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sábado, 26 de agosto de 2017

ANDANDO COM D'US - PARASHÁ SHOFTIM 5777

"Certa vez um policial antissemita viu dois judeus religiosos em uma moto. Ele quis dar uma multa naqueles judeus, mas precisava de algum motivo para isso. Montou em sua moto e começou a acompanhá-los, sabendo que mais cedo ou mais tarde eles fariam alguma manobra proibida. Provavelmente parariam a moto sobre a faixa de pedestres, ultrapassariam de maneira perigosa ou fariam uma conversão sem acionar o pisca alerta. Era só questão de tempo para poder multá-los.

Porém, o tempo começou a passar e o policial não os via cometendo absolutamente nenhuma falha. Eles respeitavam todas as leis de trânsito, acionavam o pisca alerta antes de qualquer conversão, aguardavam pacientemente o sinal verde e não andavam entre os carros. Depois de mais de meia hora perseguindo os dois judeus, o policial não aguentou mais. Muito irritado, ele mandou-os descerem da moto e disse:

- Vou falar a verdade para vocês. Estou há meia hora acompanhando a moto de vocês, de olho em tudo o que vocês fazem, e estou impressionado. Vocês não fizeram absolutamente nada errado! Como isto é possível?

- É fácil para nós evitarmos fazer coisas erradas - respondeu um dos judeus - pois sabemos que D'us está nos observando o tempo inteiro. Quando andamos de moto, sabemos que D'us está conosco na moto.

O policial, ao escutar isso, deu um sorriso maldoso, tirou do bolso seu talão de multas e disse:

- 3 na moto? Estão multados..."

Apesar da piada, o verdadeiro segredo de não cometermos transgressões é vivermos com a certeza de que a presença de D'us está sempre conosco, em tudo o que fazemos, mesmo nos pequenos detalhes do cotidiano.
Nesta semana lemos a Parashá Shoftim (literalmente "Juízes"), que começa nos ensinando sobre a importância de estabelecermos um sistema de justiça, com juízes para fazerem os julgamentos e policiais para fazerem a lei se cumprir na prática, como está escrito: "Vocês devem estabelecer para vocês juízes e policiais nas cidades que D'us está dando para vocês" (Devarim 16:18).

De acordo com algumas opiniões, a divisão das Parashiót semanais da forma que nós seguimos atualmente ocorreu na época do Exílio da Babilônia, após a destruição do Primeiro Beit HaMikdash (Templo Sagrado). Porém, na própria Torá já há um sistema de divisão de assuntos, também chamado de "Parashiót". Em um Sefer Torá temos as "Parashiót Petuchót" (literalmente "trechos abertos") e as "Parashiót Stumót" (literalmente "trechos fechados"). Explicando de maneira superficial, no Sefer Torá uma "Parashá Petuchá" começa como uma nova linha em relação ao assunto anterior e define um novo capítulo, enquanto uma "Parashá Stumá", apesar de separada por alguns espaços em branco, começa na mesma linha do assunto anterior e define apenas um novo parágrafo.

O primeiro assunto trazido na nossa Parashá, que fala sobre o estabelecimento de juízes, é uma "Parashá Stumá", isto é, não define um novo capítulo em relação ao assunto anterior, apenas um novo parágrafo. A Parashá da semana passada, Reê, terminou com o ensinamento dos "Shalosh Regalim", as três grandes Festividades (Pessach, Shavuót e Sucót) nas quais cada judeu tinha a obrigação de ir até Jerusalém para oferecer um Korban (sacrifício) no Beit Hamikdash. O último dos Shalosh Regalim mencionados na Parashá é a Festa de Sucót, na qual dormimos por uma semana em cabanas ao ar livre. Se a Torá não fez nenhuma "quebra" entre estes dois assuntos, significa que há alguma conexão forte entre eles. Qual é a mensagem que a Torá está nos transmitindo?

Existem leis que definem como deveriam ser estabelecidos os Tribunais de Justiça em cada cidade da Terra de Israel. De acordo com o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), cada cidade deveria ter um "Pequeno Sanhedrin", composto por 23 juízes. Além disso, cada juiz precisava ter dois suplentes, chegando a um total de 69 juízes para compor o Tribunal de Justiça local. E a obrigação do estabelecimento de um "Pequeno Sanhedrin" se aplicava a qualquer cidade com mais de 120 habitantes.

Porém, este ensinamento do Rambam desperta um grande questionamento. Qual é a lógica de estabelecer um Tribunal de Justiça composto por 69 juízes em uma cidade de 120 habitantes? Quantos casos judiciais este Tribunal teria que julgar para justificar este número tão grande de juízes em uma cidade com tão poucas pessoas? E se até pequenas cidades de 120 habitantes tinham um Tribunal de Justiça, então o número de Tribunais em toda a Terra de Israel chegava a milhares. Qual é a necessidade de tantos Tribunais de Justiça e de tantos juízes?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a função de um Tribunal de Justiça não é apenas aplicar a lei e fazer a justiça prevalecer. Além de obviamente manter a ordem e a justiça, o juiz deve ser um canal para as palavras de D'us. Ele tem a obrigação de criar uma sociedade na qual presença de D'us pode ser constantemente sentida. Mas por que isto é tão importante? O papel do juiz não deveria ser apenas causar o temor nas pessoas de que o descumprimento da lei tem como consequência a aplicação de castigos pelo Tribunal?

A experiência demonstra que um sistema de justiça construído apenas com base na premissa de que as pessoas não cometerão transgressões por medo das consequências normalmente não tem sucesso. Por exemplo, quando a pessoa percebe que há brechas na lei, ela se sente estimulada a transgredir. Quanto menores forem os riscos de ser pego e punido e maiores forem os ganhos com a transgressão, maior será o número de pessoas que optará por transgredir a lei. É justamente isto que está ocorrendo na atual crise política brasileira. A aplicação da lei no Brasil é extremamente falha e os políticos sabem que, enquanto a chance de realmente serem punidos é muito pequena, a possibilidade de desvio de dinheiro envolve milhões de reais. Isto causa com que a grande maioria dos políticos decida que vale a pena ser desonesto e desrespeitar a lei. Mesmo aqueles que são pegos pela justiça, principalmente através das delações, acabam sendo soltos pouco tempo depois ou pegam penas muito pequenas, desproporcionais aos milhões desviados. Em outras palavras, há muita corrupção no Brasil pois, na maioria dos casos, os crimes não são punidos pela justiça, fazendo com que o crime "valha a pena".

Porém, isto não acontece apenas no Brasil. Em qualquer lugar do mundo, em épocas de desastres naturais, guerras ou apagões, aumenta muito o número de delitos, como saques a lojas e casos de violência. Por que? Quando a cidade está um caos, as pessoas sabem que a polícia não dará conta de prender todos os transgressores e, por isto, se sentem estimuladas a cometer maus atos. É o que nos ensinam os nossos sábios: "Se não fosse pelo temor (das autoridades), a pessoa engoliria seu companheiro vivo" (Pirkei Avót 3:2).

Então qual é a solução para desenvolvermos uma sociedade justa e equilibrada? Enquanto no Brasil as manchetes dos jornais estão sempre recheadas de notícias sobre roubos e desvios, na cidade de Bnei Brak, em Israel, frutas são oferecidas na rua sem vendedor e livros são vendidos nas sinagogas sem ninguém vigiando. Há apenas uma caixinha onde o comprador deixa o dinheiro da compra, sem nenhum tipo de controle. E o mais incrível é que a cidade de Bnei Brak não tem nenhuma delegacia de polícia. Qual é o segredo? A Torá nos ensina que há apenas um sistema efetivo para impedir que as pessoas cometam transgressões: quando entendemos que há algo intrinsecamente errado em violar a lei, independente de qualquer futura punição aplicada pela Justiça ou pela polícia. Portanto, um judeu não deve cumprir as leis apenas pelo medo do castigo aplicado pelo Tribunal, mas principalmente pelo medo da transgressão por si só. Quando as pessoas vivem com a consciência de que D'us vê tudo o que ocorre e que todos os nossos atos têm consequências, desenvolvem uma sociedade verdadeiramente honesta.

