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sábado, 12 de março de 2016

CORAÇÃO DE OURO - PARASHAT PEKUDEI 5776


"Gabriel gostava de aventuras e queria fazer uma viagem de balão. Enquanto estava esquentando o ar do balão e preparando os últimos detalhes, surgiu Marcos, um homem muito simples e ingênuo. Marcos ficou pasmado olhando para o balão que se inflava aos poucos. Ele morava em uma pequena cidade do interior, nunca tinha visto um balão, e ficou encantado com a ideia de viajar dentro de uma "cesta voadora". Suplicou a Gabriel que o levasse junto para o voo, e estava tão entusiasmado com a possibilidade de ver sua cidade do alto que não parava de insistir. Percebendo que não teria outra opção, Gabriel aceitou levar Marcos, com a condição que ele não tocasse em nada. Quando levantaram voo, Marcos não acreditou no que viu, pois nunca havia imaginado poder voar pelo céu. Mas depois de alguns minutos, ao perceber que o balão perdia altura, se assustou:

- Estamos caindo, estamos caindo, vamos morrer!

Gabriel explicou calmamente que era apenas o ar do balão se esfriando, e que bastava aumentar a chama para o balão subir novamente. Porém, quando Gabriel foi aumentar a chama, viu que ela havia se apagado completamente. O ponteiro do gás mostrava que o reservatório estava vazio, e Gabriel lembrou que, por causa da insistência de Marcos, não havia checado antes da decolagem se havia gás suficiente. Ainda tentando manter a calma, Gabriel explicou a Marcos que a única coisa a fazer naquele momento era diminuir o peso do balão, jogando fora os objetos que eles tinham trazido, inclusive as coisas mais valiosas, para ajudar o balão a subir e chegar em segurança. Imediatamente Gabriel começou a jogar fora todos os seus pertences: sua mochila, sua carteira, e até mesmo os mantimentos que havia trazido. Mas para Marcos era muito difícil jogar seus pertences, e por isso ele olhou ao redor, procurando alguma outra alternativa. De repente, teve uma ideia genial:

- Já sei como podemos nos salvar! Se este enorme balão que está cheio de gás já não serve mais, então vamos cortar as cordas que o conectam à cesta, e assim subiremos de novo…"

