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sexta-feira, 29 de julho de 2016

ESCUTANDO OS NOSSOS SÁBIOS - PARASHÁ PINCHÁS 5776

"Certa vez soldados do exército russo vieram até a casa do Rav Yitzchak Zev Soloveitchik zt"l (Bielorússia, 1886 - Israel, 1959), mais conhecido como Brisker Rav, intimando-o a acompanhá-los. Um soldado judeu havia sido condenado à morte por dormir durante seu período de sentinela, e que este soldado havia pedido para falar com um rabino antes de morrer. Porém, para espanto dos seus alunos e dos soldados russos, o Brisker Rav se recusou a ir falar com o prisioneiro condenado à morte.

Após algum tempo, uma segunda delegação de soldados chegou à casa do Brisker Rav, exigindo que ele se apresentasse imediatamente na prisão, sob o risco de receber um duro castigo caso se recusasse. Mas o Brisker Rav não se dobrou diante das ameaças e reafirmou que não iria. Os alunos ficaram visivelmente confusos, pois além de colocar a própria vida em risco, por que o rabino não se importava com os sofrimentos daquele pobre judeu condenado à morte? Por que não queria ir confortá-lo na prisão e ajudá-lo naqueles últimos momentos difíceis?

Foi então que uma terceira delegação de soldados bateu na porta. Porém, desta vez eles não vinham para intimar o Brisker Rav a comparecer à prisão, e sim para avisá-lo que sua presença não era mais necessária. A família daquele jovem soldado havia apelado à Suprema Corte de Justiça e a sentença de morte havia sido revogada. Quando os alunos questionaram de onde o Brisker Rav havia conseguido reunir forças para aquela atitude heroica, ele explicou:

- Eu simplesmente cumpri a Halachá (Lei Judaica). De acordo com o Rambam (Maimônides), se um judeu inocente é injustamente condenado à morte por um tribunal não judaico, é proibido a um judeu entregá-lo às autoridades para que ele seja executado, mesmo que para isso seja necessário colocar a própria vida em risco. Se eu tivesse ido à prisão, o rapaz teria sido executado tão logo eu saísse. Ao seguir a Halachá, a vida daquele jovem judeu acabou sendo salva".

Muitos ensinamentos e decretos rabínicos parecem não fazer sentido. Mas eles são os verdadeiros conhecedores da Torá, e em suas atitudes eles levam em consideração muitos detalhes que nós desconhecemos. 
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Nesta semana lemos a Parashá Pinchás, que começa descrevendo um ato heroico de Pinchás, neto de Aharon HaCohen. No final da Parashá da semana passada, os povos de Moav e Midian haviam intencionalmente causado com que o povo judeu transgredisse com imoralidades e idolatria, transgressões que D'us abomina, e uma praga começou a dizimar os judeus. Até mesmo pessoas importantes transgrediram, como o príncipe da tribo de Shimon, Zimri, que cometeu um ato público de imoralidade com uma princesa de Midian chamada Kosbi. Pinchás, tomado por um espírito de "Kanaut" (zelo pela honra de D'us), se levantou e, mesmo arriscando a vida, aplicou aos dois transgressores ilustres a pena de morte, fazendo com que a praga cessasse. O total de mortos na praga foi de vinte e quatro mil judeus, e se não fosse a intervenção de Pinchás, a tragédia teria sido ainda pior.

Este ato de Pinchás é semelhante a outro evento descrito na Torá. Quando Yaacov estava voltando para casa, depois de passar muitos anos trabalhando para seu tio Lavan, sua filha Diná foi sequestrada e violentada pelo príncipe Shechem. Dois filhos de Yaacov, Shimon e Levi, inconformados com aquele ato de desonra, quiseram aplicar a justiça ao príncipe e ao resto da população, pois haviam presenciado aquela violência e não fizeram nada. Eles bolaram um plano para enfraquecer os homens da cidade e em seguida mataram todos. Aparentemente Shimon e Levi agiram corretamente, pois estavam motivados pela mesma "Kanaut" de Pinchás, isto é, o zelo pela honra de D'us e a abominação pelos atos imorais.

Porém, o que nos chama a atenção é a diferença do desfecho nos dois casos. O ato de Pinchás agradou muito a D'us, e ele foi recompensado de uma maneira especial por ter colocado a própria vida em risco pela honra de D'us. Quando Aharon e seus filhos foram apontados como Cohanim (sacerdotes) e ungidos, somente os descendentes que nasceram daquele momento em diante se tornaram Cohanim. Mas Pinchás, neto de Aharon, já havia nascido naquele momento e, portanto, não seria Cohen, apenas Levi. D'us concedeu a Pinchás, como recompensa por seu esforço, que ele e seus descendentes se tornassem Cohanim. Já o desfecho do ato de Shimon e Levi foi que, no momento do falecimento de Yaacov, enquanto alguns dos seus filhos receberam Brachót (bênçãos), Shimon e Levi foram duramente repreendidos. Porém, se Shimon e Levi também estavam movidos pela mesma "Kanaut" de Pinchás, e também colocaram suas vidas em risco para fazer o que era correto, por que o desfecho das duas histórias foi tão diferente?

Explica o Rav Yitzchak Zilberstain shlita que a característica de "Kanaut", de agir motivado pelo zelo com a honra de D'us, exige um equilíbrio perfeito de cálculos e um nível muito grande de precisão. É necessário checar o ato de acordo com diferentes pontos de vista, e deve ser levado em consideração cada detalhe, inclusive o momento e o local em que o ato será realizado. Além disso, para uma pessoa estar apta a fazer um ato de "Kanaut", ela deve ser uma profunda conhecedora das Halachót, em especial daquelas relacionadas com seu ato, pois somente assim é garantido que seu ato está completamente de acordo com a vontade de D'us. E, finalmente, a pessoa deve refletir e checar se seu ato não está sendo influenciado por nenhum desejo ou inclinação pessoal.

Em geral, para ter certeza de que não estamos sendo parciais em nosso julgamento, é necessário o aconselhamento com um grande sábio de Torá, que pode ajudar a decidir se o ato planejado é realmente correto e aplicável. E esta foi uma das diferenças fundamentais entre o ato de Pinchás e o ato de Shimon e Levi. Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Pinchás, antes de executar seu ato de "Kanaut", se aconselhou com Moshé Rabeinu, o grande sábio da geração. Ao escutar o caso, Moshé fez todos os cálculos necessários e confirmou a Pinchás que, naquele caso e naquelas circunstâncias, aplicar a pena de morte era realmente o correto. Por isso Pinchás recebeu uma recompensa tão grande.

