casamento do Rav Frand, instantes antes dele entrar na Chupá, seus pais se aproximassem com um enorme sorriso, estendessem uma linda caixa e dissessem: "Querido filho, este é um dia muito especial. Por isso queremos neste momento te presentear com um lindo estilingue, o presente que você sempre quis". Obviamente isto não faria nenhum sentido, pois aquele estilingue valia muito quando ele era apenas uma criança, mas agora ele já estava crescido demais para isso.

O mesmo ocorre quando estamos no mundo material. Dedicamos a vida para adquirir prazeres materiais, como dinheiro, posses e honra, acreditando que estas coisas nos trarão preenchimento. Mas quando chegarmos ao Olam Habá, veremos que isto se compara a um estilingue nas mãos de um noivo prestes a entrar na Chupá, isto é, veremos que todos estes prazeres materiais na realidade não têm valor verdadeiro nenhum. Assim nos ensina o Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), no primeiro capítulo do seu clássico livro "Messilat Yesharim" (Caminho dos Justos): "Qualquer coisa fora da proximidade de D'us que as pessoas acreditam que é algo bom, na verdade não é nada, é apenas vazio". No Olam Habá tudo vai estar claro, as ilusões cairão e então perceberemos o quanto eram sem sentido as coisas pelas quais dedicamos nossas vidas para adquirir neste mundo material.

Então o ideal é fazer voto de abstinência e viver em uma caverna? Não é tão simples assim. Em diversas fontes da Torá existem aparentes contradições sobre este assunto. Por exemplo, a Torá nos ensina "Sejam pessoas sagradas" (Vayikrá 19:2). O Talmud (Yebamot 20a) explica este versículo como sendo a obrigação da pessoa se santificar abstendo-se inclusive do que é permitido. Por outro lado, o Talmud (Nedarim 10a) afirma que o Nazir, pessoa que fez um voto de se abster por algum tempo do prazer de beber vinho, é chamado de "transgressor" por ter renunciado a um dos prazeres do mundo que D'us criou. Já o Talmud Yerushalmi (Kidushin 4:12) vai mais longe ao afirmar que a pessoa terá que prestar contas por todo o prazer que poderia ter obtido comendo algo (que é permitido), mas absteve-se deste prazer. Portanto, o que é o mais importante, conquistar o nosso lado animal, transcender o mundano e revelar a supremacia do espiritual sobre o material, ou devemos encontrar a bondade de D'us nos prazeres do mundo material que Ele nos deu?

A resposta está na diferença entre dois níveis espirituais, a "Prishut" (se abster do mundo material) e a "Kedushá" (santificar o mundo material). Prishut significa a pessoa se abster de qualquer prazer material, vivendo apenas com o que é extremamente necessário para manter sua saúde. Kedushá significa utilizar os prazeres do mundo material, mas de uma maneira completamente controlada, visando sempre o crescimento espiritual. Neste nível, os prazeres materiais não precisam ser anulados, eles podem ser canalizados para nos dar força e energia no nosso trabalho espiritual. De acordo com o livro Messilat Yesharim, apesar dos dois níveis serem elevados, a Prishut é apenas uma preparação para alcançar a Kedushá, um nível no qual estamos muito mais próximos de D'us. A Prishut nos ensina a ter autocontrole, a saber dominar nossos desejos, mas o ideal é viver com Kedushá, canalizando os nossos prazeres da maneira correta, usando os prazeres materiais que D'us nos deu para potencializar nosso lado espiritual.

As "broncas" da Parashá são um forte lembrete de que não é suficiente apenas cumprir as Mitzvót, mas também devemos olhar o mundo espiritual como a força principal que impulsiona nossas vidas. Honra, poder, dinheiro e comida, desconectadas de um contexto espiritual, são fontes ilusórias de prazer. Fazer de D'us o nosso Rei significa internalizar que Ele é a única e verdadeira Fonte de alegria e prazer.
QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A ALEGRIA DO RECONHECIMENTO - PARASHAT KI TAVÔ 5775

"O rabino de uma comunidade judaica Sefaradi dos Estados Unidos certa vez desmaiou no meio de uma aula. Ele foi imediatamente levado ao hospital pelo Dr. Goldman (nome fictício), um dos frequentadores da sinagoga. Lamentavelmente a situação do rabino era muito crítica, pois ele não voltava a si e seus sinais vitais começaram a enfraquecer. Depois de uma série de exames, o Dr. Goldman constatou com tristeza que eram poucas as chances de recuperação do rabino. Já esperando pelo pior, ele pediu a alguns alunos do rabino que rapidamente juntassem um "Minian" (grupo de dez homens judeus) para que pudessem fazer o "Vidui" (confissão) antes do falecimento. Infelizmente poucos alunos puderam ser contatados naquele momento e havia apenas nove judeus presentes. Seria uma pena, por tão pouco, não fazer o Vidui com Minian.

