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sábado, 11 de fevereiro de 2017

RESPEITANDO O PRÓXIMO - PARASHÁ BESHALACH 5777

"Depois de alguns meses se conhecendo, Joel e Miriam ficaram noivos. Eles não cabiam em si de contentamento, pois sentiam que finalmente haviam encontrado suas metades. Como ainda estavam se conhecendo, combinaram de fazer um passeio em um parque no alto da cidade, um lugar com uma vista maravilhosa. Após passearem e conversarem muito, ao perceberem que estava anoitecendo, decidiram voltar. Foi então que Miriam comentou com Joel que a lua havia sumido. Muito romântico, Joel respondeu:

- A lua deve ter ficado envergonhada diante da sua beleza e por isso se escondeu.

Miriam se sentiu lisonjeada com a resposta tão galanteadora do seu noivo. Que homem educado e delicado. Havia ganhado um prêmio de loteria ao ter conhecido alguém assim tão especial. Alguns meses depois eles se casaram e, com o tempo, começaram a se conhecer cada vez mais e a ganhar intimidade. Após alguns anos de casamento, Miriam quis resgatar um pouquinho do romantismo da época de noivado. Ela convidou Joel para passear naquele mesmo parque. No final do passeio, quando já estava anoitecendo, novamente Miriam virou-se para Joel e comentou que a lua havia desaparecido. Ele então virou-se para ela e disse:

- Sua tonta, você não percebeu que hoje está nublado???"

Apesar de ser uma piada, muitas vezes a convivência com as pessoas faz com que deixemos de tratá-las com o devido respeito. Temos que nos cuidar muito, principalmente com as pessoas mais próximas, para nunca ofender ou destratar ninguém, em especial as pessoas mais queridas. 
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Na Parashá desta semana, Beshalach (literalmente "Quando enviou"), finalmente o povo judeu saiu em liberdade, acabando com 210 anos de uma brutal escravidão. Mas a alegria do povo judeu durou pouco, pois logo o Faraó se arrependeu de ter libertado seus escravos e saiu em sua perseguição. Os judeus se viram presos no meio do deserto, com o Mar Vermelho diante deles e os egípcios fortemente armados se aproximando ameaçadoramente. D'us então fez o grande milagre da abertura do mar, para que os judeus pudessem passar com segurança em terra firme, e depois fechou-o sobre os egípcios, matando-os e deixando seus corpos expostos na praia, para que os judeus pudessem se sentir livres de verdade ao ver seus opressores mortos.

Quando os judeus viram o grande milagre e salvação que D'us havia feito, se sentiram tão felizes que de seus corações saiu um cântico de agradecimento, o "Shirat Haiam" (Cântico do Mar). A abertura do mar foi um incrível momento de revelação e proximidade de D'us. Dentro deste Cântico estão as seguintes palavras de louvor: "Este é o meu D'us e eu O exaltarei" (Shemot 15:2). A explicação mais simples é que as pessoas puderam ter uma visão mais clara de D'us durante aquele milagre e puderam reconhecer toda a Sua bondade.

O Talmud (Shabat 133b) aprende outro ensinamento deste versículo. A palavra "Anvehu", que significa "Eu O exaltarei", vem da mesma raiz da palavra "Noi", que significa "Beleza". O Talmud nos ensina que este versículo é uma exigência de nos esforçarmos para cumprir as Mitzvót de D'us da maneira mais agradável esteticamente. Por exemplo, quando cumprimos a Mitzvá de "Arbaat HaMinim" (4 espécies), devemos procurar um Lulav de aparência bonita. Também quando construímos uma Sucá e adquirimos um Talit, devemos nos esforçar para que eles sejam visualmente bonitos. De acordo com o Rabeinu Bechaya zt"l (Espanha, 1255 - 1340), este embelezamento das Mitzvót é uma maneira através da qual nós podemos demonstrar o nosso amor por D'us.

Porém, esta explicação parece ser contraditória com um conceito ensinado pelo Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), mais conhecido como Ramchal, em seu livro "Messilat Yesharim" (Caminho dos Justos). Ele divide o Serviço Divino em duas categorias: "Ahavat Hashem" (Amor a D'us) e "Irat Hashem" (Temor a D'us). Dentro do amor a D'us ele incluiu a alegria no cumprimento das Mitzvót. Sob a categoria de temor a D'us ele incluiu a submissão perante D'us e honrar as Mitzvót. Ao explicar o conceito de honrar as Mitzvót, o Ramchal traz justamente o mesmo ensinamento do Talmud que nos incentiva a embelezarmos as Mitzvót. Portanto, de acordo com o Ramchal, o embelezamento das Mitzvót estaria incluído dentro da categoria de "temor a D'us". Porém, não seria muito mais lógico enquadrar o embelezamento das Mitzvót como uma demonstração de amor a D'us, como fez o Rabeinu Bechaya? Como entender esta opinião do Ramchal?

Além disso, por que a primeira reação do povo judeu após a incrível salvação através da milagrosa abertura do mar foi o compromisso de embelezar as Mitzvót? Não seria mais apropriado em primeiro lugar eles se comprometerem a simplesmente cumprir as Mitzvót? Qual a conexão entre embelezar as Mitzvót e a incrível revelação de D'us que ocorreu na abertura do mar?

Finalmente, o Talmud (Shabat 133b) aprende outro ensinamento da palavra "Anvehu", que pode ser dividida em duas palavras: "Ani" "Vehu", que significa "Eu e Ele". Isto nos ensina que, para nos assemelharmos a D'us, devemos imitar Seus caminhos. Por exemplo, da mesma forma que Ele é misericordioso, também devemos ser misericordiosos. Mas por que aprendemos o conceito de como devemos nos relacionar com D'us da mesma palavra que aprendemos o conceito de embelezar as Mitzvót? Qual é a conexão entre os dois conceitos?

