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sexta-feira, 23 de junho de 2017

O FOGO DAS DISCUSSÕES - PARASHÁ KORACH 5777

"Por causa dos conflitos que ocorreram durante a Revolução Russa, em 1917, uma quantidade muito grande de judeus foi viver em Radin, na Polônia. Chegando lá, muitos dos novos moradores decidiram criar um novo "Chevra Kadisha" (entidade responsável pelos cuidados com os mortos e com os rituais de sepultamento) na cidade, apesar de já existir há muitos anos em Radim um "Chevra Kadisha". Um mal estar se formou na cidade, dando indícios de que uma grande Machloket (discussão destrutiva) se iniciaria por causa deste assunto.

No Shabat, no final da Tefilá de Shacharit, o rabino Isroel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, se levantou, se direcionou ao púlpito e pediu a permissão para falar algumas palavras. E assim ele começou:

- Meus queridos irmãos, mesmo se tivessem me oferecido mil rublos para vir dar um discurso aqui na sinagoga, eu não teria aceitado. Eu já estou velho e cada instante da minha vida é tão precioso que por nenhum dinheiro do mundo eu venderia o meu tempo. Mas eu senti que há uma enorme necessidade de hoje dizer algumas palavras para vocês. Eu estou aqui na cidade há mais de 50 anos, eu me lembro de todos os judeus que passaram por esta sinagoga. Onde eles estão hoje? De alguns restaram apenas os túmulos no cemitério. Muitos de vocês ainda não haviam nem nascido. Outros, que eram apenas crianças, hoje estão entre os mais velhos da comunidade. Que D'us queira que todos possamos ter vidas longas, mas sabemos que no final das contas todos iremos para "lá" e teremos que prestar contas de tudo o que fizemos aqui.

- E saibam, meus senhores - continuou o Chafetz Chaim, com a voz emocionada - que este assunto de Machloket é algo muito grave. Até mesmo aquele que cumpre muitas Mitzvót, quando se envolve em uma Machloket, é como se tivesse jogado seus méritos dentro de um pacote furado. Tenho certeza de que quando vocês entenderem "lá" o nível de rigorosidade do julgamento, tentarão de tudo para se salvar. Talvez vocês dirão no Tribunal Celestial: 'Havia um judeu na nossa cidade, chamado Isroel Meir, que o consideravam um grande sábio de Torá. Ele viu toda a Machloket e ficou em silêncio'. Por isso eu estou aqui hoje, para pedir por favor que vocês não mencionem meu nome. Eu já tenho o meu "pacote" e não sei como farei para passar o meu julgamento. Portanto, não posso receber sobre mim a responsabilidade dos outros.

De repente, o Chafetz Chaim começou a chorar, um choro amargo e triste, e todo o seu corpo tremia de medo. As pessoas da cidade ficaram tão sensibilizadas que imediatamente receberam sobre si cancelar a criação da nova "Chevra Kadisha". Além disso, para trazer de volta a paz para a cidade de Radin, decidiram que nos próximos três anos ninguém teria que pagar os custos dos enterros, tudo seria feito apenas através de atos voluntários, um ato de "Chessed Shel Emet" (bondade verdadeira)".

Infelizmente muitas vezes entramos em brigas e discussões por não saber a gravidade dos nossos atos. A Machloket é um fogo que queima e destrói, tanto neste mundo quando no Mundo Vindouro.

A Parashá desta semana, Korach, é uma incrível demonstração de que a nossa Torá é um livro de Emet (verdade). A Torá não esconde nem encobre nenhuma transgressão, mesmo as cometidas por Tzadikim (pessoas justas e corretas). Além disso, ao estudarmos sobre os erros cometidos por outras pessoas, podemos aprender valiosos ensinamentos para as nossas vidas, e de forma muito mais objetiva, pois é mais fácil enxergar os erros dos outros do que os nossos próprios erros.

A Parashá descreve um triste episódio que envolveu inclusive pessoas da tribo espiritualmente mais elevada do povo judeu, a tribo de Levi. Motivado pela inveja e pela busca de honra, Korach, um homem da tribo de Levi, iniciou uma rebelião contra Moshé e Aharon, seus primos. Através de sua lábia, Korach conseguiu envolver mais 250 homens da tribo de Levi em uma disputa contra a liderança de Moshé. O principal argumento de Korach era que as escolhas de Moshé como líder e Aharon como Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) haviam sido planejadas por eles mesmos e não haviam sido uma indicação de D'us. Para alcançar seu objetivo, Korach usou a força da "Leitzanut" (fazer palhaçada com coisas sérias), ridicularizando em público os ensinamentos de Moshé e tentando mostrar contradições que provavam que ele não era uma pessoa elevada.

Infelizmente as consequências desta rebelião foram trágicas. Os líderes da rebelião, Korach, Datan e Aviram, foram tragados pela terra junto com suas famílias e seus pertences, um milagre aberto de D'us, algo que nunca havia ocorrido na história. Além disso, os 250 homens da tribo de Levi que também participaram da rebelião, ao oferecerem um incenso que D'us não havia comandado, foram consumidos por um fogo celestial. D'us havia demonstrado, de maneira aberta e milagrosa, que Moshé estava certo e Korach e seus seguidores eram os verdadeiros transgressores. Porém, para a nossa surpresa, tudo isto não foi suficiente para acabar com a força da Machloket. Outros milagres e tragédias tiveram que acontecer para que a situação se acalmasse.

Apesar de sabermos que as Machlokot criam desunião, algo que enfraquece muito o povo judeu, estamos longe de entender os verdadeiros efeitos do "fogo" de uma Machloket sobre o ser humano. De acordo com o Rav Leib Chassman zt"l (Lituânia,1869 - Israel, 1935), da nossa Parashá podemos entender a gravidade e a profundidade da transgressão de criar Machlokot. As Machlokot cegam e desviam o nosso coração, nos afastando dos caminhos de D'us. A prova disto é que, mesmo após todas as provas que D'us deu ao povo sobre a escolha Divina de Moshé e o quanto ele era correto, através da morte milagrosa de todos os rebeldes, mesmo assim o povo continuou reclamando, demonstrando que o fogo da Machloket ainda não havia se extinguido, como está escrito: "E no dia seguinte, reclamou toda a congregação dos Filhos de Israel sobre Moshé e Aharon, dizendo: 'Vocês mataram o povo de D'us'" (Bamidbar 17:6). Depois de um milagre tão grande, feito diante dos olhos de todo o povo, eles ainda não acreditaram em D'us, demonstrando que a Machloket cega os nossos olhos e entorpece o nosso coração. Esta obstinação custou caro ao povo judeu, que foi castigado com uma dura praga, como está escrito: "E foram os mortos na praga 14.700 pessoas" (Bamidbar 17:14).

