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sábado, 24 de setembro de 2016

AMOR PELO MATERIAL OU PELO ESPIRITUAL - PARASHÁ KI TAVÔ 5776

Certa vez o Rav Yitzchak Meir Rotenberg zt"l (Polônia, 1799 - 1866), mais conhecido como Chidushei Harim, estava viajando em uma carruagem puxada por dois cavalos. Depois de alguns quilômetros de viagem, um dos cavalos repentinamente caiu morto no chão. O condutor da carruagem, um homem muito simples, sentiu uma terrível tristeza pela perda de seu precioso cavalo. Sem alternativa, a viagem foi retomada com apenas um cavalo. Não haviam viajado muito quando o segundo cavalo também caiu morto no chão. O dono dos cavalos ficou arrasado. Aqueles cavalos significavam muito para ele, eram seu sustento, eram sua vida. Completamente desolado, o homem sentou-se no chão, abaixou a cabeça e começou a chorar. Chorou sem parar por um longo tempo, um choro amargo e triste. Chorou tanto que acabou morrendo ali mesmo.

O Chidushei Harim ficou muito assustado com aquela cena. Porém, o mais impressionante aconteceu naquela noite. Ele teve um sonho muito real, no qual viu o condutor da carruagem que havia morrido. Aquele homem, uma pessoa boa e pura, havia recebido o Olam Habá (Mundo Vindouro). Mas o que mais chamou a atenção do Chidushei Harim é que o Olam Habá daquele homem era uma linda carruagem puxada por dois magníficos cavalos.

O Chidushei Harim acordou assustado, pois entendeu o significado daquele sonho. Nosso Olam Habá é criado pelo que damos valor no Olam Hazé (mundo material). Para aquele homem, o que ele mais dava valor na vida eram seus cavalos e sua carruagem. Portanto, foi isso o que ele recebeu para toda a eternidade. 
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Nesta semana lemos a Parashá Ki Tavô (literalmente "Quando vierem"). A Parashá começa descrevendo a cerimônia de "Bikurim", na qual os primeiros frutos das sete espécies da Terra de Israel eram levados ao Beit Hamikdash (Templo Sagrado) e oferecidos ao Cohen. Além disso, a pessoa que oferecia os Bikurim lia uma enorme declaração de agradecimento a D'us por todas as bondades que havia recebido, desde a época dos nossos patriarcas, passando pela saída do Egito e terminando na conquista da Terra de Israel, uma terra boa e fértil. Mas grande parte da Parashá é dedicada a uma dura advertência, na qual Moshé ressalta os devastadores castigos que poderiam recair sobre o povo judeu caso se desviassem e não seguissem os caminhos da Torá. Qual é a conexão entre a oferenda dos Bikurim e as advertências?

Além disso, sabemos que estas advertências da Torá não foram apenas ameaças vazias. Infelizmente muitas destas tristes profecias se cumpriram na época da destruição dos nossos dois Templos e em outras épocas da nossa história. Porém, no meio das advertências trazidas pela Parashá, a Torá faz uma interrupção com o seguinte versículo: "Pelo fato de você não ter servido a Hashem, teu D'us, com alegria e bom coração, quando havia abundância em tudo" (Devarim 28:47). O que significam estas palavras?

O entendimento mais simples deste versículo é que tragédias recaem sobre o povo judeu quando não cumprimos as Mitzvót com alegria, apesar de termos sido abençoados com abundância em tudo (em hebraico "Rov Kol"). D'us não cobra um Serviço Divino exemplar nos momentos de dificuldades e aperto, pois Ele sabe o quanto é difícil nos concentrarmos nas nossas Mitzvót quando nosso coração está angustiado com as dificuldades e preocupado com problemas como a falta de dinheiro para pagar as contas no final do mês. Mas que desculpa temos quando está tudo bem, quando temos tranquilidade e abundância? Por isso, nestes momentos de Brachá (benção), a cobrança é muito mais severa e a falha em servir D'us com alegria e agradecimento é considerado algo muito mais grave e sem justificativas. A Parashá junta o assunto dos Bikurim com as advertências para nos ensinar a reconhecer o que temos de bom, as Brachót que temos na vida, e utilizar este sentimento para melhorar nosso Serviço Divino cotidiano. Caso não nos esforcemos para reconhecer o que temos de bom, faremos nosso Serviço Divino sem alegria, apesar de todas as Brachót que recebemos, e isto será considerado por D'us como algo muito grave.

