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terça-feira, 16 de junho de 2015

APRENDENDO COM OS ERROS - PARASHÁ SHELACH 5775

 
"Os japoneses sempre foram grandes consumidores de peixe. Porém, chegou um momento em que a pesca era feita de maneira tão indiscriminada que as águas perto da costa do Japão já não produziam mais o suficiente para suprir a demanda. Por isso, para continuar mantendo o mercado abastecido, uma empresa de pesca do Japão aumentou o tamanho dos seus navios pesqueiros e começou a pescar em alto-mar. Mas quanto mais longe os pescadores iam, mais tempo levava para o peixe chegar, e já não estavam mais tão frescos, não agradando ao paladar dos japoneses.
                       
Uma segunda empresa aprendeu com o erro da primeira empresa e teve uma ideia inovadora: instalou congeladores em seus barcos. Eles pescavam em alto-mar e, para evitar que os peixes perdessem o frescor, os congelavam durante a volta. Os congeladores permitiram que os pesqueiros fossem cada vez mais longe e ficassem em alto-mar por muito mais tempo. Entretanto, os japoneses conseguiam sentir no gosto a diferença entre um peixe fresco e um peixe congelado, e o preço do peixe começou a despencar no mercado.

Uma terceira empresa aprendeu com os erros da segunda empresa e tentou mudar a técnica. Esta empresa instalou tanques de água nos navios pesqueiros. Eles podiam pescar em alto-mar e manter os peixes vivos nos tanques até voltarem, mantendo os peixes frescos. Porém, pelo pouco espaço dos tanques, os peixes pescados não se moviam muito. Nestas condições, eles acabavam liberavam toxinas, que causavam diferença no gosto do peixe, além de colocar a saúde dos japoneses em risco. Novamente a solução não agradou aos consumidores.

Finalmente uma quarta empresa, após refletir muito e aprender com os erros das empresas anteriores, desenvolveu uma técnica genial. Para conservar o gosto de peixe fresco, esta empresa de pesca ainda colocava os peixes dentro de tanques. Mas eles adicionavam um pequeno tubarão em cada tanque. O tubarão comia alguns peixes, mas a maioria deles chegava vivo. E não apenas vivos, mas também frescos, pois como havia um tubarão no tanque, os peixes não paravam de se movimentar o tempo inteiro, e por isso as toxinas não eram produzidas. Somente então o consumo de peixe fresco finalmente voltou ao normal".

Podemos viver através de tentativas e erros. Mas podemos fazer algo muito mais genial: aprender com os erros dos outros, para acertar onde os outros erraram. Esta é uma das principais chaves do sucesso na vida.

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A Parashá desta semana, Shelach, começa descrevendo o episódio dos 12 homens que foram enviados para espionar a Terra de Israel, mas 10 deles acabaram cometeram o gravíssimo erro de falar mal da terra, o que causou trágicas consequências, tanto para aquela geração, que foi proibida de entrar em Israel, quanto para as futuras gerações. Ao escutar o relato negativo e a afirmação dos espiões de que não era possível conquistar a Terra de Israel, o povo judeu perdeu a Emuná (fé) em D'us e chorou. D'us decretou que aquele dia, 9 de Av, seria um dia de choro para todas as gerações. Neste mesmo dia os dois Templos Sagrados foram destruídos, os judeus da Espanha e Portugal foram expulsos, e outras tragédias aconteceram ao povo judeu durante a história. Já a Parashá da semana passada, Behaalotechá, terminou com o episódio do castigo que Miriam recebeu por ter falado sobre seu irmão, Moshé, de uma maneira negativa, apesar de seu comentário não ter sido feito com más intenções. Por que a Torá juntou os dois eventos? Qual a conexão entre o erro de Miriam e o erro dos espiões?

Rashi (França, 1040 - 1105) explica a conexão dos dois eventos citando as palavras de um Midrash (parte da Torá Oral): "Pois ela (Miriam) foi punida por causa de sua fala negativa em relação ao seu irmão, e estes Reshaim (malvados) viram e não aprenderam disso". Porém, é difícil entender as palavras do Midrash, pois parece que o foco está no fato dos espiões não terem aprendido com o erro de Miriam. Por que o Midrash focou em algo aparentemente secundário, ao invés de ter ressaltado o erro de terem falado negativamente de Israel, a Terra Prometida ao povo judeu desde a época dos nossos patriarcas?

