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sexta-feira, 14 de abril de 2017

TROPEÇANDO NO PRÓPRIO ORGULHO - PESSACH II 5777

TROPEÇANDO NO PRÓPRIO ORGULHO - PESSACH II 5777 (14 de abril de 2017)
"David foi ao barbeiro para cortar o cabelo, como sempre fazia todo mês. Ele começou a conversar com o barbeiro sobre vários assuntos. A conversa então tomou um rumo mais espiritual e eles começaram a falar sobre D'us. Enquanto David era uma pessoa de imensa Emuná (fé) em D'us, o barbeiro era um ateu convicto. O barbeiro disse:

- Eu não preciso deste seu D'us para nada. Através do meu esforço eu consigo garantir meu sustento e manter minha família e minha saúde. Além disso, eu não acredito que seu D'us realmente exista. Você só precisa sair na rua para ver que D'us não existe. Se D'us existisse, você acha que haveria tantas pessoas doentes? Haveria crianças abandonadas? Haveria dor e sofrimento? Eu não consigo imaginar um D'us que permite todas essas coisas.

David não quis dar imediatamente uma resposta, para evitar uma discussão mais acalorada. Quando o barbeiro terminou o corte e David se preparava para sair, passou na rua um homem com barba e cabelos longos. Ele tinha uma aparência péssima, parecia que não cortava o cabelo ou fazia a barba há um bom tempo. Então David disse ao barbeiro:

- Sabe de uma coisa, acho que são os barbeiros que não existem.

- Como assim os barbeiros não existem? - perguntou o barbeiro - Eu estou aqui e sou um barbeiro!!!

- Não! - afirmou David - Os barbeiros não existem, porque se existissem, não haveria pessoas com barba e cabelos tão longos como aquele homem que está andando ali na rua. Veja, que homem de aparência horrível! Se os barbeiros existissem, eles permitiriam uma pessoa andar pela rua desta maneira?

- Que argumento mais tolo - disse o barbeiro para David - é óbvio que barbeiros existem, mas há pessoas não procuram os barbeiros. Isto é uma opção delas. Se a pessoa quer ficar com a aparência desleixada como este jovem que passou na rua, isto é uma escolha dela, não tem nada a ver com a existência dos barbeiros.

- Que seus ouvidos escutem o que diz a sua boca! - respondeu David - Suas palavras são a resposta ao seu questionamento. D'us existe, mas há muitas pessoas não O procuram, por opção delas. Pessoas como você, que acham que tem tudo na vida por seu próprio esforço e mérito. E é justamente por isso que há tanta dor e sofrimento no mundo.

Neste Shabat continuamos revivendo a Festa de Pessach, na qual comemoramos a liberdade do povo judeu da terrível escravidão egípcia. E no domingo de noite (16 de Abril) novamente é Yom Tov, um dia com mais santidade, no qual nos abstemos de trabalhos construtivos. O primeiro dia de Pessach é um dia de santidade especial, pois foi neste dia que saímos do Egito, mas por que o sétimo dia também é um dia de mais santidade? Pois neste dia D'us fez o incrível milagre da abertura do Mar Vermelho. Por diversas vezes D'us ordenou ao Faraó que deixasse o povo judeu sair. Porém, em sua obstinação e orgulho, ele não escutava os avisos e ameaças. As pragas destruíram a infraestrutura do Egito, mas mesmo assim o Faraó se recusava a se curvar diante da demonstração de força de D'us. Depois que os judeus saíram do Egito, o Faraó ainda reuniu seu exército para persegui-los. O orgulho do Faraó só acabou quando D'us abriu o mar, para que os judeus passassem em terra firme, e fechou-o sobre os egípcios, afogando-os e terminando para sempre a escravidão.

Porém, observando o processo de salvação do povo judeu, há algo que nos chama muito a atenção. Em todos os acontecimentos, há um foco muito maior no Faraó do que no próprio povo judeu. Por exemplo, nas dez pragas, a Torá sempre descreve a reação do Faraó, mas raramente menciona o que estava acontecendo com o povo judeu. Por que a Torá colocou os "holofotes" sobre as reações do Faraó, ao invés de ressaltar as reações do povo judeu? Afinal, quem é o protagonista principal da saída do Egito, o Faraó ou o povo judeu?

Explica o Rav Shlomo Wolbe zt"l (Alemanha, 1914 - Israel, 2005) que a resposta está no entendimento da diferença entre as primeiras gerações da humanidade e as gerações mais recentes. Nas primeiras gerações, como a geração do dilúvio, a geração da Torre de Babel e a geração de Sdom (Sodoma), havia muitas pessoas com consciência plena da existência de D'us. Apesar disso, estas gerações intencionalmente se rebelaram contra Ele. Já nas gerações mais recentes, apesar do ateísmo ainda estar presente, não vemos movimentos organizados de rebelião contra D'us. Por que as primeiras gerações, que compreendiam a Onipotência de D'us, se rebelaram contra Ele, enquanto as gerações mais recentes não?

Além disso, o nível de rebeldia das primeiras gerações é assustador. Rashi (França, 1040 - 1105), ao comentar sobre o dilúvio (Bereshit 6:6), afirma que, apesar de D'us ter planejado a destruição de toda a humanidade através de um dilúvio, Ele se "consolou" pelo fato de ter criado o ser humano na terra e não nos céus, pois se o homem tivesse sido criado nos céus, ele teria convencido até mesmo os anjos a se rebelarem contra D'us. Rashi está nos ensinando até onde chegava o orgulho e a arrogância da geração do dilúvio. Mesmo sabendo da Onipotência de D'us, as pessoas daquela geração desejavam ser independentes a qualquer custo. Mesmo se o homem morasse nos céus, ainda assim ele não se subjugaria a D'us, apesar da certeza de que é Ele que controla os céus e a terra.
 
Algo semelhante podemos enxergar também na história do povo judeu. Quarenta dias depois de D'us ter se revelado ao povo inteiro e ter transmitido pessoalmente os 10 Mandamentos, os judeus fizeram o bezerro de ouro. Como pode ser que o povo judeu, após a maior revelação de D'us na história da humanidade, após ter visto D'us "face a face", construiu um bezerro de idolatria? Se era para seguir uma divindade, qual era a diferença entre servir a D'us ou ao bezerro de ouro?

Responde o Rav Wolbe que é mais fácil para o ser humano servir algo que foi criado com as suas próprias mãos do que servir a D'us. As gerações passadas sabiam que foi D'us quem nos criou e que é Ele quem dita as regras. É por isso que era mais fácil servir o bezerro de ouro, que não tem nenhuma força real e não exige nada de nós, do que servir a um D'us Onipotente e que definiu regras para o mundo. Quando D'us quis destruir o povo judeu após a construção do bezerro de ouro, Ele explicou a Moshé o motivo: "Eu vi esta nação, e eis que eles são uma nação de pessoas obstinadas" (Shemot 32:9). D'us quis deixar claro que a raiz da transgressão do bezerro de ouro não era a vontade de fazer idolatria, e sim a obstinação, uma consequência do orgulho e da arrogância do ser humano.

Agora podemos entender a diferença entre as primeiras gerações, que reconheciam a existência de D'us e mesmo assim se rebelavam contra Ele, e as gerações mais recentes. As primeiras gerações reconheciam a grandeza de D'us e Sua Onipotência e, justamente por isso, tinham dificuldade de se subjugar a uma Força que eles sabiam ser muito maior do que sua própria força. Já as gerações mais recentes estão tão afastadas da espiritualidade que nem reconhecem mais a verdadeira grandeza de D'us. Portanto, as gerações mais recentes não sentem a necessidade de se rebelar, pois não se sentem ameaçadas pela Onipotência de D'us.

Este também é o motivo pelo qual a Torá colocou os holofotes sobre o Faraó e não sobre os judeus quando descreveu o processo de libertação da escravidão. Os longos e terríveis anos de escravidão quebraram os judeus, fisicamente e espiritualmente. O único apoio dos judeus para continuarem vivos no inferno egípcio era a esperada redenção, prometida desde os dias de Avraham. Quando finalmente D'us se revelou, o povo judeu aceitou sobre si prontamente e de bom grado o jugo de D'us. Portanto, durante as pragas, a Torá não precisou focar no povo judeu, pois eles não se rebelaram contra a força de D'us. Eles não tinham nenhum tipo de orgulho que bloqueasse a conexão com o Criador. Já o Faraó, ao contrário, era muito orgulhoso e preferia afirmar: "Não conheço D'us" (Shemot 5:2). Ele se vangloriava que o Nilo, uma das maiores divindades egípcias, foi criado por ele, como está escrito: "Eis que o Nilo é meu. Eu o fiz, para o meu uso e proveito" (Yechezkel 29:3). Por isso a Torá coloca o foco sobre o Faraó, para nos ensinar que as pragas foram direcionadas de forma a sistematicamente subjugá-lo, quebrando sua arrogância e mostrando a ele a grandeza de D'us.

Portanto, uma das principais lições que a Torá quis nos ensinar foi a terrível consequência da falta de humildade. Não importa quão grande uma pessoa pensa que é, a realidade é que ela é apenas uma criação e, por isso, deve ser submissa e humilde perante seu Criador. Podemos aprender isto por bem ou, como o Faraó, por mal, através de sofrimentos que são enviados para quebrar a arrogância daqueles que se afastaram de D'us por causa de sua própria honra. Os ateus são, acima de tudo, pessoas arrogantes, pois mesmo diante das provas mais contundentes, ainda assim preferem continuar negando a força de D'us. Um exemplo impressionante é Francis Crick, o vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1953 pela descoberta da estrutura do DNA. Alguém que entendeu neste nível a complexidade e a perfeição do corpo humano deveria automaticamente entender que existe um "Desenhista" que projetou o mundo. Alguém que entende profundamente de microbiologia sabe que não existe acaso. Porém, Francis Crick preferiu explicar a criação do mundo através da "Panspermia Dirigida", uma teoria na qual credita-se a seres de outros planetas o início da vida na Terra, quando foram "plantadas" no mundo sementes de vida geneticamente programadas para evoluir até chegar ao ser humano. Para Francis Crick, vencedor do Prêmio Nobel, é mais fácil aceitar que fomos criados por seres de outro planeta, limitados e que não exigem nada de nós, do que por um Criador Onipotente, que tem exigências de conduta moral. O problema não é a falta de inteligência, e sim a falta de vontade de enxergar. O pior cego é aquele que não quer ver.

Mas isto não acontece somente com os ateus. Até mesmo aqueles mais conectados com as Mitzvót sentem as consequências de não trabalhar o traço de caráter da humildade. Pessoas podem estudar Torá por horas completamente concentradas, mas quando chega o momento da Tefilá (reza) sentem uma enorme dificuldade de concentração, pois são bombardeadas com incontáveis pensamentos aleatórios. Por que isto acontece? Quando fazemos Tefilá, estamos reconhecendo que existe uma Força Superior que controla tudo. Na Tefilá pedimos, entre outras coisas, sustento, saúde e conhecimento, demonstrando que tudo o que temos na vida vem de D'us. Mas o ser humano tem a tendência de "fugir" deste reconhecimento e, por isso, mesmo de forma subconsciente, permitimos que sentimentos de rebeldia surjam em nossas cabeças durante a Tefilá. Isto é uma consequência do nosso orgulho, de esquecermos que tudo vem de D'us.

A humildade verdadeira é saber que é D'us que dá tudo o que precisamos. É ele que nos dá a força para trabalharmos e a inteligência para entendermos. Aqueles que acham, como o Faraó, que não precisam de D'us, são justamente aqueles que descobrem, da pior maneira possível, que não somos nada sem Ele.

