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sábado, 29 de agosto de 2015

SACRIFÍCIO PELOS FILHOS - PARASHAT KI TETSE 5775

Certa vez Yaacov (nome fictício) foi falar com o Rav Elazar Menachem Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) da Yeshivá de Ponovich, em Bnei Brak. Ele tinha uma interessante pergunta em relação à Mitzvá de "Kibud Av Ve Em" (honrar os pais):

- Rav, nesta semana meu pai me pediu para que eu parasse de fumar. Eu tenho obrigação de escutá-lo?
- Não entendi sua pergunta - respondeu o Rav Shach - É óbvio que você tem o dever de escutá-lo, por causa da Mitzvá de "Kibud Av Ve Em"!
- Mas Rav - insistiu Yaacov - eu já fumo há muitos anos, e será um enorme sacrifício conseguir parar de fumar. Por isso eu estou perguntando se realmente eu preciso escutar meu pai...
- Como você pode considerar a possibilidade de não escutar seu pai apenas pelo fato de ele ter pedido algo difícil? Você acha que isto te isenta da obrigação de escutá-lo? - questionou o Rav Shach - Eu já fui fumante, sei o quanto é difícil parar de fumar. Mas a verdade é que milhares de dificuldades como esta não chegam nem a um milésimo do que nós devemos aos nossos pais. Ao invés de pensar no sacrifício que você terá que fazer pelo seu pai, você alguma vez já parou para pensar quantos sacrifícios ele já fez por você na vida?

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Nesta semana lemos a Parasha Ki Tetse, que traz uma das Mitzvót mais enigmáticas da Torá: o "Shiloach HaKen". Se uma pessoa encontra um ninho de pássaro e a mãe está lá, cuidando dos seus ovos ou dos seus pequenos filhotes, a Torá proíbe a pessoa de pegar a mãe junto com os ovos ou os filhotes. O correto é primeiro espantar a mãe, garantindo sua liberdade, e somente depois pegar os ovos ou os filhotes. Mas qual é a lógica desta Mitzvá?
Há alguns detalhes que tornam esta Mitzvá ainda mais interessante e enigmática. Por exemplo, a Torá descreve explicitamente a recompensa daqueles que a cumprem: "Para que seja bom para você e seus dias se prolonguem" (Devarim 22:7). Mas por que uma recompensa tão grande, de prolongamento da vida, para uma Mitzvá aparentemente tão simples, de espantar um pássaro do seu ninho? Qual mensagem D'us quer nos transmitir ao valorizar tanto esta Mitzvá?
 
Além disso, a Torá detalha as 613 Mitzvót que D'us nos comandou no Monte Sinai, sendo que 248 delas são Mitzvót positivas (Mitzvót que devemos ativamente cumprir, como fazer o Brit Milá no 8º dia de vida de um bebê ou colocar Tefilin) e 365 são Mitzvót negativas (Transgressões que devemos evitar, como o "Não matarás" e o "Não roubarás"). As Mitzvót negativas normalmente têm o seu castigo explicitamente escrito na Torá, mas as recompensas das Mitzvót positivas não estão escritas. As duas únicas exceções em toda a Torá são as Mitzvót de "Shiloach HaKen" e "Kibud Av ve Em", pois apesar de serem Mitzvót positivas, suas recompensas estão explícitas na Torá.
Ao observarmos as recompensas explícitas destas duas Mitzvót positivas, algo nos chama ainda mais a atenção: a recompensa das duas Mitzvót é exatamente a mesma. Enquanto em relação ao "Shiloach HaKen" está escrito "Para que seja bom para você e seus dias se prolonguem" (Devarim 22:6,7)", em relação ao "Kibud Av Ve Em" está escrito "Para que se prolonguem seus dias" (Shemot 20:12). Porém, estas parecem ser Mitzvót muito diferentes e sem nenhum tipo de vínculo entre elas. Então por que a Torá somente ensinou a recompensa destas duas Mitzvót positivas, e por que justamente as duas têm exatamente a mesma recompensa? Há algum ponto em comum entre elas?
 