Já no caso de Shimon e Levi, o grande sábio da geração era seu pai, Yaacov. Porém, de acordo com Rashi, ele não foi consultado antes da execução do plano. E se Shimon e Levi tivessem se aconselhado, certamente Yaacov os teria convencido a não colocar o plano em prática, pois havia um erro no cálculo deles. Apesar da indignação de Shimon e Levi ser totalmente válida, pois a falta de justiça diante de uma desonra tão grande era algo realmente vergonhoso e imoral, eles não levaram em consideração todas as condições necessárias para fazer o ato de "Kanaut".

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), Yaacov tinha um forte motivo para que aquele ato não fosse feito, como está escrito: "E disse Yaacov para Shimon e Levi: Vocês me causaram problemas, me envergonhando diante dos habitantes da terra" (Bereshit 34:30). O Sforno explica que Yaacov estava preocupado com o "Chilul Hashem" (denegrir o Nome de D'us) que o ato de Shimon e Levi poderia causar, pois para colocar seu plano em prática, eles haviam enganado os habitantes da cidade, podendo fazer com que Yaacov, o símbolo da verdade e da retidão, fosse visto pelos outros povos como um mentiroso e enganador. Mas qual foi a enganação?

Para poder matar todos os habitantes da cidade do príncipe Shechem, Shimon e Levi bolaram um plano. Eles disseram que queriam morar junto com os habitantes, e que também aceitariam se casar entre si. Porém, com astúcia, Shimon e Levi afirmaram que havia um impedimento, pois não poderiam viver com eles como se fossem um único povo enquanto as pessoas não fizessem o Brit Milá (circuncisão). Eles garantiram que, caso todos os homens da cidade aceitassem fazer o Brit Milá, então a família de Yaacov permaneceria vivendo com eles. A verdade é que Shimon e Levi nunca tiveram a intenção de viver com eles como se fossem um povo só. Eles exigiram que os homens fizessem Brit Milá apenas para enfraquecê-los e tornar mais fácil o ato de vingança. De acordo com a Torá, o terceiro dia depois do Brit Milá é o dia em que a pessoa está mais fraca e debilitada, e foi justamente neste dia que Shimon e Levi executaram seu plano e mataram todos os habitantes, inclusive o príncipe Shechem, que havia cometido o ato de desonra com Diná.

Portanto, a grande crítica de Yaacov, e que de acordo com o seu entendimento estava acima da "Kanaut" de Shimon e Levi, é que eles não poderiam ter matado todos os habitantes depois de terem garantido a eles que, caso fizessem o Brit Milá, poderiam se unir e viver em paz com a família de Yaacov. Como eles realmente fizeram o Brit Milá, ter matado os habitantes foi uma atitude de mentira e enganação. O maior erro de Shimon e Levi foi ter garantido que viveriam com o povo do príncipe Shechem e se casariam entre si, pois eles sabiam que esta mistura e assimilação estava proibida. Estes fatores fizeram com que o ato de "Kanaut", ao invés de ter sido uma Mitzvá, acabasse sendo uma transgressão, resultando em uma merecida repreensão a Shimon e Levi. Eles ficaram tão cegos com a desonra de sua irmã que tomaram uma atitude precipitada. Apesar da grandeza deles, faltou o aconselhamento com um sábio de Torá.

Mas não é apenas um "Kanai" que precisa se aconselhar com os sábios de Torá. Cada um de nós também tem a obrigação de estar em contato com os sábios, para nos aconselharmos, escutarmos seus ensinamentos e aprendermos com seus atos. Muitas vezes tomamos decisões importantes utilizando apenas nossa lógica, mas que é muitas vezes limitada e não leva em consideração todos os aspectos necessários para uma decisão completamente equilibrada. Somos pouco conhecedores da Halachá e, portanto, suscetíveis a cometer erros por desconhecimento. Os grandes sábios de cada geração, além dos conhecimentos de Torá, ainda recebem uma "Siata Dishmaia" (ajuda especial dos Céus) para saber lidar com as questões que surgem em cada época e para vencer os desafios que se renovam.

Normalmente nossas decisões são muito influenciadas pelos nossos desejos e inclinações. Somos parciais em nossos julgamentos, e isto nos faz cometer erros em nossos cálculos. Somente nos aconselhando com alguém "de fora", que não está sob os mesmos tipos de influências, é que podemos decidir com ponderação o que é realmente o correto a se fazer em cada situação. Por isso, é muito importante ter contato com algum sábio de Torá, para nos aconselharmos nas mais diversas áreas da vida, em especial nos momentos em que fazemos escolhas que terão impactos de longo prazo.

Como na história do Brisker Rav, muitas vezes não entendemos os ensinamentos e o comportamento dos nossos sábios. Mas precisamos ter a humildade de saber que nossa dificuldade é proveniente do nosso desconhecimento da Halachá. Nossos sábios estão muito mais conectados com a espiritualidade e conhecem de maneira muito mais profunda o que D'us quer de nós. Por isso, nas decisões importantes da vida, é fundamental nos aconselharmos com um sábio de Torá se quisermos fazer o que é correto de verdade. Isto pode evitar que a pessoa cometa, de maneira equivocada, uma transgressão achando que está fazendo uma grande Mitzvá.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
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sábado, 11 de julho de 2015

ACIMA DAS MÁS INFLUÊNCIAS - PARASHÁ PINCHÁS 5775

"Reuven estava pacientemente esperando na longa fila do check-in no aeroporto. De repente, um homem simplesmente furou a fila, entrou na sua frente e ficou tranquilamente lendo um livro, como se nada tivesse acontecido. Reuven ficou extremamente irritado com aquele descaramento. Ele já estava há um bom tempo esperando e aquele homem entra no meio da fila!

Reuven teve vontade de gritar com ele, de fazer um enorme escândalo e expulsá-lo da fila. Mas decidiu trabalhar seu autocontrole e, apesar de estar com o sangue fervendo de raiva e indignação, decidiu aguentar e não falar nada. Sabia que ninguém ganha nada sendo malandro.