Shabat Shalom e Pessach Kasher VeSameach

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex 33:12-34:26; Nm 28:19-25, Ez 36:37-37:14

sábado, 30 de abril de 2016

VENCENDO AS TENTAÇÕES - PESSACH II 5776

O Conde Valentine Potocki vinha de uma família nobre da Polônia. Ao viajar pelo mundo, encontrou-se com um erudito judeu estudando o Talmud (Torá Oral) e se interessou pela sabedoria milenar da Torá. Em pouco tempo ele se converteu ao judaísmo e ficou conhecido como Avraham ben Avraham, o famoso "Ger Tzedek (convertido) de Vilna". Naquela época, a Inquisição perseguia todos aqueles que abraçavam outra fé. Avraham foi aconselhado pelo Rav Eliahu zt"l (Lituânia, 1720 - 1797), mais conhecido como Gaon MiVilna, a se esconder em uma sinagoga na pequena cidade de Ilya.

Naquela cidade havia alguns jovens garotos judeus sem educação, que ficavam o tempo inteiro zombando de Avraham e insultando-o, chamando-o de "falso" e "farsante". Avraham escutava as ofensas em silêncio e nunca respondia de volta. Porém, um dia ele acabou perdendo a paciência e gritou com um dos garotos, ensinando-lhe a ter bons modos. O garoto ficou assustado e contou o ocorrido ao pai, obviamente sem mencionar o quanto eles haviam humilhado o homem. O pai do garoto, que tinha contato com as autoridades, ficou muito irritado e delatou Avraham aos inquisidores da Igreja, informando seu esconderijo na sinagoga. Infelizmente Avraham ben Avraham foi preso, julgado pela Inquisição e, ao se recusar a abandonar o judaísmo e voltar à sua crença anterior, foi condenado a morrer na fogueira em praça pública. No dia marcado para a execução, pouco antes de acender a fogueira, um dos monges disse para ele de maneira cínica:

- Não se preocupe, neste mundo nós vamos matá-lo, mas no Mundo Vindouro você poderá se vingar de nós.

Avraham ben Avraham tinha muita Emuná (fé) em D'us. Sem perder a tranquilidade, ele deu um sorriso e, olhando diretamente nos olhos do monge, respondeu:

- Você realmente acha que no Mundo Vindouro eu estarei pensando sobre esse ato insignificante de queimar o meu corpo finito? No momento em que minha alma estiver sendo exposta à verdade suprema, certamente a vingança será o pensamento mais distante da minha mente.

O monge ficou surpreso ao escutar aquela declaração de fé de um homem que não se abalava mesmo diante de uma morte dolorosa e terrível. Mas Avraham ben Avraham ainda não havia terminado, e acrescentou:

- E eu garanto que não vou descansar no Mundo Vindouro até conseguir que o homem que me delatou seja salvo do Gehinom (local onde as pessoas passam por sofrimentos espirituais após a morte, para expiar erros cometidos em vida).

Avraham ben Avraham morreu santificando o nome de D'us, de forma corajosa e heroica. Como muitos do povo judeu, ele conseguiu chegar ao nível de colocar a vontade de D'us na frente de suas próprias vontades, chegando a um nível mais alto até mesmo que os anjos (História Real).
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A partir do anoitecer desta quinta-feira (28/04) novamente teremos um Yom Tov, o "Shevii de Pessach" (Sétimo dia de Pessach). O primeiro dia de Pessach é Yom Tov, pois foi o dia em que o povo judeu saiu do Egito. Mas o que houve de especial no sétimo dia para que também fosse Yom Tov? Explicam os nossos sábios que, apesar de já terem saído fisicamente do Egito, os judeus ainda se sentiam escravos, incapazes de lutar contra seus opressores. A prova disso é que os egípcios voltaram a perseguir os judeus no deserto e, apesar dos judeus estarem em esmagadora maioria, eles ainda não conseguiam se levantar contra seus opressores. Vendo-se diante do Mar Vermelho, intransponível, e perseguidos pelos egípcios, os judeus gritaram desesperadamente para D'us. Era o sétimo dia depois da saída do Egito, e neste dia aconteceu o incrível milagre da abertura do Mar Vermelho, permitindo a passagem do povo judeu em terra firme. Mesmo vendo aquele incrível milagre, os egípcios continuaram perseguindo os judeus até dentro do mar, até que as águas fecharam-se sobre os egípcios, matando-os. Os judeus somente se sentiram seguros e livres de verdade quando viram na praia o corpo dos seus opressores. A escravidão havia acabado de vez.

Pessach é a festa do agradecimento e do louvor a D'us por todas as bondades e milagres que Ele fez, nos libertando fisicamente e espiritualmente do Egito. Durante todos os dias de Pessach recitamos o Halel, que é composto por diversos capítulos de Tehilim (Salmos) que trazem louvores a D'us. Em um dos Tehilim está escrito: "Quando o povo judeu saiu do Egito... O mar viu e fugiu" (Salmos 114:1,3). Segundo nossos sábios, este versículo refere-se à abertura do Mar Vermelho. Mas o que fez o mar "fugir", isto é, se abrir? Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que o mar se abriu ao ver Moshé carregando o caixão de Yossef. Mas por que Moshé estava carregando o caixão de Yossef?

Yossef, filho do nosso patriarca Yaacov, após ter sido vendido como escravo, acabou tornando-se o vice-rei do Egito e conseguiu salvar toda a sua família da terrível fome que também atingiu a terra de Israel. Yossef já sabia que o povo judeu permaneceria por muitos anos no Egito, mas que um dia voltariam para Israel. Antes de falecer, Yossef pediu para que os judeus prometessem que, quando saíssem do Egito, levassem seu corpo para ser enterrado em Israel. No momento em que finalmente saíram do Egito, enquanto o povo judeu inteiro estava preocupado em pedir aos egípcios ouro e prata, para sair  com riquezas, Moshé estava preocupado em cumprir a promessa e se ocupou pessoalmente em pegar o caixão de Yossef, como disse o mais sábio de todos os homens, Shlomo HaMelech (Rei Salomão): "Aquele que é sábio no coração pega Mitzvót" (Mishlei 10:8).

Porém, se D'us havia ordenado ao mar que abrisse suas águas para permitir a passagem do povo judeu, então por que foi necessário que o mar visse o caixão de Yossef? Não era suficiente a ordem do Criador do Universo? Responde o Rav Yaacov Naiman zt"l (Bielorússia, 1909 - EUA, 2009) que se D'us realmente tivesse ordenado ao mar que se abrisse, certamente o mar teria cumprido imediatamente a vontade de D'us e não haveria necessidade de nenhum outro elemento externo. Mas neste caso D'us não havia ordenado nada diretamente ao mar, e sim havia pedido para Moshé: "Levante seu cajado, estenda sua mão ao mar e abra-o" (Shemot 14:16). Isto quer dizer que não foi D'us que ordenou diretamente ao mar que se abrisse, e sim Moshé que deveria ordenar. Mas com que força Moshé poderia fazer algo tão incrível?

Podemos aprender regras espirituais importantes prestando atenção nos pequenos detalhes do cotidiano. Por exemplo, o que podemos aprender de um simples jogo de damas? Em primeiro lugar, aprendemos que somente podemos ir para frente, nunca para trás. Também aprendemos que não podemos saltar casas, apenas caminhar uma de cada vez. Mas há uma regra ainda mais interessante no jogo de damas: quando você chega ao outro lado do tabuleiro e faz uma dama, as regras anteriores já não se aplicam mais. A peça pode se movimentar em qualquer direção e saltar quantas casas quiser.

Explica o Rav Naiman que o mesmo se aplica em nossas vidas. O mundo material foi criado com certas leis físicas que se aplicam a todos os seres humano. Porém, a pessoa que é um Tzadik (Justo), isto é, que se elevou ao se comportar de uma maneira exemplar, quebrando suas próprias vontades para cumprir a vontade de D'us, torna-se um sócio de D'us na Criação do Universo. O Tzadik tem o poder de ordenar ao mar que ele se abra, não apenas como um intermediário de D'us, mas pelo seu próprio potencial alcançado. Ao se elevar e se conectar de uma maneira especial com D'us, ele adquire o poder de mudar as leis da natureza, como afirma o Talmud (Moed Katan 16b) que quando um Tzadik decreta, D'us cumpre. Foi baseado nisso que D'us pediu a Moshé que ordenasse ao mar que se abrisse para a passagem do povo judeu. Porém, apenas a ordem de Moshé não foi suficiente, pois de acordo com o Midrash o mar argumentou: "É verdade que ele cumpre a vontade de D'us, mas eu também cumpro, então por que eu deveria escutá-lo?". Somente quando o mar viu o caixão de Yossef e percebeu a verdadeira grandeza do ser humano é que ele se rendeu e escutou a ordem de Moshé.

Cada um dos nossos antepassados que se destacaram recebeu um "apelido", que descreve a área em que ele se destacou. Por exemplo, nossos patriarcas são chamados de "Avinu" (nosso pai), pois deles herdamos a nossa "genética espiritual". Moshé é chamado de "Rabeinu" (nosso mestre), pois dele recebemos a Torá. Yossef é chamado de "Tzadik" (Justo). Por que? Pois ele era um homem extremamente rico, poderoso e bonito. Tinha o Egito inteiro aos seus pés, a ponto das mulheres egípcias subirem nos muros da cidade para vê-lo passar, e mesmo assim ele teve autocontrole e nunca se corrompeu. Porém, seu maior teste aconteceu quando ele ainda era um simples escravo do Potifar, um dos ministros do Faraó. A esposa de Potifar, encantada com a beleza de Yossef, por diversas vezes tentou seduzi-lo, mas Yossef conseguiu resistir. O teste foi extremamente difícil, pois ela era uma mulher muito atraente e persistente, e causava tentações diárias a Yossef. Um dia ela perdeu a paciência com as constantes recusas de Yossef e agarrou-o pela roupa. Yossef sabia que era mais forte que ela e que poderia facilmente lutar e se soltar, mas teve medo de ser vencido pelo seu Yetzer Hará (má inclinação) se continuasse perto dela por mais alguns instantes. Ele preferiu deixar seu casaco nas mãos dela e fugir da tentação, apesar de saber das possíveis consequências do seu ato. E como ele temia, aquele casaco foi usado como prova da culpa de Yossef em uma falsa acusação feita pela esposa do Potifar contra ele, o que lhe custou 12 anos na prisão.

É por isso que o Midrash disse que o mar fugiu quando viu o caixão de Yossef. Da mesma forma que Yossef fugiu da transgressão, de forma heroica, vencendo seus próprios desejos para cumprir a vontade de D'us, assim também o mar "fugiu", isto é, se rendeu diante de Yossef HaTzadik e abriu suas águas. Quando uma pessoa passa por testes difíceis e consegue vencer, ela se eleva a um nível acima até mesmo dos anjos. Diante da grandeza de Yossef, o mar entendeu que não podia ir contra a vontade dos Tzadikim, que passam por testes e conseguem vencê-los.

A Festa de Pessach é chamada de "Zman Cheruteinu" (A época da nossa liberdade). Não apenas a liberdade física da saída do Egito, mas também a liberdade espiritual. A palavra "Egito", em hebraico, é "Mitzraim", e vem da mesma raiz de "Metzarim", que significa "limitações". Sair do Egito significou sair de tudo o que nos limita e nos prende às regras do mundo material. Através das Mitzvót, que nos ajudam a desenvolver nosso autocontrole, podemos nos elevar acima dos anjos e controlar até mesmo as forças da natureza.

