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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O VALOR DE UMA VIDA - PARASHIÓT MATÓT E MASSEI 5776

Após o término da Segunda Guerra Mundial, uma carta anônima foi encontrada em um Campo de Concentração nazista, contendo a seguinte mensagem:

"Prezados professores, sou sobrevivente de um Campo de Concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver: câmaras de gás construídas por engenheiros formados, crianças envenenadas por médicos diplomados, recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas, mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas dúvidas sobre a educação. Meu pedido é: ajudem seus alunos a se tornarem humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e saber aritmética só será importante se nossas crianças forem mais humanas"

De nada adiantam os títulos e as condecorações se a pessoa não sabe o verdadeiro valor de uma vida humana. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Matót (literalmente "Tribos") e Massei (literalmente "Viagens"). A Parashá Matót fala sobre a importância de manter as promessas e os juramentos, sobre o ataque do povo judeu ao povo de Midian e sobre o desejo das tribos de Reuven e Gad de se estabelecer antes do Rio Jordão, fora da Terra de Israel. Já a Parashá Massei descreve as viagens que o povo judeu fez durante os 40 anos em que permaneceu no deserto, apontando todos os lugares onde o povo acampou. Além disso, a Parashá Massei descreve as "Cidades de Refúgio", locais para onde uma pessoa que havia assassinado de forma não intencional deveria ir e permanecer até a morte do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). O fato de a Torá chamar alguém que matou sem intenção de "assassino" já demonstra o quanto D'us é rigoroso com cada vida humana.

A Torá ressalta que as leis da Cidade de Refúgio somente se aplicavam a um assassinato acidental, como no caso da lâmina do machado de um lenhador que escapou do cabo e atingiu fatalmente outro lenhador. Porém, um assassino intencional não podia se abrigar nas Cidades de Refúgio, pois devia ser punido com a pena de morte. O final da Parashá ressalta que não devemos ser lenientes com um assassino intencional, como está escrito: "Você não deve aceitar um resgate pela vida de um assassino que merece morrer, você deve matá-lo... Você não deve corromper a terra onde você está, pois o sangue corrompe a terra" (Bamidbar 35:31,33). Estes versículos nos ensinam que não podemos ser tolerantes nem racionalizar e buscar permissões para permitir assassinatos, e aquele que intencionalmente tira uma vida não deve receber a possibilidade de "resgatar sua liberdade" através de algum tipo de pagamento. O versículo termina ressaltando que, caso um assassinato seja tolerado ou racionalizado, o sangue derramado será considerado uma abominação e contaminará a Terra de Israel, o local onde a Presença de D'us reside.

Porém, há algo que nos chama a atenção quando prestamos atenção na linguagem do versículo. A palavra "Iachnif", que significa "corromper", vem da mesma raiz de "Chanufá", que significa "bajulação". Qual é a conexão entre corromper e bajular? Como deixar um assassino vivo pode "bajular a terra"?

É interessante perceber que não é apenas a Torá que lida de forma tão rigorosa com o assassinato intencional. De acordo com as leis de todos os povos do mundo, o assassinato intencional é considerado um delito extremamente grave e é normalmente punido com a máxima rigorosidade, com penas que variam de muitos anos de detenção ou prisão perpétua até a morte do assassino. Mas será que a forma como a Torá enxerga a gravidade do assassinato é igual à forma como os povos do mundo enxergam?

Explica o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) que, apesar das aparentes semelhanças na rigorosidade com o qual os assassinos são tratados, há uma enorme e essencial diferença entre a forma como a Torá e as leis dos outros povos enxergam o assassinato intencional e sua consequente punição. Os outros povos olham o assassinato como algo que estraga e coloca em risco a continuidade do mundo, e por isso o assassino deve ser duramente punido. Os outros povos veem os duros castigos aplicados ao assassino como uma forma de erradicar do mundo aqueles que querem destruir a humanidade.

Porém, qual é o grande perigo de pensar desta maneira? Quando punimos de maneira muito rigorosa uma pessoa pelo fato de considerarmos que ela coloca em risco a humanidade, então corremos o risco dos limites e das definições de quem são os "perigos para a humanidade" mudarem de acordo com as vontades e as necessidades de cada sociedade. Pessoas inocentes podem ser mortas a sangue frio por assassinos que acreditam que estão salvando o mundo. Isto explica por que explodem tantas guerras, e por que surgem grupos como o Estado Islâmico, que em nome de garantir a continuidade de um mundo "correto" matam milhares de pessoas inocentes que nunca fizeram mal a ninguém. E se parece um exagero pensar assim, basta lembrar o assassinato a sangue frio de seis milhões de judeus durante o Holocausto. Quem eram os assassinos? Não eram os bárbaros, cossacos ou vikings. Eram médicos, engenheiros e policiais, pessoas que deveriam zelar pela vida, mas que escolheram assassinar homens, mulheres, crianças e bebês com requintes de crueldade.

Como tantos alemães participaram de assassinatos a sangue frio no Holocausto, ou simplesmente se calaram e foram coniventes com os crimes nazistas? A mídia alemã conseguiu, através de uma propaganda virulenta e mentirosa, convencer a maioria do povo alemão que os judeus eram a causa de todos os problemas do mundo. Ao transformar um judeu na "causa dos problemas", os nazistas conseguiram convencer as pessoas que matar um judeu não era um assassinato, e sim a eliminação de um problema, e que a morte deles seria pelo bem da humanidade.

Outra consequência negativa desta visão equivocada é não sabermos valorizar cada instante da vida de um ser humano. Por exemplo, os momentos finais de um doente terminal, a vida de uma pessoa muito idosa e até mesmo a vida de um feto vão perdendo seu valor em uma sociedade que pensa que, em prol da continuidade da humanidade, podemos decidir quem pode viver e quem deve morrer. A eutanásia vem ganhando cada vez mais adeptos, até mesmo entre os médicos, que acreditam que não há sentido em prolongar a vida de alguém que está em estado vegetativo, inclusive pelo fato desta pessoa não produzir mais nada para a humanidade. Infelizmente a eutanásia é defendida por muitos como um ato de bondade, mas sua raiz verdadeira vem dos nazistas. Os alemães permitiram o assassinato de milhares de doentes mentais e pessoas inválidas a partir de 1939, em um projeto chamado "Aktion T4". Deficientes físicos e mentais eram considerados partes "inúteis" da sociedade e, por isso, eram assassinados a sangue frio. O projeto somente foi possível pois recebeu intensa contribuição dos médicos alemães. Aqueles que haviam jurado, em suas formaturas, dedicar suas vidas para curar os doentes, participaram ativamente em mais de 250 mil assassinatos, apenas por que os mortos eram considerados "inúteis". Os alemães demonstraram claramente que não sabiam dar o devido valor a uma vida humana. Passar do assassinato de inválidos e doentes mentais ao assassinato de seis milhões de judeus foi apenas um passo.

