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sexta-feira, 29 de julho de 2016

ESCUTANDO OS NOSSOS SÁBIOS - PARASHÁ PINCHÁS 5776

"Certa vez soldados do exército russo vieram até a casa do Rav Yitzchak Zev Soloveitchik zt"l (Bielorússia, 1886 - Israel, 1959), mais conhecido como Brisker Rav, intimando-o a acompanhá-los. Um soldado judeu havia sido condenado à morte por dormir durante seu período de sentinela, e que este soldado havia pedido para falar com um rabino antes de morrer. Porém, para espanto dos seus alunos e dos soldados russos, o Brisker Rav se recusou a ir falar com o prisioneiro condenado à morte.

Após algum tempo, uma segunda delegação de soldados chegou à casa do Brisker Rav, exigindo que ele se apresentasse imediatamente na prisão, sob o risco de receber um duro castigo caso se recusasse. Mas o Brisker Rav não se dobrou diante das ameaças e reafirmou que não iria. Os alunos ficaram visivelmente confusos, pois além de colocar a própria vida em risco, por que o rabino não se importava com os sofrimentos daquele pobre judeu condenado à morte? Por que não queria ir confortá-lo na prisão e ajudá-lo naqueles últimos momentos difíceis?

Foi então que uma terceira delegação de soldados bateu na porta. Porém, desta vez eles não vinham para intimar o Brisker Rav a comparecer à prisão, e sim para avisá-lo que sua presença não era mais necessária. A família daquele jovem soldado havia apelado à Suprema Corte de Justiça e a sentença de morte havia sido revogada. Quando os alunos questionaram de onde o Brisker Rav havia conseguido reunir forças para aquela atitude heroica, ele explicou:

- Eu simplesmente cumpri a Halachá (Lei Judaica). De acordo com o Rambam (Maimônides), se um judeu inocente é injustamente condenado à morte por um tribunal não judaico, é proibido a um judeu entregá-lo às autoridades para que ele seja executado, mesmo que para isso seja necessário colocar a própria vida em risco. Se eu tivesse ido à prisão, o rapaz teria sido executado tão logo eu saísse. Ao seguir a Halachá, a vida daquele jovem judeu acabou sendo salva".

Muitos ensinamentos e decretos rabínicos parecem não fazer sentido. Mas eles são os verdadeiros conhecedores da Torá, e em suas atitudes eles levam em consideração muitos detalhes que nós desconhecemos. 
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Nesta semana lemos a Parashá Pinchás, que começa descrevendo um ato heroico de Pinchás, neto de Aharon HaCohen. No final da Parashá da semana passada, os povos de Moav e Midian haviam intencionalmente causado com que o povo judeu transgredisse com imoralidades e idolatria, transgressões que D'us abomina, e uma praga começou a dizimar os judeus. Até mesmo pessoas importantes transgrediram, como o príncipe da tribo de Shimon, Zimri, que cometeu um ato público de imoralidade com uma princesa de Midian chamada Kosbi. Pinchás, tomado por um espírito de "Kanaut" (zelo pela honra de D'us), se levantou e, mesmo arriscando a vida, aplicou aos dois transgressores ilustres a pena de morte, fazendo com que a praga cessasse. O total de mortos na praga foi de vinte e quatro mil judeus, e se não fosse a intervenção de Pinchás, a tragédia teria sido ainda pior.

Este ato de Pinchás é semelhante a outro evento descrito na Torá. Quando Yaacov estava voltando para casa, depois de passar muitos anos trabalhando para seu tio Lavan, sua filha Diná foi sequestrada e violentada pelo príncipe Shechem. Dois filhos de Yaacov, Shimon e Levi, inconformados com aquele ato de desonra, quiseram aplicar a justiça ao príncipe e ao resto da população, pois haviam presenciado aquela violência e não fizeram nada. Eles bolaram um plano para enfraquecer os homens da cidade e em seguida mataram todos. Aparentemente Shimon e Levi agiram corretamente, pois estavam motivados pela mesma "Kanaut" de Pinchás, isto é, o zelo pela honra de D'us e a abominação pelos atos imorais.