Explica o Rav Yohanan Zweig que no começo de qualquer relacionamento interpessoal há uma certa distância natural entre as duas partes. Esta distância faz com que cada uma das partes respeite a outra e esteja disposta a se relacionar de acordo com os termos da outra parte. Porém, com o tempo e a convivência, as pessoas começam a ganhar confiança e a distância natural se dissipa. Neste momento, normalmente o respeito mútuo também vai diminuindo e cada uma das partes começa a exigir que o outro se ajuste ao seu comportamento. É este "choque de vontades" que acaba alimentando o sentimento de desprezo após algum tempo de convivência.   

Os nossos relacionamentos interpessoais são um modelo do nosso relacionamento com D'us. Portanto, da mesma forma que isto ocorre entre as pessoas, esta perda de respeito também pode ocorrer no nosso relacionamento com D'us. De acordo com o Talmud (Sotá 30b), o relacionamento do povo judeu com D'us durante a abertura do mar se tornou algo tão próximo, tão tangível, que até mesmo os bebês foram capazes de perceber a presença de D'us. A percepção de D'us transcendeu, de algo apenas intelectual para algo muito mais tangível e concreto. Automaticamente a distância entre o povo judeu e D'us diminuiu. Nestas circunstâncias, esta proximidade poderia ter causado com que as sementes do desprezo tivessem sido espalhadas. O povo judeu entendeu que a única solução para este problema era imediatamente receber sobre si o compromisso de embelezar as Mitzvót.

Mas como isto resolveria o problema da falta de respeito por causa da maior proximidade? Quando vemos algo muito bonito, nosso instinto faz com que consideremos como sendo algo inacessível. A beleza eleva um objeto e cria naturalmente uma distância. Nosso objetivo na vida é construir com D'us um relacionamento de amor. Ao embelezar as Mitzvót, nós inserimos respeito no relacionamento, e é o respeito que preserva o amor. De acordo com o Ramchal, como o propósito do embelezamento das Mitzvót é inserir respeito no relacionamento entre nós e D'us, então ele considera como sendo parte do "temor a D'us". Ao embelezá-las, nós inserimos nas Mitzvót uma dignidade que cria reverência e admiração aos olhos de quem as realiza.

A fundação do amor verdadeiro em qualquer relacionamento é o respeito. O respeito garante que não haverá nenhum tipo de desprezo. Desenvolver nossa religiosidade através de emular os atos de D'us nos permite desenvolver o respeito que preservará o nosso relacionamento. É por isso que o mesmo versículo que ensina sobre o nosso relacionamento com D'us é também uma fonte da exigência de embelezar as Mitzvót, pois este ato de embelezar as Mitzvót cria o respeito necessário para manter um relacionamento saudável.

Esta Parashá traz um ensinamento extremamente importante para nossas vidas. É muito comum sermos desrespeitosos justamente com as pessoas mais próximas, pois é justamente a proximidade que acaba causando com que nos acostumemos e deixemos de respeitar os outros da maneira correta. Isto ocorre dentro das nossas casas e nos ambientes de trabalho. A Parashá nos ensina que esta é uma característica natural do ser humano e, justamente por isso, se não tomarmos nenhuma atitude, acabaremos desrespeitando e ofendendo pessoas queridas. Da mesma forma que o povo judeu procurou uma forma de manter o respeito com D'us apesar da proximidade, precisamos pensar em maneiras de como sempre manter o respeito com as pessoas que são mais próximas, pois são elas que justamente mais merecem o nosso respeito e consideração.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A FORÇA DA PERSEVERANÇA - PARASHAT BESHALACH 5776

"Yaacov Waisman (nome fictício), aluno da famosa Yeshivá de Vologzin, era conhecido por seu enorme conhecimento de Talmud. Certa vez ele estava no meio de uma refeição quando um de seus colegas da Yeshivá se aproximou dele e perguntou a fonte no Talmud onde constava certa opinião. Enquanto Yaacov ainda se esforçava para tentar lembrar, outro aluno respondeu que a opinião era do Tassafot (um comentarista do Talmud), e indicou o Tratado do Talmud e a página onde este comentário se encontrava.

Quando Yaacov percebeu que não havia conseguido responder algo tão simples de ser lembrado, sentiu tanta vergonha que imediatamente parou de comer, levantou-se da mesa e correu para o Beit Midrash (Centro de estudos). Ele estudou aquele dia inteiro praticamente sem nenhuma interrupção, e o mesmo ocorreu no dia segunte, e na semana seguinte, e no mês seguinte. Durante sete anos Yaacov estudou com uma incrível constância e perseverança, até que ele se tornou um grande conhecedor da Torá e trouxe muita luz espiritual para o mundo.

Anos mais tarde, um dos alunos da Yeshivá que estava presente no episódio da pergunta no refeitório, Avraham Leibovitz (nome fictício), lembrou-se que Yaacov havia se levantado da mesa e corrido para o Beit Midrash de uma maneira tão repentina que havia se esquecido de fazer a Brachá Acharoná (benção posterior dos alimentos). Avraham foi perguntar ao Rosh Yeshivá (Diretor Espiritual), o Rav Chaim Vologziner zt"l (Lituânia, 1749 - 1821), se naquelas condições seria permitido a Yaacov não ter feito a Brachá. O Rav Chaim Vologziner, após refletir um pouco, respondeu:

- Eu não sei dizer se seria permitido ou não ele intencionalmente ter deixado de fazer a Brachá naquela situação. Mas há algo que eu sei: se ele tivesse parado para recitar a Brachá e não tivesse se levantado imediatamente e ido para o Beit Midrash estudar, ele nunca teria se transformado no grande estudante de Torá que ele virou. Naquele momento ele tinha sido atingido por uma profunda dor, pela vergonha da sua falta de conhecimento de Torá, e ele utilizou a força daquele momento para começar a estudar em outro nível. Se ele tivesse esperado, mesmo que fossem apenas alguns poucos minutos, ele teria perdido aquele momento de inspiração para sempre." (História Real)

Em nossas vidas muitas vezes temos momentos de inspiração, nos quais temos vontade de crescer, de tomar atitudes e de mudar nossos rumos. Mas se não aproveitarmos estes momentos com atos, infelizmente eles ficarão apenas como memórias do passado, e não como construções do futuro.   
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Nesta semana lemos a Parashat Beshalach, que descreve a triunfal saída do povo judeu do Egito, diante dos olhos dos egípcios que, esmagados pela força das dez pragas, nada puderam fazer para impedir o povo judeu de ir embora para sempre. Mas nem todos os judeus estavam apenas "aproveitando" aquele momento especial de liberdade. Moshé Rabeinu estava preocupado em cumprir o juramento que os judeus haviam feito para Yossef, há mais de 200 anos, de que quando eles fossem embora do Egito, levariam com eles os seus restos mortais para que fossem enterrados na Terra de Israel, como está escrito: "E Moshé levou com ele os ossos de Yossef" (Shemot 13:19).

