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sábado, 12 de maio de 2018

DIMINUINDO OS TESTES - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5778

Moishe Fridman (nome fictício), que morava em Jerusalém, decidiu passar Rosh Hashana em Bnei Brak, na casa dos seus pais. Na hora de voltar para Jerusalém, sabia das imensas filas que haveria nos pontos de ônibus, com pessoas irritadas se empurrando para conseguir um lugar no ônibus. Decidido a não pegar fila, ele resolveu ir embora no horário do último ônibus, à 1 da manhã. Porém, para sua surpresa, quando chegou ao ponto, ainda estava lotado. As pessoas estavam muito irritadas, pois o ônibus para Jerusalém estava mais de uma hora atrasado. Estavam todos revoltados, querendo agredir o motorista. Finalmente, após muita espera, um ônibus apareceu no final da avenida. Todos se levantaram, já preparando as ofensas que diriam ao motorista. Mas a alegria não durou muito tempo. Quando o ônibus chegou mais perto, todos viram que no destino não estava escrito "Jerusalém", e sim "Rechovot". O ônibus parou, abriu as portas, mas não havia nenhum passageiro interessado em ir para Rechovot. Todos aguardavam o ônibus para Jerusalém, que não chegava.

Quando o motorista ia fechar as portas, com o ônibus completamente vazio, um homem da fila teve uma ideia. Ele perguntou ao motorista se ele não poderia levá-los para Jerusalém, já que não havia passageiros para Rechovot. O motorista disse que não podia fazer isto, pois tinha que seguir as ordens de seus superiores. As pessoas então começaram a insistir muito com o motorista. Havia muitas crianças, algumas já estavam até dormindo, deitadas na rua, com as cabeças apoiadas nas malas. Começaram a apelar para que ele fizesse aquele ato de Chessed (bondade), que tivesse misericórdia das pessoas. O motorista ficou em dúvida e disse que, por um lado, estava com dó de todos aqueles passageiros, mas por outro lado tinha muito medo da reação de seu chefe quando descobrisse que ele havia ido para outro destino. As pessoas tentaram convencê-lo a ir para Jerusalém, garantindo que, caso ele fizesse aquela Mitzvá, certamente D'us o protegeria de qualquer dano. O motorista finalmente se dobrou diante da insistência de todos. Ele levantou, mudou a placa do ônibus para "Jerusalém" e permitiu que todos subissem. As pessoas agradeceram, todos que subiam no ônibus o abençoam pelo incrível ato de bondade. Apesar de tanta espera, todos viajavam felizes, com seus corações agradecidos. Porém, Moishe não estava tranquilo. Ele havia ficado preocupado com o motorista, que poderia estar com o emprego em risco. Provavelmente ele tinha uma família para sustentar e ficaria em uma situação muito difícil caso perdesse o emprego. Começou então a conversar com o motorista e perguntou como ele explicaria para o chefe a mudança de destino. O motorista pediu para Moishe se aproximar. Olhou para ele, deu um sorriso e disse em voz baixa:

- Como você está realmente preocupado comigo, vou te contar a verdade. O destino verdadeiro deste ônibus já era Jerusalém. Porém, houve uma falha na central de ônibus e acabaram me mandando vir bem mais tarde, com mais de uma hora de atraso. Não foi minha culpa, mas eu sabia que as pessoas não iriam passar no teste. Elas estariam muito bravas, talvez chegassem até mesmo a me agredir fisicamente. Por isso, antes de chegar ao ponto, decidi mudar a placa do ônibus para "Rechovot". Assim, quando novamente mudei a placa para "Jerusalém", as pessoas ficaram felizes. Ao invés de me agredirem, elas me deram Brachót. Não me arrependo do que fiz. Simplesmente ajudei as pessoas a passarem no teste, diminuído a dificuldade para elas.
Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar (literalmente "Na montanha") e Bechukotai (literalmente "Nas Minhas leis"), terminando o terceiro livro da Torá, Vayikrá. Um dos assuntos trazidos na Parashat Behar é sobre as leis de "Shemitá", o ano Sabático, quando os campos em Israel devem passar por um descanso forçado. Após seis anos de trabalho, quando chega o sétimo ano, as pessoas não podem arar, semear nem irrigar seus campos. Além disso, a Parashat também traz outra importante Mitzvá, chamada de "Yovel" (Jubileu). Após 7 ciclos de Shemitá, totalizando 49 anos, vinha o ano 50, o ano do Yovel, que trazia consigo algumas Mitzvót especiais. Entre elas estava a Mitzvá de devolver todos os campos em Israel, inclusive os que haviam sido vendidos, aos seus verdadeiros donos. Mas o que significa esta "devolução da terra"?

Quando o povo judeu entrou em Israel, liderado por Yoshua bin Nun, cada uma das tribos foi alocada em um local específico de Israel. A terra foi toda dividida em pequenas porções, que foram entregues às famílias como parte de sua herança pessoal e foram sendo passadas de geração em geração. Portanto, mesmo que a pessoa vendesse sua terra, isto não se tratava de uma venda permanente, e sim um "aluguel", que durava até o ano do Yovel. Neste ano, as terras voltavam aos seus verdadeiros donos, conforme está escrito: "E a terra não será vendida de maneira permanente, pois toda a terra é Minha" (Vayikra 25:23).

De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), este versículo não é apenas uma narrativa, ele traz uma proibição que se aplica ao comprador de um campo. A Torá está ordenando ao comprador que ele não se recuse a devolver a terra ao seu verdadeiro dono quando o ano do Yovel chegar. Caso o fizesse, estaria cometendo uma transgressão da Torá. Porém, o Ramban (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) discorda de Rashi, já que o enfoque do versículo está na proibição da venda de forma permanente, não da compra. Por isso, a proibição parece recair sobre o vendedor, não sobre o comprador. Portanto, de acordo com o Ramban, uma pessoa que vende uma terra em Israel e sugere ao comprador que, apesar das leis do Yovel, a venda será para sempre, está violando esta proibição da Torá. Mesmo que o Beit Din (Tribunal Rabínico) force a volta da terra ao seu legítimo dono no ano do Yovel, o vendedor já cometeu uma transgressão no momento da venda, por ter sugerido ao comprador que a venda seria permanente.

É fácil entender a proibição de acordo com o entendimento de Rashi, que a proibição se aplica ao comprador. Se um comprador não quer devolver a terra ao seu dono, isto é roubo, uma apropriação indevida. Porém, como entender qual é a transgressão de acordo com o entendimento do Ramban, de que a Mitzvá está relacionada com o vendedor?

Explica o Ramban que qualquer pessoa que já precisou vender uma casa na qual viveu por muitos anos sabe o quanto isto é doloroso. As casas têm valores sentimentais, pois há muitas memórias associadas a elas. Se alguém tivesse comprado, por exemplo, uma casa no 5º ano da contagem do Yovel, ele teria vivido nesta casa por 45 anos. Neste período, ele provavelmente teria se casado e criado seus filhos e netos ali. As pessoas se conectam ao lugar onde vivem, elas amam suas casas. Após 45 anos vivendo ali, seria muito difícil simplesmente a pessoa se levantar e dizer ao dono da terra: "Você tem razão, a casa é sua, não minha". A Torá quer diminuir a dificuldade e o sofrimento do comprador, quer ajudá-lo a devolver a propriedade no momento certo. Por isso o vendedor deve lembrar ao comprador, logo no primeiro dia, que aquela terra para onde ele está se mudando, e onde ele viverá por muitos e muitos anos, não é dele. O vendedor não deve dar nenhuma sugestão ao comprador de que a venda é permanente. Ao contrário, ele deve ressaltar, logo no início do acordo, de que não se trata de uma venda permanente, e sim apenas um aluguel por um período limitado de tempo.

De acordo com o Rav Yssocher Frand, as pessoas não ficam psicologicamente conectadas às propriedades alugadas. As pessoas não se conectam emocionalmente aos quartos de hotéis onde se hospedam, pois têm total claridade que aquela propriedade não pertence a elas. A Torá quer fazer com que o teste de cumprir a Mitzvá de devolver as terras aos seus verdadeiros donos venha com o mínimo de sofrimento e dificuldade. É por isso que a Torá nos ensina que é proibido ao vendedor dar a impressão de que a venda é definitiva, o que poderia causar com que o comprador se conectasse com algo que não é verdadeiramente seu, é apenas alugado. Passar esta falsa impressão ao comprador acabaria aumentando a dificuldade no teste de devolver esta terra no momento em que o Yovel chegasse.

Explica o Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883) que a vida é cheia de testes e dificuldades. Muitas vezes é difícil cumprir as Mitzvót ou deixar de fazer transgressões. Por isso, temos que tentar transformar o cumprimento da Torá em algo que seja o mais fácil possível para nós. Não devemos tentar bater de frente com o nosso Yetser Hará (má inclinação). Precisamos sempre fugir das tentações e evitar nos colocarmos em cenários que possam aumentar as dificuldades no cumprimento das leis da Torá. Da mesma maneira que uma pessoa que está de dieta não deve frequentar uma padaria, assumindo que terá o autocontrole necessário para ignorar o aroma delicioso daqueles doces que poderiam destruir seu plano de dieta, assim também uma pessoa não deve assumir que poderá resistir ao seu Yetser Hará quando surgirem tentações que podem levar a transgressões da Torá. A pessoa deve sempre procurar um caminho de vida no qual ela evita as tentações, ao invés de desafiar seu Yetser Hará e, muitas vezes, sucumbir a ele.

