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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

DOAR COM O CORAÇÃO - PARASHÁ MISHPATIM 5777

Foi em um dia qualquer, no meio do verão, na cidade de Angra dos Reis. Um lugar paradisíaco, que estamos acostumados a ver estampado nas páginas das revistas. O garoto pobre aproximou-se da mansão, colocou o rostinho entre as grades do portão alto e ficou olhando. Evelyn, a dona da casa, uma senhora distinta, regava o jardim. Fazia a tarefa devagar, como quem distribui as gotas com carinho. O menino, em seus nove anos, segurando as grades com as duas mãos, pediu:

- Ei, dona, tem pão velho?

Ela olhou surpresa. Fechou a mangueira e começou a se aproximar do garoto. Desde a sua infância aquele tipo de situação a incomodava. Trazia uma mensagem dentro de si de que, quando alguém pedia pão velho, na verdade estava dizendo: "Me dá o pão que era meu e ficou na sua casa e você esqueceu de comer porque tem muitas outras coisas deliciosas para saborear". Ela caminhou até o portão e perguntou:

- Por que você não está na escola?

- Minha mãe não tem dinheiro para comprar o material - respondeu o garoto, com sinceridade.

Evelyn já estava tão próxima dele que quase o podia tocar. Ele tinha um rostinho tão delicado. Pena que estivesse tão sujo. Pensou nos próprios filhos, tão bem cuidados, penteados, roupas limpas, calçados brilhantes e lancheira cheia para ir para a escola. Do rostinho miúdo do garoto se destacavam os olhos. Espertos, inteligentes e sofridos.

- Seu pai mora com vocês? - arriscou Evelyn.

- Ele sumiu há muitos anos. Não sabemos onde ele está - respondeu o garoto, com voz triste.

A conversa prosseguiu. Evelyn até se esqueceu do jardim e das flores. Diante dela estava uma flor muito mais importante e com muito mais necessidades. Finalmente, Evelyn se recordou da fome do menino e, fazendo um gesto de quem se dirigia para dentro de casa a fim de buscar alguma coisa, exclamou:

- Espere um pouco, vou buscar o pão. Mas não tenho pão velho, serve novo?

- Não precisa não, a senhora já conversou comigo. Tchau - respondeu o garoto, e desapareceu ladeira abaixo.
 Aquela resposta caiu como um raio no coração de Evelyn. Ela teve a sensação de ter absorvido toda a solidão e a falta de amor daquela criança. Um menino de nove anos já sem sonhos, sem brinquedos, sem comida, sem escola e tão necessitado de carinho e de uma conversa amiga. Naquele dia Evelyn aprendeu um novo significado para o pedido de pão velho. Significa "converse comigo, me dê atenção". Por isso, ela continua dando pão novo, fresquinho. Mas, antes de tudo, compartilha o pão das pequenas conversas, um pão que nunca fica velho. O pão mata a fome do corpo, mas a palavra carinhosa nutre o coração entristecido e traz de volta a esperança de um mundo melhor.
A Parashá desta semana, Mishpatim (literalmente "Juízos"), nos ensina diversos tipos de leis, em especial as que envolvem os relacionamentos interpessoais, nos ajudando a entender o quanto a Torá é rigorosa com o nosso comportamento em relação ao nosso semelhante e o quanto devemos nos esforçar para sermos pessoas corretas e honestas. São dezenas de leis, com muitos detalhes de como devemos nos comportar mesmo nas situações difíceis que ocorrem no nosso cotidiano.

A Parashá também desperta o lado misericordioso do ser humano, ao nos ensinar leis referentes aos cuidados que devemos ter com os pobres. Por exemplo, a Torá diz que é uma obrigação emprestar dinheiro a alguém necessitado e nos ensina como fazer isso da melhor maneira, como está escrito: "Quando você emprestar dinheiro ao Meu povo, ao pobre que está com você, não se comporte com ele como um credor... se você pegar a roupa de seu companheiro como garantia, você deve devolvê-la até o por do sol. Pois esta é a sua única coberta, a veste para sua pele, com o que ele dormirá? Se ele gritar a Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso" (Shemot 22:24-26).

Este versículo descreve detalhes importantes da Mitzvá de emprestar dinheiro a alguém necessitado. Em primeiro lugar, a Torá ressalta que não devemos nos comportar como credores, nos ensinando que quando uma pessoa não tem condições de devolver o empréstimo na data combinada, não devemos pressioná-la. Devemos deixá-la à vontade, para que ela não se sinta humilhada toda vez que nos encontrar. Além disso, a Torá nos ensina que o devedor deve deixar um objeto como garantia, para caso não consiga pagar sua dívida. Porém, se a pessoa for tão pobre que este objeto de garantia for algo que ela precisa para o seu dia-a-dia, como a roupa que ela veste para dormir, então devemos constantemente devolvê-lo, para que a pessoa possa utilizá-lo sempre que necessário.

Mas o que realmente nos chama a atenção são as palavras finais do versículo: "Se ele gritar a Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso". Aparentemente a Torá está deixando claro que, caso o credor não devolva o objeto de garantia para o devedor quando este necessitar, causando com que o devedor grite desesperadamente para D'us, então Ele escutará e castigará o credor. Porém, o credor cometeu alguma transgressão somente por ter pressionado o devedor, retendo o objeto de garantia? O credor fez a sua parte e emprestou seu dinheiro. O grito é apenas entre o devedor e D'us, pois o credor não tem culpa do devedor não ter dinheiro para pagar suas dívidas. Então por que o versículo dá a entender que o credor será castigado caso pressione o devedor?

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), após escutar o grito do pobre, D'us fala para o credor: "Quando o pobre grita para Mim, Eu darei a ele um pouco do que teria dado a você, pois Eu dou a você mais do que você precisa justamente para que você possa ajudar a sustentar os outros". Isto quer dizer que D'us deveria mandar para cada ser humano exatamente o que ele precisa para as suas necessidades básicas, como ocorria no deserto, quando o "Man" caía diariamente e cada um recebia exatamente a quantidade que necessitava para sua alimentação diária. Porém, olhamos para o mundo e vemos que a distribuição das riquezas não é igual. Para alguns D'us manda "a mais", enquanto para outros D'us manda "a menos". Devemos ter a claridade de que quando recebemos "a mais", isto não é para nós mesmos, para os nossos luxos, e sim para podermos ajudar a sustentar outras pessoas. É por isso que o versículo utiliza as palavras "Eu escutarei", pois D'us escutará que o credor tem mais do que precisa para suas próprias necessidades e, mesmo assim, fica pressionando o devedor, que tem menos do que precisa. Qual será a consequência? D'us tirará o dinheiro do credor e dará ao devedor.

