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domingo, 18 de dezembro de 2016

QUANTO VALE UMA VIDA? - PARASHÁ VAISHLACH 5777

Sharon Steiff era professora de inglês da oitava série na Maimonides School, em Massachusetts. Ela foi diagnosticada com leucemia e, apesar de ter procurado incansavelmente por um doador de medula óssea, ela faleceu sem encontrar ninguém compatível. O falecimento daquela professora abalou muito seus alunos, entre eles Itzik, um rapaz religioso. Naquela época ele não tinha idade suficiente para ser doador, mas ficou com aquela ideia guardada na cabeça. Somente em março de 2007, quando já estudava em Israel, finalmente conseguiu se registrar como potencial doador de medula óssea, uma homenagem a sua professora.

Por algum tempo ele continuou com sua vida cotidiana. Mas tudo mudou em novembro de 2008, durante seu segundo ano na Yeshiva University. Certa manhã, enquanto caminhava para a aula, seu telefone celular tocou com um número que ele não conhecia. Era a instituição "Gift of Life", informando que ele era um potencial doador para um paciente que precisava urgentemente da doação de medula óssea. Itzik, pego de surpresa, começou a procurar motivos para não doar. Tinha provas na faculdade e muitos trabalhos para entregar, e no fundo também sentia um pouco de medo. Mas lembrou-se do desespero de sua professora procurando um doador. A chance de salvar a vida de alguém não era algo que surgia todos os dias. Era o momento de dar para outra pessoa o presente que sua professora nunca havia recebido. Então Itzik disse sim.

Depois de alguns exames complementares, Itzik foi autorizado a doar células-tronco. De repente, tudo se tornou real. Ele estava realmente indo doar vida para alguém, ele estava indo salvar a vida de outra pessoa. Itzik informou seus professores que perderia uma semana de aulas. Eles foram muito acolhedores e solidários, permitindo-o fazer as provas e trabalhos depois. Todos estavam orgulhosos da sua atitude corajosa.

No dia 2 de fevereiro, sua data de doação, ele foi ao hospital. Seis horas depois, estava feito. Foram necessários alguns dias para que Itzik recuperasse totalmente a sua força. Ele recebeu total apoio da família e dos amigos, o que definitivamente ajudou-o a passar por todo o difícil processo. O paciente que recebeu a doação aos poucos foi se recuperando, até que pôde voltar à sua vida ao normal. Com seu gesto nobre, Itzik havia salvado a vida de outro ser humano, e isto não tinha preço. Itzik conta que teve seus temores e seus momentos de dúvida, mas lembrar que estava dando a alguém o dom da vida era a melhor motivação que poderia ter (História real). 
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Nesta semana lemos a Parashá Vaishlach (literalmente "E enviou"), que descreve o momento em que Yaacov começou a voltar para casa. Yaacov havia passado 14 anos no Centro de Estudos de Torá de Shem e Ever, descendentes de Noach, e mais 20 anos trabalhando na casa de seu tio Lavan, para fugir da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo. Ele havia partido de casa sozinho, mas voltava agora com uma enorme família. Depois de tantos anos, Yaacov acreditava que a fúria de Essav já havia se aplacado e que ele poderia voltar tranquilamente para casa. Ele mandou mensageiros para verificar como estava a situação, mas os mensageiros voltaram com a terrível notícia de que Essav vinha ao seu encontro com um verdadeiro exército. Certamente a fúria de Essav ainda queimava dentro dele e o tempo não havia conseguido acalmá-lo.

Porém, o que nos chama mais a atenção foi a reação de Yaacov ao escutar as más notícias, pois está escrito: "E Yaacov ficou com medo e isto o angustiou" (Bereshit 32:8). Como pode ser que Yaacov ficou angustiado? Ele era neto de Avraham, aquele mesmo Avraham que havia derrotado, com poucos homens, a coligação dos quatro exércitos mais poderosos do mundo. Além disso, Yaacov havia presenciado os milagres que D'us fez para protegê-lo das trapaças e da ameaça física de Lavan. D'us havia aparecido para Yaacov em um sonho e havia garantido que o protegeria de qualquer mal. Yaacov podia até estar preocupado com as consequências de uma batalha sangrenta, e que talvez ele não tivesse méritos para ser salvo. Mas por que ele ficou angustiado? Ficar angustiado não é uma demonstração de falta de Emuná (fé)?

Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Yaacov realmente teve medo de ser morto por Essav na batalha, mas ele tinha Emuná (fé) completa em D'us, sabia que se ele tivesse méritos, D'us poderia protegê-lo mesmo contra um poderoso exército. Mas a angústia de Yaacov era que, em uma situação de guerra, ele teria que matar Essav. Portanto, a maior preocupação de Yaacov era não querer matar seu próprio irmão.

De acordo com o Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, Rashi não falou explicitamente que Yaacov estava com medo de matar Essav, e sim que "Yaacov estava com medo de matar outros". Ele explica que, na realidade, Yaacov estava com medo de matar os homens que estavam acompanhando Essav, pois havia a possibilidade de que eles não tinham a intenção de matá-lo, e sim estavam sendo forçados por Essav a lutar contra ele.

Porém, o Talmud (Sanhedrin 72a) afirma que "se alguém vem te matar, se levante e o mate". Isto significa que, apesar de um dos mandamentos mais importantes da Torá ser o "Não matarás", isto não se aplica à autodefesa. A pessoa tem a obrigação de se defender caso sua vida esteja em risco. Então por que Yaacov chegou a ficar angustiado com a possibilidade de matar Essav ou os homens que o estavam acompanhando? Mesmo que estavam sendo obrigados a atacar Yaacov, ele tinha o dever de proteger sua própria vida, mesmo que para isto fosse necessário matar aqueles que colocavam sua vida em risco!

Explica o Rav Yohanan Zweig que, infelizmente, a dificuldade que temos em relação à explicação trazida por Rashi vem da falta de entendimento do verdadeiro valor de uma vida humana. Vivemos em uma época em que as pessoas não valorizam mais a vida. O último século testemunhou duas guerras mundiais, nas quais morreram milhões de inocentes das formas mais cruéis. Atualmente pessoas matam para roubar um tênis ou um celular. O descaso com a vida é assustador, e cada vez mais os governos aumentam os investimentos em armas de destruição em massa. O mundo atualmente vive sob o terror das armas nucleares, que em segundos podem destruir cidades inteiras.

