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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O QUE ESTÁ FALTANDO? - PARASHÁ DEVARIM E TISHÁ BE AV 5776

"Em uma época na qual os judeus eram proibidos de exercer trabalhos tradicionais, Moishe, um ator judeu desempregado, estava desesperado à procura de um trabalho. Foi quando ele viu, no cantinho do jornal, um pequeno e muito discreto anúncio. Um macaco, a principal atração do zoológico local, tinha morrido, e o zoológico estava procurando um ator para substituí-lo. Eles não queriam substituí-lo por outro macaco, pois as pessoas pagavam para ver suas palhaçadas originais, o que nenhum outro macaco faria. O zoológico não havia nem anunciado publicamente que o macaco tinha morrido por medo de perder visitantes.

Moishe fez o teste, foi contratado e fez um trabalho fantástico como macaco. Nenhum dos visitantes suspeitou que se tratava de um homem fantasiado. Moishe estava tão à vontade em seu papel que, com o passar do tempo, começou realmente a achar que era um macaco. Porém, certo dia, durante uma apresentação, Moishe se balançou forte demais em uma corda e saiu voando por cima da jaula, em direção à jaula do leão. Ele caiu a meio metro de distância de um leão com dentes muito afiados. Paralisado de medo, o susto fez com que Moishe "acordasse" e lembrasse que ele não era um macaco. Mas a única coisa que conseguiu fazer foi gritar "Shema Israel". O leão olhou para ele e respondeu "Hashem Elokeinu, Hashem Echad". Moishe reconheceu aquela voz. Curioso, ele perguntou:

- Shimi, é você?
- Sim, sou eu. É você, Moishe?
Antes que Moishe pudesse responder, a zebra na jaula ao lado sussurrou:
- Ei, pessoal, falem baixo ou todos nós perderemos nossos empregos..."

Vivemos em uma época de tanta confusão espiritual que não sabemos nem mesmo quem somos de verdade e qual é o nosso papel no mundo. Infelizmente perdemos nossa identidade e nos assimilamos. Então algumas vezes D'us precisa nos chacoalhar, para nos despertar do nosso sono espiritual. 
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, que consiste basicamente do discurso de despedida de Moshé antes da entrada do povo judeu em Israel. Este discurso é fortemente marcado por duras críticas de Moshé, que fez questão de relembrar muitos dos graves erros que o povo cometeu durante os 40 anos em que permaneceu no deserto. A intenção da bronca de Moshé era fazer o povo refletir sobre os erros passados e aprender com eles, evitando repeti-los no futuro. E este é um dos motivos que a Parashá Devarim sempre coincide com uma das datas mais tristes do judaísmo, Tishá Be Av, que neste ano começa logo após o término do Shabat. Tishá Be Av é um dia de jejum e luto, no qual recordamos, entre outras grandes tragédias, a destruição dos nossos dois Templos Sagrados. Como as broncas de Moshé, a essência de Tishá Be Av também é despertar os judeus, levando-os a refletir sobre as transgressões que nós e nossos antepassados cometemos. Porém, será que entendemos realmente o que significa a perda do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado)? Conseguimos sentir de verdade sua falta em nossas vidas?

Ao contrário de muitas gerações passadas, vivemos em uma época de muito conforto. Apesar do antissemitismo venenoso da mídia mundial, vivemos em uma época na qual não sofremos perseguições e podemos cumprir nosso judaísmo sem precisar nos esconder. Além disso, temos uma incrível abundância de alimentos e outros tipos de prazer. Vivemos em uma era tecnológica na qual tudo ficou mais fácil: horas de fila nos bancos foram substituídas por aplicativos de celular; viagens cruzando o oceano, que duravam meses, agora duram apenas horas; e o ato de cozinhar, que significava ficar horas diante de um fogão a lenha, agora se resume a apertar um botão do microondas.

Porém, com tudo mais fácil e abundante, sentimos que no fundo ainda falta alguma coisa. Pode ser uma confusão em relação aos nossos objetivos e a direção que nossa vida deve tomar, outras vezes é uma sensação de que ainda não conseguimos realmente atingir o nosso potencial, ou simplesmente um vazio incômodo, uma sensação de que a vida poderia e deveria oferecer mais. Um exemplo disso é a "crise da meia idade", uma época na qual as pessoas começam a procurar respostas e normalmente não as encontram. Porém, muito antes da meia idade, este sentimento de vazio já começa a borbulhar dentro de nós, indicando que há algo errado ou faltando. Mas vamos ignorando este sentimento, deixando para depois. Somente quando a velhice se aproxima e nossa condição mortal é forçadamente recordada, este sentimento aflora com toda a sua força, causando depressão e desânimo. Mas o que está faltando, se temos vidas com tanto conforto e abundância? Por que não nos sentimos completos mesmo tendo tudo?

Há mais de dois mil anos o povo judeu tinha o Beit Hamikdash em Jerusalém, que constantemente nos recordava quem somos, qual é a nossa verdadeira importância e para onde estamos indo. O Beit Hamikdash era nossa verdadeira "bússola espiritual" e, apesar de ser uma construção física, era um conceito e uma realidade espiritual, uma manifestação física da conexão do povo judeu com D'us. Quando os judeus trazem moralidade e verdade ao mundo, que são características Divinas, então D'us traz Sua presença para este mundo. O próprio comando da Torá sobre a construção do Mishkan (Templo Móvel) reforça o conceito da conexão de D'us com cada judeu: "E façam para Mim um Santuário, e Eu morarei dentro deles" (Shemot 25:8). Não está escrito que D'us morará dentro do Santuário, e sim dentro do coração de cada pessoa que quiser estar conectada a Ele.

Além disso, nossos sábios ensinam que o Beit Hamikdash foi construído em um lugar muito especial, onde a criação do mundo começou. É o mesmo lugar em que Adam e Chavá (Adão e Eva) foram criados. Este também foi o lugar para onde Avraham levou seu filho para ser sacrificado para D'us, e onde Yaacov sonhou com uma escada que chegava até o Céu, na qual subiam e desciam anjos. De acordo com as fontes místicas, este é o lugar onde o Céu e a terra literalmente se tocam. Por isso, era justamente neste lugar que entendíamos quem nós éramos, e podíamos nos conectar ao nosso verdadeiro "eu".

O Midrash (parte da Torá Oral) compara Israel a um olho, Jerusalém à sua pupila, e o Beit Hamikdash a um reflexo na pupila. O Midrash está identificando a Terra de Israel, Jerusalém e o Beit Hamikdash como lugares nos quais podemos alcançar níveis maiores de entendimento e iluminação espiritual. Mas por que a comparação do Beit Hamikdash com um reflexo no olho? Explica o Rav Simcha Barnett que há duas maneiras de ver nosso próprio reflexo em um olho. Uma maneira é através de um espelho, e outra maneira é olhando nos olhos de outra pessoa. Isto representa como o Beit Hamikdash ajudava o povo judeu a viver da maneira correta. O Beit Hamikdash era um espelho para onde podíamos olhar e enxergar a nós mesmos, e nos ajudava a entender quem éramos de verdade. Este espelho nos mostrava que fomos criados à imagem e semelhança de D'us, e nos motivava a viver de acordo com isso. E através desta claridade de quem éramos, estávamos prontos a perceber a Divindade que também havia em cada indivíduo, do mais simples ao mais importante. Podíamos olhar nos olhos dos outros e enxergar neles um pouco nós mesmos, e este reconhecimento permitiu o ponto de início da união verdadeira do povo judeu.