Porém, há um versículo do Tanach (Profetas e Escrituras) que parece contradizer este ensinamento da Torá: "Os ossos de Yossef, que os Filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterrados em Shechem" (Yoshua 24:32). Afinal, quem levou os ossos de Yossef do Egito, Moshé ou outros judeus? O Talmud (Sotá 13b) responde com um incrível conceito espiritual: quando uma pessoa começa uma Mitzvá mas não a termina, e outra pessoa completa a Mitzvá, então a Torá dá crédito para a pessoa que terminou a Mitzvá como se ela tivesse feito a Mitzvá completa. Moshé começou a Mitzvá de enterrar Yossef na Terra de Israel, mas como não foi ele que terminou a Mitzvá, então o crédito foi dado para aqueles que completaram a Mitzvá, e não para Moshé.

Mas há um Midrash (parte da Torá Oral) que aparentemente contradiz este princípio espiritual. O nosso Primeiro Beit HaMikdash (Templo Sagrado), em sua enorme grandeza e esplendor, foi construído e inaugurado por Shlomo HaMelech. David, seu pai, não viu o Beit HaMikdash (Templo) terminado, apenas participou de suas fundações. Porém, há um versículo que refere-se a David como se ele tivesse construído o Templo, como está escrito: "Um Salmo, um Cântico de inauguração da Casa (Templo), de David" (Salmos 30:1). De acordo com um Midrash (parte da Torá Oral), aprendemos deste versículo que, apesar de David ter apenas começado a construção do Templo, é creditado a ele os méritos de toda a construção. Isto não é contraditório com o conceito ensinado pelo Talmud?

O Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) desvenda a aparente contradição. Toda vez que alguém começa uma Mitzvá e não consegue completá-la por motivos de "força maior", isto é, que não são de sua responsabilidade, então ele é creditado como se tivesse realizado a Mitzvá inteira, mesmo que na realidade ele não a terminou. Entretanto, se aquele que começa a Mitzvá tem alguma culpa no fracasso de completá-la, então ela é creditada àquele que a terminou. Isto explica a diferença entre o caso dos ossos de Yossef e a construção do Beit HaMikdash. David HaMelech não teve absolutamente nenhuma responsabilidade por não ter completado a construção do Beit HaMikdash, pois foi uma ordem explícita de D'us que a construção fosse feita por seu filho Shlomo HaMelech e não por ele, e por isso é creditado como se ele tivesse construído tudo. Já no caso dos ossos de Yossef, Moshé não conseguiu completar a Mitzvá por causa de um erro que ele cometeu ao bater com seu cajado na pedra para dar água ao povo, ao invés de ter pedido a água para a pedra conforme D'us havia ordenado. Como a consequência deste erro foi D'us ter decretado que Moshé não entraria na Terra de Israel, então de certa maneira Moshé não conseguiu terminar a Mitzvá de enterrar Yossef em Israel devido às suas próprias ações, e é por isso que a Mitzvá não foi atribuída a ele.

Se refletirmos sobre este ensinamento do Rav Moshe Feinstein, despertamos um pouco da nossa apatia. Apesar de todos os esforços de Moshé para cumprir a Mitzvá de entrerrar Yossef em Israel, uma culpa mínima que ele teve em não terminar a Mitzvá fez com que ele perdesse o mérito dela. E se não tomarmos muito cuidado com nossos atos, por causa de falhas pequenas nós também podemos acabar perdendo o mérito de muitas Mitzvót.

Há muitas situações nas quais temos a oportunidade de completar algum tipo de Mitzvá, mas que acabamos falhando por falta de perseverança. Isto se aplica muito ao estudo de Torá, pois normalmente as pessoas começam a frequentar algum Shiur ou palestra semanal, mas acabam desistindo no meio. Por exemplo, quando é iniciado um novo ciclo de estudos de "Daf Yomi" (grupos que se reúnem para estudar uma folha do Talmud por dia, visando terminar todos os Tratados em um período de 7 anos), normalmente as aulas ficam lotadas, mas conforme o tempo vai passando, as salas de aula vão se esvaziando, pois muitos desistem do projeto no meio do caminho.

Outra área onde normalmente as pessoas falham é em seu próprio crescimento espiritual. Por exemplo, em certos momentos da vida, como em Rosh Hashaná ou após passar por algum perigo de vida, as pessoas se sentem inspiradas a tomar decisões de crescimento espiritual. Porém, com o passar do tempo, estas decisões se tornam apenas distantes memórias e não se transformam em atos concretos.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a chave do sucesso é a característica de perseverança. Quando tomamos uma decisão, devemos nos esforçar para não desistir no meio do caminho, apesar das dificuldades que acabam surgindo. Um exemplo de perseverança foi dado pelo Rav Israel Meir HaCohen zt"l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim. Uma de suas maiores obras, a Mishná Brurá, que discute uma parte importante do Shulchan Aruch (Código de Leis Judaico), levou 25 anos para ficar pronta. Mas por que tantos anos para escrever um livro? Pois durante estes anos ele passou por muitas dificuldades e adversidades que o impediam de continuar escrevendo. A grande maioria das pessoas certamente teria desistido caso tivesse passado por tantas dificuldades, e inclusive teriam enxergando as dificuldades como "sinais" de que aquele investimento não estava destinado a ter sucesso. Mas o Chafetz Chaim percebeu que todas as dificuldades eram, na verdade, artimanhas do Yetser Hará (má inclinação), que queria evitar a todo custo que a Mishná Brurá fosse escrita. Ele reuniu forças, persistiu e conseguiu terminar sua obra, que se tornou um dos livros de Torá mais importantes do século passado.

