Júlio estava
andando em um parque. Diante dele, a uma curta distância, estava uma mãe e sua
filhinha de três anos de idade. A menininha andava contente, segurando um balão
de gás na mão. De repente, quando a menininha estava distraída, uma rajada de
vento arrancou o balão de sua mão e ele começou a subir em direção ao céu. Júlio
se preparou para escutar, em poucos segundo, um grande escândalo. Mas não foi
isto o que aconteceu. A pequena menina acompanhou com os olhos o balão indo para
o céu, virou-se alegremente para sua mãe e gritou: "Uau!".
Júlio, sem
perceber, havia aprendido naquele momento uma importante lição de vida. Mais
tarde, naquele mesmo dia, ele recebeu um telefonema de uma pessoa com a notícia
de um problema inesperado. Em um primeiro momento ele sentiu vontade de dizer
"Não acredito! E agora, o que faremos?". Mas então Júlio lembrou-se da reação da
garotinha. Ele então abriu um grande sorriso e disse para a pessoa que
aguardava, aflita, do outro lado da linha:
- Uau, este problema é
interessante. Como podemos resolvê-lo juntos?
Uma coisa é certa: a vida
sempre tentará nos desequilibrar apresentando problemas inesperados e situações
difíceis. Isto é um fato. Mas o que está em nossas mãos é a nossa reação, a
nossa resposta diante dos problemas. Podemos escolher ser derrotados, ou podemos
escolher ser vitoriosos.
Quanto mais nos prepararmos para encarar os
problemas de maneira positiva e confiante, quanto mais investirmos em nossa
espiritualidade para adquirirmos ferramentas de autocontrole e Emuná (fé),
estaremos aumentando as chances de, nas situações mais difíceis, olharmos os
nossos problemas de maneira positiva, ao invés de perdermos a tranquilidade e a
esperança.
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A
Parashá desta semana, Behalotechá, descreve o momento em que o povo judeu já se
aproximava de sua entrada na Terra de Israel, após cerca de um ano no deserto,
mas termina com uma série de transgressões, que culminaram no terrível pecado
dos espiões, descrito na Parashá da semana que vem, e o consequente decreto de
que o povo judeu permaneceria 40 anos no deserto. Entre os pecados desta Parashá
estão o "excesso de vontade" do povo de abandonar o Monte Sinai, como uma
criança que foge da escola ao escutar o sinal, e o pecado de terem desejado
tanto comer carne a ponto de reclamarem do Man que D'us mandava diariamente,
causando com que uma praga matasse muitos judeus.
Ao escutarmos estas
transgressões, como definimos em nossas cabeças o nível dos judeus daquela
época? Parecem pessoas guiadas apenas pelos desejos, ávidas por prazeres físicos
imediatos, que não apreciavam o prazer profundo do estudo da Torá no Monte Sinai
e os benefícios espirituais de comer Man, a comida que caía do céu. Mas
certamente este é um entendimento equivocado, pois aquela era uma gerações de
pessoas em um elevado nível espiritual, que haviam presenciado os grandes
milagres da saída do Egito e a revelação de D'us no Monte Sinai. A geração do
deserto é conhecida como "a geração do conhecimento" e, portanto, não poderiam
ter se comportado como animais, apenas guiados pelos seus desejos. Então como
devemos entender estes graves erros desta geração tão elevada?
Explica o
Rav Avraham Grodzinsky que o povo judeu, durante todo o período em que estava no
deserto, estava vivendo acima das leis da natureza. Eles não comiam uma comida
normal, não precisavam se envolver com tarefas domésticas como lavar as roupas,
não precisavam arar a terra e presenciavam constantemente milagres abertos. Esta
não é a vida normal para a qual D'us nos criou, pois não somos anjos, seres
meramente espirituais. A vida verdadeira é uma vida de interação com o mundo
material, na qual é necessário um esforço constante para elevar o material e
transformá-lo em espiritual. Os anjos não passam pelos testes que nós passamos,
e são justamente os testes que nos elevam e nos conectam a D'us em um nível
especial e único. Então por que D'us fez com que o povo judeu vivesse desta
maneira "artificial" por tanto tempo? Pois, em Sua sabedoria superior, D'us
queria que o povo judeu se preparasse para os futuros testes que se deparariam
quando entrassem na terra de Israel. Eles precisavam de um tempo de
espiritualidade pura para que, quando precisassem estar envolvidos com o mundo
material, continuassem firmes no propósito de se conectar a D'us em cada pequeno
ato do cotidiano.