Este conceito foi ensinado pelo mais sábio dos homens, Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "O rico e o pobre serão visitados. D'us é quem faz todos eles" (Mishlei 22:2). O Talmud (Temurá 16a), ao explicar este versículo, relata o que acontece quando um pobre se dirige a um rico e pede "por favor, me ajude no meu sustento". Caso o rico o ajude, então está tudo bem, mas caso o rico não o ajude, sofrerá consequências. "D'us é quem faz todos eles" significa que, da mesma forma que D'us fez a pessoa ficar rica, então Ele fará esta pessoa empobrecer, e da mesma forma que D'us fez a outra pessoa ser pobre, Ele a fará enriquecer.

Mas será que isto realmente pode acontecer? A pessoa rica já tem muito dinheiro acumulado, enquanto o pobre não tem nada! Como pode ser que esta situação vai se inverter? Estamos tão imersos nas ideias equivocadas do mundo material que nos esquecemos de que as regras espirituais são diferentes do que os nossos olhos enxergam. D'us recria tudo a todo instante. O que a pessoa tem neste momento não diz nada em relação ao que vai ocorrer em um próximo momento. Nada é garantido, pois se D'us não recriar a riqueza do rico, no próximo instante ele estará completamente pobre. Portanto, D'us, que controla tudo, pode fazer o rico perder tudo e o pobre enriquecer da noite para o dia.

O mesmo conceito também se aplica em relação aos assuntos espirituais. Assim nos ensina Shlomo Hamelech: "O pobre e o homem de pensamentos profundos são visitados. D'us é quem ilumina os olhos dos dois" (Mishlei 29:13). O Talmud (Temurá 16a) explica que este versículo se refere a um aluno que vai ao seu professor e pede "por favor, me ensine Torá". Caso o professor o ensine, então está tudo bem, pois D'us iluminará os olhos dos dois, tanto do professor quanto do aluno. "Pobre", neste caso, se refere ao aluno, alguém ainda pobre em Torá. "Homem de pensamentos profundos" se refere ao professor, neste caso alguém que já tem bastante conhecimento, mas que ainda precisa crescer muito espiritualmente. Caso o professor aceite dedicar parte do seu tempo para ensinar ao seu aluno, abrindo mão do seu próprio tempo de estudo, então D'us iluminará os olhos dos dois. O professor não perderá nada, ao contrário, ganhará conhecimento e sabedoria junto com o aluno.

Porém, o Talmud continua explicando que, caso o professor se recuse a ensinar seu aluno, preferindo dedicar seu tempo apenas ao seu próprio crescimento em Torá, então D'us, quem transformou aquela pessoa em um sábio, pode transformá-lo em um grande tolo, enquanto aquele que foi criado tolo pode se transformar em um sábio. Quando alguém não é misericordioso e se recusa a dividir o que recebeu "a mais", D'us o castiga e retira dele parte do seu dinheiro e dá ao pobre. O mesmo acontece com aquele que se recusa a ensinar seu companheiro, ele é castigado e perde parte de sua sabedoria, que é dada àquele que quer aprender. É como se D'us estivesse dizendo: "Eu te dei condições financeiras, Eu te dei sabedoria e força para você poder ensinar também aos outros, então por que você quer pegar tudo apenas para você mesmo? Você acha que tem algo? Quem deu tudo isto a você fui Eu. E como a cada momento Eu renovo o que Eu dou para as pessoas, a partir deste momento eu deixarei de dar para você e começarei a dar para ele".

Este é um grande ensinamento para conseguirmos vencer o nosso egoísmo. Vivemos com excessos e luxos, enquanto muitas pessoas não têm nem mesmo o básico. E o pior de tudo é que não nos importamos com os outros. Não apenas não repartimos a parte "a mais" do nosso dinheiro, como também não dedicamos nem mesmo o nosso tempo aos outros, para ensinar algo ou simplesmente para dar atenção a quem necessita. Precisamos lembrar que tudo o que temos é por bondade de D'us, mas se não soubermos utilizar o que recebemos, podemos perder tudo. A palavra "Tzedaká" normalmente é traduzida como "caridade", mas a tradução literal é "justiça". Quando ajudamos alguém que tem menos do que nós não estamos apenas fazendo caridade, estamos fazendo justiça. Este "a mais" somente veio até nossas mãos para podermos ter o mérito de ajudar os outros e, assim, criar um mundo mais justo.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex 21:1-24:18, Jr 34:8-22, 33:25-26

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

SABENDO PEDIR PERDÃO - PARASHAT MISHPATIM 5776

"Michel ganhou de presente um papagaio. Mas o que poderia ser uma diversão para a família acabou se tornando um verdadeiro "presente de grego". O papagaio se comportava mal e tinha um péssimo vocabulário. De cada dez palavras que ele falava, oito eram palavrões.

Michel se esforçou para reeducar o pássaro. Ele ficava constantemente dizendo palavras educadas e tocando músicas suaves, mas nada funcionava. Então ele mudou a tática e tentou reeducá-lo através de castigos. Ele gritou, ameaçou, chacoalhou o pássaro, mas o papagaio ficou ainda mais irritado e rude.

Certo dia, quando Michel estava com convidados importantes em casa, o papagaio começou a falar palavrões. Desesperado, Michel pegou o papagaio, colocou-o no congelador e fechou a porta. Por alguns momentos ele ouviu o pássaro gritando e bicando a porta, mas de repente tudo ficou quieto. Michel ficou com medo de ter machucado o pássaro e rapidamente abriu a porta do congelador. O papagaio estava com os olhos esbugalhados, visivelmente assustado. Ele subiu no braço estendido de Michel e disse:

- Por favor, eu sinto muito por ter te ofendido com a minha linguagem baixa e meus maus atos. Eu peço perdão e vou me esforçar para corrigir meu comportamento.

Michel ficou espantado com a drástica mudança de atitude do pássaro. De repente ele havia ficado educado, tranquilo, e havia até pedido perdão! Mas Michel não entendia como um castigo de apenas um minuto havia feito algo tão milagroso. Anteriormente ele já havia tentado trancar o papagaio em uma caixa, sem nenhum resultado. Por que no congelador havia funcionado? Então o papagaio fez uma pergunta que esclareceu tudo:

- Desculpe a curiosidade, mas posso saber quais palavras feias aquele frango que está no congelador falou para você?"

A piada pode ser engraçada, mas não é engraçado causar mal aos outros e não ter a dignidade de pedir perdão. Assumir um erro e pedir perdão é uma demonstração de grandeza. Como no caso do papagaio, saber pedir perdão pode nos ajudar a não entrar em muitas frias na vida... 
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Nesta semana lemos a Parashat Mishpatim (que literalmente significa "juízos"). A Parashat traz diversas leis "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), que visam manter uma convivência harmoniosa entre as pessoas. Entre os ensinamentos da Parashat estão as leis de compensação por qualquer tipo de dano causado. A Torá traz como exemplo o caso de dois homens brigando, e um deles causa acidentalmente lesões corporais a uma terceira pessoa. Neste caso, aquele que causou o dano é considerado completamente responsável pelas consequências do seu ato. A Torá, ao descrever a compensação exigida do agressor, utiliza uma famosa expressão: "Olho por olho, dente por dente" (Shemot 21:24).