Mas o Dr. Goldman não desistiu. Ele revisou a lista de todos os pacientes internados no hospital e descobriu que havia um paciente judeu no último andar. O problema é que aquele doente estava de cama, conectado a tubos e máquinas, muito fraco. Mesmo assim, o Dr. Goldman pediu aos médicos uma permissão especial para mover aquele paciente com sua cama e seus aparelhos e levá-lo até o quarto do rabino, para assim completar o Minian. Mas quando os médicos vieram perguntar ao doente se ele aceitava ir completar o Minian, ele começou a chorar. Quando se acalmou, explicou que justamente aquele dia era o "Yortzait" (data do falecimento) de seu pai, e que ele estava extremamente triste por estar internado no hospital e não poder dizer o "Kadish" (reza em elevação da alma dos falecidos). Ele percebeu que um enorme milagre havia acontecido, pois a Supervisão Divina havia reunido um Minian em pleno hospital sem que ele precisasse fazer nenhum esforço. O paciente pediu permissão para dizer o Kadish por seu pai antes de fazerem o Vidui do rabino. Todos os presentes concordaram e, com muito respeito, escutaram o Kadish que o paciente pronunciou lentamente, enquanto lágrimas corriam dos seus olhos.

Ao terminarem de responder o Kadish mais emocionante de suas vidas, todos se surpreenderam com o que aconteceu. Os batimentos cardíacos do rabino imediatamente começaram a voltar ao normal e, pouco a pouco, ele foi recuperando as forças e a consciência. Parecia que o Vidui não seria mais necessário.

Depois de uma semana, milagrosamente o rabino voltou para casa totalmente curado. Além disso, aquele paciente judeu que havia falado o Kadish por seu pai, que estava há muito tempo à espera da doação de um fígado, conseguiu naquela mesma semana um doador compatível. O transplante foi feito, salvando a vida dele."

Existem alguns momentos nos quais a "Mão de D'us" parece mais evidente. Porém, a verdade é que D'us está presente em cada pequeno detalhe das nossas vidas, e somos nós que não percebemos. Se reconhecêssemos mais as bondades de D'us em nossas vidas, certamente seríamos muito mais felizes. 
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A Parashat desta semana, Ki Tavô, começa descrevendo uma incrível cerimônia, na qual os judeus levavam ao Beit Hamikdash (Templo Sagrado) seus "Bikurim" (primícias, as primeiras frutas colhidas de algumas espécies específicas). Estas frutas, que tinham um enorme valor sentimental para os seus donos, eram colocadas em belas cestas e presenteadas ao Cohen (sacerdote). O dono das frutas também recitava diante do Cohen uma enorme declaração de agradecimento a D'us por todas as bondades recebidas, que começava desde a época dos patriarcas e passava por eventos marcantes do povo judeu, como a saída do Egito e a conquista da Terra de Israel. A declaração terminava com o agradecimento por D'us ter dado a possibilidade de colherem os frutos da terra. E logo depois do assunto dos "Bikurim", a Torá dá uma grande advertência ao povo judeu e descreve as terríveis maldições que poderiam recair sobre eles durante a história. Qual é a relação entre os dois assuntos?

Poderíamos imaginar que estas maldições seriam consequência de terríveis transgressões cometidas pelo povo judeu. Porém, surpreendentemente, a Torá nos traz o motivo explícito delas acontecerem: "Pelo fato de vocês não terem servido a Hashem, teu D'us, com alegria e bondade no coração, quando vocês tinham tudo em abundância" (Devarim 28:47). É interessante perceber que D'us não está nos cobrando atitudes positivas em momentos de testes, dificuldades e sofrimentos. A cobrança é por não fazermos nosso serviço espiritual com alegria mesmo em épocas de abundância, na qual não temos outras preocupações nos desviando do nosso crescimento espiritual. Nos momentos nos quais a tranquilidade permite que o nosso foco esteja na nossa conexão espiritual, fazer o serviço Divino sem alegria é considerado algo grave, quase um desprezo.

Será que estas terríveis maldições previstas na Torá já se cumpriram em algum momento da história? De acordo com o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), estas palavras, que incluem muitas tragédias pessoais e coletivas do povo judeu, se cumpriram durante o período do Segundo Beit Hamikdash, incluindo sua destruição e o subsequente exílio do povo judeu. Porém, esta explicação desperta um grande questionamento. De acordo com as palavras do Ramban, o motivo da destruição do Segundo Beit HaMikdash foi o fato de não termos servido a D'us com alegria mesmo quando tínhamos tudo em abundância. Porém, o Talmud (Yoma 9b) traz uma opinião completamente diferente ao afirmar que o motivo da destruição do Segundo Beit Hamikdash foi o "Sinat Chinam" (ódio gratuito) que havia dentro do povo judeu. Afinal, qual dos dois motivos é o correto?

A chave para entendermos que não existe nenhuma contradição entre estes dois motivos é observarmos o que ocorre em nossa sociedade. Este conceito trazido pela Torá, das pessoas estarem infelizes apesar de terem tudo, reflete um pouco da realidade em que vivemos atualmente, onde uma grande porcentagem de pessoas, apesar de ter sucesso no trabalho e uma alta posição social, se afunda em depressão e desilusão. Por que tantas pessoas, que aparentemente têm tudo que a vida pode oferecer, ainda demonstram uma total falta de alegria na vida? O que falta para elas serem felizes de verdade?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a pessoa somente é verdadeiramente feliz se ela consegue enxergar e apreciar o que D'us manda para ela na vida. Enxergar as bondades de D'us é saber que tudo é um presente, que não merecemos nada do que recebemos, tudo é parte da Misericórdia Divina. Quem vive desta maneira aprende a dar valor para cada coisa que recebe e a apreciar cada pequeno detalhe da vida. Mas, por outro lado, se a pessoa é egocêntrica e sente que merece tudo o que tem, então ela nunca vai estar contente com o que já conquistou. Ao contrário, vai estar sempre focando nas coisas que ainda não são dela, mas que ela já se acha no direito de ter.