Mas quando nos afastamos das características Divinas, D'us também se afasta de nós. Uma das consequências de D'us se afastar do mundo é a perda do lugar onde Sua presença se manifestava. Quando o Beit Hamikdash foi destruído, o povo judeu ficou literalmente à deriva em um mar escuro e tempestuoso, como pouca orientação e estabilidade. A base de toda a alienação e da baixa autoestima que vemos atualmente no mundo tem sua raiz na destruição do Beit Hamikdash, e mais especificamente por termos "mandado D'us para o exílio" quando fomos exilados por causa das nossas transgressões. Quando uma pessoa verdadeiramente sabe e percebe que foi criado à imagem e semelhança de D'us, ela tem uma autoestima intrínseca. Nossos inimigos nunca conseguiram roubar nossa dignidade e nobreza, pois o judeu sempre soube que sua essência estava conectada a uma verdade que está acima da opressão dos outros povos. Porém, esta claridade já não existe mais.

Talvez seja até mesmo irônico pensar que vivemos em uma geração com poucas dificuldades físicas, e na qual não sofremos perseguições ou proibições de colocar em prática nosso judaísmo, e ao mesmo tempo somos uma geração completamente alienada, na qual perdemos a noção de quem somos de verdade. Esta angústia existencial que sentimos é consequência direta da destruição do Beit Hamikdash. O Beit Hamikdash era um lugar cuja luz deveria brilhar e iluminar o mundo inteiro. Os judeus têm a enorme responsabilidade de se tornar uma luz para as nações. Não podemos evitar nem tentar fugir do nosso destino, pois D'us nos deu uma força que é completamente desproporcional ao nosso número reduzido. É fácil perceber o quanto os judeus se sobressaem em todas as áreas, estão sempre na "linha de frente" da humanidade. Mas é uma pena que, sem nossa "bússola espiritual", sem um direcionamento, este tremendo potencial acaba não sendo utilizado da maneira correta.

Somos os mensageiros de D'us para transmitir ao mundo uma mensagem significativa. Temos a responsabilidade de transmitir ao mundo valores como a dignidade do indivíduo, a justiça, a caridade e a paz, que darão ao mundo uma direção. Porém, o que acontece quando os mensageiros se perdem, deixam de entender a importância de sua mensagem e esquecem até mesmo que estão "sob contrato" com D'us? O que fazer quando a alienação é tanta que invertemos completamente nossa missão, a ponto de, ao invés de ensinar ao mundo nossos valores, nós é que estamos absorvendo e nos comportando com os valores do mundo?

Em Tishá Be Av devemos nos esforçar para sentir a dor de estarmos alienados, como indivíduos e como um povo. Em Tishá Be Av o remédio para nossa situação é através das lágrimas. O Talmud (Taanit 30b) afirma que aquele que chora lágrimas sinceras em Tishá Be Av terá o mérito de ver a reconstrução do Beit Hamikdash. Devemos chorar pelo povo judeu como um todo, que se desviou do caminho. Por nossos amigos e familiares que nunca puderam experimentar a santidade de um Shabat, a doçura do estudo da Torá ou uma vida de Mitzvót. E, principalmente, devemos chorar por nós mesmos, pois poderíamos e deveríamos esperar muito mais da nossa vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
DEUTERONÔMIO 1:1-3:22, Is.1:1-27

sábado, 25 de julho de 2015

JULGANDO COM JUSTIÇA - PARASHÁ DEVARIM 5775

 
Avraham, um jovem estudante de Torá, mudou-se para uma Yeshivá de Israel onde iria estudar. Logo no primeiro dia, na reza da manhã, ele percebeu que um dos alunos da Yeshivá começou a tirar seu Tefilin antes do final da reza e depois correu em direção ao refeitório. Avraham ficou irritado com aquela demonstração de descaso com a Tefilá (reza). Ficou imaginando que o rapaz era alguém sem autocontrole, cujo desejo pela comida não o permitia esperar até o final da Tefilá, como os outros alunos.

Avraham terminou sua Tefilá, pensando em como ele era Tzadik (Justo) e como aquele outro aluno era egoísta e descontrolado. Ele tirou seu Tefilin e foi para o refeitório tomar o seu café da manhã. Foi então que Avraham viu o rapaz que havia saído antes do final da Tefilá. Ele estava dentro da cozinha, vestindo um avental e voluntariamente ajudando a preparar o café da manhã dos outros alunos da Yeshivá. Depois Avraham soube que todos os dias aquele rapaz terminava sua Tefilá correndo, justamente para poder fazer Chessed (bondade) com os outros alunos.

Avraham entendeu que havia julgado aquele rapaz de forma precipitada. Pois na verdade, o rapaz era uma pessoa muito altruísta, enquanto na verdade o verdadeiro egoísta era ele mesmo. 
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Na Parashá desta semana, Devarim, Moshé começou a relembrar muitos dos momentos vividos pelo povo judeu durante os 40 anos no deserto, e criticou duramente o povo por muitos dos graves erros cometidos. E logo depois do Shabat começa Tishá Be Av, o dia mais triste do ano, no qual choramos ao relembrar as grandes tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a nossa história, como a destruição dos dois Templos Sagrados e a expulsão dos judeus da Espanha e Portugal em 1492. Em geral, Tishá Be Av cai junto com a Parashá Devarim. Qual é a conexão entre os dois?

Um dos pontos que Moshé relembrou foi como era pesado para ele julgar sozinho todo o povo, e a solução sugerida por seu sogro, Itró, de apontar pessoas retas e íntegras do povo como juízes, que o auxiliariam nos casos mais simples. Moshé também relembrou as instruções que ele passou aos juízes escolhidos: "Escutem entre os seus irmãos, e julguem com justiça" (Devarim 1:16). Mas estas palavras de Moshé precisam de explicação, pois por que dizer aos juízes que eles deviam escutar as partes envolvidas antes de dar o veredicto final, se era algo óbvio? Além disso, por que o versículo diz "escutem entre os seus irmãos" e não simplesmente "escutem seus irmãos"? E finalmente, por que era necessário Moshé ressaltar aos juízes que eles deveriam sempre julgar com justiça e retidão, se o papel de um juiz é justamente ser alguém justo e reto para definir quem tem a razão?

Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Moshé estava exigindo dos juízes que eles fossem extremamente cuidadosos em cada julgamento, e mesmo que vários casos similares já tivessem sido julgados por aquele tribunal, eles não deveriam julgar de forma precipitada. Esta é a fonte da primeira Mishá do Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Sejam cautelosos no julgamento" (1:1). Aparentemente esta Mishná nos ensina que cada situação tem nuances que podem afetar e resultado do julgamento, e por isso cada caso deve ser analisado com cuidado.

Apesar deste ensinamento de Moshé também se aplicar para casos criminais, ele está escrito em um contexto de casos civis, pois foi utilizada a linguagem "entre os seus irmãos", isto é, em casos onde há algum tipo de disputa. Porém, o ensinamento de "sejam cautelosos no julgamento" deveria ter sido ensinado em um caso criminal. Um veredicto equivocado em um caso civil, como a disputa por um bem material, pode ser facilmente revertido se o Beit Din (Tribunal Rabínico) identificar o erro. Mas um erro do Beit Din no julgamento de um crime pode ter consequências muito mais graves e, portanto, neste caso o Beit Din deveria ser muito mais cuidadoso. Então por que o ensinamento é em um contexto civil e não criminal? E, além disso, se é tão importante ser uma pessoa ponderada e cautelosa nos nossos atos, por que a Torá não aplica esta exigência também a outros profissionais, como os médicos, cuja falta de cautela pode resultar na perda de uma vida?

Explica o Rav Yohanan Zweig que, no mundo empresarial, a grande maioria das disputas civis não ocorre entre indivíduos que sempre mantiveram um relacionamento conflituoso, pois neste caso as duas partes tentam deixar bem claro quais serão as medidas tomadas caso surjam situações indesejadas e tomam as precauções necessárias para evitar maus entendidos. As disputas costumam ocorrer justamente quando há um elemento de confiança entre as partes, e por causa desta confiança, muitos detalhes técnicos, como recibos e contratos, acabam sendo deixados de lado, abrindo brechas para desentendimentos e dúvidas.
Quando a confiança inicial é quebrada e inicia-se uma disputa, cada uma das partes tem uma percepção subjetiva da realidade, e por isso cada um percebe os fatos de acordo com as suas próprias predisposições e tendências. Nos casos em que esta disputa não pode ser resolvida sem a ajuda do Beit Din, então os juízes devem estar cientes que cada pessoa está aderindo às suas percepções distorcidas e está completamente relutante em enxergar a percepção da outra parte envolvida, fato que dificulta a reconciliação. E pelo fato de nenhuma das duas percepções representarem a realidade objetiva, então é responsabilidade dos juízes verificar e encontrar a verdade objetiva a partir das duas opiniões subjetivas dos litigantes.

Este conceito nos ajuda a entender um intrigante ensinamento dos nossos sábios: "Quando os litigantes estiverem diante de você, considere ambos como culpados, mas quando eles partirem de você, considere ambos como inocentes" (Pirkei Avót 1:8). O Pirkei Avót não está indo contra o conceito de que a pessoa deve ser considerada inocente até que provem a sua culpa. Mas no momento da argumentação, o juiz deve ver os litigantes como se fossem culpados, pois certamente cada um deles está apresentando a sua percepção distorcida dos fatos, e é obrigação do juiz não acreditar cegamente nas palavras de nenhum dos litigantes sem verificá-las bem. É justamente isto o que Moshé estava transmitindo aos juízes. Um juiz tem que tomar muito cuidado para julgar de maneira correta. Nunca dois casos são iguais, pois cada pessoa entende as coisas de acordo com a sua própria perspectiva, e determinar a verdade objetiva a partir das argumentações subjetivas dos litigantes exige muita cautela. Por isso os casos civis, onde há disputas entre dois litigantes, exige mais cuidado até mesmo do que casos criminais.

Por que a Torá se preocupou somente em ensinar este conceito aos juízes e não aos médicos? Pois ao contrário do juiz, o maior colaborador do médico para chegar a um diagnóstico correto e preciso é o próprio paciente. Baseado nas reclamações do paciente, nos sintomas e nas dores que ele relata, o médico consegue chegar ao diagnóstico da enfermidade. Já os litigantes têm um relacionamento conflituoso com o juiz, pois o juiz está buscando a verdade objetiva, enquanto os litigantes estão oferecendo uma percepção subjetiva da realidade. Por isso é um grande feito quando um juiz consegue ter sucesso e se proteger das enganações dos litigantes. É por causa desta grande dificuldade que a Torá sentiu a necessidade de ordenar aos juízes que eles se protejam, na busca pela verdade, contra as enganações e visões subjetivas do caso.

Qual a conexão com Tishá Be Av? Esquecemos que não apenas os juízes fazem julgamentos. Cada um de nós, no nosso dia a dia, também está constantemente julgando as outras pessoas. E da mesma maneira que os juízes devem ser cautelosos e ponderados nos julgamentos de disputas civis ou na elucidação de casos criminais, nós também devemos ser muito cuidadosos com a maneira como julgamos os outros. Normalmente somos muito apressados em julgar e rotular as pessoas de maneira negativa, por pequenas atitudes que elas fizeram que pareciam erradas aos nossos olhos.

Ensinam os nossos sábios que o Primeiro Templo Sagrado foi destruído por que o povo judeu estava praticando as três transgressões mais graves: idolatria, relações ilícitas e assassinato. Mas após a destruição do Templo e o exílio do povo judeu, eles se arrependeram e consertaram seus graves erros, e em 70 anos o Templo foi reconstruído. Porém, o Segundo Templo Sagrado foi destruído pelo ódio gratuito e por causa do Lashon Hará (maledicência) que havia dentro do povo judeu. Infelizmente já se passaram mais de dois mil anos e não tivemos ainda o mérito de reconstruir o Templo Sagrado. Isto significa que, mesmo após tanto tempo, ainda não conseguimos consertar estes erros tão graves.

Por que é tão difícil não falar Lashon Hará? Pois o Lashon Hará é uma consequência direta de não julgarmos as pessoas de forma positiva e favorável. Falamos Lashon Hará porque consideramos que nós estamos sempre certos e aqueles que discordam de nós estão sempre errados. Falamos Lashon Hará pois consideramos que a nossa forma de viver é a perfeita e ideal, e portanto todo aquele que é mais rigoroso do que nós é visto como um fanático, enquanto aquele que é menos rigoroso do que nós é desleixado. Falamos Lashon Hará pois não damos aos outros o benefício da dúvida, da mesma maneira que gostaríamos que os outros dessem quando nós cometemos algum erro. Por exemplo, quando alguém chega atrasado a uma reunião, imediatamente é visto como um irresponsável, enquanto quando nós chegamos atrasados, esperamos que as pessoas sejam compreensivas e entendam que o trânsito estava caótico.

Pensamos que tragédias somente podem ocorrer quando juízes erram nos julgamentos de casos criminais. Mas Tishá Be Av é um lembrete constante de que os erros de julgamento no nosso dia a dia podem ser ainda mais trágicos.