Podemos utilizar este conceito para responder os nossos questionamentos. Apesar de um juiz também ter como função a aplicação dos castigos aos que transgridem a lei, sua principal contribuição deve ser justamente criar esta atmosfera necessária de temor a D'us. Se o propósito do sistema judicial fosse apenas criar o medo do castigo, não seriam necessários tantos juízes, ao contrário, um reforço da força policial seria muito mais efetivo. Porém, como o propósito principal de um juiz é criar uma sociedade onde a presença de D'us é palpável, então é possível entender a necessidade de tantos juízes, até mesmo em cidades tão pequenas.

Esta também é a conexão com a Festa de Sucót, na qual abandonamos nossas casas e, por uma semana, vivemos na "sombra de D'us". Da mesma forma que o propósito de um juiz é trazer à sociedade uma atmosfera da presença de D'us, a Sucá também é um lugar onde a presença de D'us é sentida de uma maneira mais palpável. E um dos principais motivos de passarmos uma semana inteira dentro da Sucá é para trazermos para o ano inteiro esta percepção mais palpável da presença de D'us entre nós.

Estamos entrando no mês de Elul, o último mês antes do nosso julgamento de Rosh Hashaná. É a chance de consertarmos os nossos erros e fazermos decisões verdadeiras de melhorar. A claridade de que D'us está sempre perto é fundamental para evitarmos as transgressões e para nos incentivar no nosso crescimento espiritual. Normalmente erramos por termos sempre desculpas e justificativas para fugir das nossas responsabilidades. Mas com a consciência de que D'us está presente em cada momento podemos ser mais honestos com nós mesmos. Além disso, viver constantemente com D'us ao nosso lado nos dá muito mais segurança e tranquilidade. 
"D'us está onde permitem que Ele entre" (Kotzke Rebe)
Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

MESMO COM A ESPADA NO PESCOÇO - PARASHÁ SHOFTIM 5776

"Chaim foi levado a julgamento, acusado de um grave crime. Era uma acusação tão pesada que, caso ele fosse condenado, poderia receber a pena de morte. Seus parentes e amigos não economizaram para contratar os melhores advogados e fazer de tudo para inocentá-lo. Porém, apesar dos esforços incansáveis dos advogados, eles não tiveram sucesso em derrubar as acusações da promotoria. Infelizmente Chaim foi condenado à morte.

O desapontamento foi enorme, mas não era motivo para desistir. Ainda havia a possibilidade de recorrer a uma instância superior e apelar pela revogação da pena. Para este novo julgamento foram contratados mais advogados e uma enorme fortuna foi investida para tentar salvar Chaim. Mas novamente a promotoria foi mais forte e o decreto se manteve.

A situação foi ficando cada vez mais séria, pois as chances de reverter a pena foram diminuindo. Mas ainda havia uma esperança: o pedido de clemência feito diretamente ao rei. Foram recrutadas pessoas importantes, que tinham acesso direto ao rei, para que falassem coisas boas sobre Chaim. Além disso, a família de Chaim transbordou a caixa de correio do palácio real com cartas que descreviam a situação difícil da família de Chaim, em especial seus jovens filhos e seus pais idosos, além de outros fatos que poderiam despertar a misericórdia do rei. Porém, todos os esforços pareciam ser em vão, pois o decreto continuava de pé e a data da execução se aproximava. A família e os amigos já estavam entrando em depressão, pois Chaim foi levado ao "corredor da morte" para aguardar sua execução. Sobrava ainda apenas uma pequena ponta de esperança, irracional, de que algo inesperado aconteceria para salvá-lo, quem sabe algum milagre.

Quando chegou o fatídico dia, Chaim foi levado para a sala de execuções. Os familiares, ao escutarem as notícias, ficaram desesperados e perderam as últimas esperanças. Já não havia mais nada que podiam fazer para salvá-lo.  A pessoa apontada pelo tribunal para aplicação da pena de morte desembainhou sua espada, verificou se ela estava devidamente afiada e apoiou sobre o pescoço de Chaim, que ficou aguardando os poucos segundos até o golpe final. Quando o homem levantou a espada para dar o golpe fatal, um grito o fez parar. O rei entrou subitamente na sala de execução e mandou interromper a aplicação da pena. O pedido de clemência havia sido aceito. No último momento, quando já praticamente não restavam esperanças, chegou a salvação".

Explica o Rav Yitzchak Zeev Soloveitchik zt"l (Bielorússia, 1886 – Israel, 1959) que esta é uma ilustração do famoso ensinamento dos nossos sábios: "Mesmo se uma espada afiada está apoiada sobre seu pescoço, não desista da misericórdia". Nunca podemos desistir, mesmo quando tudo parece perdido. Esta é a Emuná (fé) verdadeira. 
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Na Parashá desta semana, Shoftim (literalmente "Juízes"), a Torá fala sobre as futuras guerras que o povo judeu travaria na conquista de Israel. Moshé deu um discurso para fortalecer a Emuná (fé) do povo, como está escrito: "Quando você sair para a guerra contra seus inimigos, e vir o cavalo e a charrete, um povo mais numeroso que você, não os tema, pois D'us está com você, Quem te tirou da terra do Egito" (Devarim 20:1). Moshé estava especialmente preocupado com o medo que o povo judeu poderia sentir de seus inimigos, pois após o relato dos dez espiões, que voltaram dizendo que os habitantes da Terra de Israel eram gigantes e as cidades eram muito fortificadas, o medo e a insegurança fez com que o povo chorasse e aquela geração inteira fosse proibida de entrar em Israel.

Porém, ao refletir sobre este discurso de Moshé para fortalecer a Emuná do povo, surge um questionamento. Por que foi tão grave aquele choro do povo judeu? Não é natural sentir medo diante de uma grande dificuldade ou uma situação na qual as condições são adversas? Como reagiríamos ao escutar que os inimigos que vamos enfrentar são gigantes que vivem em fortalezas? Qual foi exatamente a falha do povo, pela qual mereceram receber um castigo tão duro?

Explica o Rav Yechezkel Levenstein zt"l (Polônia, 1895 - Israel, 1974) que é uma obrigação daquele que tem Emuná saber que não há nada que D'us é incapaz de fazer. Temos a obrigação de reconhecer que não existe em toda Criação nenhuma lei ou força independente do controle total Dele. Nada acontece sem a Sua permissão, nem mesmo a folha de uma árvore cai se esta não foi a Sua vontade.

Mas manter a nossa Emuná completa em todas as situações não é algo fácil e muitas vezes nós tropeçamos nesta Mitzvá, pois acabamos associando que as coisas acontecem por "causas naturais", como se fossem forças independentes de D'us e sem a Sua supervisão. Até mesmo grandes personalidades da Torá tiveram seus pequenos deslizes nesta área. Por exemplo, quando Sara escutou o anjo disfarçado de beduíno avisando para Avraham que eles teriam um filho, sua primeira reação foi rir com descrédito, recebendo uma dura crítica de D'us: "Existe algo impossível para D'us?" (Bereshit 18:14). De acordo com as "leis da natureza" realmente era impossível Sara engravidar aos 90 anos. Porém, vivemos em um mundo que não é regido pelas leis da natureza, e sim por D'us, que tem controle sobre tudo. Sara, aos 90 anos, engravidou e teve um filho, indo contra todas as forças e leis da natureza.     

Ter Emuná significa ter a certeza de que, da mesma forma que D'us criou o universo inteiro, Ele pode mudar toda a ordem da Criação se esta for a Sua vontade. D'us renova Sua Criação a cada instante e, portanto, pode mudar qualquer lei do mundo quando quiser. Isto significa que aquele que tem Emuná verdadeira tem a obrigação de nunca desistir, em qualquer tipo de situação. Mesmo que um doente já esteja desacreditado pela medicina, mesmo quando tudo parece perdido, não podemos desistir, como ensina o Talmud (Brachót 10a): "Mesmo que uma espada afiada esteja colocada sobre seu pescoço, não desista da misericórdia". É proibido desistir da misericórdia de D'us em qualquer situação. A única coisa que pode mudar é a intensidade das nossas Tefilót (rezas) e pedidos para D'us, pois a Tefilá aumenta os nossos méritos e, em situações difíceis, são necessários mais méritos para uma intervenção Divina.

