"Era domingo de tarde e Roberto
já estava horas na frente da televisão. Parava apenas para ir ao banheiro ou
para assaltar a geladeira entre um intervalo e outro. Completamente esparramado
no sofá, ficava com o controle remoto na mão, passando de canal em canal,
procurando algo interessante. Foi quando ele viu uma reportagem sobre pacientes
terminais que eram mantidos vivos com a ajuda de aparelhos. Chocado com as
fortes imagens da reportagem, imediatamente chamou sua esposa e disse:
-
Querida, por favor, você jura que se um dia eu estiver dependente de uma máquina
para viver, você tira ela da tomada?
- Sim, eu juro – respondeu a esposa,
depois de refletir um pouco.
Então, sem pensar duas vezes, ela
levantou-se e tirou a televisão da tomada..."
Achamos que somos livres e
independentes. Mas a verdade é que somos totalmente escravos de nossas próprias
vontades e desejos.
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Na
Parashá desta semana, Mishpatim, a Torá traz dezenas de leis "Bein Adam
Lehaveiró" (entre o homem e seu companheiro), que fazem parte do código de leis
civis do povo judeu. E o primeiro assunto tratado na Parashá é sobre um judeu
que adquire outro judeu como escravo. Nosso conceito de escravidão é totalmente
distorcido, pois a primeira ideia que nos vem à cabeça é uma pessoa com vida
miserável e trabalho pesado sob fortes e impiedosas chicotadas. Mas a visão da
Torá é completamente diferente, a ponto de o Talmud (Kidushin 22a) afirmar que
"aquele que adquire um escravo, adquire para si um dono", tamanha é a
responsabilidade que o dono deve ter com o bem estar de seu escravo. Por
exemplo, um escravo deve ser alimentado com a mesma comida que o dono da casa
come, deve ter uma boa cama para poder descansar e não pode sofrer nenhum tipo
de maus-tratos. Muito longe dos exemplos de escravidão dos livros de
história.
Como um judeu se tornava escravo de outro judeu? Uma das
maneiras era quando uma pessoa roubava algo e, ao ser presa, não tinha dinheiro
para devolver o roubo ao dono. O Beit Din (Tribunal) então tinha o poder de
vender
este ladrão como escravo, por um período de 6 anos, para arrecadar os fundos
necessários para ressarcir o dono do objeto roubado. O ladrão cumpria os seis
anos de trabalho escravo e era libertado no sétimo ano, podendo voltar à sua
vida normal, com suas dívidas do passado quitadas.
A Torá traz ainda
outro detalhe interessante. O escravo poderia decidir, ao final dos seis anos de
trabalho, que gostaria de continuar sendo escravo. O Beit Din tentava
convencê-lo a voltar para sua vida normal, como um homem livre, mas caso o
escravo recusasse, ele passava por uma cerimônia, na qual era colocado ao lado
do batente de uma porta e sua orelha era furada. O escravo então permanecia
trabalhando para seu dono até o ano do Yovel (Jubileu), que ocorria a cada 50
anos.
Mas qual o significado desta estranha cerimônia, de furar a orelha
da pessoa que decidiu continuar vivendo como escravo? E por que o furo era feito
justamente na orelha e não em outro órgão do corpo? Explica Rashi, comentarista
da Torá, que a orelha era o local mais adequado, pois como a pessoa havia se
tornado escrava por ter roubado, então o furo na orelha servia como um lembrete
que dizia: "Que esta orelha, que escutou no Monte Sinai o Mandamento de "Não
roubarás" e mesmo assim foi e roubou, seja agora furada".
Mas destas
palavras do Rashi surgem duas perguntas. Em primeiro lugar, se o furo na orelha
era uma forma de castigar o escravo por ele ter roubado, então por que o furo
era feito apenas após os seis anos de escravidão, quando a pessoa decidia
continuar sendo escrava, e não logo quando a pessoa havia se tornado escrava,
justamente por ter roubado e não ter conseguido devolver o roubo?
Além
disso, observando atentamente os 10 Mandamentos da Torá, que foram trazidos na
Parashá da semana passada, Itró, percebemos algo interessante. De acordo com o
Talmud (Sanhedrin 86a), o 8º Mandamento da Torá, "Não roubarás", não se refere à
proibição de roubar objetos e dinheiro dos outros, e sim à proibição de
sequestrar uma pessoa. A linguagem "Não roubarás" é utilizada na proibição do
sequestro porque em hebraico, uma das maneiras de expressar sequestro é "Gneivat
Nefesh" (roubar uma alma). Então, se nos 10 Mandamentos o "Não roubarás" se
refere ao sequestro, qual a conexão com a pessoa que decidiu continuar vivendo
como escravo?