Responde o Rav Yaacov Weinberg zt"l (Israel, 1923 - EUA, 1999) que o ponto em comum é a Messirut Nefesh (auto sacrifício) que as duas Mitzvót envolvem, e em ambos os casos a Torá oferece uma grande recompensa como um estímulo para o reconhecimento desta Messirut Nefesh envolvida nelas.
Quando a Torá nos instruiu a honrar os nossos pais, um dos motivos é para nos fazer reconhecer os enormes sacrifícios que os pais fazem pelos seus filhos. Esta verdadeira "entrega total" já começa durante a gravidez, quando a vida dos pais começa a sofrer mudanças. A mãe começa a sentir náuseas, tonturas e um cansaço fora do normal, mudando toda a rotina do casal. Depois do nascimento a situação fica ainda mais complicada, pois as tranquilas noites de sono se transformam em noites de vigília, tanto durante a amamentação quanto nas noites em que as crianças ficam doentes e precisam dos cuidados dos pais. E como diz o famoso ditado, "pequenas crianças, pequenos problemas; grandes crianças, grandes problemas", pois conforme a criança vai crescendo, assim também as preocupações dos pais com o seu bem estar, com a sua educação e com as dificuldades naturais do seu crescimento. E talvez o auge de todo o stress seja o momento do casamento dos filhos, quando recai sobre os pais o grande peso de arcar com as despesas da festa e de uma possível ajuda financeira ao novo casal. Portanto, ser pai significa abrir mão de seu próprio conforto em prol do conforto dos seus filhos. A Torá oferece esta recompensa incrível, o prolongamento dos dias de vida, para aquele que cumpre a Mitzvá de honrar os pais justamente para que as pessoas se esforcem para apreciar, reconhecer e agradecer toda a Messirut Nefesh feita por eles desde a sua concepção.
É exatamente o ponto da Messirut Nefesh pelos filhos que conecta a enigmática Mitzvá de "Shiloach HaKen" com a Mitzvá de "Kibud Av Ve Em". Qualquer pessoa que já tentou pegar um pássaro com suas próprias mãos sabe que isto é uma missão praticamente impossível. Os pássaros são muito ágeis e levantam voo ao menor sinal de ameaça. Em uma praça cheia de pombas, basta chegarmos perto e elas já levantam voo para alcançar algum lugar mais seguro. Existe uma única forma de agarrar um pássaro com as nossas próprias mãos: no momento em que ele está no ninho, cuidando de seus filhotes ou chocando seus ovos. Por que? Pois como qualquer outra mãe, o pássaro está disposto a sacrificar sua própria liberdade apenas para estar junto com os filhotes, tentando protegê-los de qualquer perigo.
Esta é a essência da Mitzvá de "Shiloach HaKen". Ao nos obrigar a espantar a mãe, a Torá está nos proibindo de tirar vantagem do imenso sacrifício que uma mãe faz pelos seus filhos, que é parte de seu instinto maternal. Não podemos aprisionar o pássaro nos aproveitando deste momento de "fraqueza". Portanto, quando damos para a mãe dos filhotes a sua liberdade, deixando-a ir embora, estamos evitando utilizar contra ela o atributo de se sacrificar pelos filhos. De certa maneira isto também é uma forma de apreciar e reconhecer o ato de Messirut Nefesh de uma mãe pelos seus filhos, e por isso as duas Mitzvót estão tão conectadas. E em ambas as Mitzvót, pelo fato de estarmos reconhecendo e apreciando o amor maternal e a enorme preocupação que os pais têm com seus filhos, acabamos nos tornando merecedores de receber uma recompensa tão grande quanto o alongamento dos dias.
Desta Parashat aprendemos o quanto é querido aos olhos de D'us darmos o devido valor a todo o sacrifício que nossos pais fizeram ou continuam fazendo por nós. Na verdade, a Mitzvá de "Kibud Av Ve Em" é tão importante que não termina nem depois do falecimento dos pais. Mesmo depois que eles já partiram deste mundo, continuamos obrigados a honrá-los e a fazer de tudo para elevar suas almas. A Halachá (Lei Judaica) exige que, ao se referir aos nossos pais, mesmo já falecidos, devemos fazê-lo sempre de uma maneira muito honrosa e respeitosa.
Infelizmente vivemos de acordo com aquele ditado que diz que "somente damos valor para a luz quando ela falta". Somos tão egoístas que, na maioria das vezes, somente aprendemos a dar valor aos nossos pais quando nós temos os nossos próprios filhos e sentimos na pele as dificuldades de criá-los. Através destas duas Mitzvót tão especiais, de "Shiloach HaKen" e de "Kibud Av ve Em", D'us nos estimulou a prestarmos mais atenção nas coisas boas que recebemos dos nossos pais e a refletirmos sobre o quanto eles se dedicaram e se dedicam por nós, e o quanto devemos a eles as nossas próprias vidas e tudo o que recebemos de bom deles.
"Um pai consegue cuidar de 10 filhos, mas 10 filhos não conseguem cuidar de um pai"
"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA)
SHABAT SHALOM                                        
Rav Efraim Birbojm
Dt. 21:10-25:19, Is. 54:1-10

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

EDUCANDO NOSSOS FILHOS NOS DIAS DE HOJE - PARASHÁ KI TETSÊ 5773


Era uma sexta-feira fria de inverno, e Alexandre foi com seu filho Guilherme para a Mikve (local de imersão ritual) da cidade, para fazer um mergulho de purificação antes do Shabat. Apesar de normalmente haver um sistema de aquecimento da água, naquele dia o sistema não estava funcionando e quem quisesse mergulhar na Mikve precisava de muita coragem para enfrentar o frio.