Além desta explicação mais simples, o Rav Ytzchak Luria zt"l (
Israel, 1534 - 1572), mais conhecido com Arizal, um dos maiores Cabalistas da história do povo judeu, traz uma explicação mais profunda deste versículo. De acordo com o Arizal, o que a Torá está nos ensinando é que, mesmo se a pessoa cumpre as Mitzvót com certo grau de alegria, mas a principal alegria da sua vida não se deriva do seu Serviço Divino, e sim de uma alegria de "Rov Kol", que se refere às outras fontes de alegria, então a pessoa está desconectada da espiritualidade. E quando alguém se desconecta da espiritualidade, a conseqüência é que tragédias recaem sobre ela. Portanto, de acordo com esta explicação, a Torá está nos ensinando que não é suficiente apenas sentir alegria no nosso Serviço Divino, mas que a alegria que sentimos com este preenchimento espiritual deve ser muito maior do que qualquer outro prazer que se deriva dos nossos esforços no mundo material. Sentir esta alegria verdadeira é uma parte muito importante do nosso Serviço Divino.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que esta mensagem é especialmente importante para Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, que se aproxima. O principal trabalho que devemos fazer em Rosh Hashaná é reconhecer D'us como sendo o nosso Rei. Porém, na prática, como fazemos isso? Um aspecto significativo de reconhecer D'us como o nosso Rei é saber que Ele é a única Fonte de todo o prazer que verdadeiramente nos preenche e que qualquer outra fonte de prazer é vã e sem sentido. É por isso que Rosh Hashaná vem antes de Yom Kipur, pois este é um pré-requisito na nossa limpeza espiritual de Yom Kipur. Quando os desejos de uma pessoa não são direcionados para o nosso Serviço Divino, então eles são automaticamente desviados para os prazeres do mundo material, tornando-se praticamente impossível não cometer transgressões. Há muitos momentos na vida em que os desejos de uma pessoa se chocam com suas aspirações de cumprir a Vontade de D'us, causando um prejuízo ao cuidado que a pessoa tem com as Mitzvót. Portanto, qualquer arrependimento em Yom Kipur é incompleto se não mudarmos a perspectiva de como enxergamos a vida. Enquanto "dividirmos" o prazer de nos conectarmos espiritualmente a D'us com os prazeres do mundo material, nossa limpeza de Yom Kipur ainda deixará manchas que não foram apagadas.

Este conceito fica claro com a história que aconteceu com o Chidushei HaRim, através da qual aprendemos que uma pessoa que está presa aos seus desejos materiais, mesmo que consiga evitar as transgressões, ainda assim se deparará com consequências desagradáveis, pois a pessoa que se conecta de uma maneira muito forte com o mundo material termina perdendo sua conexão espiritual. Porém, ao refletirmos sobre esta história surge um grande questionamento. Por que o Chidushei Harim se assustou com o que viu em seu sonho? Se a carruagem e os cavalos eram coisas que aquele homem apreciava tanto, qual é o problema desta ser a sua recompensa no Olam Habá? Ele não ficou feliz com o que recebeu?
   
O Rav Yssocher Frand responde esta pergunta com uma história pessoal. Quando ele era pequeno, seu sonho era ganhar um estilingue para brincar com os meninos da rua. Porém, apesar de ter pedido aos pais diversas vezes, eles nunca concordaram em lhe dar um estilingue. Imaginem se, no dia do casamento do Rav Frand, instantes antes dele entrar na Chupá, seus pais se aproximassem com um enorme sorriso, estendessem uma linda caixa e dissessem: "Querido filho, este é um dia muito especial. Por isso queremos neste momento te presentear com um lindo estilingue, o presente que você sempre quis". Obviamente isto não faria nenhum sentido, pois aquele estilingue valia muito quando ele era apenas uma criança, mas agora ele já estava crescido demais para isso.

O mesmo ocorre quando estamos no mundo material. Dedicamos a vida para adquirir prazeres materiais, como dinheiro, posses e honra, acreditando que estas coisas nos trarão preenchimento. Mas quando chegarmos ao Olam Habá, veremos que isto se compara a um estilingue nas mãos de um noivo prestes a entrar na Chupá, isto é, veremos que todos estes prazeres materiais na realidade não têm valor verdadeiro nenhum. Assim nos ensina o Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), no primeiro capítulo do seu clássico livro "Messilat Yesharim" (Caminho dos Justos): "Qualquer coisa fora da proximidade de D'us que as pessoas acreditam que é algo bom, na verdade não é nada, é apenas vazio". No Olam Habá tudo vai estar claro, as ilusões cairão e então perceberemos o quanto eram sem sentido as coisas pelas quais dedicamos nossas vidas para adquirir neste mundo material.