Porém, não é apenas nas guerras e nos crimes que vemos a falta de valor à vida. O aborto é visto cada vez mais como uma opção válida, dando ao ser humano o poder de escolher quem merece e quem não merece nascer e viver. Não estamos falando de casos de aborto de bebês que são fruto de atos de violência. O grande perigo é que, a partir do momento em que o aborto for visto como uma opção natural, isto pode abrir precedentes para que mesmo motivos banais sejam utilizados para justificar a interrupção de uma gravidez. Um feto já é um potencial de vida, e após 40 dias de gestação ele já tem uma alma. Interromper este potencial de vida é um crime. A eutanásia também ganha cada vez mais força, deixando claro que o ser humano considera que a vida pertence a nós, e qualquer um tem o direito de acabar com uma vida, mesmo que seja a sua própria vida, quando assim decidir. E tudo isto ocorre por não sabemos o valor verdadeiro de uma vida.

A Torá não é insensível. Ela entende a dor daqueles que estão passando por dificuldades, como a família de um paciente que está sofrendo em estado terminal. Porém, a Torá leva em consideração que D'us tem cálculos perfeitos e Sua bondade é ilimitada, enquanto nós somos limitados. É um terrível equívoco pensar que somos donos da vida. Não fomos nós que construímos nosso corpo e não fomos nós que colocamos neste corpo inerte uma alma de vida. Portanto, por que achamos que podemos decidir sobre a vida e a morte? O único dono da vida e da morte é D'us, o Criador de tudo. Uma pessoa que quer abortar ou praticar a eutanásia está se colocando acima de D'us. Somente D'us sabe todos os cálculos e pode levar em consideração também as implicações espirituais de cada instante de vida e de cada sofrimento. Somente Ele conhece o passado, o presente e o futuro, e Ele sabe o que é o melhor para cada um de nós. Cabe a nós termos Emuná (fé) de que tudo o que Ele faz é para o nosso bem.

A partir do momento em que D'us coloca uma alma dentro de um corpo, a pessoa recebe um potencial gigantesco de realização. O fim de uma vida representa o fim deste potencial. Por isso, embora exista a permissão de transgredir o "Não matarás" para proteger a própria vida, ainda assim o fato de tirar uma vida, encerrando assim um potencial, é uma grande tragédia. Apesar da permissão de matar por autodefesa, mesmo assim doía muito em Yaacov a ideia de matar outro ser humano. Mesmo que havia a possibilidade de serem Reshaim (malvados), assassinos cruéis, ainda assim a possibilidade de precisar tirar a vida de uma pessoa fez Yaacov ficar angustiado, pois Yaacov sabia o verdadeiro valor de uma vida humana.

Precisamos voltar a ter a sensibilidade do valor verdadeiro de uma vida. Uma vida não tem preço, como afirma o Talmud (Sanhedrin 37a): "Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro". Enquanto as pessoas se preocupam em aprovar leis que permitem o aborto e a eutanásia, bancos de sangue ficam vazios e pessoas morrem por falta de doadores de medula óssea. Ao invés de valorizar tanto a morte, é hora de começarmos a valorizar a vida.     
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 32:3 -36:43, Ob.1:1-21

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

APRENDENDO COM O MAL - PARASHAT VAISHLACH 5776

"Um grupo de doze alunos americanos que estudavam em uma Yeshivá em Israel estava certo dia reunido durante o almoço relembrando sobre as delícias da gastronomia americana. Eles queriam muito comer uma boa refeição e sentiam saudades da boa comida americana, mas não encontravam em Israel um lugar que saciasse essa vontade.

Durante o período de férias eles tiveram uma incrível ideia. Coletaram cerca de cinquenta dólares de cada um dos alunos, o suficiente para comprar uma passagem aérea de ida e volta aos Estados Unidos. Um dos alunos então embarcou, em uma jornada de um dia e meio de viagem, com o único propósito de trazer comida de um restaurante famoso dos Estados Unidos. O rapaz foi em um dia e voltou, triunfante, no dia seguinte, com a deliciosa comida dentro de sua mala" (História Real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).

Aprendemos dos nossos desejos que, quando consideramos algo realmente importante, nos esforçamos no limite para alcança-lo. Por que não fazemos o mesmo em relação ao nosso crescimento espiritual? Estaríamos dispostos a fazer os mesmos esforços se fosse para ir aos Estados Unidos comprar um livro ou escutar uma aula de Torá? 

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A Parashat desta semana, Vaishlach, começa com a volta de Yaacov Avinu depois de mais de 30 anos longe de casa, dos quais 20 anos foram passados na casa de seu tio Lavan, trabalhando para ele. Como o principal motivo da viagem de Yaacov havia sido para fugir da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo, a primeira providência de Yaacov foi enviar mensagens apaziguadoras para seu irmão, na tentativa de promover um reencontro amigável. Ele começou com a seguinte mensagem: "Com Lavan eu vivi, e permaneci até agora" (Bereshit 32:5). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que as palavras de Yaacov tinham um duplo sentido, pois a palavra "vivi" em hebraico é "גרתי", que de maneira rearranjada forma a palavra "תריג", equivalente ao valor númerico 613, o número de Mitzvót da Torá. De acordo com Rashi, Yaacov estava dizendo para seu irmão Essav: "Apesar de ter passado tanto tempo com Lavan, uma pessoa completamente desonesta e trapaceira, mesmo assim eu cumpri as 613 Mitzvót da Torá e não aprendi com os maus atos dele".

Porém, esta explicação do Rashi é difícil de ser entendida, pois esta não parece ser uma mensagem de conciliação. Ao contrário, aparentemente a intenção de Yaacov era intimidar seu irmão Essav, mostrando que ele era uma pessoa íntegra e, por isso, certamente D'us o protegeria em um possível confronto. Portanto, se o propósito era uma tentativa de apaziguar seu irmão, como entender as palavras aparentemente intimidadoras de Yaacov?

O Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica as palavras de Yaacov de uma maneira interessante. Ele afirma que Yaacov não estava atacando Essav com esta afirmação, ao contrário, estava tranquilizando-o. Quando Yaacov disse que cumpriu as Mitzvót e não havia aprendido com os atos de Lavan, ele estava fazendo uma grande autocrítica, e por isso estava comunicando a Essav que não havia nada a temer.