Porém, o mais assombroso é perceber que nem mesmo a morte de tantas pessoas foi suficiente para apagar o fogo da Machloket. Logo depois desta praga, D'us fez ainda mais uma demonstração milagrosa de que Aharon era o verdadeiro escolhido para ser o Cohen Gadol. O líder de cada tribo trouxe um cajado, com o nome da tribo escrito nele. Aharon, representando a tribo de Levi, também trouxe o seu cajado. Todos eles foram colocados dentro do Mishkan e, no dia seguinte, o cajado de Aharon milagrosamente tinha florescido e brotado amêndoas. Este era o sinal definido por D'us, como está escrito: "E será o homem que for o escolhido, seu cajado vai brotar, e Eu farei diminuir as reclamações dos Filhos de Israel" (Bamidbar 17:20). Destas palavras aprendemos que até este evento milagroso dos cajados o povo judeu continuava reclamando, mesmo que já haviam ocorrido diversas provas de que Moshé e Aharon estavam com a razão. Somente então terminou a força da Machloket, o "fogo" iniciado por Korach e seus seguidores.

A Parashá, portanto, traz uma demonstração assustadora da força de uma Machloket, um fogo que, quando aceso, dificilmente consegue ser controlado e apagado, causando muitas tragédias dentro do povo judeu. Quando uma pessoa entra em uma discussão, dificilmente mantém a sua claridade e a sua objetividade, pois a partir deste momento ela não busca mais a verdade, e sim apenas vencer a discussão. Por isso, mesmo quando fica claro que a pessoa está errada, ela continua em sua cegueira, não querendo enxergar o que é óbvio.

Pensamos que Machlokot destrutivas ocorrem apenas em grandes discussões. Mas a verdade é que mesmo dentro das famílias, dentro de grupos de amigos e dentro das sinagogas são criadas Machlokot, às vezes até mesmo por motivos banais. Enquanto um fogo está apenas no palito de fósforo, temos total controle sobre seus efeitos. Mas a partir do momento em que o fogo começa a se espalhar, com muita facilidade perdemos o controle. O fogo tem um incrível poder destruidor, causando dezenas ou centenas de vítimas em questão de minutos. Assim também são as Machlokot, mesmo quando achamos que elas estão "sob controle", com muita facilidade podem acabar se espalhando e deixando vítimas pelo caminho.

Como foi mencionado pelo Chafetz Chaim, após os 120 anos todos nós prestaremos contas dos nossos atos. A Machloket queima e destrói os nossos méritos. Mesmo Korach, um grande Tzadik, que certamente havia feito milhares de Mitzvót na vida, perdeu tudo por causa de sua Machloket. 250 homens da tribo de Levi, que não haviam participado de outras terríveis transgressões feitas pelo povo judeu no deserto, como o bezerro de ouro e o envio dos espiões, acabaram tropeçando por causa da Machloket. Por isso, não importa o nosso nível, devemos tentar fugir das discussões, para não termos problemas no nosso julgamento no Olam Habá e possamos ter o mérito de uma vida longa e cheia de Brachót neste mundo.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DISCUSSÕES CONSTRUTIVAS - PARASHÁ KORACH 5776

"O Rav Yehuda Zev Segal zt"l (Inglaterra, 1910 - 1993), Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) de Manchester, certa vez criticou publicamente certa organização. Sua opinião encontrou uma enorme resistência das pessoas, e muitos se declararam abertamente contra ele. Apesar de toda a repercussão negativa, o Rav Segal estava convicto de suas palavras e se manteve firme em seu posicionamento.

Algum tempo depois, um dos diretores daquela organização que havia sido criticada resolveu visitar o Rav Segal para discutir com ele o assunto. Quando o homem chegou à Yeshivá, recebeu do Rav Segal um presente. O homem abriu o pacote e viu que era um livro, o "Sefer Chafetz Chaim", e notou que na primeira página estava escrito uma calorosa Brachá (benção) a ele. O homem ficou atônito, sem entender por que seu "adversário", que estava falando de forma tão dura contra sua organização, agora o estava presenteando e lhe dando tantas Brachót. O Rosh Yeshivá, ao perceber o questionamento nos olhos do homem, explicou:

- Aprendi a me comportar desta maneira com o Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883). Escutei que sempre que ele se envolvia em um debate ideológico com alguém, antes ele presenteava a pessoa, para deixar claro que a discordância era puramente ideológica e não havia nada pessoal envolvido"

Esta é a forma como devemos nos comportar. Mesmo nos casos em que seja realmente justificável se envolver em algum tipo de discussão, temos que deixar claro que não se trata de algo pessoal. 
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Nesta semana lemos a Parashá Korach, cujo tema central é a rebelião de Korach contra seu primo Moshé e as trágicas consequências desta grave transgressão. A rebelião de Korach é citada como o modelo de "Machloket" (discussão, disputa) que não é "Leshem Shamaim" (em nome dos Céus), como está escrito: "Toda Machloket que é Leshem Shamaim está destinada a se manter; mas aquela que não é Leshem Shamaim não está destinada a se manter. Qual é a Machloket que é Leshem Shamaim? A Machloket entre Hilel e Shamai. E qual é a Machloket que não é Leshem Shamaim? A Machloket de Korach e seu grupo" (Pirkei Avót 5:17). Nossos sábios estão ensinando que a Machloket de Korach foi apenas por motivos egoístas e interesses pessoais.

Porém, este ensinamento do Pirkei Avót levanta um grande questionamento. Aparentemente Korach e seu grupo confrontaram Moshé com questões ideológicas genuínas, não simplesmente ataques pessoais. Segundo o que a Parashá escreve explicitamente, Korach argumentou que todo o povo judeu era sagrado, pois todos haviam pessoalmente escutado D'us no momento da entrega da Torá no Monte Sinai. Portanto, de acordo com esta lógica, Moshé e Aharon não tinham o direito de pegar para si as duas maiores posições da nação. Korach e seu grupo alegavam que deveria haver uma divisão igualitária de poder entre todos do povo judeu, e alguns poucos não deveriam ser mais beneficiados do que outros. Apesar de, em última instância, haver uma grave falha na lógica de Korach, pois a escolha de Moshé e Aharon havia sido Divina, sua rebelião estava aparentemente baseada em argumentos racionais e na luta por igualdade. Então por que o Pirkei Avót afirma, com tanta convicção, que a Machloket de Korach não era Leshem Shamaim?