Mas Guilherme não era de desistir tão fácil e decidiu que entraria na água assim mesmo. Alexandre ficou esperando seu filho do lado de fora, já segurando uma toalha quentinha. Quando Guilherme entrou na água, estava tão fria que ele instintivamente gritou: “Aiaiai”. Mergulhou rapidamente 3 vezes e saiu da Mikve. Lá fora, seu pai rapidamente o enrolou com a toalha quentinha. Quando sentiu aquela sensação gostosa de calor, ele exclamou com alívio e prazer: “Ahhhhh”. Alexandre aproveitou a situação para ensinar a Guilherme uma importante lição de vida:

- Meu filho - disse Alexandre - aproveite este momento para aprender uma importante regra. Há uma maneira simples de saber se você está fazendo a coisa certa ou não. Se você faz algo que no início dizemos “Aiaiai” e no final dizemos “Ahhhhh”, isto é sinal de que você está fazendo a coisa certa. Mas se você começa com o “Ahhhh” e termina com o “Aiaiai”, é sinal de que você está provavelmente no caminho errado...”
Apesar de parecer uma piada, vemos estas palavras se cumprindo nos nossos dias. Aqueles que vivem de acordo com as Mitzvót da Torá começam com regras e limitações, mas acabam tendo uma vida mais harmônica e feliz em todas as áreas. Já aqueles que começam apenas buscando preencher seus prazeres, apesar de realmente os encontrarem no começo, depois acabam sofrendo em várias áreas da vida. Depressão, alta taxa de divórcios e delinquência juvenil são apenas alguns exemplos do preço que pagamos pela busca desenfreada de prazeres imediatos.
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No início da Parashá desta semana, Ki Tetsê, a Torá nos ensina sobre um assunto que desperta muitos questionamentos: o “Ben Sorer Umorê” (filho teimoso e rebelde), um jovem que não respeita os limites impostos pelos pais e começa a se afundar na vida, tornando-se um glutão e um beberrão, e chegando ao ponto de roubar os próprios pais para manter seus vícios. A Torá nos ensina que este jovem recebia pena de morte por seu comportamento inadequado. Mas vemos atualmente tantos jovens que não respeitam seus pais, e adolescentes que têm cada vez menos limites, será que o “Ben Sorer Umorê” não é apenas a descrição de um jovem normal, mas com problemas de conduta? Então por que uma punição tão grave?

Explicam nossos sábios que este jovem, com a idade próxima dos 14 anos, apesar de não ter cometido nenhum crime capital, demonstra estar entrando em um caminho de profunda e crescente queda espiritual. Seu comportamento decadente, como o absurdo de chegar a roubar dinheiro dos próprios pais para alimentar seus vícios, indica que ele futuramente será uma pessoa totalmente sem limites, que chegará até mesmo a matar para obter o que deseja. O Talmud (Sanhedrin 72a) ensina que o jovem não recebia pena de morte por sua condição atual, e sim por causa dos seus prováveis futuros atos. Por misericórdia, era melhor que ele morresse jovem, quando ainda era inocente, do que quando já fosse culpado por crimes graves como assassinato.

Mas este conceito se contradiz com outro ensinamento da Torá, descrito no Livro de Bereshit. Após Sara perceber o quanto Ishmael, filho de Avraham com sua escrava Hagar, era uma péssima influência para seu filho Yitzchak, ela pediu para que Avraham os expulsasse de casa. Para Avraham, expulsar seu próprio filho era uma decisão muito difícil, mas D’us confirmou que era o correto a se fazer. Hagar e Ishmael, que em pouco tempo de caminhada chegariam a alguma cidade povoada, se perderam no deserto e ficaram sem água. Ishmael ficou encostado em uma árvore, à beira da morte, e Hagar se afastou para não presenciar a morte do filho. Um milagre então aconteceu e um anjo revelou para Hagar uma fonte de água, de onde ela conseguiu encher seu cantil e salvar a vida de seu filho. Porém, há um Midrash (Torá Oral) que ensina que os anjos imploraram para que D’us não salvasse a vida de Ishmael, pois sabiam que dele sairia no futuro um povo que perseguiria e causaria muitos sofrimentos ao povo judeu. D’us respondeu aos anjos que a pessoa é julgada de acordo com o seu estado presente e não de acordo com o que ocorrerá no futuro.

Mas qual a diferença entre Ishmael, que foi julgado pelos seus atos presentes, e o “Ben Sorer Umorê”, que era julgado por seus atos futuros? Da mesma forma que o “Ben Sorer Umorê” já tinha desde cedo um comportamento inadequado, nossos sábios ensinam que também Ishmael já tinha desde cedo uma conduta muito ruim, envolvendo-se em idolatria, tentativa de assassinato e relações ilícitas. Então por que D’us julgou Ishmael de maneira tão leniente, enquanto o “Ben Sorer Umorê” é julgado de forma tão dura?