Responde o Rav Yerucham Leibovitz zt"l (Bielorússia, 1873 - 1936) que certamente o pior erro dos espiões foi ter falado mal da Terra de Israel, mas como este erro é mais facilmente percebido, não precisava de tanto destaque. O que Midrash quer ressaltar é que os espiões também eram culpados por uma outra grave falha, que talvez passaria desapercebida por nós: o fato deles não terem internalizado e, consequentemente não terem aprendido nada para a vida deles, com o incidente de Miriam, que havia ocorrido diante dos olhos deles. O Midrash quis enfatizar que aprender com os erros dos outros é um importante fundamento para o nosso crescimento espiritual, e a perda desta oportunidade é considerada uma grande falha. Os espiões perderam a excelente oportunidade de, ao aprender com o erro dos outros, conseguir evitar o grave erro que eles mesmos cometeram. Se eles tivessem prestado atenção às terríveis consequências da fala negativa, certamente teriam tomado mais cuidado.

Nossos sábios ensinam que é muito importante aprendermos com os nossos erros, para não voltarmos a cair novamente se passarmos pelos mesmos testes. Mas é ainda mais importante aprender com os erros dos outros, pois assim podemos nos cuidar e evitar cometer estes erros. Além disso, há outro grande beneficio em aprender com os erros dos outros. Em relação aos nossos próprios erros, normalmente somos tendenciosos, dificilmente assumimos nossa culpa. Isto dificulta a percepção de qual foi exatamente a nossa falha, nos fazendo perder a objetividade. Mas quando olhamos os erros dos outros não somos tendenciosos, e por isso é muito mais fácil sermos objetivos e aprendermos algo concreto para nossas vidas.

Este conceito ensinado na Parashá nos ajuda a entender um importante ensinamento dos nossos sábios: "Quem é sábio? Aquele que aprende com todas as pessoas" (Pirkei Avót 4:1). É fácil entender o quanto temos para aprender com as pessoas sábias e corretas, mas o que podemos aprender com pessoas que vivem de maneira equivocada? A resposta é que de pessoas corretas e sábias podemos aprender principalmente de sua sabedoria e seus bons exemplos, enquanto de pessoas que não vivem da maneira correta podemos aprender principalmente de seus erros, nos esforçando para evitar estas mesmas falhas e suas consequências.

Este é um dos principais propósitos de estudarmos o Tanach (Torá, Profetas e Escrituras). O Tanach está repleto de histórias, que aconteceram com indivíduos ou até mesmo com povos inteiros, e em nenhum momento D'us tenta encobrir os erros cometidos. Por que o Tanach não foi "embelezado", ressaltando os bons atos e ignorando os erros dos nossos antepassados? Em primeiro lugar, pois a Torá é um livro de Emet (verdade), um livro que descreve seres humanos normais, que fazem coisas boas, mas que algumas vezes também cometem erros. Mesmo os maiores líderes do povo judeu não foram anjos, foram pessoas de carne e osso, como nós, e apesar dos atos grandiosos que fizeram, algumas vezes também cometeram erros. Além disso, D'us não quis ocultar nenhum erro, mesmo aqueles cometidos pelos maiores Tzadikim (justos), justamente para nos dar a possibilidade de aprendermos algo para nossa vida. Podemos extrair, de cada história do Tanach, ensinamentos que nos ajudem a evitar erros em nossas decisões cotidianas.

O Rav Eliahu ben Shlomo Zalman zt"l (Lituânia, 1720 - 1797), mais conhecido como Gaon Mi Vilna, também utiliza este conceito para explicar um interessante ensinamento dos nossos sábios: "Rabi Chanania ben Akashia diz: D'us queria dar méritos para Israel (povo judeu), portanto Ele multiplicou para eles a Torá e as Mitzvót". O que significa "multiplicou a Torá e as Mitzvót"? Segundo o Gaon Mi Vilna, não se refere apenas às 613 Mitzvót da Torá, mas às milhares de Mitzvót que se encontram nas histórias descritas pelo Tanach e pelo Talmud (Torá Oral), pois estas histórias não foram escritas para nos entreter, e sim mas para nos ensinar importantes lições que elas carregam e nos possibilitar aplicar este aprendizado em nossas próprias vidas.