Já a visão da Torá em relação ao assassinato é completamente diferente em sua essência. A gravidade do assassinato não está relacionada com o conceito da continuidade da humanidade como um todo, e sim com o inestimável valor intrínseco de cada vida. A diferença na prática é que, mesmo quando uma pessoa não contribui mais nada para a humanidade, ainda assim é proibido matá-la. Cada minuto da vida de um paciente terminal é visto pela Torá com a mesma santidade que a vida da pessoa mais importante do mundo. Mesmo em relação a um doente mental ou um doente terminal com poucas horas de vida existe a gravíssima proibição de diminuir seu tempo de vida, mesmo que seja em alguns instantes. A Halachá (Lei Judaica) permite inclusive que um judeu desrespeite as leis de Shabat mesmo que seja apenas para prolongar um pouco mais a vida de um paciente terminal. A "bondade" de desligar os aparelhos de um doente é vista pela Torá com um ato bárbaro de assassinato e de desprezo pelo valor da vida humana. É por isso que a Torá trata o assassino intencional de maneira tão rigorosa, pois ele desprezou uma das coisas mais sagradas: uma vida humana.

Esta diferença entre a visão judaica e a visão dos outros povos é justamente o que o versículo está ressaltando. Quando alguém mata baseando-se no fato da outra pessoa estar "estragando a continuidade da humanidade", é como se ela estivesse "bajulando a terra", pois de acordo com seu ponto de vista equivocado, cada indivíduo é apenas secundário em relação à terra, isto é, em relação à humanidade como um todo, e a humanidade não deseja esta pessoa. Este ponto de vista faz com que o valor de uma vida não seja absoluto, e sim relativo. Portanto, matar alguém "em prol da humanidade" é como se fosse um ato de bajulação da humanidade.

O versículo vem nos ensinar que a "bajulação da terra" é um ato de corrupção da verdade, pois de acordo com a Torá a terra é secundária em relação a cada indivíduo. Cada ser humano foi criado à imagem e semelhança de D'us e, portanto, sua vida e sua existência têm valores inestimáveis. Cada ser humano é um mundo por si só, como afirma o Talmud (Sanhedrin 37a): "Quem salva uma vida é como se tivesse salvado o mundo inteiro". Este conceito não se aplica apenas em relação a não assassinar, mas também em relação ao respeito que devemos dar a cada pessoa, pois, apesar dos nossos defeitos, temos um valor inestimável aos olhos de D'us.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Matôt    Nm. 30:1- 32:42, Je 1:1-2:3
Mass’êi  Nm. 33:1-36:13, Je 2:4 – 28, 3:4, 4:1-2

sábado, 25 de julho de 2015

APRECIE O QUE VOCÊ TEM - PARASHIÓT MATÓT E MASSEI 5775

 
Certa vez Fernando caminhava pela praia, em uma noite de lua cheia. Ele era um homem inconformado com as dificuldades que passava na vida. Não estava feliz no trabalho, não estava satisfeito com seu casamento e não se sentia confortável com sua situação financeira sempre apertada. Ele ia caminhando e pensando: "Se eu tivesse uma casa um pouco maior, um trabalho menos estafante, uma esposa mais compreensiva, aí sim eu seria feliz...".

Perdido em seus pensamentos, Fernando não viu uma sacola cheia de pedrinhas que estava no chão e acabou tropeçando. Imediatamente começou a amaldiçoar aquele que havia deixado a sacola jogada no meio da praia. Ele pegou a sacola na mão e começou a jogar as pedrinhas no mar, uma a uma. Mas ele não as jogava aleatoriamente. Cada vez que ele dizia "Eu seria feliz se tivesse...", ele agarrava uma pedrinha e atirava no mar. Assim ele foi repetindo aquele ato por um bom tempo, até que somente restou uma única pedrinha na sacola.

Ao chegar em casa, Fernando acendeu a luz e olhou aquela pedrinha que havia restado com um pouco mais de atenção. Foi então que ele percebeu que aquelas não eram simples pedrinhas, eram diamantes muito valiosos. Fernando ficou desesperado. Quantos diamantes valiosos ele havia jogado ao mar, sem perceber? Por não ter parado para prestar atenção, todos os sonhos da sua vida haviam passado pelas suas mãos e haviam sido atirados ao mar...

Assim são as pessoas, elas jogam fora seus preciosos tesouros por estarem esperando aquilo que acreditam ser perfeito, ou sonhando e desejando o que não têm, sem dar valor ao que elas têm perto delas. Se olhassem ao redor, parando para observar, perceberiam quão afortunadas são.

Sua felicidade está muito perto de você. Cada pedrinha deve ser observada com cuidado, pois pode ser um diamante valioso. Cada um de nossos dias pode ser considerado um diamante precioso, valioso e insubstituível. Está em nossas mãos aproveitá-lo, ou lançá-lo ao mar do esquecimento para nunca mais recuperá-lo.

E você, o que anda fazendo com suas pedrinhas? 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Matót e Massei, que descrevem eventos ocorridos com o povo judeu durante os preparativos finais para a entrada na Terra de Israel. A Parashá Matót descreve um acontecimento que é um pouco difícil de ser entendido. Como os integrantes das tribos de Reuven e Gad tinham uma grande abundância de rebanhos, muito mais do que as outras tribos, eles imaginaram que não haveria pastos suficientes em Israel para todos os animais. Então eles propuseram a Moshé que, ao invés de receberem uma porção na Terra de  Israel, preferiam ficar fora, na porção oriental do Rio Jordão, um vale muito fértil e com abundantes pastos, um local excelente para criação de animais.

Moshé não viu o pedido com bons olhos e reagiu com uma forte crítica aos membros das tribos de Reuven e Gad. Mas o que causou esta fúria em Moshé não foi o fato de terem escolhido morar fora da Terra de Israel, e sim a forma como eles se expressaram. Ao fazer o pedido, eles simplesmente ignoraram as necessidades dos seus próprios filhos e mencionaram apenas as necessidades dos seus animais, como está escrito "E vieram os descendentes de Gad e os descendentes de Reuven e falaram com Moshe, com Elazar HaCohen e com os príncipes da comunidades, e disseram... esta terra é para gado, e seus servos têm gado" (Bamidbar 32:2,4).

Após a bronca, aparentemente os líderes de Reuven e Gad entenderam o recado de Moshé, mas não completamente. Eles novamente se aproximaram de Moshé e reapresentaram seu pedido. Desta vez eles se lembraram de mencionar seus filhos, mas ainda assim somente depois de terem mencionado seus animais, como está escrito: "Eles se aproximaram dele (Moshé) e disseram: "Vamos construir aqui currais para o nosso gado e cidades para as nossas crianças" (Bamidbar 32:16). Novamente Moshé não gostou da inversão de prioridades, por eles terem colocado seus bens antes de suas famílias, e novamente os criticou. Finalmente eles aprenderam a lição e colocaram as coisas em sua devida ordem, isto é, primeiro a família e somente depois os negócios, como está escrito "Nossos filhos e nossas mulheres, nossos rebanhos e nossos animais permanecerão lá, nas cidades de Guilad" (Bamidbar 32:26).

As tribos de Reuven e Gad, e metade da tribo de Menashé, que posteriormente se juntou a eles na decisão de morar fora da Terra de Israel, parecem dar mais valor para suas posses do que para sua espiritualidade e suas famílias. O que poderia explicar esta visão tão distorcida das coisas?

A resposta está em um famoso questionamento: "Quem é rico?". Que tipo de resposta daríamos para esta pergunta? Na nossa concepção, o mais rico é aquele que tem o maior saldo bancário. Como a pergunta é quantitativa, então esperaríamos uma resposta também quantitativa. Porém, a Mishná (parte da Torá Oral) dá uma resposta diferente: "Quem é rico? Aquele que está contente com sua porção" (Pirkei Avót 4:1), isto é, rico é aquele que está feliz com sua vida.