Mas qual foi exatamente a autocrítica de Yaacov? Nossos sábios explicam que Lavan era uma pessoa extremamente ágil em cometer maldades e trapaças. Quando permitiu que suas filhas se casassem com Yaacov, cobrou muito caro pelo dote, fazendo com que Yaacov tivesse que trabalhar 7 anos por cada filha, um tempo absurdo. Além disso, ele trocou as filhas no momento do casamento, não cumprindo sua palavra. E para completar, Lavan trocava as condições do salário de Yaacov a todo instante, sempre buscando formas de levar vantagem. Yaacov estava dizendo para Essav que, apesar de ter cumprido as 613 Mitzvót durante todos aqueles anos, ele não havia feito com o mesmo fervor que Lavan cometia as suas transgressões. Yaacov estava reconhecendo que não havia aprendido a ter agilidade nos seus bons atos no mesmo nível que Lavan tinha nos seus maus atos.

Desta explicação do Chafetz Chaim aprendemos uma incrível lição: nosso cumprimento de bons atos é julgado em comparação com a forma como os Reshaim (malvados) cometem suas transgressões. Se os Reshaim fazem seus maus atos com mais entusiasmo do que nós cumprimos nossos bons atos, isto se transforma em uma grande acusação espiritual contra nós. Por isso temos que tomar muito cuidado para sempre fazermos as Mitzvót com agilidade, alegria e fervor, pois é assim que infelizmente os Rashaim cometem as suas inúmeras transgressões.

Este conceito também é trazido pela Torá em outro episódio que teve grande importância para o povo judeu. Quando Bilaam, o grande profeta dos outros povos, partiu para amaldiçoar o povo judeu, a Torá descreve que ele se levantou cedo de manhã, utilizando a linguagem "Vaiakam" (se levantou). O Midrash (parte da Torá Oral) nos descreve que quando D'us viu esta agilidade de Bilaam para fazer a enorme transgressão de amaldiçoar um povo inteiro, Ele exclamou: "Seu Rashá (malvado)! Avraham, o patriarca deles, já te superou!", pois está escrito (em relação ao episódio do sacrifício de Ytzchak): "E (Avraham) madrugou ("Vaiashkem")" (Bamidbar 22:21). Apesar de a linguagem "Vaiakam", que está escrita em relação a Bilaam, se referir a acordar cedo, a linguagem "Vaiashkem", que está escrita em relação a Avraham, se refere a acordar ainda mais cedo. Portanto, D'us estava informando a Bilaam que Avraham, em sua vontade de cumprir a vontade de D'us e sacrificar seu filho, havia se levantado mais cedo do que Bilaam se levantou quando tentou amaldiçoar o povo judeu. Mas que mensagem o Midrash está nos ensinando? Na prática o que importa qual dos dois acordou mais cedo?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a grande força de maldição de Bilaam era mostrar para D'us falhas nas pessoas ou povos, e com isso despertar um Julgamento Celestial mais rigoroso sobre seus inimigos. Foi justamente isto que ele tentou fazer contra o povo judeu. Bilaam queria retratar o povo judeu de uma maneira negativa ao mostrar que ele fazia seus atos de maldade com muito mais agilidade e fervor do que o povo judeu cumpria suas Mitzvót. Isto realmente teria se transformado em uma grande acusação espiritual contra o povo judeu e teria trazido consequências trágicas. Porém, D'us respondeu para Bilaam que o patriarca do povo judeu, Avraham, já havia demonstrado um nível ainda maior de agilidade e fervor no cumprimento das Mitzvót do que Bilaam havia demonstrado quando cometeu suas maldades. O que protegeu o povo judeu da enorme acusação espiritual que surgiria naquele momento foi que os descendentes de Avraham herdaram dele esta característica de agilidade nas Mitzvót, e por isso possuíam suficientes méritos para vencer a acusação de Bilaam.

No "Shemá Israel", que nós repetimos duas vezes todos os dias, dizemos: "E amarás a Hashem, teu D'us, com todo teu coração" (Devarim 6:5). A palavra "coração" está escrita de uma maneira diferente, "לבבך", e não como seria esperado, "לבך". O Talmud (Brachót 54a) aprende do fato de a letra "ב" estar escrita duas vezes que devemos amar a D'us com nossos dois "Yetzer", com o nosso "Yetzer Hatov" (boa inclinação) e também com o nosso "Yetzer Hará" (má inclinação). Mas como podemos utilizar nossa má inclinação para servir a D'us?

Uma das maneiras é observando a agilidade e fervor que utilizamos para ir atrás dos nossos desejos e tentar aplicar esta mesma agilidade em relação ao nosso Yetzer Hatov. Para preencher nosso desejo de comer algo ou de obter algum outro prazer material nós estamos dispostos a incríveis esforços e sacrifícios. Se aprendermos com a força da nossa má inclinação, poderemos utilizá-la como modelo e canalizá-la para o nosso lado espiritual. Atualmente as pessoas dedicam incontáveis horas para satisfazer seus desejos por dinheiro e honra. Muitos chegam a passar noites sem dormir para atingir seus objetivos. Algumas empresas mantêm turnos de madrugada para aqueles que passam a noite trabalhando no escritório. Por que não utilizar este mesmo potencial para manter a quantidade de horas de estudo de Torá diária que definimos para nós, ao invés de estarmos sempre procurando desculpas para justificar a nossa "falta de tempo" com os nossos compromissos espirituais?

O Rav Noach Weinberg zt"l, que dedicou a vida a trazer judeus afastados de volta ao judaísmo, dizia que aprendia muito com a forma de atuação dos nazistas, e incentivava que fosse utilizada como modelo para nosso Serviço Divino. Os nazistas matavam os judeus de forma metódica e sistemática. Investiam muito tempo e pensamento para desenvolver técnicas para matar cada vez mais judeus utilizando cada vez menos dinheiro. Desta maneira eles conseguiram exterminar 6 milhões de judeu na Europa. Será quer nos organizamos e nos motivamos como os nazistas em nossos esforços para trazer os judeus afastados de volta ao judaísmo? Investimos em maneiras de trazer cada vez mais judeus? Se indo contra D'us os nazistas mataram 6 milhões de pessoas, certamente poderíamos salvar muito mais do que 6 milhões de judeus se se nos esforçássemos e nos organizássemos para fazer o bem da mesma maneira que os nazistas se esforçaram para fazer o mal. Se utilizarmos como modelo aqueles que fazem o mal, para aprender suas estratégias e ferramentas, além do seu nível de comprometimento e dedicação, certamente venceremos os atuais desafios do povo judeu.