Quando a Torá registrou o Lashon Hará (maledicência) de Miriam e suas graves consequências, não era apenas para que os espiões aprendessem e evitassem o mesmo erro, mas também para cada um de nós. Temos a grande obrigação, que na verdade é uma enorme oportunidade, de aprendermos com os erros dos outros e assim evitarmos cair nestes mesmos erros. Infelizmente muitos enxergam a Torá como se fosse simplesmente um "livro de histórias". Mas a Torá é muito mais do que isso, são instruções, muitas vezes ensinadas através de exemplos, de como viver a vida da maneira correta, de como lidar com cada tipo de situação, um verdadeiro "Manual de Instruções" da vida.

É muito fácil questionarmos como pessoas tão grandes como os espiões acabaram caindo em um erro tão grave. O difícil é enxergar o quanto nós também perdemos oportunidades de aprender como os erros dos outros, através dos quais poderíamos evitar cair exatamente nos mesmos erros.

"Sábios aprendem com os erros dos outros. Espertos aprendem com seus próprios erros. Tolos não aprendem com nada"

SHABAT SHALOM                                           

Rav Efraim Birbojm
Nm. 13:1-15:41, Js 2:1-24

sexta-feira, 13 de junho de 2014

CONSCIÊNCIA DOS NOSSOS ERROS - PARASHÁ SHELACH 5774

"Rogério contratou um jardineiro para a manutenção do seu jardim. Era um rapaz muito jovem, aparentando ter pouca experiência, mas se mostrou muito esforçado. Quando terminou o serviço, o jardineiro pediu para utilizar o telefone. Rogério, que ficou na sala ao lado, não pôde deixar de ouvir a conversa. O rapaz ligou para uma mulher e perguntou se ela precisava de um jardineiro. Ela agradeceu, mas respondeu que já tinha um. O jovem não desistiu e explicou que além de aparar a grama também tirava o lixo, mas novamente a mulher recusou, argumentando que seu jardineiro também fazia isso. O jovem insistiu mais uma vez, garantindo que limpava bem as ferramentas no fim do trabalho e que nunca deixava um cliente sem um pronto atendimento, porém novamente a mulher recusou, afirmando que tudo isso ela já tinha com seu jardineiro atual. Em uma última tentativa, o jovem falou que o seu preço era muito bom, mas a mulher respondeu firmemente que não estava interessada, pois seu jardineiro também tinha um preço muito bom. Quando o jovem jardineiro desligou o telefone, Rogério sentiu muita pena dele e tentou consolá-lo:

- Não se preocupe, rapaz. Você é esforçado, certamente conseguirá outros clientes.

- Não estou preocupado - respondeu o jovem, abrindo um enorme sorriso - pois eu já sou o jardineiro dela.

- Então por que você ligou para ela oferecendo seus serviços? - perguntou Rogério, confuso.

- Fiz isto apenas para medir o quanto ela estava satisfeita comigo - respondeu o jardineiro - Assim eu posso saber onde preciso melhorar, para fazer sempre meu trabalho da melhor maneira possível."

Teríamos a coragem de fazer a mesma pesquisa feita por este jardineiro? Nos questionamos constantemente para saber se realmente nossos atos estão sempre corretos, ou acabamos nos acomodando e acreditando que nós sempre estamos certos e são sempre os outros que fazem coisas erradas?

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Na Parashá desta semana, Shelach, o povo judeu estava prestes a entrar na Terra de Israel, mas ao invés dos judeus confiarem em D'us, eles preferiram enviar espiões para ver como era a terra. Infelizmente aquela falta de Emuná (fé) teve consequências trágicas. Dos 12 espiões enviados, 10 voltaram falando mal da terra, causando um enorme desespero no povo e um consequente choro. D'us decretou que aquela geração inteira não teria mais o mérito de entrar na Terra de Israel. Apenas 2 espiões conseguiram escapar da transgressão: Yoshua e Kalev. Como eles conseguiram resistir à tentação de se juntar aos outros espiões?

