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sábado, 9 de abril de 2016

O QUE CADA UM TEM DE BOM - PARASHAT TAZRIA 5776

Roberto finalmente havia realizado seu sonho de entrar na faculdade de engenharia. Mas aquela empolgação inicial logo se transformou em desespero quando começaram as aulas e ele escutou os professores de Cálculo e Álgebra Linear falando em um dialeto que parecia chinês misturado com russo. Roberto via todos aqueles números anotados na lousa e não entendia nada.

A preocupação ficou ainda maior quando, depois de um mês de aulas, chegou o dia da primeira prova da faculdade. O professor entregou a prova aos alunos e orientou que todos lessem com atenção todas as questões. Roberto, apesar dos traumas iniciais, havia se preparado bem para a prova e começou a responder rapidamente todas as questões, até que chegou à última pergunta: "Qual é o nome da mulher que faz a limpeza das salas de aula?". Roberto pensou que tratava-se de algum tipo de piada. Naquele primeiro mês de aulas ele realmente tinha visto a moça da limpeza diversas vezes. Como ele chegava cedo, sempre a via se esforçando para terminar a limpeza da sala e deixar tudo pronto para o início das aulas. Era uma mulher baixa, de cabelos escuros, com cerca de 50 anos, mas como ele poderia saber o nome dela? Na verdade, ele nunca havia sequer se interessado em saber. Quando entregou sua prova, deixou a última questão em branco, imaginando que era apenas uma brincadeira do professor.

Porém, quando a prova terminou e todos os alunos voltaram para a sala de aula, Roberto tomou coragem e questionou se a última pergunta era séria e se seria levada em consideração na nota da prova. O professor olhou fixamente nos olhos dele e respondeu:

- Obviamente que será levada em consideração, pois esta foi a pergunta mais séria de toda a prova. Na vida profissional você encontrará muitas pessoas. Saiba desde agora que todas elas são importantes e significativas. Todas elas merecem ser valorizadas e terem seu trabalho reconhecido, mesmo que seja através de um sorriso e um "Bom dia".

- Quando vocês chegam à sala de aula de manhã, está tudo limpo e arrumado, pronto para a aula começar, graças a esta moça que faz a limpeza - continuou o professor, se dirigindo a todos os alunos da sala - Se não fosse por ela, perderíamos tempo e despenderíamos esforços na arrumação, ao invés de focarmos na aula. Por isso, temos que saber valorizá-la. O mínimo que vocês deveriam saber era o nome dela, para poder agradecer pela ajuda que ela nos dá todos os dias.

Naquela aula, Roberto aprendeu uma das lições mais importantes de sua vida, que ele jamais esqueceu. Ele aprendeu a enxergar o que cada um tem de melhor, aprendeu a dar importância para cada pessoa e parar de julgar os outros de forma superficial. E também aprendeu que o nome da moça da limpeza era Yvone. 
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Nesta semana lemos a Parashat Tazria (que literalmente significa "Conceber"), que descreve algumas formas de impureza espiritual, entre elas uma doença chamada "Tzaráat". Apesar de ter manifestações físicas, na forma de manchas que surgiam na pele da pessoa contaminada, a Tzaráat era uma doença espiritual. A prova disso é que, caso surgissem manchas na pele de uma pessoa, levantando a suspeita de Tzaráat, ela não ia a um médico dermatologista fazer o diagnóstico, e sim a um Cohen (sacerdote), pois somente os Cohanim estavam aptos a definir se era ou não Tzaráat, como está escrito: "... ele deve ser trazido a Aharon, o Cohen, ou a um de seus filhos Cohanim" (Vayikrá 13:2). Caso a Tzaráat fosse confirmada, a pessoa contaminada precisava iniciar uma série de processos de purificação.

Porém, este versículo desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, por que somente os Cohanim podiam anunciar se aquelas manchas eram uma manifestação de Tzaráat ou não? Se o problema era a dificuldade no diagnóstico por causa dos inúmeros detalhes envolvidos nas leis sobre Tzaráat, então qualquer grande sábio de Torá com conhecimentos específicos nesta área também estaria apto a verificar se as manchas estavam dentro dos padrões estabelecidos pela Torá para a Tzaráat. Porém, por algum motivo, a Torá determinou que apenas os Cohanim estavam aptos a fazer este tipo de verificação. Por que outras pessoas não podiam fazer um "curso prático" de identificação de Tzaráat?