Apesar das aparências, isto não é um ensinamento "conformista", de que devemos desejar uma vida medíocre e sem crescimento. A Mishná está nos ensinando que devemos nos esforçar para melhorar nossas vidas de todas as maneiras possíveis, mas devemos saber que, em qualquer nível de conquista que tenhamos alcançado, a chave para possuir isto de verdade é apreciá-lo. A pessoa que é rica de verdade é aquela que desenvolve uma atitude que o faz se sentir abençoado, independente das circunstâncias atuais de sua vida, e que tem a certeza de que absolutamente nada lhe falta.

Todos nós lembramos ter desejado "algo" na vida que, caso fosse alcançado, nos levaria a um estado de felicidade permanente. Pode ter sido um novo trabalho, uma nova casa, um novo carro ou qualquer outra coisa que teoricamente mudaria nossa vida para sempre. Mas o que ocorreu quando alcançamos este desejo? Percebemos que, após um rápido momento de "brilho" inicial, nada mudou de verdade em nossas vidas. Porém, ao invés de aprender com esta lição, normalmente passamos para a próxima fantasia, para a próxima ilusão de algo que vai realmente mudar nossas vidas.

Mudar a nossa vida de forma permanente tem muito mais a ver com gostar do que nós temos do que ter o que nós gostamos. Apreciação é como um músculo, precisa ser trabalhado para se desenvolver e se fortalecer. Se uma pessoa tem apenas 10 mil e realmente aprecia e se sente abençoado por ter este valor, enquanto outra pessoa tem 10 milhões mas não aprecia por estar focado nos 100 milhões que seu vizinho tem, então quem é mais rico, aquele que tem 10 mil ou aquele que tem 10 milhões? O ponto em comum entre todas as pessoas que são felizes é que elas desenvolveram uma atitude de apreciar tudo o que têm na vida e se sentem abençoadas. E o contrário também é válido, isto é, o ponto em comum entre as pessoas que estão sempre tristes é que, independente do que elas têm, elas não sabem apreciar as bênçãos que receberam na vida.

Este é um conceito incrível, de que ser verdadeiramente rico não é determinado pelos padrões ditados pela nossa sociedade. Riqueza é algo disponível para todos, tanto para os ricos quanto para os pobres. Ser rico não depende de ninguém, depende apenas de nós mesmos, pois é uma questão de atitude. Se a pessoa desenvolve esta atitude positiva, todos os bens materiais que ela adquire servem para aumentar seu prazer. Mas se a pessoa não desenvolve esta atitude, nenhuma quantidade de bens será suficiente para fazê-la se sentir rica. A falta de apreciação a levará a uma busca incessante de níveis maiores de aquisição material, que nunca terá fim e nunca a deixará satisfeita de verdade.

Este conceito talvez explique a visão distorcida de Reuven, Gad e Menashé. De acordo com o Rav Simcha Barnett, há um ponto em comum entre estas tribos: as três eram descendentes de primogênitos. Reuven era o primogênito dentre todos os filhos de Yaacov; Gad era o primogênito de Zilpá, uma das esposas de Yaacov; e Menashé era o primogênito de Yossef. De acordo com o judaísmo, o primogênito carrega um grau de responsabilidade maior do que seus irmãos. Formalmente, este papel de liderança se materializava nos serviços do Templo Sagrado e no reinado do povo judeu, papéis que deveriam ser exercidos pelos primogênitos.

Porém, há outro ponto em comum entre estas tribos: elas são descendentes de primogênitos que perderam a sua liderança. Por causa da impulsividade de Reuven, que trocou a cama de seu pai de lugar, ele perdeu o reinado, que passou para Yehudá. Já seus descendentes perderam o sacerdócio para a tribo de Levi por terem participado da terrível transgressão do bezerro de ouro. Gad, que também era primogênito, provavelmente foi indiretamente incluído nos infortúnios de Reuven. E Menashé foi "deixado de lado" por seu avô Yaacov, que ao dar suas Brachót, deu preferência ao seu irmão mais novo, Efraim. Portanto, os três esperavam receber privilégios especiais e cargos elevados dentro do povo judeu, mas foram "derrubados" destes papéis de destaque.

É possível que eles esperassem receber algo a mais da vida. Eles contavam com os cargos elevados e com a grandeza que receberiam. Quando a pessoa se sente desta maneira, como se a vida tivesse uma "dívida" com ela, ela se sente amarga caso não receba o que esperava. E mesmo que ela receba, também não sabe valorizar, pois já conta com aquilo. Por exemplo, se uma pessoa empresta a um amigo uma nota de 100 reais, ela não se alegra quando recebe o dinheiro de volta, pois já estava contando com ele. Mas se a mesma pessoa recebesse de presente uma nota de 100 reais, apreciaria seu presente e se alegraria com ele. Da mesma maneira, quando alguém acha que as coisas certamente virão para ele dificilmente se sentirá satisfeito e estará sempre desejando mais e mais. Talvez isto explique o porquê de seus descendentes, as tribos de Reuven, Gad e Menashé, terem sido tão atraídas pelas suas posses materiais, a ponto de dar mais importância aos seus bens do que aos seus familiares e às suas metas espirituais.

Portanto, a chave para saber apreciar a vida é mudar a nossa atitude e passar a olhar tudo como se fosse um presente. Quando achamos que merecemos as coisas, não sabemos apreciar quando elas surgem em nossas vidas. Então o ideal é viver com o conceito de que "não merecemos nada". Se percebêssemos que nossa vida está repleta de bênçãos que nós não fizemos nada para merecer, como o nosso corpo perfeito, nossa inteligência, nossos dons naturais e nossos familiares, então saberíamos reconhecer tudo o que temos de bom. É isto o que o Pirkei Avót está nos ensinando: se queremos ser ricos de verdade e felizes, então a parte mais importante para isso é saber apreciar o que temos. Somente assim as pessoas conseguirão aproveitar as coisas que elas recebem nesta vida maravilhosa. 

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
Nm. 30:1- 32:42,
Nm. 33:1-36:13
 
 

sábado, 26 de julho de 2014

O VALOR DE UMA VIDA - PARASHÁ MASSEI 5774

"Alguns anos atrás, cerca de 600 pessoas formadas em advocacia prestavam um exame na Califórnia para demonstrar que estavam aptas a exercer sua profissão. Algum tempo após o início da prova, um dos participantes, um homem com cerca de 50 anos, deu um grito e caiu desmaiado. Os médicos foram chamados, mas enquanto não chegavam, duas pessoas que conheciam as técnicas de primeiros socorros, ao constatarem que o homem havia sofrido uma parada cardíaca, imediatamente começaram a administrar os procedimentos de reanimação cardiorrespiratória.

Quando os médicos chegaram, imediatamente assumiram o caso, permitindo que as duas pessoas voltassem aos seus exames. Porém, com toda aquela situação, eles haviam perdido quase 40 minutos de prova, o que certamente faria uma grande diferença no resultado final. Eles então pediram ao supervisor a permissão de permanecerem fazendo a prova por mais 40 minutos depois que todos terminassem, mas o pedido foi veementemente negado. Sentindo-se prejudicados, os dois levaram o caso a instâncias superiores, para tentar ganhar a chance de fazer uma nova prova, mas o responsável geral pelo exame apoiou a decisão do supervisor. Quando questionado sobre as razões de sua decisão, ele explicou:

- Se estes dois homens um dia querem se tornar advogados, eles precisam aprender esta importante lição sobre prioridades na vida" (História Real).