A resposta está em um Midrash (parte da Torá Oral), que afirma que a verdadeira motivação de Korach era atacar pessoalmente Moshé e Aharon. Korach esperava ser o próximo na linha de liderança da família "Kehati", uma das famílias da tribo de Levi, e ficou extremamente irritado e decepcionado quando seu primo, Elizafan, que era mais novo do que ele, foi o indicado para a posição. Este foi o verdadeiro motivo que desencadeou em Korach a vontade de se rebelar contra a liderança de Moshé e Aharon, um motivo egoísta e baseado nos seus próprios interesses.

Portanto, de acordo com as palavras do Midrash, fica claro que a luta ideológica de Korach e sua força de argumentação eram, na realidade, apenas um pretexto para encobrir seu desejo por honra. Korach se apresentou como sendo um "defensor do povo", alguém que buscava a igualdade entre todos, mas na verdade ele estava apenas buscando seus próprios interesses egoístas. Infelizmente tudo o que Korach conseguiu foi causar a si mesmo, à sua família e aos seus seguidores terríveis castigos aplicados diretamente por D'us.

Mas por que a Torá nos deixa a impressão de que havia uma lógica na argumentação de Korach, a ponto de ser necessário um Midrash para esclarecer que a sua Machlóket não era Leshem Shamaim? Pois se perguntássemos a Korach se ele considerava seus atos Leshem Shamaim, ele certamente responderia, sem sombra de dúvidas, que sim. Ele se convenceu, e convenceu outras pessoas, de que estava certo em sua Machloket, e racionalizou que seus atos eram justificáveis e corretos. Korach queria a grandeza, mas terminou em total esquecimento.

Há muitas lições que podemos aprender de Korach, mas uma das principais é que uma pessoa pode se convencer de que está agindo Leshem Shamaim quando critica os outros, enquanto está apenas sendo enganada pelo seu Yetzer Hará (má inclinação). Muitas vezes acreditamos que estamos defendendo a verdade, e estamos dispostos a ir até o fim por ela. Porém, este comportamento vem sempre acompanhado de um grande risco, como ocorreu com Korach, de que a motivação verdadeira por trás dos nossos atos é apenas o egoísmo, que pode desencadear uma Machloket que não é Leshem Shamaim e causar danos a todos os envolvidos.

É muito fácil encontrar justificativas para criticar pessoas, ou até mesmo grupos inteiros, utilizando a premissa de que é permitido por ser "Leshem Shamaim". Entretanto, é necessário um grande esforço de autoavaliação para termos a certeza de que estamos realmente agindo com as motivações corretas. De acordo com o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 – Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, para que palavras que denigrem outro ser humano não sejam consideradas Lashon Hará (maledicência), não é suficiente que apenas traga benefício para quem está escutando. Ele enumera sete condições que devem ser preenchidas para nos permitir expressar qualquer tipo de crítica sobre outra pessoa. Uma destas condições, talvez uma das mais difíceis de serem cumpridas, é que aquele que faz a crítica não pode sentir absolutamente nenhuma satisfação por estar criticando o próximo. E para entender o quanto esta condição é difícil, basta refletirmos sobre quantas vezes na vida conseguimos fazer alguma crítica sem nenhum sentimento interno de satisfação com a vergonha causada àquele sobre quem estamos falando.

De acordo com o Rav Yehonasan Gefen, se não tomarmos muito cuidado, podemos facilmente cair nas armadilhas do Lashon Hará e gerar uma Machloket que não é Leshem Shamaim. Isto já causou, durante a história do povo judeu, com que diferentes grupos judaicos se olhassem entre si com desprezo, um rotulando o outro de maneira negativa. Este tipo de erro pode não parecer tão grave, mas de acordo com o Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin zt"l (
Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, foi este tipo de atitude que levou à destruição do nosso Segundo Templo. Apesar das pessoas daquela geração serem grandes Tzadikim (Justos), que se dedicavam ao estudo da Torá, eles acabaram desenvolvendo um ódio gratuito em seus corações, e qualquer um que agia de forma diferente do que eles achavam correto era imediatamente rotulado como "Apikoires" (negador de D'us). Se passados mais de dois mil anos ainda não tivemos o mérito de reconstruir nosso Templo, é sinal de que continuamos tropeçando neste mesmo erro, geração após geração. Precisamos dar um basta e terminar este terrível círculo vicioso de ódio gratuito que, apesar de ser muito grave, vem sempre disfarçado de "discussão Leshem Shamaim".

Então qual é a maneira correta de lidar com uma discordância de opinião? A resposta está no Pirkei Avót: "Qual é a Machloket que é Leshem Shamaim? A Machloket entre Hilel e Shamai". As discussões entre Hilel e Shamai, dois dos maiores sábios de sua geração, e posteriormente entre os alunos de Hilel e os alunos de Shamai, apesar de terem sido muito intensas, foram consideradas Leshem Shamaim por não envolverem motivações pessoais, e sim somente o desejo verdadeiro de chegar à "Emet" (verdade). Uma das provas de que as discussões eram Leshem Shamaim é que, conforme o Talmud (Yevamot 13b), apesar de eles discutirem fortemente em várias áreas da Halachá (Lei Judaica), isto não impediu que seus filhos se casassem entre si. Não há nada de errado em discordar, mas somente se a discordância é baseada em um desejo sincero de chegar à Emet. Pois se for assim, as duas partes não vão confundir diferenças ideológicas com hostilidades pessoais.

O principal é sempre fazer uma separação entre o indivíduo e seu comportamento ou conduta. Alguém pode errar, e mesmo assim continuar sendo uma boa pessoa. Fazer esta separação não é uma tarefa fácil, e por isso precisamos melhorar muito na área de "Bein Adam LeHaveiró" (entre o homem e seu semelhante), através de muito estudo de Torá, para aprendermos a olhar as outras pessoas da maneira correta, mesmo quando elas estiverem agindo de uma maneira que julgamos ser errada. O "ódio gratuito", que destrói nossos relacionamentos, destruiu também o nosso Templo Sagrado. Somente com o devido cuidado com o próximo poderemos começar a consertar este erro que causa, há tantos séculos, muita dor e sofrimento.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22

sexta-feira, 19 de junho de 2015

CEGUEIRA ESPIRITUAL - PARASHÁ KORACH 5775

"Roberto estava distraidamente dirigindo seu carro, mais preocupado com as contas a pagar e com o planejamento das férias de julho do que com o trânsito. De repente, seu celular tocou e ele "despertou". Era sua esposa, aflita, querendo saber onde ele estava.

- Fique tranquila, querida, estou quase chegando em casa. Já estou na Marginal Pinheiros.

- Ai, meu D'us! - interrompeu a esposa, com a voz muito preocupada - Querido, tome cuidado. Acabei de escutar no rádio que tem um maluco na Marginal Pinheiros dirigindo na contra mão.