Muitos pensam que aquele que tem Emuná está em um nível especial e diferenciado. Mas a verdade é que não existe Emuná "pela metade", temos a obrigação de desenvolver uma Emuná completa. Seremos julgados pela nossa falta de Emuná mesmo em assuntos que, de acordo com as "leis da natureza", parecia não haver mais esperança ou salvação. Por que a falta de Emuná é considerado algo tão grave, a ponto de uma geração inteira ter perdido o mérito de entrar em Israel? Pois D'us tem controle total sobre tudo o que ocorre no universo, cada pequeno detalhe. Ele controla até mesmo cada grama que cresce e cada gota de chuva que cai. Para D'us não existe nenhuma diferença se existem "causas naturais" para a salvação ou não. Portanto, quando a pessoa perde suas esperanças, é como se estivesse limitando as possibilidades de D'us e dando forças independentes para as leis da natureza. Esta foi a grande bronca de D'us em Sara, pois o riso, mesmo sem intenção, demonstrou que ela não acreditava com toda sua força que D'us poderia reverter as leis da natureza que Ele mesmo criou. O choro do povo judeu demonstrou que eles não acreditavam que D'us poderia leva-los à vitória, limitando-O, e por isso não mereceram entrar em Israel.

Podemos tropeçar neste tipo de erro no nosso cotidiano. Quando estamos procurando uma vaga de estacionamento, muitas vezes não rezamos por pensar que isto é "algo pequeno demais para incomodar D'us". Porém, na realidade isto é falta de Emuná. É difícil para D'us, que criou todo o universo, conseguir uma vaga para nós? D'us é limitado e não consegue cuidar de várias coisas ao mesmo tempo? Não pedir a vaga é como se estivéssemos limitando a capacidade de atuação de D'us no mundo e, portanto, é considerado um grande erro. O correto é justamente o contrário, pois quando pedimos a D'us coisas pequenas do cotidiano, colocamos no coração a certeza de que tudo vem Dele.

Há ainda outro grande teste de Emuná que talvez é ainda mais difícil: conseguir lembrar que tudo vem de D'us mesmo nas situações em que há "causas naturais" para que algo ocorra. Por exemplo, uma enfermidade cuja cura é conhecida pela medicina. Neste caso, o grande teste é conseguir enxergar que a salvação não está vindo dos remédios ou da habilidade do médico, e sim diretamente de D'us. Esquecemos que foi D'us quem decretou que aquele remédio cure, e que foi Ele quem deu sabedoria ao médico para fazer o diagnóstico correto e receitar o remédio adequado.

A própria linguagem do versículo já demonstra o quanto não podemos nos deixar levar pelas impressões do mundo material. "Um povo mais numeroso que você" significa que, mesmo que pelas leis da natureza não haveria chance de vencer o inimigo, o povo judeu deveria estar confiante na vitória e não deveria sentir nenhum tipo de temor. Rashi (França, 1040 - 1105) explica que a linguagem "cavalo e charrete", no singular, significa que não importa quantos cavalos e charretes se levantam contra o povo judeu, aos olhos de D'us é tão insignificante quanto um único cavalo e uma única charrete. Também a linguagem "mais numeroso que você" é como se D'us estivesse dizendo: "Para você eles são mais numerosos, mas para Mim eles não são numerosos".  A Torá está nos ensinando que o sentimento do povo judeu quando sai para a guerra deve ser a mesma tranquilidade de quem sai para combater um único cavalo e uma única charrete, pois enquanto nossos inimigos apostam na vitória de pessoas de carne e osso, nós apostamos na vitória de D'us, e aos olhos Dele não há nenhuma diferença se é um povo numeroso ou não.

Na verdade, a Mitzvá de Emuná é ainda mais profunda do que imaginamos. Não apenas que não há nenhum benefício em se apoiar nas "causas naturais", mas ao contrário, a salvação de D'us vem justamente no momento em que parece que não há mais esperanças. Assim nos ensinou David HaMelech: "Muitas são as aflições do Tzadik (Justo), mas de todas elas D'us o salva" (Tehilim 34:19). A salvação de D'us vem justamente quando parece que são muitas as aflições que recaem sobre o Tzadik, como se não houvesse mais nenhuma chance de salvação. O motivo que D'us coloca a pessoa em uma situação na qual aparentemente não há esperanças é para que Ele possa avaliar se a sua Emuná é completa ou não.

Daqui aprendemos, portanto, que todo o tempo em que confiamos nas "causas naturais" e nos sentimos dependentes delas, é um sinal que estamos desconectados da nossa Emuná verdadeira. A Emuná exigida de nós é uma confiança plena em D'us, de que Ele está no controle e sempre faz o que é o melhor para nós. Quando realmente internalizarmos este conceito, perceberemos que as dificuldades são apenas testes que Ele manda para nos ajudar a crescer e melhorar em diversas área, em especial na Emuná. Mesmo quando a espada afiada está sobre o nosso pescoço, para D'us trazer a salvação não existe nenhuma dificuldade, pois para Ele não há diferença se está perto do fim ou não. A Emuná nos permite, apesar de vivermos em um mundo de incertezas e dificuldades, encontrar um oásis de tranquilidade e paz.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

BONDADE À PROVA DE NEVE - PARASHAT SHOFTIM 5775

Jerusalém é uma cidade que literalmente para quando ocorre uma nevasca. Como em Israel não neva todos os anos, e mesmo quando neva são apenas alguns poucos dias, então não existe uma estrutura preparada para fazer com que o país funcione após uma nevasca. Por exemplo, não existem equipamentos para limpar e retirar a neve acumulada nas ruas, o que impede as pessoas de circularem de carro. Portanto, quando ocorre uma nevasca em Jerusalém, por dois ou três dias tudo fica paralisado, e as pessoas acabam ficando presas em casa, sem conseguir sair.

Normalmente isto não é um problema. Ao contrário, as crianças fazem guerras de neve na rua e os adultos também acabam se divertindo. Mas às vezes as nevascas podem se transformar em grandes dores de cabeça. Foi o que aconteceu com as famílias Cohen e Diamant (nomes fictícios). O casamento destas famílias estava marcado justamente para a noite em que ocorreu uma grande nevasca em Jerusalém. A pergunta na cabeça de todos era: como os noivos e os convidados conseguiriam chegar até o salão de festas?

Quanto à dificuldade dos noivos chegarem, o problema foi facilmente resolvido. O noivo vivia próximo o suficiente do salão de festas para conseguir chegar lá caminhando. A noiva, que morava um pouco mais longe, foi transportada por uma ambulância da "Hatzalá" (equipe de resgate). Mas o grande problema eram os convidados, justamente os responsáveis por alegrar o casamento. Infelizmente a grande maioria não conseguiria ir, pois não havia qualquer meio de transporte disponível.

A notícia de que haveria uma festa de casamento com grandes chances de ser um fracasso começou a correr entre os judeus religiosos, e chegou às Yeshivót e Seminários para moças. Ao escutar a difícil situação do noivo e da noiva, muitos rapazes das Yeshivót e moças dos Seminários que ficavam no mesmo bairro do salão de festas vieram para participar do casamento e trazer alegria. O lugar logo ficou completamente lotado de pessoas animadas, que apesar de nem conhecerem o noivo e a noiva, faziam de tudo para alegrá-los. A vontade de ajudar era tanta que vieram muito mais pessoas do que havia sido programado. Era tanta gente, em um gesto de amor ao próximo tão impressionante, que em pouquíssimo tempo a comida já havia terminado. 

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Nesta semana lemos a Parashat Shoftim, que nos ensina diversos assuntos, tais como a pena aplicada para pessoas que faziam idolatria, as leis referentes à futura escolha de um rei para o povo judeu, o cuidado com falsas testemunhas e o comportamento do povo judeu durante as guerras.