Apesar de ser uma piada, esta história tem uma forte relação com os momentos de dificuldade que passamos na vida. Por exemplo, em épocas de dificuldade financeira, temos duas escolhas: podemos "apertar o cinto" diminuindo nossos luxos e comodidades, ou podemos cortar as doações que fazemos para os necessitados e para as instituições de Torá. Infelizmente a escolha natural é cortar as doações. Porém, deveríamos fazer justamente o contrário, pois é a bondade que fazemos ao próximo e os méritos de mantermos o estudo da Torá que podem nos ajudar a sair da crise. Quando cortamos nossos atos de bondade, nos assemelhamos àquele homem simples que, na sua ingenuidade, sugeriu cortar as cordas que amarravam a cesta ao balão.
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Nesta semana lemos a Parashat Pekudei (que literalmente significa "contas"). O povo havia doado os materiais para a construção do Mishkan (Templo Móvel) e seus utensílios. Eram materiais caros e valiosos, como ouro, prata, cobre e tecidos. A Parashat começa justamente com a prestação de contas feita por Moshé, para justificar o uso de cada doação feita, como está escrito: "Estas são as contas do Mishkan, o Mishkan do Testemunho, que foram contadas sob o comando de Moshé" (Shemot 38:21).  
Porém, esta prestação de contas feita por Moshé apresenta uma aparente dificuldade. De acordo com o Rav Avraham ben Meir zt"l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, se prestarmos atenção nos versículos que descrevem a totalização das doações, perceberemos que a prestação de contas ocorreu apenas com a prata e o cobre, porém não há prestação de contas do ouro. A Torá apresenta apenas qual foi o total de ouro doado, mas não explica como ele foi utilizado, como ocorre com a prata e o cobre, cuja utilização é descrita em detalhes. Por que Moshé não se preocupou em prestar contas da utilização do ouro?  
A resposta pode estar em uma interessante explicação do Daat Zkeinim MiBaalei HaTossafot (comentaristas da Torá que viveram na época de Rashi) trazida na Parashat Terumá, em relação às doações feitas para a construção do Mishkan. Na Parashat Terumá, a Torá também lista três metais entre os materiais que deveriam ser doados: o ouro, a prata e o cobre. De acordo com o Daat Zkeinim, cada um destes metais representa um nível de doação. O ouro representa as doações de uma pessoa que está completamente saudável, a prata representa a doação de alguém que está doente e o cobre representa a doação de alguém que já faleceu. Mas o que significa estas representações dos metais doados?
Explica o Rav Yohanan Zweig que, quando uma pessoa faz uma doação, há dois fatores a serem considerados: o impacto sobre a pessoa que abre mão dos seus recursos, e o retorno que a pessoa recebe do seu "investimento", isto é, o que ela espera receber em troca de sua doação.  
Quando falamos sobre alguém que doou depois do falecimento, isto representa a pessoa cuja doação não implica praticamente em nenhum perda financeira, e que é feita com o único intuito de acumular méritos para protegê-la no Olam Habá (Mundo Vindouro). Este é o nível mais baixo de doação, e é representada pela doação do cobre. Já a doação que é motivada por uma doença implica em uma certa perda de recursos, mas a pessoa faz a doação pensando no retorno do seu "investimento", que neste caso é a recuperação da sua saúde. Este é um nível intermediário de doação, e é representada pela doação da prata. Finalmente, a doação de uma pessoa saudável, que também implica em uma perda de recursos, é o modelo da doação sincera e altruísta, pois é feita sem segundas intenções. Pelo fato da pessoa estar viva e saudável, isto demonstra que ela não está querendo nada em troca de sua doação. Este é o maior nível de doação, e é representado pela doação do ouro.  
Mas como estes três níveis de doação explicam a falta de prestação de contas em relação às doações do ouro? Explica o Rav Yohanan Zweig que as pessoas normalmente costumam atribuir aos outros as suas próprias falhas e defeitos. O Talmud (Kidushin 70b) refere-se a este tipo de comportamento como "Kol Hapossel, Bemumó Possel", que significa que todo aquele que enxerga um defeito no seu companheiro está simplesmente projetando no outro as sua própria deficiência. Quando nos incomoda ver em outra pessoa algum traço de caráter negativo, significa que em algum nível nós também possuímos este mesmo traço de caráter negativo. D'us criou este incrível sistema para nos ajudar, pois normalmente é mais fácil enxergar os defeitos nos outros do que em nós mesmos. Então, quando enxergamos algo negativo em outra pessoa, é um reflexo de um erro que nós mesmos também estamos cometendo e que precisamos consertar.  
Com este conceito do Talmud podemos então entender a diferença que ocorreu na prestação de contas. Quando uma pessoa doa sem sinceridade, com segundas intenções em sua doação, então ela exigirá uma prestação de contas de como sua doação foi utilizada, pois pelo fato dela não ter doado de uma forma genuinamente altruísta, generosa e desinteressada, ela "projeta" no outro seu próprio defeito e assume que aquele que está recolhendo sua doação também está fazendo por motivos pessoais e interesseiros. Por isso, suspeitando de alguma irregularidade, ela exige uma prestação de contas completa de como sua doação foi utilizada.  
Quando a Torá apresenta a prestação de contas das doações de prata e cobre, é porque aqueles que doaram a prata e cobre assim exigiram. Porém, pelo fato daqueles que trouxeram o ouro terem feito uma doação completamente altruísta e desinteressada, eles também não despertaram nenhuma dúvida sobre a seriedade e a motivação pura daqueles que recolheram as doações. Não foi necessário fazer nenhum tipo de prestação de contas do ouro utilizado no Mishkan e em seus utensílios, pois os doadores não exigiram.  
Desta Parashat aprendemos duas importantes lições. A primeira é a incrível regra espiritual de "Kol HaPossel, Bemumó Possel", isto é, toda vez que nos irritamos com os defeitos dos outros, é um sinal que nós também temos, em algum nível, exatamente os mesmos defeitos. Portanto, ao invés de tentar corrigir os outros, em primeiro lugar devemos olhar para nós mesmos e corrigir o que estamos fazendo de errado.  
A segunda importante lição desta Parashat é em relação à pureza dos nossos atos de bondade. Muitos pensam que o importante é apenas o ato de doar, mas que as intenções pouco importam. Do Mishkan aprendemos que as intenções puras e altruístas são tão importantes quanto o ato de doação em si. A doação do ouro representa aqueles que doam com intenções puras e altruístas, e não com o desejo de receber algo em troca. Talvez é por isso que utilizamos a expressão "a pessoa tem um coração de ouro" quando nos referimos a alguém cujos atos de bondade são puros e altruístas.
  