Qual foi o segredo do sucesso do Chafetz Chaim? Por que ele conseguiu persistir enquanto a maioria teria desistido? Pois ele entendia a importância vital do que estava tentando fazer. Isto permitiu que ele superasse todos os desafios e conseguisse completar seu trabalho. Portanto, uma das dicas mais importantes para alcançarmos o sucesso nos nossos empreendimentos espirituais é manter o foco na importância do que estamos tentando fazer, e só assim conseguiremos persistir e vencer as adversidades.

Outra maneira prática de não deixar o tempo desgastar nossas aspirações e vontade de crescer é tomar atitudes imediatas logo após algum momento de inspiração. Por exemplo, quando escutamos alguma aula de Torá que nos toca profundamente, se não fizermos nenhum ato, em pouco tempo a "marca" deixada no nosso coração se apagará. Mas se imediatamente começarmos alguma mudança, alguma melhoria, por menor que seja, isto nos ajudará a guardar a força daquele momento.

Quando surgem oportunidades na vida, não podemos desperdiçá-las. A combinação de perseverança, foco, entendimento da grandeza dos nossos ideais e atitudes práticas imediatas pode nos ajudar a não apenas começarmos empreendimentos na vida, mas também terminá-los com sucesso.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

VIVENDO COM RESPONSABILIDADE - PARASHÁ BESHALACH 5775


"Numa granja, havia uma galinha que se destacava das outras por sua coragem, espírito de aventura e ousadia. Ela não tinha limites, pois sentia a responsabilidade de ser um exemplo para as outras galinhas. Suas atitudes contagiavam e motivavam. O dono da granja, porém, não apreciava estas qualidades e estava aborrecido com ela.

Um dia, o dono da granja fincou um bambu no meio do campo, amarrou nele uma extremidade de um barbante e a outra extremidade ele amarrou no pé daquela galinha.  Desse modo, de repente, o mundo tão amplo da galinha foi reduzido a exatamente até onde o barbante lhe permitia chegar.  A galinha tentou se libertar algumas vezes, mas depois desistiu. E assim começou a passar seus dias ali, ciscando, comendo e dormindo, dia após dia, até que se acomodou. De tanto andar nesse círculo, a grama que era verde foi desaparecendo e ficou somente terra.  Era interessante ver delineado um círculo perfeito em volta dela.  Do lado de fora, onde a galinha não podia chegar, a grama verde. Do lado de dentro, só terra.

Depois de um tempo, o dono da granja teve dó da galinha, pois ela era tão agitada e corajosa, mas havia se tornado uma ave pacata. Então ele cortou o barbante que a prendia pelo pé e a soltou. Agora a galinha estava livre, o horizonte novamente seria seu limite, ela poderia ir para onde quisesse. Mas a galinha, mesmo solta, não ultrapassava o limite que ela própria havia criado em sua cabeça.  Só ciscava e andava dentro do círculo, no seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora, mas não tinha coragem suficiente para se "aventurar" a ir até lá.  Preferiu ficar do lado conhecido, em sua zona de conforto. Esqueceu-se de sua responsabilidade de ser um exemplo e, com o passar do tempo, envelheceu e ali morreu".

Quando nos acomodamos e aceitamos passivamente que as dificuldades da vida nos derrubem, terminamos sem forças para lutar. Temos que viver com garra, com a vontade de vencer os desafios, com a responsabilidade de nos tornarmos um exemplo para o mundo. Isto nos dará a energia que precisamos para alcançar o sucesso. 
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Na Parashá desta semana, Beshalach, o povo judeu havia sido libertado pelo Faraó, após ele ter sentido na pele a tremenda força de D'us, demonstrada através das 10 pragas que destruíram o Egito. Mas a felicidade do povo judeu durou pouco, pois mais uma vez D'us endureceu o coração do Faraó, fazendo-o decidir perseguir os judeus para novamente escravizá-los. Tudo isto ocorreu para que D'us pudesse terminar o processo de libertação do povo judeu. No Mar Vermelho, quando D'us abriu o mar para o povo judeu e fechou-o sobre os egípcios, matando-os e deixando seus corpos à mostra na praia, os judeus puderam ter a certeza de que a escravidão egípcia havia terminado, física e psicologicamente, para sempre.

A abertura do Mar Vermelho é um dos eventos mais importantes da história do povo judeu, no qual D'us quebrou as leis da natureza para nos salvar, demonstrando o amor infinito que Ele sente por nós. Quando lemos os versículos que descrevem a travessia do mar, parece ter sido um evento tranquilo, sem muitas dificuldades. Mas os nossos sábios ensinam que houve um grande desafio, só superado pela coragem de uma das Tribos de Israel.

De acordo com a Tossefta (Parte do Talmud - Tratado de Brachót, 4:16), quando os judeus chegaram ao Mar Vermelho, divididos em 12 Tribos, se depararam com um mar revolto e perigoso. Começou então uma imensa discussão para saber quem seria a primeira Tribo a entrar no mar, cada Tribo tentando tirar de si a responsabilidade e tentando empurrá-la para as outras Tribos. Finalmente os membros da Tribo de Yehudá decidiram pular na água e enfrentar o desafio, santificando o Nome de D'us. De acordo com a Tossefta, isto foi tão valoroso que é considerado uma das atitudes que deu à Tribo de Yehudá o mérito de se tornar a Tribo dos reis de Israel. Pelo fato da Tribo de Yehudá ter agido de forma tão proativa e corajosa, estando disposta a encarar o enorme desafio enquanto as outras tribos preferiram ficar procurando desculpas para se esquivar de sua responsabilidade, ela foi recompensada com o mérito eterno de liderar o povo judeu.