Este conceito pode ser observado no comportamento de Yaacov quando ele se preparava para ir embora da casa de seu sogro Lavan. Após 20 anos trabalhando para Lavan, D'us apareceu para Yaacov em uma noite e o comandou a voltar para sua casa em Israel. Yaacov então se encontrou na manhã seguinte com suas duas esposas, Rachel e Lea, para informá-las da mensagem de D'us. Como seria a reação esperada de Yaacov? Que ele simplesmente anunciasse para as esposas que D'us havia aparecido para ele e que havia ordenado que arrumassem as malas e fossem embora. Porém, não foi o que Yaacov fez. Ele começou a apresentar uma série de motivos lógicos para justificar o quanto estava sendo difícil permanecer na casa de Lavan e o quanto seria vantajoso ir embora. Somente como uma reflexão final foi que Yaacov acrescentou a ideia de que D'us os havia ordenado a ir embora. Por que Yaacov não foi direto ao ponto, de que D'us havia ordenado que voltassem? Pois Yaacov sabia o quanto era difícil para uma filha abandonar a casa de seu pai. Ele sabia que seria um difícil desafio para suas esposas. Então Yaacov tentou diminuir o teste delas, demonstrando que, também por motivos lógicos, ir embora era o melhor a se fazer. Yaacov primeiro deu às suas esposas a motivação psicológica para abandonar a casa de seu pai e, somente depois, jogou a ideia de que isto era o que D'us queria delas.

De acordo com o Ramban, o vendedor da terra deveria ter sensibilidade com o comprador. Ele deveria se esforçar para facilitar ao comprador cumprir a Mitzvá de devolução da terra. Ele deveria desde o princípio avisar: "Isto não é uma venda. Não crie falsas esperanças, não se engane". Quando uma pessoa tem claridade desde o princípio de que é uma casa alugada, ela evita a sensação ruim de abandonar a "sua casa". Ela sabe que está abandonando apenas uma casa onde morou e viveu, mas que nunca foi verdadeiramente sua.

Cumprir Mitzvót já é suficientemente difícil sem precisarmos nos expor a outros tipos de testes. Devemos ser sábios e tentar diminuir os testes no cumprimento das Mitzvót. Devemos evitar ao máximo nos colocar em situações difíceis, nas quais fica mais difícil não transgredir. O Chafetz Chaim (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), por exemplo, nos ensina que uma pessoa não deve nem mesmo ir a um lugar no qual ela sabe que há pessoas reunidas falando Lashon Hará (maledicência), pois se ela for, acabará ficando, e se ela ficar, acabará também falando Lashon Hará. A dica então é cortar o mal pela raiz, não se expor ao teste, para conseguirmos vencer o nosso Yetser Hará. Com sabedoria, e com a ajuda de D'us, assim conseguiremos cumprir as Mitzvót e evitar as transgressões que possam surgir no nosso caminho.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Parashat Behar-Bechukotai (Leviticus 25:1 - 27:34)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

TAPAS POR AMOR - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5777

"Reuven era um garoto muito agitado. Infelizmente não escutava os conselhos e broncas de seus pais e estava sempre metido em terríveis confusões. Certa vez Reuven foi jogar futebol no gramado em frente à sua casa. Apesar de seu pai tê-lo advertido muitas vezes sobre o cuidado com os carros da rua, todas as vezes em que a bola caía no meio da rua ele saía correndo feito um louco e atravessava a rua sem nem mesmo olhar para os lados.

Da primeira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou sem olhar, um carro que estava passando teve que desviar com uma manobra arriscada. O motorista, muito irritado, parou o carro, abriu a janela e começou a gritar com Reuven, repreendendo-o por sua irresponsabilidade. Mas quando o carro partiu, Reuven simplesmente deu gargalhada do que havia acontecido. Alguns minutos depois a bola novamente caiu na rua e, sem pensar, Reuven foi mais uma vez atravessar de forma irresponsável. Um carro que passava naquele momento precisou dar uma freada brusca, deixando marcas de borracha no asfalto. O motorista saiu do carro, agarrou Reuven pelo braço e deu uma severa bronca nele. Porém, quando o motorista foi embora, mais uma vez o pequeno Reuven deu gargalhada, se divertindo com a situação.

Porém, da terceira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou de maneira irresponsável, o motorista que vinha dirigindo precisou frear forte e desviar do garoto, quase causando um acidente mais grave. O homem saiu do carro com o rosto vermelho de raiva. Quando Reuven olhou para o motorista, ficou apavorado. Ele largou a bola no meio da rua e saiu correndo. Mas o motorista não deixou barato e saiu correndo atrás dele. Eles passaram por vários quintais, pularam várias cercas, até que, finalmente, Reuven se viu diante de um beco sem saída. Era o fim da linha, não havia mais para onde correr. O motorista então o alcançou e lhe deu uma bela surra por causa de seu ato irresponsável. Quem era este homem? Obviamente que era seu pai. Os outros motoristas ficaram irritados com o ato irresponsável de Reuven, mas somente um pai leva tão a sério atos perigosos dos filhos para querer que eles nunca mais se repitam. Um pai se irrita com atitudes perigosas de seu filho e dá duras broncas nele, mas isto é uma demonstração de amor, não de raiva".

Existe um paralelo do mundo material com o mundo espiritual. Quando D'us nos vê cometendo erros que podem colocar nossa vida eterna em risco, Ele chama a nossa atenção, como um Pai responsável que ama seus filhos.

Nesta semana lemos duas Parashiót, Behar (literalmente "Na montanha") e Bechukotai (literalmente "Nas Minhas leis"). A Parashá Behar fala sobre a Mitzvá de Shmitá, que nos ensina que devemos deixar os campos que se encontram na Terra de Israel "descansando" uma vez a cada 7 anos, sem arar, plantar ou ter qualquer proveito financeiro de suas colheitas. Esta Mitzvá sempre foi difícil de ser cumprida, principalmente se nos lembrarmos que antigamente dependíamos basicamente da agricultura para nossa sobrevivência. Mesmo assim, cumprir esta Mitzvá e "descansar" nosso campo por um ano inteiro é uma demonstração de Emuná de que é D'us que controla tudo e que é Dele que vem o nosso sustento.

Já a Parashá Bechukotai começa listando as Brachót (Bênçãos) que recebemos quando andamos nos caminhos corretos e cumprimos as Mitzvót contidas na Torá. Porém, depois disso a Parashá muda o tom e começa a descrever, de forma profunda e detalhada, as terríveis tragédias que futuramente atingiriam o povo judeu caso nos desviássemos dos comandos de D'us. Mas como pode ser que um D'us bondoso permite tantas tragédias e sofrimentos? Quando vemos esta parte da Parashá fora de contexto, podemos chegar a conclusões completamente equivocadas.

Imagine um dia no qual você está em casa, conversando tranquilamente com seus amigos, quando seu pai entra. Ele está visivelmente irritado e começa a se comportar com você de maneira estranha. Ele está muito bravo, quase descontrolado. Mesmo que você tenha esquecido de arrumar seu quarto ou tenha tirado uma nota baixa na escola, nada justificaria este tipo de reação dele. Com este comportamento ele se parece um total estranho, alguém que você nem conhece. Você chegaria à conclusão de que aquele na verdade não é seu pai, ou você procuraria alguma explicação lógica para o comportamento dele? Certamente tentaríamos entendê-lo. E mesmo que não conseguíssemos entender naquele momento, esperaríamos que ele futuramente viesse explicar seu comportamento atípico. Daríamos crédito ao nosso pai, pois ele certamente conquistou, ao longo dos muitos anos de convivência, a nossa confiança.

Assim acontece com o povo judeu. D'us nos tirou do Egito, nos salvou dos nossos inimigos, nos sustentou no deserto por 40 anos, nos deu a Sua Torá, um tesouro que pode ser utilizado para trazer vida ao mundo, e nos deu a Terra de Israel, uma terra especial e sagrada. Definitivamente parece que D'us é bom e se preocupa com o nosso bem estar. Ele já tem créditos conosco. Portanto, se de repente este mesmo D'us muda de tom e nos avisa que coisas terríveis nos atingirão, devemos também presumir que existe uma explicação e uma bondade por trás. Há coisas que entenderemos sozinhos durante a vida, outras teremos que esperar até um momento futuro no qual D'us mesmo colocará as coisas no seu devido contexto. Mas uma coisa podemos ter certeza: da mesma maneira que ocorre em relação aos nossos pais, sempre há um significado nos atos de D'us e, em última instância, tudo foi planejado com amor, para o nosso bem verdadeiro.