Estamos passando no Brasil por uma crise econômica difícil. Porém, não podemos esquecer que tudo o que ocorre tem suas raízes nos mundos espirituais. Infelizmente a primeira atitude que tomamos em momentos de aperto não é cortar os nossos gastos supérfluos, e sim cortar as nossas doações, tanto para os necessitados quanto para as instituições de Torá. Mas isto é um grande erro, pois as doações e os nossos atos de bondade altruístas são justamente as atitudes que trazem méritos e que podem nos ajudar a superar as dificuldades e reverter a situação difícil. Como a pessoa em um balão caindo, para deixar de perder altura devemos jogar fora os bens "pesados", e não cortar o próprio balão, que é a única coisa que pode nos fazer voltar a subir.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 38:21-40:38, I Re. 7:51-8:21, 2

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

PRINCIPAL E SECUNDÁRIO - PARASHAT TERUMÁ 5776

"Em uma época em que as Yeshivót (Centros de estudo de Torá) da Lituânia estavam passando por uma situação econômica muito delicada, o Rav Zalman Sorotzkin zt"l (Lituânia, 1881 - Israel, 1966) e uma delegação enviada pelos grandes rabinos da geração fizeram um evento em Varsóvia, na Polônia, com o objetivo de tentar encontrar formas de salvar as Yeshivót. Algumas delas não tinham nem mesmo dinheiro para alimentar os estudantes e corriam o risco de fechar suas portas, deixando centenas de alunos sem um local para se dedicar dia e noite ao estudo da Torá. Entre os participantes do evento estavam vários editores de jornais judaicos, que foram convidados justamente para que a iniciativa desta delegação de tentar ajudar as Yeshivót fosse amplamente divulgada. Um dos editores, ao escutar os detalhes da difícil situação das Yeshivót, perguntou ao Rav Zalman:

- Desculpe a sinceridade, mas escutei que o Rav Meir Shapira (Império Austro-Húngaro, 1887 - Polônia, 1933) está construindo uma bela Yeshivá em Lublin, na Polônia, e teve êxito em juntar muito dinheiro para a construção. Não seria melhor ele utilizar este dinheiro para ajudar as outras Yeshivót já existentes? Por que ele não dedicou seu tempo e esforço para juntar comida para os alunos que mal tem o que comer?

- Sua pergunta é muito boa - respondeu o Rav Zalman - mas a resposta é muito simples. Mesmo que ele tentasse juntar dinheiro para as outras Yeshivót, ele não teria sucesso. As pessoas gostam de fazer generosas doações para a construção de Yeshivót bonitas e luxuosas, mas para manter o dia a dia das Yeshivót depois de prontas infelizmente são poucos os que querem participar. Tenho certeza de que quando a Yeshivá do Rav Meir Shapira estiver pronta, ele terá as mesmas dificuldades das outras Yeshivót da Europa para se manter.

E infelizmente foi exatamente o que aconteceu. Apesar da facilidade que o Rav Meir Shapira teve para construir a "Yeshivá Chochmei Lublin", depois de pronta ele passou muitas dificuldades e contraiu enormes dívidas para poder mantê-la funcionando".