A palavra "responsabilidade" muitas vezes nos causa um sentimento negativo, pois normalmente é difícil e desconfortável assumir responsabilidades. Dá trabalho, traz novas preocupações e desafios. Preferimos continuar tranquilos em nossa "zona de conforto", e por isso tentamos evitar assumir posições de responsabilidade durante a vida. Porém, esta busca de conforto não é compatível com a visão judaica da vida. Ao contrário de ser algo negativo, assumir responsabilidades é algo que nos energiza e nos dá forças. De acordo com o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979), a Tribo de Yehudá decidiu entrar no mar pois se sentiu pessoalmente responsável pelo resto do povo judeu e entendeu que deveria cumprir a obrigação que recaía sobre ela. Neste momento, justamente por este sentimento de responsabilidade em relação ao resto do povo, ela se tornou a maior de todas as Tribos de Israel. Imediatamente as pessoas da Tribo de Yehudá receberam uma força e um poder adicional, que permitiu a elas ter a coragem de entrar no mar e fazer com que o grande milagre da abertura das águas acontecesse, possibilitando ao povo judeu inteiro atravessar com segurança o mar completamente seco. Por tomar sobre si a responsabilidade, a Tribo de Yehudá meritou receber um dos mais importantes papéis dentro do povo judeu e se tornar, para sempre, a Tribo dos reis de Israel.

O Rav Chaim Shmulevitz zt"l traz uma prova do quanto uma pessoa que assume responsabilidades na vida é vista com bons olhos por D'us. O Talmud Yerushalmi (Bikurim 3:3) afirma que três tipos de pessoas são dignas de receber expiação por todos os seus pecados: um sábio, um "chatan" (pessoa recém-casada) e alguém que subiu em grandeza. O Talmud traz uma passagem da Torá para comprovar que o "chatan" é perdoado por seu pecados: "E foi Essav a Ishmael, e tomou para si (como esposa) Machlat, filha de Ishmael" (Bereshit 28:9). O Talmud questiona esta passagem, pois o nome da filha de Ishmael era Bassmat, não Machlat. Então por que a Torá não escreveu o nome verdadeiro dela? Pois a palavra "Machlat" tem a mesma raiz de "Mochel", que significa "perdoar". Isto nos ensina que, no dia do casamento de Essav com Bassmat, ele foi perdoado por todos os pecados que havia cometido na vida.

Mas como entender este ensinamento do Talmud? Essav era um completo Rashá (malvado), que praticava as piores transgressões possíveis e imagináveis, e em nenhum momento a Torá diz que ele se arrependeu dos seus maus atos. Sabemos que mesmo no dia de Yom Kipur, o Dia do Perdão, nossos erros não são perdoados a não ser que estejamos sinceramente arrependidos de todos eles. Então como pode ser que, mesmo sem esforço e sem nenhum tipo de arrependimento, as transgressões de Essav foram perdoadas?

Responde o Rav Chaim Shmulevitz zt"l que o que há de único e especial em um homem recém-casado é que ele aceitou sobre si a responsabilidade de cuidar de sua esposa, e não há nada maior do que alguém que recebe sobre si o jugo da responsabilidade. Por isso um "chatan" recebe uma "Siata Dishmaia" (Auxílio dos Céus) especial, para ajudá-lo a ter sucesso em cumprir sua nova obrigação na vida, e ele é perdoado por todos os seus pecados para que possa deixar para trás seu passado e consiga fazer jus à sua nova responsabilidade assumida. Receber sobre si um novo nível de responsabilidade é um feito tão grande que a pessoa merita ser vista por D'us como alguém que recomeça a vida com uma folha nova, em branco, na qual ela literalmente recomeça a escrever sua história em um novo nível de existência. Foi por isso que Essav, mesmo sem nenhum arrependimento, foi perdoado por seus pecados no momento em que se casou.

A medida de quanto uma pessoa está disposta a receber sobre si responsabilidades é um dos fatores determinantes da grandeza que ela atingirá na vida. D'us nos deu o livre arbítrio para que possamos utilizá-lo de forma a nos responsabilizarmos por cumprir nossas obrigações. O livre arbítrio é, em essência, a habilidade de fazer escolhas, de decidir mudar, de querer crescer e atingir nosso potencial verdadeiro. Se uma pessoa faz esta escolha, então ela se torna uma nova criatura, cujo passado foi deixado para trás. É uma oportunidade de recomeçar e de ganhar novas forças para atingir o sucesso.

É verdade que às vezes a responsabilidade pode ser vista como um peso, algo que nos restringe e nos força a fazer coisas que não queremos nem gostamos de fazer. Mas o ato da Tribo de Yehudá nos ensina o contrário. Foi justamente a característica de tomar sobre si a responsabilidade, de se preocupar com o resto do povo, que permitiu que eles atingissem a grandeza. Quando a tribo de Yehudá se deparou com o mar revolto diante deles, eles fizeram a decisão de tomar sobre si a responsabilidade, ao invés de procurar jogá-la sobre os outros. Quando eles receberam sobre si cumprir a obrigação que recaía sobre eles, a Tribo de Yehudá se elevou a um nível muito mais alto.

O mesmo vale para cada um de nós. Se tivermos a coragem de ousar e nos levantarmos para assumir nossas reais responsabilidades na vida, pensando em tudo o que podemos fazer pelas nossas famílias e pelo mundo, certamente atingiremos uma grandeza que nunca poderíamos nem mesmo sonhar. Que possamos aproveitar as oportunidades que surgem na vida para que, ao receber as responsabilidades que recaem sobre nós, possamos atingir o nosso verdadeiro potencial.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A FORÇA DE UM BOM ATO - PARASHÁ BESHALACH 5774