Parte da nossa falta de entendimento do contexto dos atos de D'us está na nossa falta de compreensão da gravidade dos nossos atos e do que é esperado de nós durante a vida. Imagine uma pessoa muito simples, do interior, que vem à cidade grande visitar seu amigo no hospital. O doente está em estado grave, respirando com a ajuda de aparelhos. Por causa do tubo em sua boca, o doente não consegue falar nada. O amigo, em um ato de "bondade", quer ajudá-lo a falar e tira o tubo de sua boca. Apesar das melhores intenções contidas neste ato, em alguns minutos o doente morre por falta de oxigênio. Pelo fato de o amigo não enxergar o quadro completo, ele não consegue entender a consequência dos seus atos. Aos seus olhos, ele está apenas ajudando seu colega, de maneira inofensiva, retirando de sua boca o tubo que o impedia de falar. Ele faz isso com a mesma naturalidade do que alguém que tira uma sujeira do casaco de seu companheiro. Sem perceber e sem entender as consequências de seu ato, ele cometeu um assassinato.

Da mesma maneira, sem saber e sem entender as conseqüências dos nossos atos, podemos estar até matando outras pessoas. Por exemplo, o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica a gravidade do nosso Lashon Hará (causar danos a outras pessoas, que podem ser físicos, monetários ou psicológicos, através do mau uso da nossa fala). Ele diz que toda vez que alguém fala Lashon Hará, três pessoas morrem: aquele que fala, aquele que escuta e sobre quem está sendo dito coisas negativas. Porém, acabamos falando muito Lashon Hará sem perceber o mal que estamos causando ao mundo. Sempre temos justificativas para os nossos maus atos, sempre temos desculpas para enganar aos outros e a nós mesmos, nos convencendo de que o nosso ato não foi uma transgressão, e sim uma Mitzvá.

Mas pior do que o mal que causamos aos outros com nossas transgressões é o mal que causamos a nós mesmos. A forma como utilizamos equivocadamente nosso bem mais precioso, o tempo, se compara a uma pessoa que comprou um caríssimo computador de última geração e o utiliza como peso de papel, por não saber o que este computador pode produzir. Viver a vida sem ter a claridade de para onde estamos indo é uma forma lenta de suicídio, algo que muitas pessoas fazem sem perceber.

O povo judeu tem uma missão especial no mundo. Somos parte da "tripulação do barco da vida", o exército de D'us cuja principal missão é transmitir ao mundo o sentido da vida. Porém, infelizmente para D'us, para nós mesmos e para o mundo inteiro, esquecemos o nosso papel e pensamos que somos apenas passageiros do barco. Ao invés de ajudar o barco a chegar ao seu destino, passamos o dia jogando boliche no convés. Se não cumprimos o nosso papel, o barco pode acabar afundando. Mas D'us nunca vai deixar isto acontecer. Ele nunca vai deixar destruirmos a nós mesmos e ao Seu barco. Ele muitas vezes precisa nos relembrar que não somos apenas passageiros curtindo a viagem. Este é o ponto de partida para entender as dificuldades pelas quais o povo judeu passou durante sua história. Apesar de ser trágico, o antissemitismo acaba trazendo um benefício para nós. Nada tem mais força para unir o povo judeu do que as ameaças externas. Não é o que D'us gostaria de fazer, mas muitas vezes nós O deixamos "sem escolha".

Muitas pessoas questionam como D'us pôde permitir que tragédias tão grandes recaíssem sobre o povo judeu. A implicação filosófica para quem faz este tipo de pergunta é que talvez não exista D'us. Porém, imaginar isto é como o caso de um pai que tem um filho rebelde. Repetidas vezes o pai adverte o filho que, caso ele se comporte de maneira indesejável, receberá um duro castigo. Quando este filho desobedece a ordem do pai, ele fica surpreso por receber os castigos? Certamente que não, pois ele foi avisado. A única questão válida seria "Qual é o propósito destes castigos?". Mas certamente nunca viria à cabeça do filho a pergunta se o pai existe ou não. A verdade é justamente o contrário. Se o pai avisou que um castigo recairia sobre o filho caso ele fizesse coisas erradas, não há prova maior da existência e da autoridade do pai do que os castigos realmente acontecerem após os atos de rebeldia.

Explica o Rav Simcha Barnett que este é o entendimento por trás de todas as tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a história. Elas vieram justamente para comprovar a existência de D'us, não para negá-la. Como um povo poderia, durante os milênios de sua existência, passar por tantas tragédias e ainda se manter de pé, firme e forte, se não fosse por uma intervenção Divina? Portanto, a chave para colocar os sofrimentos do povo judeu na perspectiva correta é entender o contexto nos quais eles nos atingem e o papel fundamental do povo judeu no palco do mundo. Muitas vezes nos comportamos como um mensageiro que esqueceu sua mensagem. Mas D'us não desiste de Seus mensageiros. Por isso, algumas vezes Ele é "forçado" a nos dar um "tapa", para nos acordar do nosso sono espiritual e nos recordar do nosso papel de mensageiros. O mais impressionante é perceber que Ele nos avisou com antecedência que isto aconteceria.

Sem esta perspectiva correta, muitos acham que a forma de escapar do antissemitismo é sendo menos judeus, isto é, se assimilando e tentando se encaixar no mundo não judaico à nossa volta, abandonando de vez a nossa identidade e as nossas diferenças. É uma estratégia que talvez funcionaria com outros povos, mas não com o povo judeu. A Parashá Bechukotai afirma que a única maneira de prevenir as tragédias é sendo mais judeus. Através do estudo da Torá podemos entender o que D'us considera importante neste mundo. Somente então ficará mais fácil de entender as tragédias profetizadas na Parashá Bechukotai, que já se cumpriram diversas vezes durante a história do povo judeu. E com este entendimento também poderemos nos esforçar para viver a vida da maneira correta, de forma que poderemos receber as Brachót também profetizadas no início da Parashá.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 25:1-26:2, Jr 32:6-27 (Shabat Mevarchim)
Lv 26:3-27:34, Jr 16:19-17:14

sexta-feira, 3 de junho de 2016

MUDANDO ATRAVÉS DA TORÁ - PARASHAT BECHUKOTAI 5776

Reb Pinchas era um Talmid Chacham (estudioso de Torá), e desde muito jovem já havia terminado todos os Tratados do Talmud (Torá Oral). Certo dia, chegaram aos seus ouvidos notícias sobre o Maguid de Mezeritch e seus incríveis ensinamentos. O Reb Pinchas se interessou em saber se o Maguid teria algo a acrescentar aos seus conhecimentos. Decidiu visitar o Maguid e preparou uma difícil questão talmúdica para testar sua erudição. Porém, após esperar horas na fila para falar com o Maguid, quando finalmente chegou a sua vez, não conseguiu nem abrir a boca. Assim que entrou na sala, o Maguid imediatamente lhe disse:

- Sugiro que você procure meu discípulo, o Reb Zusia. Certamente isso lhe trará muitos benefícios.

Reb Pinchas ficou profundamente decepcionado, pois aquela não era a experiência que ele havia imaginado. Mas mesmo assim decidiu procurar quem era o Reb Zusia. Quando chegou à casa dele, percebeu que o Reb Zusia não se parecia muito com um erudito de Torá. Partes do dia ele não estudava, apenas se sentava para recitar Tehilim (Salmos). Em um primeiro momento, o Reb Pinchas chegou a desprezar o Reb Zusia. Quando pediu a ele para que lhe ensinasse Torá, o Reb Zusia respondeu amavelmente que era incapaz de ensinar Torá para alguém tão erudito. No entanto, Reb Zusia tinha uma pergunta de Torá que talvez o Reb Pinchas pudesse ajudar a esclarecer. Pegou um volume do Talmud e, abrindo-o numa determinada página (Tratado de Brachót 47b), leu em voz alta: "Rav Huna disse: 'Nove podem combinar com um Aron Hakodesh (Arca Sagrada)'". O Talmud estava ensinando que, caso houvesse apenas nove judeus e fosse necessário um Minian (grupo de 10 judeus), o Aron Hakodesh poderia ser contado como a décima pessoa. O Talmud então pergunta: "Porém, o Aron Hakodesh é uma pessoa?" E, baseado neste questionamento, o Talmud reformula o ensinamento de uma maneira completamente diferente.

- Mas o Talmud não sabia, na hipótese levantada, que um Aron Hakodesh não é uma pessoa? - perguntou o Reb Zusia - Então o que o Talmud está querendo nos ensinar?"

Reb Pinchas nunca havia escutado uma pergunta tão estranha. Virou-se para ir embora, mas foi chamado de volta:

- Perdoe-me, mas acho que o Talmud está nos ensinando uma lição muito importante - disse o Reb Zusia - Um judeu não deve pensar que apenas por ser uma "Arca Sagrada ambulante", repleta de "Rolos da Torá", isso automaticamente faz dele uma "pessoa". Em outras palavras, o Talmud está nos ensinando que é possível que a pessoa seja um grande erudito e, mesmo assim, ainda não é garantido que tenha se tornado uma "pessoa".