Passamos na vida por muitos testes difíceis. Há duas maneiras de reagir às dificuldades: podemos reclamar da vida e questionar D'us, ou podemos entender que cada teste é uma oportunidade de crescimento. Com cada teste podemos nos elevar e nos libertar dos desejos e vontades que nos aprisionam. Os anjos e o restante de toda a criação fazem a vontade de D'us, mas eles não têm livre arbítrio e não passam por testes. Quando passamos por testes e vencemos, nos elevamos acima de todas as criaturas, inclusive dos anjos. O mundo é sustentado pelos Tzadikim, que conseguem deixar de lado suas vontades e desejos para cumprir a vontade de D'us, mesmo quando é difícil e os desejos parecem ser tentadores.
SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VÊ SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

sábado, 23 de abril de 2016

Escravos do Mundo Material - Pessach 5776

Eduardo e Fernando eram vizinhos. Eduardo era um fazendeiro muito pobre e simples, enquanto Fernando era um grande latifundiário, com centenas de cabeças de gado e plantações a perder de vista. Apesar das dificuldades, Eduardo costumava estar sempre feliz e de bem com a vida. Ele nunca se preocupava em trancar as portas e janelas de sua casa, e de noite dormia um sono profundo e tranquilo. Por estar sempre de bem com a vida, era uma pessoa pacífica e amigável. Fernando, ao contrário, apesar da tranquilidade financeira, costumava estar sempre muito tenso e irritado. Ele fazia questão de checar sempre se as portas e janelas de sua casa estavam trancadas. De noite ele não conseguia dormir bem, pois estava sempre preocupado que alguém poderia entrar em sua casa e roubar seu dinheiro.

Apesar de serem tão diferentes, Eduardo e Fernando eram muito amigos e gostavam de ficar conversando nos finais de tarde. Certo dia, após escutar de Eduardo as dificuldades que ele tinha para pagar suas contas, Fernando teve uma ideia. Na manhã seguinte, bateu na porta da casa simples de Eduardo e entregou a ele um baú. Eduardo abriu e viu que estava cheio de moedas de ouro, uma verdadeira fortuna. Fernando percebeu a confusão no olhar de Eduardo e explicou:

- Querido amigo, graças a D'us eu fui abençoado com muitas riquezas. Dói ver um amigo tão próximo viver nesta pobreza. Por favor, aceite este presente, para que você possa viver com mais tranquilidade.

Eduardo ficou incrivelmente feliz. Durante o dia inteiro ele ficou alegre, o sorriso não saía de seu rosto, às vezes ele até dava risada sozinho. Mas quando a noite chegou e Eduardo foi para a cama, como de costume, ele não conseguiu dormir. Lembrou-se que as portas e janelas estavam abertas, alguém poderia entrar para roubar seu baú de moedas de ouro. Levantou-se rapidamente, trancou as portas e janelas, verificou se o baú estava bem fechado e foi deitar-se novamente. Mas mesmo assim ele ainda não conseguia dormir. Decidiu trazer o baú para perto da sua cama e ficou deitado, de olhos abertos, vigiando o dinheiro, até que foi vencido pelo cansaço. Já era de madrugada quando adormeceu, e mesmo assim teve um sono leve e perturbado, acordando assustado ao menor ruído. Assim que amanheceu, Eduardo pegou o baú de dinheiro e levou-o de volta para a casa de Fernando. Bateu na porta, entregou a ele o baú e disse:

- Querido amigo, eu serei eternamente grato pelo seu incrível gesto de bondade, mas pegue de volta seu dinheiro. De que me adianta este dinheiro se ele não me deixa nem mesmo dormir tranquilamente? Eu sou pobre, tenho minhas preocupações, mas pelo menos eu durmo em paz. Da mesma forma que este dinheiro, em uma única noite, conseguiu tirar minha paz, tenho certeza de que se eu ficar com ele, ao invés de ganhar algo, eu vou apenas perder".

Passamos a vida buscando acumular bens e dinheiro. O problema é que não percebemos o quanto o mundo material nos escraviza e muda a nossa forma de viver. Preocupações, medos, desejos e arrogância são alguns dos efeitos colaterais do mundo material. Não é necessário fazermos voto de pobreza, mas é importante não deixar o mundo material nos escravizar. É o dinheiro que deve nos servir, e não nós que devemos servir o dinheiro.
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Este Shabat coincide com o início da Festa de Pessach, um dos fundamentos de "Emuná" (fé) do povo judeu e um dos pilares da transmissão, de pai para filho, dos ensinamentos da Torá desde os dias de Moshé Rabeinu. Na noite de Pessach nos sentamos com nossas famílias e fazemos o Seder, recontando e revivendo, com detalhes, os milagres da salvação do povo judeu da terrível escravidão egípcia depois de 210 anos de sofrimentos. E certamente um dos elementos mais marcantes da Festa de Pessach é o nosso "pão não fermentado", conhecido como "Matzá". A Matzá tem um papel de destaque na noite do Seder, quando há inclusive uma obrigação da Torá de comermos dela uma quantidade mínima.

O Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, aponta que há uma aparente contradição em relação ao que a Matzá representa. Começamos a Hagadá levantando a Matzá e declarando: "Este é o pão da pobreza, que nossos antepassados comeram na terra do Egito". Esta declaração demonstra um foco na Matzá como um símbolo da pobreza do povo judeu durante a escravidão no Egito. Já quase no fim da Hagadá nós levantamos novamente a Matzá e fazemos outra declaração, mas desta vez relembrando o fato de termos comido a Matzá no momento em que fomos libertados da escravidão do Egito, demonstrando um foco na Matzá como símbolo de liberdade. Como a Matzá pode representar, ao mesmo tempo, dois conceitos tão diferentes, e aparentemente até contraditórios, como pobreza e liberdade?

Para responder esta questão, antes precisamos entender o conceito de escravidão e liberdade, para depois examinarmos qual é a relação destes conceitos com a Matzá. Quando pensamos em escravidão, a primeira ideia que vem à nossa cabeça é uma pessoa acorrentada, obrigada a fazer trabalhos pesados e castigada com duras punições físicas. Porém, o Maharal de Praga define a escravidão de uma maneira muito mais abrangente. Segundo ele, uma pessoa é escrava quando está conectada a coisas que são externas à sua essência, e a pessoa necessita destas coisas externas para darem a ela um senso completo de identidade. A escravidão cria um nível de dependência tão grande que, quando a pessoa não tem as coisas externas que necessita, ela sente-se incompleta, como se faltasse parte de sua própria essência. Além disto, estas coisas externas transformam a pessoa em um escravo por definirem certos aspectos de como a pessoa vive sua vida. Por exemplo, as necessidades de uma pessoa viciada em bebidas ou em drogas são muito influentes em suas escolhas e determinam até o seu estilo de vida.

Mas não é apenas o vício em bebidas ou em drogas que escraviza o ser humano. Também é muito comum as pessoas se tornarem "viciadas" em suas posses materiais. A dependência que as pessoas desenvolvem pelos seus bens influencia de maneira negativa e prejudicial suas decisões de vida. Um triste exemplo, que nos traz dor e sofrimento até hoje, foi o que ocorreu com os judeus da Alemanha. Muitos anos antes do Holocausto acontecer, os judeus alemães já haviam reconhecido as ameaças do regime nazista. Os judeus mais pobres, ao perceberem o perigo iminente, deixaram seus poucos bens para trás e fugiram, conseguindo salvar suas vidas e as vidas de suas famílias. Mas os judeus ricos, que tinham muitas propriedades e bens, sentiram mais dificuldade para deixar tudo aquilo para trás. Infelizmente muitos decidiram ficar na Alemanha e acabaram tendo finais trágicos. A riqueza e as posses daquelas pessoas as levaram a tomar uma decisão completamente equivocada.

A liberdade verdadeira, por outro lado, é reconhecer que nossa essência verdadeira é a nossa alma, e não as nossas posses nem o nosso sucesso no mundo material. Por isso, a pessoa livre não corre o risco de ficar "presa" por causa de seus bens. A pessoa livre vê seus bens apenas como um meio para chegar a um final maior, mas nunca os vê como parte de sua própria essência.

O Maharal de Praga explica como a Matzá está relacionada a estes dois conceitos. A Matzá é uma combinação de farinha e água em suas formas mais básicas. Se a massa é deixada em repouso por algum tempo, ela fermenta e se torna "Chametz", que representa um acréscimo à essência pura da Matzá. Neste sentido, a Matzá representa o conceito de liberdade, isto é, estar livre de qualquer coisa externa à sua essência. O Chametz, ao contrário, é criado apenas quando a levedura cresce e acrescenta algo à combinação bruta de farinha e água. Neste sentido, o Chametz representa um acréscimo à essência pura da Matzá.

Com este entendimento é possível explicar como a Matzá pode representar dois conceitos aparentemente tão diferentes: a pobreza e a liberdade. Uma pessoa que é criada com um padrão de vida alto certamente ficará tão acostumada com este padrão de vida que dificilmente conseguirá, por vontade, se desconectar dele. De certa maneira, podemos dizer inclusive que a pessoa está escravizada, presa a este padrão de vida. Por exemplo, uma mulher que foi criada em uma casa grande, dormindo sozinha em um quarto com suíte particular, encontrará muita dificuldade para dividir o uso do banheiro com outra pessoa, mesmo quando esta outra pessoa for o seu próprio marido. Ao contrário, uma pessoa que começou a vida com pouca bagagem externa, isto é, com poucas posses materiais, considera muito mais fácil evitar tornar-se um escravo das coisas que são externas a ele.

Neste sentido, a pobreza é altamente favorável para alcançar a forma de liberdade descrita pelo Maharal de Praga. Uma pessoa pobre nunca se acostumou a possuir muitos bens, e por isso não está preso a eles. E isto explica como a Matzá pode representar, ao mesmo tempo, a pobreza e a liberdade. A pobreza é algo que contribui para a liberdade, pois a pessoa pobre não é escrava do mundo material e de suas posses materiais. De acordo com isso, o "pão da pobreza" que os judeus comeram no Egito representa que eles não tinham posses que eram externas à sua essência. E pelo fato de não terem nada, foi muito mais fácil para eles atingirem a liberdade de se identificar apenas com sua essência pura.

Mas por que foi importante aos judeus alcançarem este nível de liberdade justamente neste momento? Pois a saída do Egito foi o "nascimento" do povo judeu, um processo que os conduziria ao recebimento da Torá no Monte Sinai. Era essencial que naquele momento o povo estivesse completamente livre de qualquer "bagagem" externa que poderia contaminar sua essência verdadeira. Portanto, o fato deles serem tão pobres durante sua permanência no Egito facilitou que eles desenvolvessem as habilidades necessárias para começarem seu novo papel no mundo como o "Povo de D'us".

Em Pessach, e em especial na noite do Seder, nós tentamos recapturar e reviver este sentimento de liberdade que nossos antepassados atingiram quando saíram do Egito. Nós comemos a Matzá como um lembrete simbólico da necessidade de nos despojarmos das coisas que são externas a nós e procurarmos nossa verdadeira e pura essência. Por isso não é suficiente apenas fazer os rituais do Seder sem tentar internalizar suas mensagens.

Pessach é o momento de examinarmos nosso nível de liberdade, de avaliar o quão estamos escravizados pelos nossos bens e por tudo o que é externo à nossa essência. E é o momento propício para nos lembrarmos da nossa verdadeira essência, nossas almas, e que as realizações espirituais são as únicas coisas que têm um valor verdadeiro.
SHABAT SHALOM E PESSACH KASHER VE SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 12:21-51

sexta-feira, 10 de abril de 2015

AMOR RECÍPROCO - SHVII DE PESSACH 5775

"O Rav Yosef Chaim Shneur Kotler zt"l (Bielorússia, 1918 - EUA, 1982), filho de um dos gigantes de Torá dos Estados Unidos, o Rav Aharon Kotler zt"l (Bielorússia, 1891 - EUA 1962), ficou noivo de uma moça pouco antes de começar a 2ª Guerra Mundial. Por causa da guerra eles foram separados antes de conseguirem se casar, e ficaram muitos anos sem nenhum contato.