Daniel certa vez procurou seu rabino para fazer uma pergunta que o incomodava muito. Ele queria saber por que valia a pena se esforçar tanto para fazer boas ações, se mais cedo ou mais tarde acabaria fazendo alguma transgressão e colocaria tudo a perder. O rabino respondeu com uma interessante comparação:
- Meu querido Daniel, imagine se você estivesse em um lugar onde há uma paisagem de tirar o fôlego. Então você não resiste e tira uma bela fotografia, que depois é colocada em uma linda moldura. Se você fosse ao mercado vender, quanto você acha que conseguiria por ela? Talvez uns 30 ou 40 reais no máximo.
- Porém o que aconteceria - continuou o rabino - se você fosse ao mesmo lugar, visse a mesma paisagem, mas ao invés de fotografa-la, você pegasse uma tela, passasse o mês inteiro pintando a cena de forma artística e depois emoldurasse. Se você fosse ao mercado, poderia vender esta tela por mais de mil reais. Porém, não é estranha esta diferença de valores? A fotografia é muito mais perfeita, contém cada pequeno detalhe da paisagem, enquanto a pintura, apesar da beleza, capta apenas algumas partes da cena. Sabe por que esta diferença de valores? Pois na verdade é o esforço que conta.
- Esta é a resposta para sua pergunta - concluiu o rabino - os anjos têm a perfeição da fotografia, nunca cometem transgressões. Mas a perfeição deles não tem tanto valor aos olhos de D'us, pois vem sem esforço. Já os seres humanos são imperfeitos. Apesar das coisas boas que fazemos, ocasionalmente também cometemos erros, mas é o nosso esforço para melhorar que nos torna tão preciosos aos olhos de D'us.
Daniel saiu de lá feliz. Ele entendeu que as transgressões, apesar de serem graves, não apagavam os méritos de seus bons atos. Por isso valia a pena se esforçar para crescer um pouco mais a cada dia.

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Na Parashá desta semana, Beshalach, após a praga que matou todos os primogênitos egípcios, o povo judeu finalmente saiu do Egito, como está escrito: "E eis que, quando o Faraó enviou o povo (judeu)" (Shemot 13:17). Mas sabemos que o povo judeu foi libertado diretamente por D'us, e não pelo Faraó. Então por que está escrito "quando o Faraó enviou", como se o Faraó tivesse feito um ato de bondade conosco?

Responde o Midrash (parte da Torá Oral) que o Faraó, no momento em que os judeus estavam saindo do Egito, deu alguns passos para acompanhá-los. O Midrash vai além e afirma que, por estes poucos passos, além do mérito de ter sido escrito na Torá que foi o Faraó que enviou o povo judeu para a liberdade, os egípcios também meritaram a Mitzvá de "Não abominarás o egípcio, pois você foi um estrangeiro na terra dele" (Devarim 23:8).

Mas este Midrash desperta muitos questionamentos. Aquele mesmo Faraó havia negado D'us ao dizer "Quem é Hashem para que eu escute Sua voz?" (Shemot 5:2). Ele também havia endurecido seu coração mesmo com as terríveis pragas que D'us mandou sobre o Egito. Além disso, ele havia permitido a saída do povo judeu somente motivado pelo medo de morrer, já que ele também era um primogênito. Como pode ser que uma pessoa assim tão ruim conseguiu causar um "ruído" tão grande nos mundos espirituais, a ponto da Torá gravar para sempre o mérito dele ter acompanhado o povo judeu na saída do Egito? E mais ainda, como pode ser que, por ter dado alguns passos, o Faraó tenha meritado uma Mitzvá na Torá, apesar de todas as maldades que ele fez?

Responde o Rav Yehuda Leib Chassman (Lituânia,1869 - Israel, 1935) que este Midrash está nos ensinando um importante fundamento, que nos ajuda a perceber como cada pequeno ato pode ter consequências espirituais muito grandes em nossas vidas. Na criação do ser humano está escrito: "E D'us criou o ser humano do pó da terra, e soprou em seu nariz uma alma de vida" (Bereshit 2:7). Este versículo não quer dizer apenas que o ser humano é composto de duas forças, uma espiritual, representada pela alma soprada por D'us, e uma material, representada pelo pó da terra. O versículo também nos ensina que cada ato e cada pensamento do ser humano contém estas duas forças, isto é, uma parte física e uma parte espiritual. A nossa alma é parte de D'us, e da mesma forma que Ele é ilimitado e eterno, a alma que Ele soprou dentro de nós também é ilimitada e eterna. Apesar de não conseguirmos captar com o nosso entendimento limitado o conceito de "eternidade", uma vez que o mundo material tem fim e limite, de qualquer maneira este conceito existe no mundo espiritual.

Explica o Rav Chassman que quando uma pessoa faz um ato, este ato sobe aos mundos espirituais e é dividido em incontáveis pedaços, para que D'us possa indicar quais partes do ato são mais elevadas e pertencem à alma e quais partes são mais baixas e pertencem ao corpo. Apenas D'us, em Sua sabedoria ilimitada, pode fazer este tipo de avaliação, tão precisa e minuciosa. Nenhum detalhe passa em branco, nenhuma informação é perdida.

Portanto, até mesmo um Rashá (malvado) como o Faraó, que endureceu seu coração e não queria libertar o povo judeu, quando surgiu em seu coração uma pequena faísca de bondade e ele quis libertar o povo judeu, a ponto de até mesmo acompanhá-los com alguns passos, isto revelou um pequeno pedaço de bondade escondida dentro de incontáveis partes de maldade absoluta. E mesmo este ínfimo pedaço não passou despercebido aos olhos de D'us, pois por ser uma parcela espiritual e eterna, este pedaço cresceu e aumentou até que seu brilho fez com que as palavras "o Faraó enviou o povo" fossem gravadas para sempre na Torá, e também trouxe méritos para que D'us nos ordenasse a Mitzvá de "Não abominarás o egípcio". Como o Faraó despertou em seu coração uma fagulha espiritual eterna, então ele meritou, Midá Kenegued Midá (medida por medida), uma recompensa eterna.

Daqui aprendemos a força espiritual de um bom ato ou um bom pensamento. Se apenas uma fagulha de bondade no coração do Faraó conseguiu despertar uma força espiritual tão grandiosa, qual será então a recompensa de uma pessoa que dedica sua vida a fazer bons atos e a cumprir a vontade de D'us? Apesar de não podermos captar a real dimensão do que ocorrerá nos mundos espirituais, fica claro, através deste ensinamento da Parashá, o quanto vale a pena nos esforçarmos para melhorar um pouco mais a cada dia, aperfeiçoando nossos atos e nossas características. Até mesmo a vontade e o esforço de fazer o que é correto, apesar das dificuldades, é levado em consideração.