Em relação às guerras, a Torá nos ensina um detalhe interessante. Antes das batalhas se iniciarem, algumas pessoas eram dispensadas do serviço militar, como está escrito: "Quem é o homem que construiu uma casa nova mais ainda não a inaugurou? Que se vá e volte para sua casa, para que não morra e outro homem a inaugure. Quem é o homem que plantou um vinhedo e ainda não o redimiu? Que se vá e volte para sua casa, para que não morra e outro homem o redima. Quem é o homem que noivou com uma mulher mais ainda não casou com ela? Que se vá e volte para sua casa, para que não morra e outro homem case com ela" (Devarim 20:5-7).  A Torá especificamente registrou três categorias de pessoas que eram dispensadas da guerra. O ponto em comum é que eram pessoas que haviam deixado algo inacabado e, por isso, ficariam preocupadas demais, com medo de morrer na guerra e nunca terminar o que havia ficado pendente.

Muitos comentaristas entendem que esta lei da Torá era uma medida prática. Qualquer soldado que estivesse em uma destas três categorias ficaria, mesmo durante a guerra, com a cabeça completamente ocupada com os pensamentos do que havia deixado para trás, certamente prejudicando seu desempenho. Além disso, sua falta de foco podia ter um impacto negativo sobre seus colegas, diminuindo a moral deles. Por isso, pela segurança do povo, era questão de bom senso dispensar do exército pessoas que se enquadravam nestas três categorias.

Porém, se esta é a explicação do motivo da dispensa, então por que a Torá trouxe apenas estas três situações? Certamente existem centenas de outras situações que fazem com que a pessoa perca o seu foco. Por exemplo, uma pessoa que está com muitas dificuldades na educação de seu filho, uma criança extremamente rebelde e malcriada, ele também não consegue manter seu foco por estar perturbado com seus problemas familiares. Apesar disso, a Torá não inclui este tipo de situação entre as dispensas militares. Por que justamente estas três são mencionadas pela Torá, se existem muitas outras situações que desviam o foco da pessoa?

A pergunta fica ainda mais difícil quando olhamos a explicação dada por Rashi (França, 1040 - 1105), que afirma que estas três situações em especial causam "Agmat Nefesh" (tormento da alma). Mas se todo o problema era apenas a falta de foco, por que Rashi utilizou uma linguagem tão "poética", de "tormento da alma", ao invés de simplesmente ter explicado que o motivo é a falta de concentração por causa das outras preocupações que podem estar na cabeça do soldado?

A resposta está em um interessante ensinamento do Talmud (Sotá 2a), que afirma que 40 dias antes da formação de um feto (neste caso a expressão "formação" refere-se ao momento em que a alma entra no feto em desenvolvimento), uma Voz Celestial anuncia quem será sua futura esposa, onde será sua residência e de onde virá seu sustento. De acordo com nossos sábios, 40 dias antes da formação do feto é justamente o momento da concepção física, quando todos os dados genéticos contidos no DNA começam a atuar no desenvolvimento do bebê. Neste momento da concepção física, detalhes como a inteligência, a aparência, as habilidades e as inclinações da criança, isto é, os dados genéticos que compõe as características básicas dela, já começam a atuar. Mas por que o Talmud afirma que exatamente neste mesmo momento é anunciado ao feto quem será sua esposa, onde será sua residência e de onde virá seu sustento?

De acordo com o Rav Yohanan Zweig, o Talmud está nos ensinando que, apesar destas três coisas parecerem apenas detalhes externos à essência do ser humano, elas são fatores fundamentais na definição e na forma como se expressa a essência da pessoa, exatamente como a carga genética dela. A esposa é a alma gêmea da pessoa, a parte que falta para completar a sua alma. Também a casa e a profissão de uma pessoa são maneiras de definir a sua essência. Por exemplo, o médico é chamado de "doutor" mesmo quando não está trabalhando, pois sua profissão torna-se parte do seu nome. De forma semelhante, o chefe de família é chamado de "Baal HaBait" (dono da casa), pois ter uma casa o torna uma pessoa mais completa.

Ao dispensar estas três categorias de pessoas do serviço militar, a Torá está nos ensinando uma importante lição: a necessidade de iniciar um casamento, de começar um trabalho e de ter a sua própria casa causam uma preocupação muito forte no ser humano. Não se trata apenas do desvio de foco por causa de algo que o incomoda. Como estes três assuntos definem o próprio "eu" da pessoa, e são formas da alma se definir e se expressar, o fato de não ter completado algum destes processos, junto com o temor de que outra pessoa pode vir a colher os frutos do seu árduo trabalho, chegam a trazer tormento para a alma do soldado, impedindo-o de exercer de maneira eficiente suas funções no exército. Neste caso, é melhor ele voltar para casa e terminar o que está pendente do que ficar, completamente atormentado, na frente de batalha.

Atualmente estes fatores não são levados em consideração para dispensar alguém do exército. Então como podemos utilizar este conceito da Parashat para nossas vidas? Em primeiro lugar, isto nos desperta sobre o verdadeiro valor das nossas esposas e maridos, do nosso trabalho e da nossa casa. Como são coisas que estamos em contato constante, infelizmente acabamos nos acostumando e deixando de dar o seu devido valor.

Além disso, há outra aplicação prática: o Chessed (bondade) que podemos fazer aos outros. Se estas três coisas são tão importantes na vida do ser humano, a ponto de definirem sua essência, então devemos nos esforçar muito para ajudar aqueles que ainda não conseguiram atingi-las. E se pararmos para refletir, perceberemos que as oportunidades de fazer Chessed nestas áreas são imensas. Por exemplo, podemos ajudar alguém desempregado a conseguir um bom emprego, fazendo-o se sentir mais completo. Também podemos participar ativamente da Mitzvá de "Achnassat Kalá", isto é, ajudar casais com dificuldades financeiras a realizarem sua festa de casamento. Também é um grande Chessed ir a uma festa de casamento e, ao invés de se preocupar em comer e se divertir, focar em alegrar o noivo e a noiva e fazer daquele momento algo muito especial para eles.

Pessoas que se sentiam "incompletas" não podiam lutar no exército contra seus inimigos. Da mesma maneira, muitas vezes pessoas que se sentem "incompletas" podem também não conseguir vencer suas batalhas do dia a dia. Por isso é tão importante ajudá-las, principalmente nestas três áreas, para que voltem a ter tranquilidade e possam seguir suas vidas de forma mais harmônica e equilibrada.
SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ESPANTANDO A MORTE - PARASHÁ SHOFTIM 5774

Era uma sexta-feira de tarde e Jony, que ainda era um calouro na faculdade, voltava para casa. Ele viu Caio, um rapaz da sua sala, caminhando para casa e levando todos os seus livros. Jony se perguntou por que alguém levaria para casa tantos livros na sexta-feira. Chegou à conclusão de que aquele rapaz deveria ser um "Nerd". No final de semana de Jony não havia espaço para livros. Já estava tudo planejado: festas, diversões e um jogo de futebol com os amigos no domingo. Conforme Jony foi caminhando, viu um grupo de rapazes correndo em direção a Caio. Eles arrancaram todos os livros dele e, dando gargalhadas, o empurraram. Caio caiu no chão, enquanto seus óculos voaram longe.

Caio levantou o rosto e Jony viu uma terrível tristeza em seu olhar. Ficou com pena e correu para ajudá-lo. Não pôde deixar de reparar na lágrima que escorria pelo rosto de Caio enquanto ele agradecia pela ajuda. Começaram a conversar e Jony descobriu que Caio morava perto de sua casa. Voltaram juntos, e Caio revelou ser um rapaz legal. Jony aproveitou para convidá-lo para jogar futebol no domingo. Na segunda-feira Caio voltou com todos os seus livros para a faculdade. Jony fez uma pequena piada e perguntou por que levar e trazer de volta todos os livros, mas Caio não respondeu, simplesmente mudou de assunto. Jony e Caio acabaram se tornando melhores amigos durante os anos de faculdade.

Os anos se passaram e a formatura da faculdade se aproximava. Caio foi escolhido como o orador oficial da turma. Ele havia realmente se encontrado durante aqueles anos de faculdade. Estava mais encorpado e havia se tornado um rapaz bonito, respeitado pelos amigos e popular entre as meninas. Visivelmente nervoso, Caio subiu no palco e começou seu discurso:

- A formatura é um momento especial, no qual podemos agradecer àqueles que nos ajudaram durante estes anos difíceis. Pais, professores, irmãos... mas principalmente aos amigos. Eu estou aqui para dizer que ser um amigo para alguém é o melhor presente que você pode dar a outra pessoa. E eu vou explicar porque isto é tão importante...