Antes dos espiões partirem, a Torá diz que Moshé acrescentou uma letra ao nome de Yoshua, que até aquele momento se chamava "Hoshea". Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que Moshé rezou por Yoshua, para que ele fosse salvo do teste de querer se unir aos outros espiões, e a manifestação desta Tefilá (reza) foi o acréscimo da letra "Iud" no nome dele. Poucos versículos depois, quando a Torá descreve os primeiros passos dos espiões já na Terra de Israel, Rashi explica que Kalev se separou do grupo e foi até Chevron, para rezar no túmulo dos patriarcas e pedir para ser protegido das más influências dos outros espiões. Portanto, a Torá nos ensina que o que salvou Yoshua e Kalev da transgressão foi a força da Tefilá.

Porém, aparentemente este ensinamento vai diretamente contra um princípio citado pelos nossos sábios no Talmud (Brachót 33b): "Tudo depende dos Céus, menos o temor aos Céus". Isto quer dizer que D'us controla todos os detalhes do que ocorre nas nossas vidas, mas ao mesmo tempo Ele nos deu o livre arbítrio, isto é, a habilidade de escolher entre o certo e o errado, deixando isto completamente nas mãos do ser humano. Quando rezamos para que D'us nos ajude com coisas que não estão sob nosso controle, como a saúde e o sustento, que dependem única e exclusivamente da Supervisão Divina, certamente esta Tefilá pode ser muito benéfica e nos ajudar. Porém, rezar para não cometer uma transgressão parece ser algo inútil, já que a decisão de cometer ou não uma transgressão não está nas mãos de D'us, é algo que está completamente sob nosso controle. Portanto, como pode ser que o que salvou Yoshua e Kalev de cometerem uma transgressão foi a Tefilá, se a decisão de transgredir ou não estava apenas nas mãos deles mesmos?

Responde o Rabino Yossef Chaim (Iraque, 1832 - 1909), mais conhecido como Ben Ish Chai, que há duas formas de uma pessoa transgredir. Uma forma é quando a pessoa tem total claridade que um ato é proibido, mas apesar disso, movida pelos seus desejos, ela decide fazê-lo, com total consciência de que está cometendo um erro. Outra forma é quando o Yetser Hará (má inclinação) da pessoa consegue obscurecer sua capacidade de discernimento e a convence que aquela transgressão é, na verdade, um ato permitido, possibilitando-a de racionalizar que ela não está cometendo absolutamente nenhum erro.

O princípio de "tudo depende dos Céus, menos o temor aos Céus" somente se aplica à primeira forma de transgressão, quando é completamente claro para a pessoa que ela está cometendo um erro. Neste caso, realmente não há nenhum benefício em rezar para que D'us nos proteja da transgressão, pois isto está sob nosso controle, e D'us não interfere no nosso livre arbítrio. Porém, em relação ao segundo tipo de teste, quando a pessoa sinceramente acredita que não é uma transgressão, e o que causa o problema é a falta de claridade sobre o que é correto fazer, então a situação já não está mais completamente nas mãos da pessoa. Neste caso, quando a pessoa quer fazer o que é correto mas sabe que tem risco de ser enganada pelo Yetser Hará, então ela pode direcionar seu coração para D'us e pedir ajuda para que a verdade não seja obscurecida através de racionalizações. Portanto, nesta situação certamente a Tefilá é benéfica e pode ajudar a evitar as transgressões.

O Ben Ish Chai ressalta que Yoshua e Kalev enfrentaram o segundo tipo de teste. Os espiões eram gigantes espirituais, certamente não iriam deliberadamente denegrir a terra prometida por D'us sem nenhuma justificativa para seu comportamento. Ele explica que quando os espiões viram a enorme prosperidade da Terra de Israel, eles tiveram medo que caso descrevessem a verdadeira situação, o povo entraria em Israel com motivações incorretas, apenas focando nos ganhos materiais que poderiam ter, e não na possibilidade de poder cumprir todas as Mitzvót. Por isso eles decidiram falar mal da terra, na esperança de que o povo judeu, mesmo escutando as más notícias, decidiria entrar em Israel com motivações completamente espirituais e, com isso, receberiam uma recompensa muito maior. Porém, esta racionalização era apenas uma tentativa do Yetser Hará de impedir que o povo judeu entrasse na Terra de Israel, o que de fato aconteceu. Foi por isso que Moshé rezou, com sucesso, para que Yoshua, seu aluno mais próximo, fosse protegido de racionalizações deste tipo, que o faria acreditar que falar mal de Israel era uma grande Mitzvá. De forma similar, Kalev rezou para que pudesse manter a sua claridade e assim se proteger das armadilhas do Yetser Hará.