Além disso, o Talmud (Sanhedrian 71a) afirma que, por causa de todos os requisitos necessários para que um jovem se torne um “Ben Sorer Umorê”, nunca ocorreu e nunca ocorrerá um caso com este. Por que a Torá precisa nos ensinar que este filho “Ben Sorer Umorê” nunca existirá na prática? E se é uma lei que nunca será aplicada, então por que foi ensinada na Torá?

Explica o Rav Yohanan Zweig que, observando os pré-requisitos para um jovem se tornar um “Ben Sorer Umorê”, podemos responder todos os questionamentos. O Talmud traz uma lista destes pré-requisitos: os pais deste jovem devem ter vozes similares, não podem ter nenhum problema de fala, visão ou audição, não podem ter nenhum membro do corpo faltando e a cidade onde este jovem vive deve ter um Beit Din (Tribunal Rabínico). O que estes pré-requisitos todos têm em comum?

Embora o ambiente e as influências externas negativas não possam ser utilizados para isentar uma pessoa das responsabilidades por seus maus atos, certamente eles podem incliná-la a agir de maneira equivocada. Isto quer dizer que nem sempre o comportamento de uma pessoa é o reflexo de sua essência. E se o comportamento negativo da pessoa é fruto das influências do ambiente, então ainda há esperanças de que ele mudará, pois não necessariamente sua essência foi corrompida. Por outro lado, se o comportamento negativo de uma pessoa não é por influencia do ambiente, isto quer dizer que seu comportamento é o real reflexo de sua essência e, portanto, há poucas esperanças de que esta pessoa conseguirá mudar seus caminhos.

Segundo a Torá, para um jovem ser considerado um “Ben Sorer Umorê”, é necessário ter a certeza de que seus atos são reflexo total de sua verdadeira essência e não foram influenciados pelo ambiente. Quando o Talmud diz que as vozes dos seus pais devem ser semelhantes, isto significa que eles não podem transmitir ao filho, através de ensinamentos ou broncas, mensagens contraditórias. Os pais devem, antes de tudo, chegar a um acordo do que eles esperam do seu filho e devem transmitir isto de uma maneira clara. Além disso, os pais devem ser vistos pelo filho como autoridades legítimas e absolutas, que exigem o devido respeito do filho. Portanto, os pais devem ter os membros perfeitos e devem poder falar, enxergar e escutar, pois a falta de qualquer um destes itens pode impedir os pais de projetarem sobre o filho a figura de autoridade. E para ser um local saudável, a cidade deve ter um Beit Din, que transmita aos moradores o temor de cometer transgressões e os valores necessários para criar na cidade um ambiente onde educar os filhos seja algo positivo.

Portanto, quando o Talmud diz que nunca haverá um caso real de “Ben Sorer Umorê”, nossos sábios estão afirmando que é impossível existir um ambiente tão perfeito e utópico como este que não cause absolutamente nenhum efeito negativo sobre uma criança. Por isso nunca haverá uma criança, por pior que seja seu comportamento, cuja má índole seja reflexo apenas de seu interior corrompido.

Isto explica o comportamento misericordioso de D’us com Ishmael. Embora desde cedo ele tivesse um desvio grave de comportamento, se envolvendo com os piores tipos de transgressão, isto não refletia sua verdadeira essência. Ele foi fortemente influenciado por sua mãe, Hagar, que havia sido no passado uma princesa egípcia, uma idólatra que vinha de um povo completamente imoral. O crescimento de Ishmael e sua educação também ocorreram em um ambiente conturbado, de constante conflito entre Sara e Hagar. Isto explica porque Ishmael não é chamado, durante este período, pelo seu nome, e sim como “o filho da escrava” (Bereshit 21:10), ou simplesmente “o jovem” (Bereshit 21:12). O nome representa a essência da pessoa, e aquela não era a essência verdadeira de Ishmael, e sim o reflexo de um ambiente muito negativo. Isto permitiu com que D’us o julgasse de forma mais leniente, levando em consideração que sua verdadeira essência não estava completamente corrompida. E isto se confirmou no final de sua vida, quando Rashi, comentarista da Torá, afirma que Ishmael fez Teshuvá (se arrependeu por seus maus atos).

Mas ainda fica a pergunta mais intrigante: Se o Talmud afirma que um caso de “Ben Sorer Umorê” nunca acontecerá na prática, então para que a Torá nos ensinou estas leis? Para nos indicar qual o padrão perfeito para uma sociedade. Este padrão deve ser o modelo que devemos buscar implantar em nossa sociedade para tentarmos criar um ambiente saudável, onde poderemos criar nossos filhos com sucesso.