Então o ideal é fazer voto de abstinência e viver em uma caverna? Não é tão simples assim. Em diversas fontes da Torá existem aparentes contradições sobre este assunto. Por exemplo, a Torá nos ensina "Sejam pessoas sagradas" (Vayikrá 19:2). O Talmud (Yebamot 20a) explica este versículo como sendo a obrigação da pessoa se santificar abstendo-se inclusive do que é permitido. Por outro lado, o Talmud (Nedarim 10a) afirma que o Nazir, pessoa que fez um voto de se abster por algum tempo do prazer de beber vinho, é chamado de "transgressor" por ter renunciado a um dos prazeres do mundo que D'us criou. Já o Talmud Yerushalmi (Kidushin 4:12) vai mais longe ao afirmar que a pessoa terá que prestar contas por todo o prazer que poderia ter obtido comendo algo (que é permitido), mas absteve-se deste prazer. Portanto, o que é o mais importante, conquistar o nosso lado animal, transcender o mundano e revelar a supremacia do espiritual sobre o material, ou devemos encontrar a bondade de D'us nos prazeres do mundo material que Ele nos deu?

A resposta está na diferença entre dois níveis espirituais, a "Prishut" (se abster do mundo material) e a "Kedushá" (santificar o mundo material). Prishut significa a pessoa se abster de qualquer prazer material, vivendo apenas com o que é extremamente necessário para manter sua saúde. Kedushá significa utilizar os prazeres do mundo material, mas de uma maneira completamente controlada, visando sempre o crescimento espiritual. Neste nível, os prazeres materiais não precisam ser anulados, eles podem ser canalizados para nos dar força e energia no nosso trabalho espiritual. De acordo com o livro Messilat Yesharim, apesar dos dois níveis serem elevados, a Prishut é apenas uma preparação para alcançar a Kedushá, um nível no qual estamos muito mais próximos de D'us. A Prishut nos ensina a ter autocontrole, a saber dominar nossos desejos, mas o ideal é viver com Kedushá, canalizando os nossos prazeres da maneira correta, usando os prazeres materiais que D'us nos deu para potencializar nosso lado espiritual.

As "broncas" da Parashá são um forte lembrete de que não é suficiente apenas cumprir as Mitzvót, mas também devemos olhar o mundo espiritual como a força principal que impulsiona nossas vidas. Honra, poder, dinheiro e comida, desconectadas de um contexto espiritual, são fontes ilusórias de prazer. Fazer de D'us o nosso Rei significa internalizar que Ele é a única e verdadeira Fonte de alegria e prazer.
QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22

sexta-feira, 10 de junho de 2016

PAZ ENTRE O MATERIAL E O ESPIRITUAL - SHAVUÓT 5776

O Rabi Elimelech de Lisensk era visto por todos como um homem muito justo e santo, com muito temor a D'us. Certa vez, um jovem quis visitar o Rabi Elimelech para observá-lo e aprender um pouco com a sua santidade. Porém, assim que chegou, se deparou com o Rabi Elimelech comendo uma maça. Aquela cena incomodou o jovem, pois a última coisa que ele esperava ver era aquele rabino tão elevado envolvido com atos mundanos. Ele ficou tão incomodado que o Rabi Elimelech conseguiu perceber isso em seu rosto. Então o Rebe Elimelech questionou o rapaz se estava tudo bem. Pego de surpresa, o jovem rapaz ficou envergonhado e confessou:

- Rabi Elimelech, vou ser muito sincero. Vim aqui para ver a sua santidade, mas quando cheguei você estava comendo uma maça, um simples ato mundano. Então eu me perguntei qual é a diferença entre eu e você...