Infelizmente não é apenas este responsável geral pelo exame de advocacia que não sabe quais são as verdadeiras prioridades. Todo aquele que coloca, através de atitudes irresponsáveis, a vida dos outros em perigo, certamente perdeu os parâmetros corretos e tornou-se um insensível.
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Nesta semana terminamos o 4º livro da Torá, Bamidbar. E a Parashá da semana, Massei, descreve as dezenas de viagens que o povo judeu fez durante os 40 anos em que permaneceu no deserto. Outro assunto trazido pela Parashá é a punição para um assassinato não intencional. Neste caso, o assassino não recebia pena de morte, pois não havia a intenção de matar, mas também não ficava livre. Ele precisava ir para o exílio, em um local chamado "Ir Miklat" (cidade de refúgio), e permanecia lá até a morte do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). E o que o prendia à cidade de refúgio? Por causa do assassinato, um parente próximo do falecido, chamado de "Goel HaDam" (vingador de sangue), poderia matá-lo sem a necessidade de um julgamento, sendo a cidade de refúgio o único lugar seguro para o assassino não intencional, pois lá dentro ele não podia ser tocado. E a Torá nos ensina mais alguns detalhes, como quantas cidades de refúgio deveriam ser construídas e onde elas deveriam se localizar: "E as cidades que vocês devem designar, deve haver 6 cidades de refúgio para vocês. 3 cidades vocês designarão  do outro lado do Jordão, e 3 cidades vocês devem designar na Terra de Knaan (Israel); elas devem ser cidades de refúgio" (Bamidbar 35:13,14). O Talmud (Makót 9b) acrescenta um detalhe interessante: apenas quando as 6 cidades estivessem construídas é que realmente elas começariam a funcionar como cidades de refúgio para abrigar e proteger os assassinos não intencionais.

Porém, o Talmud traz outra informação que parece ser contraditória com esta afirmação. Moshé, apesar de saber que as últimas 3 cidades seriam construídas somente após a conquista da terra de Israel, o que ocorreu 14 anos depois da sua morte, ele insistiu em construir em vida as 3 cidades que ficavam fora de Israel. O Talmud inclusive utiliza esta atitude de Moshé como um modelo de como devemos ser ágeis no cumprimento das Mitzvót que aparecem diante de nós. Mas será que este é realmente um bom exemplo de agilidade no cumprimento das Mitzvót? Em geral, a agilidade somente faz sentido quando a utilizamos para cumprir uma Mitzvá imediatamente, ao invés de deixá-la para depois. Porém, qual era a vantagem desta agilidade no caso de Moshé, se ele sabia que as cidades de refúgio construídas por ele não seriam utilizadas até que todas as cidades estivessem prontas, isto é, a Mitzvá ainda não estaria completa?

Além disso, há outro detalhe que nos chama a atenção nas cidades de refúgio. Fora de Israel permaneceram apenas as tribos de Reuven, Gad e metade da tribo de Menashe, enquanto as outras 9 tribos e meia se estabeleceram em Israel. Então por que esta proporção tão desequilibrada de cidades de refúgio, sendo 3 cidades servindo apenas 2 tribos e meia, enquanto as outras 3 cidades serviam as outras 9 tribos e meia restantes? Elas não deveriam ter sido distribuídas de forma mais proporcional?

Responde o Talmud que fora de Israel, apesar de haverem menos tribos, eram necessárias proporcionalmente mais cidades de refúgio, pois lá os assassinatos eram mais frequentes. Isto significa que as pessoas que viviam fora de Israel tinham um nível espiritual mais baixo, e por isso os crimes eram mais frequentes. Porém, esta resposta do Talmud não é suficiente para entendermos o motivo pelo qual havia mais cidades de refúgio, pois somente iam para lá as pessoas que haviam matado acidentalmente, não os assassinos intencionais. Como o fato de ocorrem mais crimes intencionais influenciava no número de crimes não intencionais?

Para entendermos, precisamos refletir sobre o que significa matar uma pessoa "sem intenção". Explica o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) que existe uma diferença entre uma morte que envolveu uma situação de "Ones" (força maior) e uma morte que envolveu uma situação de "Shogueg" (ato sem intenção). O "Ones" é quando algo acontece sem nenhuma previsibilidade e, portanto, sem o menor grau de negligência, enquanto o "Shogueg" é quando há certo grau de previsibilidade e, portanto, implica em certo grau de negligência. Se um assassinato fosse resultado de um "Ones", aquele que causou a morte estava isento de qualquer responsabilidade e não precisava ir para a cidade de refúgio. Mas o assassinato que era resultado de algum nível de negligência, apesar de não haver intenção, trazia para o assassino uma parcela de culpa e o obrigava a ir para a cidade de refúgio como forma de expiar o erro.

Portanto, o caso de assassinato não intencional descrito pela Torá envolve certa negligência. Além disso, o ser humano é fortemente influenciado pelo ambiente onde vive. Isto quer dizer que em um lugar onde há uma alta incidência de assassinatos, a população perde a sensibilidade do verdadeiro valor e santidade da vida. A consequência é que neste lugar as pessoas ficam mais propensas a se descuidarem e praticarem atos que apresentem riscos à vida alheia. É o caso, por exemplo, de pessoas que bebem e depois dirigem, colocando de forma irresponsável não apenas suas vidas em risco, mas também as vidas de todas as pessoas em volta. A necessidade de mais cidades de refúgio do lado de fora de Israel era consequência da maior frequência de assassinatos, que refletia na falta de sensibilidade das pessoas em relação à santidade da vida e causava mais situações de morte acidental.

Com isto entendemos também a agilidade de Moshé Rabeinu em construir imediatamente as 3 cidades que ficavam fora de Israel. As cidades de refúgio tinham, na realidade, duas funções distintas. A primeira função era ser um abrigo seguro para aquele que cometeu o assassinato não intencional. Mas existia ainda uma segunda função, que era criar no povo judeu um grau maior de consciência em relação à santidade da vida humana. Embora a primeira função das cidades de refúgio somente se efetivou depois da conquista de Israel, a segunda função já teve um efeito imediato. A simples presença das cidades de refúgio, mesmo que ainda não eram efetivas, serviam como uma mensagem de que as pessoas deveriam ser mais cuidadosas com seus atos, ensinando-as a dar valor à vida alheia.

A conclusão é que devemos sempre refletir muito antes de tomar qualquer atitude, principalmente quando entramos em situações que possam trazer riscos para outras pessoas. Por exemplo, às vezes saímos atrasados de casa e, para chegarmos ao trabalho na hora certa, passamos os limites de velocidade. Nossa preocupação normalmente é apenas com a possível multa que podemos receber. Mas a verdade é que a principal preocupação deveria ser com a vida dos outros. Uma criança que pode atravessar a rua sem olhar, ou um motorista na nossa frente que pode fazer uma manobra imprudente, são motivos para sermos sempre cuidadosos quando estamos atrás do volante. Alguns minutos de atraso não justificam colocar a vida dos outros em perigo. E o mesmo se aplica a qualquer situação no nosso cotidiano que possa causar risco à vida dos outros. Se formos mais sensíveis e tivermos mais claro qual é o verdadeiro valor de uma vida, certamente seremos muito mais cuidadosos e responsáveis pelos nossos atos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Nm. 33:1-36:13, Je 2:4 – 28, 3:4, 4:1-2, Tg. 4:1-12

sábado, 6 de julho de 2013

MEDO DO CASTIGO - PARASHIÓT MATÓT E MASSEI 5773

Certa vez, em uma pequena cidade do interior, um grande incêndio se alastrou e começou a destruir as casas. As notícias do incêndio correram e chegaram à cidade vizinha, onde morava Alberto, o sobrinho de um dos moradores mais ricos daquela cidade. Quando ele escutou sobre o incêndio, imediatamente pediu ajuda a um amigo para tentar salvar a casa de seu tio da destruição. Correram o mais rápido que puderam para tentar chegar a tempo de ajudar.