Porém, o teste mais difícil de Reuven ainda estava por vir. Quando chegou a vez daquele homem descarado se dirigir ao guichê, Reuven escutou o funcionário da companhia aérea falar em alto e bom som: "O senhor pegou o último assento livre do avião". O homem abriu um sorriso, e em sua cabeça certamente estava passando a ideia de o quanto havia valido a pena ter furado a fila. Reuven não estava assim tão contente. Sua irritação era visível, e a vontade que ele tinha era de pular no pescoço daquele sujeito e lhe dar uns bons tapas na cara para ensinar-lhe uma lição. Mas novamente Reuven se controlou e conseguiu manter a calma. Foi então que Reuven escutou o funcionário da companhia aérea chamando-o. Quando aproximou-se do guichê, o funcionário disse:

- Senhor, o seu voo está lotado e os assentos comuns terminaram. Por isso, estamos colocando o senhor na primeira classe, sem nenhum custo extra. Boa viagem". (História Real)

O desafio de ser honesto em um mundo tão desonesto é muito grande. Mas isto faz com que cada bom ato que fazemos se torne ainda mais especial e tenha uma recompensa maior. E acima de tudo precisamos manter a calma nestes momentos, pois existe "Hashgachá Pratid" (Supervisão Divina particular), e nenhuma malandragem terá um benefício real no final. 

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A Parashá desta semana, Pinchás, traz mais uma contagem do povo judeu. Logo depois a Torá descreve o incidente das cinco filhas de Tzlofechad. Eram cinco mulheres Tzadikót (justas), filhas de um homem que havia morrido no deserto sem deixar filhos homens. A Torá descreve que elas se levantaram e foram reclamar com Moshé, e pediram uma porção na Terra de Israel. Mas por que elas estavam reclamando, se todo o povo estava indo para Israel? E qual a conexão entre a contagem do povo e a reclamação das filhas de Tzelofechad?

De acordo com o Rav Avraham ben Meir zt"l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, a Terra de Israel seria dividida entre as tribos, e cada família receberia uma terra proporcional ao seu número de integrantes. Esta contagem do povo foi feita no final dos 40 anos de permanência no deserto, quando a entrada na Terra de Israel já estava iminente, pois estava relacionada com a divisão da terra. Como as filhas de Tzelofechad perceberam que apenas os homens haviam sido contados, elas entenderam que ficariam sem nenhuma porção. O amor delas por Israel era tão grande que elas se levantaram para reclamar com Moshé, como está escrito: "E se aproximaram as filhas de Tzlofechad... e pararam diante de Moshé e de Elazar HaCohen, e diante dos líderes e de todo o povo... e disseram: 'Nosso pai morreu no deserto... e ele não tinha filhos homens... nos dê uma parte entre os irmãos do nosso pai' " (Bamidbar 27,1-4).

Apesar de várias reclamações do povo judeu terem terminado de maneira trágica, com a morte dos reclamões, desta vez aconteceu justamente o contrário. Não apenas D'us concordou com a reclamação das filhas de Tzelofechad, dando a elas uma porção na Terra de Israel, mas também pelo mérito delas as leis de herança foram imediatamente ensinadas, e o nome destas cinco Tzadikót ficou gravado para sempre na Torá.

Mas desta explicação fica uma grande dúvida: o que as filhas de Tzelofechad fizeram para meritar algo tão grande? Afinal, o que há de especial em querer um pedaço de terra em Israel? Atualmente há milhares de judeus do mundo inteiro que sonham em voltar para Israel. Alguns vão ainda mais longe e abandonam toda a comodidade de suas vidas para efetivamente viver em Israel. Portanto, por que o ato delas foi considerado por D'us algo tão elevado?

A pergunta fica ainda mais difícil de acordo com um interessante Midrash (parte da Torá Oral), que afirma que toda pessoa correta que se levanta em uma geração que não é correta merita receber a recompensa de toda a geração. O Midrash traz alguns exemplos que já ocorreram durante a história da humanidade, como Noach (Noé), que foi contra sua geração na época do dilúvio e recebeu a recompensa de toda sua geração; Avraham Avinu, que foi contra sua geração na época da Torre de Babel e recebeu a recompensa de toda sua geração; e Lót, que foi contra as pessoas malvadas da cidade de Sdom (Sodoma) e recebeu a recompensa de toda a cidade. O Midrash termina citando as filhas de Tzelofechad, que também se levantaram contra a geração do deserto e meritaram receber a recompensa de toda aquela geração. Mas se o ato ao qual o Midrash se refere é a reclamação por uma porção na Terra de Israel, o que isto tem de tão especial para que elas meritassem receber a recompensa de toda a geração?

Encontramos a resposta ao prestarmos atenção em um pequeno detalhe, mas que faz muita diferença. Em que momento as filhas de Tzelofechad reclamaram com Moshé que queriam uma porção na Terra de Israel? Não foi quando as coisas estavam fáceis ou quando havia incentivos e ajuda financeira para quem quisesse morar em Israel. Ao contrário, o ato delas foi logo depois do povo judeu ter reclamado e dito: "Vamos fazer um líder e voltar para o Egito" (Bamidbar 14:4). O povo estava cansado de tantos anos de viagens no deserto, após muitos castigos por causa de erros cometidos pelo povo. Eles se sentiam fracassados e estavam sem vontade de continuar a jornada. Preferiam voltar ao Egito, mesmo que isto significasse voltar para a escravidão. Era um sentimento negativo contagiante, que contaminou praticamente todo o povo.

Explica o Rav Mordechai Ilan zt"l (Polônia, 1917 - Israel, 1981) que foi neste contexto que se levantaram as filhas de Tzelofechad contra toda a geração. Elas nadaram contra a correnteza turva que arrastava as pessoas para longe da vontade de D'us. A forma firme como elas se levantaram contra a tendência de todo o povo expressa a confiança plena delas de que, apesar das dificuldades, o correto era sempre seguir a vontade de D'us. Indo contra o desânimo generalizado, as filhas de Tzelofechad se levantaram com uma incrível Emuná (fé) de que D'us estava levando o povo para uma terra muito boa.

Esta atitude das filhas de Tzelofechad foi um verdadeiro "tapa na cara" do resto do povo, e elas se tornaram um modelo para a geração inteira. As pessoas pararam para refletir e perceberam como era absurdo que eles, que já tinham uma porção garantida na Terra de Israel, estavam desprezando aquele presente maravilhoso de D'us, enquanto as filhas de Tzelofechad estavam brigando por uma porção em Israel. Isto deu um novo ânimo para o resto do povo, e por isso a recompensa que elas receberam foi tão grande.