Quando o Rabi Elimelech escutou o questionamento que incomodava o jovem rapaz, abriu um sorriso e apontou para a travessa de frutas que estava sobre a mesa. Ele perguntou ao rapaz se, quando tinha vontade de comer uma maça, ele fazia Brachá (bênção) antes de comê-la. O jovem rapaz não entendeu exatamente a intenção do rabino com aquela pergunta e respondeu que sempre fazia Brachót antes de ter proveito de qualquer alimento. O Rabi Elimelech então explicou:

- Todos os dias de manhã, quando eu acordo e faço Tefilá (reza), eu me conecto com D'us de uma maneira tão intensa que sinto a necessidade de abençoar o Seu Nome Sagrado. Porém, se eu simplesmente pronunciasse o Nome de D'us, seria uma grave transgressão. Então eu pego uma maça e faço uma Brachá, apenas para poder abençoar o Nome de D'us. Quando você acorda, você sente fome e quer comer uma maça. Porém, como é proibido ter proveito do mundo material sem pedir permissão para D'us, então antes de comer você pronuncia uma Brachá. Esta é a diferença entre eu e você...

Enquanto o jovem utilizava a maça apenas para satisfazer seus próprios desejos, o Rabi Elimelech usava a maça como um meio para conectar o material com o espiritual.
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Nesta semana lemos a Parashat Bamidbar (literalmente "No deserto"), que começa com a contagem do povo judeu. É o início do quarto livro da Torá, Bamidbar, que descreve muitos acontecimentos importantes dos 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto, alguns que inclusive mudaram nossa história. Mas nada foi tão marcante e significativo para o povo judeu quanto a entrega da Torá no Monte Sinai. E no final do Shabat começamos a reviver a Festa de Shavuót, a data que marca justamente o aniversário da entrega da Torá ao povo judeu. Todas as Festas têm símbolos físicos que as identificam. Por exemplo, Sucót tem a Sucá e os Arba Minim (4 espécies), enquanto Pessach tem a Matzá. Mas qual é o símbolo da festa de Shavuót? Na realidade, como Shavuót representa a entrega da Torá, que é infinita e ilimitada, ela não pode ser representada por nenhum objeto físico.

Entretanto, há um ensinamento do Talmud que parece ser contraditório com o conceito da Festa de Shavuót ser tão espiritual. O Talmud (Pessachim 68b) traz uma divergência entre o Rebi Yehoshua e o Rebi Eliezer em relação a como uma pessoa deve se comportar nos Yamim Tovim. Rebi Yehoshua opina que a pessoa deve dedicar parte do seu tempo em seu desenvolvimento espiritual, mas o resto do tempo ela pode se dedicar a prazeres físicos. Já o Rabi Eliezer opina que é impossível a pessoa estar envolvida em espiritualidade e materialismo ao mesmo tempo, e por isso ela deve escolher focar apenas em um deles. A implicação prática da opinião do Rabi Eliezer é que no Yom Tov a pessoa deveria focar apenas em atividades espirituais, como estudar Torá e fazer Tefilá, e não se envolver com prazeres físicos, como comer e beber. Entretanto, o Talmud ressalta que em relação a Shavuót até mesmo o Rebi Eliezer concorda que a pessoa também deveria se envolver com comida e bebida. A razão trazida pelo Talmud é que neste dia a Torá foi entregue. Porém, se a festa de Shavuót é tão espiritual a ponto de não ter nem mesmo um símbolo físico que a representa, então por que justamente neste dia o Rabi Eliezer concorda que devemos nos ocupar também com prazeres físicos? E o motivo apontado pelo Talmud, "pois neste dia a Torá foi entregue", torna o entendimento ainda mais difícil. Este motivo pareceria mais apropriado se o Rabi Eliezer opinasse o contrário, isto é, que principalmente em Shavuót, um dia tão Sagrado e elevado, a pessoa deveria se dedicar completamente a atividades espirituais. Como entender a opinião aparentemente contraditória do Rabi Eliezer e o estranho motivo trazido pelo Talmud? Qual é a conexão entre a utilização de prazeres do mundo material e a Festa de Shavuót?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a chave para o entendimento destas questões é um ensinamento do Talmud (Shabat 88b), que descreve o que ocorreu após a Revelação de D'us no Monte Sinai. Moshé subiu ao Céu para aprender toda a Torá diretamente de D'us. Porém, os anjos se incomodaram com o atrevimento de um mero ser humano ter aparecido nas esferas celestiais superiores. Eles argumentaram que o ser humano não era merecedor de receber a Torá por causa de sua natureza física baixa, e que eram os anjos que deveriam receber a Torá. D'us instruiu Moshé a refutar o argumento dos anjos, e ele fez isso citando diversos aspectos e leis da Torá que são claramente voltados para os seres humanos. Por exemplo, a Torá nos proíbe de fazermos Melachót (algumas categorias de trabalho) no Shabat, proibição que obviamente não se aplica aos anjos, que não fazem Melachót em nenhum momento. O Talmud conclui afirmando que tanto D'us quanto os anjos aceitaram os argumentos de Moshé.