Deste ensinamento fica uma preciosa lição. Por que temos atualmente tantos jovens com problemas, que se envolvem desde cedo com os piores tipos de vícios? Pois os pais acreditam que mandando o filho para o colégio estão automaticamente fazendo a sua parte na educação dele. Mas isto é um grande equívoco, pois os colégios cumprem o objetivo de informar os alunos, não de formar. Um bom colégio é aquele que prepara o jovem para o vestibular, não aquele que prepara o jovem para a vida. Assim vemos não apenas jovens sem educação, mas também muitos profissionais desonestos e imorais. Aprendemos desde cedo que sucesso é conseguir preencher todos os nossos desejos, e fazemos isto mesmo que seja necessário passar por cima dos outros para atingir nosso objetivo. Por isso a cultura ocidental, com pouco mais de 200 anos de existência, já apresenta visíveis sinais de decadência, enquanto o judaísmo, com mais de 3 mil anos, continua vivo e estável.

A boa educação não vem da escola, vem de casa. A presença constante dos pais é um requisito fundamental para que os filhos recebam uma boa educação, principalmente na sociedade em que vivemos, onde o consumismo tornou-se a principal meta de vida. Se a criança aprende que o principal na vida é o que o dinheiro pode comprar, assim será seu comportamento por toda a vida. É obrigação dos pais ensinar que, antes de ser um engenheiro, médico ou advogado, a pessoa deve ser um “Mentch” (ser humano decente).

SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida)
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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Dt. 21:10-25:19, Is. 54:1-10, I Co.5:1-5