- Querida, você tem razão. Estou vendo um carro vindo pela contramão. Que maluco, este motorista deveria ser preso! Ei, não é apenas um carro que está na contramão, são 2... não, são 5... são mais de 10..."

A piada é engraçada, mas infelizmente é exatamente assim que vivemos. Sempre nós estamos certos e os outros estão errados. E muitas vezes isto pode acabar custando caro espiritualmente. 
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Nesta semana lemos a Parashá Korach, que nos ensina a gigantesca força da inveja e da busca de honra, que conseguem desviar até mesmo pessoas boas e corretas. Korach, o primo de Moshé, era um homem espiritualmente elevado, da tribo de Levi, que acabou se desviando por causa da vontade de se tornar o líder do povo judeu e se rebelou contra a liderança de Moshé. De acordo com o Rav Avraham ben Meir zt"l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, a rebelião ocorreu logo depois da inauguração do Mishkan (Templo Móvel), quando Aharon e seus filhos foram designados, no lugar dos primogênitos, como os responsáveis por todos os serviços espirituais. Korach, que também era primogênito, se enfureceu por não ter sido o escolhido. Ele conseguiu juntar outros 250 homens da tribo de Levi, todos primogênitos, e questionou os cargos de Moshé e de Aharon, utilizando a força da zombaria. Ridicularizou Moshé e as Mitzvót da Torá em público, querendo demonstrar que a escolha de Moshé e as leis que ele havia ensinado ao povo não eram Divinas, e sim frutos de sua cabeça.

Apesar de ter sido humilhado em público, Moshé, o mais humilde de todos os homens, teve tranquilidade. Ele sabia que a rebelião era uma afronta direta a D'us, que o havia escolhido pessoalmente como líder. Moshé entendeu que as consequências seriam trágicas, e por isso tentou convencer Korach e seus seguidores a desistirem da rebelião. Ao perceber que eles estavam obstinados e não conseguiam escutar nenhum argumento racional, Moshé ainda tentou uma última estratégia: adiar a discussão para o dia seguinte, como está escrito: "Ele (Moshé) disse para Korach e para todo o seu grupo: Amanhã D'us fará conhecer aquele que Lhe pertence e aquele que é sagrado" (Bamidbar 16:5). Moshé achou que eles estavam exaltados pelo calor do momento, mas que se acalmariam quando voltassem para casa e acabariam desistindo da rebelião.

Observando com cuidado o versículo desta tentativa de Moshé de ganhar tempo para esfriar os ânimos, há algo que nos chama a atenção. A linguagem utilizada por Moshé foge um pouco do padrão, pois ele não falou "Machar", que literalmente significa "amanhã", e sim "Boker", que significa "manhã". Por que Moshé falou desta maneira com Korach? Qual era a mensagem que ele estava transmitindo?

Infelizmente o ser humano tem uma grande dificuldade em reconhecer seus erros. Estar certo nos causa uma sensação de superioridade, enquanto estar errado nos causa uma sensação de inferioridade. Por isso, qualquer coisa que sugira que estamos errados nos incomoda, pois é uma ameaça à nossa autoestima. Temos um mecanismo de defesa, chamado "dissonância cognitiva", que tenta, de forma subconsciente, bloquear nossa busca pela verdade toda vez que somos ameaçados em nossas certezas. Este mecanismo nos faz procurar justificativas e racionalizações para nossos erros, encobrindo-os e ignorando-os, ao invés de os tratarmos de maneira objetiva. Por isso é tão difícil a pessoa enxergar que errou e desagradou a D'us. Porém, no deserto era diferente, pois havia algo que diariamente demonstrava o nível de conexão das pessoas com D'us: o Man, que caía do céu e alimentava o povo judeu. Quando o Man caía de manhã cedo, não caía para todos no mesmo lugar. Se a pessoa era Tzadik (justa), o Man caía na porta de sua tenda e ela não precisava de nenhum esforço para buscá-lo. Mas se a pessoa não era Tzadik, seu Man caía longe de sua tenda.

Explicam nossos sábios que quando Moshé utilizou a palavra "Boker", ele estava transmitindo a seguinte mensagem para Korach: "Querido primo, até hoje você sempre foi um grande Tzadik, e a prova disso é que o Man cai todas as manhãs na porta da sua tenda. Mas vamos ver amanhã de manhã, após você ter iniciado esta rebelião, onde o seu Man vai cair". Moshé estava demonstrando para Korach, de maneira lógica e verificável, que a rebelião era um grande erro. Ele estava dando a chance de Korach entender que a rebelião era uma transgressão tão grave aos olhos de D'us que mudaria seu status, de um dia para o outro, de Tzadik para Rashá (malvado). Era a chance de Korach enxergar que estava errado e se arrepender.

Korach não se abalou, pois estava confiante na retidão dos seus atos. Mas o que aconteceu na manhã seguinte? O Man de Korach caiu longe de sua tenda, exatamente conforme Moshé havia advertido, demonstrando de forma clara que D'us estava descontente com ele. O que deveria ter ocorrida após esta incrível prova Divina da culpa de Korach? Ele deveria ter se arrependido pelo seu erro, começando com um pedido público de desculpas a Moshé por todas as ofensas e zombarias que ele havia feito. Ao perceber que não estava agradando a D'us com seu ato, Korach deveria ter mudado. Deveria ter reunido todos os rebeldes, que ele havia pessoalmente convencido a se unirem em um plano para derrubar Moshé, e explicado que ele havia se enganado. Mas infelizmente sabemos que não foi este o final da história.

Como pode ser que Korach, uma pessoa tão elevada, não enxergou a mensagem explícita de D'us? Por que ele não mudou, mesmo após ter visto que estava errado? Explica o Rav Shmuel Greineman shlita que quando uma pessoa está obstinada, ela fica cega e não consegue enxergar seus erros, mesmo quando são muito graves. Ao invés de assumir seu erro, a pessoa obstinada procura justificativas e racionalizações para sua transgressão. Foi exatamente isto o que aconteceu com Korach. Ao ver de manhã que o Man realmente havia caído longe de sua tenda, ao invés de entender que ele estava errado e que sua rebelião era uma transgressão, ele racionalizou e interpretou a mensagem de D'us justamente ao contrário. Ele juntou seus seguidores e anunciou: "Hoje meu Man caiu longe da minha tenda. Isto é um sinal de que D'us está bravo conosco. E o único motivo que pode explicar a irritação de D'us é que não estamos nos levantando contra a dominação de Moshé com toda a força que deveríamos. D'us quer que continuemos nossa rebelião contra Moshé, mas com mais força e determinação". Korach continuou com sua rebelião até o fim, completamente obstinado, causando não apenas a sua morte precoce, mas também a morte de sua família e de todos os seus seguidores.