Porém, quando Alberto chegou ao portão da casa de seu tio, viu que as coisas mais preciosas que ele tinha, como um antigo relógio de família, a caixa de joias de sua esposa e a sua coleção de moedas antigas, estavam espalhadas por todo o jardim. Alberto parou e, com tristeza, avisou ao amigo que de nada havia adiantado a corrida deles, pois haviam chegado tarde demais. Certamente o estrago já estava feito e a casa já havia sido completamente destruída pelo fogo.

Mas o amigo de Alberto não entendeu. Eles haviam chegado apenas até o portão da casa, não tinham nem visto se a casa havia sido atingida ou não. Como ele podia ter tanta certeza da destruição sem nem mesmo ter visto a casa do seu tio? Alberto explicou para ele:

- Normalmente, a pessoa guarda seus objetos mais valiosos nos lugares mais seguros dentro da casa. Mas podemos ver que os objetos mais valiosos estão completamente expostos, espalhados pelo jardim da casa. Isto significa que a casa já foi completamente consumida pelo fogo, e estas são as poucas coisas de valor que eles conseguiram salvar"

Explica o Chafetz Chaim que todo judeu tem uma "mansão" guardada para ele no Mundo Vindouro, que é construída através de cada bom ato e cada Mitzvá que ele cumpre na vida. Mas quando a pessoa se desvia do caminho correto, suas transgressões podem destruir sua "mansão espiritual". Ao viver apenas em busca do preenchimento dos seus desejos, a pessoa pode acabar com sua eternidade. E tudo o que restará a ela será aproveitar, ainda neste mundo, as poucas Mitzvót que ele conseguir salvar deste terrível "incêndio espiritual". Por isso, refletir sobre a consequência dos nossos maus atos nos ajuda a garantir a nossa eternidade.

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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Matot e Massei, terminando o quarto livro da Torá, Bamidbar. Na Parashá Matót, a Torá fala, entre outros assuntos, sobre a guerra de vingança contra o povo de Midian e o pedido das tribos de Reuven e Gad para se estabelecerem do lado de fora da Terra de Israel. Já a Parashá Massei descreve as várias viagens que o povo judeu fez no deserto.

Também na Parashá Massei a Torá nos ensina qual a punição de uma pessoa que comete um assassinato não intencional. Por exemplo, se uma pessoa fosse cortar árvores e o machado escapasse de sua mão e atingisse letalmente outra pessoa, ela não era punida com a pena de morte, já que não havia a intenção de matar, mas deveria pagar pelo seu erro indo para o exílio. O exílio não poderia ser em qualquer lugar, havia cidades específicas para este fim, chamadas "Arei Miklat" (cidades de refúgio). O assassino não intencional precisava ir imediatamente para a cidade de refúgio e permanecer ali até a morte do Cohen Gadol (Sumo sacerdote).

Podemos perceber que estas cidades de refúgio envolvem dois conceitos diferentes: a salvação e o castigo. Por um lado, as cidades eram construídas pelo bem do assassino não intencional. De acordo com a Torá, apesar do assassinato não ter sido cometido com nenhuma má intenção, havia a permissão para que um parente do falecido vingasse a sua morte. Este parente era conhecido como "Goel HaDam" (vingador de sangue). Mas o assassino estava protegido dentro da cidade de refúgio, pois o "Goel HaDam" não tinha nenhuma permissão de causar qualquer mal ao transgressor lá dentro. A Torá exigia que os caminhos que levavam às cidades de refúgio fossem bem sinalizados, possibilitando que o assassino não intencional pudesse correr e salvar sua vida. Além disso, dois sábios de Torá acompanhavam o assassino não intencional até a cidade de refúgio, para acalmar e clamar pela sua vida caso o "Goel HaDam" o alcançasse no caminho. Portanto, as cidades de refúgio eram uma enorme bondade de D'us com o transgressor.

Mas, por outro lado, se o assassino saísse da cidade de refúgio, mesmo que por alguns poucos instantes, o "Goel HaDam" poderia matá-lo sem nenhum tipo de aviso ou advertência. A cidade de refúgio se tornava, portanto, uma prisão, um castigo para o transgressor. Não é contraditório que D'us por um lado se preocupe tanto com a vida do transgressor, mas que por outro lado mande um castigo tão duro, facilitando com que o "Goel HaDam" possa matá-lo caso ele apenas pise fora da cidade de refúgio?

A resposta começa em um dos fundamentos principais do judaísmo: nada acontece por acaso, tudo é supervisionado pelo Criador do mundo. Ninguém morre acidentalmente, tudo já está previsto e decretado. Se o machado voou da mão de uma pessoa e atingiu letalmente outra pessoa, é porque a outra pessoa já estava destinada a morrer naquele momento. Mas por outro lado, se uma pessoa mata outra, mesmo que não intencionalmente, isto significa que há algo de errado em sua alma. Por ela ter sido utilizada por D'us como um "instrumento" para cumprir uma pena de morte já decretada nos mundos espirituais, isto significa que esta pessoa perdeu a sensibilidade de qual o valor da vida.

Este era o motivo pelo qual o assassino deveria ficar na cidade de refúgio. Em primeiro lugar, o decreto espiritual de exílio era uma Kapará (expiação) pelo seu erro. Todo o sofrimento de estar longe da família e dos amigos limpava a sua alma do erro cometido. Além disso, nas cidades de refúgio morava a tribo de Levi, composta por pessoas que se dedicavam ao estudo de Torá e ao autoaprimoramento. A influência espiritual positiva da tribo de Levi ajudava a pessoa a crescer e a se arrepender dos erros que a levaram ao assassinato não intencional.

Mas se este conserto era tão importante para a alma do infrator, e D'us protegia tanto a vida dele para permitir que ele chegasse a esta cidade de refúgio, por que D'us permitiu ao "Goel HaDam" matá-lo caso saísse de lá, mesmo que só por alguns instante? Não era óbvio que a pessoa racionalmente gostaria de ficar ali, consertando seus erros e obtendo uma limpeza espiritual por sua terrível transgressão? Não era desnecessária esta ameaça à vida do assassino não intencional?

D'us criou todo o universo e, por isso, Ele conhece cada pequeno detalhe de cada uma de Suas criaturas. Ele sabe que no momento em que o transgressor sentisse saudades de sua família, ele teria vontade de sair da cidade de refúgio. Se não houvesse o medo do "Goel HaDam", no momento em que os desejos falassem mais alto, as suas convicções intelectuais seriam facilmente deixadas de lado. A ameaça do "Goel HaDam" era o que, na prática, mantinha a pessoa na cidade de refúgio, mesmo quando apertava a vontade de abandonar tudo e ir embora.