Além disso, é possível perceber que nos diversos serviços feitos no Mishkan (Templo Móvel), a Torá sempre indica quem são os responsáveis pela sua execução de uma maneira mais genérica, isto é, algumas vezes o serviço é atribuído ao "Cohen", enquanto outras ele é atribuído aos "filhos de Aharon, os Cohanim". Por exemplo, está escrito "Os filhos de Aharon, os Cohanim, deverão trazer o sangue e despejar o sangue no altar" (Vayikrá 1:5). Também está escrito: "... e o Cohen queimará tudo no altar" (Vayikrá 1:9). Porém, em relação à Tzaráat, a Torá foi bem específica, determinando que a pessoa contaminada deveria ser trazida diretamente para Aharon ou para um de seus filhos. Por que a Torá se preocupou que Aharon HaCohen estivesse pessoalmente envolvido quando se tratava de um procedimento de diagnóstico de Tzaráat, enquanto nos outros serviços a Torá não foi tão específica?

Responde o Rav Yohanan Zweig que muito frequentemente a maneira como a pessoa valida seu próprio status e aumenta sua autoestima é focando nas falhas e deficiências dos outros. Isto acaba nos transformando em "especialistas" em ver o lado negativo das pessoas, e acabamos sempre procurando as falhas e defeitos dos outros. Mas Aharon HaCohen era diferente, a ponto dos nossos sábios o descreverem da seguinte maneira: "Seja dos discípulos de Aharon: ame a paz e procure a paz; ame as criaturas e as aproxime da Torá" (Pirkei Avót 1:12). Aharon tinha a incrível habilidade de criar harmonia em relacionamentos que anteriormente haviam sido de hostilidade. Qual característica permitia que ele tivesse tanto sucesso nesta área? Ele estava sempre predisposto a focar nos traços positivos dos outros. Ver sempre o lado positivo era o que permitia a Aharon transformar alguém, que anteriormente era um odiado inimigo, em um indivíduo digno de amizade.

Era justamente este traço de caráter que fazia de Aharon a pessoa apta a diagnosticar a Tzaráat em alguém com suspeita de contaminação. Somente uma pessoa que procura o que é positivo no próximo está qualificada para também avaliar as suas falhas. Já a pessoa que tem predisposição de procurar no próximo suas falhas não é capaz de conduzir um julgamento de forma objetiva e imparcial.

É justamente por isso que a Torá atribuiu especificamente a Aharon o diagnóstico de uma pessoa com suspeita de Tzaráat. Em relação aos outros serviços realizados no Mishkan, qualquer Cohen poderia executá-los, pela força do direito adquirido pelos seus ancestrais, e por isso estava escrito "Cohen" de forma genérica. Porém, a habilidade de diagnosticar alguém com Tzaráat emanava da natureza positiva de Aharon, que sabia procurar o que cada um tinha de melhor, ao invés de procurar falhas e defeitos. A perfeição de Aharon nesta característica foi herdada por seus filhos e descendentes, o que deu a eles, e não a nenhum outro grande sábio conhecedor das leis, a objetividade necessária para conseguir enxergar se aquelas manchas eram realmente a manifestação de Tzaráat ou não.

O mais incrível é perceber que a cura da Tzaráat começava justamente com a característica oposta ao que havia causado a doença espiritual. Nossos sábios explicam que a Tzaráat era causada principalmente por causa da transgressão de Lashon Hará, que consiste em denegrir e apontar as falhas dos outros. E esta terrível transgressão é consequência de enxergar sempre o lado negativo das pessoas. Todos têm qualidade e defeitos, pontos fortes e pontos fracos. Portanto, somente fala Lashon Hará aquele que sempre procura nos outros os defeitos. Se procurasse as qualidades, não estaria gastando seu precioso tempo denegrindo o próximo.

Ensinam os nossos sábios: "Todo aquele que possui as três características seguintes é dos discípulos de Avraham... bom olhar, espírito humilde e alma dócil" (Pirkei Avót 5:19). O que significa que Avraham tinha um "bom olhar"? Mesmo em uma cidade repleta de Reshaim (malvados) como Sdom, Avraham sabia procurar o que eles tinham de bom, e rezou para que D'us tivesse misericórdia de toda a cidade. Mesmo sabendo que seu sobrinho Lót era uma pessoa de má-índole, ele não o abandonou, pois sabia enxergar as suas qualidades. Avraham tinha um bom olhar, procurava o melhor em cada um.