É assustador ver Korach, um homem com um potencial espiritual tão grande, ter caído de maneira tão "infantil", tentando interpretar a bronca de D'us como se tivesse sido um incentivo à sua rebelião. E se alguém naquele nível estava sujeito a esta confusão, muito mais nós, que estamos em um nível espiritual mais baixo. Então o que fazer para não cairmos no mesmo erro de Korach? Como ter certeza de que as nossas decisões não estão sendo influenciadas, de forma subconsciente, pelas nossas vontades de estarmos sempre certos?

A resposta está em um importante ensinamento dos nossos sábios: "Faça para você um rabino e adquira para você um amigo" (Pirkei Avót 1:6). O rabino é um conhecedor das leis do mundo espiritual que, baseado nos ensinamentos da Torá, pode nos aconselhar e nos orientar em diversas áreas da vida. Já um amigo de verdade, cuja amizade valeria a pena mesmo que fosse necessário pagar por ela, é aquele que nos dá uma bronca sempre que nos vê fazendo algo errado. O ponto em comum entre o rabino e o amigo verdadeiro é que, por estarem isentos dos nossos interesses e desejos pessoais que nos desviam da verdade, e por se importarem de verdade com o nosso crescimento, conseguem nos ajudar de uma maneira mais objetiva.

Gostamos da sensação de estarmos sempre certos, e por isso é tão difícil buscar a verdade. Mas aprendemos de Korach que viver em uma mentira pode ser trágico. Não podemos confiar apenas em nós mesmos, pois estamos sempre muito suscetíveis a nos enganarmos. Por isso é importante buscar constantemente o aconselhamento das pessoas que realmente gostam tanto de nós que saberão nos dar, por amor, uma bronca quando for necessário. 

SHABAT SHALOM                                           
Rav Efraim Birbojm
Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22
 

sábado, 21 de junho de 2014

DISCUSSÃO POSITIVA - PARASHÁ KORACH 5774

"Rodrigo, um famoso palestrante, estava dando um curso para um enorme público. No final da aula, como ainda havia sobrado alguns minutos, ele permitiu que o público fizesse perguntas. Quem tivesse interesse poderia escrever sua pergunta em um papel e encaminhar a ele.

O sistema estava funcionando bem. As perguntas chegavam por escrito a Rodrigo, que as lia em voz alta e imediatamente respondia. Até que Rodrigo abriu um dos papéis e viu que estava escrito apenas uma palavra: "Idiota". Em um primeiro momento, Rodrigo ficou furioso. Pensou em tentar descobrir quem era o engraçadinho que havia mandado aquele papel e fazer um escândalo com ele, ensinando-lhe boas maneiras. Mas depois ele se acalmou e decidiu que não valia a pena discutir, pois certamente tratava-se de alguém de baixo nível, que não escutaria sua bronca. Rodrigo teve então uma ideia genial: pegou o papel na mão, leu a ofensa em voz alta, olhou fixamente para o público e disse:

- Senhores e senhoras, há anos eu dou palestras pelo Brasil inteiro, e é muito comum eu permitir que pessoas façam perguntas no final. Na maioria das vezes, as pessoas escrevem a pergunta mas esquecem de assinar o nome. Porém, desta vez aconteceu algo completamente diferente, que nunca havia acontecido antes. A pessoa que mandou o bilhete esqueceu-se de escrever a pergunta, mas lembrou-se de assinar o nome..."

Discussões somente são válidas se nos ajudam a esclarecer algo. Mas quando se tratam de pessoas que não estão dispostas a escutar, então o ideal é não se envolver em nenhum tipo de discussão, pois certamente as consequências serão apenas gritos e aborrecimentos, que não levarão a lugar nenhum.
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Na Parashá desta semana, Korach, a Torá nos ensina a força destrutiva de uma "Machloket" (disputa). Korach, motivado pela inveja e pela busca de Cavód (honra), organizou uma revolta contra Moshé Rabeinu, seu primo, pois estava incomodado com sua posição de destaque dentro do povo judeu. Através de deboches e piadas, que ridicularizavam os ensinamentos de Moshé diante de todo o povo, Korach conseguiu convencer um enorme grupo de pessoas a se juntar a ele na revolta, na tentativa de derrubar Moshé e assumir seu cargo. As consequências foram trágicas, com a morte de Korach e todo o seu grupo através de castigos aplicados diretamente por D'us.

Porém, apesar deste lado extremamente destruidor mostrado pela Torá, nossos sábios ensinam que nem toda Machloket realmente é negativa, como está escrito na Mishná (parte da Torá Oral): "Toda Machloket que é Leshem Shamaim (em nome dos Céus), no final se manterá. E aquela que não é Leshem Shamaim, no final não se manterá. Qual é a Machloket Leshem Shamaim? É a Machloket entre Hilel e Shamai. E a que não é Leshem Shamaim? É a Machloket de Korach e seu grupo" (Pirkei Avót 5:17). Mas afinal, o que é considerado uma Machloket Leshem Shamaim? E o que significa dizer que uma Machloket se manterá ou não se manterá no final?

Explica o Rav Ovadia MiBarternura  (Itália, 1445 - Israel, 1515) que uma Machloket Leshem Shamaim é quando surge uma dúvida e dois lados disputam, com as intenções mais puras, para tentar esclarecer a verdade e descobrir o que é o correto. Este tipo de Machloket no final se manterá, isto é, levará os dois lados envolvidos ao objetivo inicial, que é o esclarecimento da verdade. Este é o caso das centenas de discussões entre dois grandes sábios, Shamai e Hilel, que estão gravadas para sempre nos diversos Tratados do Talmud (parte da Torá Oral). Não há dúvidas de que as discussões deles não vinham de uma vontade de "vencer a briga a qualquer custo", apenas para mostrar quem tem razão. Todo o intuito de suas discussões era para definir exatamente qual é a vontade de D'us em determinados assuntos. Portanto, vemos que esta Machloket se manteve, pois as discussões levaram ao estabelecimento de muitas das leis que constam até hoje na Halachá (Código judaico de Leis).

E qual é a Machloket que não é Leshem Shamaim? É aquela na qual o interesse, motivado pelo orgulho, é apenas de "vencer a briga". Como a disputa é por motivos egoístas, sem interesse em escutar o que o outro tem a dizer, consequentemente um lado nunca procurará entender os argumentos do outro, como ocorreu no caso da Machloket de Korach. É interessante perceber que a Mishná não escreve "Machloket de Korach e Moshé", e sim "Machloket de Korach e seu grupo", pois eles estavam tão focados na busca de honra e poder que não escutaram nada do que Moshé tinha para explicar. Como eles não abriram seus ouvidos para escutar o outro lado, não é considerado que eles discutiram com Moshé, e sim que discutiram apenas entre eles mesmos.