Porém, o que nos chama a atenção é a diferença do desfecho nos dois casos. O ato de Pinchás agradou muito a D'us, e ele foi recompensado de uma maneira especial por ter colocado a própria vida em risco pela honra de D'us. Quando Aharon e seus filhos foram apontados como Cohanim (sacerdotes) e ungidos, somente os descendentes que nasceram daquele momento em diante se tornaram Cohanim. Mas Pinchás, neto de Aharon, já havia nascido naquele momento e, portanto, não seria Cohen, apenas Levi. D'us concedeu a Pinchás, como recompensa por seu esforço, que ele e seus descendentes se tornassem Cohanim. Já o desfecho do ato de Shimon e Levi foi que, no momento do falecimento de Yaacov, enquanto alguns dos seus filhos receberam Brachót (bênçãos), Shimon e Levi foram duramente repreendidos. Porém, se Shimon e Levi também estavam movidos pela mesma "Kanaut" de Pinchás, e também colocaram suas vidas em risco para fazer o que era correto, por que o desfecho das duas histórias foi tão diferente?

Explica o Rav Yitzchak Zilberstain shlita que a característica de "Kanaut", de agir motivado pelo zelo com a honra de D'us, exige um equilíbrio perfeito de cálculos e um nível muito grande de precisão. É necessário checar o ato de acordo com diferentes pontos de vista, e deve ser levado em consideração cada detalhe, inclusive o momento e o local em que o ato será realizado. Além disso, para uma pessoa estar apta a fazer um ato de "Kanaut", ela deve ser uma profunda conhecedora das Halachót, em especial daquelas relacionadas com seu ato, pois somente assim é garantido que seu ato está completamente de acordo com a vontade de D'us. E, finalmente, a pessoa deve refletir e checar se seu ato não está sendo influenciado por nenhum desejo ou inclinação pessoal.

Em geral, para ter certeza de que não estamos sendo parciais em nosso julgamento, é necessário o aconselhamento com um grande sábio de Torá, que pode ajudar a decidir se o ato planejado é realmente correto e aplicável. E esta foi uma das diferenças fundamentais entre o ato de Pinchás e o ato de Shimon e Levi. Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Pinchás, antes de executar seu ato de "Kanaut", se aconselhou com Moshé Rabeinu, o grande sábio da geração. Ao escutar o caso, Moshé fez todos os cálculos necessários e confirmou a Pinchás que, naquele caso e naquelas circunstâncias, aplicar a pena de morte era realmente o correto. Por isso Pinchás recebeu uma recompensa tão grande.

Já no caso de Shimon e Levi, o grande sábio da geração era seu pai, Yaacov. Porém, de acordo com Rashi, ele não foi consultado antes da execução do plano. E se Shimon e Levi tivessem se aconselhado, certamente Yaacov os teria convencido a não colocar o plano em prática, pois havia um erro no cálculo deles. Apesar da indignação de Shimon e Levi ser totalmente válida, pois a falta de justiça diante de uma desonra tão grande era algo realmente vergonhoso e imoral, eles não levaram em consideração todas as condições necessárias para fazer o ato de "Kanaut".

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), Yaacov tinha um forte motivo para que aquele ato não fosse feito, como está escrito: "E disse Yaacov para Shimon e Levi: Vocês me causaram problemas, me envergonhando diante dos habitantes da terra" (Bereshit 34:30). O Sforno explica que Yaacov estava preocupado com o "Chilul Hashem" (denegrir o Nome de D'us) que o ato de Shimon e Levi poderia causar, pois para colocar seu plano em prática, eles haviam enganado os habitantes da cidade, podendo fazer com que Yaacov, o símbolo da verdade e da retidão, fosse visto pelos outros povos como um mentiroso e enganador. Mas qual foi a enganação?

Para poder matar todos os habitantes da cidade do príncipe Shechem, Shimon e Levi bolaram um plano. Eles disseram que queriam morar junto com os habitantes, e que também aceitariam se casar entre si. Porém, com astúcia, Shimon e Levi afirmaram que havia um impedimento, pois não poderiam viver com eles como se fossem um único povo enquanto as pessoas não fizessem o Brit Milá (circuncisão). Eles garantiram que, caso todos os homens da cidade aceitassem fazer o Brit Milá, então a família de Yaacov permaneceria vivendo com eles. A verdade é que Shimon e Levi nunca tiveram a intenção de viver com eles como se fossem um povo só. Eles exigiram que os homens fizessem Brit Milá apenas para enfraquecê-los e tornar mais fácil o ato de vingança. De acordo com a Torá, o terceiro dia depois do Brit Milá é o dia em que a pessoa está mais fraca e debilitada, e foi justamente neste dia que Shimon e Levi executaram seu plano e mataram todos os habitantes, inclusive o príncipe Shechem, que havia cometido o ato de desonra com Diná.