Os babilônios se basearam neste versículo da Torá para criar a famosa "Pena de Talião", que consta no Código de Hamurabi. De acordo com a Pena de Talião (que vem do latim "talis", que significa "idêntico"), o "olho por olho, dente por dente" deveria ser aplicado ao pé da letra, isto é, aquele que quebrasse o dente de outra pessoa era castigado com a quebra do seu dente. Porém, esta aplicação prática feita pelos babilônios demonstra que eles entenderam o versículo da Torá de uma forma completamente equivocada. De acordo com a transmissão oral dos nossos sábios, o "olho por olho, dente por dente" significa que a pessoa que causou uma lesão corporal ao outro deve pagar como indenização o valor monetário do membro que foi atingido. O Talmud (Baba Kama 84a) comprova esta declaração ao afirmar que seria impossível infligir ao agressor uma lesão física exatamente igual à que ele causou em sua vítima, pois não existem duas pessoas fisicamente ou emocionalmente idênticas.

Porém, se pararmos para refletir, surge uma grande dúvida. Se toda a intenção do versículo é apenas ensinar que a vítima pode cobrar do agressor uma compensação monetária, então por que a Torá se expressa com uma linguagem que, se tomada literalmente, indica que o agressor estaria sujeito a uma punição física? A Torá não deveria ter explicitado que se trata apenas de uma compensação monetária, escrevendo literalmente "pagamento de um olho por olho", para evitar uma interpretação tão equivocada quanto à dos legisladores do Código de Hamurabi?

Além disso, o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), em seu livro de Halachót (Leis), na seção "Leis de Lesões e Danos", nos ensina as diversas exigências legais na compensação de danos causados a outra pessoa. Ele ressalta o grande contraste que existe entre a restituição exigida em casos de danos à propriedades e em casos envolvendo lesões corporais. O Rambam afirma que quando alguém causa uma lesão corporal, o pedido de perdão à vítima é obrigatório para que ocorra uma restituição completa.

Porém, este comentário do Rambam é um pouco difícil de ser entendido. Por que ele incluiu a exigência de pedir perdão no meio de leis que falam sobre a compensação monetária de um dano? Além disso, o Rambam também inclui esta exigência na seção "Leis de Teshuvá (arrependimento)". Ele afirma que mesmo que a pessoa tenha feito uma restituição monetária completa pelo dano que causou, seu erro não é expiado até que ele peça perdão e consiga apaziguar a pessoa que sofreu o dano. Mas por que a necessidade do pedido de perdão se a pessoa já foi completamente compensada por sua perda monetária? Já não foi devolvido à vítima tudo o que foi retirado dela?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em um interessante ensinamento do Talmud (Brachót 33a), que afirma que apesar da vingança normalmente ser uma forma de comportamento inaceitável, há algumas poucas exceções, em situações muito específicas, na qual ela é permitida. A palavra "vingança" em hebraico é "Nekamá", que vem da mesma raiz de "Kam", que significa "reestabelecer". Quando uma pessoa sofre um dano, não apenas suas posses ou seu corpo são atingidos, mas também a sua dignidade. Isto é ainda mais acentuado quando a pessoa sofre lesões corporais, pois o agressor exerceu sobre a vítima uma dominação física, diminuindo sua autoestima. Portanto, a vingança, quando permitida, é uma forma de reestabelecer a dignidade da pessoa insultada.

Foi justamente por este motivo que a Torá escreveu que a restituição de uma lesão corporal deve ser "olho por olho, dente por dente". Esta expressão tem um significado de castigo físico ao agressor, e nos ensina que a única maneira de realmente restaurar a autoestima da vítima seria aplicando ao agressor exatamente o mesmo dano que ele causou. Porém, nossos sábios explicam que na prática este tipo de restituição seria impossível, pois de qualquer maneira a consequência não seria idêntica para o agressor e o agredido e, portanto, acabaria sendo injusta. Por este motivo a punição física foi substituída por uma compensação monetária. Mas por outro lado, o dinheiro também não é capaz de restaurar a autoestima destruída da pessoa. Então o que fazer para que a justiça seja feita? Além da compensação monetária, o agressor também deve implorar pelo perdão de sua vítima, pois no momento em que o agressor busca apaziguar sua vítima, um pouco de sua dignidade danificada é restaurada.

Aprendemos daqui que pedir perdão e apaziguar uma pessoa que possamos ter ofendido através de algum dano ou agressão é um componente integral da restituição dos prejuízos causados. É por isso que o Rambam inclui o pedido de perdão no meio das leis que discutem a compensação monetária dos danos causados. Além disso, espiritualmente a pessoa não consegue alcançar a expiação do seu erro até que devolva o que foi retirado do seu companheiro. Isto vale para a parte material do dano, mas também se aplica para a parte psicológica. Portanto, o pedido de perdão e o apaziguamento é um dos pré-requisitos para receber expiação pelo erro cometido, pois ajuda a devolver a dignidade que havia sido retirada da vítima. E é por isso que o Rambam inclui também a necessidade de pedir perdão em suas "Leis de Teshuvá".
 
Diz o ditado que errar é humano. E realmente é impossível que um ser humano nunca erre, magoe ou cause danos aos outros, mesmo que seja sem intenção. Porém, está em nossas mãos consertar os erros que cometemos, tanto materialmente quanto psicologicamente. Um simples "me desculpe, eu errei" pode derrubar muitas barreiras criadas por brigas e discussões. Assumir o erro e pedir perdão é uma demonstração de maturidade e grandeza espiritual. Por isso, apesar de errar ser humano, saber pedir perdão é Divino.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 21:1-24:18, Je 34:8-22, 33:25-26

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

INTEIRO E NÃO PELA METADE - PARASHÁ MISHPATIM 5775

"Certa vez Eliezer, um jovem estudante de Torá, aprendeu uma grande lição sobre como fazer Chessed (bondade) com os necessitados. Ele foi convidado para comer uma Seudá (refeição) de Shabat na casa do Sr. Stern (nome fictício), no mesmo Shabat em que o dono da casa também tinha convidado um homem pobre para a Seudá. Após o primeiro prato, onde apenas alguns pedaços de pão e saladinhas haviam sido servidos, o Sr. Stern animadamente começou a cantar músicas de Shabat. Uma música, duas músicas, três músicas se passaram, mas a animação do Sr. Stern não passava. Já na quinta música o pobre, não aguentando mais de fome, desabafou:

- Por favor, chega de músicas e vamos para o próximo prato de comida!

O Sr. Stern olhou para o pobre, incrédulo, e respondeu rispidamente:

- Por favor, um pouco de Derech Eretz (bons modos), meu amigo!

A esposa do Sr. Stern, que estava na cozinha, ao escutar a discussão na sala, entrou e disse para o marido:

- Querido, não entendi. Você convidou este senhor para te ouvir cantando, para ensiná-lo a se portar com Derech Eretz ou para alimentá-lo?" (História Real).