Assim é a natureza do ser humano. Fazemos grandes doações para prédios e construções faraônicas, mas são poucos os que estão dispostos a ajudar a manter os lugares de Torá depois de prontos. 
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Nesta semana lemos a Parashat Terumá (que literalmente significa "doação"), que descreve a construção do Mishkan (Templo Móvel), o local onde D'us escolheu para repousar a Sua presença junto ao povo judeu. O Mishkan e seus utensílios, como a Menorá e o Mizbeach (Altar de sacrifícios), foram construídos com madeiras nobres e metais preciosos, como ouro e prata. De onde vieram estes materiais? De doações do povo, como está escrito: "Fale com os Filhos de Israel e peguem para Mim uma Terumá (doação ou porção), de cada pessoa cujo coração for generoso peguem a Minha Terumá. E esta é a Terumá que vocês pegarão deles..." (Shemot 25:2,3).

Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que nestes versículos aparece três vezes a palavra Terumá, referindo-se aos três tipos diferentes de doações feitas pelo povo judeu. A primeira era uma doação obrigatória, no valor de meio Shekel de prata por pessoa, destinado à construção das bases do Mishkan. A segunda era uma doação anual obrigatória, no valor de meio Shekel de prata por pessoa, destinada a um fundo para a compra dos Korbanót (sacrifícios) comunitários oferecidos diariamente no Mishkan. E a terceira era uma doação voluntária, sem valor definido, cujo objetivo era reunir os materiais necessários para a construção do Mishkan e seus utensílios.

Mas desta explicação trazida por Rashi surge um grande questionamento. Para a construção das bases do Mishkan e para o fundo dos Korbanót comunitários, D'us decretou que as doações do povo fossem obrigatórias, com um valor fixo por pessoa, e esta obrigatoriedade incluía até mesmo os pobres, enquanto na construção do Mishkan, que tinha uma importância fundamental para o povo judeu, D'us deixou para que cada um doasse de forma voluntária, apenas quem quisesse e o valor que quisesse. Não deveria ter sido o contrário?

Responde o Rav Zalman Sorotzkin zt"l que a Torá está se aprofundando na psicologia do ser humano e nos ensinando uma incrível lição. Normalmente somos muito ágeis para fazer doações para projetos que envolvem a construção de salas e prédios, mas temos mais dificuldade em doar para manter o propósito do prédio após ele estar pronto. Mas será que isto é correto? Por exemplo, o que é mais importante e querido aos olhos de D'us, a construção do Mizbeach ou a manutenção dos Korbanót que eram oferecidos ali diariamente? Obviamente que o propósito é mais importante do que os meios, isto é, a oferenda dos Korbanót é muito mais importante do que o Mizbeach, que é apenas um meio para que a oferenda seja realizada.

Há uma prova interessante que demonstra como nos enganamos ao achar que as construções são mais importantes do que seus propósitos posteriores. Apesar de ser proibido fazer Shechitá (abate Kasher) em um animal no Shabat, por ser uma das 39 Melachót (trabalhos criativos proibidos), há uma exceção em relação à Shechitá dos Korbanót oferecidos no Shabat, que é permitida. Já a construção do Mishkan, apesar de sua importância e santidade, não fazia parte de nenhuma exceção e deveria parar completamente durante o Shabat. Portanto, enquanto a oferenda dos Korbanót tinha uma permissão especial para ocorrer no Shabat, a construção do Mizbeach era proibida, demonstrando que aos olhos de D'us os Korbanót eram ainda mais importantes do que o próprio Mizbeach.