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
DEUTERONÔMIO 1:1-3:22

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

AS PALAVRAS E O SILÊNCIO - PARASHÁ DEVARIM E TISHÁ BE AV 5774

 
"Certa vez, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que despertou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse seu sonho. O adivinho, assustado, exclamou que aquele sonho significava uma grande desgraça, pois cada dente caído representava o sofrimento pela perda de um parente. O sultão ficou enfurecido, achando uma grande insolência daquele adivinho. Chamou os guardas e ordenou que lhe dessem cem chicotadas. Não contente com o que havia escutado, o sultão ordenou que fosse trazido outro adivinho e lhe contou sobre o sonho. Este, após ouvir o sultão com atenção, disse-lhe:

- Magnífico sonho, senhor. É o sinal de que uma grande felicidade está reservada para você. O sonho significa que você terá uma vida muito longa, mais longa do que todos os seus parentes.

A fisionomia do sultão iluminou-se num sorriso, e ele mandou dar cem moedas de ouro a este adivinho. Quando o adivinho saía do palácio, um dos guardas do sultão lhe disse, admirado:

- Não é possível! A interpretação que você fez foi exatamente a mesma do seu colega. Por que ao primeiro adivinho ele deu cem chicotadas, e a você ele deu cem moedas de ouro?

- Aprenda uma lição importante - respondeu o adivinho. Na vida não importa apenas o que dizemos, mas também como dizemos..."

Um dos grandes desafios do ser humano é aprender a arte de comunicar-se. Da comunicação depende, muitas vezes, a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra.

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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, também chamado de "Mishnê Torá" (repetição da Torá), pois o livro inteiro traz o discurso de despedida de Moshé antes de sua morte, no qual ele relembrou os principais acontecimentos dos 40 anos do povo judeu no deserto. E na Parashá da semana, Devarim, Moshé relembrou um dos momentos mais trágicos do povo judeu. No primeiro ano após a saída do Egito, o povo judeu já se aproximava de Israel e finalmente poderia entrar na terra sagrada que havia sido prometida a eles por D'us desde a época dos nossos patriarcas, Avraham, Yitzchak e Yaacov. Mas o povo, ao invés de confiar na palavra de D'us, decidiu enviar espiões para verificar se a terra era realmente boa. Dos 12 espiões enviados, 10 voltaram falando mal da terra e convenceram o povo de que era impossível conquistá-la. O povo chorou durante toda aquela noite, deixando D'us irritado com a falta de confiança. Conforme nos ensina o Talmud (Taanit 29a), D'us disse para o povo: "Vocês choraram sem motivo. Portanto, Eu fixarei esta noite como uma noite de choro para as futuras gerações". Esta noite era Tishá Be Av (dia 9 do mês judaico de Av), um dos dias mais tristes do ano, data na qual as palavras de D'us se cumpriram e várias tragédias atingiram o povo judeu em diferentes gerações, como a destruição dos nossos dois Templos Sagrados e a expulsão dos judeus da Espanha e de Portugal em 1492.

O erro dos espiões custou caro ao povo judeu. Toda aquela geração, cerca de 600 mil homens, recebeu o duro decreto de não entrar na Terra de Israel. O povo judeu teve que permanecer 40 anos no deserto, até que toda aquela geração morresse e uma nova geração pudesse entrar em Israel. Rashi (França, 1040 - 1105) nos conta que o castigo dos espiões foi ainda mais duro. Eles sofreram uma morte terrível e estranha: suas línguas se alongaram e chegaram até os seus umbigos, e vermes saíam de suas línguas e entraram em seus umbigos. Rashi explica que esta morte foi "Midá Keneged Midá" (medida por medida), pois o erro deles havia sido o mau uso da língua. Mas como a língua chegar até o umbigo refletia o erro cometido pelos espiões?

Tishá Be Av é um dia de luto nacional do povo judeu. Quando uma pessoa está enlutada, ela fica em silêncio. Inclusive, de acordo com a Halachá (Lei judaica), é proibido começar uma conversa com alguém que está enlutado. Devemos permanecer em silêncio na presença de um enlutado, deixando para ele a opção de vir conversar caso tenha vontade. Tishá Be Av também é um dia de silêncio, pois a fala teve uma participação muito grande no erro dos espiões e, consequentemente, na destruição dos dois Templos Sagrados. O silêncio de Tishá Be Av é parte do conserto do erro cuja raiz foi o mau uso da fala. Nossos sábios ressaltam a importância do silêncio: "Todos os meus dias eu cresci entre os sábios e não encontrei nada melhor para o corpo do que o silêncio" (Pirkei Avót 1:17). Mas por que a Mishná do Pirkei Avót descreve que o silêncio é bom especificamente ao corpo?

Há outro ensinamento interessante no Talmud em relação ao silêncio. O Talmud (Meguilá 18a) afirma: "Se a palavra vale uma moeda, o silêncio vale duas moedas". Mas o que o Talmud está acrescentado ao que já foi ensinado na Mishná de Pirkei Avót? Além disso, por que Talmud utiliza esta proporção de que o silêncio vale o dobro do que as palavras? Isto não contradiz o ensinamento do Pirkei Avót, que aparentemente descreve que os benefícios do silêncio são muitas vezes maiores do que os benefícios da fala?

Há ainda um questionamento sobre o poder da fala que está relacionado com a criação do ser humano, como está descrito: "E Ele (D'us) soprou em suas narinas a alma da vida, e o homem se tornou uma alma viva" (Bereshit 2:7). Unkelos, o sábio que traduziu a Torá para o aramaico, traduz "alma viva" como "alma falante", ressaltando que o poder da fala é o que diferencia o ser humano de todas as outras criaturas. Porém, várias fontes da Torá mencionam pessoas que tinham a capacidade de entender a língua dos animais. Isto significa que todas as criaturas também têm a capacidade de se comunicar. Portanto, o que é tão único e especial no poder da fala do ser humano?

Responde o Rav Yohanan Zweig que há duas fontes de onde se origina a fala do ser humano. A fala pode ser uma verbalização de um pensamento intelectual, ou uma reação visceral, instintiva, que reflete nossos desejos físicos e emoções. Todas as formas de vida têm a capacidade de transmitir suas necessidades e expressar seus desejos físicos através de sons, mas o ser humano é a única criatura capaz de conceber ideias e articular estes pensamentos através da fala.

Estas duas formas de expressão do ser humano estão constantemente em conflito entre si. É a mente do ser humano que controla sua fala, ou é o seu corpo? Esta luta fica mais evidente naqueles momentos em que o ser humano tem o impulso de reagir verbalmente, mas sua mente diz que antes de falar é necessário considerar as consequências de suas palavras. Portanto, o silêncio é um sinal de controle, em especial quando relacionado à forma de fala visceral e instintiva, quando o silêncio é um reflexo do controle do impulso físico. Quando a Mishná do Pirkei Avót diz que "não há nada melhor para o corpo do que o silêncio", está exaltando justamente este silêncio, que indica o controle dos impulsos físicos do corpo.