É por isso que a Mishná ensina que este tipo de Machloket não se mantém, isto é, nunca chegará a esclarecer nada e nunca levará a um consenso. Se Korach tivesse prestado atenção aos argumentos de Moshé, certamente teria percebido que estava enganado. Mas como ele preferiu continuar na sua "surdez", tristemente a história terminou com trágicas consequências para ele e todos os seus seguidores.

Devemos ter o cuidado de nunca entrar em uma discussão a não ser que seja com o único objetivo de buscar o esclarecimento da verdade. Se a Machloket se desvia deste propósito e se transforma em uma luta pela vitória, marcada pela obstinação e pela falta de vontade de escutar o que o outro lado tem a dizer, então certamente esta Machloket não é Leshem Shamaim e não terá consequências positivas.

Nossos sábios ensinam algo muito interessante sobre o enorme mérito daquele que, em meio a uma discussão, sabe escutar o outro lado. As discussões entre Shamai e Hilel continuaram através de seus alunos, chamados pelo Talmud de "Beit Shamai" e "Beit Hilel". O Talmud (Eruvin 13b) afirma que uma Voz Celestial anunciou que a Halachá (lei) vai de acordo com a opinião de Beit Hilel. Por qual mérito Beit Hilel teve a Halachá fixada de acordo com a sua opinião? O Talmud diz que os alunos de Hilel eram gentis e humildes, estudavam suas próprias opiniões e também as de Beit Shamai, e eram tão humildes que mencionavam as opiniões de Beit Shamai antes das suas próprias opiniões. Isto nos ensina que os alunos de Hilel sempre davam sua opinião apenas depois de levarem em consideração a opinião dos alunos de Shamai, demonstrando o quanto era uma Machloket Leshem Shamaim.

Acima de tudo, o Talmud nos ensina que escutar a opinião dos outros agrada a D'us, pois é uma demonstração de humildade, de que sempre há algo para aprender e que não estamos sempre com a razão. A palavra "Cavód" (honra) vem da mesma raiz da palavra "Coved", que significa "peso". Dar Cavód ao próximo é saber dar o devido peso às palavras ditas pelos outros. É realmente levar em consideração, em uma discussão, o que os outros opinam, questionando sinceramente se a nossa opinião é realmente a correta. É saber escutar até o fim o que o outro tem a dizer, sem interrompê-lo na metade. Mas ao contrário, quando achamos que estamos sempre certos e a opinião dos outros não é importante, isto é uma demonstração de arrogância, uma característica muito desprezada por D'us.

Que possamos nos afastar de Machlokot como a de Korach e seu grupo, para que possamos ter mais paz no mundo, em especial dentro do povo judeu. E que pelo mérito de sabermos escutar o próximo, D'us possa ter misericórdia de todos nós, e os três jovens sequestrados em Israel possam voltar, sãos e salvos, para suas casas.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22

sexta-feira, 7 de junho de 2013

FAZENDO A JOIA BRILHAR - PARASHÁ KORACH 5773

 

"Alexandre estava com um grupo de amigos fazendo turismo em Hong Kong. Certo dia eles foram conhecer uma famosa joalheria, conhecida pela diversidade de pedras preciosas. O grupo ficou maravilhado com a quantidade de pedras preciosas diferentes que estavam em exposição. Mas a que mais chamou a atenção de Alexandre não foram as pedras brilhantes e coloridas. Ao contrário, havia em um canto da loja uma pedra opaca, completamente desprovida de brilho, nem parecia uma pedra preciosa. Ao chegar perto, Alexandre viu que era uma pedra cara. Curioso em saber quem se interessaria por uma pedra daquelas, cara e completamente sem graça, ele questionou o joalheiro.

O joalheiro explicou que aquela era uma pedra cara por causa do seu brilho maravilhoso. Vendo a cara de espanto de Alexandre, o vendedor abriu um sorriso, retirou a pedra da vitrine, colocou-a no centro de sua mão e fechou. Alguns instantes depois, ele abriu a mão e, para a surpresa de Alexandre, a pedra brilhava com uma beleza incomum.

- Esta pedra – ensinou o joalheiro – é uma opala, mais conhecida como "joia sentimental". Ela parece opaca e apagada, mas tudo o que ela necessita é do contato com a mão humana para irradiar brilho e luz"

As crianças são joias como opalas. Podemos dar presentes caros, viagens extravagantes, os mais modernos jogos, mas isto tudo não é suficiente para deixar uma criança realmente feliz. O que preenche de verdade uma criança é o carinho e a proximidade dos pais, a "mão humana" que faz a luz delas brilhar.
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Na Parashá desta semana, Korach, a Torá descreve uma grande rebelião organizada contra Moshé e Aharon, na qual suas posições de destaque, respectivamente como líder do povo e Cohen Gadol (Sumo sacerdote), foram questionadas. A rebelião terminou de forma trágica, com centenas de pessoas mortas através de castigos aplicados diretamente por D'us. Em seguida a Torá lista os serviços pelos quais os Cohanim (sacerdotes) eram responsáveis e uma série de presentes que o povo judeu deveria dar a eles. Qual a conexão entre estes assuntos?

Os Cohanim eram os responsáveis pelos serviços espirituais do Mishkan (Templo Móvel), e por isso D'us deu a eles presentes, como uma recompensa por sua dedicação. Além disso, D'us queria afirmar publicamente que os Cohanim eram Sua "legião pessoal". Esta afirmação foi feita justamente depois da rebelião de Korach e seu grupo, na qual eles haviam questionado Aharon, o Cohen Gadol, pois D'us queria afirmar o quanto os Cohanim eram queridos e próximos Dele.

Entre os vários presentes listados na Parashá, há um que nos chama a atenção: "Aqueles que necessitam ser redimidos, a partir de 1 mês de idade você deve redimir, de acordo com o seu valor, cinco shekels de prata, do shekel sagrado, que são vinte guerá" (Bamidbar 18:16). Sobre o que está falando este versículo e onde está o presente aos Cohanim?

Explica o Sefer HaChinuch (Mitzvá 18) que existe uma Mitzvá de oferecer a D'us nossos primeiros frutos, para nos lembrarmos que tudo é Dele. Quando o ser humano se esforça para produzir algo, os primeiros frutos são muito queridos, e mesmo assim imediatamente oferecemos para D'us. Entre as coisas que oferecemos a D'us está o filho primogênito, que é o primeiro fruto do ventre. Por isso, o pai precisa resgatar seu filho, que simbolicamente pertence a D'us, através de um Cohen, dando para ele cinco moedas de prata, em uma cerimônia chamada "Pidion Haben" (resgate do filho). Estas cinco moedas de prata, que o pai da criança dava para resgatar seu filho, era um dos presentes que os Cohanim recebiam.