Deste evento aprendemos um fundamento espiritual muito importante. Os atos que fazemos na vida não são julgados e valorizados apenas pela sua própria essência, mas também de acordo com o nível da geração, o momento, o local e o ambiente. Nossos atos podem mudar radicalmente de acordo com estes fatores, e mesmo um ato que passaria despercebido espiritualmente em certo momento pode trazer muitos méritos em outro momento. Portanto, uma pessoa que consegue se levantar contra uma geração inteira, alguém capaz de dizer "não" à opinião geral prevalecente, automaticamente eleva muito a qualidade do seu ato. É o que a Torá nos ensina quando ressalta que "Noach era um Tzadik, um homem correto em sua geração" (Bereshit 6:9). Por que "em sua geração"? Pois comparado com Avraham, provavelmente Noach não teria sido nada, mas em sua geração, uma geração muito baixa, seus bons atos brilharam com muito mais intensidade.

Este é certamente o desafio da nossa geração. Normalmente as pessoas justificam seus maus atos com a famosa expressão "mas todo mundo também faz assim". Porém, o fato de muitas pessoas fazerem o que é errado não transforma o ato em algo correto. Ao contrário, o fato de muitas pessoas fazerem o que é errado se torna uma grande oportunidade para nos transformarmos em um modelo de boa conduta. Ser honesto já é uma importante Mitzvá, mas ela fica ainda mais especial quando é feita mesmo em um ambiente onde os governantes são corruptos, e as pessoas que criticam os governantes também não se importam em enganar os outros nos pequenos atos do dia-a-dia. Devolver troco a mais, pagar os funcionários no dia certo, não mentir a idade dos filhos para obter desconto e nunca furar filas nem andar no acostamento da estrada lotada são alguns poucos exemplos das oportunidades que temos de nos tornarmos modelos de honestidade em uma geração tão desonesta.

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21

sábado, 12 de julho de 2014

GARANTINDO A TRANSMISSÃO - PARASHÁ PINCHÁS 5774

"Marcelo, um grande investidor, foi visitar uma pequena cidade do interior, muito rústica, onde ele tinha alguns negócios. Ele foi recebido por José, um dos moradores, que foi muito hospitaleiro e lhe serviu uma xícara de chá. Mas quando Marcelo bebeu o primeiro gole, precisou cuspir tudo, de tão ruim que estava o gosto. Prestando atenção, reparou que no fundo da xícara havia areia. Muito irritado, perguntou a José se era assim que eles recebiam alguém importante naquela cidade, servindo chá com areia. José, muito envergonhado, tentou se justificar, explicando que eles não tinham na cidade um sistema de bombeamento e filtragem da água. Era preciso ir buscar água no rio, e ela vinha sempre cheia de areia. Marcelo percebeu então como aquela cidade ainda estava atrasada em termos de saneamento básico. Investiu muito dinheiro para que fosse feita uma rede de bombeamento e filtragem da água do rio.

Meses depois, Marcelo escutou que aquela pequena cidade havia sido completamente consumida pelas chamas de um grande incêndio. Inconformado, perguntou a José o que havia acontecido, e ele explicou:

- Caro Sr. Marcelo, o sistema de filtragem está começando a ser implantado, e como o reservatório de água filtrada ainda é pequeno, não havia água suficiente para apagar o fogo...

- Mas será que nesta cidade ninguém pensa? – interrompeu Marcelo, aos berros - Para fazer chá é necessário utilizar água filtrada, mas para apagar um incêndio, qualquer água serve!!!"

O Chafetz Chaim utilizava esta história para explicar que antigamente, quando a maioria do povo estava conectada à Torá e às Mitzvót, podíamos nos dar ao luxo de usar apenas água filtrada, isto é, deixar a responsabilidade da transmissão da Torá a cargo apenas dos grandes sábios de cada geração. Mas nos nossos dias, quando o fogo da assimilação e da ignorância consome o povo judeu, é responsabilidade de cada um de nós, mesmo que somos apenas "água com areia", garantir a transmissão da Torá para as futuras gerações.

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No final da Parashá desta semana, Pinchás, Moshé Rabeinu recebeu de D'us o aviso que sua morte se aproximava. Mas ao invés de pensar em suas próprias necessidades, Moshé se preocupou com o povo judeu e imediatamente pediu para que D'us apontasse um novo líder, capaz de conduzir o povo rumo à Terra de Israel. D'us apontou o dedicado aluno de Moshé, Yoshua, pois ele tinha todas as características necessárias para ser um bom líder do povo judeu.

Há um interessante Midrash (parte da Torá Oral) que detalha um pouco mais a conversa de Moshé com D'us. O Midrash afirma que Moshé pediu que seus próprios filhos fossem seus sucessores, mas D'us recusou, afirmando: "Seus filhos se sentam, mas não se ocupam com o estudo da Torá". Em relação à escolha de Yoshua, D'us afirmou: "Ele chega cedo e sai tarde do Beit Midrash (Centro de estudos de Torá), e ele arruma os bancos e cobre as mesas".

Porém, deste Midrash surgem duas grandes perguntas. Em primeiro lugar, se os filhos de Moshé não se ocupavam com o estudo da Torá, então como pode ser que Moshé tinha expectativas de que eles seriam escolhidos como sucessores dele? Será que Moshé, alguém tão preocupado com o povo, indicaria pessoas não aptas para sucedê-lo, em especial neste momento tão importante e delicado? Além disso, o Midrash afirma que D'us descartou a escolha dos filhos de Moshé por eles não se ocuparem com o estudo da Torá, mas quando D'us descreveu as qualidades de Yoshua que o faziam apto a ser o novo líder, D'us não disse que era porque ele se ocupava com o estudo da Torá, e sim pois ele chegava cedo e saía tarde para arrumar o Beit Midrash. Por que quando D'us comparou Yoshua com os filhos de Moshé, Ele mencionou características aparentemente tão diferentes?

Explica o Rav Yossef Shalom Elyashiv (Lituânia, 1910 - Israel, 2012) que certamente os filhos de Moshé eram grandes estudiosos e tinham conhecimento de Torá suficiente para se tornarem os novos líderes do povo judeu, e por isso Moshé considerava que eles eram candidatos apropriados para sucedê-lo. Porém, D'us respondeu que o fato de serem grandes estudiosos de Torá não era suficiente garantia que também seriam bons líderes. Quando D'us disse que os filhos de Moshé "se sentavam mas não se ocupavam com o estudo da Torá", não quis dizer que eles não estudavam Torá, e sim que eles estudavam somente para eles mesmos, sem se ocupar com o estudo da Torá dos outros. Para contrastar, D'us ressaltou a característica de Yoshua de arrumar o Beit Midrash, isto é, além dele estudar Torá, ele também se esforçava para arrumar o Beit Midrash, possibilitando que outras pessoas também pudessem estudar, e isto é considerado "se ocupar com o estudo da Torá". Isto nos ensina que quando não nos preocupamos com o estudo da Torá dos outros, é considerado que há algum tipo de falha no nosso próprio estudo da Torá. Mas o que isto significa?