Porém, este ensinamento do Talmud precisa ser esclarecido. Como entender esta "vontade" dos anjos de receberem a Torá ao invés dos seres humanos? Certamente os anjos estavam cientes do conteúdo da Torá, e seguramente já haviam percebido que a Torá estava claramente direcionada aos seres humanos e não aos seres espirituais. Então como pode ser que eles esperavam receber a Torá?

O Rav Chaim Friedlander zt"l (Alemanha, 1923 - Israel, 1986) explica que a Torá pode ser entendida em muitos níveis, e o simples entendimento com o qual nos relacionamos com a Torá é apenas uma das formas de entendimento dela. Isto significa que a Torá também se aplica aos anjos em seu nível de existência. Por exemplo, certamente há um paralelo espiritual para a proibição de fazer Melachót no Shabat que se aplica aos anjos, e o mesmo vale para cada palavra da Torá. O que os anjos estavam argumentando é que a Torá deveria permanecer no Céu, onde eles poderiam aprendê-la em um nível muito mais profundo, não "manchada" pelo mundo material.

Mas se este foi o argumento dos anjos, o que Moshé respondeu para eles? Moshé refutou o argumento dos anjos dizendo que a Torá foi feita para ser entendida e aplicada em um nível físico, e não para ficar apenas em um plano espiritual. Ele comprovou seu argumento mencionando diversas Mitzvót que envolvem conceitos materiais, demonstrando que a Torá foi intencionalmente escrita de uma maneira que pudesse ser aplicada a seres físicos. Quando um ser humano consegue superar sua natureza física para cumprir a vontade de D'us, isso causa um aumento da "Honra de D'us" muito maior do que quando um ser puramente espiritual age de acordo com sua natureza. Portanto, Moshé provou para os anjos que, apesar da possibilidade da Torá ser aplicada a qualquer nível espiritual, os anjos não poderiam cumprir as Mitzvót da Torá de maneira que isto trouxesse o máximo nível de honra para D'us.

O Talmud nos ensina o quanto o corpo e o materialismo foram importantes no recebimento da Torá no Monte Sinai. O fato dos seres humanos estarem conectados ao mundo material foi, no final das contas, a razão pela qual nós tivemos o mérito de receber a Torá. Isto nos permite entender a conexão entre Shavuót e o foco em prazeres materiais. Shavuót é o dia em que o mundo espiritual e o mundo físico se combinaram no Har Sinai. Nesta ocasião especial e única, a Torá, que é completamente espiritual, foi vestida com roupas físicas para que pudéssemos nos elevar através do seu cumprimento.

É por isso que o Rabi Eliezer, apesar de opinar que nos outros Yamim Tovim devemos nos dedicar apenas ao espiritual, concorda que em Shavuót também devemos proporcionar prazeres ao nosso corpo. Em Shavuót nós devemos demonstrar um nível maior de gratidão ao nosso corpo, pois o corpo material foi justamente o que causou a vitória dos argumentos de Moshé sobre os argumentos dos anjos. No dia de Shavuót nós intencionalmente nos envolvemos com o mundo material, e comemos e bebemos com fartura e alegria.

Mas então por que o Rabi Eliezer não opina como Rabi Yeoshua, que nos outros Yamim Tovim nós também podemos fazer uma combinação entre o material e o espiritual? Explica o Rav Yehonasan Gefen que aparentemente o Rabi Eliezer opina que um foco excessivo no materialismo causa danos inevitáveis à nossa espiritualidade. Mas em Shavuót é diferente, pois há uma energia especial através da qual o materialismo e a espiritualidade não se contradizem e, ao contrário, podem trabalhar juntos para trazer uma revelação maior da Honra de D'us. O Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, faz uma observação interessante que se conecta com este conceito. Em todos os Yamim Tovim eram oferecidos, como Korbanót (sacrifícios) comunitários, o "Korban Olá" (sacrifício de elevação), cuja característica é o Korban ser completamente queimado sobre o Mizbeach (altar). A única exceção é Shavuót, quando o Korban comunitário era um "Korban Shelamim" (sacrifício de paz), que parte era queimado sobre o altar e parte podia ser consumido por quem havia oferecido o Korban. Isto demonstra que Shavuót é o dia em que há paz entre o material e o espiritual, entre os mundos superiores e os mundos inferiores.

