"Havia um bando de ladrões que aterrorizava os
habitantes de um distante reinado. Mas após uma longa caçada, o rei finalmente
conseguiu prender o bando e todos os ladrões foram jogados na
prisão.
Alguns ladrões continuaram sonhando com a liberdade e, apesar da
prisão ser considerada impossível de escapar, eles continuavam motivados e
ficavam o tempo inteiro tramando planos de fuga e esperando a oportunidade
certa. Mas os outros ladrões com o tempo se acomodaram, se acostumaram com a
ideia de que estavam presos e que sua liberdade havia acabado para
sempre.
Certo dia, os portões da prisão amanheceram abertos. Tudo o que
faltava para a sonhada liberdade era apenas se levantar e sair da prisão.
Aqueles que ansiavam pela liberdade assim fizeram, e facilmente escaparam. Mas
os outros, apesar das portas abertas, permaneceram na prisão, e pelos mais
variados motivos. Alguns não acreditaram que as portas da prisão estavam
realmente abertas. Outros tiveram medo de sair por causa do desconhecido, não
sabiam o que os esperaria do lado de fora. E um terceiro grupo permaneceu na
prisão apenas pela força do hábito. Já estavam tão acostumados com a ideia de
estarem confinados dentro daquela estreita cela que já não podiam mais se
imaginar completamente livres"
Assim acontece conosco. Vivemos em uma
prisão, mas que está trancada apenas em nossas mentes. Uma prisão que nos
limita, que não nos deixa crescer, que não nos deixa perceber nosso verdadeiro
potencial. Se quisermos a liberdade verdadeira, o primeiro passo é querer sair.
Pois uma das piores desgraças para o ser humano é quando abrimos mão da nossa
liberdade e aceitamos viver uma vida de prisioneiros, mesmo quando as portas
para escapar estão completamente abertas...
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Este
Shabat coincide com um dos dias intermediários da festa de Pessach, mais
conhecida como "A época da nossa liberdade". E no domingo de noite (31/03)
novamente é Yom Tov, o "Shvii (sétimo dia) de Pessach". Apesar de ser a
conclusão da festa de Pessach e não ter um caráter independente, o "Shvii de
Pessach" tem uma motivação especial para ser um dia sagrado: foi o dia em que
D'us abriu o Mar Vermelho, com muitos milagres, para salvar os judeus e afogar
os egípcios que os perseguiam, acabando de vez com a escravidão.
Porém,
há algo que nos chama a atenção sobre o "Shvii de Pessach". Quando a Torá se
refere ao primeiro dia de Pessach, que também é Yom Tov, diversas vezes a saída
do Egito é ressaltada como sendo o motivo para a festa. Mas quando a Torá fala
sobre o sétimo dia de Pessach, o incrível milagre da abertura do Mar não é
mencionado. Além disso, quando o milagre da abertura do Mar é descrito na
Parashá Beshalach, nenhuma menção é feita sobre a data na qual ocorreu este
milagre. Sabemos que a abertura ocorreu no sétimo dia de Pessach apenas por
transmissão oral dos nossos sábios. Portanto, se foi um evento tão grandioso, e
se o "Shvii de Pessach" é um dia tão sagrado por causa deste milagre, por que
não foi mencionado explicitamente na Torá?
Responde o livro "The Book of
Our Heritage", do Rav Eliyahu Kitov, que as festas judaicas não foram definidas
para nos alegrarmos com a queda dos nossos inimigos, e sim para comemorarmos a
salvação do nosso povo. Da mesma forma que D'us não se alegra quando os malvados
são destruídos, o povo judeu também não se alegra por este motivo. Por exemplo,
quando mencionamos as 10 pragas durante o Seder de Pessach, tiramos gotas de
vinho do nosso copo, demonstrando nosso pesar por todos os sofrimentos que os
egípcios passaram, apesar de tudo o que eles haviam nos causado durante os mais
de 100 anos de brutal escravidão. Por isso a Torá "esconde" a conexão entre a
abertura do Mar Vermelho e o "Shvii de Pessach", para que ninguém pense que a
festa é em comemoração pela morte dos egípcios.