Este conceito ensinado na Parashá nos ajuda a entender algo que nos incomoda. Em geral, as pessoas não gostam de sentir medo. O medo inibe, assusta, trava. Mas sabemos que há na Torá inclusive uma Mitzvá de sentir medo: a Mitzvá de temer a D'us. O temor principal que precisamos sentir para cumprir esta Mitzvá é um temor mais elevado, chamado "Irat Haromemut", que se refere ao medo que devemos sentir por causa da grandeza de D'us. É um temor que vem do reconhecimento de quanto D'us é grande e perfeito, enquanto nós somos pequenos e imperfeitos. É um temor que vem junto com uma admiração. Mas existe também um nível de temor mais baixo, chamado "Irat HaOnesh", o medo do castigo. É o medo de que, se cometermos um erro, D'us nos punirá. Porém, se o principal temor para cumprir a Mitzvá de "temer a D'us" é o medo da grandeza Dele, para que serve este nível mais baixo de temor, o medo do castigo? Se o ideal é realmente sentir um temor que vem da admiração da grandeza de D'us, qual o benefício que nos traz sentir medo da punição?

Ensina o Rav Yaacov Kanievsky, mais conhecido com "Staipler", que muitas vezes uma pessoa sente uma forte atração e desejo para cometer uma transgressão. Neste momento, em que o Yetser Hará (má inclinação) está atacando a pessoa com força máxima, os desejos quase incontroláveis da pessoa entorpecem seu coração, a ponto da pessoa não levar em consideração as consequências espirituais negativas de seu ato. Por isto, a única coisa que realmente funciona neste momento é o medo do castigo, a pessoa se lembrar de que toda transgressão será duramente castigada. Este medo é o único freio que consegue parar a pessoa que está sendo levada atrás dos seus desejos. É por isso que quanto mais a pessoa internalizar as consequências negativas de suas transgressões, quanto mais ela refletir sobre o peso do castigo que virá caso cometa um erro, maior a chance de ela conseguir vencer suas tentações. Da mesma forma que o medo do "Goel HaDam" ajudava o assassino não intencional a vencer a sua vontade irracional de sair da cidade de refúgio, o que interromperia seu conserto espiritual, assim também o medo do castigo serve para nos despertar, quando o desejo fala mais alto do que as nossas convicções.

Por isso, o sentimento de medo não é algo negativo. Se o medo for mal utilizado, ele realmente nos bloqueia e não nos deixa crescer. Mas quando bem utilizado, o medo nos ajuda a cumprir a nossa missão neste mundo e a fugir dos erros e tentações que nos desviam. Como em uma escada, começamos a subir pelo primeiro degrau, o medo do castigo, para somente depois atingir o degrau mais alto, o medo da grandeza de D'us. Assim, poderemos utilizar o nosso medo para garantir que a nossa "mansão espiritual" estará guardada, são e salva, para quando chegar o momento de partir deste mundo.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 33:1-36:13, Je 2:4 – 28, 3:4, 4:1-2, Tg. 4:1-12