Há um detalhe muito interessante nesta cerimônia do "Pidion HaBen". Nossos sábios estabeleceram que durante o resgate o Cohen deve fazer ao pai da criança a seguinte pergunta: "Qual deles você prefere?". Em outras palavras, o Cohen está perguntando ao pai: "Você prefere seu filho ou as cinco moedas de prata?". Mas esta pergunta do Cohen desperta uma série de questionamentos. Em primeiro lugar, parece uma pergunta tola, sem o menor sentido. Que pai em sã consciência escolheria o dinheiro ao invés do próprio filho, e ainda mais o primogênito? Além disso, há aparentes problemas com a Halachá (lei judaica), pois se a Torá exige que o pai redima seu filho, então por que o Cohen propõe que o pai deixe de redimir seu filho e fique com o dinheiro? E finalmente, mesmo se o pai se recuse a redimir seu filho, o Cohen não tem nenhum direito de ficar com a criança, pois ela não é sua propriedade, o Cohen é apenas um intermediário nesta transação entre o pai e D'us. Portanto, por que nossos sábios estabeleceram esta estranha pergunta do Cohen no momento da realização desta interessante Mitzvá de "Pidion HaBen"?

Explica o Rav Yochanan Zweig que nossos sábios querem chamar nossa atenção para um triste fenômeno. Se uma pessoa oferecesse a qualquer pai a proposta de comprar seu filho por 10 milhões, alguém aceitaria? Certamente que não. Isto quer dizer que temos um verdadeiro tesouro em nossas casas. Uma pessoa que tem 4 filhos é um verdadeiro milionário, pois tem mais de 40 milhões dentro de casa. A grande pergunta é: sabemos realmente dar o verdadeiro valor para os nossos filhos e para a nossa família? Quantas vezes nós trocamos nossos filhos por um pouco mais de conforto em nossas vidas? Muitas vezes um pai trabalha duro para dar uma vida mais confortável aos seus filhos, mas deixa seu filho sem o mais importante, que é a presença do pai. Estamos sempre racionalizando nossos atos, nos enganando, tentando mostrar a nós mesmos que precisamos realmente trabalhar tanto, mesmo às custas de ficarmos muito tempo fora de casa, transferindo nossa obrigação de educar nossos filhos à escola e à babá.

Os pais dizem que trabalham tanto justamente para poderem dar um futuro decente aos seus filhos. Mas será que a presença dos pais em casa, apesar de optarem por uma vida mais simples, não seria muito mais benéfica a eles? A verdade é que a ideia de que estamos ajudando o futuro dos nossos filhos dando a eles uma vida material confortável é apenas uma racionalização, pois visto através da ótica correta, se assemelha muito ao ato de trocar o filho pelo dinheiro.

Por isto nossos sábios inseriram na cerimônia de "Pidion HaBen" esta pergunta tão chocante, na qual o Cohen oferece ao pai a opção de trocar seu filho pelo dinheiro. O propósito dos nossos sábios é nos despertar, para que sejamos mais exigentes ao avaliar nossas motivações. Quando o dinheiro deixa de ser uma necessidade de prover o bem estar da família e se torna uma busca por um conforto desnecessário, às custas do tempo com a família? Quanto o conforto que oferecemos aos nossos filhos é realmente mais importante do que a nossa presença e atenção?

Vivemos em uma geração que vê os pais cada vez mais comprometidos com o trabalho, uma geração na qual cada vez menos faltam para as famílias recursos materiais, mas cada vez mais falta atenção e carinho em casa. O resultado é o aumento da violência, da delinquência juvenil, dos casos cada vez mais frequentes de depressão atacando jovens em idades ainda muito tenras. Uma geração de crianças que tem tudo – dos jogos mais caros até os tablets mais tecnológicos – e ao mesmo tempo não tem nada. Uma geração que tem o brilho da opala, mas que falta a mão humana que faça esta joia brilhar. Esta é a lição da pergunta do Cohen, e ela deve ajudar a direcionar nossas escolhas na vida. O conforto é importante, uma boa fonte de sustento é essencial, mas não podem estar acima dos nossos próprios filhos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22, Ro. 13:1-7

sábado, 23 de junho de 2012

QUANDO O DESEJO FALA MAIS ALTO - PARASHÁ KORACH 5772

"Certo dia, na densa floresta, a raposa estava passeando tranquilamente quando se deparou com um enorme leão, que já estava com a boca aberta, pronto para engoli-la em uma só mordida. Sabendo que tentar fugir seria em vão, pois o leão era muito mais rápido e ágil do que ela, decidiu utilizar a astúcia. Olhou firme nos olhos do leão e disse: - Espere um momento, Sr. leão. É um grande desperdício você me devorar, pois olhe meu tamanho, não vai te saciar. Mas se você poupar minha vida, não se arrependerá. Eu te levarei até um ser humano, que é muito maior e mais suculento, e você poderá devorá-lo e se sentir saciado.
Qual era o plano da raposa? Ela sabia que o homem a que se referia era um caçador, e que ele havia preparado uma armadilha para pegar feras selvagens. Ele havia cavado um profundo poço e, com folhas e galhos, havia coberto o buraco, sem que nenhum animal conseguisse perceber o perigo. Então ele ficava ao lado do poço, à espera que algum animal caísse na armadilha.
Quando o leão começou a se aproximar do homem, viu que realmente seria um delicioso banquete. Mas um medo começou a lhe incomodar. E se o homem rezasse para que o seu plano de atacá-lo desse errado? E se recaísse sobre ele alguma maldição? Ele sabia da força da reza do homem e o quanto poderia prejudicá-lo. Então a raposa o tranquilizou:
- Não se preocupe, meu amigo. As rezas do homem não recairão nem sobre você nem sobre seus filhos. Talvez, se funcionarem, recairão só sobre os seus netos. Você pode ir tranquilo, pois ficará saciado agora e, até que seus netos nasçam, ainda há muito tempo. Confie em mim.
A fome já estava apertando e, por isso, o leão facilmente foi convencido de que valia a pena. Começou a caminhar lentamente em direção ao homem, confiante, preparando o bote certeiro. Quando estava muito próximo, sentiu o chão desaparecendo e desabou para dentro do poço fundo. Ele havia caído na armadilha do homem. A raposa então foi até a boca do poço e ficou olhando para o leão que, sem entender nada, perguntou para ela:
- Ei, você falou que as desgraças recairiam apenas sobre os meus netos. O que está acontecendo?
- Provavelmente o seu avô atacou algum homem - respondeu tranquilamente a raposa - e a reza daquele homem recaiu sobre você, o neto.
- Mas isto não é justo - gritou o leão - os avós comem doces e é o dente dos netos que fica com cáries?
- Você é muito engraçado, Sr. leão. Por que você não pensou assim desde o começo? Por que você não se importou de se saciar agora e deixar os seus netos pagarem a conta? Agora você não tem o direito de reclamar mais nada"
O grande sábio Hai Gaon contava esta parábola para nos ensinar como se comportam aqueles que são levados apenas pelos seus desejos. No momento em que a vontade fala mais alto, não medem as consequências. Apenas depois percebem o quanto foram tolos e descuidados.