Quando fazemos bondades, precisamos fazer de maneira completa, dando a cada um o que ele realmente necessita, e não o que nós achamos que é importante.
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Nesta semana lemos a Parashá Mishpatim, que traz muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), entre elas algumas Mitzvót associadas ao empréstimo de dinheiro, como está escrito: "Quando você emprestar dinheiro para o Meu povo, para a pessoa pobre que estiver com você, não se comporte com ele como um credor; não coloque juros sobre ele. E se você pegar as roupas do seu companheiro como garantia, até o por do sol você deve devolver a ele, pois é a única vestimenta dele, é a roupa para sua pele, com o que ele se deitará? Porque se ele gritar para Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso" (Shemot 22:24-26).

Superficialmente, estes versículos nos ensinam algumas Mitzvót simples e fáceis de serem entendidas. Porém, se refletirmos um pouco, nos despertam alguns questionamentos. Em primeiro lugar, vemos que a Torá incluiu outras Mitzvót, como a Mitzvá de devolver o objeto penhorado e a proibição de cobrar juros, junto com a Mitzvá de emprestar dinheiro, como forma de garantir que o Chessed (bondade) seja feito de maneira completa. Mas por que a Torá se preocupou com isso? O importante não é apenas fazer bondade, mesmo que não seja de forma completa?

Além disso, estas Mitzvót associadas ao empréstimo de dinheiro também despertam questionamentos. Por exemplo, está escrito "não se comporte com ele como um credor". Explica o Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, que se sabemos que a pessoa está passando por dificuldades no momento e é incapaz de devolver o empréstimo, não devemos pressioná-la mesmo que tenha chegado o prazo do pagamento. Ao contrário, Rashi ressalta que devemos fazê-la se sentir como se o empréstimo nunca tivesse acontecido, para não envergonhá-la. Mas este ensinamento é estranho, pois se chegou a data combinada para o pagamento, por que o credor não pode cobrar a dívida? É errado querer receber o próprio dinheiro de volta?

Outro ponto intrigante é a proibição de cobrar juros. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina o quanto cobrar juros é grave. De acordo com o Midrash, sempre que alguém comete uma transgressão, os anjos do Céu tentam procurar méritos para o transgressor, para aliviar as consequências espirituais. Mas se a transgressão for a cobrança de juros, os anjos não procuram nenhum mérito para o transgressor. Porém, por que cobrar juros é proibido, se uma pessoa que está em uma situação difícil, precisando urgentemente de dinheiro, não se importa em pagar um pouco a mais quando estiver em uma situação mais confortável? Apesar disso, por algum motivo a Torá proíbe, de maneira muito rigorosa, o empréstimo a juros, mesmo que seja com taxas muito baixas. Por que tanta rigorosidade se, afinal, a pessoa fez uma bondade com o próximo necessitado?

Finalmente aprendemos dos versículos que, ao pegarmos uma roupa como garantia de pagamento de um empréstimo, se esta for a única roupa que a pessoa tem para usar, somos obrigados a devolver nos momentos em que ela necessitar da roupa. Por exemplo, se a garantia for um cobertor, ele pode ficar na posse do credor durante o dia, mas todas as noites o cobertor deve ser devolvido para que a pessoa possa se cobrir. Porém, esta lei aparentemente anula todo o propósito do devedor deixar um objeto como garantia, pois se ele pode continuar utilizando o objeto normalmente todas as vezes em que necessitar, ele fica muito menos motivado a pagar o empréstimo. Apesar de parecer contraditório, mesmo assim a Torá exige que o objeto penhorado seja devolvido ao seu dono sempre que ele precisar. Portanto, qual é a lógica destas Mitzvót associadas à Mitzvá de emprestar dinheiro ao necessitado e o que elas vêm nos ensinar?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que a Parashá está nos ensinando a como fazer Chessed da maneira correta. O ponto em comum  entre todas estas leis é que elas ressaltam a importância de, quando fazemos um ato de Chessed, fazê-lo da maneira mais completa possível, pois um Chessed "defeituoso" diminui muito seu impacto positivo sobre a pessoa que recebe. Por isso, mesmo esta incrível Mitzvá de emprestar dinheiro para alguém necessitado precisa ser feita com extremo cuidado, sem pressionar de nenhuma maneira a pessoa. Mas não vemos o mesmo nível de cobrança com a pessoa que nem mesmo faz Chessed. Como pode ser que o "meio Chessed" pode ser mais grave do que não fazer Chessed?

Há um ensinamento interessante e enigmático do Talmud (parte da Torá Oral) que talvez nos ajude a responder esta pergunta. O Talmud (Sotá 13b) afirma que uma pessoa que começa uma Mitzvá mas não a termina é punido de uma maneira muito severa. Porém, por que um castigo tão duro para alguém que pelo menos começou a Mitzvá, se aquele que não faz nada da Mitzvá não é punido de maneira tão rígida? Explica o Rav Moshe Shterenbuch shlita que nosso julgamento depende da claridade que temos sobre o que é certo e o que é errado. Quanto maior a claridade, maior o nível de cobrança. Aquele que iniciou uma Mitzvá demonstra que, por querer cumpri-la, ele aprecia o valor da Mitzvá. Portanto, se ele deixa de terminá-la, é como se estivesse desprezando algo que ele sabe que é muito elevado e importante, e por isso o castigo é tão severo. Já aquele que nem começou a Mitzvá é considerado alguém que ainda não entende a importância das Mitzvót, que não tem claridade, e por isso é julgado de uma maneira mais leniente.

De acordo com o Rav Chaim Shmulevitz, o mesmo se aplica aos atos de Chessed. Quanto mais a pessoa sabe o verdadeiro valor do Chessed e sua importância, mais rigidamente ele é tratado caso não faça o Chessed da maneira correta. É por isso que aquele que cobra juros, que pressiona o devedor ou que não devolve o objeto tomado como garantia, apesar de apreciar o valor de um ato de Chessed, ao mesmo tempo despreza este ato ao fazê-lo de maneira incompleta, pois junto com a bondade vem algum tipo de sofrimento ao devedor. Já aquele que nem se ocupa em fazer bondades demonstra que não entendeu o valor verdadeiro deste ato e, por isso, é tratado de forma menos rigorosa.

Portanto, fica um importante ensinamento para as nossas vidas: quando decidimos fazer Chessed com outra pessoa, é muito importante nos esforçarmos ao máximo para aumentar os efeitos positivos deste Chessed e não deixar que nenhuma mancha diminua o verdadeiro valor deste belo ato. Parece algo teórico, mas este conceito certamente se aplica a muitas situações cotidianas. Por exemplo, quando alguém nos pede uma ajuda ou qualquer tipo de favor e nós, apesar de aceitarmos, o fazemos com relutância, demonstrando que não estamos fazendo com muita vontade. Embora seja de qualquer maneira uma bondade, esta relutância causa certo incômodo naquele que pediu o favor, pois ele se sente desconfortável de ter causado um inconveniente. Por isso devemos sempre nos esforçar para ajudar os outros com um sorriso no rosto, mesmo quando nos pedem algo difícil ou trabalhoso. Isto aumenta muito os benefícios do Chessed que fazemos, pois além de ajudar a pessoa necessitada, não a deixamos com a consciência pesada por ter nos incomodado.