Por outro lado, temos um potencial tão grande que, se não aproveitado, pode ter consequências desastrosas. No final da Parashá está descrito o primeiro encontro do povo judeu com Amalek, nosso maior inimigo, o povo descendente de Essav. A maldade de Amalek é tanta que temos uma Mitzvá especial de apagar do mundo qualquer lembrança sua, como está escrito: "Eu vou certamente apagar a lembrança de Amalek sob os céus... D'us mantém uma guerra contra Amalek, de geração em geração" (Shemot 17:14,16). Por que um castigo tão duro para o povo de Amalek, uma guerra eterna contra eles?

D'us escreveu sobre Amalek justamente nesta Parashá, onde está descrita a recompensa eterna do Faraó, para nos ensinar que, diferente do Faraó, que conseguiu despertar no seu coração pelo menos uma fagulha de bondade, os Amalekim representam a total falta de boas características e de Emuná (fé). Seus atos são tão baixos, tão negativos, tão destrutivos, que não resta nem mesmo uma fagulha de espiritualidade. Pelo fato do povo de Amalek tentar apagar do mundo a espiritualidade, que é eterna, então D'us castigou-o, Midá Kenegued Midá, com a Mitzvá de apagar a memória de Amalek e guerrear contra ele para sempre. Ao trazer o assunto de Amalek a Torá quis ressaltar que, apesar de todo o potencial de bondade que o ser humano tem, o mau uso do nosso livre arbítrio pode nos fazer afundar em maldades e aumentar nossas transgressões a ponto de destruir qualquer espiritualidade nos nossos atos, apagando a luz da nossa alma.

D'us não despreza nenhum bom ato, nem mesmo um bom pensamento. Ele vê as nossas dificuldades e o nosso esforço. Mesmo quando fracassamos, Ele sabe quando tentamos de verdade. Por isso, não podemos desistir, apesar de às vezes o trabalho parecer difícil demais. Se ao menos tentarmos, com todas as nossas forças, assim estaremos garantindo que, mesmo dentro de um fracasso, haverá muitos sucessos.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A FORÇA QUE VEM DO SHABAT – PARASHÁ BESHALACH 5773

 
"A Rebbetzin Esther Jungreis nasceu na Hungria. Ela viveu, desde sua infância, tempos difíceis para os judeus. Muitos anos antes dos nazistas dominarem a Europa, o antissemitismo já mostrava sua face mais cruel na Hungria. Os húngaros costumavam alistar jovens judeus para trabalhar em campos de trabalho escravo. As carroças que transportavam os jovens judeus passavam pela cidade de Szeged, onde vivia Esther. Seu pai, o rabino chefe da cidade, conseguia trazer para sua casa, toda semana, de 10 a 15 jovens para que passassem o Shabat com ele. Apesar do mundo lá fora ser cada vez mais horrível, quando o rabino entrava em casa e dizia "Shabat Shalom, crianças", a casa se iluminava de uma maneira especial. O dia de Shabat era um dia de muita alegria. Enquanto o mundo inteiro mergulhava em escuridão, o Shabat na casa dos Jungreis elevava todos os presente às alturas espirituais, e eles se sentiam, mesmo que por apenas um único dia, imunes à devastação que ocorria no mundo lá fora.

Quando os nazistas invadiram a Hungria, toda a família Jungreis foi enviada para o Campo de Concentração de Bergen-Belsen. Todos os dias eles recebiam de alimento apenas uma fatia de pão com um pouco de serragem. Mas o pai de Esther nunca comia todo o seu pão. Ele sempre tirava um pequeno pedaço do pão e guardava em um local escondido. Ele ensinava seus filhos a contar: "Faltam quatro dias para o Shabat... Faltam três dias para o Shabat...". Quando o Shabat finalmente chegava, no meio da noite a família se sentava no chão do barraco, que estava cheio de ratos, e o pai de Esther dizia: "Fechem os olhos, crianças. Agora nós estamos em casa. Vamos comer um pouco de Chalá". Então ele retirava do esconderijo as migalhas e pequenos pedaços de pão que havia cuidadosamente guardado durante a semana, dividia entre todos os familiares e cantavam "Shalom Aleichem", dando as boas vindas aos anjos que nos acompanham até em casa na noite de Shabat. Certa vez, após cantar "Shalom Aleichem", o irmão menor de Esther falou para seu pai:

- Pai, nós damos as boas vindas para os anjos, mas eu não consigo ver nenhum anjo! Onde eles estão?

O pai então começou a chorar e, enquanto lágrimas corriam pelo seu rosto, ele falou:

- Meus filhos, vocês são os verdadeiros anjos do Shabat.

Foi com a força do Shabat que toda a família Jungreis conseguiu sobreviver ao inferno de Bergen-Belsen e, após o Holocausto, ajudar a construir o judaísmo da América" (História Real)

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Na Parashá desta semana, Beshalach, o Faraó, arrasado pelas pragas que destruíram o Egito, deixou o povo judeu ir embora, mas logo se arrependeu e saiu em perseguição aos judeus com um grande exército. D'us então fez o grande desfecho, abrindo o Mar Vermelho para que o povo judeu pudesse atravessar em terra firme e fechando-o sobre os egípcios, matando todos afogados.

Mas logo após este grande milagre, a Torá descreve um pequeno incidente. Os judeus caminharam três dias no deserto de Shur e não encontraram água. Então eles chegaram a um local chamado Mará, onde havia água, mas as águas eram muito amargas e, portanto, não eram potáveis. O povo então reclamou de forma agressiva com Moshé, que rezou para D'us. D'us escutou os pedidos de Moshé, mostrou a ele uma árvore e ordenou que ele a atirasse nas águas amargas. Milagrosamente as águas se tornaram doces, possibilitando o povo beber e saciar sua sede.