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A Parashá desta semana, Korach, descreve a rebelião na qual parte do povo judeu participou, e cujo intuito era derrubar Moshé e Aaron de seus postos de liderança. A rebelião era encabeçada por Korach, primo de Moshé, e tinha como principal motivador a inveja. Junto com Datan e Aviran, dois conhecidos causadores de tumulto, Korach conseguiu juntar 250 homens para tentar, através de uma campanha difamatória contra Moshé e Aaron, assumir o poder. Mas seus planos foram anulados por D'us e os líderes e suas famílias tiveram um final trágico, sendo engolidos vivos pela terra. Os 250 homens que se deixaram convencer por Korach também tiveram um final trágico, sendo consumidos vivos por um fogo Divino no momento em que ofereciam um incenso para D'us.
Quando lemos o relato do que ocorreu com Korach e seus seguidores, a primeira impressão é que estamos tratando de pessoas espiritualmente muito baixas. Mas explicam nossos sábios que, ao contrário do que parece, Korach era um dos maiores da geração, realmente estava capacitado a ser um dos líderes do povo judeu. Também os 250 homens que o seguiram eram pessoas elevadas, que poderiam ter se tornado gigantes espirituais. Então como pessoas tão elevadas caíram em um erro tão tolo?
Para aumentar a pergunta, ao analisarmos o argumento que eles utilizaram para justificar a rebelião, percebemos que trata-se de algo completamente irracional. Assim eles falaram para Moshé: "Não é suficiente que você nos tirou da terra do leite e mel para nos matar no deserto?" (Bamidbar 16:13). Estamos falando da geração que sentiu na pele as dores da terrível escravidão no Egito. Depois de tudo o que passaram, como estas pessoas, em seu nível tão elevado, puderam utilizar argumentos tão infundados? Será que eles realmente acreditavam em suas próprias palavras?
Explica o livro "Lekach Tov" que a história de Korach é uma grande advertência para todas as pessoas que acham que são sábias e, por isso, estão protegidas contra o Yetzer Hará, a nossa má inclinação. Na verdade, quando o desejo fala mais alto, não apenas a sabedoria não serve para proteger a pessoa, mas o Yetzer Hará a utiliza para justificar os maus atos, transformando, aos olhos do transgressor, os erros em bons atos. Foi o que aconteceu com Korach, que até o fim pensou estar certo, mesmo utilizando argumentos que até mesmo uma criança saberia que são completamente infundados. Ele estava cego pelo desejo de poder, não conseguiu enxergar o óbvio, e pagou caro por sua obstinação.
É isto o que vemos na parábola trazida pelo grande sábio Hai Gaon. O leão, o rei dos animais, apenas caiu na armadilha da raposa por causa do seu desejo incontrolável por um pouco mais de carne. O que ele entendeu com facilidade depois que seu desejo havia desaparecido, algo que era lógico e óbvio, ele não havia conseguido enxergar no princípio, quando ainda estava completamente dominado pelas suas vontades.
Este conceito pode ser visto até mesmo nos nomes dos nossos órgãos, cada um representando uma das nossas forças que utilizamos para tomar decisões. O cérebro, centro da razão, é חמ‎ (Moach). O coração, centro das emoções, é ‎בל (Lev). O fígado, centro dos desejos, é ‎בדכ (Caved). Utilizando as iniciais do nome dos órgãos, aprendemos o que ocorre quando tomamos as decisões de maneira correta ou de maneira incorreta. Se uma pessoa toma decisões com a cabeça, utilizando os sentimentos e os desejos apenas de maneira secundária, ele se torna um "Melech" לךמ (rei), pois governa sobre si mesmo, adquire o autocontrole. Se a pessoa decide primeiro com seus sentimentos e somente depois com a razão, ele se torna um "Lemech" למך‎ (bobo), pois faz bobagens ao tomar decisões sentimentais, muitas vezes irracionais. Mas o pior de tudo é quando a pessoa decide com seus desejos em primeiro lugar, e não com a razão, e se torna um "Clum" ‎כלם (nada), pois perde o que o diferencia dos animais: o uso do intelecto para ter domínio sobre suas vontades.
É interessante perceber que a Parashá da semana passada, Shelach, terminou justamente com este ensinamento. A Parashá terminou com a Mitzvá de Tziztit, onde está escrito o seguinte versículo: "E não sigam atrás dos seus corações e atrás dos seus olhos, atrás dos quais vocês se desviam" (Bamidbar 15:39). O Tzitzit que vestimos, com seus fios aparentes, é justamente um lembrete constante de que devemos controlar os nossos desejos e sentimentos, pois se tomarmos nossas decisões baseadas apenas nos olhos que veem e no coração que deseja, as consequências serão devastadoras.
É o que infelizmente vemos atualmente na nossa sociedade, onde as pessoas correm atrás dos seus desejos e se afastam cada vez mais da espiritualidade. Uma sociedade onde são criados sites que incentivam a traição. Uma sociedade onde os jovens bebem e voltam dirigindo para casa, sem se importar com as consequências. Uma sociedade onde o mais importante é a comida ter sabor, não importa o quanto é prejudicial à saúde. Resumindo, uma sociedade onde quem domina e toma as decisões são os desejos e não o racional.
A solução é nos conectarmos aos valores espirituais. As Mitzvót, por exemplo, nos ajudam a desenvolver o autocontrole, nos ajudam a ajustar as prioridades, nos ajudam a saber, mesmo nos pequenos detalhes do cotidiano, qual o caminho correto a ser seguido.
Uma dica prática para evitar seguir cegamente os desejos é escutar o conselho do Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Leve em consideração o que você ganha com uma transgressão e o que você perde" (Cap. 2 Mishná 1). Os prazeres proibidos duram poucos instantes, enquanto suas consequências, tanto no mundo material quanto no mundo espiritual, podem durar para sempre. Vale a pena pensar nisso e se controlar.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/search/label/Parash%C3%A1%20Korach
Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22, At 5:1-11