Se quisermos estar listados entre os discípulos de Avraham e de Aharon, precisamos trabalhar o nosso olho e o nosso coração para sempre focarmos o lado bom das pessoas. Pois as pessoas positivas trazem mais amor e harmonia ao mundo, enquanto as pessoas negativas trazem tristeza, desgosto e sofrimento.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv l2:1-13:59, 2 Rs. 4:42·5:19

sábado, 29 de março de 2014

A LÍNGUA EXAGERA - PARASHÁ TAZRIA 5774


“David ligou para o seu dentista, querendo agendar uma consulta. Com a voz tensa, ele disse:

- Doutor, é urgente. Por favor, tente me encaixar ainda hoje. Eu estou com uma cavidade enorme no meu dente. Estou muito preocupado, pois tenho medo de perder o dente. Pelo tamanho da cavidade, o dente já deve estar inteiro podre!

O dentista, preocupado, conseguiu reagendar suas consultas e atendê-lo no mesmo dia. Mas quando David sentou-se na cadeira do dentista e mostrou-lhe o dente que incomodava, o dentista pareceu um pouco confuso. Ele falou para David:

- Meu querido, acho que você se enganou, isso não parece muito ser uma cavidade. Não é nada grave, o dente está ótimo, muito saudável. Há apenas um pequeno desnível no dente, mas podemos cuidar disso com um pouco de resina.

- Sério? - perguntou David, sem acreditar – Mas não pode ser que não tem quase nada. Quando eu passei a língua no dente, parecia que havia uma cavidade enorme!

O dentista sorriu e falou:

- Isso sempre acontece, David. Não podemos decidir as coisas de acordo com o que a língua nos informa. Afinal, é natural que a língua dê sempre uma exagerada, não?”

Precisamos tomar muito cuidado com a forma que utilizamos nossa fala. Nossa língua, sem controle, pode causar muita destruição. Pois, na maioria das vezes, ela exagera muito...

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A Parashá desta semana, Tazria, descreve uma terrível doença espiritual chamada Tzaráat, que se manifestava através de manchas nas paredes da casa, nas roupas e na pele. Porém, apesar da manifestação física da doença, a identificação não era feita por um médico, e sim por um Cohen (sacerdote), como está escrito: “E o Cohen deve declará-lo contaminado; é Tzaráat” (Vayikrá 13:8).

Qual era a causa desta doença espiritual? O Talmud (Arachin 15b) explica que a palavra “Metzorá”, (termo que descreve a pessoa contaminada com Tzaráat) é uma contração das palavras “Motsi” e “Rá”, que significam “aquele que espalha a difamação”. O Talmud está ressaltando que a principal falha que levava ao castigo de Tzaráat era o Lashon Hará, isto é, revelar algo negativo sobre uma pessoa de forma a causar danos físicos, financeiros ou psicológicos.

Infelizmente, por total falta de conhecimento, muitos pensam que a transgressão de Lashon Hará somente ocorre quando alguém inventa mentiras para caluniar o próximo. Mas o rabino Israel Meir HaCohen (Polônia, 1838 - 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, dedicou a vida para difundir as leis de cuidado com a fala e nos ensina que a transgressão de Lashon Hará ocorre justamente quando alguém denigre o próximo com informações verdadeiras, isto é, quando revela algum erro realmente cometido ou algum defeito que verdadeiramente existe no outro. Caso a pessoa misture fatos mentirosos, a transgressão se torna ainda mais grave e é chamada de “Motsei Shem Rá”.

Mas destas informações surgem duas dúvidas. Em primeiro lugar, sabemos que todos os castigos aplicados por D’us são “Midá Kenegued Midá” (medida por medida), isto é, o castigo é aplicado exatamente da maneira através da qual a pessoa cometeu o erro. Por exemplo, uma pessoa que falou palavrões ou palavras obcenas pode ser punido queimando sua língua com o café quente. Desta maneira, a língua que transgrediu falando o que não deveria é “castigada” com a dor da queimadura. D’us utiliza esta característica de “Midá Kenegued Midá” justamente para nos levar à reflexão e nos ajudar a entender, observando o castigo recebido, qual foi o nosso erro. Isto é uma das maiores bondades de D’us, pois assim Ele nos dá a possibilidade de consertarmos nossos atos e chegarmos à perfeição. Porém, como vemos a característica de “Midá Kenegued Midá” no castigo de Tzaráat? Qual a relação entre as manchas que aparecem no corpo e o erro de revelar atos errados ou más características de outras pessoas?