Portanto, a grande crítica de Yaacov, e que de acordo com o seu entendimento estava acima da "Kanaut" de Shimon e Levi, é que eles não poderiam ter matado todos os habitantes depois de terem garantido a eles que, caso fizessem o Brit Milá, poderiam se unir e viver em paz com a família de Yaacov. Como eles realmente fizeram o Brit Milá, ter matado os habitantes foi uma atitude de mentira e enganação. O maior erro de Shimon e Levi foi ter garantido que viveriam com o povo do príncipe Shechem e se casariam entre si, pois eles sabiam que esta mistura e assimilação estava proibida. Estes fatores fizeram com que o ato de "Kanaut", ao invés de ter sido uma Mitzvá, acabasse sendo uma transgressão, resultando em uma merecida repreensão a Shimon e Levi. Eles ficaram tão cegos com a desonra de sua irmã que tomaram uma atitude precipitada. Apesar da grandeza deles, faltou o aconselhamento com um sábio de Torá.

Mas não é apenas um "Kanai" que precisa se aconselhar com os sábios de Torá. Cada um de nós também tem a obrigação de estar em contato com os sábios, para nos aconselharmos, escutarmos seus ensinamentos e aprendermos com seus atos. Muitas vezes tomamos decisões importantes utilizando apenas nossa lógica, mas que é muitas vezes limitada e não leva em consideração todos os aspectos necessários para uma decisão completamente equilibrada. Somos pouco conhecedores da Halachá e, portanto, suscetíveis a cometer erros por desconhecimento. Os grandes sábios de cada geração, além dos conhecimentos de Torá, ainda recebem uma "Siata Dishmaia" (ajuda especial dos Céus) para saber lidar com as questões que surgem em cada época e para vencer os desafios que se renovam.

Normalmente nossas decisões são muito influenciadas pelos nossos desejos e inclinações. Somos parciais em nossos julgamentos, e isto nos faz cometer erros em nossos cálculos. Somente nos aconselhando com alguém "de fora", que não está sob os mesmos tipos de influências, é que podemos decidir com ponderação o que é realmente o correto a se fazer em cada situação. Por isso, é muito importante ter contato com algum sábio de Torá, para nos aconselharmos nas mais diversas áreas da vida, em especial nos momentos em que fazemos escolhas que terão impactos de longo prazo.

Como na história do Brisker Rav, muitas vezes não entendemos os ensinamentos e o comportamento dos nossos sábios. Mas precisamos ter a humildade de saber que nossa dificuldade é proveniente do nosso desconhecimento da Halachá. Nossos sábios estão muito mais conectados com a espiritualidade e conhecem de maneira muito mais profunda o que D'us quer de nós. Por isso, nas decisões importantes da vida, é fundamental nos aconselharmos com um sábio de Torá se quisermos fazer o que é correto de verdade. Isto pode evitar que a pessoa cometa, de maneira equivocada, uma transgressão achando que está fazendo uma grande Mitzvá.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21

sábado, 7 de novembro de 2015

RESPEITO AOS IDOSOS - PARASHAT CHAIEI SARA 5776

"Um frágil e velho senhor ficou viúvo e foi viver com seu filho, sua nora e seu neto de quatro anos. A família se reunia todos os dias para comer em uma bela mesa na sala de jantar. Porém, as mãos do velhinho tremiam e a vista dele já estava um pouco embaçada, o que tornava difícil o simples ato de comer. A todo instante a comida caía da sua colher, sujando todo o chão, e o leite derramava na toalha. A sujeira começou a irritar muito seu filho e sua nora:


- Nós precisamos fazer algo em relação ao meu pai - disse o filho, irritado - Já estou cheio do tanto leite derramado, de ouvir os ruídos que ele faz quando come e de toda a comida que ele derruba no chão.