Quando uma pessoa vive sua vida com este tipo de atitude egocêntrica, com a sensação de que todos devem algo a ela, então estará constantemente infeliz. Além disso, pelo fato dela se sentir no direito de ter tudo o que tem vontade, caso outra pessoa tenha algo que ela deseja, acabará sendo vista como uma ameaça. A pessoa egocêntrica começará a sentir aversão pela outra pessoa, mesmo que não exista nenhum motivo real para isso, apenas por causa da percepção de que a outra pessoa a está impedindo de ter algo que, por direito, deveria pertencer a ela. Em outras palavras, este tipo de atitude leva a pessoa a odiar o próximo absolutamente sem nenhum motivo verdadeiro. E é justamente este sentimento de aversão sem justificativas reais que os nossos sábios chamaram de "Sinat Chinam".

Isto significa que, se rastrearmos o que está por trás do Sinat Chinam, encontraremos lá no início a falta de apreciação correta pelo que D'us fez e continua fazendo por nós. Portanto, o Sinat Chinam não é uma razão diferente da trazida pela Parashat Ki Tavô para a destruição do Beit HaMikdash. Na verdade, o Sinat Chinam é apenas uma manifestação de quando a pessoa está infeliz ao fazer o seu serviço Divino. E esta infelicidade ocorrerá apesar de toda a abundância que a pessoa tem na vida.

É por isso que a Torá junta o assunto dos Bikurim com o assunto da advertência. Quando a pessoa levava seus Bikurim para o Beit HaMikdash e fazia a declaração diante do Cohen, ela aprendia a dar valor ao que tinha recebido. Quando uma pessoa planta e colhe, normalmente pensa que o sucesso depende apenas da sua força e da sua inteligência. Mas a verdade é que tudo depende de D'us. A força não é nossa, pois a cada instante é D'us quem está nos mandando energia para os movimentos dos nossos membros e órgãos, como se estivéssemos conectados a um fio de energia. A inteligência para tomarmos as decisões corretas também não é nossa, é um presente de D'us, o Dono de toda a sabedoria. A Terra de Israel depende das chuvas, isto é, depende de D'us, e todo esforço e inteligência não são suficientes se não houver chuvas no momento certo. Até mesmo a existência de uma terra para plantarmos foi um presente de D'us, que nos tirou da escravidão do Egito e nos trouxe, com milagres e sinais, para a Terra de Israel. Sem a ajuda Divina, os Bikurim não poderiam ser oferecidos.

Os Bikurim são um ensinamento de que esta é a fonte de toda a alegria verdadeira: o reconhecimento de que tudo o que temos é um grande presente de D'us, e que não recebemos por causa dos nossos méritos, e sim pela bondade Dele. Vivendo com esta nova ótica, podemos apreciar mais o que temos, e nos alegrar também com as alegrias dos outros, acabando com o "ódio gratuito" e trazendo ao mundo mais harmonia e companheirismo. 

"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA)

SHABAT SHALOM                                           
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A ESPIRITUALIDADE DOS OUTROS - PARASHÁ Ki TAVÔ 5774

"Certa vez, um rabino que dedicava sua vida a tentar aproximar da Torá os judeus que estavam mais afastados foi duramente questionado por outro judeu observante:

- Você não acha que é uma grande tolice se expor tanto às influências externas? Ao invés de gastar seu tempo e sua energia para ensinar Torá aos judeus afastados, será que você não deveria dedicar-se completamente ao seu próprio crescimento espiritual e ao fortalecimento dos seus filhos?

- Imagine uma casa pegando fogo – continuou o homem, visivelmente exaltado – Somente parte da mobília pode ser salva. Alguns móveis estão um pouco queimados, enquanto outros estão em perfeito estado. Me diga, você salvaria os móveis queimados? Certamente que não! Você trataria de salvar apenas os móveis em perfeito estado, e deixaria os móveis queimados para trás. Então por que você não faz isso? Será que não é mais importante salvar você e seus filhos, ao invés de dedicar-se aos judeus afastados?

- Caro amigo – respondeu com carinho o rabino – entendo sua preocupação e achei excelente o exemplo que você utilizou. Certamente estamos em uma geração na qual os judeus se encontram cercados pelo fogo da assimilação, e nosso judaísmo corre um sério risco de se extinguir. Porém, o que você falou se aplicaria somente em relação aos móveis que estão em uma casa pegando fogo. Mas o que você faria em relação às pessoas que estão presas dentro da casa? Com um pouco de esforço podemos ajudar aqueles que estão saudáveis, pois eles podem correr e salvar suas próprias vidas. Mas um grande esforço é necessário para salvar a vida daqueles que estão feridos, pois eles não conseguem sair sozinhos. Você os deixaria para trás?"

Obviamente temos uma enorme responsabilidade de nos fortalecer e educar nossos filhos dentro dos valores judaicos, e para isso precisamos dedicar muito tempo e energia. Mas isto não nos isenta de nos preocuparmos com os outros judeus, principalmente aqueles que estão mais afastados da Torá.

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Na Parashá desta semana, Ki Tavô, Moshé comandou o povo judeu a se reunir em duas montanhas, Guerizin e Eval, para uma nova aceitação da Torá logo que entrassem na Terra de Israel. Doze mandamentos da Torá deveriam ser enumerados, e as pessoas deveriam reconhecer publicamente que aqueles que cumprissem os mandamentos receberiam Brachót (bênçãos), enquanto maldições atingiriam aqueles que os desprezassem. Mas observando com atenção estes mandamentos, algo nos chama a atenção. Cada um deles discute algum ato específico, com exceção do último mandamento, que parece ser mais genérico: " 'Maldito aquele que não mantém as palavras desta Torá, para cumpri-las'. E todo o povo deverá dizer 'Amém' " (Devarim 27:26). O que significam estas palavras tão vagas?