Há uma passagem no Talmud (parte da Torá Oral) relacionada com este conceito. O Talmud (Avodá Zará 9a) afirma que o tempo de existência do mundo material foi dividido em três períodos de 2 mil anos cada. O primeiro período é chamado de "2 mil anos de nada", enquanto o segundo período é chamado de "2 mil anos de Torá". Por que estes nomes? O primeiro período recebe este nome por causa da falta de Torá no mundo, enquanto o segundo período é marcado pelo início da presença da Torá no mundo. O Talmud afirma que os "anos de Torá" tiveram início quando Avraham começou a ensinar Torá ao mundo, como ensina o versículo: "Avram pegou sua esposa Sarai e seu sobrinho Lot... e as almas que eles fizeram em Charan" (Bereshit 12:5). Estas "almas que eles fizerem" referem-se aos idólatras que Avraham havia conseguido trazer de volta aos caminhos de D'us.

Mas nossos sábios afirmam que muito antes de Avraham, grandes pessoas como Adam Harishon, além de Noach e seus descendentes, Shem e Ever, já estudavam Torá. Então por que o Talmud afirma que a época dos "2 mil anos de Torá" começou apenas com Avraham Avinu? Pois Avraham fez algo que nenhum dos ilustres antecessores fez: ele não apenas estudou Torá, mas também ensinou Torá aos outros, inclusive para pessoas que haviam se desviado do caminho de D'us e praticavam idolatria, ajudando-os assim a voltar ao caminho correto. Portanto, vemos do Talmud que a época de "2 mil anos de Torá" somente se iniciou quando a Torá passou a também ser ensinada aos outros.

Porém, qual a conexão entre esta característica de ensinar Torá com o pré-requisito para ser um líder do povo? Por que não é suficiente ser apenas um grande estudioso de Torá? A resposta está em outro ensinamento do Talmud (Sanhedrin 99a), que afirma que o versículo "Pois ele desprezou a palavra de D'us e quebrou Seu mandamento, esta alma certamente será cortada, e seu pecado está sobre ele" (Bamidbar 15:31) refere-se a várias transgressões graves, como negar D'us ou negar a divindade da Torá. O Talmud inclui mais uma transgressão ao qual o versículo se refere: "aquele que estuda Torá e não ensina aos outros".

Mas por que esta rigorosidade apenas pelo fato da pessoa ter estudado e não ter ensinado outras pessoas? Explica o Rabino Yossef Chaim (Iraque, 1832 - 1909), mais conhecido como Ben Ish Chai, que o Talmud é severo com aquele que estuda e não ensina aos outros pois a Torá é eterna, e este caráter eterno é preservado pela transmissão dos seus ensinamentos de uma geração para a próxima geração. Portanto, aquele que estuda e não assume o peso da responsabilidade de ensinar o próximo está prejudicando, com as próprias mãos, a natureza eterna da Torá, pois toda a Torá que ele estudar ficará apenas com ele e não será passada para a próxima geração. O Talmud refere-se de uma maneira tão dura àquele que estuda e não ensina pois, se dependesse dele, a Torá não seria passada para a próxima geração. Portanto, o líder do povo judeu tem também este papel de assegurar que a transmissão esteja ocorrendo de forma correta, preservando a natureza eterna da Torá. Foi neste ponto que os filhos de Moshé, apesar de serem pessoas espiritualmente muito grandes, falharam.

Quando ensinamos Torá aos outros, não estamos fazendo apenas um Chessed (bondade) com os outros, é acima de tudo um Chessed que fazemos conosco, pois isto nos ajuda a desenvolver nossa apreciação pelo caráter eterno da Torá e nos dá o mérito de fazermos parte nesta importante missão de transmitir a Torá para as futuras gerações. Como foi enfatizado pelo Chafetz Chaim, não precisamos ser grandes sábios para sentirmos o peso da responsabilidade, cada judeu tem a obrigação e o mérito de fazer parte desta corrente ininterrupta de transmissão, que se iniciou no Monte Sinai e certamente chegará até a época da vinda do Mashiach.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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sexta-feira, 28 de junho de 2013

CANALIZANDO NOSSAS FORÇAS - PARASHÁ PINCHAS 5773

 
"O Sr. James era um daqueles ingleses que levavam o futebol a sério. Torcedor fanático, ele estava acompanhando atentamente a participação da Inglaterra na Copa do Mundo. A Inglaterra havia chegado às quartas de final, e o Sr. James acreditava que o título viria naquele ano. O jogo começou, e ficava a cada instante mais tenso. Para o desespero do Sr. James, a Inglaterra tomou um gol no final do jogo, deixando a situação ainda mais difícil. O Sr. James não conseguia acreditar quando o juiz finalmente apitou o final do jogo, decretando mais uma vez a desclassificação da seleção inglesa. Não podia ser verdade, simplesmente não podia. Em um impulso descontrolado, o Sr. James se levantou e deu um chute tão violento na televisão que arrebentou a tela toda.

Algumas horas depois, quando o fervor já havia passado, ele percebeu a besteira que havia feito e ficou desesperado. Ele havia arrebentado sua única televisão! Em pânico, ligou para uma empresa autorizada que fazia manutenção de televisões, explicou o caso e solicitou a visita urgente de um técnico. Do outro lado da linha, o atendente explicou que a visita somente poderia acontecer dentro de três dias. Quando o Sr. James, indignado, perguntou o motivo de tanta demora, o atendente respondeu calmamente:

- O Sr. não foi o único que destruiu a sua televisão após o jogo. Estamos tão saturados de chamadas que temos trabalho agendado para todos os nossos técnicos nos próximos três dias..." (História Real)

A impulsividade pode ser uma característica muito negativa. Se não for canalizada, pode deixar consequências indesejáveis, que nem sempre podem ser consertadas depois.

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Na Parashá desta semana, Pinchás, a Torá traz o desfecho da história que começou no final da Parashá passada, quando Zimri, o líder da tribo de Shimon, fez um grande "Chilul Hashem", denegrindo o nome de D'us ao cometer uma grande imoralidade em público, de forma desafiadora, ignorando até mesmo a presença de Moshé Rabeinu. D'us mandou uma grande praga sobre o povo judeu, na qual 24 mil pessoas morreram. A praga somente parou quando Pinchás, neto de Aharon HaCohen, da tribo de Levi, se levantou contra a imoralidade de Zimri e o matou. E D'us recompensou Pinchás por seu ato heroico, como está escrito: "Portanto diga a ele que Eu lhe dei o Meu pacto de paz" (Bamidbar 25:12). Mas por que um ato tão violento como o de Pinchás foi recompensado justamente com um "pacto de paz"?