O marido e a esposa decidiram preparar uma mesa pequena no canto da área de serviço. Lá o velhinho comia sozinho, abandonado, enquanto o resto da família continuava comendo na sala de jantar. Além disso, depois do velhinho ter quebrado um ou dois pratos, a comida dele passou a ser servida em uma tigela de madeira. Quando eles olhavam de relance na direção do velhinho, às vezes percebiam uma lágrima nos olhos dele. Ainda assim, as únicas palavras que o casal dirigia a ele eram duras broncas quando a colher caía com comida ou ele derramava o leite. O neto de quatro anos assistia tudo em silêncio. Uma noite, antes do jantar, o pai notou que a criança estava brincando no chão com sucatas de madeira. Perguntou docemente ao filho o que ele estava fazendo, e com um enorme sorriso o menino respondeu:

- Eu estou fabricando duas pequenas tigelas de madeira, para você e a mamãe poderem comer sua comida quando estiverem velhinhos.

As palavras do menino penetraram como uma faca afiada no coração dos pais. Lágrimas rolaram dos rostos deles. Não era preciso falar nada, eles sabiam o que precisava ser feito. Naquela noite o marido pegou a mão do pai e, com suavidade, conduziu-o de volta para a mesa da família. E daquele dia em diante, nem o marido nem a esposa pareciam se preocupar quando uma colher caia no chão, o leite era derramado ou quando a toalha da mesa tinha se sujado". 

A Torá nos ordena tratar os idosos com muito respeito. Acima de tudo é um reconhecimento pelo que eles já contribuíram, e certamente continuam contribuindo, com enorme sabedoria, na construção de um mundo melhor. 

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A Parashá desta semana, Chaiei Sara, fala sobre o final das vidas de Avraham e Sara. Avraham viveu muitos anos, como está escrito: "Avraham estava velho, com idade avançada, e D'us abençoou Avraham com tudo" (Bereshit 24:1). Apesar de muitos problemas e desafios que Avraham enfrentou durante sua longa vida, ele sempre soube olhar as situações de maneira positiva. E, acima de tudo, ele confiava plenamente em D'us.

Em relação a este versículo, o Talmud (Sanhedrin 107b) traz um incrível ensinamento. Até a época de Avraham não havia o conceito de envelhecimento. Como Ytzchak era muito parecido com Avraham, quando as pessoas iam falar com Avraham, acabavam falando por engano com Ytzchak, e quando iam falar com Ytzchak acabavam falando por engano com Avraham. Avraham então rezou e pediu para que D'us incluísse o envelhecimento no ciclo de vida do ser humano, para evitar este tipo de confusão, e D'us concordou com o pedido de Avraham.

Os comentaristas da Torá perguntam qual é o ensinamento presente nesta passagem do Talmud, pois desperta um grande questionamento. O Rav Ishaia MiTrani (Itália, 1180 - 1250), mais conhecido como Tossafot Rid, argumenta que existem diversas fontes que comprovam que o envelhecimento já existia até mesmo antes do nascimento de Ytzchak, tais como os versículo "Avraham e Sara estavam velhos" (Bereshit 18:11) e "Eu realmente terei um filho, agora que eu estou velha?" (Bereshit 18:13). Poderíamos explicar que os versículos se referem a um envelhecimento que não era fisicamente perceptível, e o pedido de Avraham foi justamente para que o envelhecimento se tornasse algo visivelmente reconhecido pelas pessoas, evitando confusões.

Porém, esta explicação apresenta algumas dificuldades. Em primeiro lugar, após o erro de Adam Harishon, a existência física do ser humano tornou-se finita e seu corpo foi fadado a um estado de decadência física. Por que D'us decretaria a morte do ser humano e não faria com que a proximidade do seu fim fosse visivelmente perceptível? Além disso, há versículos que comprovam que o ser humano já apresentava sinais de envelhecimento em seu corpo mesmo antes do nascimento de Ytzchak. Sara, quando escutou os anjos anunciando que ela ficaria grávida aos 90 anos, comentou: "Depois de estar tão enrugada, eu voltarei a ter uma pele delicada?" (Bereshit 18:12). Deste versículo fica claro que já havia sinais físicos de envelhecimento antes mesmo do pedido de Avraham. Então o que ele exatamente pediu para D'us em sua reza? E o que D'us concedeu à humanidade ao concordar com o pedido de Avraham?