Não é necessário nem mesmo procurar nos atos dos Reshaim inspiração para o nosso crescimento espiritual. Se procurarmos em nossos próprios atos, certamente encontraremos áreas nas quais sentimos mais entusiasmo e fervor do que no nosso Serviço Divino. Pode ser com comida, com trabalho, com esporte ou qualquer outra área. Então temos que tentar internalizar que racionalmente o cumprimento das Mitzvót certamente traz muito mais satisfação do que qualquer outro prazer material, e com isso poderemos tentar atingir em nossa espiritualidade a mesma alegria e entusiasmo. Pois se os Reshaim podem fazer muito, mesmo indo contra D'us, imagine o verdadeiro potencial dos que caminham junto com Ele.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn. 32:3 -36:43, Ob.1:1-21

sábado, 6 de dezembro de 2014

RESSURREIÇÃO DOS MORTOS - PARASHÁ VAISHLACH 5775

O Rav Yitzchak Hutner (Polônia, 1906 - Israel, 1980), o Rosh Yeshivá (líder espiritual) da Yeshivá Pachad Yitzchak, além de ser um grande sábio de Torá, era também uma pessoa extremamente sensível às necessidades das pessoas, em especial de seus alunos.

Certa vez, seu aluno Moshé Cohen (nome fictício), que não era daqueles alunos que mais se destacavam, fez uma pergunta aparentemente simples no meio de uma das aulas. Para o espanto de todos, o Rav Hutner respondeu a pergunta com um entusiasmo fora do normal, como se a pergunta tivesse sido genial. E durante a aula ele repetiu a pergunta várias vezes, com grande admiração. Mas os outros alunos, que não enxergaram nenhuma genialidade naquela pergunta, não conseguiram entender a reação do rabino.

Porém, o Rav Yitzchak Hutner sabia muito bem o que estava fazendo. Moshé Cohen estava passando por um momento muito difícil. Com dificuldades no estudo, ele tinha sérios problemas de autoestima e estava em uma fase de grande queda espiritual, desanimado e com risco de acabar se desviando completamente dos caminhos da Torá. Naquele dia, quando ele escutou os elogios do Rav Hutner, sua vida mudou. Receber aqueles elogios do Rosh Yeshivá deu um enorme impulso na sua autoestima. Ele conseguiu frear aquela queda espiritual e começou uma mudança de marcha na sua vida, melhorando cada vez mais nos estudos e no cumprimento das Mitzvót. Pouco tempo depois ele havia se transformado em uma fonte de vitalidade na Yeshivá. Os pais de Moshé Cohen relataram que o Rav Hutner conseguiu, com um simples ato, realizar uma proeza gigantesca, no mesmo nível de "ressuscitar os mortos".

Quando o Rav Hutner mostrou ao seu aluno que ele era capaz, isso deu a ele um enorme impulso, capaz de salvar até mesmo seu judaísmo. (História Real).

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Nesta semana lemos a Parashá Vaishlach, cujo tema principal é o reencontro de Yaacov com o seu irmão Essav. Yaacov estava preocupado, pois o reencontro poderia terminar em uma sangrenta batalha de vida ou morte, porém tudo terminou bem, com os dois irmãos se abraçando e chorando.

Já no final da Parashá a Torá descreve a genealogia de Essav, algo aparentemente sem importância. Mas olhando com atenção, percebemos um nome que nos chama a atenção: "E Timná era uma concubina de Elifaz, filho de Essav, e ela deu a luz a Amalek" (Bereshit 36:12). Amalek, o neto de Essav, foi quem deu origem ao terrível povo de Amalek, a nação que se empenhou diversas vezes na história em tentar exterminar o povo judeu. Mas por que justamente desta mulher chamada Timná saiu Amalek e toda a sua descendência de pessoas cruéis?

Explica o Talmud (Sanhedrin 99b) que Timná era uma princesa, mas ela estava disposta a largar os luxos do palácio para se converter ao judaísmo. Ela procurou Avraham, Ytzchak e Yaacov, nossos patriarcas, mas eles não a aceitaram. Então ela decidiu se tornar concubina de Elifaz, pensando: "É melhor eu ser uma escrava neste povo do que uma mulher poderosa em outra nação". Em outras palavras, a vontade de Timná de entrar no povo judeu era tão grande que ela tentou inclusive pela "porta dos fundos", se tornando parte da família de Essav. A consequência foi que o povo de Amalek, que causou tanto sofrimento ao povo judeu, saiu justamente dela. O Talmud conclui que Amalek nasceu de Timná após ela ter se tornado a concubina de Elifaz justamente pelos nossos patriarcas terem afastado ela. De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), o correto teria sido eles aceitarem Timná e permitirem a sua conversão.

Mas este ensinamento do Talmud desperta um enorme questionamento. Sabemos que os nossos patriarcas dedicaram suas vidas para aproximar pessoas de D'us. Portanto, se eles decidiram não aceitar Timná é porque tinham suficientes razões para isso. Eles sabiam que havia algo muito ruim na natureza dela, e por isso se recusaram a permitir sua entrada no povo judeu. Então, se eles tinham motivos que justificavam a decisão deles, por que foram punidos de forma tão dura, com sofrimentos para todas as gerações?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que deste episódio de Timná aprendemos que não importa o quanto uma pessoa possa ser ruim, ela não deve ser completamente rejeitada. Isto quer dizer que, enquanto houver ainda alguma esperança da pessoa melhorar, é proibido afastá-la, pois isto terminaria com suas chances de voltar ao caminho correto. Portanto, se os patriarcas e seus descendentes foram castigados, fica óbvio que apesar das más características de Timná, certamente ela tinha dentro de si algum potencial oculto que justificaria permiti-la entrar no povo judeu.