Porém, esta situação "artificial" tinha um lado
negativo. Quando uma pessoa está sujeita a testes e dificuldades, ela se conecta
a D'us através do esforço utilizado para derrotar sua má inclinação. Cada vez
que ela vence um teste, ela se eleva e adquire mais espiritualidade. Mas
enquanto o povo judeu vivia neste estado "sobrenatural", eles não estavam
sujeitos a nenhum tipo de teste e, portanto, o seu elevado nível espiritual em
que eles se encontravam não foi conquistado, e sim dado de presente por
D'us.
Esta foi a fonte dos erros descritos nesta Parashá. O povo judeu já
estava há quase um ano no deserto, imersos em total espiritualidade. Eles então
sentiram que já estavam prontos para voltar ao mundo material. Sua motivação era
sincera e sua intenção era pura, pois o povo judeu queria aplicar toda a
espiritualidade absorvida no Monte Sinai na difícil tarefa de elevar o mundo
material. Foi este o motivo que os levou ao "excesso de vontade" de abandonar o
Monte Sinai. Não uma vontade infantil de fugir da espiritualidade, e sim o
desejo de viver de maneira a conseguir elevar o material ao espiritual. Isto
também explica a rejeição do Man e a vontade de comer carne. O Man simboliza o
estilo de vida "sobrenatural", e o povo sentiu-se pronto para abandonar este
estado "artificial" e começar uma existência real, dentro das leis da natureza,
comendo comida normal. Eles acreditavam que assim se deparariam com os testes
que acompanham uma vida física e, portanto, teriam a oportunidade e o mérito de
se aproximar de D'us em um nível nunca antes atingido.
Porém, se esta
foi a verdadeira motivação do povo judeu, então por que D'us os castigou de
maneira tão severa? Responde o Rav Avraham Grodzinsky que o momento do povo
judeu voltar a uma existência natural ainda não havia chegado. Eles ainda
precisavam viver uma vida "sobrenatural" por mais algum tempo, para estarem
suficientemente preparados para vencer os desafios que encontrariam pela frente.
O desejo de sair deste estado "sobrenatural" foi, portanto, prematuro e grave,
pois colocou em risco todo o elevado nível espiritual do povo judeu. Além disso,
o povo foi duramente castigado pois, ao invés de confiar em D'us, preferiu fazer
seus próprios cálculos. Se D'us continuava mandando Man, significava que ainda
era importante continuar no nível "sobrenatural". Se D'us não os havia mandado
sair do Monte Sinai, significava que ainda havia muita espiritualidade para ser
absorvida antes dos testes. A consequência foi desastrosa, causando uma queda
espiritual que culminou no pecado dos espiões, e aquela geração inteira, a
geração do conhecimento, morreu no deserto e não teve o mérito de entrar na
Terra de Israel.
Portanto, fica para nós uma enorme lição de vida. Para
podermos enfrentar os desafios e dificuldades da vida, é necessária uma
preparação espiritual. A vida verdadeira não é uma vida de anjos, uma vida
completamente espiritual, e sim uma vida material, na qual o materialismo
precisa ser canalizado para o espiritual e, através do controle dos nossos
impulsos e desejos, podemos nos conectar a D'us. Isto somente é possível com a
devida preparação. O tempo diário que passamos no Beit HaMidrash (Centro de
estudos de Torá), nos dedicando a estudar a Torá e a trabalhar nossas Midót
(características), é uma das partes mais importantes na nossa preparação para os
desafios da vida. Durante este tempo diário, no qual a pessoa quer se dedicar ao
seu crescimento espiritual, ela deve se desconectar de suas ocupações mundanas e
se focar na sua espiritualidade. Uma dica simples e importante é desligar o
telefone celular durante o estudo de Torá e da Tefilá (reza), para aproveitarmos
profundamente cada momento de espiritualidade do nosso dia.
A vida sempre
nos traz dificuldades. Mas são justamente as dificuldades que nos ajudam a
crescer. Quanto mais estivermos preparados, maiores serão as chances de
conseguirmos reagir da maneira correta aos testes da vida. Assim, como a
menininha do balão de gás, ao invés de lamentarmos e reclamarmos quando surgir
uma dificuldade, poderemos abrir um enorme sorriso e dizer aos nossos problemas:
"Uau".
"NÃO DIGA A D'US QUE VOCÊ TEM UM GRANDE PROBLEMA. DIGA AO PROBLEMA
QUE VOCÊ TEM UM GRANDE D'US"
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 8:1-12:16, Zc 2:10 -4:7, 1 Co. 10: 6-13