Responde o Rav Yohanan Zweig que talvez o pedido de Avraham realmente não estava relacionado com o estado físico das pessoas. O que chamou a atenção de Avraham foi que as pessoas falavam com ele, um ancião com mais de 100 anos, exatamente da mesma maneira como falavam com seu filho Ytzchak, um rapaz ainda extremamente jovem. Isto significa que as pessoas não tinham nenhuma apreciação pela sabedoria dos idosos e não demonstravam o devido respeito a eles. Avraham queria que os idosos fossem respeitados e honrados pelos seus conhecimentos e por suas experiências de vida. Foi este tipo de apreciação pelos idosos que Avraham pediu para que D'us incutisse na humanidade, e D'us atendeu o seu pedido, como confirmam as palavras finais do versículo: "D'us abençoou Avraham com tudo".

Infelizmente, se olharmos o comportamento da nossa sociedade, perceberemos que esta apreciação dos idosos novamente está ausente. De acordo com a Cultura Ocidental, a velhice é uma deficiência do ser humano. A juventude é vista como referência nas mais diversas áreas: nos negócios, na medicina, nas tecnologias e até mesmo nos governos. As novas gerações insistem em "inovar e aprender com seus próprios erros", ao invés de construir a partir da experiência adquirida pelos mais velhos. Aos 50 anos uma pessoa é considerada alguém "no limite" de sua produtividade, e já começa a receber os primeiros avisos de que seu cargo estaria melhor preenchido por alguém 20 anos mais jovem. Em muitas empresas multinacionais a aposentadoria é obrigatória aos 60 anos, para que alguém de "sangue novo" possa assumir os novos desafios.

Portanto, nossa sociedade acaba forçando com que os últimos anos de vida de uma pessoa sejam de inatividade e decadência. Os mais velhos são tratados como se fossem inúteis, como se fossem um peso para a sociedade. A mensagem transmitida aos idosos é que o ideal seria se estivessem confinados em um asilo. Depois de décadas de conquistas e realizações, seus conhecimentos e talentos se tornam repentinamente sem valor. Depois de muitos anos de importantes contribuições, os idosos se tornam peças indesejáveis no jogo da vida.

Não podemos escapar da realidade de que a natureza do corpo humano aos 70 anos não é a mesma do que aos 30 anos. Mas o valor de uma pessoa é definido por suas proezas físicas? Se a força física de alguém diminuiu, mas suas capacidades intelectuais e sua sabedoria aumentaram, isto é considerado uma melhoria ou um declínio? Se o rendimento de uma pessoa diminui em quantidade, mas melhorou em qualidade, então seu valor aumentou ou diminuiu? A atitude da Cultura Ocidental em relação aos idosos reflete bem a noção dos seus valores: a ênfase está apenas na força física, enquanto a força intelectual é completamente desprezada.

Um jovem de 20 anos pode dançar por horas sem se cansar, enquanto um senhor de 75 anos provavelmente se cansará em poucos minutos. Mas o ser humano não foi criado para dançar. Ele foi criado para transformar a vida na Terra em algo mais puro, mais brilhante e mais sagrado do que era antes do seu aparecimento. Deste ponto de vista, a maturidade espiritual dos anciãos certamente compensa, e muito, sua diminuição física.

Esta é a visão da Torá. A velhice é uma virtude, é uma Brachá (benção). Em toda a Torá o conceito de "ancião" é sinônimo de sabedoria. O Talmud (Kidushin 33a) nos ordena respeitar os anciãos, independente de sua escolaridade, pois os vários desafios e experiências pelos quais eles passaram na vida resultam em uma sabedoria que até mesmo os mais talentosos entre os jovens não podem alcançar. Um dos segredos da imortalidade do judaísmo é justamente o respeito aos idosos. Pois uma sociedade que não sabe respeitar o passado é certamente uma sociedade que não terá futuro.
  

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

http://ravefraim.blogspot.com.br/

Gn.23:1-25:18, 1Rs.1:1-31