Quando a guerra terminou, a noiva do Rav Yossef Chaim, que havia ficado muito doente após tantos sofrimentos nas mãos dos nazistas, escreveu para seu noivo isentando-o do compromisso de se casar com ela. Ela argumentou em sua carta que estava muito doente e não conseguiria ser uma boa esposa. O Rav Yossef Chaim respondeu para ela:

- Você já perdeu seu pai, perdeu todo o seu dinheiro e perdeu sua saúde. Você acha realmente que eu vou deixar você perder também o seu noivo?"

Este é o nível de comprometimento exigido pela Torá entre um marido e sua esposa: chegar ao ponto de um estar mais preocupado com o outro do que consigo mesmo. E este é um modelo do nível que também devemos almejar na nossa conexão com D'us. 
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Nesta 5ª feira de noite (09/04) começa o "Shvii de Pessach", um novo Yom Tov. Diferente do que ocorre em Sucót, quando apenas o primeiro dia é Yom Tov, em Pessach também o sétimo dia é Yom Tov. Por que? Pois neste dia aconteceu mais um grande milagre: a abertura do Mar Vermelho, que permitiu aos judeus atravessarem o mar como se fosse terra seca e escaparem dos egípcios que os perseguiam no deserto. O impacto de mais este milagre foi tão grande que os judeus fizeram um cântico de agradecimento a D'us, chamado "Shirat HaYam" (Cântico do Mar).

Mas também há outro Cântico que está conectado com Pessach: o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos), escrito por Shlomo Hamelech (Rei Salomão). Algumas pessoas leem o Shir Hashirim depois do Seder de Pessach, e também é costume ler o Shir Hashirim em público na sinagoga durante o Shabat de Pessach. Entendemos que o Shirat HaYam está conectado com Pessach, pois é parte central da nossa libertação do Egito, mas qual é a conexão entre o Shir Hashirim e a Festa de Pessach? E por que sua leitura foi estabelecida justamente no Shabat?

A chave para começarmos a entender está em uma leitura mais atenta dos versículos do Shir Hashirim, que revelam que a narrativa não é escrita a partir de uma perspectiva clara. Os versículos continuamente se alternam entre a narração na perspectiva de D'us e na perspectiva do povo judeu. O Midrash (parte da Torá Oral) traz uma explicação para esta "irregularidade", afirmando que há três casos na Torá onde o relacionamento entre o povo judeu e D'us foi expresso através de um "Shir" (Cântico). O primeiro é o "Shirat HaYam", entoado por Moshé e pelo povo judeu quando eles emergiram sãos e salvos do Mar Vermelho, e que mostra a perspectiva do povo judeu em seu relacionamento com D'us. O segundo é o "Haazinu", que retrata o relacionamento do povo judeu com D'us através da história e é escrito sob a perspectiva de D'us. E o terceiro é o Shir Hashirim, que de acordo com o Midrash é uma combinação de três Cânticos, pois "shir" significa "um cântico" e "shirim" significa "dois Cânticos", o que resulta em três Cânticos. Quais são os três Cânticos dentro do Shir HaShirim? Um cântico é quando D'us expressa Seus "sentimentos" em relação ao povo judeu, um segundo cântico é quando o povo judeu expressa seus sentimentos em relação à D'us, e um terceiro cântico é quando são expressados os sentimentos combinados do povo judeu e de D'us. O Midrash também afirma que o Shir Hashirim supera todos os Cânticos dedicados a D'us. Mas afinal, o que há de tão especial no Shir Hashirim?

Também se prestarmos atenção nas Tefilót de Shabat, notaremos algo interessante. Enquanto a Amidá (reza silenciosa) dos Yamim Tovim é a mesma para Shacharit, Minchá e Arvit, no Shabat cada Tefilá tem um formato diferente. Por exemplo, no Arvit dizemos "Ata Kidashta" (Você nos santificou) e "Veyanuchu ba" (descansarmos nela), no feminino. No Shacharit dizemos "Ysmach Moshé" (Moshé se alegrou) e "Veyanuchu bo" (descansarmos nele), no masculino. Já em Minchá dizemos "Atá Echad" (Você é um) e "Veyanuchu bam" (descansarmos neles), no plural. Por que estas diferenças? E o que cada uma das Tefilót do Shabat nos ensina?

Explica o Rav Yohanan Zweig que D'us se relaciona com o povo judeu de diversas maneiras. Algumas vezes é um relacionamento de Pai e filho, outras vezes é de Rei e súdito, e algumas vezes é de Senhor e escravo. Mas o Shir HaShirim, mais do que qualquer outro livro da Torá, foca em um relacionamento adicional: o relacionamento íntimo de um Marido com sua esposa.

De acordo com a Halachá (Lei Judaica), o casamento é composto de três estágios. O primeiro estágio é o "Kidushin" (noivado), quando o noivo dá para a noiva um objeto de valor e, caso aceite, ela fica proibida a partir daquele momento de se relacionar com qualquer outro homem do mundo. O segundo estágio é o "Nissuin" (casamento), a partir do qual o noivo assume a responsabilidade financeira do bem estar de sua noiva. Neste estágio é feita uma grande festa, e no final da festa os convidados acompanham os noivos, cantando e dançando, até a sua nova casa. O terceiro estágio é o "Yichud" (isolamento), no qual o noivo e a noiva ficam sozinhos em uma área isolada, guardados por duas testemunhas que garantem a privacidade completa deles. Atualmente estes três estágios são feitos em uma única cerimônia.

O Shir HaShirim é o Cântico que expressa a intimidade do relacionamento entre D'us e o povo judeu, enquanto a espiritualidade do Shabat é o cenário que favorece este relacionamento. As três Seudót (refeições) e as três Tefilót do Shabat correspondem aos três estágios do casamento. No Arvit dizemos "Atá Kidashta" (Você nos santificou) e de noite temos a Mitzvá da Torá de fazer Kidush, refletindo o estágio de Kidushin. Em Shacharit dizemos "Ysmach Moshé" (Moshé se alegrou), que reflete a natureza festiva do Nissuin, e é marcado pela refeição festiva do dia. Em Minchá dizemos "Atá Echad VeShimchá Echad, Umi Keamchá Israel Goi Echad Baaretz" (Você é Um, e Seu nome é Um, e quem é como Israel, um povo único no mundo), que descreve a Unicidade de D'us e Seu relacionamento único e especial com o povo judeu, uma conexão eterna, que reflete o estágio do Yichud. Até mesmo as Zemirot (canções) de Shabat refletem estes três estágios do casamento. As músicas cantadas durante o dia têm um ritmo muito mais animado do que as músicas cantadas durante a noite, refletindo o caráter mais festivo do Nissuin. Já as músicas cantadas na Seudá Shlishi, após a reza de Minchá, têm um tom mais voltado à música ambiente, algo mais sublime. E a própria Tefilá de Minchá também é feita em um tom menor, refletindo o caráter de intimidade.

E por que a diferença de gêneros nas Tefilót de Shabat? Explica o Rav Yohanan Zweig que o Kidushin causa um efeito muito maior sobre a noiva, pois ela fica proibida de se casar com outros homens, e por isso a Tefilá de Arvit está escrita em uma linguagem feminina. Já o Nissuin causa um impacto muito maior sobre o noivo, pois ele passa a estar financeiramente responsável pela noiva, e por isso a Tefilá de Shacharit está escrita em uma linguagem masculina. O Yichud representa a união do noivo e da noiva, e por isso a Tefilá de Minchá está escrita em uma linguagem no plural, pois o relacionamento entrou no estágio em que ambas as partes são igualmente afetadas, já que elas se tornaram uma só.

Os três Cânticos também refletem os três estágios do casamento. O "Shirat HaYam" é o Kidushin, pois foi composto no momento da abertura do Mar Vermelho, o início da nossa jornada através do deserto, descrita pelo Profeta Yirmiahu como o início do casamento do povo judeu com D'us, como está escrito: "Eu lembro da bondade da sua juventude, do amor dos seus dias de noiva; você Me seguiu no deserto, em uma terra não semeada" (Yirmiahu 2:2). O "Haazinu" foi recitado antes da iminente entrada do povo judeu na Terra de Israel, e o Midrash compara a lamentação de Moshé, que não poderia entrar junto com o povo judeu, com o sofrimento de um pai que não consegue ver sua filha entrando na Chupá (que é parte do "Nissuin"). Já "Shiur HaShirim" contém ambos os aspectos anteriores, isto é, o Kidushin e o Nissuin, mas também contém o Cântico entoado por ambas as partes, o povo judeu e D'us, em uníssono. É este terceiro aspecto do Shir HaShirim, que descreve o nível de intimidade do relacionamento entre o povo judeu e D'us, que levou nossos sábios a afirmarem que, enquanto os outros Cânticos são "Kodesh" (Sagrados), o Shir HaShirim é "Kodesh Kodashim".

Este amor recíproco entre o povo judeu e D'us pode ser percebido nos diferentes nomes da Festa de Pessach. Enquanto o povo judeu chama esta festa de "Pessach", a Torá chama esta festa de "Chag HaMazót". Por que esta diferença? Enquanto nós louvamos a D'us por Ele ter nos salvado do Egito, e em especial por ter poupado a vida dos nossos primogênitos ao saltar nossas casas durante a Praga da Morte dos Primogênitos (Pessach vem do hebraico "Passach", que significa "saltar"), D'us nos louva por termos confiado Nele ao ponto de irmos ao deserto, um lugar inóspito e sem alimentos nem água, levando apenas algumas Matzót que não tiveram tempo de fermentar. Este é o amor verdadeiro entre D'us e o povo judeu, quando cada um se preocupa antes com o bem estar do outro. Por isso o Shir Hashirim é tão adequadamente lido durante o Shabat de Pessach, a Festa na qual revivemos a criação deste vínculo eterno de amor recíproco entre D'us e o povo judeu.

Pessach Kasher Ve Sameach e Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm
Lv 9:1-11:47, 2 Sm. 6:1-7:17

sexta-feira, 3 de abril de 2015

ROTULANDO AS PESSOAS - PESSACH 5775

 
Assim a história de Pessach teria sido relatada pela CNN ou pelo New York Times:

"O ciclo de violência entre os judeus e os egípcios continua no Egito, sem nenhuma perspectiva de que seja alcançada em breve a paz na região. Depois de oito pragas lançadas pelos judeus, que acabaram com a infraestrutura egípcia e destruíram a vida de civis egípcios inocentes, os judeus lançaram uma nova ofensiva esta semana, sob o nome de "Praga da Escuridão". Os jornalistas ocidentais ficaram especialmente enfurecidos com este ataque. "É simplesmente impossível conseguir informar quando você não pode ver um centímetro à sua frente", reclamou um frustrado repórter da CNN. "Escutei de uma fonte egípcia confiável ​​que, aproveitando a intensa escuridão, os judeus estão matando milhares de egípcios, homens, mulheres e crianças inocentes. A palavra desta fonte é uma evidência sólida o suficiente para mim".

Enquanto os judeus afirmam que as pragas se justificam e são uma resposta à dura escravidão imposta pelos egípcios, o Faraó, líder egípcio, refuta esta alegação: "Se apenas as pragas parassem, não haveria mais escravidão. Nós só queremos viver livre das pragas. É o direito de toda sociedade". O porta-voz da ONU argumenta que a escravidão é justificável, tendo em vista a superioridade dos armamentos dos judeus, que lhes foram fornecidos pela superpotência D'us. "O uso da força pelos judeus é algo completamente desproporcional", afirma ele.