Para responder estas perguntas, precisamos refletir um
pouco sobre o ato de sequestro. Se a Torá chama o sequestro de "roubar uma
alma", a pessoa que está sendo sequestrada está sendo roubada de quem? De seus
pais? De sua esposa? De seus filhos? Quem é o verdadeiro dono de uma pessoa? Por
mais que existam vínculos de sangue entre as pessoas de uma família, como entre
os pais e filhos, ou vínculos "contratuais", como entre maridos e esposas, estes
vínculos não fazem com que um seja dono do outro. Um pai não é dono de seu
filho, um marido não é dono de sua esposa. Então de quem o sequestrado está
sendo roubado?
Responde o Rav Shimon Shwab que D'us é o único e
verdadeiro dono de cada pessoa. Foi Ele quem criou cada um de nós e, portanto,
Ele é o dono de tudo. Quando a pessoa está sequestrada, presa no cativeiro, ela
não pode servir a D'us, o seu Criador e verdadeiro Dono, da maneira correta. Por
isso, o sequestro significa roubar alguém de D'us.
Com este conceito
podemos então responder as perguntas anteriores. Da mesma maneira que um
sequestrador rouba a pessoa de D'us ao afastá-la do seu serviço Divino, assim
também se comporta aquele que, por vontade própria, quer continuar a viver como
um escravo. Ele está se impedindo de servir a D'us da maneira correta e,
portanto, está transgredindo o 8º Mandamento da Torá, "Não roubarás". É também
por isso que a orelha do escravo era furada somente após os seis anos, e não no
momento em que ele era vendido como escravo pelo Beit Din para quitar as suas
dívidas, pois no momento da venda a pessoa estava se tornando escrava por força
das circunstâncias, não por escolha. Mas a partir do momento em que ela já havia
quitado suas dívidas e mesmo assim quis continuar na escravidão, com isso ela
demonstrou que queria ser um escravo de escravos, e não um escravo de D'us. Por
isto, somente neste momento sua orelha era furada, para lembrar que ela não
havia escutado no Monte Sinai o Mandamento de não roubar de D'us uma de Suas
almas.
Podemos aplicar este importante ensinamento em nossas vidas. Ele
nos ajuda, por exemplo, a entender um pouco mais o porquê a Torá é tão contra a
eutanásia, a prática de ativamente terminar com uma vida para acabar com os
sofrimentos pelos quais a pessoa está passando, como um doente terminal. As
pessoas a favor da eutanásia utilizam o seguinte argumento: "A vida é minha e,
por isso, eu faço o que eu quiser com ela". Mas segundo o judaísmo isto não é
verdade. Não somos donos da vida de ninguém, e nem mesmo da nossa própria vida,
pois não somos nossos próprios criadores. Nossa vida pertence à D'us, e não está
nas mãos de ninguém decidir quem merece viver ou morrer. Por mais difícil que
possa estar a situação de uma pessoa, por piores que possam ser seus
sofrimentos, tudo está sob a Hashgachá Prati (Supervisão particular) de D'us.
Nosso intelecto não entende Seus caminhos, nosso entendimento limitado não
consegue alcançar a grandeza dos pensamentos Dele. Mas sabemos que quando um
filho sofre, seu pai sofre ainda mais do que ele. Assim também acontece com
D'us, que sofre mais do que a pessoa que está sofrendo. E se mesmo assim Ele, o
Dono da vida e da morte, entendeu que a pessoa deve continuar viva, quem somos
nós para pensar o contrário?
Outro ensinamento que podemos utilizar para
nossas vidas é que, apesar de atualmente não haver mais a possibilidade de uma
pessoa ser vendida como escravo, o conceito de escravidão ainda existe. Se não
tomamos cuidado, nos tornamos escravos do mundo material e também transgredimos
o Mandamento de "Não roubarás", pois ao nos tornarmos escravos dos nossos
próprios desejos, nos afastamos da nossa espiritualidade e do serviço a D'us.
Pois a pior escravidão não é aquela que controla o nosso corpo, e sim aquela que
controla nossa cabeça.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 21:1-24:18, Je 34:8-22, 33:25-26, Mt. 5: 38-42(Shabat Sh`kalim)