O mesmo se aplica quando damos uma Tzedaká (caridade) para um pobre. Temos que saber que é humilhante para uma pessoa ter que pedir dinheiro, e se damos a Tzedaká com a cara fechada, como se fosse um grande peso, a ajuda vem com uma carga negativa. Por isso, sempre que damos Tzedaká, devemos fazer com um sorriso no rosto. O próprio Talmud (Baba Batra 9b) afirma que aquele que dá Tzedaká sem entusiasmo recebe 6 Brachót, mas aquele que dá com um sorriso e com alegria recebe 17 Brachót, quase o triplo! Isto acontece pois aquele que faz Chessed sem entusiasmo diminui muito o efeito da sua bondade, enquanto aquele que faz Chessed com um sorriso demonstra o quanto ele realmente valoriza o ato de ajudar o próximo. Quando nos importamos de verdade com os necessitados, D'us também se preocupa com as nossas necessidades. Mas se ignoramos o que os outros necessitam, certamente também nossas próprias necessidades serão ignoradas por D'us.

O versículo termina com as palavras "porque se ele gritar para Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso", para nos ensinar que, mesmo se fizermos uma grande bondade, se junto com isso causarmos também sofrimento e humilhação para a pessoa beneficiada, então seremos cobrados. Daqui aprendemos que não adianta fazermos "meias bondades" na vida. Se queremos de verdade ajudar alguém, deve ser como todo nosso coração e com toda a nossa força, com um sorriso no rosto, para que aquele que recebe as bondades possa se sentir feliz de maneira completa, e não pela metade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 21:1-24:18, Jr 34:8-22, 33:25-26

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

AJUDANDO A ALIVIAR O PESO - PARASHÁ MISHPATIM 5774

Muitos estudantes da Yeshivá de Ponovitch, na cidade de Bnei Brak, estavam se preparando para ir ao casamento de um amigo em Jerusalém. Para facilitar, eles chamaram vários táxis e se dividiram em pequenos grupos. Um dos alunos convidou o Rav Elazar Man Shach (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), o Rosh Yeshivá (Diretor espiritual), para ir com ele em um dos taxis. Quando o Rav Shach escutou que ainda havia mais um lugar sobrando, pediu que Yossi, um novo aluno da Yeshivá, também fosse convidado. Yossi, que havia vindo de fora de Israel, ainda não conhecia ninguém na Yeshivá e estava visivelmente deslocado.

Durante a viagem, que levou cerca de uma hora, o Rav Shach foi mostrando para Yossi vários pontos turísticos famosos, como a fábrica de cimento, a estrada velha e Latrun (Museu dos tanques de guerra). Um dos estudantes que estava no táxi, sabendo quanto o Rav Shach dava importância para o seu estudo de Torá, ficou incomodado de vê-lo “gastando tempo” sendo um guia turístico e decidiu fazer uma pergunta sobre o tratado do Talmud (Torá Oral) que eles estavam estudando na Yeshivá. O estudante achou que o Rav Shach ficaria muito agradecido por estar sendo “salvo” daquela perda de tempo. Porém, para sua surpresa, o Rav Shach respondeu:

- Me desculpe, você pode conversar comigo sobre o Talmud todos os dias na Yeshivá, mas neste exato momento eu prefiro que não, pois estou cumprindo a Mitzvá de “Achnassat Orchim” (receber um convidado). Este rapaz é novo na Yeshivá, ainda não conhece ninguém e, por isso, é nossa obrigação fazer de tudo para deixá-lo à vontade” (Retirado do livro “Major Impact”, de autoria de Dovid Kaplan).

O aluno do Rav Shach realmente conhecia o quanto ele dava valor para cada segundo de estudo de Torá. Mas talvez o que ele não conhecia era a grandeza do Rav Shach em se preocupar com os outros, mesmo nos pequenos detalhes. Foi isto o que fez do Rav Shach o maior rabino da geração.

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Nesta semana lemos a Parashá Mishpatim, que nos ensina muitas Mitzvót “Bein Adam Le Haveiró” (entre o homem e seu semelhante), como as leis sobre compensação de danos, a preocupação com os indefesos e abandonados e as leis que regulamentam o empréstimo de dinheiro. Estes ensinamentos são muito importantes, pois na maioria das vezes achamos que a espiritualidade é medida através de grandes atos de devoção a D’us, como fazer Mikvê (mergulho ritual) em águas congelantes, extensos jejuns e longos retiros espirituais. Mas a Parashá nos ensina que a espiritualidade é medida através dos pequenos atos do nosso cotidiano, em especial a forma como nos comportamos em relação aos nossos semelhantes.

Um dos ensinamentos mais impressionantes está no final da Parashá. D’us chamou Moshé, Aharon, os filhos mais velhos de Aharon (Nadav e Avihu) e 70 anciões do povo judeu, e se revelou a eles de uma maneira mais explícita, através de uma visão profética, como está escrito: “E eles visionaram o D’us de Israel, e debaixo de Seus pés havia como uma obra de tijolos de safira, tão límpida quanto a visão dos céus” (Shemot 24:10). Mas o que significa esta visão? Por que sob os pés de D’us havia tijolos de safira? E por que a visão termina falando sobre um céu límpido?

É importante lembrar que D’us é infinito e, portanto, não tem nenhuma forma física limitada, e não pode ser representado através de nenhuma imagem. Todas as vezes que a Torá atribui a D’us características físicas é apenas para que possamos aprender com os atos Dele e nos comportarmos como Ele. Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que o chão feito de tijolos de safira estava diante de D’us no momento da escravidão do Egito, para que Ele se lembrasse do sofrimento pelo qual passavam os judeus, em especial quando carregavam nas costas pesados tijolos durante os trabalhos forçados.

Porém, uma das premissas do judaísmo é que D’us é Onisciente. Ele precisava deixar tijolos para lembrar-se do sofrimento do povo judeu? Explica o Rav Yerucham Leibovitz (Bielorússia, 1873 – Israel, 1936) que D’us está nos ensinando que não é suficiente para uma pessoa apenas refletir e imaginar o sofrimento do seu companheiro. Ele quer que sejamos “Nossê Be Ól Haveiró” (carregar o peso junto com nosso companheiro), isto é, quando vemos alguém em dificuldade, devemos nos esforçar para ativamente aliviar seu sofrimento. E uma das pessoas que conseguiu aprimorar muito esta característica foi Moshé Rabeinu. Ele foi criado por Batia, filha do Faraó, e cresceu no palácio real, cercado por todos os tipos de luxo e comodidade, mas mesmo assim não se esqueceu dos seus irmãos, que estavam escravizados, como diz o versículo: “E cresceu Moshé, e foi ter com seus irmãos, e viu o sofrimento deles” (Shemot 2:11). Não era suficiente Moshé ter ficado em casa, imaginando os terríveis sofrimentos pelos quais seus irmãos estavam passando? Rashi explica que Moshé usou seus olhos e seu coração para sofrer junto com eles. Ele não ficou somente imaginando as dificuldades pelas quais eles passavam, ele saiu para vê-los e sentir a dor que eles sentiam.