- É isso que aprendemos aqui em Mezeritch - concluiu o Reb Zusia - a como usar a Torá para se tornar um "Mentsh" (gente). Não apenas a pessoa deve estudar Torá, mas a Torá deve ensiná-lo a ser uma "pessoa".

Reb Pinchas se envergonhou por sua arrogância. Compreendeu que, apesar de toda a Torá que conhecia, ainda faltava muito para se tornar "gente" de verdade.
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Na Parashat desta semana, Bechukotai (que literalmente significa "Meus decretos"), a Torá apresenta as condições necessárias para que D'us mande ao povo judeu paz e abundância: "Se vocês andarem com Meus decretos, e guardarem Meus mandamentos e cumpri-los" (Vayikrá 26:3). Isto significa que, quando cumprimos nossas obrigações e fazemos nossa parte, D'us faz a parte Dele e vivemos com tranquilidade. Na continuação da Parashat, a Torá traz as terríveis consequências de quando nos afastamos dos caminhos de D'us e abandonamos Suas Mitzvót.

Porém, deste versículo inicial da Parashat surge um questionamento: por que a Torá repete tantas vezes o mesmo conceito, dizendo que devemos andar com os decretos, guardar os mandamentos e cumprir os mandamentos? Estas três expressões não significam a mesma coisa? Explica Rashi que a primeira parte do versículo, "andar nos Meus decretos", não se refere ao cumprimento dos mandamentos, e sim à "amelut" no estudo da Torá. "Amelut" é mais do que simplesmente estudar Torá. "Amelut" é um nível de esforço e comprometimento muito maior, que envolve constância e dedicação. Já a segunda parte do versículo, "guardarem Meus mandamentos", está conectada com a primeira parte e refere-se à "amelut" na Torá com o propósito de guardar os seus mandamentos. A terceira parte, "e cumpri-los", refere-se ao cumprimento das Mitzvót na prática. Desta explicação de Rashi aprendemos que existem dois tipos de "amelut" na Torá: aquele que se esforça no estudo apenas pelo estudo, e aquele que se esforça no estudo para poder cumprir as Mitzvót.

Mas esta explicação de Rashi traz uma grande dificuldade de entendimento, pois implica que existe o conceito de "amelut" na Torá sem a intenção de realmente cumpri-la. Isto não parece ter muita lógica, pois o próprio conceito de "amelut" já sugere uma profunda apreciação da importância da Torá, ao ponto da pessoa estar disposta a um comprometimento e uma constância exemplares em busca do entendimento das palavras de D'us expressas na Torá. Podemos entender que alguém que estuda sem constância e sem seriedade pode estudar Torá sem a intenção de cumpri-la, pois sua forma descompromissada de estudo já demonstra o quanto a pessoa não entende o verdadeiro valor da Torá. Mas como entender alguém que verdadeiramente se esforça com constância e que estuda a Torá com "amelut" pode, ao mesmo tempo, não ter intenção de cumpri-la?

Uma pergunta semelhante surge quando analisamos um ensinamento que discute diferentes motivações pelas quais alguém estuda Torá: "Aquele que estuda com o intuito de ensinar, permitem que ele estude e ensine. E aquele que estuda com o intuito de cumprir, permitem que ele estude e ensine, guarde e cumpra" (Pirkei Avót 4:5). Os comentaristas explicam que "aquele que estuda com o intuito de cumprir" refere-se à pessoa que realmente deseja manter a Torá. Isto implica que "aquele que estuda com o intuito de ensinar" refere-se à pessoa que não tem intenção de cumprir as Mitzvót. Mas se este é realmente o caso, então por que D'us dá a esta pessoa o mérito de poder estudar e ensinar?

Responde o Rav Yehonasan Gefen que o conceito de "amelut na Torá sem a intenção de cumpri-la" não se refere a alguém que não tem interesse de cumprir as Mitzvót, e sim a alguém que não reconhece que a Torá que ele estuda deve mudá-lo internamente, em sua essência. Esta pessoa falha em fazer uma conexão entre seu estudo e seu serviço Divino diário. Ele certamente aprecia que o estudo da Torá é uma grande Mitzvá, mas não dá o próximo passo, que é perceber que a Torá que ele estuda deve influenciar e transformar seu comportamento em todos os aspectos da vida. Quando o Pirkei Avót diz sobre aquele que estudou para ensinar, trata-se certamente de alguém que também quer cumprir as Mitzvót, pois se não fosse assim, não mereceria o mérito de estudar e ensinar. A falha da pessoa é não estudar com o propósito de mudar a si mesma como ser humano e, por isso, a Torá acaba não tendo influência sobre suas ações cotidianas.

De acordo com o Rav Yehuda Arie Leib Alter zt"l (Polônia, 1847 - Alemanha, 1905), mais conhecido como Sfat Emet, é isto que pedimos todos os dias quando recitamos pela manhã o "Birkat HaTorá", a Brachá que pronunciamos uma vez por dia antes de estudarmos Torá. Nesta Brachá dizemos "D'us, adoce por favor as palavras da Sua Torá em nossas bocas". A palavra "adoce", em hebraico "Haarev", tem a mesma raiz da palavra "Erev", que significa "mistura". O que nós pedimos nesta Brachá é que a Torá, além de ser doce, também se misture à nossa essência e ao nosso ser, e não permaneça apenas como um conhecimento superficial.

Infelizmente não é incomum que as pessoas não consigam conectar o que elas estudam com suas vidas diárias. É por isso que nossos sábios sempre colocaram uma grande ênfase no fato que a Torá deve penetrar em nossa essência e afetar de maneira positiva nosso comportamento cotidiano. Por exemplo, o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) explicou que em muitos lugares o primeiro Tratado do Talmud estudado pelas crianças é "Baba Kama", que trata das leis de danos. Um dos motivos desta escolha é para inserir na criança, mesmo nas fases iniciais de sua vida, a sensibilidade com a propriedade dos outros. Isto significa que o propósito do estudo das crianças é muito mais abrangente do que simplesmente dar a elas conhecimento técnico, e engloba também transformá-las em pessoas mais pensantes, profundas e sensíveis com o próximo.

Este conceito, de permitir que a Torá mude a nós mesmos, não se limita apenas ao estudo de leis práticas. Nas Yeshivót (centros de estudo de Torá), por exemplo, na maior parte do tempo os estudantes estão se esforçando no estudo do Talmud, que não necessariamente foca em aprender o que fazer em situações práticas do cotidiano. Muitos ensinamentos do Talmud se referem a uma época em que ainda existia o Beit Hamikdash, e que não se aplicam mais atualmente. Mesmo assim, até o tipo de estudo que não pode ser aplicado na prática, se for abordado da forma correta, tem o poder de transformar a pessoa em um ser humano mais refinado. Devemos nos esforçar para, toda vez que aprendemos um novo ensinamento de Torá, refletir sobre o que é possível aprender em relação à forma como D'us olha o mundo, e tentar integrar esta atitude em nossa própria perspectiva de vida.

Nossa Parashat ensina o quanto é importante garantir que a Torá que nós trazemos ao nosso intelecto também alcance nossos corações, e isto deve transparecer em nossos atos e no nosso comportamento cotidiano. O primeiro estágio para termos sucesso nesta tarefa é simplesmente reconhecer que a Torá que estudamos deve nos transformar em pessoas diferentes, e o segundo estágio é parar para refletir e perceber se isto está ocorrendo na prática. Como aquele estudante de Torá que, após estudar dia e noite, terminou todos os Tratados do Talmud. Ele então comentou com o seu rabino: "Já passei por todo o Talmud". O rabino respondeu: "O que eu quero saber não é se você passou por todo o Talmud, e sim se todo o Talmud passou por você".
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 26:3-27:34

sexta-feira, 15 de maio de 2015

DIFICULDADES TRAZEM MÉRITOS - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5775

"Certo dia Adriano estava observando um casulo de borboleta quando, naquele exato momento, uma pequena abertura apareceu. Ele resolveu se sentar e observar o que aconteceria. Ele viu que a borboleta se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco aberto no casulo, mas em certo momento pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso e não conseguia  mais sair. Adriano decidiu ajudar a borboleta: pegou  uma tesoura e cortou o restante do casulo.  A borboleta então saiu  facilmente, mas  seu corpo estava pequeno e murcho, e suas asas estavam amassadas.

Adriano continuou a observar a borboleta, pois esperava  que, a qualquer momento, as asas dela se abririam e se esticariam para  serem  capazes de suportar o peso do corpo. Mas nada aconteceu. Na verdade, a borboleta passou o resto da vida rastejando, com um corpo murcho e as asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar.

Adriano, em sua vontade de ajudar, não compreendia que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura serviam para  que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas, de modo que ela estivesse  pronta para voar quando conseguisse sair do casulo. Ao cortar a pequena abertura, Adriano acabou tirando as chances de um dia aquela borboleta conseguir voar.