Aprendemos do Ben Ish Chai que há duas maneiras de uma pessoa transgredir: ou a pessoa transgride de forma intencional, ou a pessoa é enganada pelo seu Yetser Hará de forma que ela pensa que não está cometendo nenhuma transgressão. O mais grave dos dois desafios é certamente o segundo, pois quando a pessoa tem claridade dos seus atos, por mais que faça algo deliberadamente errado, ela tem grandes chances de futuramente se arrepender e não voltar a errar mais. Porém, quando o erro é fruto da falta de claridade, é muito provável que a pessoa repetirá o mesmo erro até o fim da vida, pois não entende que está fazendo algo errado, ao contrário, muitas vezes pensa que está até mesmo fazendo uma Mitzvá.

Segundo o Rav Chaim Vologziner (Lituânia, 1749 - 1821), esta falta de claridade surgiu após o erro de Adam Harishon (Adão). Antes de cometer a transgressão de comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, ele tinha total claridade do que era bom e o que era mal. As coisas eram tão claras que fazer uma transgressão era tão palpável quando colocar a mão no fogo. Não havia racionalização, o prejuízo causado por uma transgressão era óbvio. Mas quando ele transgrediu, trouxe para dentro de si a mistura do bem e do mal, a confusão. A consequência foi que perdemos a nossa claridade sobre a natureza do mal, a ponto de muitas vezes não termos mais discernimento sobre o que é bom e o que é ruim.

Se alguém nos oferecesse dinheiro para que falássemos mal publicamente de uma pessoa, nunca aceitaríamos, mesmo se o valor fosse alto, pois intelectualmente entendemos o dano espiritual causado pelo Lashon Hará (maledicência), e sabemos que o prejuízo espiritual eterno é muito maior do que o ganho material passageiro. Mas então por que falamos tanto Lashon Hará, e de graça? Pois deixamos que nosso Yetser Hará nos engane. Procuramos permissões onde elas não existem, nos apoiamos em exceções que não se aplicam ao caso, e transgredimos com a sensação de que acabamos de cumprir uma grande Mitzvá. Isto somente dificulta nosso arrependimento e o conserto dos nossos maus atos.

Como buscamos justificativas para a maioria dos nossos erros, devemos sempre fazer Tefilá para que D'us nos salve do desafio de sermos enganados pelo Yetser Hará. Pelo fato do nosso Yetser Hará estar constantemente buscando formas de nos fazer transgredir, precisamos estar sempre atentos para não sermos pegos na armadilha das racionalizações. Além disso, é importante a reflexão sincera e constante dos nossos atos, pois ela é a principal ferramenta para termos claridade, e nos permite andar nos caminhos corretos e cumprir nosso objetivo de vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 13:1-15:41, Js 2:1-24
 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