sábado, 1 de setembro de 2012

DEVOLVENDO BONDADES – PARASHÁ KI TETSE 5772

O Sr. Ackerman estava desesperado. A situação financeira de sua Yeshivá, localizada na cidade de Bnei-Brak, estava muito difícil, e ele precisava juntar U$ 25 mil para aliviar um pouco a situação, mas não sabia por onde começar. Viajou para Jerusalém, onde pensava ser mais fácil conseguir o dinheiro. Lá ele encontrou, em uma sinagoga, um famoso filantropo americano que estava de férias em Israel. Convidou-o para jantar e, durante a refeição, contou sobre as dificuldades financeiras da Yeshivá. O filantropo se sensibilizou com a causa e fez uma proposta incrível. Ele fez um cheque de U$ 5 mil e disse que se o Sr. Ackerman conseguisse até o dia seguinte mais U$ 10 mil, ele completaria os U$ 10 mil que faltavam.
O Sr. Ackerman ficou empolgado. No dia seguinte de noite já tinha conseguido os U$ 10 mil. O filantropo então tirou o talão de cheques e preencheu com o valor que faltava. Então, olhando emocionado para o Sr Ackerman, o filantropo falou:
- Você deve estar curioso para saber por que eu doei tanto dinheiro para sua Yeshivá. Eu vou lhe contar uma história que aconteceu há 25 anos. Quando eu era jovem, eu era tão pobre que meus pais não tinham dinheiro nem mesmo para me comprar um chapéu para meu casamento. No dia do casamento eu tomei coragem e fui até a loja de chapéus da cidade, cujo dono era judeu, e expliquei que me casaria naquele dia. Pedi que ele me desse um chapéu e me comprometi a pagar no dia seguinte, com o dinheiro que ganharia de presente. O dono da loja confiou em mim e me deu o chapéu. Lembrei então que meus pais também não teriam dinheiro para comprar os vinhos para o casamento. Fui até a loja de bebidas, cujo dono também era judeu, e ele também confiou em me dar as bebidas. Era um milagre, tudo estava dando certo demais naquele dia.
- Foi então que eu vi você na rua, Sr. Ackerman - continuou o filantropo - Naquela época, você era o mais fantástico dançarino das festas judaicas. Você alegrava os casamentos e transformava as festas em algo inesquecível. D'us já havia me ajudado tanto que eu resolvi arriscar mais uma vez. Apresentei-me e te convidei para o casamento. Você não prometeu nada, mas anotou o endereço do salão e falou que tentaria ir. No meio das danças, você entrou correndo na pista e dançou de forma magnífica. Os convidados adoraram, ficaram muito felizes. Você ajudou a tornar aquela a melhor noite da minha vida.
- Quando chegou o fim da noite - concluiu o filantropo - eu jurei para mim mesmo que algum dia eu retribuiria de alguma maneira por sua bondade. Graças a D'us eu tive sucesso na vida e enriqueci muito. E quando você veio falar comigo, mesmo 25 anos depois, eu te reconheci, e percebi que era o momento de retribuir aquele enorme presente que você me deu. Por isto estou te dando esta enorme doação agora.
Os dois se abraçaram, comovidos, e agradeceram um ao outro pelas bondades feitas de coração.
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Na Parashá desta semana, Ki Tetse, a Torá descreve que, por algum tipo de má-índole intrínseca ou algum comportamento oposto à essência do povo judeu, alguns povos podem até mesmo se converter ao judaísmo, mas não podem se casar com os judeus. Para alguns povos a proibição de se casar é apenas temporária, isto é, por algumas gerações, enquanto para outros povos a proibição é eterna. Entre aqueles que a proibição é apenas por algumas gerações estão os egípcios, como está escrito: "Não abominarás o egípcio, pois peregrinos vocês foram na terra dele" (Devarim 23:8). Mas por que receber os egípcios como parte do nosso povo por termos sido peregrinos em sua terra? Qual a conexão entre as duas coisas?
Imagine que você, recém casado, está desesperado em busca de um lugar para morar. Você encontra então uma pessoa que lhe oferece uma casa para alugar. Você gosta da casa e decide aluga-la, e durante muitos anos o convívio com o dono da casa é agradável. Com o tempo, a família cresce e você sente a necessidade de ir para um lugar maior. Você encontra um lugar mais adequado e decide se mudar. Mas no momento de ir embora, o dono da casa não permite sua saída e subitamente se torna uma pessoa perversa. Ele te obriga a pessoalmente fazer melhorias em todo o apartamento, sem pagar nenhum centavo. Para piorar, ele te causa sofrimentos físicos e psicológicos por meses e meses, sem descanso. Será que seria necessário guardar qualquer sentimento de gratidão por este "louco", que no princípio nos forneceu um lugar para morar, mas que depois nos causou tantos sofrimentos?