Além disso, em várias ocasiões diferentes a Torá preza muito pela verdade e abomina a mentira. Por isso é fácil entender que o “Motsei Shem Rá” é algo abominável, pois é uma mentira, uma distorção da realidade. Mas por que a transgressão de Lashon Hará também é considerada algo tão grave pela Torá, se trata-se apenas de revelar algo que é verdade? Por que a Torá parece ir contra a revelação da verdade?

Explica o Rav Yohanan Zweig que atualmente a mídia se tornou um excelente modelo de que nem sempre dizer a verdade reflete a realidade de uma situação. Por exemplo, quando um canal de televisão quer acusar o exército de Israel de maltratar os palestinos, eles colocam no ar um clipe de 15 segundos no qual um soldado israelense, armado e bem preparado, golpeia um aparentemente desarmado e inofensivo cidadão palestino. O vídeo está realmente mostrando algo real, as imagens não foram criadas em estúdio. Porém, ao editar o vídeo e cortar certas partes, não mostrando o incidente inteiro e deixando de fora os primeiros minutos da filmagem, que mostravam aquele mesmo palestino “inocente” atirando as pedras que atingiram e cegaram uma criança israelense, eles infelizmente distorceram a realidade do evento ocorrido. Isto quer dizer que um clipe de 15 segundos na televisão pode mostrar um incidente que realmente aconteceu. Porém, se este clipe for a única conexão de uma pessoa com o incidente, ela pode sair com uma visão completamente distorcida da realidade. Este é um ótimo exemplo de que é possível dizer um monte de mentiras dizendo apenas verdade.

Esta é a mesma distorção que ocorre através do Lashon Hará. Apesar de a pessoa estar dizendo apenas a verdade em seus comentários sobre seu companheiro, denegrindo-o aos olhos dos outros, isto não representa a realidade. A pessoas que fala Lashon Hará normalmente se acostuma a focar apenas na parte negativa dos outros. Apesar dos erros de um individuo representarem apenas uma pequena parte da sua verdadeira essência, aquele que faz Lashon Hará cria nos outros a percepção que esta é a realidade inteira da pessoa. Da mesma forma que o clipe tendencioso de 15 segundos consegue distorcer completamente a realidade de uma situação aos olhos daqueles que não sabem realmente o que está acontecendo, assim também é o Lashon Hará, pois apesar de só falar a verdade, a pessoa está distorcendo completamente a realidade. Quando alguém escuta o Lashon Hará, ele imediatamente associa a pessoa à má característica ressaltada, e certamente ignora os outros traços positivos dela.

No Lashon Hakodesh (língua com a qual D’us criou o mundo) podemos perceber também este conceito. A palavra “Verdade” é “Emet” (letras Alef, Mem e Taf), enquanto a palavra “Mentira” é “Sheker” (letras Shin, Kuf e Reish). As três letras de “Sheker” são letras que estão juntas uma da outra no alfabeto, enquanto a palavra Emet é composta pela primeira letra do alfabeto, a letra do meio e a última letra. Isto quer dizer que mentira é você olhar algo de uma maneira limitada e achar que entendeu tudo, enquanto verdade é entender apenas após enxergar o quadro completo.

Com este conceito é possível entender por que o Tzaráat é uma punição “Midá Kenegued Midá” do Lashon Hará. Mesmo que a pessoa encontrasse apenas uma pequena mancha em seu corpo, isto já era suficiente para contaminar seu corpo todo. A transgressão daquele que fez Lashon Hará se reflete, portanto, na sua punição. Da mesma forma que ele distorceu a verdade e criou uma falsa realidade ao amplificar um pequeno defeito, a ponto disto representar a pessoa inteira, da mesma maneira também o Tzaráat, que poderia ser apenas uma pequena mancha, acaba contaminando e representando a pessoa inteira.

D’us nos deu um grande presente, que é o dom da fala. Com ela podemos nos comunicar, expressar nossos pensamentos e sentimentos, ensinar e ajudar ao próximo. Mas, infelizmente, a fala muitas vezes acaba sendo utilizada de uma maneira negativa. Sem o devido cuidado, com a fala podemos rotular as pessoas, destruir potenciais e causar muito sofrimento. Pois, como afirmou o dentista, a língua exagera muito.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Lv l2:1-13:59, 2 Rs. 4:42·5:19, Mt. 8: 1-4