Algumas vezes o esforço é justamente o que precisamos em nossa vida. Se não fossem os obstáculos, nós não seríamos tão  fortes quanto poderíamos ter sido"

Eu pedi a D'us força, mas Ele me mandou dificuldades para me fazerem forte. Eu pedi a D'us sabedoria, mas Ele me mandou problemas para eu aprender a resolver. Eu pedi a D'us prosperidade, mas Ele me mandou uma boa cabeça para pensar e músculos para eu trabalhar. Eu pedi a D'us coragem, mas Ele me mandou perigos para eu superar. Eu pedi a D'us amor, mas Ele me mandou pessoas com problemas para eu ajudar. Eu pedi a D'us favores, e Ele me mandou oportunidades. Eu não recebi nada do que pedi a D'us, mas Ele me mandou tudo o que eu precisava... 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar e Bechukotai. A Parashá Behar nos ensina sobre a importante Mitzvá de Shmitá, que exige que os agricultores de Israel descansem suas terras a cada 7 anos, reforçando nossa Emuná (fé) de que todo o nosso sustento vem diretamente de D'us, e não do nosso esforço. Já a Parashá Bechukotai descreve as Brachót que recaem sobre o povo judeu quando andamos no caminho das Mitzvót, mas logo depois descreve as advertências e os consequentes castigos caso o povo judeu se desvie e abandone o pacto com D'us.

As advertências da Parashá Bechukotai terminam com um consolo: "E Eu lembrarei Meu pacto com Yaacov, e também Meu pacto com Ytzchak, e também Meu pacto com Avraham Eu lembrarei..." (Vayikrá 26:42). Se prestarmos atenção neste versículo, perceberemos que há algo interessante: a expressão "zachor" (lembrar) aparece junto ao nome do nosso patriarca Avraham e junto ao nome do nosso patriarca Yaacov, mas não aparece junto ao nome do nosso patriarca Ytzchak. Por que esta diferença?

Explica o Rav Yaakov ben Asher zt"l (Alemanha, 1269 - Espanha, 1343), mais conhecido como Baal HaTurim, que este versículo ressalta que D'us lembrou de maneira especial os méritos de Avraham e Yaacov pois eles cumpriram as Mitzvót tanto quando estavam em Israel quanto quando estavam fora de Israel, mas Ytzchak, que viveu apenas em Israel todos os dias da sua vida, nunca teve a oportunidade de cumprir as Mitzvót fora de Israel. O Baal HaTurim acrescenta que tanto Avraham quanto Yaacov receberam de D'us o título de "Meus servos", enquanto este título não foi concedido a Ytzchak. Mas o que nos intriga nesta explicação do Baal HaTurim é que aparentemente o fato de Ytzchak nunca ter saído de Israel foi algo negativo, que deu a ele menos méritos do que os outros patriarcas. Por que isto diminuiria seus méritos?

A pergunta fica ainda mais intrigante quando nos aprofundamos no motivo pelo qual Ytzchak nunca saiu de Israel. O Rav Shlomo Itzchaki zt"l (Rashi) (França, 1040 - 1105) explica que D'us o proibiu de sair após ele ter sido oferecido por Avraham, seu pai, como um "Korban" (sacrifício), no episódio da "Akeidat Ytzchak". A partir daquele momento Ytzchak havia se tornado uma "Olá Temimá" (oferenda de elevação perfeita), e justamente por ter atingido este nível espiritual tão elevado ele foi instruído por D'us a permanecer sempre em Israel, a "Terra Sagrada". De acordo com a explicação de Rashi, Ytzchak não podia sair de Israel por ter criado um relacionamento especial com D'us, em um nível mais elevado do que dos outros patriarcas. Então como pode ser que Avraham e Yaacov, que serviram a D'us em locais com muito menos santidade, possuíam méritos maiores do que os méritos de Ytzchak, que somente serviu a D'us em Israel?

Além disso, há outro ensinamento interessante de Rashi. Quando a Torá nos descreve as Mitzvót de Tefilin e Mezuzá (Devarim 11:18,20), Rashi explica que o propósito de uma pessoa que está fora de Israel de colocar Tefilin e de fixar Mezuzót nos batentes de sua casa é apenas para que ela não se esqueça de como cumprir estas Mitzvót, e assim possa novamente cumpri-las quando chegar o momento de voltar para Israel. O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 – Egito, 1204) vai além e afirma que este conceito se aplica a todas as Mitzvót. Isto significa que, de acordo com o Rambam, o propósito de cumprirmos as Mitzvót fora de Israel é apenas para nos prevenir de esquecermos como elas devem ser cumpridas, e somente em Israel nós estamos verdadeiramente obrigados a cumpri-las. Mas como entender esta explicação do Rambam? Não há nenhum valor intrínseco em cumprir as Mitzvót fora de Israel? E isto não é contraditório com a explicação do Baal HaTurim, de que Avraham e Yaacov tinham mais méritos do que Ytzchak justamente por terem cumprido Mitzvót também quando estavam fora de Israel?

Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ajuda a responder estas perguntas através de uma parábola. O Midrash conta sobre um rei que, após ter se enfurecido com sua esposa, expulsou-a do palácio e mandou-a de volta para a casa dos seus pais. O pai dela sugeriu que, mesmo enquanto ela estivesse fora do palácio, continuasse usando as roupas reais e os cosméticos. O Rav Yakov Tzvi Mecklenberg (Alemanha, 1785 - 1865) explica que o Midrash nos transmite duas mensagens. A primeira mensagem é que, ao continuar a vestindo suas roupas reais e seus cosméticos, a mulher continuaria se lembrando de todos os costumes do palácio e estaria pronta para voltar assim que fosse eventualmente chamada de volta. A segunda mensagem é que, ao manter suas roupas reais e seus cosméticos, a mulher se manteria em seu status elevado, proporcionando uma grande honra ao seu distante marido.

Ensina o Rav Yochanan Zweig que as Mitzvót efetivam nosso relacionamento com D'us. Em Israel, onde a Presença Divina é muito mais perceptível, a realidade do relacionamento proporciona ao povo judeu um sentimento de reciprocidade em seus atos. Principalmente na época em que existiam os Templos Sagrados, nos sentíamos mais próximos de D'us ao cumprirmos as Mitzvót em Israel, e este sentimento de proximidade nos preenchia e nos satisfazia. Mas fora de Israel não há este sentimento imediato de reciprocidade, pois a Presença de D'us está oculta. Como falta a reciprocidade, as Mitzvót são cumpridas como se fossem parte de um relacionamento unilateral. Por isso, a única motivação para continuar cumprindo as Mitzvót fora de Israel é o desejo de obedecer a D'us.

Este é o paralelo que podemos aplicar ao ensinamento do Rambam. Quando cumprimos as Mitzvót fora de Israel, nós demonstramos nosso desejo de continuar nosso relacionamento com D'us, e fazendo isso nós trazemos honra para Ele. Apesar de Ytzchak ter atingido elevados níveis de santidade e ter mantido durante toda sua vida um relacionamento perfeito com D'us, ele nunca enfrentou o desafio de servir a D'us sob circunstâncias nas quais o relacionamento recíproco não podia ser percebido. Já Avraham e Yaacov se sobressaíram em sua conexão com D'us e no cumprimento das Mitzvót mesmo nos momentos em que o relacionamento parecia ser unilateral. Foi justamente por isso que seus méritos tiveram um impacto muito maior sobre os seus descendentes.

É neste sentido que o Baal HaTurim ressalta que somente Avraham e Yaacov receberam o título de "escravos de D'us", pois um escravo cumpre a vontade de seu dono independente se existe um relacionamento recíproco ou não. Já Ytzchak pode ser comparado a um filho cumprindo as ordens de seu pai, que apesar de ser um relacionamento em um nível mais alto, não é tão digno de louvor quanto a dedicação de uma pessoa que aceita ser um escravo e servir seu dono mesmo sem receber a satisfação de um relacionamento recíproco.

Portanto, a Parashá nos traz um incrível ensinamento de vida. Normalmente fugimos das dificuldades, e até mesmo sofremos antecipadamente por imaginarmos os eventuais testes que podem surgir em nossas vidas. Mas a Parashá nos ensina que as dificuldades nos fortalecem e nos trazem méritos, como ensinam nossos sábios: "De acordo com a dificuldade, assim é a recompensa" (Pirkei Avót 5:26). As dificuldades nos ajudam a desenvolver os músculos físicos e "espirituais" que estavam atrofiados. Por isso, quando surgirem dificuldades em nossas vidas, temos que levantar a cabeça e enfrentá-las com coragem, sabendo que estaremos dando importantes passos para o nosso crescimento espiritual.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
Lv 25:1-26:2
Lv 26:3-27:34
 
 
 
 
 

sábado, 17 de maio de 2014

FORÇA DA INOVAÇÃO - PARASHÁ BECHUKOTAI 5774

FORÇA DA INOVAÇÃO - PARASHÁ BECHUKOTAI 5774 (16 de maio de 2014)

Quando escutamos o nome de Abraham Lincoln, o 16° presidente dos Estados Unidos, pensamos que ele teve uma vida recheada de sucessos. Enquanto foi presidente, Lincoln liderou o país de forma bem-sucedida, mesmo durante sua maior crise interna, a Guerra Civil Americana, preservando a  união, conseguindo abolir a escravidão, fortalecendo o governo nacional e modernizando a economia. Abraham Lincoln é considerado um dos três melhores presidentes da história dos Estados Unidos.