sexta-feira, 20 de julho de 2012

QUEM ESTÁ NO COMANDO? - PARASHIOT MATÓT E MASSEI 5772

"Jacó estava com dificuldades financeiras e acabou pedindo muito dinheiro emprestado para Abrão. Como era uma soma muito alta, quando chegou o dia do pagamento, Jacó ainda não tinha conseguido o dinheiro necessário. Ele ficou andando na sala, de um lado para o outro, pensando em como conseguiria aquela quantia. Já era tarde da noite e ele não conseguia dormir. Tentou deitar, mas ficava revirando na cama. Sara, incomodada com tamanha agitação, perguntou:
- O que você tem hoje? Por que está assim tão agitado? Deita e dorme, pois já é tarde!
- Não consigo dormir, querida - respondeu Jacó - Amanhã de manhã preciso devolver um empréstimo para o Abrão, mas não tenho este dinheiro. O que eu vou fazer? Como eu posso dormir?
Sara, ao escutar isso, pegou o telefone e ligou para o Abrão. Quando ele atendeu, assustado com o telefonema no meio da madrugada, ela disse:
- Abrão, aqui é a Sara. Estou ligando apenas para te avisar que meu marido não vai pagar o dinheiro que ele está devendo. Não adianta insistir. Boa noite.
Quando ela desligou o telefone, o marido, atônito, perguntou:
- Querida, você ficou louca? Por que fez isso?
- Jacó, você já pode deitar e dormir. O Abrão já sabe que você não vai pagar a dívida. Agora quem vai ficar sem dormir é ele..."
Muitas vezes fazemos o mesmo em relação às dívidas que temos com D'us. Nos esquecemos das nossas obrigações e nos comportamos como se, no nosso relacionamento, somente Ele tem deveres.
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Matót e Massei, terminando o 4º livro da Torá, Bamidbar. E a Parashá Matót começa com um assunto muito importante dentro da lei judaica: as promessas e juramentos, como diz o versículo: "Um homem que fizer uma promessa para D'us ou um juramento para proibir algo sobre si, ele não deve descumprir sua palavra. Ele deve fazer de acordo com o que saiu de sua boca" (Bamidbar 30: 3).
Infelizmente não tratamos as promessas e juramentos com a devida seriedade. Estamos acostumados a nos comprometer e a não cumprir nossa palavra, sem sentir nenhuma vergonha por isso. Fazemos juramentos sem nenhuma intenção de cumprir, apenas para mostrar nossa convicção. "Juro que foi assim que aconteceu", "Juro que isso não acontecerá novamente". Será que não estamos desprezando algo importante, que pode ter graves consequências?
Existem duas categorias de promessas. A pessoa pode se proibir de algo que a Torá permite, como alguém que promete não comer mais maças, ou a pessoa pode se obrigar a fazer algo que não estava obrigada, como alguém que promete doar certa quantia de Tzedaká (caridade) para uma instituição. Em ambos os casos é muito grave a pessoa não cumprir sua promessa. E em relação às promessas nas quais nos obrigamos a fazer algo, não apenas é um problema não cumprir o que prometemos, mas também adiar o cumprimento de algo prometido já é extremamente grave. Podemos ver isto através das palavras de um Midrash (parte da Torá Oral), que nos ensina que aquele que prometeu algo e tarda em cumprir o que prometeu, seu castigo é ser lançado ao mar.
Apesar de parecer algo não literal, as palavras do Midrash já se cumpriram muitas vezes durante a história. O profeta Yoná, por exemplo, prometeu a D'us que iria à cidade de Nínive para advertir seus moradores sobre suas graves transgressões e avisá-los que a cidade seria destruída por D'us. Mas ao invés de cumprir sua palavra, Yoná tentou adiar sua missão, fugindo em um navio. D'us então mandou uma tempestade que quase afundou o navio onde estava Yoná. Os marinheiros, apavorados, jogaram a sorte e descobriram que o culpado era Yoná. A tempestade só parou quando ele foi atirado ao mar, cumprindo as palavras do Midrash.
Mas sabemos que os castigos de D'us são "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, da maneira que erramos, assim somos punidos, para que possamos entender nosso erro e consertá-lo. Então por que a punição de alguém que adia o cumprimento de uma promessa é ser atirado ao mar? Mais do que isso, o que leva alguém a adiar o cumprimento de uma promessa? Provavelmente o Midrash não está falando de alguém que não cumpriu a promessa por algum impedimento de força maior, e sim daquele que poderia ter cumprido e não cumpriu. Se a pessoa prometeu, então por que não cumpre logo sua palavra? E finalmente, há um interessante ensinamento sobre promessas no Talmud (Nedarim 22a), que afirma que aquele que faz uma promessa se compara a alguém que constrói um altar próprio. O que o Talmud está nos ensinando, e qual a conexão com os ensinamentos trazidos anteriormente?
Explica o Rav Yohanan Zweig que, para responder todas estas perguntas, antes é necessário entender o que leva uma pessoa a fazer uma promessa. A promessa é uma ferramenta que a pessoa utiliza para fortalecer suas convicções. Se uma pessoa toma uma decisão sem nenhum tipo de comprometimento, ela pode facilmente mudar de ideia. A promessa entra como uma "ajuda Divina" para que a pessoa se mantenha firme em suas convicções, mesmo quando surgirem dificuldades e desejos contrários. Se refletirmos, vamos perceber que a promessa dá para a pessoa um direito que até agora pertencia somente à D'us: a capacidade de criar um novo status para um objeto. Por exemplo, quando alguém promete não comer mais maças, para esta pessoa a proibição de comer maças tem o status equivalente à proibição estabelecida por D'us de comer carne de porco. Pelo fato da promessa ser um poder dado por D'us aos seres humanos, aquele que a utiliza para o seu próprio benefício é comparado com alguém que constrói em seu quintal um altar para uso privado, ao invés de utilizar o altar coletivo.
Porém, esta consciência de que a pessoa precisa da ajuda de D'us para satisfazer suas necessidades pessoais causa uma forte sensação de endividamento. E assim diz Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Uma pessoa que toma dinheiro emprestado torna-se escravo daquele que emprestou" (Mishlei - Provérbios 22:7). Da mesma forma que alguém que pediu emprestado dinheiro ao seu companheiro sente que está nas mãos dele, assim também a pessoa que utilizou a força de D'us para o seu próprio benefício sente, mesmo que de forma subconsciente, que está nas mãos de D'us.
Há outro paralelo interessante entre as dívidas monetárias e as promessas. É muito comum encontrar pessoas que, apesar de terem dinheiro para pagar suas dívidas, ficam postergando o pagamento. Qual a verdadeira intenção delas? Ao atrasar o pagamento, elas estão reestruturando o relacionamento. Ao invés de serem controladas pela pessoa que emprestou o dinheiro, eles passam a assumir o papel de controladoras. Agora é a pessoa que emprestou o dinheiro que está nas mãos do devedor. Este paralelo pode ser aplicado à pessoa que pode cumprir uma promessa e adia. O adiamento da promessa dá para a pessoa a sensação de que ele não está mais nas mãos de D'us, ao contrário, ela sente que agora tem controle sobre seu relacionamento com Ele.
O que significa a punição de ser atirado nas águas? Na terra, a pessoa sente que tem controle. Como a terra é o nosso habitat natural, estamos acostumados e já temos muitas habilidades desenvolvidas neste meio. Já na água, a pessoa se sente completamente indefesa, ela sabe que não tem controle sobre nada. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o general Tito, como nos ensina o Talmud (Guitin 56b). Após ter destruído o Beit Hamikdash (Templo Sagrado) e ter causado todos os tipos de desonra possíveis para o nome de D'us, Tito partiu de volta para Roma em um navio carregado de tesouros roubados do Beit Hamikdash. D'us mandou uma forte tempestade que quase partiu seu navio ao meio. Tito então gritou para os Céus: "O D'us dos judeus somente é valente na água. Veio o Faraó e Ele o afogou na água. Veio Sisra e Ele o afogou na água. E quanto a mim, Ele também quer me afogar na água. Se Ele é realmente valente, que me deixe chegar à terra firme e lá guerrearemos". Isto demonstra que, enquanto as pessoas pensam que na terra podem controlar, na água todos se sentem indefesos e totalmente sob o controle de D'us. Aquele que atrasa o cumprimento de uma promessa é atirado ao mar, pois como a pessoa estava motivada pelo seu desejo de controlar, a punição é dada de maneira que ela perca qualquer falsa percepção de que está realmente no controle.
Infelizmente não é apenas com as promessas não cumpridas que tentamos, mesmo que inconscientemente, tirar das nossas costas a responsabilidade do nosso relacionamento com D'us. Pois todo relacionamento implica em uma reciprocidade. Qualquer pacto precisa de duas partes ativamente envolvidas. Mas nós estamos sempre cobrando a parte de D'us. Por que Ele não nos deu o que precisávamos? Por que Ele não evitou aquele problema? Será que esta é a postura correta, sempre jogar a responsabilidade para o outro lado, sem nunca questionar se estamos fazendo a nossa parte?
Além disso, damos diversas demonstrações de que sentimos que somos nós que estamos no comando, não D'us. Por exemplo, todas as vezes em que acontece algo diferente do que esperávamos, ficamos extremamente irritados. O que isto significa? Que estamos insatisfeitos com a vontade de D'us, que queremos as coisas do nosso jeito e não do jeito Dele. Também todas as vezes que sentimos inveja, o que estamos demonstrando? Que sentimos que sabemos mais do que D'us. Se Ele deu o carro novo para o vizinho e não para nós, certamente é porque Ele está equivocado. E assim, se prestarmos atenção no nosso comportamento cotidiano, perceberemos o quanto esquecemos que quem está no controle é D'us, e não nós.
Este é o ensinamento que fica com o assunto das promessas: a seriedade que devemos olhar nosso relacionamento com D'us. O quanto devemos nos sentir endividados por tudo o que Ele fez, faz e fará por cada um de nós. E, principalmente, devemos trabalhar a nossa característica de humildade para aceitar que D'us, cuja sabedoria é ilimitada, busca apenas o nosso bem, mesmo quando, em nossa sabedoria pequena e limitada, não conseguimos enxergar.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 30:1-32:42, At 9:1-22 (2ª Haftará da Aflição, Shim’u)