Porém, apesar de ser mais querido para D'us a oferenda diária dos Korbanót do que a construção do Mishkan, e apesar das doações para a construção do Mishkan serem voluntárias, em um único dia o povo doou até mais do que era necessário para a construção do Mishkan, e as pessoas somente pararam de doar quando foi dado um aviso para que parassem de trazer materiais. Como D'us conhece as inclinações do coração de Suas criaturas, Ele sabia que para a construção do Mishkan todas as pessoas correriam para trazer sua doação, o que é bastante compreensível, pois todos querem deixar sua marca para a posteridade. Por isso não foi necessário que esta doação tivesse um caráter obrigatório, pois as pessoas naturalmente trariam até mais do que era necessário, como ocorreu. Mas para o objetivo final da construção, isto é, a oferenda dos Korbanót propriamente dita, as pessoas não teriam doado a não ser que fosse uma obrigação. D'us, que conhece a natureza humana, sabe que esta doação é difícil, e por isso quis incentivar as doações garantindo que doar para a compra dos Korbanót traria expiação espiritual para o doador.

Infelizmente também podemos observar este fenômeno atualmente. O propósito da construção de uma Yeshivá ou de uma sinagoga é o estudo de Torá e a Avodat Hashem (Serviço Divino) que ocorrerão lá dentro depois de pronta e que trarão méritos para todo o povo judeu, enquanto a construção do prédio da Yeshivá e da sinagoga é apenas um meio. Apesar disso, vemos que muitas pessoas são extremamente generosas na construção dos prédios, doando fortunas para as paredes, portas, janelas, e tijolos, mas são poucos os que são generosos para manter as Yeshivót e sinagogas funcionando. Poucos se preocupam que na mesa dos estudantes de Torá haja comida e bebida suficiente para que possam ter força para estudar, ou que as contas de luz e de água da sinagoga sejam pagas.

Por que isto acontece? Normalmente as pessoas querem investir seu dinheiro em coisas duráveis. Quando alguém doa para a construção de uma sinagoga, sabe que daqui a muitos anos seu investimento ainda estará de pé e seu esforço estará presente naquelas paredes, enquanto aquele que doa para comprar comida está doando para coisas não duráveis, pois as comidas são imediatamente consumidas. Mas este é um grande equívoco, pois o alimento é o que mantém os estudantes saudáveis e fortes para poderem estudar com concentração e alegria, e toda a Avodat Hashem realizada nestes prédios certamente é eterna, muito mais duradoura do que as construções de tijolo e cimento, apesar de não percebermos isto com os nossos olhos. Nas sinagogas, a luz, a água e outros gastos, apesar de também serem investimentos não duráveis, é o que mantém o propósito do lugar. Os tijolos, cimento, móveis, pintura e acabamentos são apenas meios para que as pessoas tenham um lugar físico para sua Avodat Hashem, mas o principal, a meta, é o estudo diário da Torá e as Tefilót, que são tão queridos aos olhos de D'us e são eternos.

Mas se este conceito é verdadeiro, então por que a doação das bases do Mishkan também era obrigatória? Apesar das pessoas se interessarem em doar para a construção de prédios, isto ocorre apenas depois que já se iniciaram as fundações, isto é, depois que as pessoas já viram que o projeto realmente vai acontecer. Antes das fundações as pessoas ainda não acreditam que o projeto realmente sairá do papel, e ainda não se interessam em doar. Por isso D'us teve que obrigar a doação da prata para as bases de sustentação do Mishkan, enquanto para o restante das estruturas o povo correu para doar até mais do que era necessário.

Da Parashat aprendemos que doar para a construção de Yeshivót e sinagogas é algo muito grandioso e valoroso, porém mais valoroso ainda para D'us é a manutenção dos lugares de Torá já existentes. Ao manter uma sinagoga ou uma Yeshivá, apesar de não estarmos construindo paredes físicas, certamente estamos construindo paredes espirituais eternas.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 25:1-27:19, 1 Re. 5:12 -6:13