Mas como o povo judeu pôde reclamar de forma tão agressiva, quase gerando uma rebelião contra Moshé, três dias após o incrível milagre da abertura do Mar Vermelho? O Talmud (Baba Kama 82a) explica que a falta de água é apenas uma analogia à falta de Torá, pois a Torá é, em várias características, comparada com a água. Por exemplo, da mesma forma que a água se acumula apenas nos lugares mais baixos, assim também a Torá se acumula apenas entre os humildes, que vencem o seu orgulho e a sua busca pela honra. Além disso, da mesma forma que é impossível viver sem água, também é impossível viver sem a Torá, pois ela é o nosso "Manual de Instruções" de como a vida, a interação entre o material e o espiritual, funciona.

Quando Moshé Rabeinu percebeu que apenas três dias após um gigantesco milagre o povo começou a reclamar, ele entendeu que o povo judeu não poderia ficar mais de três dias consecutivos sem o estudo da Torá, pois isto causava uma enorme deterioração de sua espiritualidade. Então ele estabeleceu que a Torá deveria ser lida publicamente na 2ª feira e na 5ª feira, além da leitura feita no Shabat, para que o povo judeu não passasse mais de três dias sem Torá.

Porém, daqui surge uma pergunta interessante: se o objetivo era não deixar que passassem três dias sem Torá, isto poderia ser conseguido através de várias possibilidades. Por exemplo, a leitura poderia ser na 3ª e na 5ª, ou na 2ª e na 4ª. Por que Moshé fixou a leitura da Torá justamente na 2ª e na 5ª?

Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ajuda a responder a pergunta. O Midrash (Bereshit Rabá 11:9) diz que, após a criação do mundo, o Shabat reclamou com D'us, pois todos os dias da semana tinham um "par", menos o Shabat. D'us então consolou o Shabat dizendo que seu "par" seria o povo judeu. O que significa este conceito de que cada dia tem um par? E o que este Midrash nos ensina?

O Rambam (Maimônides) nos ensina que todas as criações de D'us têm como base quatro elementos fundamentais: a terra, a água, o fogo e o vento. Quando analisamos a criação do mundo, podemos perceber que em cada dia um dos elementos foi predominante. No primeiro dia D'us criou a luz, que é predominantemente composta pelo fogo. No segundo dia D'us criou o céu, que é resultado da divisão das águas e, portanto, o elemento predominante foi a água. No terceiro dia D'us criou a terra firme e a vegetação, sendo o elemento predominante a terra. O ciclo então se repete, pois no quarto dia D'us criou o sol, a lua e as estrelas, cujo elemento predominante é o fogo. No 5º dia D'us criou os peixes e animais aquáticos que, segundo o Talmud, foram formados a partir da própria água, sendo o elemento predominante a água. No 6º dia D'us criou os animais terrestres e o primeiro ser humano, que recebeu o nome de Adam, pois foi feito da "Adamá" (terra), sendo o elemento predominante neste dia a terra.

Segundo o Midrash, da mesma forma que praticamente tudo no mundo material é produzido através da combinação de "macho-fêmea", os elementos que D'us utilizou para criar o mundo também têm propriedades de "macho e fêmea" que, combinados, formam certa criação que apresenta este elemento de maneira predominante. Portanto, o Domingo e a 4ª feira se unem para produzir as criações baseadas no elemento fogo; a 2ª e a 5ª se unem para formar as criações baseadas no elemento água; e finalmente a 3ª e a 6ª se unem para produzir as criações baseadas no elemento terra. Estes são os "pares" a que se refere o Midrash. Pelo fato de Moshé ter fixado as leituras adicionais da Torá baseado na comparação entre a Torá e a água, os dias mais indicados para que a Torá fosse lida publicamente eram a 2ª e a 5ª, cuja combinação gera criações cujo elemento predominante é a água.

Explica o Rav Yohanan Zweig que o único elemento não utilizado nos seis primeiros dias da criação é o vento (Ruach), que é o mais espiritual de todos os elementos. Portanto, o Shabat, o dia mais espiritual da semana, é a criação em que o elemento predominante é o vento. Por isso o Shabat tem um caráter maior de espiritualidade e santidade do que os outros dias da semana. Mas como ensinou o Midrash, para conseguir alcançar uma criação é necessário um "par". Por isso, é somente a união entre o povo judeu e o Shabat que gera a santidade deste dia tão especial, santidade que permeia todos os outros dias da semana e dá para eles existência e sentido.

Muitas pessoas veem o Shabat como algo monótono e antiquado. Isto é porque muitas vezes não entendemos o caráter tão especial deste dia, que influência nossa semana de forma tão impactante. O Shabat é a fonte de energia de toda nossa semana. Os três primeiros dias da semana recebem energia do Shabat que passou, enquanto os três últimos dias da semana recebem influência do Shabat que está por vir. Principalmente nos dias atuais, em que a pressão do trabalho e do cotidiano nos afeta tanto, o Shabat é um verdadeiro oásis no meio do deserto, uma possibilidade de semanalmente recarregar as baterias.

Sem o Shabat nos tornamos escravos do mundo material. O Shabat é uma chance de nos desligarmos, durante um dia inteiro, de tudo o que nos escraviza. Podemos viver um dia por semana sem nossos computadores e celulares. Podemos viver um dia por semana sem pensar nos lucros da empresa, nos fornecedores e nos clientes. Podemos dedicar pelo menos um dia de nossa semana para nossa família, sentando juntos para as refeições de Shabat. Podemos dedicar pelo menos um dia de nossa semana para ler e conhecer um pouco mais da infinita sabedoria contida na nossa Torá. É um dia de descanso para o corpo e para a alma, no qual podemos nos conectar a D'us de uma maneira muito mais intensa.

Quando nos "unimos" ao Shabat, estamos contribuindo para trazer mais santidade ao mundo. Assim, além de aproveitar um dia especial, no qual nossas energias podem ser recarregadas, estaremos contribuindo para a construção de um mundo com mais paz e harmonia.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 13:17-17:16, Jz. 4:4-5:31, Jo. 6: 22-40 (Shabat Shirá / Tu Bish’vat)