A mesma lição aprendemos em relação à Lót, o sobrinho de Avraham, uma pessoa instável e rebelde. Após uma briga entre os pastores de Avraham e os pastores de Lót, Avraham percebeu que seu relacionamento com Lót estava começando a se deteriorar e poderia se tornar insustentável, e por isso decidiu que era hora deles se separarem. Porém, o que parecia uma decisão correta e racional de Avraham foi duramente criticada pela Torá. Diz o Midrash (parte da Torá Oral) que houve uma "raiva Divina" contra Avraham Avinu no dia em que ele se separou de Lót, como se D'us estivesse questionando: "Avraham se conecta com todas as pessoas, mas justamente com seu próprio sobrinho ele não se conecta?". Este Midrash está nos ensinando algo incrível, pois Avraham havia feito esforços sobre-humanos para estar perto de Lót e tentar influenciá-lo para o bem. Rashi explica que Avraham esteve disposto a abrir mão do dom da profecia por muito tempo, pois D'us não falou com ele durante todo o tempo em que ele estava perto de Lót, e apesar disso Avraham só se afastou de Lót quando sentiu que o relacionamento estava se estremecendo. Mesmo assim a Torá critica Avraham por ter mandado Lót embora, pois apesar de todas as más qualidades que Lót tinha, ainda havia alguma esperança de trazê-lo de volta aos caminhos corretos.

O Rav Avraham Yeshaya Karelitz (Bielorússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido como Chazon Ish, explica que existe um limite até quando devemos manter perto de nós uma pessoa com problemas espirituais. Segundo ele, uma pessoa que precisa de cuidados espirituais se assemelha a um doente no hospital. Por um lado, afastá-la é comparado a mandar um doente embora do hospital no meio do tratamento, colocando sua vida em risco. Por outro lado, se este doente tiver uma doença extremamente contagiosa e ameaçar a saúde dos outros em volta, então o afastamento é justificável. É por isso que quando Sara pediu para que Avraham expulsasse seu filho Ishmael de casa, ela teve o apoio total de D'us, pois a má índole de Ishmael certamente influenciaria de forma negativa o outro filho de Avraham, Yitzchak, colocando em risco todo o futuro do povo judeu. Mas enquanto houver esperança e isto não prejudicar ninguém em volta, temos que fazer de tudo para não afastar nenhuma pessoa, por pior que ela seja.

Então qual é a maneira correta de lidar com este problema? A verdade é que incomoda estar perto de uma pessoa que não está bem ou que está caindo espiritualmente, e por isso muitas vezes nos afastamos, principalmente por não sabermos como ajudar. O que podemos fazer na prática? Explica o Rav Chaim ben Atar (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Or HaChaim HaKadosh, que há um grande ensinamento sobre este assunto na forma como Ytzchak lidou com seu filho Essav "HaRashá" (o malvado). Apesar de Ytzchak estar totalmente ciente de que Essav estava em um nível espiritual muito baixo e Yaacov estava em um nível espiritual muito alto, ainda assim ele preferiu dar a Brachá (benção) de primogenitura para Essav. Por que? Pois como qualquer outro pai, lhe doía muito ver seu filho em um caminho de maldades e transgressões. Ele acreditava que, ao receber a Brachá, Essav começaria a reagir à sua queda espiritual e melhoraria seu comportamento. E, de acordo com o Or HaChaim, pode ser que isto realmente teria funcionado.

Mas como a Brachá teria ajudado Essav a corrigir seus caminhos? Segundo o Rav Yehonasan Guefen, um dos principais motivos das quedas espirituais é a falta de autoestima, que pode levar a pessoa à depressão e às suas consequências negativas. Ao dar a Brachá para Essav, Ytzchak estaria encorajando-o e mostrando que acreditava no seu potencial como parte da cadeia de transmissão do legado dos patriarcas. Esta demonstração de confiança poderia ser o catalisador que causaria as mudanças necessárias na vida de Essav. Portanto, da atitude de Ytzchak aprendemos que encorajar e mostrar que acreditamos em uma pessoa, apesar dela ser rebelde, desobediente e teimosa, é uma poderosa ferramenta para fazer com que a pessoa acredite nela mesma e consiga encontrar dentro de si a força necessária para mudar seu caminho.

Aprendemos de Timná que rejeitar uma pessoa como se fosse uma causa perdida é algo muito grave. Se a Torá nos ensina que até mesmo Timná, a pessoa que produziu Amalek, merecia uma chance para conseguir se reerguer, muito maior é a nossa responsabilidade com as pessoas que estão caindo espiritualmente e que precisam da nossa ajuda para se reerguerem. E uma das melhores maneiras de ajudar alguém a mudar e melhorar é mostrando que confiamos nele.

Este princípio não se aplica apenas em relação às pessoas que estão caindo espiritualmente, mas pode também ser aplicado no nosso comportamento geral em relação aos filhos, alunos e pessoas que estão à nossa volta. Ensina o Talmud (Sotá 47a): "Sempre a mão esquerda deve afastar e a mão direita deve aproximar". A mão direita é a mão forte, enquanto a mão esquerda é a mão fraca. Uma das explicações desta afirmação do Talmud é que sempre devemos dar prioridade ao reforço positivo e aos elogios, ao invés de fazer críticas. Mostrar o que cada um tem de bom é muito mais efetivo para ajudar no crescimento das pessoas do que ficar o tempo todo lembrando suas falhas e defeitos. Da mesma forma que gostamos de procurar somente nossas próprias qualidades e ignorar nossos defeitos, assim devemos nos comportar com os outros. A verdadeira "ressurreição dos mortos" está apenas nas mãos de D'us, mas Ele nos deu o dom de, através de palavras e atitudes de incentivo, darmos vida para outras pessoas.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

CUIDE DO QUE VOCÊ TEM - PARASHÁ VAISHLACH 5774

 

"Roberto era um jovem jornalista recém-formado. Ao ser contratado por um famoso jornal, recebeu como primeiro trabalho uma entrevista exclusiva com Arnaldo, um velho fazendeiro que havia se tornado muito rico. Seu desafio era tentar descobrir o segredo de tanto sucesso daquele homem. Roberto viajou muitas horas para chegar ao sitio de Arnaldo, passando inclusive por várias estradas de terra. A fazenda era tão afastada que não tinha nem mesmo energia elétrica. A noite começou a cair quando eles se sentaram para conversar, e então o fazendeiro acendeu uma vela.