Os europeus estão particularmente enfurecidos com a mais recente ofensiva judaica. "A agressão judaica deve ser interrompida para que seja alcançada a paz na região. Os judeus deveriam voltar para a escravidão, para o bem do resto do mundo", afirmou, irritado, o presidente francês. Até mesmo vários judeus concordam. Adam Shapiro, um judeu, afirma que, embora a escravidão não seja necessariamente uma coisa boa, ela é consequência das pragas, e quando as pragas acabarem, assim também a escravidão terminará. "Os judeus foram longe demais com as pragas, como gafanhotos e epidemia, que praticamente destruíram a economia egípcia", lamenta o Sr. Shapiro. "Os egípcios são realmente pessoas muito agradáveis, e o Faraó é um tipo de pessoa adorável uma vez que você começa a conhecê-lo de verdade", descreve Shapiro.

Os Estados Unidos estão exigindo que Moshé e Aharon, os líderes judeus, continuem a negociar com o Faraó. Moshé argumenta que o Faraó fez diversas promessas de libertar o povo judeu, mas logo em seguida as quebrou, impondo uma escravidão ainda mais dura. Porém, o Secretário do Departamento de Estado dos EUA condena a última ofensiva dos judeus. "O Faraó não pode ser responsabilizado, pois ele não tem controle completo sobre os capatazes egípcios", afirma ele. "Os judeus devem voltar à mesa de negociações, e não vão conseguir nada através do uso da força das pragas".

A última rodada de violência vem junto com uma nova proposta de paz saudita. "Se apenas os judeus desistirem de sua língua, mudarem seus nomes para nomes egípcios, trocarem suas roupas e deixarem de ter filhos do sexo masculino, as nações árabes se inclinarão para uma paz duradoura com eles", declarou o príncipe herdeiro saudita".

Qualquer semelhança infelizmente não é mera coincidência... (Adaptado do Site do Aish HaTorá) 

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Nesta semana o Shabat coincide com a Festa de Pessach, também conhecida como "Zman Cheruteinu" (Época da nossa Liberdade). Pessach é a festa na qual revivemos a saída do Egito, quando D'us revelou Sua força através de incríveis milagres e sinais. Um dos pontos centrais da Festa de Pessach é o Seder, no qual reunimos nossas famílias em volta da mesa e, durante toda a noite, nos sentimos parte da saída do Egito. Recontamos com alegria a história do povo judeu, desde a idolatria que havia na época dos patriarcas, passando pelos terríveis momentos da escravidão egípcia e culminando com a milagrosa salvação de D'us.

Mas como os egípcios puderam escravizar os judeus poucos anos após Yossef, um dos filhos de Yaacov, ter se tornado o vice-rei do Egito e, através de seus sábios conselhos, ter salvado todos os egípcios da fome? Como os egípcios, que deviam tanto reconhecimento ao povo judeu, tiveram coragem de nos escravizar? A resposta está nos versículos: "E ele (Faraó) disse ao seu povo: E eis que este povo, os Filhos de Israel, é mais numeroso e mais forte do que nós. Venham, vamos agir com ele com sabedoria, para que ele não se torne mais numeroso do que nós e, caso ocorra uma guerra, ele se junte aos nossos inimigos e guerreie contra nós, e nos expulsem da terra" (Shemot 1:9,10). De acordo com estes versículos, o Faraó teve medo que os judeus se tornariam uma perigosa ameaça à soberania do Egito, e por isso decidiu fazer algo para proteger seu povo.

O Faraó escravizou o povo judeu agindo com sabedoria. Ele bolou um plano para fazer a escravidão acontecer aos poucos. Primeiro ele convidou o povo judeu para fazer parte da construção do Egito, em um clima de união nacional. Os judeus quiseram aproveitar a oportunidade de fazer parte da sociedade egípcia e trabalharam com muita empolgação. Nesta primeira fase até mesmo o Faraó participou, para dar o exemplo de cidadania. Mas lentamente os egípcios foram abandonando o trabalho, restando apenas os judeus. O serviço começou a deixar de ser pago, até que aos poucos se transformou em uma brutal escravidão.

Este episódio é relembrado na Hagadá, que lemos durante o Seder de Pessach. E assim está escrito: "Vayareiu HaMitzrim (Os egípcios nos fizeram mal), como está escrito: 'Venham, vamos agir com eles com sabedoria' ". Mas esta passagem levanta um grande questionamento: por que, para retratar que os egípcios nos fizeram mal, a Hagadá cita justamente o versículo que descreve a estratégia do Faraó para iniciar a escravidão com sabedoria, se aparentemente a única intenção dele foi combater a iminente ameaça contra a segurança de seu povo? Por que especificamente isto foi visto como um ato maldoso contra o povo judeu, se houveram outros atos muito mais cruéis, como jogar os bebês recém-nascidos no Rio Nilo?

O Rav Yohanan Zweig responde através de um conceito interessante da psicologia humana. Ele explica que o ser humano está sempre à procura de métodos para classificar diferentes condições e comportamentos. Por que fazemos isto? Pois quando identificamos e rotulamos um problema, ganhamos mais confiança de que este problema será efetivamente resolvido. Mas infelizmente acabamos utilizando este conceito de maneira equivocada, trazendo consequências negativas. Muitas vezes, em nossa pressa de identificar uma situação na qual estamos tendo alguma dificuldade para controlar, acabamos rotulando esta situação de maneira equivocada e criamos em nossas cabeças um problema que não existe.

Foi exatamente isto o que aconteceu no Egito. O Faraó se preocupou com o crescimento do povo judeu e uma possível traição, que colocaria o Egito em perigo. Porém, isto certamente era algo completamente infundado, como foi demonstrado através da intensa participação dos judeus quando foram convocados para construir o Egito. Ao invés de lidar com um potencial problema e buscar alternativas para evitá-lo, o Faraó preferiu rotular os próprios judeus como sendo o "problema egípcio". Como os egípcios tinham uma grande admiração pelos judeus, por toda a contribuição de Yossef, parte da tática do Faraó foi iniciar uma virulenta campanha antissemita, que pregava que os judeus eram maus e queriam destruir o país. A propaganda antissemita foi muito eficiente, a ponto dos egípcios se alegrarem ao perseguir e causar sofrimentos aos judeus.

O termo "Vayareiu", que significa "nos fizeram mal", também pode ser lido como "nos transformaram em maus". Não apenas os egípcios nos fizeram mal ao nos escravizar, mas eles fizeram pior do que isso, eles nos rotularam como um "povo problema". Os sofrimentos físicos aos quais os judeus foram submetidos durante a escravidão duraram apenas o tempo em que eles estiveram no Egito, e atingiram apenas os que estavam presentes naquele momento. Mas o rótulo que o Faraó nos colocou, de que somos um "povo problema", nos assombra até os dias de hoje. Esta foi certamente a maior maldade do Faraó contra o povo judeu. Novamente sofremos duramente durante o Holocausto, quando a propaganda nazista bombardeou na cabeça dos educados alemães a mentira de que os judeus eram os vilões que causavam todos os problemas da Alemanha. E infelizmente a história se repete atualmente, com a "demonização" de Israel e dos judeus, que são vistos como "o problema do mundo" mesmo quando são vítimas da violência daqueles que, em nome da "paz", na verdade querem nos varrer do mapa.

Esta constante repetição das perseguições contra o povo judeu em diversas épocas históricas também está profetizada nas palavras da Hagadá: "Pois não apenas um se levantou para nos exterminar, mas em cada geração e geração se levantam para nos exterminar". Porém, esta profecia termina com um consolo, uma garantia de que não devemos temer: "E D'us nos salva das mãos deles". Todo momento em que estamos conectados com D'us e com Suas Mitzvót, temos a garantia de que Ele nos protegerá de nossos inimigos e daqueles que querem nos caluniar e nos tornar maus aos olhos do mundo. Este é um dos principais propósitos de Pessach, lembrar que, apesar de não faltarem inimigos e dificuldades em nossas vidas, podemos nos apoiar em D'us para nos proteger e garantir que mais uma geração estará celebrando o Seder de Pessach. Quem sabe, ainda neste ano, em Jerusalém espiritualmente reconstruída.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VESAMEACH

Rav Efraim Birbojm
Ex. 12:21-51 (Maftír – Nm. 28:16-25)

domingo, 13 de abril de 2014

CONTANDO SOBRE A SAÍDA DO EGITO - PARASHÁ ACHAREI MÓT E PESSACH 5774

“Depois da Segunda Guerra Mundial, a situação econômica dos judeus da Europa ainda era muito difícil. Pessach estava chegando e os judeus não tinham condições nem mesmo de trazer farinha para as Matzót. Com muito esforço, o Skoliner Rebe conseguiu uma quantidade muito limitada de farinha. Ele definiu que, para que todos pudessem cumprir a Mitzvá, somente seria permitido que cada família recebesse 3 Matzót, e esta regra valeria para todos, inclusive para os grandes rabinos que viviam na cidade. Porém, alguns dias antes de Pessach, o filho do Rebe de Vizhnitz veio procurar o Skoliner Rebe e disse:

- Rebe, trago uma mensagem do meu pai. Ele disse que necessita de 6 Matzót para Pessach.

O Skoliner Rebe achou que se tratava de um engano. Ele havia deixado claro para todos que, sem exceção, cada um receberia apenas 3 Matzót. Mas o filho do Rebe de Vizhnit estava irredutível, e disse que tinha ordens do pai de não sair de lá sem levar as 6 Matzót. O Skoliner Rebe, ao ver que não teria alternativa, acabou entregando as 6 Matzót, mas ficou muito incomodado com aquela situação.

Na véspera de Pessach, alguém bateu na porta do Skoliner Rebe. Era novamente o filho do Rebe de Vizhnitz, trazendo na mão 3 Matzót. Ele falou que seu pai havia pedido para que ele devolvesse aquelas 3 Matzót, atitude que deixou o Skoliner Rebe surpreso, sem entender o que estava acontecendo. O filho do Rebe de Vizhnitz abriu um enorme sorriso e explicou:

- Rebe, meu pai conhece a sua extrema bondade e misericórdia. Ele teve medo que você dividiria as poucas Matzót que tinha com todos da cidade e acabaria ficando sem nenhuma. Por isso ele pediu inicialmente 6 Matzót, para ter certeza que sobrariam pelo menos 3 para você”

Há duas incríveis lições nesta história. A primeira é o gigantesco potencial de bondade que tem o ser humano. A segunda é a forma que o Rebe de Vizhnitz fez a Mitzvá. Por que ele não foi pessoalmente pedir as Matzót ao Skoliner Rebe, preferindo mandar seu filho no lugar? Pois ele queria aproveitar a oportunidade de Pessach para ensinar ao filho como se comportar com bondade e com preocupação ao próximo, de maneira que o filho nunca mais esqueceria a lição. Este é um dos principais objetivos de Pessach, e em especial a noite do Seder: transmitir os valores da Torá para as futuras gerações.

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Nesta semana lemos a Parashá Acharei Mót, que ensina os serviços feitos no Mishkan, e futuramente no Beit Hamikdash (Templo Sagrado), durante o dia de Yom Kipur. A Parashá também ensina sobre a grave proibição das relações ilícitas. E na próxima segunda feira de noite (14/04) começa a Festa de Pessach, mais conhecida como “A Festa da nossa liberdade”, na qual revivemos a milagrosa salvação do povo judeu após 210 anos de escravidão pesada no Egito. D’us, com Mão forte e Braço estendido, nos tirou de dentro de outro povo para nos dar a liberdade verdadeira. O Egito era um enorme centro de promiscuidade e relações ilícitas, e parte da salvação espiritual foi D’us ter nos tirado fisicamente de lá, para que não recebêssemos mais nenhum tipo de influência negativa.