Para a surpresa de Jony, Caio começou a relembrar o dia em que eles se conheceram, anos atrás. E ele revelou algo terrível. Caio contou que estava muito infeliz, se sentindo deslocado na faculdade, sem amigos. Sua tristeza era tanta que ele havia planejado se matar naquele final de semana. Caio revelou então o mistério dos livros: naquela sexta-feira, ele havia esvaziado seu armário para que sua mãe não tivesse que fazer isso depois que ele se matasse. Caio, visivelmente emocionado, olhou diretamente nos olhos de Jony, deu um sorriso e disse: "Com uma pequena atitude, meu amigo salvou minha vida".

Aquele rapaz popular e bonito contava a todos, de forma aberta e corajosa, sobre um momento de fraqueza. Até aquele dia Jony jamais havia se dado conta da grandeza do ato que havia feito. Naquele instante ele aprendeu a lição mais importante de sua vida: com um pequeno gesto, podemos mudar completamente a vida de uma pessoa, e até mesmo salvar uma vida.

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Na Parashá desta semana, Shoftim, entre outros assuntos, a Torá descreve uma situação na qual um corpo é encontrado em uma região não habitada, no caminho entre duas ou mais cidades, de forma que não é possível identificar o assassino e nem mesmo de onde aquela pessoa que foi morta estava vindo. A Torá então nos ensina que nesta situação deveria ser feito um ritual de expiação por aquele crime hediondo. Por não ser possível saber de onde o morto havia vindo, todas as cidades em volta eram medidas e a cidade mais próxima ao corpo assumia a "responsabilidade". Entre outros procedimentos, os anciãos desta cidade tinham que fazer uma declaração: "Nossas mãos não derramaram este sangue" (Devarim 21:7).

O Talmud (Sotá 45b) questiona a necessidade desta declaração. Por que justamente sobre os anciãos da cidade, as pessoas mais justas e corretas, recairia a suspeita de que eles haviam matado aquela pessoa? Qual é a lógica desta estranha declaração, que fazia parte obrigatória desta cerimônia descrita pela Torá?

O Talmud responde que em nenhum momento a Torá estava suspeitando que os anciãos houvessem cometido o assassinato. Mas justamente por serem os maiores Tzadikim (Justos) da cidade, era esperado deles que tivessem recebido aquele homem e cumprido da maneira correta a Mitzvá de "Achnassat Orchim" (receber bem os convidados). Segundo o Talmud, a declaração dos anciãos de que "nossas mãos não derramaram este sangue" na verdade queria dizer que, se aquele homem tivesse passado pela cidade deles, certamente teria recebido os cuidados necessários e não teria saído sem provisões e sem o devido acompanhamento.

Destas palavras do Talmud fica implícito que se a vítima tivesse sido acompanhada e tivesse levado provisões, certamente não teria sido assassinada. Mas como o Talmud pode afirmar que se o homem tivesse sido acompanhado ele não teria morrido? A pergunta fica ainda mais difícil de acordo com o Rav Yehuda Loew (Praga, 1525 - 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, que afirma que para cumprir a Mitzvá de "Levaia" (acompanhar o convidado no momento da despedida) não é necessário acompanhar o convidado até a cidade vizinha, basta acompanhá-lo por "4 Amót" (Amá é uma medida da Torá, que equivale a aproximadamente meio metro) fora de casa. Portanto, o que estes poucos passos acompanhando o convidado mudariam na segurança dele? Além disso, não há nenhuma menção na Halachá (Lei Judaica) de que a pessoa deveria estar armada quando acompanhava seu convidado no caminho. Portanto, como o simples ato de acompanhar o convidado poderia ter prevenido sua morte?

O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) aumenta ainda mais este questionamento ao afirmar que, dentre os vários componentes da Mitzvá de "Hachnassat Orchim", justamente a parte de acompanhar o convidado no momento da despedida é a mais importante. Como pode ser que acompanhar uma pessoa em parte do caminho pode ser mais importante do que lhe oferecer comida ou um lugar para descansar?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a Torá está nos ensinando um fundamento muito importante em relação à psicologia do ser humano. Quando alguém está visitando uma cidade ou está perdido, geralmente está mais suscetível a ser atacado ou roubado do que alguém que é morador da cidade. A razão é que quando um ladrão escolhe sua vítima, normalmente ele busca certo perfil. O ladrão tem medo que sua vítima possa reagir, sacando uma arma ou simplesmente entrando em uma luta corporal para se proteger. Por isso, em geral os ladrões escolhem pessoas que aparentam estar mais vulneráveis e com menos iniciativa de se defender. Uma pessoa que não está familiarizada com o ambiente tende a projetar sua falta de confiança na maneira como se comporta, tornando-se assim uma vítima mais atrativa para o ladrão que, com seu "olho clínico", facilmente percebe esta fragilidade.

É neste sentido que acompanhar um convidado pode salvar a vida dele. Quando acompanhamos alguém que se sente estranho ao ambiente, mesmo que sejam apenas alguns poucos passos, estamos transmitindo nossa tristeza com sua partida e demonstrando que gostaríamos de estar com ele. Isto dá para a pessoa, em última instância, um forte sentimento de pertencer àquele local. A pessoa se sente fortemente conectada ao lugar de onde ela está saindo e, por isso, caminha com um ar de confiança, o que pode afastar potenciais ladrões de quererem atacá-lo. Em contraste, mesmo que a pessoa dê ao visitante comida, bebida e um lugar para dormir, se ela não o acompanha ao menos por alguns passos no momento em que ele está deixando a cidade, o visitante se sente desconectado e emocionalmente fraco. Isto acabará se refletindo em atitudes que projetam a sua falta de confiança, resultando em uma maior propensão de ser atacado por algum bandido que está escondido nas sombras, à espera de uma vítima.

Atualmente, educadores e psicólogos têm discutido muito a ameaça do "bullying" e suas consequências negativas no desenvolvimento saudável de uma criança. Mas os efeitos psicológicos dos nossos atos sobre a autoestima de outras pessoas já foram ensinados há mais de 3 mil anos pela Torá. E esta é justamente a lição da Parashá: através de pequenas atitudes em relação às outras pessoas podemos influenciar de maneira muito marcante a vida delas, de forma positiva ou negativa. Precisamos aproveitar este potencial que temos, de através de pequenos atos dar aos outros mais confiança e autoestima. Um elogio ou uma demonstração de se importar com o próximo podem mudar o rumo de uma vida. Com estas pequenas atitudes, podemos estar trazendo muita vida para o mundo sem nem mesmo perceber.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

EDUCANDO COM ATOS - PARASHÁ SHOFTIM 5773

 

"Um grande rabino, interessado em fundar um Kolel (Centro de estudos de Torá para homens casados) na cidade de Cholon, em Israel, foi perguntar ao Rav Elazar Man Shach, o maior rabino da geração passada, qual seria o local mais adequado para a abertura deste Kolel. O Rav Shach, após refletir por alguns instantes, respondeu que o ideal seria procurar um local bem visível, por onde muitas pessoas passassem durante o dia e durante a noite, e explicou:

- Se as luzes do Kolel estiverem acesas tarde da noite e as pessoas escutarem a melodia da Torá sendo estudada, elas receberão influencia para se fortalecerem no estudo e no cumprimento da Torá.

Certo dia, algum tempo depois da inauguração do Kolel, um velhinho com cerca de 70 anos de idade e aparentando não ser conhecedor da Torá entrou lá pela primeira vez. Ele pediu ao Rosh Kolel (rabino responsável) um professor que pudesse ensiná-lo a estudar o Talmud. Aos pouquinhos ele foi se aproximando da Torá e das Mitzvót e, em algumas semanas, este velhinho tinha mudado completamente sua vida. O Rosh Kolel, curioso, perguntou ao velhinho o que o havia motivado a ir estudar no Kolel. O velhinho explicou:

- Em 1948, eu fazia parte de uma unidade especial do exército de Israel que tinha como objetivo atacar e conquistar a Academia de Polícia Árabe. As duas primeiras tentativas foram desastrosas, causando muitas baixas na nossa unidade. Antes da terceira tentativa, um dos soldados da unidade, que era religioso, sugeriu que todos estudassem juntos algumas Mishnaiót (parte da Torá Oral) para o sucesso da missão. Ele leu as Mishnaiót em voz alta e com uma linda melodia por cerca de 15 minutos. Depois disso, quando finalmente atacamos a Academia de Polícia Árabe, obtivemos um grande e rápido sucesso.