Mas como explicou Rashi, somente os olhos não são suficientes para sentir de verdade a dor do próximo, é preciso usar o coração. Vemos pobres dormindo na rua, se alimentando de restos de lixo, e sentimos muito dó, mas continuamos nossas vidas como se nada estivesse acontecendo, pois apenas utilizamos nossos olhos, não nosso coração. Aquele que pensa que cumpre sua obrigação de “Nossê Be Ól Haveiró” apenas vendo uma pessoa sofrendo, sem se esforçar para sentir também o mesmo sofrimento, está apenas se enganando. Após Moshé ter usado seus olhos e seu coração, ele se uniu no sofrimento dos seus irmãos. O Midrash (parte da Torá Oral) diz que quando Moshé via algum judeu carregando uma carga muito pesada, ele oferecia seu ombro para dividir com ele o peso. Ele não fazia isso apenas para aliviar seu companheiro do peso que carregava, mas também para sentir na pele o sofrimento que seus irmãos sentiam. Moshé não ficou apenas olhando, seus olhos e seu coração o levaram a atitudes de bondade.

Explica o Rav Yerucham que mais difícil do que sentir o sofrimento do próximo é sentir de verdade a alegria do próximo. Por que a visão de D’us termina com as seguintes palavras: “límpida como a visão dos céus”? Quando D’us se revelou para este seleto grupo de judeus, isto causou uma alegria muito grande neles, como está escrito: “E eles viram D’us, e comeram e beberam” (Shemot 21:11). Segundo Unkelos (Roma, 35ec - Israel, 120ec), que traduziu toda a Torá para o aramaico, estas palavras significam que para eles a visão de D’us trouxe tanto prazer quanto os mais deliciosos prazeres físicos. D’us quis então demonstrar que estava feliz junto com eles, e fez isto através de uma visão iluminada, como um dia claro e cheio de luz, nos ensinando como é importante nos alegrarmos com as alegrias dos outros.

Estamos acostumados a ir a uma festa e ver os convidados felicitando o dono da festa com um sonoro “Mazal Tov”. À primeira vista parece que todos estão felizes, com um contagiante sorriso no rosto. Mas será que esta alegria externa das pessoas realmente reflete o que elas sentem de verdade em seus corações? Não é tão simples assim chegar ao nível de se alegrar com a alegria dos outros como se fosse a nossa própria alegria. Muitas vezes, mesmo de forma inconsciente, nossa alegria se mistura com um pouco de inveja, uma sensação de que aquela alegria poderia estar acontecendo conosco e não com o outro. Será que aquele “Mazal Tov” não é uma alegria apenas da boca para fora? Cada um de nós precisa ser sincero consigo mesmo, para saber o quanto conseguimos de verdade sentir a alegria do próximo, e o quanto ainda precisamos nos esforçar para melhorar nesta área.

Quando um comerciante se encontra com outro comerciante depois dos negócios, podem ocorrer três situações: se ele lucra e seu companheiro perde, ele fica muito feliz. Se os dois lucram ou perdem igualmente, ele fica triste. E se ele perde e seu companheiro lucra, ele fica imerso em terríveis sofrimentos. O Rav Yerucham nos ensina que, infelizmente, não há muita diferença entre o comportamento dos comerciantes e das pessoas que estão em um salão de festas. A alegria de uma pessoa é medida, portanto, de acordo com quanto ela ganha e quanto seu companheiro perde. Por isso é tão difícil sentir alegria de verdade quando é nosso companheiro, e não nós, que tem motivos para festejar.

Esta triste constatação é consequência da queda espiritual do ser humano. O maior problema é que nos enganamos e não sabemos o quanto chegamos a sentir até mesmo ódio no nosso coração por pessoas que achamos que nós amamos. O primeiro passo para melhorarmos é despertar e perceber o quanto estamos ainda longe do que D’us espera de nós. Precisamos superar o nosso egoísmo e nos alegrar com o que os outros têm, pois cada um recebe de D’us exatamente o que precisa para cumprir seu trabalho espiritual neste mundo. Precisamos usar mais o nosso coração para sentir a dor dos outros e ajudar no que for possível, para tentar ao menos aliviar um pouco a dor do próximo. Somente assim, através de um esforço constante, chegaremos ao nível verdadeiro de dividir com o próximo seus sofrimentos e suas alegrias.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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Ex. 21:1-24:18, Je 34:8-22, 33:25-26
 
 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O VERDADEIRO DONO - PARASHÁ MISHPATIM 5773

 "Era domingo de tarde e Roberto já estava horas na frente da televisão. Parava apenas para ir ao banheiro ou para assaltar a geladeira entre um intervalo e outro. Completamente esparramado no sofá, ficava com o controle remoto na mão, passando de canal em canal, procurando algo interessante. Foi quando ele viu uma reportagem sobre pacientes terminais que eram mantidos vivos com a ajuda de aparelhos. Chocado com as fortes imagens da reportagem, imediatamente chamou sua esposa e disse:

- Querida, por favor, você jura que se um dia eu estiver dependente de uma máquina para viver, você tira ela da tomada?

- Sim, eu juro – respondeu a esposa, depois de refletir um pouco.

Então, sem pensar duas vezes, ela levantou-se e tirou a televisão da tomada..."

Achamos que somos livres e independentes. Mas a verdade é que somos totalmente escravos de nossas próprias vontades e desejos.

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Na Parashá desta semana, Mishpatim, a Torá traz dezenas de leis "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu companheiro), que fazem parte do código de leis civis do povo judeu. E o primeiro assunto tratado na Parashá é sobre um judeu que adquire outro judeu como escravo. Nosso conceito de escravidão é totalmente distorcido, pois a primeira ideia que nos vem à cabeça é uma pessoa com vida miserável e trabalho pesado sob fortes e impiedosas chicotadas. Mas a visão da Torá é completamente diferente, a ponto de o Talmud (Kidushin 22a) afirmar que "aquele que adquire um escravo, adquire para si um dono", tamanha é a responsabilidade que o dono deve ter com o bem estar de seu escravo. Por exemplo, um escravo deve ser alimentado com a mesma comida que o dono da casa come, deve ter uma boa cama para poder descansar e não pode sofrer nenhum tipo de maus-tratos. Muito longe dos exemplos de escravidão dos livros de história.

Como um judeu se tornava escravo de outro judeu? Uma das maneiras era quando uma pessoa roubava algo e, ao ser presa, não tinha dinheiro para devolver o roubo ao dono. O Beit Din (Tribunal) então tinha o poder de vender este ladrão como escravo, por um período de 6 anos, para arrecadar os fundos necessários para ressarcir o dono do objeto roubado. O ladrão cumpria os seis anos de trabalho escravo e era libertado no sétimo ano, podendo voltar à sua vida normal, com suas dívidas do passado quitadas.