Na primeira noite de Pessach (fora de Israel também na segunda noite) fazemos o Seder, que consiste em 15 “passos”, que vão desde o Kidush até um pedido de que no próximo ano possamos comemorar Pessach em Jerusalém, com o nosso Beit-Hamikdash reconstruído. O Seder inclui muitos rituais diferentes do que fazemos durante o ano, justamente para provocar questionamentos, principalmente nas crianças. A parte central do Seder é o “Maguid”, na qual contamos com detalhes a história da saída do Egito, cumprindo uma Mitzvá da Torá, como está escrito: “E lembrem-se deste dia, no qual vocês saíram do Egito, da casa da escravidão” (Shemot 13:3). Mas sabemos que há uma Mitzvá diária de relembrar a saída do Egito, como está escrito “Para que você se lembre do dia em que você saiu do Egito, todos os dias da sua vida” (Devarim 16:3). Por que é necessário mais uma Mitzvá de relembrar a saída do Egito, se já há uma Mitzvá diária? E qual a diferença entre a Mitzvá diária de relembrar a saída do Egito e a Mitzvá que cumprimos na noite do Seder de Pessach?

A pergunta fica ainda mais forte ao observarmos um trecho que aparece no começo da Hagadá: “Disse o Rav Elazar ben Azaria: Eu tenho 70 anos e não meritei mencionar a saída do Egito nas noites, até que Ben Zomá aprendeu do seguinte versículo: ‘Para que você se lembre do dia em que você saiu do Egito, todos os dias da sua vida’. Se tivesse escrito apenas “dias da sua vida”, aprenderíamos que só durante os dias. Mas como está escrito “todos os dias da sua vida”, isto inclui também as noites”. Porém, este trecho que nossos sábios escolheram para fazer parte da Hagadá é, na realidade, uma Mishná (Brachót 12b) que fala sobre a Mitzvá diária de relembrar da saída do Egito, não tendo, portanto, nenhuma conexão com a Mitzvá de relembrar a saída do Egito durante a noite do Seder de Pessach. Então por que nossos sábios decidiram que esta Mishná deveria fazer parte da Hagadá de Pessach?

Responde o Rav Aryeh Pomrantzik que há três diferenças básicas entre a Mitzvá diária de relembrar a saída do Egito e a Mitzvá que cumprimos na noite do Seder. Em primeiro lugar, para cumprir a Mitzvá diária é suficiente apenas mencionar para si mesmo a saída do Egito, enquanto a Mitzvá do Seder somente é cumprida quando contamos a saída do Egito através de perguntas e respostas, cumprindo o que está escrito: “E será, quando seu filho perguntar... e você contará a ele” (Shemot 13:14). No Seder, o filho pergunta “Má Nishtaná” (Qual a diferença desta noite?) e o pai responde “Avadim Hainu” (Fomos escravos). De acordo com a Halachá (Lei Judaica), mesmo uma pessoa que passa o Seder de Pessach sozinho também deve ler a Hagadá na forma de pergunta e resposta.

Uma segunda diferença é que para cumprir a Mitzvá diária é suficiente apenas mencionar o evento da saída do Egito propriamente dito, mas para cumprir a Mitzvá no Seder de Pessach é necessário descrever também alguns eventos anteriores e o encadeamento que levou à salvação do povo judeu, começando sempre pela desonra, como a escravidão e o fato dos nossos antepassados terem sido idólatras, e terminando com os louvores da salvação física e espiritual do povo judeu.

Uma terceira diferença é que durante o Seder de Pessach, além de mencionar a saída do Egito, também é necessário mencionar a motivação das Mitzvót que estamos cumprindo nesta noite, como está escrito na Hagadá: “Diz o Raban Gamliel: todo aquele que não falou estas três coisas em Pessach não cumpriu sua obrigação, e elas são: Pessach (o Korban que era oferecido em Pessach), Matzá (a massa que não teve tempo de fermentar quando o povo judeu saiu do Egito) e Maror (a amargura da escravidão)”.

Por que é tão importante entender quais são as diferenças entre a Mitzvá diária de recordar a saída do Egito e a Mitzvá de contar sobre a Saída do Egito na noite do Seder? Pois para cumprir uma Mitzvá da maneira correta, é necessário ter as Kavanót (intenções) corretas. Portanto, é importante lembrar os três pontos principais da Mitzvá de contar a Saída do Egito na noite do Seder para que possamos cumpri-la da maneira correta. O Rambam (Maimônides), em seu livro de Halachót “Mishne Torá” (Halachót Chametz Umatzá capítulo 7), além de explicitar que estas três diferenças devem ser aplicadas na noite do Seder para que se cumpra a Mitzvá da maneira correta, também acrescenta a importância de cada pai ensinar ao seu filho no Seder de uma forma que ele entenda e consiga internalizar os ensinamentos. Se o filho for pequeno ou tolo, deve ser ensinado de certa maneira, mas se ele for grande ou sábio, deve ser ensinado de outra maneira, cada um de acordo com sua capacidade de entendimento, pois o ponto principal da noite é deixar uma marca nos nossos corações e nos corações dos nossos filhos que dure o ano todo.

Quando nossos sábios fixaram na Hagadá de Pessach a Mishná que traz o ensinamento do Rav Elazar ben Azaria, eles queriam ressaltar que, apesar de termos no ano inteiro a Mitzvá diária de recordar a saída do Egito, na noite do Seder não é suficiente apenas mencionar para si mesmo, devemos acrescentar outros detalhes para o cumprimento da Mitzvá. E a própria Hagadá dá a dica na continuação, como está escrito: “Bendito seja D’us... em relação aos 4 filhos disse a Torá”, para acrescentar que devemos cumprir a Mitzvá de contar a saída do Egito aos filhos através de perguntas e respostas, e para cada filho de acordo com o seu entendimento. Logo depois a Hagadá escreve: “No princípio éramos idólatras”, para acrescentar que devemos cumprir a Mitzvá incluindo também os eventos anteriores que levaram à salvação do povo judeu, começando pela desonra e terminando com o louvor. E um pouco depois vem a citação do Raban Gamiel, “Pessach, Matzá e Maror”, para acrescentar que devemos cumprir a Mitzvá mencionando a motivação das Mitzvót realizadas nesta noite.

A noite do Seder é o momento reunir nossas família e contar aos nossos filhos a história do nosso povo, desde a assimilação e escravidão até a nossa liberdade, colocando nos corações de cada geração o agradecimento a D’us e a Emuná (fé) de que tudo está sob o controle Dele. Se cumprirmos esta Mitzvá com alegria e de forma minuciosa, cuidando de todos os detalhes da Halachá, certamente levaremos estas certezas gravadas em nosso coração durante o ano todo, e apenas a menção diária já será suficiente para manter as bases que construímos nesta noite tão fundamental para a continuidade do povo judeu.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 16:1-18:30, Am 9:7-15 (Ash.), Ez. 22:1- 16 (Sef.), Hb. 9:11-28 (Shabat Hagadol)

sexta-feira, 29 de março de 2013

SAIA DA PRISÃO - PESSACH II 5773


"Havia um bando de ladrões que aterrorizava os habitantes de um distante reinado. Mas após uma longa caçada, o rei finalmente conseguiu prender o bando e todos os ladrões foram jogados na prisão.

Alguns ladrões continuaram sonhando com a liberdade e, apesar da prisão ser considerada impossível de escapar, eles continuavam motivados e ficavam o tempo inteiro tramando planos de fuga e esperando a oportunidade certa. Mas os outros ladrões com o tempo se acomodaram, se acostumaram com a ideia de que estavam presos e que sua liberdade havia acabado para sempre.

Certo dia, os portões da prisão amanheceram abertos. Tudo o que faltava para a sonhada liberdade era apenas se levantar e sair da prisão. Aqueles que ansiavam pela liberdade assim fizeram, e facilmente escaparam. Mas os outros, apesar das portas abertas, permaneceram na prisão, e pelos mais variados motivos. Alguns não acreditaram que as portas da prisão estavam realmente abertas. Outros tiveram medo de sair por causa do desconhecido, não sabiam o que os esperaria do lado de fora. E um terceiro grupo permaneceu na prisão apenas pela força do hábito. Já estavam tão acostumados com a ideia de estarem confinados dentro daquela estreita cela que já não podiam mais se imaginar completamente livres"

Assim acontece conosco. Vivemos em uma prisão, mas que está trancada apenas em nossas mentes. Uma prisão que nos limita, que não nos deixa crescer, que não nos deixa perceber nosso verdadeiro potencial. Se quisermos a liberdade verdadeira, o primeiro passo é querer sair. Pois uma das piores desgraças para o ser humano é quando abrimos mão da nossa liberdade e aceitamos viver uma vida de prisioneiros, mesmo quando as portas para escapar estão completamente abertas...



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Este Shabat coincide com um dos dias intermediários da festa de Pessach, mais conhecida como "A época da nossa liberdade". E no domingo de noite (31/03) novamente é Yom Tov, o "Shvii (sétimo dia) de Pessach". Apesar de ser a conclusão da festa de Pessach e não ter um caráter independente, o "Shvii de Pessach" tem uma motivação especial para ser um dia sagrado: foi o dia em que D'us abriu o Mar Vermelho, com muitos milagres, para salvar os judeus e afogar os egípcios que os perseguiam, acabando de vez com a escravidão.

Porém, há algo que nos chama a atenção sobre o "Shvii de Pessach". Quando a Torá se refere ao primeiro dia de Pessach, que também é Yom Tov, diversas vezes a saída do Egito é ressaltada como sendo o motivo para a festa. Mas quando a Torá fala sobre o sétimo dia de Pessach, o incrível milagre da abertura do Mar não é mencionado. Além disso, quando o milagre da abertura do Mar é descrito na Parashá Beshalach, nenhuma menção é feita sobre a data na qual ocorreu este milagre. Sabemos que a abertura ocorreu no sétimo dia de Pessach apenas por transmissão oral dos nossos sábios. Portanto, se foi um evento tão grandioso, e se o "Shvii de Pessach" é um dia tão sagrado por causa deste milagre, por que não foi mencionado explicitamente na Torá?

Responde o livro "The Book of Our Heritage", do Rav Eliyahu Kitov, que as festas judaicas não foram definidas para nos alegrarmos com a queda dos nossos inimigos, e sim para comemorarmos a salvação do nosso povo. Da mesma forma que D'us não se alegra quando os malvados são destruídos, o povo judeu também não se alegra por este motivo. Por exemplo, quando mencionamos as 10 pragas durante o Seder de Pessach, tiramos gotas de vinho do nosso copo, demonstrando nosso pesar por todos os sofrimentos que os egípcios passaram, apesar de tudo o que eles haviam nos causado durante os mais de 100 anos de brutal escravidão. Por isso a Torá "esconde" a conexão entre a abertura do Mar Vermelho e o "Shvii de Pessach", para que ninguém pense que a festa é em comemoração pela morte dos egípcios.

Quando o povo judeu saiu do Egito, apesar de toda a demonstração de força de D'us, o Faraó pensou que eles se ausentariam por apenas 3 dias e logo voltariam. Por isso ele enviou junto alguns espiões, que trariam as informações de cada passo do povo judeu no deserto. Quando terminou o prazo dos 3 dias, os espiões voltaram ao Faraó e informaram que o povo judeu não tinha nenhum intenção de voltar. Então D'us quis testar mais uma vez a Emuná (fé) do seu povo. Após estes 3 dias "sob as asas de D'us", Moshé tocou o Shofar e ordenou ao povo judeu que começasse a caminhar de volta ao Egito, sem informar o motivo da volta. A intenção de D'us era confundir o Faraó, deixando-o na dúvida sobre os motivos pelo qual os judeus voltavam, criando a ilusão de que ele poderia novamente escravizar o povo judeu. Era apenas uma "isca" para atrair o Faraó e seu exército, para levá-los ao Mar Vermelho e afogá-los, da mesma maneira como eles haviam afogado os bebês judeus ao atirá-los no Rio Nilo. Mas por que D'us não revelou ao povo judeu que tudo era parte de um plano? Por que D'us testou o povo desta maneira, com um teste tão difícil?