Estavam amigavelmente conversando por algum tempo até que Roberto tomou coragem de fazer a verdadeira pergunta que o havia levado até aquele "fim de mundo":

- Sr. Arnaldo, qual é o segredo do seu sucesso? Como você conseguiu juntar tanto dinheiro?

Arnaldo deu uma gargalhada e explicou que era uma longa história, mas que estava disposto a contá-la. Mas como a história era demorada, ele falou:

- Já que você vai somente escutar e não precisa olhar nada, então enquanto eu conto a história de como fiquei rico, vou apagar a vela para economizar.

Foi então a vez de Roberto dar uma gargalhada e dizer:

- Não precisa mais me contar como você ficou tão rico. Eu já entendi..."

Há pessoas que dão valor para cada pequena coisa que tem na vida, e não querem desperdiçar nada. Se esta característica for canalizada da maneira incorreta, a pessoa vira um grande pão-duro e egoísta. Mas se for canalizada da maneira correta, pode ajudar muito no nosso trabalho espiritual neste mundo.

 
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Na Parashá desta semana, Vaishlach, a Torá nos conta sobre a volta de Yaacov para a terra de Israel, após 20 anos vivendo com seu tio Lavan. Yaacov foi solteiro, mas voltava agora com uma enorme família. A Torá então descreve um acontecimento estranho, que levanta muitos questionamentos. Em certo momento Yaacov ficou sozinho e um homem veio lutar com ele, uma luta difícil que durou toda a noite. Mas quem era aquele homem e por que atacou Yaacov? Além disso, por que Yaacov estava sozinho, se até aquele momento ele estava acompanhado de toda a família? E por que a Torá se importou em registrar esta luta?

A resposta está no Talmud (Chulin 91a), que afirma que Yaacov estava sozinho pois havia esquecido pequenos potes no acampamento anterior e, quando se lembrou, voltou para busca-los. Mas por que Yaacov se importou com pequenos potes? Isto não é contraditório com o conceito de que os Tzadikim (Justos) são desapegados das posses materiais?

Para aumentar ainda mais o questionamento, baseado justamente neste fato ocorrido com Yaacov, o Talmud aprende algo difícil de ser entendido: "Daqui aprendemos que para os Tzadikim seu dinheiro é mais querido do que o seu próprio corpo. E por que tanto? Pois eles não estendem sua mão para o roubo". Como pode ser que o Tzadik, espiritualmente tão elevado, ama mais o dinheiro do que seu próprio corpo? E se os Tzadikim têm tanto apego aos bens materiais, então deveriam estar muito mais propensos a roubar do que as outras pessoas. Por que o Talmud afirma que o fato deles amarem mais os seus bens do que seu próprio corpo está conectado com o fato deles não cometerem roubo?

Explica o Gaon Mi Vilna (1720 - 1797, Vilna) que o Talmud não está ensinando que os Tzadikim estão dispostos a colocar a própria vida em risco para juntar mais bens, de maneira esganada e desequilibrada. O ensinamento é que os Tzadikim estão dispostos a qualquer tipo de esforço, mesmo que causem um grande desgaste físico ao corpo, apenas para cuidar dos bens que já têm, como fez Yaacov, que já havia atravessado o rio Yabok com toda a família e voltou apenas para buscar seus pequenos potes.

Mas por que os Tzadikim sentem tanto amor pelos seus bens materiais? De acordo com o Rav Yossef Zundel Salant (1786, Lituânia – 1866, Israel), o valor que os Tzadikim dão aos seus bens, mesmo para as coisas mais simples, não é por causa do seu valor monetário, muito menos pelo apego ao mundo material, e sim por entenderem que existe uma "Hashgachá Pratid" (Supervisão Particular), isto é, tudo é calculado por D'us nos mínimos detalhes. Apesar dos Tzadikim não viverem correndo atrás de bens e de prazeres materiais, eles sabem que tudo o que recebem na vida foi dado diretamente por D'us, sob medida, como ferramenta para ser utilizada no seu crescimento espiritual, e por isso dão muito valor para tudo o que recebem.

Além disso, há outra grande vantagem em saber que tudo depende da Hashgachá Pratid de D'us. Por que as pessoas roubam? Pois a inveja faz com que elas racionalizem que o que os outros têm, na verdade elas próprias que mereciam ter, e consideram que foi apenas um "engano" o outro ter recebido. Já os Tzadikim sabem que D'us manda exatamente tudo o que necessitam e, portanto, o que eles não receberam é porque não era algo necessário para o seu crescimento espiritual. Eles têm a claridade de que D'us controla cada pequeno detalhe do que ocorre em nossas vidas, como ensina o Talmud (Ioma 38b): "Uma pessoa não consegue pegar o que está destinado ao seu companheiro, nem mesmo um fio de cabelo". Os Tzadikim sabem que D'us manda para cada um exatamente o que ele necessita, não há nada faltando, por isso não se envolvem em roubo.

Mas quem era aquele homem com quem Yaacov lutou, e qual foi o motivo da luta? Explica Rashi, comentarista da Torá, que aquele homem era, na verdade, o anjo da guarda de Essav, o próprio Yetser Hará (má inclinação) encarnado. Quando o Yetser Hará percebeu a claridade que Yaacov tinha da importância de cada pequeno objeto como um utensílio mandado por D'us para o seu crescimento espiritual, ele veio pessoalmente para lutar com Yaacov, para tentar tirar sua Emuná (fé). O Yetser queria plantar na cabeça de Yaacov a dúvida e o questionamento. Esta foi a luta que durou toda a noite, a luta filosófica entre Yaacov e o Yetser Hará. Enquanto Yaacov afirmava que D'us controla até mesmo cada pequeno objeto que nós recebemos, e por isso temos obrigação de cuidar deles com o máximo de esforço, o Yetser tentava convencê-lo de que não existe Supervisão Particular a tal ponto, e que nem sempre as pessoas recebem exatamente o que precisam receber. A luta espiritual durou toda a noite, até que o Yetser percebeu que não conseguiria derrotar Yaacov e retirar dele a Emuná perfeita e pura.