Explica o Ramban (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) que esta maldição se aplica àquele que estuda, ensina, guarda e cumpre os mandamentos da Torá, mas que apesar de ter a possibilidade de aproximar judeus afastados e fortalecer a Torá deles, não faz nada a respeito. Isto quer dizer que esta maldição se aplica até mesmo para aqueles que são completamente justos e retos em seus atos, mas que não se esforçam para fortalecer os conhecimentos de Torá daqueles que não a cumprem. Todos aqueles que têm o poder de influenciar positivamente os outros e não o fazem, recebem sobre si a maldição proferida no Monte Eval, mas aqueles que se esforçam e tentam influenciar os outros de maneira positiva recebem a Brachá proferida no Monte Guerizim.

Temos uma inclinação natural de pensar que não se importar com a espiritualidade dos outros não é algo tão grave. Porém, observando as transgressões que são enumeradas nas outras maldições, podemos começar a ter uma ideia mais clara da gravidade de deixar de aproximar aqueles que estão mais afastados. Por exemplo, a Torá traz as proibições de fazer imagens esculpidas (idolatria), de desprezar os pais, de se envolver em relações imorais e de ferir o companheiro de maneira secreta (que se refere ao Lashon Hará, isso é, denegrir o próximo pelas costas, de maneira covarde). Se o fato de deixar de se importar com a espiritualidade dos outros foi listado junto com transgressões tão graves, isto quer dizer que certamente também esta negligência é considerada grave aos olhos de D'us.

O Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin (Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, viveu em uma geração na qual já havia um grande fluxo de judeus que abandonavam a Torá e as Mitzvót para se conectarem a outros tipos de ideologia. Na época, muitos judeus observantes acreditavam que o ideal era se isolar de qualquer tipo de influência negativa e continuar com seu próprio trabalho de crescimento espiritual. Mas o Netziv se levantou fortemente contra esta ideia, pois acreditava que enquanto o mundo estava sendo espiritualmente destruído, não era hora de focar na sua própria espiritualidade. Para incentivar as pessoas de sua geração, ele utilizava como exemplo a história do Rei Yoshiahu, que nasceu em uma geração completamente sem conhecimentos de Torá. O Rei Yoshiahu assumiu o trono com 8 anos, após a morte de seu pai, e decidiu fazer uma reforma no Beit Hamikdash (Templo Sagrado). No meio das obras, Chilkiahu, um dos Cohanim (sacerdotes), encontrou um Sefer Torá escondido. Eles viram que o Sefer Torá, ao invés de estar enrolado até o começo, na Parashá Bereshit, estava aberto no meio do Sefer, justamente na parte onde está o versículo "Maldito é aquele que não mantém as palavras desta Torá". Quando o Rei Yoshiahu escutou estas palavras, ele imediatamente rasgou suas roupas e disse: "Está sobre mim a responsabilidade de manter a Torá". Após muitos esforços e dedicação, ele realmente teve sucesso em trazer de volta o povo judeu ao estudo e ao cumprimento da Torá e das Mitzvót.

Há um versículo interessante na história do Rei Yoshiahu. Após encontrar o Sefer Torá, ele falou para os Cohanim e Leviim: "Agora vão e sirvam Hashem, seu D'us, e o Seu povo, Israel" (Divrei Haiamim II 35:3). Mas o que significa servir a D'us e ao Seu povo? Explica o Netziv que após os terríveis reinados de Menashé e Amon, reis que vieram antes de Yoshiahu e que levaram o povo judeu aos caminhos da idolatria, os únicos que haviam conseguido manter um nível espiritual elevado eram os Cohanim e os Leviim. Por isto, eles acabaram se refugiando em seu próprio mundo, para evitar o perigo da assimilação que os rondava. Eles dedicavam-se ao seu próprio crescimento espiritual e à sua conexão com D'us, mas negligenciaram a espiritualidade do resto do povo. Yoshiahu quis dar a eles um forte recado após encontrar o Sefer Torá. Ele os estimulou a mudar de comportamento e, a partir daquele momento, dedicar suas energias para espalhar a Torá entre aqueles que estavam tão afastados e desconectados. E o Rei Yoashiahu ressaltou que, ao servir o povo judeu, ao mesmo tempo eles estariam servindo a D'us, pois certamente esta era a vontade Dele naquele momento.

Se aquele que não se importa com a espiritualidade dos outros entra na maldição contida nesta Parashá, o contrário também é válido, e todo aquele que se esforça para influenciar positivamente os outros para que aumentem sua observância da Torá e das Mitzvót recebe um grande louvor de D'us. Um exemplo de dedicação ao próximo aprendemos com o Rav Isroel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim. Ele não se preocupava apenas com o seu próprio serviço Divino, ele estava sempre preocupado com a espiritualidade dos outros. Certa vez, quando estava viajando pela Letônia, o Chafetz Chaim chegou a uma cidade chamada Riga. Lá havia uma grande comunidade judaica, mas completamente assimilada, que não cumpria as Mitzvót da Torá. Durante sua estadia de três semanas, o Chafetz Chaim fez tantos esforços que conseguiu convencer 300 judeus a não abrirem suas lojas no Shabat. Em outro momento ele escutou que alguns soldados judeus, por estarem no exército, comiam pão em Pessach. Ele ficou tão triste que criou um "Fundo para cozinha Kasher", para fornecer comida Kasher àqueles que iam para a guerra, e pessoalmente recolheu dinheiro para isso. Ele também entrava em contato pessoal com os soldados, para tentar influenciá-los a cumprir as Mitzvót. E quando grupos de soldados passavam pela sua cidade, Radin, durante o verão, o Chafetz Chaim carinhosamente os convidava para um verdadeiro banquete em sua casa, recebendo-os com amor paternal e encorajando-os a crescer espiritualmente.