Quando o povo judeu saiu
do Egito, apesar de toda a demonstração de força de D'us, o Faraó pensou que
eles se ausentariam por apenas 3 dias e logo voltariam. Por isso ele enviou
junto alguns espiões, que trariam as informações de cada passo do povo judeu no
deserto. Quando terminou o prazo dos 3 dias, os espiões voltaram ao Faraó e
informaram que o povo judeu não tinha nenhum intenção de voltar. Então D'us quis
testar mais uma vez a Emuná (fé) do seu povo. Após estes 3 dias "sob as asas de
D'us", Moshé tocou o Shofar e ordenou ao povo judeu que começasse a caminhar de
volta ao Egito, sem informar o motivo da volta. A intenção de D'us era confundir
o Faraó, deixando-o na dúvida sobre os motivos pelo qual os judeus voltavam,
criando a ilusão de que ele poderia novamente escravizar o povo judeu. Era
apenas uma "isca" para atrair o Faraó e seu exército, para levá-los ao Mar
Vermelho e afogá-los, da mesma maneira como eles haviam afogado os bebês judeus
ao atirá-los no Rio Nilo. Mas por que D'us não revelou ao povo judeu que tudo
era parte de um plano? Por que D'us testou o povo desta maneira, com um teste
tão difícil?
Após D'us ter arrasado completamente os egípcios, o povo
judeu saiu do Egito em pleno dia, de cabeça erguida, e não no meio da noite,
como ladrões fugitivos. Mas mesmo assim os judeus ainda se sentiam escravos. Não
era suficiente D'us ter destruído a terra do Egito, era necessário destruir o
Egito que havia dentro de cada judeu. A palavra "Mitzraim", que significa
"Egito", vem da mesma raiz de "Metzarim", que significa "limitações". Foi por
isso que D'us novamente testou o povo judeu, fazendo-os marchar de volta ao
Egito. Na saída do Egito, D'us havia aberto as portas da prisão, mas os judeus
precisavam se levantar e querer sair. E apesar de todo o sofrimento de mais de
100 anos de escravidão, a grande maioria do povo confiou em D'us e marchou de
volta, confiante. Apenas um pequeno grupo se desesperou, a ponto de rasgar suas
próprias roupas, mas foram tranquilizados pelas palavras de Moshé, que revelou
os planos de D'us e garantiu que eles estavam livres para sempre.
Toda a
escravidão do Egito teve como único propósito despertar dentro do povo judeu a
Emuná (fé), aperfeiçoando ainda mais o incrível nível de conexão com D'us que os
nossos patriarcas Avraham, Yitzchak e Yaacov já haviam atingido. Por isso foi
tão importante o povo judeu passar por este último teste, um grande teste de
Emuná, que demonstrou que o povo estava disposto a escutar as palavras de D'us e
confiar Nele mesmo quando parecia algo tão ilógico quanto voltar para o Egito,
para o local onde eles haviam sido tão brutalmente escravizados. O teste tirou
de dentro de cada judeu a força de querer ser livre de verdade, de acabar com o
"Egito" que havia dentro de cada um deles.
Todos nós queremos ser
grandes, em todas as áreas. Queremos ser grandes profissionais, grandes pais,
grandes esposos. Mas por que tão poucos alcançam realmente a grandeza? Pois
todos encontram na vida obstáculos para o seu crescimento. Cada um tem os seus
próprios desafios a serem vencidos. Cada um vive em seu próprio "Egito" pessoal,
e para podermos ser livres, antes de tudo precisamos acreditar que podemos
vencer. Porém, quantas vezes nos rendemos e desistimos, muitas vezes sem lutar,
aceitando passivamente nossa "prisão", quando surgem dificuldades e obstáculos
no caminho? Os vencedores que atingem a grandeza são aqueles que não desistem
diante de um fracasso, que não param apenas porque parece difícil demais. Como
dizia Thomas Edison, o inventor da lâmpada, que o talento é composto por 1% de
inspiração e 99% de transpiração.
Quando comemoramos uma festa no
judaísmo, não estamos apenas relembrando algo histórico que aconteceu com nossos
antepassados. Ensina o Rav Chaim Luzzato, em seu livro "Derech Hashem", que
qualquer conquista que foi atingida, qualquer luz que foi irradiada em certo
período da história, quando este mesmo momento volta no ciclo anual, o brilho
daquela luz volta novamente a nos iluminar, e os frutos daquela conquista podem
voltar a ser recebidos por todos aqueles que desejarem. É um momento no qual
podemos crescer espiritualmente de uma maneira muito mais intensa.
Esta
é a oportunidade especial de Pessach. Embora o esforço e a dedicação durante o
ano nos ajuda a vencer os obstáculos que limitam nosso crescimento,
especialmente durante Pessach o mesmo esforço resulta em conquistas muito
maiores e mais duradouras. Em qualquer momento do ano, se quisermos atingir a
liberdade verdadeira, isto é possível apenas através de trabalho duro e muita
determinação. Mas durante Pessach as portas da prisão se abrem, e tudo o que
precisamos é decidir levantar e sair.
SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE
SAMEACH
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 32:12-34:26 (Maftír – Num 28:19-25), Ez. 37:1-14, Jo. 5:14-30