É interessante perceber que as duas tribos envolvidas neste acontecimento, Shimon e Levi, tem algo em comum, que vem desde os tempos do nosso patriarca Yaacov. Quando Diná, a filha de Yaacov, foi sequestrada e violada pelo príncipe Shechem, os filhos de Yaacov bolaram um plano para resgatá-la, convencendo o povo de Shechem a fazer Brit Milá com intenção de enfraquecê-los. Mas Shimon e Levi tinham outros planos, eles não queriam apenas enfraquecer o povo para resgatar Diná. No terceiro dia depois do Brit Milá, no qual as pessoas ficam mais debilitadas, eles mataram todos os habitantes da cidade, por considerarem todos coniventes com o sequestro e a violação de sua irmã Diná. Mesmo quando Yaacov demonstrou profunda irritação com o ato impulsivo dos dois filhos, que poderia ter causado um ataque dos povos vizinhos e a destruição de Yaacov e seus filhos, eles se defenderam, argumentando: "Nossa irmã deve ser tratada como uma prostituta?" (Bereshit 34,31).

Anos mais tarde, antes de seu falecimento, Yaacov deu Brachót (Bençãos) para todos os seus filhos. Mas Shimon e Levi foram duramente repreendidos por Yaacov, justamente por sua impulsividade. E, entre outras palavras, assim Yaacov disse para eles: "Eu vou separá-los em Yaacov e dispersá-los em Israel" (Bereshit 49:7). O entendimento mais simples destas palavras de Yaacov é que ele queria separar os irmãos Shimon e Levi para que eles não cometessem mais nenhum ato impulsivo de violência. Mas Rashi, comentarista da Torá, dá outra explicação para estas palavras de Yaacov. Ele explica que Yaacov estava determinando que as tribos de Shimon e Levi futuramente seriam escribas e professores de crianças, e se espalhariam por toda a terra de Israel, viajando de cidade em cidade e mantendo a transmissão ininterrupta da Torá.

Mas por que justamente as tribos de Shimon e Levi seriam os transmissores da Torá? A impulsividade deles não era algo negativo? E qual a relação destas palavras de Yaacov com o evento ocorrido entre Pinchás, da tribo de Levi, e Zimri, da tribo de Shimon? Por que desta vez eles estavam em lados opostos?

Explica o Rav Yaacov Kamenetzki que Yaacov percebeu em seus dois filhos, Shimon e Levi, uma qualidade que seus irmãos não tinham. Quando eles destruíram a cidade de Shechem, eles demonstraram estar dispostos a colocar suas próprias vidas em risco para defender a honra de sua irmã. Todos os filhos de Yaacov tinham visto o que havia ocorrido, mas apenas Shimon e Levi sentiram a dor de sua irmã como se fosse sua própria dor. E esta capacidade de sentir a dor do próximo foi o que os levou a esta impulsividade, este fervor sem limites, cuja única forma de acalmar os ânimos foi através da destruição de toda a cidade de Shechem. Yaacov percebeu que esta força impulsiva de Shimon e Levi poderia ser utilizada de maneira positiva, em benefício do povo judeu. Ele entendeu que somente alguém que naturalmente sente a dor do próximo como se fosse sua própria dor, a ponto de abrir mão de seu conforto em prol do próximo, poderia ser capaz de abrir mão de sua comodidade e viajar, de cidade em cidade, transmitindo a Torá ao povo judeu.

Mas então o que deu errado? Por que as tribos de Shimon e Levi se "reencontraram" na geração do deserto, porém em situações opostas? Explicam nossos sábios que a palavra "Midót", que significa "traços de caráter", também significa "medidas". Por que? Pois não existe nenhum traço de caráter que é totalmente bom ou totalmente ruim, depende de como ele é utilizado, para onde é canalizado. É como o sal, que não é bom nem ruim, depende da medida em que é utilizado. Por exemplo, muito sal estraga a comida, enquanto pouco sal deixa a comida sem gosto. O ideal é sal na medida certa, que ressalta o gosto dos alimentos. Assim também acontece com nossas características, todas devem ser canalizadas para poderem ser utilizadas na medida correta.

Apesar dos dois irmãos, Shimon e Levi, terem transmitido aos seus descendentes esta característica de impulsividade, as diferenças começaram a surgir após o primeiro exílio do povo judeu, quando Yaacov e seus filhos desceram ao Egito. Enquanto a tribo de Levi nunca abandonou o estudo da Torá, e justamente por isso nunca foi escravizada, a tribo de Shimon passou pelos horrores da pesada escravidão no Egito. O tempo em que se dedicou ao estudo da Torá permitiu que a tribo de Levi internalizasse esta característica de impulsividade e fervor explosivo e canalizasse para coisas positivas e construtivas. Já a tribo de Shimon, que não teve esta oportunidade espiritual, canalizou esta característica para o lado negativo. Zimri utilizou a impulsividade de forma negativa, para desafiar Moshé Rabeinu e D'us em um ato público de imoralidade. Já Pinchás utilizou sua impulsividade para fazer a vontade de D'us. Mesmo sendo através de um ato de violência, Pinchás reestabeleceu a paz entre o povo judeu e D'us, terminando com a terrível praga que dizimava o povo. E a recompensa que Pinchas recebeu de D'us, o "pacto de paz", demonstra o quanto sua atitude agradou a D'us. Por um lado era uma atitude impulsiva, mas por outro lado havia sido canalizada para fazer o que era correto e cumprir a vontade de D'us.