Nm. 33:1-36:13, Jr 2:4-28; 4:1-2, Tg. 4:1-12

sexta-feira, 29 de julho de 2011

PREOCUPAÇÃO COM OS OUTROS - PARASHÁ MASSEI 5771

"Era dezembro de 1994. O vôo entre Tel Aviv e Nova York começou normalmente, com a decolagem pontualmente às 04h30 e previsão de uma rápida parada de reabastecimento em Bruxelas, na Bélgica. Após o reabastecimento, que ocorreu às 09h00, o capitão anunciou que uma série de problemas mecânicos causaria um atraso no vôo. Mas até as 14h00 os problemas mecânicos do avião ainda não haviam sido resolvidos e os cerca de 500 passageiros, cansados, ​​foram levados de ônibus para um hotel local. Desde a madrugada até o meio da tarde a companhia aérea tinha apenas servido bebidas e salgadinhos. Embora a companhia aérea tivesse distribuído um vale-refeição para ser utilizado no restaurante do hotel, isto não ajudava a maioria dos passageiros, que precisavam de comida Kasher.
As notícias desse atraso interminável chegaram até a Antuérpia, onde ficava a maior comunidade judaica da Bélgica, situada a 45 minutos de Bruxelas. A comunidade judaica da Antuérpia rapidamente organizou uma impressionante variedade de refeições Kasher, e tudo foi entregue no hotel de Bruxelas, onde mais de 400 judeus, homens, mulheres e crianças famintos, ansiosamente se perguntavam quando eles conseguiriam ter uma refeição Kasher.
O detalhe é que a quantidade de alimento enviada foi tão grande que alimentou os passageiros em um farto jantar, sobrou ainda para o café da manhã do dia seguinte e para o almoço durante o vôo, após finalmente o avião ter conseguido decolar com um atraso total de 27 horas" (História Real)
É isso o que a Torá exige de nós: que nos preocupemos com o sofrimento e a necessidade do próximo a ponto de, mesmo sem que os necessitados peçam ajuda, estejamos lá para ajudar"
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 Nesta semana terminamos o quarto livro da Torá, Bamidbar. E a Parashá desta semana, Massei, nos ensina, entre outros assuntos, sobre a pena recebida por uma pessoa que matou não intencionalmente outro ser humano. Mas o que mais impressiona é perceber que, apesar da Torá ressaltar diversas vezes que a pessoa não teve nenhuma intenção de matar, mesmo assim ela é chamada de "assassino". Além disso, a Torá descreve que esta pessoa recebia uma pena extremamente dura. Ela tinha que abandonar sua família, seus amigos e a cidade onde morava para se exilar em uma das cidades de refúgio, construídas justamente para abrigar assassinos que matavam sem intenção. Por quanto tempo durava este exílio? Ninguém sabia. A pessoa ficava na cidade de refúgio até a morte do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote), isto é, era um exílio por tempo indeterminado. Poderia ser 1 mês, 1 ano ou 40 anos. Porém, se a pessoa não teve nenhuma intenção de matar, foi tudo uma grande fatalidade, por que a Torá aplica uma pena tão dura?
 mesma pergunta também fazemos em Yom Kipur. Durante o "Vidui", a confissão dos nossos pecados, pedimos perdão para D'us "pelos pecados que pecamos diante de Ti intencionalmente e não intencionalmente". Entendemos a necessidade de pedir perdão por um pecado intencional, mas por que pedir perdão por um ato não intencional? E se foi não intencional, por que mesmo assim é chamado de "pecado"?
Além disso, refletindo um pouco sobre a punição daqueles que cometeram um assassinato não intencional, surge uma grande pergunta. Quando uma pessoa era enviada para a cidade de refúgio, seu maior desejo era poder sair de lá, mas isto só aconteceria apenas após a morte do Cohen Gadol. Portanto, mesmo que de forma não intencional, todos os que estavam na cidade de refúgio desejavam a morte do Cohen Gadol e, quando rezavam para sair logo dali, estavam incluindo indiretamente em suas rezas um pedido pela morte rápida do Cohen Gadol. Esta reza tinha tanta força que o Talmud conta que a mãe do Cohen Gadol levava comida e roupas para os moradores das cidades de refúgio para convencê-los a não rezar pela morte do filho. Mas por que o Cohen Gadol merecia isto? Ele estava sendo castigado por algum tipo de erro?
Explica o Rav Meir Rubman um fundamento espiritual muito importante, que nos ajuda a enxergar acontecimentos do cotidiano com outros olhos. Nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Mesmo sem intenção, a alma não é boa" (Mishlei 19:2). O que este versículo quer dizer? Que quando um ser humano comete um mau ato, mesmo sem intenção nenhuma, isto é um sinal que há algo de errado em sua alma. Pois os maus atos não intencionais são consequência da falta de cuidado e da falta de sensibilidade com a dor e com as perdas do próximo. Se a pessoa tivesse tido um pouco mais de cuidado e preocupação com o próximo, certamente o acidente não intencional não teria ocorrido.
Tudo o que ocorre, tanto nos mundos espirituais quanto no mundo material, está sob controle total do Criador do universo. Nada ocorre sem a Sua permissão. D'us cumpre Sua vontade utilizando o nosso próprio livre arbítrio. Ele utiliza pessoas com méritos espirituais como intermediários para mandar coisas boas aos outros e pessoas com problemas espirituais como intermediários para aplicar decretos ruins. Portanto, a pessoa que morreu já tinha um decreto espiritual de morte, mas D'us utilizou o assassino, que não se preocupava com o próximo como deveria, como um intermediário para aplicar esta pena de morte através de um assassinato não intencional. Portanto, alguém que fez mal ao outro de maneira não intencional precisa se questionar e refletir, para procurar alguma falha em sua alma e tentar corrigir. É por isso que pedimos perdão em Yom Kipur também pelas transgressões não intencionais, pois se tivéssemos sido mais cuidadosos, se tivéssemos pensado mais nos outros, teríamos evitado muitos danos e sofrimentos, e D'us não nos teria utilizado como instrumento para causar coisas desagradáveis aos outros.
Explica ainda o Rav Rubman que isto vale para pessoas normais, isto é, de nível espiritual mediano. Mas para pessoas de nível espiritual mais elevado, com um potencial maior, a cobrança é muito mais rigorosa. Para eles, mesmo os atos não intencionais são considerados como intencionais. Mesmo se eles não fizeram nada errado, apenas deixaram de fazer algo que poderiam pelo povo judeu, como rezar para que nada de mal acontecesse, eles são cobrados por isso. O Cohen Gadol era uma pessoa de nível muito elevado, com um contato especial com D'us, diferente de todo o povo. Se durante os anos em que ele exerceu o sacerdócio ocorreram assassinatos não intencionais dentro do povo judeu, isto era um sinal de que ele não havia rezado pelo bem do povo com a intenção e a força que poderia e deveria ter feito. Por isto era castigado desta maneira tão severa.
O que aprendemos deste fundamento espiritual para nossas vidas cotidianas? Muitas vezes causamos, sem nenhuma intenção, sofrimentos e danos aos outros. Tentamos justificar nossos erros com os argumentos de "Não sabia", "Não escutei" ou "Não prestei atenção". Porém, isto na verdade não são justificativas para nossos erros, são na verdade grandes questionamentos: "Por que não sabíamos?", "Por que não escutamos?", "Por que não prestamos atenção?". Se realmente nos preocupássemos com o próximo como deveríamos, poderíamos ter evitado o dano e o sofrimento causado.
Recentemente um motorista de um Porshe, dirigindo a uma velocidade de 150 km/h pelas ruas da cidade, atingiu outro veículo em um cruzamento. A motorista do outro veículo, uma advogada de 28 anos, morreu na hora. Nas entrevistas, o motorista alegou que não era um criminoso, como vinha sendo tratado pela mídia. Mas segundo o judaísmo isto não é verdade. Alguém que dirige desta maneira, alcoolizado e em velocidade irresponsável, é sim um criminoso. O crime praticado é chamado pela Torá de assassinato e o autor é um assassino que menospreza o valor da vida alheia.
A Torá nos ensina que a solução está no cumprimento rigoroso de uma importante Mitzvá: "Ame ao próximo como a ti mesmo". Da mesma forma que nos esforçamos para evitar qualquer tipo de sofrimento ou dano a nós mesmos, assim temos que nos esforçar, no mesmo nível, para evitar danos aos outros. A forma de nos preocuparmos mais com os outros é nos dedicando mais ao Chessed (bondade), pensando mais no próximo e menos em nós mesmos, investindo tempo para encontrar formas de ajudar a quem necessita. Fazendo Chessed de maneira constante, vamos desenvolvendo uma sensibilidade cada vez maior, percebendo o que as pessoas realmente precisam. Podem ser bens materiais, mas muitas vezes pode ser apenas um abraço, um sorriso ou um momento de atenção. Assim ajudaremos aos outros e a nós mesmos, pois D'us nos utilizará apenas como instrumento para levar o bem às pessoas, diminuindo o nosso sofrimento e também o dos outros.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Nm. 33:1-36:13, Je 2:4 – 28, 3:4, 4:1-2, Tg. 4:1-12