Existem várias maneiras através das quais podemos ajudar outros judeus a estarem mais conectados com sua espiritualidade. Pode ser dando aulas, estabelecendo novos centros de estudo de Torá, ajudando a manter os centros de Torá já existentes ou simplesmente se aproximando das pessoas mais afastadas da Torá e convidando-as, por exemplo, para uma deliciosa refeição de Shabat.

Se o Rei Yoshiahu e o Netziv já ficavam tão preocupados em suas gerações, maior ainda é a nossa responsabilidade, em uma geração na qual os números da assimilação chegam a mais de 70% em vários lugares do mundo. Apesar de não nos sentirmos preparados, devemos saber que não estamos isentos de participar nesta importante missão. Se acreditarmos no nosso potencial e, mais ainda, assumirmos a nossa responsabilidade na continuidade da Torá, certamente D'us nos ajudará e teremos muito sucesso em trazer de volta aqueles que estão tão afastados de sua espiritualidade. Além de ajudar outras pessoas, estaremos garantindo mais Brachót para as nossas vidas.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22, At. 7: 30-36

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

FORÇA DAS PALAVRAS - PARASHÁ KI TAVÔ 5773

“Havia um escravo do rei que era muito dedicado e fiel. Ele era muito inteligente e gostava de ouvir as palavras dos sábios e observar a natureza. Certa vez o rei estava oferecendo um banquete em casa. Chamou seu escravo e, diante de todos, entregou-lhe algumas moedas. Pediu-lhe que fosse ao açougue comprar o que havia de melhor. Passados alguns minutos, o escravo entrou no salão nobre e, diante de todos, apresentou ao rei uma grande língua. O espanto foi geral.

- O que é isso? - perguntou o rei em alta voz - Tire esta coisa nojenta daqui! Como ousa me afrontar diante dos meus convidados? Explique-se!

- Majestade, o senhor me pediu para que buscasse o que há de melhor no açougue. Eu trouxe uma língua. Ela é responsável pela nossa comunicação. É através dela que Vossa Majestade pode me dar uma ordem e elogiar os convidados. É através dela que os sábios e artistas nos transmitem as sabedorias dos antepassados. Como vê, a língua é a melhor coisa que há.

Todos ficaram admirados. O rei, querendo testar novamente a sabedoria de seu escravo, deu-lhe outra tarefa. Pediu para que ele voltasse ao açougue e lhe trouxesse o que havia de pior. Entregou ao escravo mais algumas moedas e enviou-o à sua tarefa. Pouco depois o escravo retornou com outra língua na mão.

- O que é isso? Outra língua? Mas você me disse faz pouco tempo que a língua é o melhor que há!

- Sim, é verdade, majestade, a língua pode ser o melhor que há, mas também pode ser o pior. A língua é usada para a discórdia e para a inveja. A língua, quando utilizada para maldizer e caluniar, provoca divisão e afastamento entre as pessoas. Quando ela é mentirosa, é a pior coisa que há”.

Assim nos ensinou Shlomo HaMelech (Rei Salomão): “A morte e a vida estão no poder da língua, e aqueles que a amam comerão do seu fruto” (Mishlei - Provérbios 18:21). Quando utilizamos a língua para coisas positivas, como ensinar, incentivar ou consolar, ela traz vida para o mundo e podemos aproveitar dos seus benefícios. Mas quando a utilizamos de maneira negativa, como mentir, denegrir e ofender, ela traz apenas morte e destruição.

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Passamos da metade do mês de Elul, o último mês do ano, e no horizonte já começa a aparecer Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, quando todos os nossos atos serão julgados e tudo o que acontecerá no próximo ano será decretado. Será que estamos nos preparando bem para o nosso julgamento? Será que estamos conseguindo realmente mudar e consertar nossos erros como gostaríamos? Por que às vezes parece ser tão difícil mudar nossas atitudes?

A Parashá desta semana, Ki Tavô, nos ensina um fundamento muito importante, que pode nos ajudar no nosso trabalho de crescimento espiritual e na preparação para Rosh Hashaná. A Parashá começa com o conceito dos Bikurim, as primícias (primeiros frutos), que os agricultores precisavam levar até o Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Lá eles deveriam dizer: “Eu declaro hoje diante de D’us que eu vim para a terra que D’us jurou aos nossos antepassados que nos daria” (Devarim 26:3). Rashi, comentarista da Torá, explica que o propósito desta declaração era para demonstrar que o agricultor não era um negador de bondades, uma pessoa mal agradecida. O agricultor então continuava o seu agradecimento a D’us através de uma longa declaração, que recordava desde a proteção que D’us deu ao nosso patriarca Yaacov até a conquista e o estabelecimento do povo judeu na terra de Israel, a terra onde flui o leite e o mel.