- Nos últimos 50 anos eu desejei escutar novamente aquela maravilhosa melodia - continuou o velhinho - mas não sabia onde procurá-la, até que naquela noite eu estava passando pelo Kolel e pude ouvir aquela linda melodia sendo cantada por alguém que estudava. Foi por isso que eu entrei aqui pela primeira vez".

Cada bom ato que fazemos fica guardado para sempre. Não somente o bom ato, mas todas as consequências positivas que ele pode trazer. Aquele soldado religioso nunca sonhou que sua melodia ao estudar a Torá ajudaria, 50 anos depois, a aproximar um velho judeu que estava completamente afastado da Torá. (História Real, retirada do livro "Major Impact, de autoria do R' Dovid Kaplan)
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Na Parashá desta semana, Shoftim, a Torá nos ensina um pouco sobre as guerras do povo judeu. E um dos ensinamentos interessantes é em relação às pessoas que eram dispensadas da guerra. Entre elas estava a pessoa que sentia medo, como está escrito: "Quem é o homem que sente medo e amolece seu coração? Que ele volte para sua casa, e que não derreta o coração de seus companheiros como o seu coração" (Devarim 20:8). Em outras palavras, a Torá está dando a possibilidade a esta pessoa, que está com medo de ir para a guerra, de abandonar o campo de batalhas para não influenciar de maneira negativa seus companheiros, o que causaria uma reação em cadeia que prejudicaria todo o desempenho do exército.

Explica o Ramban (Nachmânides) que este versículo da Torá não está ensinando que a pessoa com medo tem a opção de voltar para casa. Segundo ele, esta é uma das 613 Mitzvót da Torá, isto é, havia uma proibição da Torá de causar medo em seus companheiros. Portanto, se uma pessoa sentia medo e mesmo assim não abandonava o campo de batalhas estava transgredindo uma das Mitzvót da Torá.

Ensina o Rav Chaim Shmulevitz que esta Mitzvá é mais abrangente e inclui qualquer tipo de comportamento nosso que influencie de maneira negativa as pessoas que nos veem. Isto se aplica até mesmo se a pessoa tem justificativas corretas para se comportar de certa maneira, mas que pode ser interpretado de maneira negativa pelas pessoas em volta. Por exemplo, alguém que sai mais cedo da Tefilá (reza), antes de terminar todas as partes necessárias, mesmo se o fizer pelos motivos corretos, passa para as pessoas em volta a impressão de que ele despreza estes momentos de conexão com D'us, e as pessoas podem aprender com ele a se comportar de maneira leviana no momento das rezas. O correto, portanto, seria a pessoa revelar para aqueles que rezam com ela qual o motivo que a faz sair mais cedo, tirando qualquer tipo de mal entendido.

Mas até onde vai a nossa responsabilidade em relação à influência que causamos aos outros? A resposta está na Amidá (reza silenciosa) de Mussaf que fazemos em Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, quando D'us julga todos os nossos atos. E assim falamos na Amidá: "(são lembrados) os atos do ser humano e suas contas". Que os atos da pessoa sejam lembrados no Dia do Julgamento é algo fácil de entender, mas o que significa que "suas contas" serão lembradas? Explica o Rav Chaim Vologziner que cada pessoa tem certo círculo de influências, que inclui sua família, seus amigos e qualquer pessoa que tenha contato com ela. A forma como ela influencia estas pessoas através de seus atos é chamado de "suas contas", e parte do julgamento de Rosh Hashaná é nesta área também. Isso quer dizer que se as pessoas se inspirarem nos nossos atos e assim melhorarem suas atitudes na vida, seremos recompensados por cada bom ato que elas fizerem, mas se as pessoas aprenderem de nós a se comportarem de uma maneira inadequada, então parte dos erros delas serão também cobrados de nós.

Mais do que isso, o Talmud ensina que o Livro da Vida e o Livro da Morte são abertos em Rosh Hashaná. Tossafot, um dos comentaristas do Talmud, explica que isto quer dizer que os mortos também são julgados em Rosh Hashaná. Mas pelo que eles são julgados, se já faleceram e não fazem mais nada? Mesmo depois da morte, os atos que uma pessoa fez em vida podem influenciar outras pessoas, positivamente ou negativamente. Por isso os mortos também são julgados em Rosh Hashaná, não pelos seus próprios atos, mas pelos atos que foram cometidos por outras pessoas em consequência de sua influência.

Além do benefício direto de todos os méritos que recebemos ao influenciar positivamente outras pessoas, há outro grande benefício em ser um modelo de boa conduta para os outros. Existe uma Mitzvá da Torá de dar uma bronca em alguém que fez algo errado, como está escrito "Advirta seu companheiro, para que a transgressão não recaia sobre você" (Vayikrá 19:17). Porém, é muito difícil cumprir esta Mitzvá sem magoar ou envergonhar a pessoa que errou. Então como cumprir esta Mitzvá sem correr o risco de cometer a transgressão de ofender o próximo? De acordo com o Rav Aron Kotler, quando uma pessoa se comporta intencionalmente de maneira exemplar em certa área, com o objetivo de se tornar um modelo de boa conduta para pessoas que insistem em cometer certos tipos de erro, então é considerado como se a pessoa tivesse cumprido a Mitzvá de advertir o próximo, sem correr o risco de causar qualquer constrangimento ou mágoa. Por exemplo, aquele que é cuidadoso em nunca falar nem escutar Lashon Hará (maledicência sobre outras pessoas) faz com que sua mera presença seja um lembrete e um "puxão de orelha" naqueles que gostam de falar Lashon Hará, e certamente eles não se atreverão a transgredir diante desta pessoa. Assim as pessoas melhorarão seus atos mesmo sem a necessidade de efetivamente receberem uma bronca.

Portanto, temos uma grande responsabilidade na vida, e em especial no mês de Elul, o último mês do ano, a preparação final para o nosso Julgamento de Rosh Hashaná. Como sempre há alguém nos observando em praticamente tudo o que fazemos em nossa vida, é importante sermos cuidadosos em cada pequeno ato, para termos a certeza de que estamos sempre influenciando as pessoas à nossa volta para o bem. Pois como ensina o ditado, um ato vale mais do que mil palavras.

SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida)

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
 http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12, Jo 1:19-27