Mas a verdade é que nem sempre foi assim. Seu caminho até o sucesso foi árduo e sofrido. Ele passou dificuldades na infância, quando seu pai perdeu toda a fortuna que tinha. Aos 23 anos tentou um cargo na política, mas perdeu a disputa. Aos 24 anos resolver abrir uma loja, mas faliu em pouco tempo. Aos 32 anos tentou montar um negócio de advocacia com alguns amigos, mas logo a sociedade se desfez. Aos 35 anos, passou pelo trauma de ver sua namorada falecer, e ainda resistiu a um colapso nervoso que teve aos 36 anos, que o fez passar um bom tempo no hospital.

Mas a vontade de entrar na política não havia desaparecido. Aos 45 anos ele disputou uma cadeira no senado, mas perdeu. Aos 47 anos ele concorreu à nomeação do partido republicano para e eleição geral, porém foi derrotado. Aos 49 anos tentou o senado e fracassou novamente. Somente aos 51 anos ele foi eleito o presidente dos EUA.

Será que seríamos capazes de fazer essa jornada? Falir, ser derrotado, perder entes queridos, adoecer, e mesmo assim não perder a vontade de continuar tentando alcançar o sucesso? Abraham Lincoln nos ensinou que esta é a fórmula dos vitoriosos: nunca desistir. Se ele não tivesse continuado, alguém se lembraria de Abraham Lincoln hoje em dia? Certamente que não. Mas ele escolheu entrar para a história e mudar o mundo. Ele poderia ter desistido diante das dificuldades, mas ele escolheu vencer e inovar. A cada derrota, Abraham Lincoln aprendeu a se reconstruir.

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Na Parashá desta semana, Bechukotai, a Torá nos afirma que quando seguirmos os caminhos que D'us nos comandou receberemos muitas Brachót (bênçãos), como fartura e segurança, mas se nos desviarmos dos caminhos corretos, tragédias terríveis acontecerão ao povo judeu. Estas palavras já se cumpriram em várias épocas da nossa história, tanto a Brachá, como durante o reinado de Shlomo Hamelech (Rei Salomão), quanto as tragédia, como nas destruições dos Templos Sagrados e nos exílios do povo judeu.

Porém, há algo que nos chama a atenção. No meio da descrição das tragédias condicionais, a narração é interrompida para trazer algumas palavras de consolo: "E Eu me lembrarei do Meu pacto com Yaacov, e também do Meu pacto com Yitzchak, e também do Meu pacto com Avraham Eu me lembrarei, e Eu me lembrarei da Terra" (Vayikrá 26:42). Mas por que a ordem na qual os patriarcas são mencionados está ao contrário da ordem cronológica? Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que se os méritos de Yaacov, o "menor" dos patriarcas, não for suficiente, então D'us levará em conta os méritos de Yitzchak. Se mesmo assim ainda não for suficiente, D'us levará em conta também os méritos de Avraham, o "maior" dos patriarcas. Mas por que Avraham é considerado o maior dos patriarcas? Qual característica fez com que ele tenha mais méritos do que Yitzchak e Yaacov?

Estamos sempre acostumados a associar Avraham apenas à característica de Chessed (bondade). Realmente sua tenda no deserto tinha quatro entradas, para que os visitantes se deparassem sempre com a porta aberta, não importando de que direção viessem. Além disso, a Torá descreve que Avraham recebeu os anjos fantasiados de simples beduínos como se fossem verdadeiros reis, servindo-os com as mais deliciosas comidas. Mas não foi apenas esta a característica de Avraham que o diferenciou de todas as outras pessoas. Ele tinha outra característica importante, que o fez chegar ao topo da espiritualidade: a força da inovação.

Se refletirmos sobre os testes de Avraham, perceberemos que foram muito mais difíceis de serem vencidos do que os dos outros patriarcas. Ele nasceu em um mundo onde todos, inclusive seus próprios familiares, eram idólatras. Seu desafio era criar, a partir do nada, uma perspectiva e uma forma de vida completamente novas, começando uma nova época na história. Para espalhar ao mundo inteiro o conceito da existência de D'us, Avraham teve que lutar contra todas as atitudes e estilos de vida prevalecentes na época e começar algo completamente novo, vagarosamente e com muita paciência. Ele poderia ter desistido diante das dificuldades, pois certamente teve muitas decepções e fracassos no caminho. Mas foi sua "força de inovação" que não o deixou desistir e possibilitou que ele tivesse sucesso.

Quando o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) descreve a contribuição de Avraham ao mundo, repete várias vezes que ele era um inovador, o revolucionário e pioneiro "fundador" do povo judeu. Avraham foi o primeiro em tudo o que fez. Ele não tinha modelos para seguir, estava sempre desbravando novos caminhos. Por isso, quando queremos nos comportar como Avraham, não devemos apenas desejar seguir seus passos em relação ao Chessed que ele fazia, mas também devemos almejar ter a sua força de inovação, que trouxe tantos benefícios ao mundo.

O Rav Shlomo Ephraim (Polônia, 1550 – Praga, 1619), mais conhecido como Kli Yakar, ressalta a importância da força de inovação. Durante a descrição da criação do mundo, ao final de cada dia a Torá termina com a frase "e viu D'us que era bom". A única exceção é o final do segundo dia da criação, onde nada está escrito. Explica o Kli Yakar que em todos os dias da criação algo novo foi criado, com exceção do segundo dia, quando D'us separou as águas de baixo e as águas de cima, que já existiam. Neste dia nada novo foi criado e, portanto, ele não foi descrito como um dia bom.

Existem inúmeras áreas nas quais a habilidade de inovar pode fazer muita diferença. É parte da natureza do ser humano deixar sua vida cair na força do hábito. Isto ocorre em vários aspectos, inclusive no crescimento espiritual, nos relacionamentos e nas habilidades de criar e construir. Nos acostumamos com nossa condição e estagnamos na vida. Um dos exemplos mais perceptíveis disso é a nossa Tefilá (reza), que muitas vezes é pronunciada de forma mecânica e desinteressada, apenas palavras que saem da boca e não do coração. Por isso, há momentos na vida em que é muito importante dar um passo para trás e avaliar onde são necessárias novas abordagens. Pois novas abordagens frequentemente nos trazem formas alternativas de lidar com situações problemáticas e difíceis.

Mas não adianta apenas querer inovar. Tão importante quanto tentar buscar novas abordagens para atingir um objetivo é estarmos dispostos a ir até o fim para alcançá-lo, apesar das dificuldades que naturalmente surgirão pelo caminho. Mudar significa sair da "zona de conforto", arriscar, buscar novos desafios. Podemos aprender isto através do exemplo de uma das maiores universidades do mundo. Qualquer pessoa que quer estudar em Harvard precisa inicialmente fazer um requerimento formal. O próximo passo é passar por uma entrevista, na qual o aluno mostra suas notas e descreve ao entrevistador detalhes da sua vida. O entrevistador então faz um relatório que, anexado às notas do estudante, é encaminhado ao "Escritório de Admissão de Harvard". De todos os pedidos encaminhados, apenas 6% são aceitos para cursar a faculdade. Muitos pensam que o único critério utilizado para a admissão são as notas dos alunos, mas isto não é verdade. O Escritório de Admissão deixa claro aos entrevistadores que eles devem buscam alunos que, além de terem boas notas, saíram de suas zonas de conforto. Harvard busca alunos que saíram dos seus limites e dos limites de suas escolas, comunidades e famílias. Harvard procura pessoas inovadoras, que estão dispostas a aceitar novos desafios e encontrar novas formas de resolver as dificuldades. Por que? Pois Harvard sabe que pessoas com este perfil são os que têm maior potencial de se tornarem, no futuro, pessoas de sucesso.

Somos descendentes de Avraham. Temos dentro de nós esta força de inovação, esperando para ser utilizada. Cada um de nós pode mudar o mundo, basta termos a coragem de sair da nossa zona de conforto e trabalharmos duro para alcançar o sucesso, sem desistir por causa dos obstáculos do caminho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
 
Lv 26:3-27:34, Je 16:19-17:14
 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O BENEFÍCIO DAS MITZVÓT - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5773


"Rafael (nome fictício) era um jovem estudante de Torá. Ele estava certa vez atravessando uma movimentada rua de Tel Aviv quando foi atingido por um carro que trafegava em alta velocidade. Apesar do motorista ter tentado brecar, o impacto foi forte e Rafael teve suas pernas duramente atingidas. Ele ficou estendido no meio da rua, esperando pelo socorro médico, sentindo terríveis dores. Um policial que passava por ali correu para dar os primeiros socorros e perguntou ao rapaz:

- A ambulância já está a caminho. Há algo mais que eu posso fazer para ajudá-lo?

- Sim – respondeu Rafael, se esforçando para dar um sorriso – Por favor, comece a cumprir o Shabat.