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

DOAÇÃO DE UM SORRISO - PARASHÁ VAIECHI 5775

 O Sr. Greenberg e sua esposa não eram ricos, mas eram pessoas muito devotas e sensíveis às necessidades dos outros. Certa vez eles estavam passeando por um parque quando viram um homem idoso sentado em um banco. Ele estava sozinho, olhando para o infinito, como se estivesse perdido. Os Greenberg foram até o banco, sentaram-se ao lado do idoso e começaram uma conversa com ele. Descobriram, surpresos, que aquele senhor também era judeu, e chamava-se Charlie Birnbaum. A conversa foi ficando cada vez mais animada, até que os Greenberg resolveram convidar o Sr. Birnbaum para visitá-los em casa. Insistiram tanto que ele acabou indo uma vez, e acabou voltando uma segunda vez, e uma terceira vez, até que se tornou uma visita frequente. Sempre era recebido com muita alegria pela família Greenberg, e eles se esforçavam para fazer o Sr. Birnbaum se sentir como se fosse parte da família. Certo dia o Sr. Greenberg recebeu o telefonema de um advogado:

- Sr. Greenberg, perdão por incomodá-lo, mas infelizmente tenho uma má notícia: o Sr. Birnbaum faleceu. Hoje foi feita a abertura do testamento dele. Como vocês sabem, o Sr. Birnbaum era um homem sozinho, não tinha nenhum parente. Por isso ele escreveu no testamento que deixava para o Sr. e para sua família toda sua herança, no valor de 10 mil dólares. Ele ressaltou no testamento que vocês foram as únicas pessoas no mundo que haviam se comportado com algum sentimento de bondade e misericórdia com ele.

Naquela época, há mais de 50 anos, a soma de 10 mil dólares foi suficiente para os Greenberg comprarem uma casa. Como os Greenberg haviam dado ao Sr. Birnbaum uma casa, então D'us recompensou a bondade deles "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), dando a eles uma casa para morar. (História Real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).
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 Nesta semana lemos a Parashá Vaiechi, que fala sobre a morte do nosso último patriarca, Yaacov. Antes de falecer, Yaacov disse suas últimas palavras para cada um dos seus filhos, sendo que alguns receberam Brachót (bênçãos), enquanto outros receberam críticas por erros que haviam cometido. E estas últimas palavras de Yaacov não se aplicavam apenas para os seus filhos, mas também para todos os seus descendentes, pois cada um dos filhos de Yaacov se tornou o patriarca de uma das 12 tribos do povo judeu.

Uma das Brachót que nos chama a atenção foi a recebida por Yehudá, o filho de Yaacov de quem descenderiam os futuros reis de Israel, como David e Shlomo. E assim disse Yaacov para Yehudá: "O cetro nunca partirá de Yehudá... E os dentes brancos de leite" (Bereshit 49:10,12). Segundo alguns comentaristas da Torá, o entendimento mais simples do versículo final é que as palavras de Yaacov descreveram como Yehudá era adequado para a realeza, isto é, era um homem de aparência nobre, com um belo sorriso.

Porém, o Talmud (Ketubot 111b) traz outra explicação para as palavras de Yaacov. O Talmud ensina que o versículo deve ser lido como "os dentes brancos mais do que leite", significando que a pessoa que mostra o branco dos dentes ao dar um sorriso afetuoso para outra pessoa faz mais bondade com ela do que se tivesse lhe dado um copo de leite para beber.

Mas qual a conexão entre o entendimento mais simples do versículo, de que a Torá está descrevendo a aparência nobre que tinha Yehudá, e a forma como o Talmud estuda o versículo, de que um sorriso vale mais do que um copo de leite? E por que este entendimento do Talmud, que ressalta a importância de um sorriso, precisou ser transmitido justamente através da Brachá recebida por Yehudá?

A pergunta aumenta quando analisamos outro ensinamento do Talmud (Kidushin 82b), que afirma que se D'us não provesse diretamente o alimento dos animais, cada animal conseguiria seu sustento através de algum tipo de profissão. Por exemplo, a raposa seria muito competente sendo lojista, enquanto o leão seria um bom carregador. Explica o Rav Yehuda Loew (Praga, 1525 - 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, que a raposa simboliza a astúcia, característica necessária para um lojista, pois é necessário convencer os consumidores a comprarem seus produtos, enquanto o leão simboliza a força física, sendo apropriado para trabalhos braçais que requerem muita força, como ser um carregador. Mas este ensinamento do Talmud é estranho, pois o leão normalmente representa a majestade e a autoridade. Então por que o Talmud descreve o leão como um simples carregador, uma profissão pouco honrosa? E qual a relação entre ser um simples carregador e Yehudá, que também é descrito como um leão: "Yehudá é um filhote de leão" (Bereshit 49:9)?