CADA PALAVRA CUSTA - PARASHÁ SHELACH 5772

"O Rabino Isroel Meir HaCohen, mais conhecido como Chafetz Chaim, se esforçou muito para ensinar as leis de uma das mais terríveis transgressões da Torá: o Lashon Hará, a maledicência, que pode causar danos físicos, econômicos e até mesmo psicológicos irreversíveis. O Chafetz Chaim aproveitava cada oportunidade para ressaltar o cuidado que precisamos ter com a nossa fala.
Certa vez o Chafetz Chaim estava viajando com seu genro, o Rav Tzvi Levinson, para levantar fundos para a sua Yeshivá, que ficava em Radin, na Polônia, cidade onde morava. Durante a viagem, se encontraram com um homem muito rico de Moscou, um judeu muito generoso que sustentava diversas instituições de Torá e fazia muitos atos de caridade. Eles foram recebidos com muito respeito e honra. O Chafetz Chaim começou a contar sobre o andamento da Yeshivá e suas principais necessidades, enquanto o milionário escutava atentamente.
Após alguns minutos, no meio da conversa, o Rav Tzvi pediu licença e foi para a sala ao lado, para enviar um telegrama urgente. O Chafetz Chaim então comentou com o doador:
- Você vê, aqui nesta sala ao lado há agora dezenas de pessoas sentadas, elaborando o texto de seus telegramas antes de enviá-los, pensando em cada palavra que será incluída. Você sabe por quê? Pois após o telegrama ser enviado, a pessoa terá que pagar por cada palavra escrita.
- Esta é a maneira de evitar o Lashon Hará - continuou o Chafetz Chaim - lembrando-se do cuidado que devemos ter com as palavras que dizemos. Pois quando sairmos deste mundo, as palavras utilizadas de maneira equivocada serão cobradas, cada uma delas. Portanto, o conselho é sempre pensar bastante antes de falar qualquer coisa.
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Quando estudamos a Torá, há muito ensinamentos que não estão apenas no entendimento literal dos versículos. Por exemplo, existe um conceito interessante chamado "Smichut Parashiot" (proximidade entre 2 assuntos) que nos revela muitos ensinamentos profundos. O que significa este conceito? D'us poderia ter escrito a Torá da maneira e na ordem que quisesse. Muitas Parashiót estão inclusive fora da ordem cronológica. Portanto, quando encontramos na Torá dois assuntos, aparentemente desconectados, escritos em sequência, é para nos ensinar que estes assuntos estão, de alguma maneira, conectados entre si. É o que ocorre com o assunto do fim da Parashá da semana passada, Bahalotechá, e o assunto do início Parashá desta semana, Shelach.
A Parashá da semana passada terminou com o Lashon Hará (maledicência) que Miriam fez de seu irmão Moshé. Apesar de ter sido com boas intenções, com o intuito de ajudar, e apesar de Miriam amar seu irmão, ela foi castigada com a Tzaraat, doença espiritual que causava manchas por todo o corpo. Nos locais onde a Tzaraat atingia o transgressor, a pele adquiria o aspecto de uma lepra, como se aquela parte do corpo estivesse morta. Já a Parashá desta semana, Shelach, começa descrevendo um dos erros mais graves cometidos pelo povo judeu durante a sua permanência no deserto. Quando o povo estava prestes a entrar em Israel, decidiu enviar 12 espiões em uma missão de reconhecimento da terra. Eles deveriam voltar com boas notícias, pois era uma terra muito boa, a terra onde flui o leite e o mel, a terra que D'us havia prometido para Avraham, Yitzchak e Yaacov. Mas dos 12 espiões enviados, 10 voltaram falando mal da terra, desanimando todo o povo. Qual a conexão entre estes dois assuntos.
Explica Rashi, comentarista da Torá, que os espiões viram as terríveis consequências que aconteceram com Miriam por causa do Lashon Hará, mas não aprenderam nada com isso, pois logo depois repetiram o mesmo erro, fazendo Lashon Hará da Terra de Israel e trazendo graves consequências para si mesmos e para o resto do povo. Os espiões que fizeram Lashon Hará morreram imediatamente em uma praga, enquanto toda aquela geração, que chorou por causa do relato dos espiões, foi proibida de entrar em Israel. O povo judeu ficou por 40 anos vagando pelo deserto, até que todos daquela geração tivessem morrido.
A proibição de Lashon Hará é uma das mais graves da Torá, e aquele que se acostuma a não controlar sua fala pode chegar a transgredir até 31 Mitzvót diferentes. Em Yom Kipur, se prestarmos atenção no Vidui (confissão das nossas transgressões), perceberemos que 25% do nosso arrependimento é em relação ao mau uso da nossa fala. O Beit Hamikdash (Templo Sagrado), que trazia Luz espiritual para todo o mundo, foi destruído por causa do Lashon Hará, há mais de 2 mil anos, e até hoje não tivemos o mérito de reconstruí-lo, pois continuamos caindo nesta grave transgressão.