Após D'us ter arrasado completamente os egípcios, o povo judeu saiu do Egito em pleno dia, de cabeça erguida, e não no meio da noite, como ladrões fugitivos. Mas mesmo assim os judeus ainda se sentiam escravos. Não era suficiente D'us ter destruído a terra do Egito, era necessário destruir o Egito que havia dentro de cada judeu. A palavra "Mitzraim", que significa "Egito", vem da mesma raiz de "Metzarim", que significa "limitações". Foi por isso que D'us novamente testou o povo judeu, fazendo-os marchar de volta ao Egito. Na saída do Egito, D'us havia aberto as portas da prisão, mas os judeus precisavam se levantar e querer sair. E apesar de todo o sofrimento de mais de 100 anos de escravidão, a grande maioria do povo confiou em D'us e marchou de volta, confiante. Apenas um pequeno grupo se desesperou, a ponto de rasgar suas próprias roupas, mas foram tranquilizados pelas palavras de Moshé, que revelou os planos de D'us e garantiu que eles estavam livres para sempre.

Toda a escravidão do Egito teve como único propósito despertar dentro do povo judeu a Emuná (fé), aperfeiçoando ainda mais o incrível nível de conexão com D'us que os nossos patriarcas Avraham, Yitzchak e Yaacov já haviam atingido. Por isso foi tão importante o povo judeu passar por este último teste, um grande teste de Emuná, que demonstrou que o povo estava disposto a escutar as palavras de D'us e confiar Nele mesmo quando parecia algo tão ilógico quanto voltar para o Egito, para o local onde eles haviam sido tão brutalmente escravizados. O teste tirou de dentro de cada judeu a força de querer ser livre de verdade, de acabar com o "Egito" que havia dentro de cada um deles.

Todos nós queremos ser grandes, em todas as áreas. Queremos ser grandes profissionais, grandes pais, grandes esposos. Mas por que tão poucos alcançam realmente a grandeza? Pois todos encontram na vida obstáculos para o seu crescimento. Cada um tem os seus próprios desafios a serem vencidos. Cada um vive em seu próprio "Egito" pessoal, e para podermos ser livres, antes de tudo precisamos acreditar que podemos vencer. Porém, quantas vezes nos rendemos e desistimos, muitas vezes sem lutar, aceitando passivamente nossa "prisão", quando surgem dificuldades e obstáculos no caminho? Os vencedores que atingem a grandeza são aqueles que não desistem diante de um fracasso, que não param apenas porque parece difícil demais. Como dizia Thomas Edison, o inventor da lâmpada, que o talento é composto por 1% de inspiração e 99% de transpiração.

Quando comemoramos uma festa no judaísmo, não estamos apenas relembrando algo histórico que aconteceu com nossos antepassados. Ensina o Rav Chaim Luzzato, em seu livro "Derech Hashem", que qualquer conquista que foi atingida, qualquer luz que foi irradiada em certo período da história, quando este mesmo momento volta no ciclo anual, o brilho daquela luz volta novamente a nos iluminar, e os frutos daquela conquista podem voltar a ser recebidos por todos aqueles que desejarem. É um momento no qual podemos crescer espiritualmente de uma maneira muito mais intensa.

Esta é a oportunidade especial de Pessach. Embora o esforço e a dedicação durante o ano nos ajuda a vencer os obstáculos que limitam nosso crescimento, especialmente durante Pessach o mesmo esforço resulta em conquistas muito maiores e mais duradouras. Em qualquer momento do ano, se quisermos atingir a liberdade verdadeira, isto é possível apenas através de trabalho duro e muita determinação. Mas durante Pessach as portas da prisão se abrem, e tudo o que precisamos é decidir levantar e sair.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 32:12-34:26 (Maftír – Num 28:19-25), Ez. 37:1-14, Jo. 5:14-30

sábado, 23 de março de 2013

CONTROLANDO AS TENTAÇÕES - PARASHÁ TZAV E PESSACH 5773

CONTROLANDO AS TENTAÇÕES - PARASHÁ TZAV E PESSACH 5773 (22 de março de 2012)

"Um fumante foi se consultar com um terapeuta, buscando ajuda para controlar seu vício de fumar vários maços de cigarro por dia. Muitas vezes ele havia tentado parar de fumar, mas sem sucesso. O terapeuta, para ajudá-lo, admitiu ao paciente:
- Sabe, eu também costumava fumar muito. Tentei parar, convencendo a mim mesmo que cigarros são nojentos, prejudiciais à minha saúde e perigosos também para minha família. E funcionou, mas apenas por alguns poucos dias. Passado algum tempo, eu voltei a me convencer que fumar não era algo assim tão ruim. Tentando racionalizar, decidi que voltaria a fumar apenas alguns poucos cigarros por dia, e sempre longe da minha família, de preferência onde ninguém poderia me ver. E assim foi no início, mas com a volta do hábito de fumar, tive uma forte recaída e logo estava fumando tanto quanto antes, mesmo na presença da minha família.
- E como você realmente conseguiu parar de fumar? - perguntou o paciente, curioso.
- Certa vez – disse o terapeuta – eu tentei uma estratégia diferente. Peguei um cigarro na mão, olhei fixamente para ele por alguns instantes e disse para mim mesmo: 'Sim, este cigarro me trará muito prazer se eu fumá-lo. E o que eu desejo agora é fumá-lo para sentir este prazer. Mas eu decidi que vou parar.
- Esta mudança de atitude funcionou para conter meu vício, e depois disso eu nunca mais fumei – finalizou o terapeuta – O motivo de esta técnica ter funcionado é que eu não tentei me enganar, fingindo que o cigarro não me dava prazer. Em vez disso, eu decidi admitir para mim mesmo que eu desejava fumar um cigarro, mas que preferia controlar meu desejo".
Assim deve ser nossa atitude em relação aos nossos vícios. Não podemos tentar nos enganar. Temos que encarar o problema de frente e buscar soluções que possam realmente nos ajudar a fugir dos nossos vícios e desejos, principalmente daqueles que prejudicam as nossas vidas e as vidas das pessoas em volta.

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Nesta semana lemos a Parashá Tzav, que continua descrevendo as leis dos Korbanót (sacrifícios) que eram oferecidos no Mishkan (Templo Móvel). E um dos Korbanót era o "Korban Todá", o sacrifício de agradecimento, trazido por uma pessoa que havia passado por um grande risco de vida. O Korban servia para a pessoa reconhecer que a mão de D'us estava por traz de sua salvação, evitando assim o grave erro de pensar que as coisas acontecem por acaso, sem controle. E muitas vezes esta Parashá é lida no "Shabat HaGadol", o último Shabat antes da festa de Pessach, que começa na próxima segunda feira de noite (25/03). Talvez uma das conexões da Parashá Tzav com a festa de Pessach é que, da mesma forma que o Korban Todá era um lembrete para a pessoa não se esquecer da "Mão de D'us" em sua salvação, assim também é Pessach, a festa em que reunimos nossas famílias, principalmente durante o Seder de Pessach, e recordamos de todos os milagres que D'us fez para nos salvar do Egito.

A salvação do Egito não foi apenas uma salvação física. O povo judeu estava em uma terrível queda espiritual. O profeta Yechezkel, para descrever a decadência espiritual do povo judeu durante a escravidão no Egito, após dois séculos no lugar mais promíscuo e idólatra do mundo, utiliza a seguinte expressão: "Ve At Eirom VeEria" (Yechezkel 16:7), que significa literalmente "você estava nua e sem roupa". O que significa esta expressão, e por que o profeta utilizou duas linguagens aparentemente redundantes, nu e sem roupa?

Além disso, o profeta Yechezkel também descreve que quando D'us viu o povo judeu naquele nível tão baixo, sob a terrível opressão egípcia, Ele falou: "Vocês devem viver através do seu sangue, vocês devem viver através do seu sangue" (Yechezkel 16:6). O Midrash (parte da Torá Oral) ensina que as duas menções do sangue se referem ao sangue do Brit Milá (circuncisão) e ao sangue do Korban Pessach. O que isto significa? O povo judeu estava em um nível espiritual muito baixo, também imersos em idolatria e promiscuidades, e por isso não tinham méritos suficientes para serem salvos por D'us. Mas com as Mitzvót do Brit Milá e do Korban Pessach, eles conseguiram se elevar e atingir o nível necessário para a salvação. Porém, como o sangue do Brit Milá e o sangue do Korban Pessach serviram como antídoto para o nível espiritual baixo do povo judeu, descrito como "nu e sem roupa"?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a linguagem "Eirom", que significa "nu", se refere a um nível de nudez no qual a pessoa sente a vergonha e a humilhação de estar sem roupa. É o mesmo termo que a Torá utiliza quando Adam e Chava (Adão e Eva), após terem comido do fruto proibido, tiveram consciência de sua nudez e se esconderam por causa da vergonha. Já a linguagem "Eria", que significa "sem roupa", vem da raiz "Ervá", uma linguagem que está relacionada com libertinagem e imoralidade. É um nível no qual a pessoa perde a sua grandeza de ser humano e não sente mais nenhuma vergonha ou humilhação por estar nu. Os animais não tem nenhuma vergonha de sua nudez, pois a vergonha é um sentimento inato do ser humano. Quando uma pessoa cai neste nível, ela desce a um grau igual ao dos animais. De onde vem esta dessensibilização? Do constante envolvimento com comportamentos imorais.

Da mesma forma que isto ocorre no mundo material, também ocorre em um sentido espiritual. Uma pessoa que se afasta dos caminhos corretos pode sofrer duas consequências espirituais diferentes. Em um primeiro nível, a pessoa comete transgressões mas sente vergonha por isso. Porém, há um nível ainda mais baixo, no qual a pessoa se sente confortável com seus maus atos e perde a sensibilidade, não sentindo nem mesmo vergonha dos seus erros. Neste nível, a pessoa perde o foco do que é requerido dela como ser humano.

Antes da saída do Egito, o povo judeu havia caído no 49º grau de impureza espiritual, em uma gradação que ia até 50. O profeta Yechezkel nos ensina que eles estavam tão dessensibilizados que já não sentiam nenhuma vergonha de estarem "nus espiritualmente", isto é, desprovidos de qualquer espiritualidade. O enorme peso da escravidão, junto com o profundo envolvimento com as idolatrias egípcias, desumanizaram tanto os judeus que eles perderam até mesmo a vergonha de sua condição espiritual tão baixa. Por isso o profeta utilizou as duas linguagens, para demonstrar que não apenas o povo judeu pecava, mas já não sentia nem mesmo a vergonha pelos seus erros.

O Talmud (Sanhedrin 62b) ensina que a idolatria é, na verdade, um meio que a pessoa utiliza para entrar em imoralidades. Enquanto uma pessoa sente vergonha do seu comportamento imoral, ela não pode aproveitar totalmente a libertinagem, pois sua consciência não a deixa. A única maneira é tirar de si a responsabilidade com D'us, e a idolatria é a maneira de atingir esta "liberdade". A escravidão piorou ainda mais a situação, pois o escravo é o protótipo da pessoa que não tem responsabilidade por seus atos e suas consequências futuras, se envolvendo muito mais facilmente em comportamentos promíscuos. Neste contexto, foram necessárias as duas Mitzvót, o Brit Milá e o Korban Pessach, para afastar o povo judeu do caminho da idolatria e da imoralidade, e trazer os méritos necessários para a salvação.