Frequentemente a fala é utilizada no lugar de ações físicas, sendo um dos principais exemplos disso o "Lashon Hará" (fala difamatória). Uma das provas de que a fala muitas vezes substitui os atos físicos está em uma das maldições trazidas na Torá: "Maldito aquele que golpeia seu companheiro secretamente" (Devarim 27:24). Rashi explica que esta maldição se refere àquele que faz Lashon Hará de seu companheiro. Apesar de o Lashon Hará ter uma natureza apenas verbal, acaba se tornando um canal sofisticado através do qual o difamador pode golpear sua vítima. E como o Lashon Hará reflete a falta de controle da pessoa sobre o seu corpo, o castigo que ela recebia era a Tzaráat, uma doença que atacava o transgressor com manchas no corpo.

Foi exatamente esta a mensagem que D'us quis transmitir com a forma através da qual os espiões morreram. Quando queremos expressar uma reação instintiva, utilizamos a palavra "viceral", cuja raiz é "víceras", os nossos órgãos internos mais moles, em especial aqueles contidos na cavidade abdominal. A língua dos espiões chegando até o umbigo e os vermes saindo da boca e entrando no umbigo são uma alusão à forma de fala pelas quais eles eram culpados: a fala que sai do estômago, não da cabeça.

O Talmud (Sanhedrin 39a) descreve o ser humano como sendo uma fusão de duas entidades: a mente e o corpo. Uma pessoa cujo corpo reage de uma maneira espontânea, sem limites, é considerada como se tivesse apenas uma única entidade, pois nestas circunstâncias a mente não traz muito benefício para ela. Mas se a mente da pessoa consegue controlar seu corpo, então este é um indivíduo verdadeiramente composto pelas duas entidades. É este o ensinamento transmitido pela Mishná quando exalta o silêncio. "A palavra vale uma moeda" se refere a uma pessoa cujo corpo controla sua fala e, portanto, é como se fosse uma única entidade, enquanto "o silêncio vale duas moedas" se refere ao silêncio que reflete o domínio da mente sobre o corpo, como se fossem duas entidades.

Na próxima 2a feira de noite (4 de agosto) será Tishá Be Av. É um dia de tristeza, mas também é um dia de muita reflexão. Que erros estamos cometendo que nos fazem continuar neste exílio tão longo e sofrido? Quais são as transgressões que nos fazem ter que sofrer acusações antissemitas de todas as partes do mundo, simplesmente quando tentamos nos defender de ataques terroristas? Certamente, se fizermos uma análise verdadeira e autocrítica, perceberemos como o Lashon Hará é parte integrante de nossas vidas. Não estudamos o suficiente para conhecer todas as leis relacionadas com a fala, não nos esforçamos o suficiente para controlar nosso instinto quando temos vontade de falar algo proibido, e infelizmente não nos preocupamos com as consequências, físicas e espirituais, do mau uso da nossa fala.

Que neste Tishá Be Av possamos despertar e consertar nossos erros, em especial o Lashon Hará, para que neste ano seja, se D'us quiser, o nosso último Tishá Be Av de choro e tristeza.

"Uma pessoa sábia reflete antes de falar; uma pessoa tola fala, e então reflete sobre aquilo que disse"

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

DEUTERONÔMIO 1:1-3:22, Is.1:1-27
Tsom Tishá BeAv
9 de Av (Destruição do Templo)
Dt. 4:25-40, Je 8:13-9:23