A Torá traz ainda outro detalhe interessante. O escravo poderia decidir, ao final dos seis anos de trabalho, que gostaria de continuar sendo escravo. O Beit Din tentava convencê-lo a voltar para sua vida normal, como um homem livre, mas caso o escravo recusasse, ele passava por uma cerimônia, na qual era colocado ao lado do batente de uma porta e sua orelha era furada. O escravo então permanecia trabalhando para seu dono até o ano do Yovel (Jubileu), que ocorria a cada 50 anos.

Mas qual o significado desta estranha cerimônia, de furar a orelha da pessoa que decidiu continuar vivendo como escravo? E por que o furo era feito justamente na orelha e não em outro órgão do corpo? Explica Rashi, comentarista da Torá, que a orelha era o local mais adequado, pois como a pessoa havia se tornado escrava por ter roubado, então o furo na orelha servia como um lembrete que dizia: "Que esta orelha, que escutou no Monte Sinai o Mandamento de "Não roubarás" e mesmo assim foi e roubou, seja agora furada".

Mas destas palavras do Rashi surgem duas perguntas. Em primeiro lugar, se o furo na orelha era uma forma de castigar o escravo por ele ter roubado, então por que o furo era feito apenas após os seis anos de escravidão, quando a pessoa decidia continuar sendo escrava, e não logo quando a pessoa havia se tornado escrava, justamente por ter roubado e não ter conseguido devolver o roubo?

Além disso, observando atentamente os 10 Mandamentos da Torá, que foram trazidos na Parashá da semana passada, Itró, percebemos algo interessante. De acordo com o Talmud (Sanhedrin 86a), o 8º Mandamento da Torá, "Não roubarás", não se refere à proibição de roubar objetos e dinheiro dos outros, e sim à proibição de sequestrar uma pessoa. A linguagem "Não roubarás" é utilizada na proibição do sequestro porque em hebraico, uma das maneiras de expressar sequestro é "Gneivat Nefesh" (roubar uma alma). Então, se nos 10 Mandamentos o "Não roubarás" se refere ao sequestro, qual a conexão com a pessoa que decidiu continuar vivendo como escravo?

Para responder estas perguntas, precisamos refletir um pouco sobre o ato de sequestro. Se a Torá chama o sequestro de "roubar uma alma", a pessoa que está sendo sequestrada está sendo roubada de quem? De seus pais? De sua esposa? De seus filhos? Quem é o verdadeiro dono de uma pessoa? Por mais que existam vínculos de sangue entre as pessoas de uma família, como entre os pais e filhos, ou vínculos "contratuais", como entre maridos e esposas, estes vínculos não fazem com que um seja dono do outro. Um pai não é dono de seu filho, um marido não é dono de sua esposa. Então de quem o sequestrado está sendo roubado?

Responde o Rav Shimon Shwab que D'us é o único e verdadeiro dono de cada pessoa. Foi Ele quem criou cada um de nós e, portanto, Ele é o dono de tudo. Quando a pessoa está sequestrada, presa no cativeiro, ela não pode servir a D'us, o seu Criador e verdadeiro Dono, da maneira correta. Por isso, o sequestro significa roubar alguém de D'us.

Com este conceito podemos então responder as perguntas anteriores. Da mesma maneira que um sequestrador rouba a pessoa de D'us ao afastá-la do seu serviço Divino, assim também se comporta aquele que, por vontade própria, quer continuar a viver como um escravo. Ele está se impedindo de servir a D'us da maneira correta e, portanto, está transgredindo o 8º Mandamento da Torá, "Não roubarás". É também por isso que a orelha do escravo era furada somente após os seis anos, e não no momento em que ele era vendido como escravo pelo Beit Din para quitar as suas dívidas, pois no momento da venda a pessoa estava se tornando escrava por força das circunstâncias, não por escolha. Mas a partir do momento em que ela já havia quitado suas dívidas e mesmo assim quis continuar na escravidão, com isso ela demonstrou que queria ser um escravo de escravos, e não um escravo de D'us. Por isto, somente neste momento sua orelha era furada, para lembrar que ela não havia escutado no Monte Sinai o Mandamento de não roubar de D'us uma de Suas almas.

Podemos aplicar este importante ensinamento em nossas vidas. Ele nos ajuda, por exemplo, a entender um pouco mais o porquê a Torá é tão contra a eutanásia, a prática de ativamente terminar com uma vida para acabar com os sofrimentos pelos quais a pessoa está passando, como um doente terminal. As pessoas a favor da eutanásia utilizam o seguinte argumento: "A vida é minha e, por isso, eu faço o que eu quiser com ela". Mas segundo o judaísmo isto não é verdade. Não somos donos da vida de ninguém, e nem mesmo da nossa própria vida, pois não somos nossos próprios criadores. Nossa vida pertence à D'us, e não está nas mãos de ninguém decidir quem merece viver ou morrer. Por mais difícil que possa estar a situação de uma pessoa, por piores que possam ser seus sofrimentos, tudo está sob a Hashgachá Prati (Supervisão particular) de D'us. Nosso intelecto não entende Seus caminhos, nosso entendimento limitado não consegue alcançar a grandeza dos pensamentos Dele. Mas sabemos que quando um filho sofre, seu pai sofre ainda mais do que ele. Assim também acontece com D'us, que sofre mais do que a pessoa que está sofrendo. E se mesmo assim Ele, o Dono da vida e da morte, entendeu que a pessoa deve continuar viva, quem somos nós para pensar o contrário?

Outro ensinamento que podemos utilizar para nossas vidas é que, apesar de atualmente não haver mais a possibilidade de uma pessoa ser vendida como escravo, o conceito de escravidão ainda existe. Se não tomamos cuidado, nos tornamos escravos do mundo material e também transgredimos o Mandamento de "Não roubarás", pois ao nos tornarmos escravos dos nossos próprios desejos, nos afastamos da nossa espiritualidade e do serviço a D'us. Pois a pior escravidão não é aquela que controla o nosso corpo, e sim aquela que controla nossa cabeça.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 21:1-24:18, Je 34:8-22, 33:25-26, Mt. 5: 38-42(Shabat Sh`kalim)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