Explica o Rambam (Maimônides) que o Brit Milá é um símbolo de moralidade, sendo especificamente realizado no órgão reprodutor para nos ensinar a elevarmos nossos desejos e energias e canalizá-los ao cumprimento do nosso propósito na vida, o oposto do que fazem os animais, que são completamente dominados e guiados apenas por seus desejos. Ainda segundo o Rambam, o Korban Pessach era a negação final da idolatria. O cordeiro era a divindade egípcia e, portanto, o abate do cordeiro demonstrava a lealdade do povo judeu com D'us. Os dois sangues ajudaram o povo judeu a retomar o foco, possibilitando a redenção.

Quando lemos a Hagadá na noite do Seder de Pessach e dizemos "Se D'us não tivesse tirado nossos antepassados do Egito, nós, nossos filhos e os filhos dos nossos filhos ainda estaríamos subjugados ao Faraó no Egito", estamos reafirmando que se D'us não tivesse nos tirado do Egito, estaríamos até hoje entregues à promiscuidade e à idolatria, dois erros que nos afastam do nosso caminho correto e não nos deixam cumprir o nosso papel espiritual no mundo.

Da mesma forma que o povo judeu foi salvo pelo mérito dos dois sangues, do Brit Milá e do Korban Pessach, que possamos meritar a nossa salvação final voltando nossos corações para D'us em Emuná (fé) completa e canalizando nossos desejos apenas para fazer o que é correto na vida.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24, Hb. 8: 1-6
 
 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

EXPULSANDO A ESCURIDÃO - PESSACH II 5772 (13 de abril de 2012)

"Certa vez um rei muito sábio decidiu procurar um bom marido para sua filha preferida. Buscava um jovem que tivesse diversas boas qualidades, mas entre elas a que ele mais desejava era a sabedoria. Para isso, criou um desafio e anunciou que aquele que vencesse poderia casar-se com sua filha. Qual era o desafio? O pretendente deveria encher o salão principal do palácio com alguma substância leve e sem gastar muito tempo. Vários candidatos se apresentaram para tentar vencer o desafio e conquistar o mérito de casar-se com a princesa. O primeiro trouxe uma enorme quantidade de penas, mas apesar de seu imenso esforço e vontade, o tempo passou e ele não conseguiu encher o salão inteiro. Já o segundo tentou encher o salão com uma seda fina, porém também desistiu após algum tempo. E assim centenas de pessoas tentaram encher o salão com os mais diversos materiais, mas não conseguiram. O rei, ao ver o fracasso de todos, ficou desesperado. Será que ninguém venceria o desafio? Será que não encontraria o marido ideal para sua filha?
Certo dia, um pretendente entrou no palácio. Para a surpresa de todos, ele vinha de mãos vazias. O rei então questionou:
- Meu jovem, se você não traz nada nas mãos, como pretende vencer o desafio? Com o que você vai encher o meu salão?
O jovem rapaz não respondeu, apenas pediu aos ajudantes do rei que apagassem completamente as luzes do salão. Quando o salão ficou completamente tomado pela escuridão, o jovem rapaz tirou uma pequena vela do bolso e a acendeu. A luz preencheu imediatamente todo o salão, expulsando a escuridão. O jovem havia vencido o desafio"
O mundo está repleto de maus atos, que se comparam à escuridão. Chegamos a ficar sem esperanças de ver um mundo melhor, mais justo e mais feliz. Mas temos que saber que cada bom ato que fazemos se compara a uma vela, que mesmo sendo pequena, tem o poder de expulsar a escuridão.
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Na noite desta quinta feira (12 de abril) novamente é Yom Tov, no qual comemoramos o sétimo dia de Pessach. O Yom Tov é um dia com mais Kedushá (Santidade), no qual, como no Shabat, nos abstemos de certas atividades criativas. Entendemos porque D'us determinou que o primeiro dia de Pessach fosse Yom Tov, já que neste dia ocorreu a saída do Egito. Mas o que houve de especial no sétimo dia de Pessach, que justifica outro Yom Tov?
Mesmo depois dos judeus terem saído do Egito, após as 10 pragas devastadoras, a escravidão não havia terminado definitivamente. Eles ainda se sentiam escravos, pois apesar de já terem escapado do local de escravidão, sabiam que os egípcios poderiam persegui-los através do deserto para levá-los de volta. E os judeus estavam certos, pois foi justamente isto que ocorreu. Os judeus ainda não haviam se afastado muito quando o Faraó, sem medo das consequências, juntou 600 charretes de guerra e seus melhores homens e partiu em sua perseguição. Os judeus viram-se completamente cercados: dos lados, o deserto inóspito, cheio de animais perigosos. Diante deles, o Mar Vermelho, instransponível. E atrás deles, o bem treinado exército egípcio, declarando guerra contra eles. Foi então que D'us preparou o grande final, abrindo o mar para que os judeus passassem em terra firme e fechando-o sobre os egípcios, matando todo o exército e libertando definitivamente os judeus.
Mas como podemos entender esta obstinação do Faraó? Será que ele era tão tolo? Depois de ter presenciado as 10 pragas, após ter visto que D'us tem poder infinito e controle sobre toda a natureza, o Faraó não sabia que seu exército seria facilmente esmagado? Após sentir a mão pesada de D'us na morte dos primogênitos, ele foi pessoalmente permitir aos judeus que saíssem do Egito, então por que voltou a perseguir os judeus, alheio às terríveis consequências que certamente viriam?
A Torá explica que mais uma vez D'us endureceu o coração do Faraó, e somente por isso ele O desafiou novamente. Em outras palavras, o grande milagre da abertura do mar precisava acontecer, a para garantir que aconteceria, D'us forçou o Faraó a perseguir os judeus. Mas por que foi necessário mais este milagre? Afinal, se todo o propósito de D'us ter quebrado as leis da natureza nas 10 pragas era libertar o povo judeu do Egito, o propósito já havia sido alcançado. Então por que foi necessário endurecer o coração do Faraó mais uma vez? O que o milagre da abertura do mar acrescentou ao povo judeu?
Outra pergunta que surge é em relação à reação do povo judeu após a morte do exército egípcio. Quando eles viram os egípcios mortos na praia, imediatamente fizeram um cântico de louvor a D'us, chamado "Shirat Haiam" (Cântico do mar). Antes eles estavam encolhidos de medo, mas agora eles comemoravam, cantando de alegria. Porém, há um Midrash (parte da Torá Oral) que parece contraditório com a reação do povo judeu. O Midrash conta que quando os egípcios morreram, os anjos também se alegraram e começaram a cantar. Imediatamente D'us interrompeu a comemoração dos anjos e disse: "Minhas criaturas estão morrendo e vocês querem fazer cânticos de louvor para Mim?". Como podemos entender este Midrash? Se D'us deu uma bronca nos anjos por causa da falta de sensibilidade deles, por que a Torá não criticou o povo judeu pelo mesmo motivo? Além disso, o "Shirat Haiam" foi inserido no texto de Shacharit (reza da manhã). Se este cântico é algo indesejável para D'us, por que o repetimos todos os dias?
Para responder estas perguntas, precisamos antes entender o que são os anjos. Em Lashon Hakodesh (língua com a qual D'us criou o mundo e escreveu a Torá), a palavra "anjo" é "Malach", que também significa "mensageiro". Um anjo é uma criatura cuja única função é cumprir a missão designada por D'us. O nome da cada anjo representa a sua essência, isto é, a missão para a qual ele foi criado. Por exemplo, o anjo Rafael é o anjo da cura ("Refua" é "cura" em Lashon Hakodesh). Os anjos, portanto, não tem livre escolha. Um entregador do correio que está a caminho de entregar um pacote não precisa decidir se a pessoa merece ou não receber a encomenda, ele deve apenas cumprir a sua função. Assim também os anjos devem cumprir exatamente o que D'us comandou, nem a mais nem a menos. Eles não precisam desenvolver um senso de justiça, de certo e errado, de bom e mal. Por isso era desnecessário, e até mesmo inapropriado, que eles cantassem de alegria diante da morte das criaturas de D'us.
Os seres humanos, ao contrário, foram criados com livre escolha. Nossas escolhas entre o bem e o mal fazem muita diferença. Nós precisamos trabalhar para desenvolver o senso de justiça e a vontade de lutar para que o bem vença o mal, como diz David Hamelech: "Aqueles que amam D'us odeiam o mal" (Salmos 97:10). Por isso para o povo judeu era apropriado, necessário e até mesmo digno de louvor expressar a alegria quando a justiça foi feita e eles viram o bem derrotando o mal.
Mas o que havia de diferente entre o milagre da abertura do mar e os milagres das 10 pragas no Egito? Nas 10 pragas, o povo judeu era apenas um espectador, completamente passivo, não estava em guerra contra o mal. Já na abertura do mar houve uma declaração de guerra entre os egípcios e o povo judeu. D'us queria, com a abertura do mar e a morte dos egípcios diante dos olhos de todo o povo, colocar no coração de cada judeu a noção de justiça, da necessidade de lutar pelo bem. E nossos sábios fixaram este cântico na Tefilá diária justamente para que possamos sempre refletir sobre a necessidade de fazer o bem e lutar contra o mal.
Vivemos sonhando com um mundo onde o mal não existe, onde todos fazem o bem e a paz reina. Não é uma utopia, pois este é o propósito do mundo, é a realidade na qual um dia certamente chegaremos. Mas não podemos viver sonhando, precisamos viver na realidade de que o mal ainda existe e precisamos lutar contra ele. Martin Luther King, um grande líder negro dos Estados Unidos, eternizou uma frase interessante: "Pior do que a maldade dos perversos é o silêncio dos justos". Não podemos nos acomodar, não podemos enxergar a maldade como algo normal e aceitável. Não podemos nos trancar em nossas casas e viver como se o mal não existisse lá fora.
Mas como se luta contra o mal? Praticando ativamente o bem. Através de atos de Chessed (bondades), do cumprimento das Mitzvót e do refinamento das nossas características pessoais, como a paciência e a humildade. Dizia o Rav Noach Weinberg zt"l, que dedicou a vida para trazer judeus de volta ao judaísmo, que uma de suas maiores motivações era lembrar que os nazistas, a serviço do mal, mataram 6 milhões de judeus. Eles se esforçavam, pensavam o tempo inteiro em como ser mais eficientes, em como matar mais judeus de uma só vez. O Rav Noach Weinberg dizia que se o mal conseguiu destruir a vida de 6 milhões de judeus, precisamos nos esforçar com toda a nossa energia para que, através do bem, possamos trazer muito mais do que 6 milhões de judeus de volta aos caminhos da bondade e do conhecimento da Torá e das Mitzvót. Não é suficiente apenas boas intenções, precisamos de esforço e determinação.
Fomos ensinados que não somos especiais, que somos apenas "mais um tijolo na parede". Mas a verdade é que o futuro do mundo está nas mãos de cada um de nós. Cada alma é uma vela na escuridão. Cada alma pode iluminar a vida de muitas pessoas à sua volta. Pois toda a escuridão do mundo não pode extinguir a luz de uma pequena vela acesa. Por isso, cada pequeno bom ato vale muito.
Que em Pessach cada um de nós possa sair de sua própria escravidão, e que possamos acender a nossa própria vela para iluminar, inicialmente as pessoas à nossa volta, e aos poucos o mundo inteiro
CHAG SAMEACH E SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
Ex. 13:17-15:26 (Maftír – Num 28:19-25), 2Sm 22:1-51, Ap 15:1-4