Diz o Rav Yeruham HaLevi Levovitz que a mesma pergunta se aplica a este ensinamento trazido na Parashá. É verdade que nos hospedamos por muito tempo no Egito, desde que Yaacov desceu para lá com seus filhos e netos, fugindo da seca que assolou a terra de Israel. E é verdade que no início fomos bem recebidos e vivemos no Egito com tranquilidade. Porém, após a morte de Yossef e seus irmãos, o comportamento dos egípcios mudou completamente. Nossa "hospedagem" se transformou em um verdadeiro inferno. Fomos escravizados e castigados com os piores requintes de crueldade. Nossos bebês foram atirados vivos no Rio Nilo e nosso povo foi quebrado pelo jugo do trabalho pesado, pelo qual não receberam um único centavo. Por mais que os egípcios nos fizeram bem no princípio, no final eles nos fizeram muito mal. Então, por que mostrar qualquer tipo de gratidão, recebendo-os como parte do povo judeu, depois de tanto sofrimento que eles nos causaram?
A pergunta fica ainda mais difícil ao observarmos que, poucos versículos antes, a Torá proíbe para sempre os homens dos povos de Amon e Moav de se casarem com mulheres judias, mesmo depois de se converterem. Nos chama a atenção o motivo apresentado pela Torá: "Pelo fato que eles não te receberam com pão e água no caminho, quando vocês estavam saindo do Egito (Amon), e porque eles contrataram contra vocês Bilaam... para amaldiçoar vocês (Moav)" (Devarim 23:5). Mas diferente dos egípcios, Amon e Moav não nos causaram sofrimentos físicos, não nos escravizaram e nem atiraram nossos bebês vivos no rio. Então, por que D'us foi mais rigoroso com os povos de Amon e Moav do que foi com os egípcios?
A resposta é um dos mais importantes fundamentos do judaísmo: o "Akarat Hatóv" (reconhecer as bondades recebidas). Os povos de Amon e Moav eram "parentes" do povo judeu. Eles descendiam das filhas de Lót, o sobrinho de Avraham. Quando Lót foi sequestrado, Avraham arriscou sua própria vida e não mediu esforços para salvá-lo. Mas os povos de Amon e Moav não tiveram Akarat Hatóv. Apesar de deverem suas vidas a Avraham, eles foram incapazes de dar pão e água quando os judeus estavam famintos no deserto. Mas não porque eram pobres, pois apesar da obrigação de retribuir o bem recebido, eles preferiram gastar seu dinheiro para contratar Bilaam, na tentativa de destruir o povo judeu. Portanto, Amon e Moav demonstraram que não possuem entre suas características o Akarat Hatóv. Por isso não podem se casar, para sempre, com mulheres judias, pois o Akarat Hatóv é um dos principais pilares do povo judeu.
Mas até onde vai a obrigação de Akarat Hatóv? Será que se uma pessoa nos faz um bem, mas depois nos faz mal, mesmo assim ainda estamos obrigados a reconhecer e retribuir o bem que recebemos? A Parashá nos ensina que sim. Os egípcios nos fizeram muito mal, eles quase nos destruíram, fisicamente e espiritualmente, mas mesmo assim a Torá nos obriga a aceitá-los. Por que? Pois eles nos receberam como peregrinos em sua terra em um momento em que não tínhamos mais para onde ir. As coisas ruins que eles nos fizeram não apagam as coisas boas que recebemos deles e, portanto, não nos isenta da obrigação de Akarat Hatóv.
Ensina o livro Tomer Dvora, do Rav Moshe Cordovero, que devemos sempre guardar com toda nossa força as coisas boas que recebemos dos outros, enquanto devemos minimizar e esquecer as coisas ruins, pois é assim que D'us se comporta conosco. Ele guarda para sempre cada Mitzvá que fazemos, mas as Aveirót (transgressões) Ele tenta limpar rapidamente. Para que possamos meritar os prazeres eternos do Mundo Vindouro, D'us não "desconta" as Mitzvót com as transgressões. Por isso, não devemos utilizar as coisas ruins para "descontar" as coisas boas que as pessoas nos fizeram.
Muitas vezes não apenas não nos comportamos da maneira que D'us se comporta, mas fazemos justamente o contrário. Por anos recebemos bondades das pessoas, mas na primeira "pisada de bola" jogamos fora todo o sentimento positivo e o nosso Akarat Hatóv. Frequentamos por anos uma instituição, recebendo bondades e atenção, e após um único desentendimento, decidimos nunca mais pisar neste lugar. Pior ainda, muitas vezes deixamos de manter ou ajudar instituições por pequenas falhas cometidas, depois de termos recebido anos e anos de ajuda. Certamente é o oposto de como esperamos que D'us se comporte conosco.
Este ensinamento é particularmente importante para esta época do ano. Estamos no mês de Elul, o último mês do ano, a época de preparação para o julgamento de Rosh Hashaná, onde nossas próprias vidas, e cada detalhe de tudo o que ocorrerá no próximo ano, estarão em jogo. Ensina o Tomer Dvora que da maneira que nos comportamos aqui embaixo, assim D'us se comporta conosco. Se esquecermos as coisas boas que recebemos e guardarmos as coisas ruins, D'us também fará isto no nosso julgamento, e infelizmente não faltam erros e transgressões que fizemos durante o ano. Mas se guardarmos as coisas boas e esquecermos as coisas ruins, então D'us certamente nos ajudará no nosso julgamento.
"SHETICATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA).
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Dt. 21:10-25:19, Is. 54:1-55:5, I Co.5:1-5
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domingo, 11 de setembro de 2011