Fica desta Parashá um ensinamento importante para nossas vidas. Não existe nenhuma característica intrinsecamente boa ou mal, tudo depende de como vamos canalizá-la. É verdade que existem características com certa tendência positiva, como o altruísmo, e características com certa tendência negativa, como a impulsividade. Mas mesmo as piores características que D'us colocou dentro de nós podem ser utilizadas para servi-Lo, enquanto mesmo as melhores características, sem o direcionamento correto, podem ser desastrosas. D'us nos deu a Torá, o nosso "Manual de Instruções", para nos ensinar como utilizar todas as forças e potenciais contidos dentro de cada ser humano. Quanto mais nos aprofundarmos no conhecimento e no cumprimento da Torá, melhor utilizaremos as nossas forças e potenciais, chegando ao nível de que todos os nossos atos possam ser um grande "Kidush Hashem" (santificação do nome de D'us).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21, Jo. 2:13-22

sábado, 14 de julho de 2012

ATINGINDO SEU PRÓPRIO POTENCIAL - PARASHÁ PINCHÁS 5772

"Eduardo foi convidado para participar de uma corrida. Era uma competição diferente, e Eduardo ficou sabendo de apenas algumas poucas informações: a data e o local da corrida, o valor do prêmio milionário que o vencedor receberia e que o outro competidor seria Rafael, um velho conhecido seu. As demais regras seriam divulgadas apenas no dia da competição, o que deixou Eduardo muito ansioso.
Quando finalmente chegou o dia marcado, Eduardo chegou ao local combinado. A competição seria uma corrida de 3 horas por uma estrada onde não havia limites de velocidade. Os organizadores então trouxeram para Rafael um lindo carro esportivo, com as mais modernas tecnologias. Eduardo ficou imaginando que receberia um carro igual, mas foi com grande surpresa que ele viu os organizadores trazendo para ele, nada mais e nada menos do que... uma bicicleta. Seria uma piada? Será que ele estava participando de um daqueles programas humorísticos de "câmera oculta"? Enquanto o outro competidor havia recebido um carro esportivo, ele havia recebido uma bicicleta, e ainda por cima sem marchas! Eduardo ficou muito decepcionado, aquela competição parecia muito injusta. Como ele poderia, com uma bicicleta, competir contra um carro?
A corrida começou e, apesar do desânimo, Eduardo deu o melhor de si. Ele pedalava com vontade e se esforçava, principalmente nas subidas, mas por mais que tentasse, não chegava nem perto de Rafael. Não que Rafael estivesse fazendo muito esforço, ao contrário, apesar de poder voar a quase 300 km/h, ele passeava tranquilamente, aproveitava para tomar sol e escutar Rock no seu aparelho de som digital. O tempo passava, Eduardo pingava de suor e seus músculos doíam, enquanto Rafael estava tranquilo, sentado no seu carro, com o ar condicionado ligado. Como Rafael viu que era muito mais rápido que Eduardo, não se preocupou em acelerar. Foi tranquilo, fez inclusive uma parada para cochilar e aproveitou para telefonar para seus amigos para contar sobre a sua grande sorte.
Após 3 horas de prova, Eduardo estava acabado. Apesar do esforço, havia conseguido completar apenas 90 km do percurso, enquanto Rafael, tranquilo, havia completado 100 km. Rafael já festejava por dentro, estava com um grande sorriso no rosto. Porém, o sorriso desapareceu quando os juízes anunciaram que Eduardo era o vencedor. Agora era Eduardo quem sorria. As dores musculares já não incomodavam mais, todo o esforço tinha valido a pena, ele era milionário! Rafael, inconformado, foi tirar satisfações com um dos organizadores:
- Escute aqui, eu venci, pois eu andei mais. Ele andou apenas 90 Km, enquanto eu andei 100 Km. Eu mereço receber o prêmio!
- É verdade que você andou mais – disse o organizador – mas quem falou que este era o requisito para a vitória? Você acha que se fosse este o requisito, seria justo você receber um carro esportivo e o outro competidor receber apenas uma bicicleta? Você não percebeu esta aparente "injustiça"?
- Na verdade – continuou o organizador - o vencedor foi aquele que melhor aproveitou o potencial do que lhe foi oferecido. O Eduardo recebeu uma bicicleta e andou com ela 90 Km. Como o máximo que ele poderia ter andado seria 100 km, ele aproveitou 90% do seu potencial. Mas você, que recebeu um carro possante, poderia ter andado quase 1.000 km com ele, mas como andou apenas 100 km, aproveitou só 10% do seu potencial. É verdade que você, no total, andou mais do que ele. Mas do seu enorme potencial, você não aproveitou quase nada, enquanto ele, com um potencial muito menor, aproveitou quase tudo. O Eduardo é o vencedor, pois a corrida não era um contra o outro, era cada um contra si mesmo."
Assim D'us também julga nossos atos. Ele não leva em consideração até onde cada um chegou, mas quanto cada um aproveitou em relação ao seu próprio potencial.
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Na Parashá desta semana, Pinchás, a Torá escreve em sequência dois assuntos aparentemente desconectados. Após terem cometido muitas transgressões durante os 40 anos no deserto e terem recebido castigos tão duros de D'us, o povo judeu estava desmotivado de entrar em Israel. Muitos estavam tão desanimados que preferiam até mesmo voltar para o Egito. Neste contexto vieram as cinco filhas de um homem chamado Tzlofechad reclamar que elas também queriam um pedaço de terra em Israel. Qual era o motivo da reclamação delas? Quando elas viram que D'us havia pedido uma nova contagem do povo antes da entrada em Israel, entenderam que aquele número era para fazer a divisão das terras entre as famílias que havia em cada tribo. Mas elas perceberam que apenas os homens foram contados, e então entenderam que a divisão das terras seria feita apenas de acordo com a quantidade de homens em cada família. Mas o pai delas, Tzlofechad, havia morrido sem deixar filhos homens e, portanto, elas não teriam direito a nenhuma terra, por isso foram reclamar. D'us gostou desta reclamação, pois demonstrou a vontade que elas tinham de ir para Israel, contrastando com o desânimo do resto do povo. Imediatamente a Torá ensinou as leis de herança, com os detalhes de como os bens deveriam ser passados para os filhos e parentes depois da morte dos pais.
Logo depois deste evento a Torá traz outro assunto. Moshé, avisado que sua morte estava iminente, pediu para D'us um novo líder para o povo, como está escrito: "Que nomeie Hashem, D'us dos espíritos de toda a carne, um homem sobre a congregação" (Bamidbar 27:16). Qual a conexão entre estes dois assuntos aparentemente tão distintos, a herança passada dos pais para os filhos e a escolha de um novo líder?