Mas a explicação do Rashi para a primeira declaração do agricultor é difícil de ser entendida. Se o propósito da declaração era demonstrar gratidão a D’us, não era suficiente a própria vinda do agricultor até o Beit Hamikdash, abandonando tudo para cumprir a Mitzvá de Bikurim? Por que ele também tinha que pronunciar esta declaração?

Explica o Rav Yaacov Weinberg que a fala é uma força muito mais potente e explosiva do que imaginamos. Há uma diferença muito grande entre expressar o nosso agradecimento e apenas senti-lo no coração. Por que? Pois embora as coisas que pensamos nos influenciam e ajudam a moldar nosso caráter, o que nós falamos nos afeta e influencia nossa identidade de uma maneira muito mais forte.

Isto pode ser percebido quando a Torá nos ensina sobre a importância de manter nossos juramentos, como está escrito: “Se uma pessoa fizer um voto para D’us ou jurar um juramento para proibir algo sobre si, ela não deve profanar sua palavra, ela deve manter todas as palavras que saíram de sua boca” (Bamidbar 30:3). Por que a Torá utilizou a expressão “profanar sua palavra”, ao invés de “transgredir sua palavra”? E por que está escrito “manter todas as palavras que saíram de sua boa” ao invés de simplesmente escrever “manter o seu juramento”?

A resposta é que a Torá está nos ensinando o valor de uma palavra proferida. Não podemos desprezar nem mesmo uma palavra que foi pronunciada, como se fosse algo sem valor, pois a palavra, quando proferida, se torna uma realidade. O problema de quebrar uma promessa não é apenas ser desonesto, é muito mais do que isso. Quando alguém quebra uma promessa, está destruindo uma realidade que foi criada com cada uma de suas palavras.

Daqui aprendemos que dizer algo em voz alta tem um efeito profundo sobre a personalidade humana. Muitas vezes pensamos que apenas importa o que dizemos em público, o que os outros escutam, mas o que dizemos para nós mesmos em um local privado não importa tanto. Porém, isto não é verdade, e novamente aprendemos este conceito observando as leis referentes aos juramentos. Um juramento não precisa ser feito em público, pode ser feito mesmo em particular, sem mais ninguém escutar, e o efeito de quebrar este juramento é tão devastador quanto quebrar um juramento feito em público. Isto quer dizer que amaldiçoar alguém ou mesmo falar palavrões, mesmo se for feito em um local privado, mesmo que mais ninguém escutou, causa um grande dano espiritual para aquele que falou. Enquanto a ideia esta apenas nos pensamentos, ela ainda não se transformou em algo real e nos influencia pouco. Mas após as palavras terem sido pronunciadas, uma poderosa transformação ocorre, pois a fala cria uma nova realidade e causa um profundo impacto na pessoa que falou.

Isto explica também porque um dos grupos que nunca terá o mérito de estar próximo de D’us, mesmo no Olam Habá (Mundo Vindouro), são os mentirosos. Maior do que o efeito da mentira de enganar o outro é a destruição que ela causa a nós mesmos. A realidade criada pelas palavras é destruída quando alguém fala mentira. Por isso nossos sábios ensinam que mesmo em casos em que há permissão de distorcer os fatos, como quando o Shalom Bait (paz familiar) de um casal está em jogo, o ideal é omitir e não mentir. Nestas situações, a pessoa deve tentar ao máximo dizer as coisas de uma maneira ambígua, ao invés de falar uma mentira de maneira explícita.

Mas da mesma forma que a fala negativa tem uma influência poderosa no ser humano, o mesmo vale para a fala positiva. Se uma pessoa apenas pensa em melhorar, ainda assim é muito difícil concretizar este pensamento. Porém, a partir do momento em que a pessoa externaliza seus pensamentos através da fala, isto é mais do que apenas fazer planos, já é uma realidade física.

Quando nossos sábios ensinam os princípios do arrependimento verdadeiro, um dos passos importantes é o Vidui, a confissão dos pecados, em especial no dia de Yom Kipur, quando o Vidui é parte central das nossas rezas. E assim ensina o Rambam (Maimônides): “Teshuvá significa abandonar a transgressão, retirá-la do coração e decidir nunca mais repeti-la. A pessoa deve também se arrepender pelo seu ato. E a pessoa deve confessar com seus lábios e dizer todas estas coisas que ela pensou em seu coração” (Halachót Teshuvá 2:2). Mas se D’us já conhece todos os nossos pecados, por que temos que mencioná-los em voz alta?

O Rambam, ao utilizar a linguagem “confessar com seus lábios”, quer ressaltar o enorme poder que a fala tem em transformar a pessoa que quer se arrepender dos erros cometidos. D’us lê nossos pensamentos, Ele vê todos os nossos atos, portanto não é para Ele que serve a confissão dos nossos erros. A confissão funciona para o nosso próprio crescimento, pois quando os pensamentos se transformam em palavras, as mudanças internas que isto acarreta são muito mais duradouras. Sem a confissão verbal, o arrependimento verdadeiro não pode ser alcançado, e qualquer pensamento de mudança e crescimento espiritual pode acabar se dissipando.

É por isso que temos que tomar muito cuidado com este precioso utensílio que D’us nos presenteou, chamado fala. Apesar de não darmos tanto valor, a fala tem um enorme impacto sobre nossas vidas, tanto para o lado positivo quanto para o lado negativo. Se prestarmos atenção no Vidui de Yom Kipur, perceberemos que 25% dos nossos erros estão relacionados com o mau uso da fala. Este potencial mal utilizado pode destruir, causar sofrimento e desunião. Mas bem utilizado pode trazer vida ao mundo e nos ajudar, no nosso julgamento de Rosh Hashaná, a sermos inscritos no Livro da Vida.

SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida)
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22, At. 7: 30-36

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O VERDADEIRO DONO DA FORTUNA - PARASHÁ KI TAVÔ 5772

"Desde pequeno, Mayer Anschel Rothschild era uma pessoa esforçada e decidida. Começou trabalhando em um banco judeu de Frankfurt e, mais tarde, abriu um banco em seu próprio nome. Conquistou um bom nome por negociar sempre de forma honesta. O Príncipe Wilhelm o nomeou como seu Conselheiro de Finanças. Apesar de sua fortuna, Mayer, sua esposa e seus cinco filhos viviam em uma casa modesta.
Algum tempo depois começou a guerra. O Imperador Napoleão conseguiu muitas vitórias e seus exércitos chegaram a Frankfurt. Certa noite, o Príncipe Wilhelm veio procurar Mayer Anschel, vestido como um mendigo. Tinha acabado de escapar do campo de batalha e tentaria fugir. Mas antes queria pedir um grande favor ao seu amigo, pois era o único em quem ele realmente confiava. O príncipe havia conseguido salvar o ouro e prata do castelo, e pediu que Mayer guardasse até que pudesse voltar. Mayer Anschel, mesmo sabendo dos riscos, garantiu que faria todo o possível para guardar os tesouros. Havia na casa um porão secreto que Mayer Anschel ocultava sob o piso da sala, e ali ele guardou os tesouros.
Nos dias que se seguiram, os franceses ocuparam a cidade. Anunciaram uma grande recompensa para quem localizasse a fortuna real e um castigo severo se alguém a escondesse. A suspeita logo caiu sobre Mayer, o tesoureiro real. Sua casa foi cercada e uma busca completa foi feita, mas nada foi encontrado. O oficial encarregado, não satisfeito, prendeu Mayer Anschel sob acusação de traição e ameaçou matar todos os líderes da comunidade judaica de Frankfurt. Sob o choro incessante de sua esposa, Mayer Anschel aceitou revelar o esconderijo do tesouro real. Voltou para dentro de casa, dirigiu-se a um quadro grande na parede e tirou-o. Uma porta secreta foi revelada. Ele abriu a porta e um enorme cofre de ferro apareceu. Abriu-o, mostrando diversas prateleiras repletas de ouro. Disse que aquele era o tesouro que estavam procurando. Os soldados franceses, felizes, juntaram tudo e se foram. Mayer Anschel então chamou a mulher e os filhos e disse-lhes:
- Devemos agradecer a D'us por estarmos vivos. Um judeu deve sempre manter sua palavra. Prometi ao príncipe que guardaria sua fortuna, por isso entreguei a minha para salvar a dele. Quero que vocês saibam onde ela está escondida, para devolver. É D'us quem nos dá o dinheiro, e Ele nos ajudará a nos reerguer.
Mayer Anschel mostrou, sob as tábuas, onde ficava o esconderijo secreto. Enquanto isso, espalhou-se a notícia que a fortuna do príncipe havia sido encontrada pelos soldados franceses na casa dos Rothschild. Isso foi considerado um crédito para Mayer, pois o príncipe havia confiado nele a ponto de deixar a fortuna real aos seus cuidados. Assim, a empresa de Rothschild prosperou muito em todo o mundo.
Alguns anos se passaram e Napoleão sofreu pesadas derrotas. Vários países recuperaram a liberdade e os reis voltaram aos seus antigos governos. O Príncipe Wilhelm também voltou, e imediatamente convidou Mayer Anschel para visitá-lo. Mas Mayer Anschel tinha adoecido. Conseguiu jejuar no último Yom Kipur de sua vida e permaneceu na sinagoga durante todo o dia, mas no dia seguinte sentiu-se muito fraco. Faleceu na primeira noite de Sucót, aos 68 anos. Foi o filho mais velho que fez a viagem no lugar de seu querido pai. O príncipe entristeceu-se muito com a notícia da morte de seu grande amigo e disse:
- Não confiei em mais ninguém para cuidar da fortuna real. Sei que não foi culpa dele que encontraram o tesouro. A perda do tesouro não é nada, comparada à perda de meu querido amigo de confiança.
O jovem Rothschild, para a surpresa do príncipe, disse que a fortuna não estava perdida. Os franceses haviam levado a fortuna que pertencia aos Rotschild, pois Mayer tinha cumprido sua palavra até o fim. O príncipe quis dar parte da fortuna real para compensar as perdas financeiras, mas ele não aceitou, dizendo:
- Não se preocupe. D'us já nos compensou por nossa perda financeira"
Mayer Anschel Rothschild deixou aos filhos como herança não somente uma grande fortuna, mas algo muito mais valioso: um nome bom e honesto, e a Emuná (fé) de que D'us está no controle de tudo.
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A  Parashá desta semana, Ki Tavô, começa com um assunto muito interessante: a Mitzvá de Bikurim. As primícias (primeiras frutas) das 7 espécies da Terra de Israel (trigo, cevada, uva, figo, romã, azeitona e tâmara) precisavam ser trazidas ao Beit Hamikdash em uma cesta e entregues ao Cohen. Esta parece ser uma Mitzvá comum, sem uma importância maior. Porém, há um ensinamento surpreendente em um Midrash (Bereshit Rabá 1:6). O Midrash diz que as primeiras palavras da Torá, "Bereshit Bará Elokim" (No princípio D'us criou), têm outro significado, pois "Bereshit" significa "princípio", mas "Reshit" também significa "Primícias". O Midrash nos ensina que o mundo foi criado pelo mérito da Mitzvá de Bikurim. Afinal, o que há de tão especial nesta Mitzvá?
Responde o Rav Yaacov Neiman que um dos fundamentos do judaísmo é a Emuná (fé). Como isto se expressa na prática? Devemos saber que tudo, sem exceção, vem de D'us. Na teoria pode parecer fácil, mas na prática não é tão simples assim. Pode ser algo fácil quando observamos a natureza. Ao refletir um pouco sobre a perfeição de toda a criação, em cada mínimo detalhe, é possível perceber a mão de um exímio "Desenhista". Como um belíssimo por do sol, que se repete todos os dias, pode ser um acaso? Como a perfeição do corpo humano pode ter vindo de uma explosão e mutações aleatórias? Assim, com um pouco de questionamentos lógicos e diretos, conseguimos chegar à certeza de que tudo foi planejado e executado por uma Força superior e perfeita, que tem pleno controle sobre todo o mundo.