sexta-feira, 27 de julho de 2012

LÁGRIMAS DO CORAÇÃO - PARASHÁ DEVARIM E TISHÁ BE AV 5772

“Quando o Campo de Concentração de Buchenwald foi libertado pelos aliados, todas as crianças órfãs sobreviventes foram levadas para um orfanato em Ecouis, um pequeno vilarejo da França, onde receberam muitos cuidados e carinho da comunidade judaica local. Havia no orfanato um total de 500 crianças e jovens que não tinham mais ninguém no mundo. Certa vez organizaram uma homenagem pública aos órfãos, onde estariam presentes muitas personalidades locais, entre eles o comandante da polícia, o comandante militar e o prefeito. Os órfãos não quiseram ir, pois sabiam que aquela homenagem era apenas por interesse das autoridades de fazer propaganda diante da mídia. Mas a responsável pelo orfanato, a Sra. Rachel Mintz, insistiu para que todos fossem, e os rapazes concordaram em comparecer, mas decidiram que não aplaudiriam e nem mesmo levantariam seus olhos do chão quando as personalidades discursassem.
E assim foi. 500 jovens escutaram os discursos de cabeça baixa, sem demonstrar nenhuma emoção. Até que subiu para discursar o último convidado. Era um senhor judeu que havia se salvado de Aushwitz, mas tinha perdido a esposa e todos os filhos. Desde sua libertação, ele havia dedicado todos os seus bens aos órfãos. Ele tentou começar seu discurso, mas as lágrimas embargaram sua voz. Tentou mais uma vez, mas ele tremia muito e as palavras não saíam. Finalmente conseguiu dizer apenas 3 palavras em Ídishe: “Filhos, queridos filhos”. Aqueles órfãos eram tudo o que havia lhe restado na vida.
Os órfãos então levantaram pela primeira vez seus olhos. Cada um começou, sem querer demonstrar a emoção, a enxugar as lágrimas com a manga da camisa, olhando com vergonha para o lado para ver se alguém tinha percebido aquela pequena lágrima escorrendo. E então, de repente, rompeu-se a barreira. De uma só vez abriram-se as comportas, e aqueles 500 jovens choraram um choro sincero e libertador.
Em meio ao choro, levantou-se um jovem chamado Aharon Feldberg, de 25 anos, um dos mais velhos do grupo, e dirigiu-se aos visitantes:
- Gostaria de dizer algumas palavras. Desejo, em nome de todos, agradecer a todos vocês. Não por terem vindo, pois não queríamos esta visita. Não pelos presentes que nos trouxeram, pois não estamos interessados neles. Queremos lhes agradecer pelo maior presente que recebemos de vocês há alguns instantes, que foi a possibilidade de voltar a chorar.
O rapaz, visivelmente emocionado, continuou seu discurso:
- Quando os nazistas levaram meu pai e minha mãe, eu não chorei. Eu estava seco de lágrimas. Quando diversas vezes me golpearam no Campo de Concentração, eu mordi os lábios e não chorei. Há anos não rio e não choro. Passamos fome, congelamos de frio, sangramos, mas não choramos. Desde a libertação do Campo, e ainda antes dela, eu andava com a sensação de que não sou mais uma pessoa normal. Achava que eu não tinha coração, que não conseguiria chorar nos momentos em que é preciso chorar. Achei que eu tinha uma pedra no peito e não um coração humano. Assim eu pensava até 5 minutos atrás, mas não penso mais. Agora eu chorei, e bastante, e lhes digo, que quem é capaz de chorar, poderá amanhã também rir e se alegrar. E é por isto que eu lhes agradeço”
Esta história real, retirada do livro “Lúlek”, uma biografia do rabino Israel Meir Lau, nos ensina que através das lágrimas sinceras, um dia chegaremos à alegria e consolo verdadeiros.
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, também conhecido como “Mishnê Torá”, cuja tradução literal é “Repetição da Torá”. Por que este “apelido”? Pois grande parte do livro contém o discurso de despedida de Moshé Rabeinu antes de seu falecimento. Para que o povo judeu aprendesse com o passado, tanto com os acertos quanto com os erros, Moshé relembrou muitos dos acontecimentos marcantes nos 40 anos em que o povo permaneceu no deserto.
Esta “revisão” feita por Moshé foi certamente importante para a geração do deserto, pois foi uma preparação para a entrada em Israel. Mas para que serve esta “revisão” para nós, mais de 3 mil anos depois? Se quisermos rever algum acontecimento, podemos simplesmente abrir a Torá na passagem que nos interessa e ler novamente. Então para nós, qual a importância do livro de Devarim?
A resposta é que, apesar de conter repetições, o livro de Devarim também traz muitas novidades. Em primeiro lugar, são ensinadas muitas Mitzvót novas, que ainda não haviam sido ensinadas antes. Além disso, quando a Torá repete os acontecimentos, acrescenta detalhes que ajudam a entender e a se aprofundar em alguns conceitos. É o que acontece, por exemplo, na Parashá desta semana, Devarim, que nos ajuda a entender melhor um dos eventos mais marcantes para o povo judeu: o pecado dos espiões.
Na Parashá Shelach, no livro de Bamidbar, a Torá descreve que o povo judeu, ainda no primeiro ano no deserto, se aproximava da terra de Israel. Ao invés de confiar na promessa de D’us, que havia garantido que a terra era boa e fértil e que eles teriam sucesso em conquistá-la, o povo pediu para enviar espiões. A consequência foi trágica, pois dos 12 espiões enviados, 10 voltaram falando mal da terra, causando uma histeria coletiva e um choro de desespero. D’us então jurou: “Hoje vocês choraram sem motivo. Este dia será fixado como um dia de choro para todas as gerações”. Este dia era Tishá Be Av, o nono dia do mês judaico de Av.
No próximo sábado de noite (28/07), assim que terminar o Shabat, é Tishá Be Av, um dia marcado por tristezas e sofrimentos. Neste dia, conforme D’us havia jurado, terríveis tragédias atingiram o povo judeu, desde as épocas bíblicas até os nossos dias. Exatamente neste dia nossos dois Templos Sagrados foram destruídos, fomos expulsos da Inglaterra, Espanha e Portugal, e foi o dia em que se iniciou a Primeira Guerra Mundial. Também a queda do primeiro avião da companhia aérea israelense El Al aconteceu justamente em Tishá Be Av. Neste dia nós jejuamos e nos abstemos de vários tipos de prazer, como relações maritais, usar sapatos de couro, tomar banho ou passar óleo no corpo. Será que há algo que podemos fazer para mudar este dia tão triste e consertar o erro dos nossos antepassados?
A Parashá Devarim é sempre lida na semana em que cai Tishá Be Av. Um dos motivos é que nesta Parashá Moshé relembra o erro do povo de ter chorado após o relato dos espiões, acrescentando alguns detalhes que nos ajudam a entender um pouco melhor qual foi o erro. A Torá diz que os judeus se desesperaram com as palavras dos espiões, que disseram que os habitantes de Israel eram gigantes e seria impossível derrotá-los. O povo então disse para Moshé: “Com ódio D’us nos tirou do Egito, para nos entregar nas mãos dos Emoritas para nos destruir” (Devarim 1:27). O que significam estas palavras? Por que os judeus achavam que D’us sentia ódio deles?