Um casal não religioso que passava por ali naquele momento e havia se juntado à grande multidão que se aglomerava em volta do rapaz acidentado ficou admirado com a resposta dele. Apesar da dor que estava sentindo, apesar de todo o sofrimento, a primeira coisa com que ele se preocupou foi a espiritualidade do policial que havia chegado para socorrê-lo.

Emocionado com a atitude do rapaz, aquele casal decidiu acompanhá-lo até o hospital, para garantir que ele seria bem atendido e teria todo o cuidado médico necessário. Eles visitaram Rafael todos os dias durante a sua internação e se alegraram muito quando ele se recuperou completamente do acidente. Daquele dia em diante eles mudaram suas vidas e começaram a se conectar mais com a Torá e suas Mitzvót. Quando as pessoas perguntavam o motivo da mudança repentina, eles explicavam:

- Agora nós entendemos o verdadeiro significado do estudo da Torá e do cumprimento das Mitzvót. Uma pessoa que vai para a Yeshivá (Centro de estudos de Torá) se transforma, de um animal que caminha sobre duas pernas, em um ser humano de verdade, que mesmo diante de grandes sofrimentos e dificuldades, consegue se preocupar com as outras pessoas e com o seu Criador" (História Real)


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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar e Bechukotai. A Parashá Behar fala de duas Mitzvót muito importantes: a Shmitá (Ano Sabático, que se repete a cada 7 anos, no qual todas as terras de Israel passam por um descanso, não sendo permitido nenhum tipo de trabalho agrícola) e o Yovel (Jubileu, que se repete a cada 50 anos, quando as terras em Israel voltavam aos seus antigos donos). Na Parashá Bechukotai a Torá enumera uma série de Brachót (Bençãos) guardadas ao povo judeu caso ele siga os caminhos de D'us e cumpra as Mitzvót, mas também descreve as terríveis maldições que recaem sobre o povo judeu caso a Torá e as Mitzvót sejam abandonadas.

Se observarmos as Brachót escritas na Parashá Bechukotai, perceberemos que elas estão escritas em uma aparente ordem crescente de conexão com D'us. Ele nos promete prosperidade, paz, segurança e que Sua presença repousará entre nós, isto é, no Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Mas depois disso são enumeradas outras Brachót que necessitam de uma explicação mais profunda. Por exemplo, está escrito "Meu Espírito não rejeitará vocês... e Eu conduzirei vocês de cabeça erguida" (Vayikrá 26:11,13). Em primeiro lugar, se estamos falando das Brachót que virão caso estejamos conectados com a Torá e as Mitzvót, por que D'us tem que nos dar uma Brachá na qual Ele garante que não nos rejeitará? Se Ele já garantiu que quando cumprirmos nossa parte Sua presença repousará entre nós, não é óbvio que Ele não nos rejeitará? E por que esta Brachá é tão elevada, a ponto de estar acima da Brachá da Presença Divina repousar entre nós?

Além disso, há uma dificuldade na Brachá "Eu conduzirei vocês de cabeça erguida". O Talmud (Brachót 43b) nos ensina que é proibido uma pessoa andar de cabeça erguida, pois isto demonstra arrogância, e é considerado pelo Talmud como "derrubar os pés da Presença Divina". Mas o próprio Talmud (Baba Batra 75a), quando comenta esta Brachá, explica que "andaremos na mesma altura e estatura do Beit Hamikdash". Como entender esta aparente contradição entre a proibição de andarmos de maneira que demonstra arrogância e a Brachá de que andaremos de cabeça erguida? E qual a conexão desta Brachá com o Beit Hamikdash?

De acordo com o Targum Yonatan, o versículo "Lo Tigal Nafshi Etchem", traduzido como "Meu Espírito não rejeitará vocês", também pode ser entendido de outra maneira. A Brachá não é que D'us não nos rejeitará, e sim que nós não rejeitaremos os mandamentos de D'us, isto é, a Sua Torá. Mas mesmo com este entendimento, a dificuldade continua. Não é óbvio que, no momento que estivermos cumprindo a vontade de D'us, não rejeitaremos Suas Mitzvót? E por que isto seria considerado um dos níveis mais altos de Brachá que podemos conseguir?

Explica o Rav Yohanan Zweig que uma das principais diferenças entre o ser humano e o resto do Universo, incluindo os seres espirituais, é que o ser humano tem livre arbítrio, enquanto as outras criaturas não. Mas o que significa ter livre arbítrio? Muitas vezes pensamos que o livre arbítrio é o direito de escolher entre o certo e o errado. Porém, isto não é verdade. Livre arbítrio é a possibilidade, mas não o direito, de desrespeitar os mandamentos de D'us. É por isso que, no final de nossas vidas, prestaremos contas dos nossos atos e sofreremos as consequências das nossas escolhas erradas, pois temos a possibilidade, e não o direito, de errar.

Porém, este entendimento pode criar no ser humano um sentimento de que as coisas são impostas sobre ele. E a consequência natural deste sentimento é que, mesmo quando a pessoa cumpre suas obrigações, fica uma sensação interna de resistência, uma vontade de tirar o peso das costas. É por isto que, em alguns casos, pessoas comprometidas como a Torá podem, após alguma dificuldade específica, se afastar completamente do caminho correto. Mas será que assim devemos viver e, mesmo quando fazemos o que é o correto, ficar com uma sensação ruim, que nos incomoda? É isto o que D'us quer de nós?

Obviamente que a resposta é não. D'us não nos deu as Mitzvót para nos prejudicar, para que sejam um peso nas nossas costas e nos causem um sentimento negativo. Temos obrigações na vida, temos um objetivo, mas as Mitzvót são mais do que apenas obrigações, são benefícios que D'us nos deu. E quando chegamos neste nível de entendimento, as Mitzvót deixam de ser algo pesado. Por exemplo, foi isto o que ocorreu quando o povo judeu recebeu a Torá no Monte Sinai e todos juntos proclamaram em uma só voz: "Cumpriremos e entenderemos". O que significou esta afirmação? Que naquele momento o povo judeu havia transcendido todos os sentimentos de imposição e resistência. O que eles estavam reconhecendo no Monte Sinai é que, através do cumprimento das Mitzvót, eles perceberiam os benefícios que elas trariam para suas vidas. O povo judeu havia entendido que, mais do que uma obrigação, as Mitzvót são uma grande oportunidade para atingirmos a perfeição.

A Torá nos possibilita entender nosso potencial e definir quem nós verdadeiramente somos. Portanto, aceitar a Torá não é uma imposição, e sim, o benefício máximo concedido por D'us para toda a humanidade. E esta é a maior forma de conexão com D'us, quando conseguimos superar qualquer sentido de resistência e imposição. A Brachá de que não rejeitaremos as Mitzvót significa que, se cumprirmos nossas obrigações, atingiremos este nível de superar qualquer resistência natural ao cumprimento delas. Esta Brachá foi deixada como uma das últimas, pois retrata um dos níveis mais elevados de conexão com D'us que podemos atingir.

Mas nos falta ainda entender a contradição entre a Brachá de andar de cabeça erguida com a terrível transgressão do orgulho. Para isso, precisamos nos aprofundar no entendimento do erro de sentir orgulho. Por que andar de cabeça erguida é algo tão negativo, comparado com "derrubar os pés da Presença Divina"? Pois o orgulho é o resultado da resistência que temos em aceitar a Torá de D'us. A arrogância do ser humano vem da necessidade de brigar pelos nossos próprios direitos, ao invés de entender quais são as nossas obrigações. Mas quando a pessoa chega ao nível de um relacionamento no qual não há nenhum tipo de resistência, ela se torna um utensílio que reflete a grandeza de D'us, e andar de cabeça erguida deixa de ser uma "rebeldia" e torna-se uma santificação do Seu Nome. É por isso que o Talmud afirma que "andaremos na mesma altura e estatura do Beit Hamikdash", pois da mesma maneira que o Beit Hamikdash reflete a honra de D'us, nós também podemos fazer com que nosso relacionamento com D'us possa refletir ao mundo inteiro a Sua honra.