Segundo o Talmud, a luta foi tão intensa que a poeira formada subiu até o céu e alcançou o "Kissê HaKavód" (Trono Celestial). O que isto significa? A poeira, que é algo muito fino, simboliza os menores e mais simples objetos. E o Talmud está nos afirmando que mesmo estes utensílios mais simples sobem até o Trono Celestial, isto é, estão sob a Supervisão Particular de D'us. É pelo mesmo motivo que, segundo o Gaon MiVilna, mencionamos o termo "Kissê HaKavod" na Brachá de "Asher Yatsar", que pronunciamos após fazer nossas necessidades no banheiro, pois assim fixamos no nosso coração que não existe nada, absolutamente nada, por mais desprezível que pareça, que não está sob a Supervisão Divina.

A Torá deixou esta luta de Yaacov registrada para nos ensinar que cada um de nós também precisa vencê-la. Muitas vezes desprezamos coisas simples do nosso cotidiano, de pouco valor, pois não percebemos que D'us nos manda com exatidão tudo o que necessitamos, que tudo é calculado de maneira precisa e não existe acaso nem coincidência. Internalizando este conceito da "Hashgachá Pratid" também conseguimos vencer a terrível característica da inveja, ao refletirmos que, se o outro recebeu algo e não nós, é porque aquilo é necessário para o trabalho espiritual dele e não para o nosso.

Por outro lado, precisamos tomar cuidado para que esta característica de cuidar das nossas coisas não nos transforme em pessoas egoístas. Muito do que D'us nos manda é para podermos dividir com os outros e ajudar os necessitados. A Torá proíbe o desperdício e o desprezo com os nossos objetos, mas não proíbe compartilhar com o próximo. Portanto, se conseguirmos atingir o equilíbrio necessário, certamente esta característica nos ajudará a chegar, como Yaacov Avinu, um pouco mais perto da perfeição.

 
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Gn. 32:3 -36:43, Ob.1:1-21, Mt. 26: 36-46

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

BONDADE ATÉ NOS PENSAMENTOS - PARASHÁ VAISHLACH 5773


Daniel era um homem de negócios muito rico e bem sucedido. Certa vez ele estava atrasado para uma importante reunião do outro lado da cidade e percebeu que, com o terrível trânsito de Nova York no fim da tarde, não chegaria a tempo se fosse de carro. Daniel decidiu então ir de trem e correu para a estação central. Logo na entrada da estação um rapaz parou para conversar com ele. Como o rapaz não estava bem vestido, Daniel pensou que se tratava de um mendigo pedindo esmola. Apressadamente tirou do bolso algumas moedas e estendeu ao rapaz, mas ele não aceitou e explicou:

- Senhor, eu não estou pedindo esmola. Eu vendo lapiseiras aqui na estação de trem. O senhor não quer comprar uma?

Daniel estava com muita pressa, mas sentiu vergonha por ter achado que o rapaz era um mendigo. Perguntou o preço, tirou o dinheiro da carteira e deu ao rapaz, que imediatamente entregou-lhe uma lapiseira. Daniel guardou a lapiseira no bolso e, antes de correr para pegar o trem que se aproximava, disse ao rapaz:

- Obrigado. Sabe, eu tenho um bom olho clínico. Você parece ser um excelente homem de negócios.

Alguns anos mais tarde, Daniel passou novamente pela estação central e viu uma enorme loja que vendia produtos de papelaria. Atrás do balcão estava um homem jovem que, ao ver Daniel, correu ao seu encontro. O rapaz perguntou se Daniel lembrava-se dele. Sentindo um pouco de vergonha, Daniel confessou que não. Então o homem se apresentou:

- Senhor, eu sou aquele rapaz que há alguns anos vendeu a você uma lapiseira aqui na estação central. Apesar de ter passado tantos anos e eu ter vendido lapiseiras para muita gente, eu nunca mais vou me esquecer do seu rosto, pois você mudou a minha vida. Naquela época, eu achava que não tinha valor algum. Minha vida era apenas ficar vendendo lapiseiras para as pessoas na estação de trem. A grande maioria me ignorava, as pessoas passavam como se eu não existisse, como se eu fosse invisível. Mas você falou comigo. E mais do que isso, você me chamou de "homem de negócios". Isso me deu autoconfiança, me fez mudar a forma como eu me enxergava. Eu comecei a me esforçar mais, fiz um empréstimo no banco e investi no negócio de venda de lapiseiras. Hoje eu tenho 15 lojas enormes, espalhadas por todas as estações de trem da cidade. Tudo graças ao seu apoio.

Naquele dia Daniel aprendeu uma das lições mais importantes de sua vida: nós não temos a mínima ideia de quanto um ato de bondade pode ajudar a vida de outra pessoa. Mesmo uma pequena atitude ou uma simples palavra de incentivo podem fazer uma grande diferença.


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Nesta semana lemos a Parashá Vaishlach, que descreve o reencontro dos irmãos Yaacov e Essav. Mesmo após tantos anos, o sangue de Essav ainda fervia por Yaacov ter "roubado" a sua primogenitura. Mas o encontro, que poderia ter acabado em tragédia, felizmente terminou em paz, com os dois irmãos se abraçando e chorando. Depois disso, cada um seguiu seu caminho.

E assim diz o versículo que descreve o momento em que Yaacov, apreensivo, estava reunindo sua família para o reencontro com Essav: "E ele se levantou naquela noite, pegou suas duas esposas, suas duas escravas e seus onze filhos e atravessou o rio Yabok" (Bereshit 32:23). Porém, onde estava Diná, a filha de Yaacov com Lea? Por que o versículo não diz nada sobre ela? Explica Rashi, comentarista da Torá, que Yaacov tinha medo que seu irmão Essav, o Rashá (malvado), visse Diná, gostasse dela e quisesse casar-se com ela. Por isso, Yaacov trancou-a em uma caixa para mantê-la longe dos olhos de seu irmão durante o reencontro. Sua ideia funcionou e Essav nem mesmo chegou a conhecer Diná.