Shavuót nos ensina sobre a conexão e a interação positiva entre o corpo e a alma. Esta lição pode ser aplicada para o resto do ano, pois através dos nossos esforços podemos elevar nossas atividades físicas mundanas a um nível espiritual. Mas não é uma tarefa fácil atingir o equilíbrio correto entre o material e o espiritual, pois há sempre o risco de nos envolvermos demasiadamente no mundo material e acabarmos buscando apenas a satisfação do corpo, sem canalizar os prazeres materiais para o lado espiritual. O Rav Avigdor Miller zt"l nos ensina uma maneira prática para evitarmos este tipo de armadilha. Ele sugere que, ao menos uma vez por dia, devemos fazer atos mundanos cotidianos com um esforço consciente de que este ato seja "LeShem Shamaim" (com motivações espirituais). Um exemplo prático é justamente em uma das áreas mais "atrativas", e justamente por isso mais difíceis de conseguirmos ter proveito com a intenção correta: a área alimentar. Pelo menos uma vez por dia a pessoa deve focar na sua alimentação com a única intenção de manter seu corpo forte e saudável para que ela possa fazer seu Serviço Divino, evitando neste ato comer apenas para satisfazer os seus desejos físicos mais básicos. O Rav Avigdor Miller nos garante que, através de pequenos esforços de autocontrole como este, a pessoa pode se elevar aos poucos e aprender a canalizar suas intenções em todos os atos mundanos, para que o mundo material se transforme, pouco a pouco, em espiritualidade e crescimento.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
NÚMEROS l:l – 4:20, Os 2:1-22
Chag HaShavuôt - Ex. 19:1-20:23

sábado, 2 de maio de 2015

CONTINUE ANDANDO - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5775

"Nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, os corredores estavam preparados para a largada da semifinal da prova de 400 metros rasos masculina. Entre eles estava um jovem inglês, Derek Redmond, um dos favoritos para a grande final. Quando foi dada a largada, os competidores começaram a disputa de forma acirrada, cada um no limite do seu esforço físico. Derek estava bem na corrida, e vinha com boas chances de classificação. Eram segundos decisivos na vida daqueles que haviam treinado e se preparado tanto, e estavam ali para fazer valer o esforço de uma vida de dedicação.
 Derek Redmond tinha um motivo a mais para querer a vitória. Quatro anos antes, nas Olimpíadas de Seul, ele havia passado por cinco operações em ambos os tendões. Após muito esforço, ele havia conseguido se recuperar e participar daquela olimpíada. Porém, no meio da corrida, seu tendão direito se rompeu. Derek foi ao chão, sentindo muita dor. Era o fim do sonho, e agora restavam apenas a tristeza e a dor. As câmeras não focalizaram Derek caído, e sim o campeão Steve Lewis, que havia completado a prova em 44s50.

Mas Derek Redmond não desistiu. Determinado a concluir a prova, ele se levantou com muita dificuldade e, saltando com apenas uma das pernas, retomou a corrida, obviamente sem a menor chance de classificação. Foi quando seu pai, Jim Redmond, de 49 anos de idade, desceu a arquibancada, escalou a cerca de proteção e saltou para a pista antes que qualquer fiscal pudesse impedi-lo. Ele alcançou seu filho, abraçou-o e ajudou-o a caminhar.

A multidão, de pé, começou a aplaudir ao perceber que Derek Redmond estava participando da corrida da sua vida. O jovem corredor apoiou sua cabeça no ombro direito do pai e juntos eles percorreram o que restava da pista até a linha de chegada, sob os aplausos de incentivo da multidão de mais de 60 mil espectadores. Derek não venceu a corrida, mas naquele dia ele saiu de lá como um grande vencedor".

Dificuldades e tropeços na vida sempre existirão. Mas não podemos parar, não podemos desistir. Temos que continuar sempre buscando o nosso crescimento, nos esforçando um pouco mais a cada dia. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót e Kedoshim. Enquanto a Parashá Acharei Mót descreve os serviços feitos pelo Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) em Yom Kipur, a Parashá Kedoshim traz várias Mitzvót "Bein Adam LeHaveiró" (entre o homem e seu semelhante), nos ensinando que, para chegarmos ao nível de sermos Kedoshim (pessoas sagradas), não podemos focar apenas no nosso relacionamento com D'us, também devemos ser muito cuidadosos no nossos relacionamento com o próximo.