Explica o Sforno, comentarista da Torá, que o povo judeu pensou que D’us estava bravo por causa da idolatria que eles fizeram enquanto ainda viviam no Egito e que Ele, por causa deste ódio, mesmo tendo poder para esmagar os Emoritas, castigaria o povo judeu entregando-o nas mãos de seus inimigos. Por isso eles choraram tão amargamente.
Mas desta explicação do Sforno surge uma grande pergunta. Segundo suas palavras, o choro do povo judeu foi um choro de arrependimento por um erro cometido, isto é, um choro positivo, uma demonstração de temor a D’us. Então por que nossos sábios dizem que este foi um choro em vão, e que resultou em todas as catástrofes que nos atingem até hoje?
Responde o Rav Eliahu Dessler que realmente a motivação original do povo judeu era proveniente de uma fonte pura de temor a D’us. Porém, o Yetzer Hará (má inclinação) conseguiu misturar neles a falta de Bitachon (confiança em D’us), o que pode ser visto no final do versículo: “Não podemos subir contra eles (os habitantes da terra), pois eles são mais fortes do que nós” (Bamidbar 13:31). Rashi explica que a intenção da frase era também incluir D’us, isto é, o povo começou a acreditar que os habitantes da terra eram fortes demais até mesmo para D’us. O choro, uma demonstração de sofrimento interno, foi consequência da falta de Bitachon, causando uma rápida deterioração espiritual que os levou a se desconectar de D’us.
O conceito de “destruição do Beit Hamikdash (Templo Sagrado)” pode ocorrer em dois níveis: coletivo e individual. O Beit Hamikdash era o lugar onde a presença de D’us repousava. Quando ele foi destruído, os portões celestiais se fecharam e a Presença de D’us se ocultou, como se Ele estivesse em exílio. Há um paralelo com o coração de cada judeu. Existe uma faísca sagrada escondida dentro do coração de cada judeu, como se fosse a Presença de D’us. Esta faísca não pode ser apagada nunca, por mais assimilada e afastada que a pessoa possa estar. Mas quando a pessoa começa a cometer transgressões e a se impurificar, ela cria uma muralha de ferro entre esta faísca sagrada e o seu “eu” exterior. Isto causa um “exílio espiritual interno”, quando a espiritualidade, que deveria estar revelada e brilhando, está escondida e obscurecida. Quando isto ocorre com a maioria do povo, então é como se a presença de D’us tivesse se afastado de nós. É um momento crítico, onde se aproxima uma situação de extermínio espiritual. Foi nesta situação em que ocorreu a destruição dos nossos dois Templos Sagrados, isto é, o exílio espiritual interno causou o exílio espiritual externo.
Infelizmente hoje já não sentimos mais a perda do Beit Hamikdash e nem a falta da espiritualidade em nossas vidas. Aquele que não sente este vazio espiritual é porque já tem dentro de si um “exílio espiritual”, isto é, uma muralha bloqueando seu coração. Mas ao contrário, se a pessoa consegue sentir este vazio espiritual e sofre até o ponto de chorar, um choro verdadeiro e sincero, significa que percebeu a ausência de espiritualidade e conseguiu abrir uma brecha na muralha para começar a consertar o vazio do seu coração.
Por todas as tragédias que ocorreram neste dia, vemos Tishá Be Av de uma maneira negativa, queremos que esta data de luto e tristeza passe rápido. Mas temos que saber que o dia de Tishá Be Av é uma grande oportunidade de despertar espiritual. Quando D’us fixou um choro para todas as gerações, não foi um choro de castigo, e sim um choro de renovação, um choro de conserto espiritual. Quando conseguimos refletir e internalizar nossa perda espiritual, o choro vem automaticamente, sem a necessidade de nenhuma intervenção externa. Mas se não paramos para refletir, então D’us precisa nos mandar sofrimentos e dificuldades externas, para que elas nos causem motivos que nos façam sofrer pela perda da espiritualidade do nosso coração. Este choro, mesmo que causado por fatores externos, é o caminho para a redenção, tanto pessoal quanto do povo judeu como um todo.
Por que o conserto precisa vir através de lágrimas? Pelo fato de todo o problema ser algo interno, então necessariamente o conserto também deve ser de caráter interno. O Talmud (Brachót 32a) diz que quando o Beit Hamikdash foi destruído, todos os portões celestiais se fecharam, com exceção do Portão das lágrimas. Com a mesma intensidade que a pessoa se esforçar para abrir seu coração, assim serão abertos para ela os portões celestiais.
Portanto, quando nos abstemos dos prazeres em Tishá Be Av, junto com a leitura do Livro de Kinót (Lamentações), que nos ajuda a construir em nossas cabeças uma imagem real da destruição do Beit Hamikdash, é possível despertar e chegar ao choro verdadeiro, que sai do coração. E esta é a raiz do conserto interno, que nos ajuda a revelar a espiritualidade que estava escondida e obscurecida.
O que mais nos impressiona é poder perceber a mão de D’us nos acompanhando em todas as gerações. Os vários acontecimentos históricos que ocorreram justamente em Tishá Be Av, apesar de terem sido trágicos, nos ajudam a perceber que é apenas a mão de D’us que guia todos os acontecimentos, mesmo nos momentos de sofrimento. Se o Rei Fernando e a Rainha Isabel, que nos expulsaram de Portugal e Espanha, soubessem quanta Emuná (fé) eles plantaram no coração do povo judeu ao expulsá-los justamente em Tishá Be Av, certamente teriam se arrependido de seu ato.
A nossa preparação para Tishá Be Av é entender pelo que precisamos sofrer e para onde este sofrimento deve nos levar. Em geral a tristeza é um sentimento perigoso, que pode nos levar ao desânimo e a uma queda espiritual. Mas podemos utilizá-la de maneira positiva, para fixar tempos de reflexão, para pensar na grandeza de D’us, contra quem nós constantemente transgredimos, e possamos “quebrar” nosso coração em arrependimento. Mas imediatamente após este arrependimento, devemos abandonar a tristeza e voltar a colocar em nosso coração a certeza de que D’us perdoa as transgressões e é misericordioso com aqueles que se arrependem e decidem consertar seus caminhos. Esta é a alegria que vem imediatamente após a tristeza de Tishá Be Av. Por isto o Shabat logo depois de Tishá Be Av é chamado “Nachamu” (Se consolem), pois é um aviso que depois da tristeza e do choro verdadeiro vem a alegria verdadeira.
Portanto, o propósito de Tishá Be Av é, através da tristeza, enxergar que a destruição dos nossos dois Templos Sagrados, que causou o exílio da Presença Divina, é apenas consequência da nossa queda e do nosso exílio espiritual interno, a muralha de ferro que criamos com nossos maus atos e que separa nossa faísca de Divindade do nosso corpo material. Este choro e sofrimento é a preparação para a nossa redenção e a fonte da alegria verdadeira e do consolo, para nós e para todo o povo judeu.