Mas há algo mais difícil de internalizar para chegar a uma Emuná completa: que todos os atos que os seres humanos fazem também são direcionados e controlados pelo Criador. Por exemplo, a tendência natural é pensar que "todo meu sucesso é fruto do meu esforço e da minha inteligência". Facilmente tiramos D'us da história e creditamos o sucesso aos nossos próprios esforços. Vivemos com a certeza de que nossos bens foram adquiridos através da nossa inteligência, talento e esforço. Parecem ser pensamentos inocentes, mas segundo a Torá, podem ser considerados até mesmo uma forma de idolatria, pois idolatria não é apenas se curvar diante de um ídolo feito de madeira ou pedra. Idolatria é atribuir forças a qualquer entidade fora D'us. Todas as forças e criaturas que existem no universo são parte Dele, criações Dele, e nenhuma entidade do universo, tanto físicas quanto espirituais, tem força própria. Isto significa que aquele que pensa que "todo meu sucesso é fruto do meu esforço e da minha inteligência" está atribuindo forças a si mesmo e, de certa maneira, está cometendo idolatria.

Para chegar à Emuná verdadeira, a pessoa deve se esforçar para entender e internalizar que todo ato que aparentemente ela está fazendo com a sua própria força, na verdade está sendo feito com a força de D'us. O ser humano não tem nenhuma força própria, ele não pode fazer nada se D'us não estiver constantemente mandando energia para ele. É como se estivéssemos conectados a D'us através de um fio, por onde recebemos, a cada instante, a energia necessária até mesmo para levantar um dedo.

Este conceito pode ser bem enxergado no início da Parashá da semana passada, Ki Tetse, que começa com as seguintes palavras: "Quando você sair para a guerra com os seus inimigos" (Devarim 21:10). Quando pensamos em preparação para a guerra, a primeira coisa que nos vêm à cabeça é a necessidade de uma grande quantidade de soldados, armamentos e equipamentos de apoio. Mas como continua o versículo? "E Hashem, teu D'us, os entregará em tua mão". Esta é a visão correta das coisas. Não são as armas, nem o exército, nem as estratégias que vencem uma guerra, e sim a mão de D'us.

É pela grande importância da Emuná em nossas vidas que o Midrash ressalta tanto a importância da Mitzvá de Bikurim. Quando a pessoa ara seu campo, semeia, colhe e traz para casa sua colheita, qual a primeira impressão que fica? Que todo o sucesso na colheita foi resultado do seu esforço. Então como a Mitzvá de Bikurim ajuda no reforço da Emuná? A pessoa, além de trazer suas primícias ao Cohen, precisava pronunciar um discurso no qual consta a seguinte afirmação: "E agora eu trouxe as primícias da terra que D'us me deu" (Devarim 26:10). Quando a pessoa pronuncia "D'us me deu", ela reconhece e internaliza a ideia de que todo o sucesso que ela teve na sua colheita não foi resultado do seu esforço, e sim uma grande bondade de D'us, o verdadeiro Dono de tudo.

Em menos de 2 semanas será Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico. A essência de Rosh Hashaná é fazer de D'us um Melech (Rei). O Talmud (Rosh Hashaná 17a) enfatiza este ponto com as seguintes palavras: "Digam Malchuiót diante de Mim para que vocês Me coloquem como um Rei sobre vocês". O que significa, na prática, fazer de D'us um Rei sobre nós?

Não é suficiente a pessoa saber que D'us é o Criador do mundo. Fazer de D'us um Rei sobre nós significa tê-Lo como um Rei em nossas vidas, de maneira que isto influencie cada ato que fazemos. D'us declarou Sua vontade através da Torá, e todas as vezes em que desprezamos Suas Mitzvót, é como se estivéssemos nos rebelando contra o Seu reinado. Ao contrário, quando nos comportamos de acordo com os Seus ensinamentos, estamos declarando que Ele é o Rei sobre nossas vidas. E esta é a maneira de passar no julgamento de Rosh Hashaná: mostrar para D'us que queremos que Ele esteja ativamente presente em nossas vidas, em nossas famílias, no nosso trabalho e nos nossos momentos de lazer.

Que possamos canalizar a força que D'us nos dá a cada instante para que possamos fazer apenas o bem, e assim possamos ser inscritos para um ano de muitas Brachót (Bênçãos).

"SHETICATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA).

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22, Lc. 24:44-53