Na Parashá Acharei Mót, no meio da descrição de algumas Mitzvót, a Torá nos traz um mandamento genérico: "E cumpram Minhas Leis, e guardem Meus Estatutos, para andar neles, Eu sou Hashem teu D'us" (Vayikrá 18:4). O que significa a expressão "andar" em relação às Mitzvót? E o que esta expressão acrescenta neste comando genérico de cumprir as Mitzvót da Torá?

Explica o Rav Avraham Shmuel Binyamin (Eslováquia, 1815 - 1872), mais conhecido como Ktav Sofer, que muitas vezes podemos aprender o verdadeiro significado de uma palavra estudando o seu oposto. Neste caso, o oposto de "andar" seria "ficar parado", que em hebraico é "omed". Em muitas situações o Tanach utiliza esta expressão em relação aos anjos, como em uma das visões do profeta Yeshayahu: "Os Serafim (tipo de anjo) estavam parados ("omdim") sobre ele" (Yeshaiahu 6:2). Mas qual é o sentido da Torá dizer que os anjos estavam "parados"? Segundo o Ktav Sofer, esta expressão é utilizada para ensinar que os anjos se mantêm estacionados em seu nível espiritual, isto é, eles não têm conexão com o conceito de "crescimento espiritual". Apesar de terem sido criados em um nível espiritual muito elevado, eles não crescem mais. Já a linguagem "andar" foi utilizada em relação ao ser humano, para ensinar sobre a sua possibilidade de crescer e melhorar continuamente seu nível espiritual através de seu esforço, evitando permanecer espiritualmente parado.

O mesmo conceito é utilizado pelo Ktav Sofer nas palavras iniciais da Parashá Bechukotai: "Se vocês andarem nos Meus Estatutos, e guardarem as Minhas Mitzvót, e as cumprirem" (Vayikrá 26:3). A expressão "andarem nos Meus Estatutos" significa que não é suficiente manter as Mitzvót todos os dias exatamente no mesmo nível em que as cumprimos nos dias anteriores, ao contrário, devemos constantemente crescer em nosso nível espiritual, cumprindo cada uma das Mitzvót de uma maneira melhor e mais louvável a cada dia.

Das palavras do Ktav Sofer aprendemos dois conceitos muito importantes. Em primeiro lugar, que não é suficiente nos acomodarmos na vida, achando que ao cumprir algumas Mitzvót já fazemos tudo o que é necessário no nosso trabalho espiritual. A Torá ressalta que devemos estar constantemente nos esforçando para continuar crescendo, não apenas acrescentando Mitzvót que ainda não cumprimos, mas tentando sempre melhorar ainda mais as Mitzvót que já cumprimos. Um segundo ponto interessante é perceber que, se a Torá repetidamente utiliza a linguagem de "parado" em relação aos anjos, isto significa que permanecer parado não é uma opção para os seres humanos. A Torá explicitamente nos comandou a "andar nas Mitzvót", isto é, a continuar crescendo sempre, pois apenas os anjos conseguem permanecer estacionados em sua espiritualidade sem cair para trás. Já os seres humanos, que não têm esta característica, caso não estejam crescendo, automaticamente estão caindo espiritualmente.

Este conceito também pode ser visto em uma interessante Halachá (Lei Judaica). A Torá nos ensina que em relação ao Mizbeach (Altar de Sacrifícios) há um pequeno detalhe construtivo, como está escrito: "Você não deve subir no Meu Mizbeach através de degraus" (Shemot 20:23). Como o Mizbeach tinha cerca de um metro e meio de altura, então os Cohanim subiam nele através de uma rampa. Explica o Rav Motty Berger que o final do versículo traz um motivo explícito para esta proibição de subir no Mizbeach através de degraus, que está relacionado com o conceito de "Tzniut" (recato). Porém, há outro incrível ensinamento por trás desta proibição. Quando uma pessoa está subindo uma rampa íngreme, se ela não faz nenhum esforço, a inclinação da rampa faz com que ela naturalmente caia para trás. O esforço precisa ser grande não apenas para subir, mas até mesmo para ficar parado no mesmo lugar. Já em uma escada, quando a pessoa está subindo, é possível ficar parada em um dos degraus sem o risco de cair para trás, pois a superfície onde ela está pisando é plana. Portanto, a proibição de utilizar degraus no Mizbeach nos ensina que, quando estamos fazendo o nosso Serviço Divino, não podemos ficar parados, pois nossa subida espiritual não ocorre como alguém que sobe em uma escada, e sim como alguém que sobe em uma rampa.