SHABAT SHALOM
R’ Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 1:1-3:22, Is.1:1-27, At 7:51-8:4 (Shabat Chazon)
Dt. 4:25-40, Jr 8:13-9:23, Mt. 23:1-13, 16-23, 34-24:3

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NUNCA MAIS EU RECLAMO - PARASHÁ DEVARIM E TISHÁ BE AV 5771 (5 de agosto de 2011)

"Fernando estava no meio de uma longa e cansativa viagem. Havia começado a chover forte e, como ele viu que o tanque estava quase vazio, achou melhor parar logo em um posto de gasolina para não correr o risco de ficar parado no meio da estrada por falta de combustível em um tempo chuvoso daqueles.
Fernando estacionou no primeiro posto que encontrou. A tempestade havia apertado ainda mais e o vento forte fazia com que a chuva caísse sobre o frentista, deixando-o completamente ensopado enquanto ele enchia o tanque. Confortavelmente sentado dentro de seu carro, Fernando viu o frentista trabalhando embaixo daquela chuva fria e sentiu-se mal. Mas o mais interessante é que o frentista não estava triste ou irritado. Ao contrário, ele assobiava alegremente enquanto trabalhava. Após encher o tanque, ainda se ofereceu para medir o nível do óleo e da água do radiador, mesmo embaixo daquela chuva.
Quando Fernando estava partindo, como que se desculpando, disse:
- Sinto muito que você tenha que estar aí fora com este tempo.
- Não se preocupe, isto não me incomoda nem um pouco – respondeu o frentista, com um sorriso no rosto.
- Você sempre teve este alto astral? – perguntou Fernando, curioso.
Na verdade não – respondeu o frentista – Eu era um jovem que tinha tudo. Estudava em uma boa faculdade, tinha um bom carro, morava com meus pais em uma bela casa e tinha muitos amigos. Mas eu não sabia dar valor para tudo o que eu tinha e estava sempre reclamando de tudo. Perdi bons amigos e diversas vezes briguei com meus pais por motivos fúteis. Foi então que eu fui convocado para lutar no Vietnã. Tive que deixar tudo para trás e viajar para um lugar estranho onde eu não conhecia ninguém. Foi lá que eu conheci o inferno. Passava dias sem comer uma refeição decente, dormindo na lama, acordando com o barulho de tiros e vendo meus colegas caindo mortos ao meu lado.
- Então certo dia eu cheguei ao meu limite – continuou o frentista, emocionado. Comecei a lembrar quantas coisas boas eu tinha na minha vida e nunca soubera dar valor, principalmente minha família e meus amigos. Naquele momento eu prometi a mim mesmo que, se um dia eu conseguisse sair vivo daquele inferno, eu seria tão grato a D'us que nunca mais reclamaria de nada. Uma semana depois a guerra acabou e eu fui mandado de volta para casa. E assim, desde aquele dia, nada mais me aborrece"
Assumir a responsabilidade por nossas atitudes é parte da construção de uma vida feliz.
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, também conhecido como "Mishnê Torá" (repetição da Torá), já que grande parte do livro recorda os acontecimentos mais importantes dos 40 anos do povo judeu no deserto. E a Parashá desta semana, Devarim, traz o discurso final de Moshé, no qual ele aproveita o momento da despedida, quando as pessoas estavam com o coração mais aberto, para fazer uma crítica construtiva sobre os graves erros cometidos pelo povo judeu.
Um dos erros ressaltados por Moshé nos chama a atenção pela profunda falta de sensibilidade do povo judeu. Mesmo após D'us ter garantido que a Terra de Israel era boa, o povo pediu o envio de espiões para verificá-la. As consequências foram desastrosas, pois dos 12 espiões enviados, 10 voltaram falando mal da terra, descrevendo-a como um local habitado por gigantes, sem chance de ser conquistada. Isto causou uma histeria coletiva e um choro sem motivo. Mas o mais grave foi a reclamação feita pelo povo contra D'us, como está escrito: "E vocês falaram mal em suas tendas e disseram: 'Por ódio D'us nos tirou do Egito, para nos entregar nas mãos dos Emoritas para nos destruir' " (Devarim 1:27).
D'us, para nos tirar do Egito, fez inúmeros milagres. Mandou as 10 pragas sobre o Egito, abriu o Mar Vermelho para que o povo judeu pudesse passar em segurança e fechou o mar para afogar os egípcios. Além disso, a própria sobrevivência no deserto foi acompanhada de milagres abertos: nuvens que guiavam e protegiam o povo dia e noite, roupas que cresciam junto com a pessoa sem se desgastarem com o tempo, o "Man" que caía do céu diariamente, entre muitos outros milagres.
Então surge uma grande pergunta: como pode ser que, após verem tantos milagres abertos e bondades feitas por D'us, os judeus chegaram neste nível espiritual tão baixo de não apenas negar as bondades de D'us, mas também enxergar as bondades como se tivessem sido maldades?
Explicam os nossos sábios que, em geral, as pessoas não "despencam" espiritualmente. Nosso Yetzer Hará (má inclinação) vai nos derrotando em pequenas batalhas e, sem percebermos, vamos caindo em queda livre. Foi isto o que aconteceu com o povo judeu. Mas o que motivou o começo da queda?
Nos ensina o Rabeinu Yona, em seu livro "Shaarei Teshuvá", que uma das piores características do ser humano é ser reclamão. A natureza do reclamão é estar sempre descontente e reclamando de tudo e de todos, constantemente criticando o que as pessoas fizeram ou disseram. Por sempre focar o lado negativo das coisas, o reclamão se torna uma pessoa rigorosa e intransigente. Mesmo quando alguém faz algo sem intenção, o reclamão julga o próximo para o mal e considera como se tivesse sido uma agressão intencional.
E o que ocorre com quem não trabalha esta terrível característica? Ao se acostumar apenas a reclamar e a procurar coisas negativas nos outros, no final o reclamão termina reclamando também daqueles que nunca fizeram nenhum mal, ou pior, reclama daqueles que somente fazem bem a ele. Ele se considera sempre como agredido e perseguido pelos outros, como se os atos errados do próximo fossem intencionais contra ele, mas na verdade ele é o agressor e o perseguidor, que machuca os outros com suas reclamações constantes. Por isso o reclamão acaba se tornando uma pessoa sozinha, pois como se torna alguém inconveniente, seus amigos e pessoas próximas se afastam dele.
Mas talvez a pior consequência de ser reclamão é que ele acaba se tornando um negador de bondades recebidas, ao ponto de considerar coisas boas como sendo coisas ruins, pagando o bem com o mal. Ele fica tão obcecado em exigir "justiça" que, mesmo quando alguém faz algo para o seu bem mas de uma maneira que ele não concorda, ele acaba enxergando isso como uma maldade. Por exemplo, os jovens sentem que suas mães são malvadas por não permitirem que eles voltem das festas às 5 da manhã. A mesma mãe que deu vida ao filho, que constantemente dá tudo o que ele necessita, é vista como vilã apenas por sua decisão de ir contra as vontades do filho. Por medo da violência e da inconsequência de muitos motoristas que dirigem embriagados pelas ruas de madrugada, as mães fazem de tudo para proteger seus filhos, mas são vistas como desalmadas. Por que? Pois somos reclamões, olhamos feio para tudo o que não é feito do nosso jeito. Foi isto o que aconteceu com o povo judeu durante os 40 anos no deserto.
Em diversos eventos descritos pela Torá podemos perceber que os judeus tinham naturalizado esta péssima característica em seus corações. Apesar das bondades e milagres constantes de D'us, eles reclamavam por causa da comida, por causa da água, por causa do caminho um pouco mais longo, e em diversas situações se rebelavam sem motivo. Nem mesmo os terríveis castigos mandados por D'us eram suficientes para fazer com que as pessoas entendessem o quanto esta característica é nociva. Por não tratarem esta característica negativa eles chegaram ao ponto de realmente acreditar que D'us os havia tirado do Egito, com milagres abertos, quebrando todas as leis da natureza, apenas por maldade, para prejudicá-los no deserto.
Quando olhamos os eventos descritos na Torá, enxergamos facilmente os erros do povo judeu e as conseqüências. Mas enxergamos os mesmos erros em nós mesmos? Será que também não somos tão reclamões quanto os judeus do deserto? Será que não sofremos também duras consequências por termos em nossos corações esta terrível característica? Achamos absurda a forma como o povo judeu questionou a bondade de D'us, mas será que não fazemos o mesmo quando acontecem coisas que fogem do nosso controle e entendimento?
Na próxima 2a feira de noite é Tishá Be Av, o dia mais triste do ano, no qual nos enlutamos por várias catástrofes que ocorreram com o povo judeu em nossa história. Mas de todas as tragédias, nenhuma se compara à destruição do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Por que ele foi destruído e até hoje, dois mil anos depois, ainda não foi reconstruído? Por causa do ódio gratuito entre os judeus. Se o nosso Beit Hamikdash não foi reconstruído até hoje, é uma prova de que continuamos persistindo no mesmo erro.
De onde vem o ódio gratuito? Principalmente de julgarmos sempre os outros para o mal, mesmo sem conhecer as pessoas de verdade. Nos acostumamos a sempre reclamar e exigir nossos direitos, ao invés de focar nos nossos deveres. São cada vez mais comuns passeatas pelos direitos, mas são cada vez menos freqüentes as demonstrações de preocupação verdadeira com o próximo e com os nossos deveres.
A Torá nos ensina que não temos direitos, temos deveres, temos obrigações, temos responsabilidades. Somente quando cada um focar mais nos seus próprios erros do que nos erros dos outros estaremos realmente caminhando para um mundo melhor. Um mundo com mais justiça, com mais união, onde o direito de cada um será verdadeiramente respeitado. Somente então mereceremos a reconstrução do nosso Beit Hamikdash.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Deuteronômio 1:1-3:22, Is.1:1-27, At 9:l-21