Mas deste erro do povo judeu ficam algumas perguntas. Em vários lugares da Torá e do Talmud (Torá Oral) estão explícitas as leis e a gravidade do Lashon Hará. Então por que Rashi diz que os espiões deveriam ter aprendido com o erro de Miriam? Eles eram grandes Tzadikim, pessoas em um nível espiritual elevado, com certeza cumpriam as Mitzvót. Por que justamente o Lashon Hará deveria ter sido aprendido através de um "exemplo", se é algo que está explícito na Torá? Além disso, entendemos o castigo de Miriam, que falou mal de um ser humano, mas o que há de tão terrível em falar mal da terra de Israel, um objeto sem vida, que não se ofende?
Explica o Rav Yohanan Zweig que para responder estas perguntas precisamos voltar ao final da Parashá passada. Imediatamente após Miriam ter feito Lashon Hará de Moshé, a Torá escreve um versículo aparentemente fora de contexto: "E o homem Moshé era extremamente humilde" (Bamidbar 12:3). Qual a conexão entre esta característica de Moshé e o Lashon Hará feito por Miriam?
Em geral, o Lashon Hará só é visto como uma transgressão "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), isto é, achamos que a consequência mais destrutiva do Lashon Hará é o seu efeito social nocivo. Embora este efeito social negativo seja realmente terrível, afastando pessoas e causando muitas mágoas e desentendimento, na realidade esta não é a maior consequência negativa do Lashon Hará. Há algo ainda pior, uma consequência ainda mais marcante, que são as forças desencadeadas pelo Lashon Hará e que atingem a própria pessoa que falou.
Por que a Torá escreveu, logo após o Lashon Hará de Miriam, que Moshé era uma pessoa tão humilde? Para ressaltar que ele era tão simples, tão desconectado de qualquer sentimento de rancor, que não foi atingido, de nenhuma maneira, pelas palavras negativas que Miriam pronunciou. Portanto, o único dano causado pelo Lashon Hará de Miriam foi o dano causado a ela mesma. Mas que dano foi este?
Quando D'us criou o mundo, criou-o com palavras. E quando D'us criou o ser humano, criou primeiro seu corpo e depois colocou dentro dele uma alma, como está escrito: "E D'us formou o homem do pó da terra, e Ele soprou em seu nariz uma alma de vida. E o homem se tornou uma alma viva" (Bereshit 2:7). Unkelos, que traduziu toda a Torá para o aramaico, traduziu "alma viva" como "alma falante", deixando claro que a fala e a vida estão diretamente conectadas. Se a pessoa utiliza a fala para o bem, se comporta como D'us e traz vida para o mundo. Mas se utiliza a fala para o mal, se afasta de D'us e causa morte e destruição. O Lashon Hará é o oposto da vida e, por isso, causa com que parte do transgressor morra. Isto se reflete na doença espiritual da Tzaraat, que atingia aquele que falava Lashon Hará causando manchas, parecidas com lepra, dando a impressão de que partes do seu corpo haviam morrido, uma alusão à morte causada ao próprio transgressor. Foi por isso que Aharon, ao implorar para que Moshé rezasse por Miriam após ela ter sido atingida pela Tzaraat, disse: "Não deixe que ela esteja como uma morta" (Bamidbar 12:12).
Apesar de a Torá estar repleta de menções explícitas à grave transgressão do Lashon Hará, até o acontecimento com Miriam a mensagem de que o Lashon Hará destrói a vida daquele que fala, mesmo quando aquele sobre quem está sendo falado não é afetado, não estava tão clara. Os espiões perderam a oportunidade de aprender esta lição. Se esta mensagem tivesse sido absorvida pelos espiões, eles entenderiam a gravidade de falar Lashon Hará sobre a terra de Israel, apesar de ser algo inanimado. Pois pior do que o dano que o Lashon Hará causa para o outro é o dano causado ao próprio transgressor.
Diferente de outras transgressões, em que todo o ato conta apenas como uma transgressão, quando a pessoa faz Lashon Hará, cada palavra proferida é uma transgressão por si só. Além de toda a destruição e tristeza que podemos causar aos outros, o pior efeito do Lashon Hará é a destruição que causamos para nossa própria alma. Apesar de não termos mais a Tzaraat, nossa alma continua sendo prejudicada por cada palavra mal utilizada. Por isso, como alguém que vai enviar um telegrama caro, pense bem no que você vai falar, antes de abrir a boca, pois depois de pronunciadas, somente nos restará pagar a conta de cada palavra mal utilizada.

 SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 13:1-15:41, Js 2:1-24, Hb. 3:7-4:11