Explica Rashi, comentarista da Torá, que quando Moshé viu que D'us havia ensinado para o povo as leis de herança, isto é, que os filhos herdam o que era de seus pais, ele sentiu que era o momento de fazer um pedido pessoal para D'us. Ele pediu para que seus dois filhos, Guershom e Eliezer, também herdassem sua grandeza e se tornassem os próximos líderes do povo judeu. Porém, vemos que D'us não escutou o pedido de Moshé, pois logo depois está escrito "E disse D'us para Moshé: Pegue Yoshua bin Nun, um homem que está repleto de espírito (de sabedoria), e apoie suas mãos sobre ele" (Bamidbar 27:18). Isto quer dizer que D'us pessoalmente escolheu Yoshua, e não os filhos de Moshé, como o próximo líder do povo judeu. Mas qual o motivo desta escolha de D'us? O mais lógico não seria Moshé ter passado a liderança para seus filhos, como fizeram futuramente a maioria dos reis, que passaram o trono para seus descendentes? Então por que os filhos de Moshé não foram os escolhidos?
Há um Midrash (parte da Torá Oral) que traz uma resposta surpreendente. O Midrash diz que os filhos de Moshé não foram os escolhidos pois não sentavam para estudar Torá. Já Yoshua, ao contrário, não saía da tenda de estudos e se dedicava ao máximo para adquirir sabedoria de seu mestre Moshé. Mas como entender este Midrash? Moshé se importava demais com o povo, e comprovou isto durante toda sua vida, ao se dedicar de corpo e alma às necessidades do povo antes mesmo de pensar em suas próprias necessidades. Então como ele pode ter pensado em pedir para D'us que nomeasse como líderes do povo seus filhos, se eram pessoas que não estudavam Torá? Ele não sabia o quanto era importante que o novo líder tivesse muita sabedoria para ser também um juiz e um professor para o povo? Ele deixou que subisse à sua cabeça a vontade de que seus filhos herdassem seu posto de liderança, mesmo eles não sendo aptos para isso?
Explica o livro Lekach Tov que existe uma grande diferença entre o mundo material e o mundo espiritual em relação a quanto o esforço influencia no valor de algo realizado ou produzido. No mundo material, o valor das coisas não leva em consideração os esforços envolvidos, o que importa são apenas os resultados. Por exemplo, se um artesão habilidoso leva um dia para fabricar um vaso, enquanto outro artesão menos habilidoso leva 3 dias e precisa de muito mais esforço e dedicação, quando os dois vasos estão prontos, eles têm no mercado exatamente o mesmo valor. Isto quer dizer que todo o esforço e a dificuldade envolvidos na fabricação do vaso não são levados em consideração. Mais do que isso, se uma pessoa passa o dia inteiro criando e digitando uma matéria para ser publicada no jornal, mas no momento de salvar o arquivo fica corrompido e não pode mais ser aberto, quanto vale o que a pessoa fez e todo o esforço que ela despendeu? Absolutamente nada.
Porém, não é isto que ocorre no mundo espiritual. O valor de cada ato espiritual, como o cumprimento de uma Mitzvá ou o estudo da Torá, não leva em consideração apenas o resultado, mas também todo o esforço envolvido. Quanto maior a dificuldade, maior o valor do ato, como nos ensina a última Mishná do Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "De acordo com a dificuldade, assim é a recompensa". Isto quer dizer que mesmo se duas pessoas cumprirem exatamente a mesma Mitzvá, mas uma delas cumprir com facilidade enquanto a outra cumprir com muita dificuldade e esforço, apesar do resultado ter sido o mesmo, o valor da Mitzvá é completamente diferente para cada pessoa. Para aquele que se esforçou mais, o valor de sua Mitzvá é muito maior.
Com este conceito podemos entender o ensinamento do Midrash. Certamente Moshé não era um irresponsável, nunca indicaria com líder alguém que não tivesse capacidade para isso. A verdade é que, em termos de nível espiritual e de conhecimento da Torá, os filhos de Moshé eram tão grandes quanto Yoshua. Mas o problema é que eles tinham um potencial de crescimento ainda maior do que o de Yoshua, eles poderiam ter chegado ainda mais alto. O que aconteceu? Eles desperdiçaram seu potencial, pois não utilizaram todas as suas forças e aptidões. Se tivessem se esforçado mais, teriam chegado muito mais alto do que Yoshua.
Quando o Midrash diz que eles não estudaram Torá, não quer dizer que não estudaram nada e não tinham conhecimento. O Midrash quer nos ensinar que eles não atingiram seus verdadeiros potenciais espirituais e, por isso, comparado com nível que poderiam ter chegado, é como se não tivessem estudado. Eles perderam para sempre a oportunidade de serem os líderes do povo judeu. Já Yoshua, ao contrário, apesar de ter menos aptidões do que os filhos de Moshé, utilizou seu potencial no limite. Ele madrugava para ir para a tenda de estudos, passava o dia inteiro próximo de Moshé, absorvendo seus conhecimentos, e só voltava para casa tarde da noite. Seu amor pela Torá e pelos conhecimentos era tão grande que era ele quem organizava a tenda de estudos no final do dia, arrumando as mesas, cadeiras e livros. Por isso foi ele, e não os filhos de Moshé, o escolhido para ser o sucessor na liderança do povo.
Este conceito espiritual pode ser aplicado também em outras áreas da vida e nos ajuda a responder uma das grandes perguntas filosóficas. Olhamos para o mundo e vemos muitas desigualdades. Enquanto alguns nascem em famílias abastadas, outros passam por dificuldades e privações. Enquanto alguns nascem fortes e saudáveis, outros nascem fracos e doentes. Por que há tanta desigualdade no mundo? Por que uma pessoa nasce milionária e pode doar milhões, enquanto outra nasce pobre e pode doar apenas alguns trocados? Por que uma pessoa nasce saudável e pode caminhar sem dificuldade para a sinagoga, enquanto outra precisa ir de muletas ou em uma cadeira de rodas. Onde está a justiça de D'us?
A resposta é que, pelo fato de D'us não medir as Mitzvót pelo resultado e sim pelo esforço, as dificuldades se transformam em oportunidades. Aquela pessoa pobre, que doa com esforço apenas alguns reais, uma quantia significativo para suas poucas possibilidades, seu ato vale aos olhos de D'us como se ele tivesse doado uma soma muito grande de dinheiro. Aquele que vai para a sinagoga com dificuldade, cada passo vale muito mais, cada palavra de sua reza tem muito mais força.
Yoshua nunca invejou os filhos de Moshé por eles terem mais aptidões, e no final vemos que foi ele o escolhido para liderar o povo judeu. Da mesma maneira, não devemos invejar se os outros têm mais dinheiro ou mais aptidões. A inveja é uma tolice, pois recebemos de D'us exatamente as ferramentas necessárias para cumprir nosso papel espiritual no mundo, nada a mais e nada a menos. Devemos lembrar sempre que a corrida verdadeira da vida não é contra os outros, é contra nós mesmos.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm

Nm. 25:10-29:40, Jr 1:1-2:3; Jo. 2:13-25 (1ª Haft. da Afli., Dibrei Yirmeyahu)