DESTRUINDO O INIMIGO - PARASHÁ MISHPATIM 5772

"Um dos mais famosos presidentes dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, certa vez foi duramente criticado por seus opositores. O motivo das críticas era a política de boa vizinhança que ele utilizava no tratamento com seus inimigos. Durante um discurso público, ele foi duramente questionado por um jornalista:
- Senhor presidente, por que você tenta ser amigo de seus inimigos?
- O que você acha que eu deveria fazer com eles? – perguntou o presidente.
- Você deveria destruí-los – respondeu o jornalista.
- Mas não é exatamente isto o que eu estou fazendo? - respondeu o presidente, sorrindo - Toda vez que eu fico amigo de alguém que não gostava de mim, eu estou destruindo um inimigo..."
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A Parashá desta semana, Mishpatim, traz muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), que nos ensinam o quanto D'us se importa com o nosso comportamento em relação aos outros seres humanos. Na realidade, um dos maiores indicadores da grandeza de um ser humano é a maneira como ele se comporta com as outras pessoas.
Sabemos que não é fácil ser uma boa pessoa. Passar por cima de ressentimentos, saber abrir mão do que gostamos para evitar uma briga, saber perdoar quando somos ofendidos, ser extremamente cuidadosos com a honra e a propriedade dos outros. É necessário um trabalho constante para conseguir controlar nossas más características, como a raiva e o orgulho, e desenvolver nossas boas características, como a humildade e a bondade.
Será que somos realmente boas pessoas? Por exemplo, imagine uma situação em que você é ofendido em público por outra pessoa. Você fica extremamente magoado, envergonhado pelo constrangimento público que passou. Alguns dias depois, ainda com o ego machucado, você está passando pela rua e vê seu desafeto em uma situação difícil. Você conseguiria não sentir alegria ao vê-lo na pior? Você venceria seu ressentimento e iria ajudá-lo?
Há uma Mitzvá na Parashá que nos ensina o quanto estamos distante do nosso verdadeiro potencial, o quanto estamos afastados do nível que D'us espera que possamos alcançar: "E se você vir o burro de uma pessoa que você odeia caído sob sua carga, você vai deixar de ajudá-lo? Você deve ajudar com ele" (Shemot 23:5).
Mas se prestarmos atenção nos detalhes desta Mitzvá, surgem vários questionamentos. Em primeiro lugar, a Torá nos proíbe veementemente de odiar outra pessoa, como está escrito: "Não odeie seu irmão em seu coração" (Vayikrá 19:17). Então por que a Torá traz justamente o exemplo de alguém que odeia seu companheiro? Além disso, quando a Torá nos comanda a ajudar nosso inimigo, por que utiliza a linguagem "Azov", que também significa "abandone", ao invés de "Azor, que significa "ajude"? E finalmente, por que Torá utiliza uma linguagem repetida, "Azov Taazov"?
Explica o Talmud (Pessachim 113b) que o versículo está falando sobre um ódio permitido pela Torá. Que ódio permitido é este? Segundo a Torá, uma pessoa só pode ser condenada por um tribunal através do testemunho de duas pessoas. Mas se uma transgressão foi testemunhada por apenas uma pessoa, de nada adianta esta pessoa ir ao tribunal para relatar o que viu. Esta pessoa, que testemunhou sozinha uma transgressão e não pode fazer a justiça se cumprir, desperta em seu coração um ódio pelo transgressor. É este o ódio ao qual o versículo se refere, um ódio permitido, que vem da vontade de fazer justiça e de zelar pelo nome de D'us, como está escrito: "O temor a D'us é odiar o mal" (Mishlei – Provérbios 8:13). Mas se foi a Torá mesma que nos permitiu odiar esta pessoa pelo grave erro que cometeu, então por que agora a Torá nos obriga a ajudá-la?
Para aumentar ainda mais a pergunta, o Talmud (Baba Metzia 32b) explica que se há, no mesmo momento, uma pessoa necessitando de ajuda para carregar seu burro e outra necessitando de ajuda para descarregar seu burro, a prioridade é ajudar aquele que precisa descarregar seu burro, para evitar causar um sofrimento desnecessário ao animal que já terminou seu trabalho. Mas o Talmud diz que, se no mesmo momento há um burro de um inimigo necessitando de ajuda para ser carregado e um burro de um amigo necessitando ser descarregado, a Mitzvá é ajudar primeiro o inimigo a carregar seu burro, indo contra a lógica apresentada anteriormente de que o ato de descarregar um animal tem prioridade sobre o ato de carregar . O que há de tão especial na Mitzvá de ajudar um inimigo que justifica inclusive passar por cima de outras Mitzvót?
Explica o livro "Lekach Tov" que as Mitzvót foram entregues para refinar o caráter do ser humano e ajudá-lo a vencer sua má-inclinação. No caso em que existe um ódio entre duas pessoas, mesmo que é um ódio permitido pela Torá, D'us quer ensinar o ser humano a vencer as suas tendências naturais e a desenvolver seu autocontrole, mesmo em situações extremas, para assim chegar à perfeição. O propósito das Mitzvót é arrancar do coração do ser humano qualquer resquício de maldade e ajudá-lo a se purificar completamente. Portanto, neste caso a Torá isentou a pessoa de outras Mitzvót para que ela pudesse refinar seu caráter e tirar do coração o ódio que sente pelo seu inimigo.
Mesmo nos casos em que a Torá nos deu permissão de sentir ódio, a permissão é apenas de odiar o ato, mas nunca de odiar a pessoa. Porém, quando deixamos o sentimento de ódio entrar em nosso coração, abrimos a possibilidade de que este ódio se espalhe e acabe se tornando um ódio pessoal, que é proibido e muito grave. É por isso que a Torá utilizou a linguagem "Azov", pois apesar de ser um ódio permitido, apesar de termos inclusive a possibilidade de corrigir a pessoa que errou com uma bronca ou até um castigo, é melhor para nós mesmos abandonar este sentimento e tirar completamente o ódio do nosso coração. Pois da mesma forma que D'us poderia constantemente nos corrigir através de castigos, mas muitas vezes Ele aguarda com paciência e amor o nosso arrependimento, assim temos que fazer com o próximo, tentar trazê-lo de volta aos caminhos corretos com amor e não com gritos.
E por que a repetição "Azov Taazov"? A explicação mais simples é que devemos repetidamente ajudar o nosso inimigo, quantas vezes for necessário, até que seu burro readquira a firmeza para continuar sua caminhada. Mas há uma explicação um pouco mais profunda. No momento em que a pessoa tira do seu coração o ódio que sentia pelo transgressor, no Tribunal Celestial também as suas próprias transgressões são canceladas, como ensinam os nossos sábios: "Aquele que passa por cima de suas características, passam por cima de todas as suas transgressões". A linguagem repetitiva ressalta que, se tratamos com misericórdia aqueles que transgridem, assim também seremos tratados com misericórdia por D'us quando transgredirmos. Mas se formos sempre rigorosos com todos, também nosso julgamento celestial será muito rigoroso e detalhado.
Portanto, mais ódio que sentimos dos nossos inimigos de carne e osso devemos sentir do nosso verdadeiro inimigo, o Yetzer Hará (má inclinação), que tenta desviar nosso coração do trabalho espiritual de purificação que viemos fazer neste mundo. E uma das principais maneiras de derrotar o Yetzer Hará é deixando de fora qualquer sentimento negativo, como raiva e ressentimento, mesmo quando forem permitidos.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
Ex. 21:1-24:18, Reis 11:17-12:17, Mt. 17:1-11(Shabat Sh`kalim)