Muitas pessoas ainda tem medo de se aproximar da Torá e das Mitzvót. É o receio de perder uma vida de prazeres e entrar em um estilo de vida de abstinência. Mas cada vez mais este conceito equivocado vem sendo derrubado. Quando temos contato com pessoas que vivem uma vida de Torá e Mitzvót, nos salta aos olhos a harmonia, os valores verdadeiros e a santidade da família. Prazeres materiais são passageiros, duram pouco tempo. Mas o prazer de saber que estamos fazendo o que é correto dura uma vida inteira.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Lv 25:1-26:2, Je 32:6-27, Lc. 4:16-21
Lv 26:3-27:34, Je 16:19-17:14, 2 Co. 6: 14-18
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sábado, 19 de maio de 2012

OLHE SEMPRE PARA CIMA – PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5772

"O Rav Mendel foi enviado para a Sibéria, onde permaneceu um longo tempo preso. Foram anos muito difíceis, mas lá ele aprendeu uma importante lição, que levou para toda a vida.
Seu companheiro de cela era um senhor cuja profissão era caminhar na corda bamba. Sua especialidade era esticar uma corda entre dois edifícios altos e atravessá-la, diante do olhar maravilhado e ansioso dos espectadores. Quando conseguia chegar ao outro lado, era ovacionado pelo público. O Rav Mendel quis entender como ele conseguia realizar tal proeza e perguntou:
- Eu sempre tive uma grande curiosidade. Quando você está lá no alto, suspenso no ar, sem nenhum lugar para se apoiar, como você faz para manter o equilíbrio?
O equilibrista abriu um sorriso, como uma criança que revela seu segredo, e disse:
- É muito simples. Antes de começar a travessia, procuro do outro lado algum objeto e me concentro nele. Não ouso tirar meus olhos daquele objeto enquanto estou caminhando. Não olho nem para a direita e nem para a esquerda. Somente assim, concentrado no meu objetivo e sem tirar os olhos do objeto, é possível atravessar utilizando uma corda bamba"
Este é um grande ensinamento para nosso cotidiano. Nossa vida é como uma corda bamba, pois se não tomamos cuidado, podemos cair a qualquer momento. O segredo é focar em D'us, colocando toda nossa confiança Nele, para conseguirmos assim vencer os desafios e dificuldades da vida.
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar e Bechukotai, que ensinam Mitzvót muito importantes. Por exemplo, a Parashá Behar começa com a Mitzvá de Shmitá, o Ano Sabático. Após seis anos de trabalho, os donos de terras em Israel não podem trabalhar em seus campos durante todo o sétimo ano, e devem deixá-los abertos a qualquer um que queira usufruir de seus frutos. Por um lado é uma Mitzvá muito difícil de ser cumprida, mas por outro lado é uma grande oportunidade espiritual, pois todos os que a cumprem da maneira correta conseguem enraizar no coração um dos fundamentos mais importantes do judaísmo: a Bitachon (confiança em D'us), a certeza de que D'us tem controle sobre tudo e cuida, de cada um de nós, com Hashgachá Pratid (Supervisão particular).
Quando um engenheiro constrói um prédio, precisa construir um sistema de distribuição de água, para que todos os moradores recebam, em seus apartamentos, água corrente para os mais diversos usos. As instalações de água são compostas por uma enorme caixa d'água localizada na cobertura, uma extensa rede de tubulações descendo pelo edifício e torneiras localizadas dentro dos apartamentos. Este sistema, se não for bem projetado e executado, pode trazer enormes dores de cabeça para os moradores. Por exemplo, o que aconteceria se o engenheiro, por desleixo, deixasse de fazer as tubulações? Mesmo se a caixa d'água estivesse cheia, os moradores não conseguiriam utilizar a água, mesmo abrindo as torneiras.
A Bitachón tem alguns pontos em comum com a tubulação de água de um edifício. Por exemplo, da mesma forma que a tubulação é o que faz a ligação entre a caixa d'água e as torneiras, assim também a Bitachón é a força que traz para o nosso mundo as Brachót criadas por D'us nos Mundos espirituais. Da mesma forma que não adianta abrir a torneira se não houver uma tubulação ligada até a caixa d'água, também não é possível receber Brachót sem que a pessoa desenvolva sua Bitachón.
Mas não é suficiente apenas fazer uma tubulação de qualquer jeito, sem o dimensionamento correto. Ela precisa ser larga, pois quanto mais largo for o tubo, maior a vazão de água que pode passar nele. Assim também é a Bitachón, a cada nível maior que chegamos, mais Brachót conseguimos trazer para este mundo.
E mais um ponto em comum interessante é que a tubulação de água precisa ser íntegra, isto é, sem furos ou rachaduras, pois nestes furos e rachaduras a água vaza e não chega às torneiras. Assim também a nossa Bitachón deve ser completa, devemos tirar do nosso coração qualquer dúvida ou insegurança, pois as dúvidas e inseguranças são sinais de que a nossa Bitachón ainda não é tão completa quanto deveria ser.
Mas como saber se estamos crescendo em Bitachón? Como saber, na prática, se a nossa Bitachón é completa ou se ainda temos "furos na nossa tubulação"? O livro "Chovot Halevavot" (Deveres do coração) ensina que há um indicador do nível de Bitachón: a tranquilidade da pessoa, mesmo diante dos testes e das dificuldades. A pessoa com elevado nível de Bitachón não se desespera diante de uma dificuldade ou sofrimento, ao contrário, fica tranquila e em silêncio, sem reclamações ou cobranças, pois sabe que tem em quem se apoiar, sabe que pode contar com o Criador, que controla todo o universo e nos criou apenas por bondade.
Porém, será que podemos aplicar este conceito à Mitzvá de Shmitá? Pois assim está escrito: "E se vocês disserem: O que vamos comer no sétimo ano, já que não vamos semear nem recolher nossas colheitas? Eu ordenarei Minha benção no sexto ano e farei com que tenham uma colheita para os três anos" (Vayikra 25:20,21). O que aprendemos destes versículos? Que as pessoas que questionarem D'us no ano de Shmitá, dizendo "O que comerei", receberão no sexto ano uma produção tripla, suficiente para os três próximos anos, até que a pessoa possa voltar a produzir e a colher suas frutas. Já as pessoas que não questionarem D'us, de acordo com os versículos, não receberão nada a mais de produção no sexto ano.
Estes versículos, portanto, despertam grandes questionamentos. Como se sustentam as pessoas que não questionam D'us, no ano de Shmitá e no ano seguinte? E como entender os ensinamentos sobre Bitachón se o que os versículos sugerem é justamente o oposto do foi ensinado, pois o correto seria a pessoa ficar tranqüila e quieta, com a certeza de que D'us cuidaria de suas necessidades, e qualquer questionamento seria um sinal de falta de Bitachón. Então por que a Torá diz que justamente uma produção tripla viria para aqueles que questionassem D'us, enquanto aqueles que não questionassem receberiam a mesma quantidade de produção? Isto não é completamente contraditório?
Explica o Sforno, comentarista da Torá, que havia duas maneiras da pessoa ter seu sustento garantido durante o ano de Shmitá e o ano seguinte. Uma maneira era a Brachá de D'us que fazia com que a produção no sexto ano fosse tripla. Mas esta Brachá vinha junto com grande dificuldade e esforço, pois no sexto ano a pessoa precisava trabalhar de maneira exaustiva, três vezes mais do que nos outros anos. Porém, havia outra maneira da pessoa ter seu sustento. Para as pessoas que não questionavam, D'us mandava Suas Brachót de maneira oculta, isto é, a pessoa trabalhava e colhia no sexto ano exatamente a mesma quantidade de comida, mas as coisas milagrosamente duravam 3 anos, pois a pessoa se saciava com muito menos.
Portanto, há uma grande diferença entre aquele que se cala e confia em D'us e aquele que reclama. Aquele que tem Bitachón recebe a verdadeira Brachá, de se saciar com o que já tem, sem nenhum esforço extra. Já aquele que reclama recebe, junto com o sustento, o triplo de trabalho e esforço. A reclamação demonstra falta de Bitachón e, por isso, mesmo que a pessoa receba seu sustento, recebe com um nível de Brachá muito menor.
Explica o livro "Lekach Tov" algo ainda mais profundo. Na realidade, a pessoa que reclama com D'us destrói sua tubulação espiritual, não merecendo mais receber, por seus méritos, as Brachót que estavam guardadas para ela no Céu. Então por que acontecia o milagre da produção tripla? Por causa de uma regra espiritual que "quando uma pessoa se ocupa de uma Mitzvá, nenhum mal pode atingi-la". Isto é, como a pessoa está cumprindo a Mitzvá de Shmitá, a Mitzvá a protege de passar fome e por isso a comida vêm, mas junto com um enorme esforço. A verdadeira Brachá, que traria toda a comida necessária sem nenhum esforço a mais, ela não merece, por ter destruído sua Bitachón.
E assim disse o profeta Irmiahu: "Bendito é o homem que confia em D'us" (Irmiahu 17:7). Quando a pessoa confia em D'us, ela torna-se uma pessoa bendita, isto é, merita todas as Brachót do Céu. E como ela demonstra que confia em D'us? Mantendo-se tranquilo e confiante mesmo diante das dificuldades, sabendo que não há nenhuma necessidade de se preocupar.
Este é um grande ensinamento para nossas vidas. Nossa falta de Bitachón nos faz sofrer por antecipação. Imaginamos que coisas terríveis vão acontecer e, na maioria das vezes, nossas previsões negativas não se cumprem. Perdemos a esperança, desistimos fácil demais. Portanto, aquele que tem Bitachón vive mais tranquilo, mais feliz, e garante que todas as Brachót guardadas para ele no Céu chegarão, mais cedo ou mais tarde, para beneficiá-lo.
"Obstáculos são aquelas coisas assustadoras que você vê quando tira os olhos da sua meta"

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Behár Lv 25:1-26:2, Lc. 4:16-21
Bechukotai Lv 26:3-27:34, Jr 16:19-17:14, Mt.22: 1-14