domingo, 26 de agosto de 2012

PREPARANDO-SE PARA A GUERRA - PARASHÁ SHOFTIM 5772

"O Rav Israel Meir HaCohen, mais conhecido como Chafetz Chaim, viveu em Radin, na Polônia, um local onde o inverno era extremamente rigoroso. Quando ele tinha cerca de 94 anos, o Yetzer Hará (Má inclinação) tentava de tudo para convencê-lo a não sair da cama de manhã, para fazê-lo perder a reza na sinagoga. Algumas vezes o Yetzer dizia para ele: "Chafetz Chaim, agora é inverno, está muito frio lá fora, fique mais um pouco na cama quentinha". Outras vezes o Yetzer Hará tentava outro argumento: "Chafetz Chaim, você já é um homem muito velho, você precisa descansar mais um pouco". E havia oportunidades em que o Yetzer Hará dizia para ele: "Chafetz Chaim, está cedo demais, você não precisa rezar agora, deixe para rezar mais tarde".
Como o Chafetz Chaim conseguia vencer seu Yetzer Hará? Respondendo para ele: "Yetzer Hará, não seja um hipócrita. Você foi criado junto com o mundo, isto é, você já está velho. E mesmo sendo bem mais velho do que eu, você já está de pé desde a madrugada, no frio, trabalhando. Então por que eu, que sou muito mais jovem do que você, deveria continuar deitado, ao invés de fazer o meu trabalho espiritual?"
O Chafetz Chaim nos ensina que para vencer o Yetzer Hará, temos que saber lutar contra todas as estratégias que ele utiliza para tentar nos derrubar. Ele tenta nos enganar com argumentos simples. Por isso, precisamos estar sempre alertas para saber contra-argumentar cada um deles.
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Na Parashá desta semana, Shoftim, a Torá nos descreve vários aspectos da conduta do povo judeu nas guerras. Moshé começa ressaltando a importância de cada soldado judeu não sentir medo, mesmo nas situações de aparente desvantagem numérica, enfatizando que D'us lutaria junto com o povo. Um "Cohen (sacerdote) de guerra" era especialmente nomeado para as batalhas, e um de seus trabalhos era encorajar os soldados antes da guerra. E assim ele falava aos soldados: "Escute, Israel, vocês se aproximam hoje da batalha contra seus inimigos. Não deixe que seu coração se acovarde, não tenha medo, não sinta pânico, e não se quebre diante deles" (Devarim 20:3). É interessante perceber que o Cohen repetia algumas vezes a mensagem "não sintam medo", mas utilizando diferentes linguagens.
Mas esta necessidade repetitiva de encorajamentos é aparentemente incoerente com um ensinamento do Talmud (Sotá 44b), que diz que apenas os mais Tzadikim (Justos) do povo iam para a guerra, e qualquer transgressão, mesmo as mais leves, desqualificava a pessoa para ser um soldado do povo judeu. Se estamos falando de um exército composto por soldados espiritualmente tão elevados, certamente eram pessoas com muita Emuná (fé). É entendível que eles se amedrontassem, por causa da pressão, quando sentissem a guerra se aproximando. Mas após um primeiro encorajamento, os soldados já deveriam voltar ao seu nível original de Emuná. Então por que o Cohen repetia tantas vezes o conceito de não ter medo, e com tantas linguagens diferentes?
Explica o Rav Eliahu Dessler que uma pessoa com medo não se concentra na luta e contagia seus companheiros, desmotivando todos à sua volta. Por isso, quando um povo saía para lutar contra outro, utilizava quatro tipos de "truques" para apavorar o inimigo. A primeira artimanha era fazer muito ruído batendo objetos uns contra os outros, dando a impressão de que um exército gigantesco se aproximava. Então eles faziam seus cavalos relincharem, dando a impressão de que o exército inimigo era muito bem equipado. Depois disso gritavam com toda força, produzindo um ruído ensurdecedor, que era escutado a dezenas de quilômetros. E finalmente, eles tocavam trombetas, produzindo um som que por si só já amedrontava aqueles que escutavam.
É por isso que o Cohen utilizava quatro expressões diferentes de encorajamento, uma para cada estratégia de guerra utilizada pelo exército inimigo. "Não deixe que seu coração se acovarde" por causa do relincho dos cavalos, "não tenha medo" por causa do barulho dos objetos, "não sinta pânico" por causa do toque das trombetas, e "não se quebre diante deles" por causa dos gritos dos soldados. Mas por que não era suficiente apenas um único encorajamento? Se os inimigos utilizassem apenas uma única estratégia para amedrontar, como o relincho dos cavalos, o encorajamento do Cohen seria suficiente para fazer voltar a Emuná do povo judeu. A partir daí, mesmo que fizessem mais cem vezes seus cavalos relincharem, isto não traria mais medo. Mas quando eles mudavam e utilizavam uma nova estratégia, voltava o perigo de o medo surgir, e por isso era necessário um novo encorajamento. Portanto, para cada uma das quatro táticas de desencorajar o exército inimigo, era necessário um tipo diferente de incentivo do Cohen.
Este conceito trazido na nossa Parashá, apesar de ter sido ensinado há mais de 3.000 anos, também pode ser utilizado para nossas vidas. Qualquer general sabe que um dos pré-requisitos para vencer uma guerra é conhecer bem o inimigo. Quanto mais conhecemos o exército inimigo, suas armas e suas formas de ataque, melhor podemos nos preparar para enfrentá-lo e derrotá-lo. Mas se vamos para a frente de batalha despreparados, podemos ser pegos de surpresa, com menos possibilidade de reação. Este conceito vale para as guerras físicas, mas também pode e deve ser utilizado na nossa guerra espiritual contra o nosso maior inimigo: o Yetzer Hará (Má inclinação). Para derrotá-lo, é preciso conhecê-lo.
O Yetzer nos ataca utilizando o mesmo princípio que os exércitos utilizavam antigamente: a renovação das formas de ataque. Se ele lutasse sempre da mesma maneira, poderíamos facilmente aprender como derrotá-lo. Mas quando pensamos que já o derrotamos, ele se levanta e novamente nos ataca, mas desta vez com outras armas. Portanto, esta é a grande dificuldade de lutar contra o Yetzer: ele muda constantemente a forma de nos atacar. Por isto precisamos estar sempre alertas contra este temível inimigo. Contra ele não existe descanso nem trégua.
Este conceito aprendemos de Yaacov Avinu. A Torá nos conta que ele lutou com o Yetzer Hará e, após a luta, perguntou seu nome, pois no nome está contida a essência de qualquer criatura. Yaacov esperava entender a essência do Yetzer Hará para poder ensinar aos seus descendentes a fórmula para vencê-lo. Mas o Yetzer respondeu: "Para que você pergunta meu nome?" (Bereshit 32:30). É como se o Yetzer estivesse dizendo: "Não adianta eu falar meu nome, pois minha principal força é não ter uma essência fixa. Eu posso mudar a todo instante, para atacar as pessoas onde elas menos esperam".
Um ser humano, ao ser derrotado em uma luta, ainda tenta se levantar novamente. Mas se após duas ou três tentativas ele continua sendo derrotado, ele desiste. Porém, o Yetzer Hará não é assim. Ele pode ser derrotado centenas de vezes, mas sempre voltará, e cada vez com uma nova tática de guerra. Então como vencer um inimigo assim tão poderoso, versado em todos os tipos de batalha e que surge cada vez com um ataque diferente? D'us nos ensinou a receita ao afirmar: "Eu criei o Yetzer Hará, e criei também o antídoto contra ele: a Torá". O que isto significa?
Em países onde as guerras são frequentes, os soldados estão constantemente sob intenso treinamento militar, pois é necessário estar preparado para qualquer situação que possa surgir durante a guerra. O soldado não pode aprender a atirar ou a montar sua arma durante a guerra, pois quando o inimigo está diante dele, vindo para matar, cada segundo é precioso. O soldado precisa treinar muito para aprender as várias técnicas de luta e estar preparado para todas as possibilidades de ataque inimigo. Quanto mais preparado e treinado o exército estiver, maiores as chances de vitória.
Assim também é na nossa guerra espiritual contra o Yetzer Hará. Ensina o Talmud (Makót 23b), em nome do Rabi Chanania ben Akashia: "D'us queria dar méritos para o povo judeu, por isso Ele multiplicou a Torá e as Mitzvót". Temos muitas Mitzvót na Torá, e é isso que mantém o povo judeu vivo há tanto tempo. Elas são o nosso treinamento militar, para nos deixar prontos para os ataques do Yetzer Hará. As Mitzvót cobrem todas as áreas da vida: no "Bein Adam La Makom" (entre o homem e D'us), no "Bein Adam Le Haveiró" (entre o homem e seu semelhante) e no "Bein Adam Le Atzmó" (o homem consigo mesmo).
Diz o ditado popular que quanto mais difícil é o treinamento, mais fácil é a batalha. Seguir as Mitzvót da Torá não é algo fácil, mas nos prepara para vencer as dificuldades e testes da vida. Quando seguimos o "Manual de instruções", nos preparamos para qualquer tipo de surpresa, aprendemos a lidar com as mais diferentes situações. Uma pessoa que cumpre as Mitzvót aprende a ter autocontrole, facilitando muito o sucesso no seu casamento, na educação dos seus filhos e no relacionamento com as pessoas em geral. A pessoa se torna mais paciente e tolerante, aprende a ver a vida de uma maneira positiva e a julgar as pessoas para o bem. Portanto, vive de maneira mais harmoniosa. Por isso, a lição que fica para nossas vidas é a importância de se preparar bastante no treinamento, pois no momento da guerra pode ser tarde demais.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
Dt. 16:18-21:9, Is. 51:12-52:12, Mt 3:1-17