Explica o Rav Yochanan Zweig que existe uma grande diferença entre o conceito de rei para o povo judeu e para os outros povos. Entre os povos do mundo, o rei é a figura de alguém autoritário, muitas vezes um tirano, que governa sobre seus súditos com mão de ferro e leis duras. O foco principal do rei são suas próprias necessidades, e por isso ele é servido pelos seus súditos, que estão sempre preocupados com o seu bem estar. Mas de acordo com o judaísmo o reinado tem um caráter completamente diferente. De Yehudá aprendemos que a soberania do rei é baseada no fato de, em última instância, o rei servir o seu povo. O rei do povo judeu não é um tirano que obriga seus súditos a fazerem a sua vontade e a se preocuparem com suas necessidades pessoais, ao contrário, é o rei que serve e se preocupa com as necessidades de seus súditos.

Portanto, deste entendimento vemos que é apropriado que o leão seja descrito como um carregador, pois o rei deve estar disposto a carregar o peso daqueles que o servem. Esta era a natureza de Yehudá, apropriadamente demonstrada no início da Parashá da semana passada, Vaigash, quando ele se mostrou disposto a se tornar escravo do vice-rei do Egito apenas para que seu irmão Biniamin pudesse ser libertado. Yehuda colocava de lado suas próprias necessidades em prol do bem estar dos outros. Esta é a postura de um verdadeiro rei, por um lado alguém com uma aparência nobre, mas por outro lado alguém preocupado em servir os outros.

É por isso que o entendimento simples do versículo está tão conectado com a explicação do Talmud. O ato de saudar e acolher outra pessoa com um sorriso, de forma com que o outro se sinta apreciado e querido, reflete esta incrível qualidade de Yehudá. Para conseguir dar sempre um sorriso aos outros, a pessoa precisa deixar de lado seus próprios problemas e necessidades. Apesar de estar preocupada com suas próprias dificuldades, a pessoa deve se esforçar para transmitir, através de um sorriso sincero, uma verdadeira sensação de alegria pelo bem estar do próximo. Esta era um importante característica de Yehudá, e Yaacov queria também transmiti-la para os seus futuros descendentes através de sua Brachá.

Obviamente este ensinamento não vale apenas para os reis, mas para cada um de nós. Através de pequenos atos de bondade podemos mudar a vida das pessoas. Pensamos que para ajudar os necessitados precisamos ter muitos bens e fazer grandes doações para instituições de caridade, e por isso achamos que esta Mitzvá tão importante de Tzedaká (caridade) é apenas para pessoas ricas. Mas nossa maior doação está no nosso próprio rosto: o sorriso. E o melhor de tudo é que dar um sorriso não custa nada. Isto quer dizer que, se conseguirmos estar sempre com um sorriso sincero e caloroso no rosto, estaremos diariamente fazendo centenas ou milhares de doações para pessoas necessitadas.

Mas dar um sorriso para todos tem seu preço: vencer o egoísmo. Para dar um sorriso o tempo inteiro é necessário pararmos de pensar apenas em nós mesmos e começarmos a pensar nos outros. O Rav Israel Salanter (Lituânia, 1810 - Alemanha, 1883), quando via algum aluno com o rosto tenso e preocupado, perguntava: "Por que eu também preciso sofrer com seus problemas?". Ele estava ensinando aos seus alunos que nosso rosto é um "domínio público", e por isso devemos nos preocupar sempre com o que estamos transmitindo aos outros.

Podemos ajudar muitas pessoas apenas com um sorriso, mas para isso é necessário vencer nossas próprias necessidades e pensar mais nos outros. Isto nos transforma em reis, não para governar sobre todo o povo judeu, mas ao menos para governar sobre nossos próprios corações.


SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn. 47:28-50:26