Mas por que uma pessoa que não faz esforços ativos para se manter espiritualmente acaba caindo, ao invés de ficar parada no mesmo nível? Pois o nosso Yetzer Hará (má inclinação) está o tempo inteiro nos puxando espiritualmente para baixo. Se a pessoa não aplica uma força ativa para crescer, então ela automaticamente cai, pois o Yetzer Hará a puxa para baixo e não há nenhuma força contrária para mantê-la estável. Já os anjos, que não têm Yetzer Hará, podem se manter constantes mesmo sem precisar de nenhum tipo de esforço.

Mas não é fácil colocar este conceito tão importante no coração. Uma das grandes dificuldades é que olhamos para pessoas que não demonstram estar fazendo nenhum esforço ativo para crescer, e mesmo assim parece que elas estão se mantendo no mesmo lugar, elas não demonstram estar se deteriorando espiritualmente. Mas a verdade é que o nosso Yetzer Hará nos derruba com sabedoria, de maneira que não conseguimos perceber. Ele vai atacando devagarzinho a pessoa, fazendo-a gradualmente se enfraquecer no cumprimento das Mitzvót. O processo é tão sutil que dificilmente é percebido pelos que estão observando-a de fora. Normalmente nem mesmo a própria pessoa está realmente consciente de seu processo lento de declínio espiritual. Ela fica tranquila, pensando que está estável, mas a verdade é que sem esforços a pessoa vai dando ao Yetzer Hará pequenos avanços que, somados, se tornam grandes derrotas.

Outra forma do Yetzer Hará nos atacar é através da força do costume. Quando uma pessoa não se esforça para melhorar em áreas onde ela ainda tem alguma deficiência, ela vai caindo cada vez mais na armadilha do hábito. E quanto mais uma pessoa repete um mau hábito, mais vai se tornando difícil se separar deste comportamento errado. Cada transgressão cria uma pequena "linha" que nos conecta um pouco mais aos maus hábitos. Aquela frágil linha, que em um primeiro instante poderia ser facilmente rompida, vai se acumulando até tornar-se uma corda grossa, muito difícil de ser arrebentada.

D'us poderia ter criado o mundo da maneira que quisesse. Portanto, tudo o que Ele criou é necessário, e tem como um de seus propósitos nos ensinar como funcionam as regras do mundo espiritual. Por exemplo, uma das coisas que D'us criou foi a força da gravidade. O que podemos aprender com a força da gravidade? Que o tempo inteiro estamos sendo puxados "para baixo". Mesmo ficar parado de pé exige esforço. Para saltarmos é necessário um esforço ainda maior. D'us nos dá, através da força da gravidade, um exemplo de que estamos o tempo inteiro sendo espiritualmente puxados para baixo. Sem nenhum esforço, acabamos no chão, sem nenhuma espiritualidade. Mesmo para nos mantermos parados de pé é necessário continuamente nos esforçar. E para subir precisamos utilizar ainda mais energia.

Aprendemos deste conceito da Parashá o quanto é fundamental nos esforçarmos ativamente para continuar crescendo espiritualmente, e que não existe para o ser humano a possibilidade de ficar parado constantemente no mesmo nível espiritual. Este ensinamento é ainda mais importante nesta época do ano. Passamos pela festa de Pessach, que representa a força de renovação do povo judeu, e estamos agora nos dias da Contagem do Omer, que fazem a conexão entre a saída do Egito e o recebimento da Torá no Monte Sinai. Da mesma forma que nestes dias o povo judeu cresceu, do pior nível de impureza até o nível de estarem prontos para receber a Torá, assim também temos a enorme oportunidade de crescer, nestes dias tão propícios, em todas as áreas espirituais. O mais importante é nunca desistir, apesar das dificuldades que surgem no nosso caminho, e continuar "andando nas Mitzvót", para conseguirmos vencer a corrida da vida.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Lv 16:1-18:30, Am 9:7-15 (Ash.), Ez. 22:1- 16 (Sef.)
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.)