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

APRENDENDO COM AS ÁRVORES - PARASHÁ SHOFTIM

"Dois amigos jardineiros eram donos de um belo pomar de macieiras. As árvores eram muito bonitas, e produziam lindas e deliciosas maçãs. Cada ano que passavas havia uma nova safra, com frutas ainda mais bonitas e gostosas. Até que certo dia, após refletir muito, um dos jardineiros virou-se para o outro e falou:
- Veja só, estamos desperdiçando nossas macieiras com estas técnicas antiquadas. As raízes, que são tão feias e sujas, conseguem produzir maças bonitas assim. Então se arrancarmos uma árvore, virarmos ao contrário e enterrarmos seus lindos galhos e folhas na terra, imagine quão lindos serão os seus frutos!
O outro jardineiro gostou tanto da lógica do seu amigo que imediatamente começou a arrancar algumas árvores e a plantá-las de cabeça para baixo. As raízes feias e sujas ficaram para cima, enquanto as belas folhas e os galhos ficaram enterrados.
Passou um tempo e nada cresceu. Mas os jardineiros estavam tão obcecados com a idéia que repetiram novamente o processo, arrancando outras árvores e plantando-as de cabeça para baixo. Eles estavam dispostos a repetir o processo outra e outra vez, até que tivessem sucesso. E assim fizeram, até que perceberam que a idéia havia sido um grande desastre. Não havia mais nenhum fruto crescendo naquele pomar feio e sujo, que um dia havia sido tão bonito e frutífero.
Desanimados, os jardineiros sentaram-se para lamentar sua má sorte quando viram que milagrosamente uma maça havia sobrado. Rapidamente retiraram suas sementes e as plantaram. No ano seguinte uma pequena muda de macieira começou a brotar, e dessa muda renasceu a esperança para o futuro"
Apesar do judaísmo ter florescido muito durante séculos, as últimas gerações de judeus se viram na obrigação de "modernizar" o judaísmo, implantando estilos novos, lógicos e modernos de vida, na esperança de produzir gerações melhores. A idéia não funcionou e, ao contrário do esperado, a assimilação quase acabou com o povo judeu. Felizmente uma "maça" se salvou, e dela deve renascer o futuro do nosso povo. Esta maça é o movimento de Teshuvá (retorno ao judaísmo), do qual cada vez mais participam os judeus em todo o mundo.
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A Parashá desta semana, Shoftim, traz algumas leis sobre as guerras de conquista da terra de Israel. Por exemplo, a Torá ensina que algumas pessoas estavam isentas de ir para a frente de batalha, entre elas as pessoas que estavam com medo, pois elas poderiam influenciar negativamente as pessoas em volta delas. Outra lei que a Torá ensina é a de dar sempre a possibilidade da paz antes de iniciar o ataque a uma cidade. E finalmente, após muitas leis sobre as guerras e batalhas, a Parashá encerra o assunto com uma idéia muito interessante: a proibição de cortar as árvores frutíferas de uma cidade sitiada, como está escrito: "Quando vocês forem sitiar uma cidade por muitos dias para guerrear contra ela, para conquistá-la, não destrua suas árvores com o machado, pois delas vocês comerão; não as cortarão, pois o homem é como a árvore do campo..." (Devarim 20:19). Deste versículo aprendemos uma lição muito grande para nossas vidas: mesmo quando um judeu está em uma situação de vida ou morte, sob uma grande pressão psicológica, ele deve se lembrar de sua obrigação no mundo de fazer bondades.
Esta proibição de cortar as árvores frutíferas se chama "Bal Tashchit", e se aplica a evitar qualquer tipo de desperdício. Mesmo uma pequena uva não pode ser desprezada e atirada no lixo sem motivo. Mas observando a linguagem do versículo, surge uma dúvida. Por que a Torá compara o homem com a árvore do campo? Qual a semelhança?
Ensinam nossos sábios que observando as árvores podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre o nosso propósito neste mundo. Por exemplo, sabemos que cada árvore é única e especial nos cuidados que necessita. Existem árvores que necessitam de mais água, outras de mais sol, outras necessitam de locais tranquilos. Se colocarmos mais água do que uma árvore necessita ela morre, e se colocarmos menos água ela seca. Se a árvore receber menos sol do que precisa ela não se desenvolve bem, mas se receber mais sol do que necessita ela queima. Portanto, cada uma deve receber uma atenção e um cuidado especial. Assim também são os seres humanos, cada pessoa é única e tem necessidades únicas, e temos que ajudar cada pessoa exatamente no que ela necessita. É um grande erro que muitos pais cometem quando tentam dar a todos os filhos exatamente a mesma educação. Cada filho é único, cada um tem diferentes necessidades e precisam de uma atenção especial.
Outro ensinamento importante que aprendemos das árvores é que elas dependem da terra para retirar água e nutrientes, mas sem o sol para fazer fotossíntese elas não sobrevivem. Este também é um dos grandes ensinamentos do judaísmo. Segundo muitas religiões, o ideal é a pessoa se afastar completamente do mundo material e viver uma vida apenas espiritual. Voto de silêncio, voto de castidade e constantes castigos ao corpo representam o máximo de espiritualidade que se pode atingir. Porém, o judaísmo ensina justamente o contrário. D'us criou o mundo material para que justamente possamos tirar dele proveito. Porém, da mesma forma que uma planta não pode viver apenas dos nutrientes do solo, ela também necessita do sol, assim também nossa vida não pode ser voltada apenas à busca de prazeres materiais, sem nenhuma motivação espiritual. Podemos e devemos ter prazeres na vida, mas quanto mais voltados ao nosso crescimento espiritual, maior o prazer que sentimos.
Também podemos aprender das árvores que, se plantarmos maçãs, não devemos esperar uma colheita de laranjas. Assim também ocorre em nossas vidas, colhemos os frutos de áreas onde investimos, mas no que não investimos não colhemos bons frutos. Dedicamos anos e anos para aprender nossas profissões. Faculdade, mestrado, cursos profissionalizantes. O resultado é que temos no mercado de trabalho profissionais cada vez mais capacitados e competentes. Mas quanto investimos para ser um bom marido ou uma boa esposa? Quanto tempo nos dedicamos para aprender a cuidar dos nossos filhos? É por isso que chegamos a índices de mais de 60% de divórcios e cada vez mais casos de delinquência juvenil. Colhemos somente o que plantamos.
Mas talvez a comparação mais interessante entre as árvores e os seres humanos é a forma de saber se estamos vivendo uma vida espiritualmente saudável ou não. Se olharmos a parte externa das árvores, muitas vezes elas parecem saudáveis, apesar da parte interna estar completamente podre. A única maneira de saber de verdade como ela está por dentro é observando os frutos. Árvores saudáveis produzem bons frutos, árvores doentes produzem frutos ruins. O mesmo se aplica aos seres humanos, é através dos nossos frutos, isto é, dos nossos filhos e alunos, que podemos saber se realmente estamos fazendo o que é correto.
Nos últimos 3.000 anos existiram muito movimentos que tentaram "adaptar" o judaísmo à modernidade, como por exemplo os Caraítas (judeus que negavam a divindade da Torá Oral) e outros movimentos reformistas que surgiram durante nossa história. Aparentemente as idéias de modernizar o judaísmo sempre pareceram boas, pensava-se que teriam bons resultados para trazer os judeus de volta ao judaísmo. Porém, quais foram os frutos? Os Caraítas, que fizeram tanto barulho há 2.000 anos atrás, já não existem mais. E os modernos movimentos reformistas olham, sem poder fazer nada, o judaísmo se perdendo por causa da crescente assimilação. O único movimento que segue firme, há mais de 3.000 anos, é o judaísmo baseado nos imutáveis ensinamentos da Torá Escrita e da Torá Oral.
Uma criança que recebe uma boa educação judaica dificilmente se assimilará e perderá seu judaísmo. Um aluno que recebe uma boa base espiritual judaica na escola não sente a necessidade de modernizar nada. Se olharmos os bons frutos que saem de uma boa educação judaica, chegaremos à conclusão que não há nada tão bom e tão atual quanto os ensinamentos da Torá.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
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