O VALOR DA NOSSA HERANÇA – PARASHÁ KI TETSE

"Sam havia perdido muito dinheiro com a queda das bolsas e estava traumatizado com a idéia de novos investimentos. Certo dia seu amigo Bill, dono de uma empresa de investimentos, ligou para ele e disse:
- Meu querido amigo Sam, eu tenho informações privilegiadas sobre um excelente investimento. É garantido que o investimento dobrará de hoje para amanhã. Queria te dar esta oportunidade, para te ajudar a recuperar seu dinheiro perdido. Invista comigo R$ 10.000 e vamos dobrar este valor.
Mas Sam não queria escutar de investimentos. Ele lembrava o que havia acontecido quando seguiu as "informações privilegiadas" de outros investidores. Agradeceu a oferta mas preferiu não investir nada.
Uma semana depois, Sam recebeu um telefonema de Bill, contando que havia investido os R$ 10.000 e o investimento havia dobrado. Bill avisou que tinha informações de que o investimento continuaria dobrando, e novamente convidou Sam a se juntar a ele nesta empreitada. Mas novamente Sam não aceitou.
Mais uma semana se passou e Bill ligou novamente, informando que os R$ 10.000 haviam sido reinvestidos e agora ele já acumulava R$ 40.000. Pela terceira vez ele convidou Sam a investir junto com ele, garantindo que o investimento novamente dobraria, mas Sam teve medo de arriscar.
Alguns meses se passaram e um dia o telefone de Sam tocou. Era Bill:
- Eu quero lhe dizer uma coisa. Você se lembra de quando, meses atrás, eu te convidei a investir comigo R$ 10.000? Bem, hoje meu dinheiro rendeu e eu tenho mais de 1 milhão. Mas eu não esqueci de você. No meu investimento inicial eu separei R$ 10.000 do meu dinheiro e investi em seu nome. Agora você tem mais de um milhão te esperando no banco. Nós somos bons amigos e eu me importo muito com você, Sam"
Alguém faria por nós um negócio como este? Sim, este 'investimento" existe e já foi feito por nós durante a história do povo judeu. Desde Moshé até Maimônides, do Templo Sagrado à Israel dos nossos dias, os nossos antepassados lutaram e se sacrificaram para construir e nos deixar um legado judaico. Um legado de sabedoria, de idealismo, de educação e de valores. Nossos antepassados construíram uma fortuna que está apenas esperando por nós. Por 3.000 anos o povo judeu tem guardado um grande tesouro acumulado. Somos os descendentes e esta é a nossa herança milionária, que temos agora a oportunidade de receber em nossas mãos e passá-las para os nossos filhos e descendentes.
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Por mais de 3.000 anos o povo judeu sobreviveu a vários tipos de ataques e tentativas de extermínio. Dos egípcios aos gregos, dos romanos aos nazistas, muitos foram os que se levantaram contra nós e não tiveram sucesso em nos exterminar. Mas infelizmente há um inimigo que o povo judeu não está conseguindo vencer: a assimilação. Muitos judeus têm abandonado o judaísmo sem nem mesmo saber o que estão deixando para trás. Mais de 3.000 anos de sabedoria, conhecimento e valores, que nos foram entregues diretamente pelo Criador do mundo e transmitidos de geração em geração. Mas afinal, o que há de tão especial no judaísmo, pelo qual nossos antepassados muitas vezes deram a vida para nos manter este legado?
No mundo há milhares de religiões, que prometem para seus fiéis a Vida Eterna. Mas quantas religiões ensinam as pessoas a serem pessoas melhores neste mundo, a respeitarem mais os outros, a serem retos em todos os atos do cotidiano? Em muitas religiões, para receber a Vida Eterna basta acreditar em um salvador, não é necessário mudar nenhum ato nem se esforçar. O judaísmo nos ensina que o único caminho para chegar à Vida Eterna é através do nosso esforço para cada dia se elevar um pouco mais espiritualmente, e as melhorias devem ser tanto em relação à D'us quanto em relação aos nossos semelhantes. Mesmo nas atividades cotidianas mais simples há sempre como crescer e melhorar.
Um exemplo da contribuição que a Torá dá ao mundo está na Parashá desta semana, Ki Tetse. A Parashá nos ensina muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), e entre elas está a Mitzvá de "Hashavat Aveidá" (devolver ao dono um objeto perdido). Não apenas a Torá nos obriga a devolver um objeto que encontramos, mas somos proibidos de ver um objeto perdido e fingir que não o vimos para nos isentar da obrigação e do trabalho de devolver o objeto ao dono. Porém, se refletirmos um pouco, será que esta não é uma Mitzvá lógica, que cumpriríamos mesmo se a Torá não nos tivesse ensinado?
Apesar de parecer algo simples, esta é uma Mitzvá muito difícil de ser cumprida, e é um grande teste de honestidade e sensibilidade. Quando encontramos um objeto perdido na rua, principalmente se for algo de valor elevado, é muito tentador ficar com o objeto, mesmo sabendo que é de outra pessoa. Afinal, ninguém está olhando e ninguém vai ficar sabendo mesmo. Além disso, já que não sabemos quem perdeu o objeto, a vítima torna-se alguém "sem rosto", ficando mais fácil racionalizar o roubo e enganar o nosso lado racional. D'us nos comandou esta Mitzvá para que possamos trabalhar a nossa honestidade mesmo quando ninguém está olhando. Fora isso, a Mitzvá de "Ashavat Aveidá" também nos ajuda a ter mais sensibilidade, a sentir um pouco a dor dos outros, a quebrar o nosso egoísmo.
E a grande novidade é que, apesar de ser algo lógico, se D'us não nos tivesse comandado a devolver um objeto encontrado, provavelmente não o faríamos. Temos uma prova disso ao comparar os valores ensinados pelo judaísmo com os "modernos" valores da nossa sociedade. Por exemplo, segundo nossos valores ocidentais, "achado não é roubado". Quem definiu isso? Quem escolhe o que é roubo e o que não é? Os valores da nossa sociedade variam de acordo com as nossas necessidades e conveniências. Fixamos as regras de acordo com nossos interesses momentâneos. Será que isso é fazer o que é correto? Será que as consequências são positivas? Na nossa sociedade o mais importante são os direitos. Porém, o que acontece quando todos têm apenas direitos? O meu direito invade o direito do meu vizinho, o direito do vizinho invade o meu direito, e no final das contas se forma uma sociedade sem harmonia.
Um dos maiores legados do judaísmo para o mundo é que nós não temos direitos, nós temos deveres, que são as Mitzvót. Quando cada um se preocupa com os seus deveres, no final das contas os direitos de todos estão garantidos. É o que ocorre, por exemplo, no trânsito. Se todos tivessem somente direitos, um iria passar por cima do outro. Mas a partir do momento que os motoristas seguem regras e deveres, os direitos de todos ficam garantidos. A conseqüência é uma sociedade muito mais harmoniosa. Em muitos lugares de Israel é possível ver nas ruas bilhetes colados nos muros e nos pontos de ônibus, anunciando que alguém encontrou um objeto perdido e está procurando o dono para devolvê-lo. Algumas pessoas chegam ao ponto de gastar dinheiro colocando anúncios pagos em jornais e revistas para encontrar o dono de um objeto perdido. Esse é o verdadeiro caminho para o crescimento espiritual.
Ser uma boa pessoa não é algo que cai do céu. Demanda estudo, esforço e dedicação. Ser uma boa pessoa não é apenas dizer "eu não faço mal a ninguém". Os judeus não estão apenas obrigados a não fazer mal a ninguém, estamos obrigados a ativamente fazer o bem, temos que receber sobre nós a responsabilidade de melhorar o mundo. Se nos focarmos nos nossos direitos, estaremos contribuindo para o caos e a desunião que existem atualmente. Mas se nosso foco for os nossos deveres, estaremos dando nossa preciosa contribuição para fazer deste mundo um lugar melhor para se viver.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
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