A Torá conta que, algum tempo depois, Diná foi sequestrada e desonrada por Shechem, o príncipe dos Hivitas, um dos povos que vivia na terra de Israel. Nossas limitações não nos permitem entender exatamente todos os motivos pelos quais D'us nos manda um sofrimento, mas nossos sábios revelam que um dos motivos desta terrível tragédia ter acontecimento foi para castigar Yaacov por ter escondido sua filha de Essav. Ele foi castigado "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, como Yaacov não quis entregar Diná a um conhecido, seu próprio irmão, ela foi entregue a um completo estranho. Explica Rashi que talvez Diná, uma mulher Tzadiká (Justa), poderia ter ajudado Essav a se arrepender de seus erros e a se tornar uma pessoa boa e honesta. Ao esconder sua filha, ele tirou de Essav esta possibilidade.

Porém, deste comentário do Rashi fica um enorme questionamento. Por que este ato de Yaacov foi considerado um erro? Ele deveria ter casado sua única filha com aquele grande Rashá, que vivia uma vida de crimes e da busca desesperada por mais e mais prazeres? Ele deveria ter arriscado o futuro de sua própria filha apenas para apostar na improvável chance de que Diná ajudaria Essav a se arrepender? Além disso, aquele reencontro com Essav poderia ter se transformado em uma sangrenta batalha, e era obrigação de Yaacov proteger sua filha. Então por que mereceu um castigo tão rigoroso?

Explica o Saba Mi Slobodka que, na maioria dos casos, as pessoas são cobradas apenas pelos erros cometidos na prática, não por seus pensamentos. Mas existem algumas situações em que a pessoa pode ser cobrada por erros cometidos em seu pensamento, mesmo que o ato por si não tenha nada de errado. É o caso de pessoas em elevados níveis espirituais, como os patriarcas. D'us cobra destas pessoas um comportamento exemplar, e mesmo seus erros mais sutis não passavam despercebidos.

Talvez este conceito explique a cobrança tão rigorosa sobre Yaacov e nos ajude a enxergar seu erro. Provavelmente o ato de Yaacov foi acertado, isto é, havia motivos corretos para que Yaacov escondesse sua filha e não quisesse entregá-la para Essav. Porém, ele deveria ter sofrido por não poder fazer um ato de Chessed (bondade) com seu irmão. Yaacov deveria ter sentido uma grande dor por não conseguir ajudar Essav a consertar seu caminho na vida. E mesmo se Yaacov sentiu algum nível de dor e sofrimento, não sentiu o suficiente dentro do que era esperado no seu elevado nível espiritual. Por isso, um ato que seria correto se transformou em um grave erro, que teve consequências trágicas para Yaacov e toda sua família.

Daqui aprendemos uma lição muito importante: o quanto D'us é rigoroso conosco em relação ao Chessed que deixamos de fazer aos outros. Por que? Pois D'us criou o mundo baseado em Chessed. O Chessed é um dos pilares que sustenta o mundo, e deixar de fazer Chessed é considerado, portanto, como se estivéssemos contribuindo para destruir o mundo. A Torá traz inúmeros exemplos da gravidade de não se ocupar em ajudar o próximo com toda a força que podemos. A cidade de Sdom e todos seus habitantes foram destruídos por terem criado leis que proibiam fazer Chessed com os necessitados, o contrário do propósito da criação do mundo. Sdom tentou derrubar um dos pilares do mundo, então D'us, Midá Kenegued Midá, derrubou o pilar de Sdom.

Uma das maiores demonstrações da gravidade de deixar de fazer um único ato de Chessed está no final da nossa Parashá. Quando a Torá descreve os descendentes de Essav, menciona uma mulher chamada Timná, que foi concubina de Elifaz, o filho de Essav. Por que a Torá menciona a concubina de Elifaz se nem as suas esposas foram mencionadas? Explica Rashi que Timná era uma mulher de descendência nobre que, influenciada pelos bons atos de Avraham, desejou se unir ao povo judeu. Ela estava disposta a até mesmo abandonar a nobreza para fazer parte da herança espiritual de Avraham. Porém, ela não foi aceita por Avraham. Por que ele não a aceitou, se nossos sábios descrevem seu imenso e incansável esforço para difundir o monoteísmo e trazer as pessoas ao caminho correto? Respondem nossos sábios que Avraham tinha motivos fortes para isso. Talvez ele tenha visto, com seu nível profético, algo muito ruim na alma de Timná, que a impedia de fazer parte do povo judeu, e por isto não a aceitou.

Mas Avraham tinha feito um erro em suas contas. Na verdade, apesar de Timná não ser apta, ele deveria tê-la aceitado, pois talvez assim ela conseguisse vencer o seu lado ruim. Qual foi a consequência deste erro de Avraham? Desesperada para fazer parte da família dos patriarcas, Timná se sujeitou a até mesmo ser a concubina de Elifaz. E deste relacionamento nasceu Amalek, que deu origem ao povo que, durante toda a história, lutou contra o povo judeu e nos causou muita dor e sofrimento. Amalek é a encarnação do mau, é a sombra que tenta constantemente escurecer a presença de D'us no mundo. E é para Amalek que damos força toda vez que deixamos de fazer Chessed com os outros.

É necessário ressaltar que obviamente estes erros de Avraham e Yaacov foram erros pequenos. Eles eram gigantes espirituais, eram pessoas que dedicaram suas vidas a cumprir a vontade de D'us. Suas falhas foram tão pequenas que não estão nem mesmo mencionadas explicitamente na Torá, somente sabemos delas através de Midrashim (parte da Torá Oral) e da transmissão dos nossos sábios. Para que possamos enxergar os erros deles com os nossos olhos, foi necessário aos nossos sábios colocar uma "lente de aumento", por isso os erros parecem tão grandes. Mas ao mesmo tempo vemos que, apesar de terem sido erros pequenos, as consequências foram desastrosas, para eles e para o povo judeu, nos ensinando o quanto D'us aprecia nossos atos de bondade e quanto a falta deles, mesmo em relação a uma única pessoa, pode trazer consequências terríveis para o mundo todo muitas gerações depois.

Baseado em versículos da Torá, nossos sábios dizem que a característica de bondade de D'us é 500 vezes mais forte do que a Sua justiça estrita. Se deixar de fazer um Chessed apenas em nível de pensamento trouxe consequências tão graves, imagine quanto mérito e quantas consequências boas podemos trazer ao mundo ao nos ocuparmos ativamente em fazer Chessed com as pessoas. Com um simples ato de bondade, como um incentivo ou uma demonstração de apoio, podemos dar vida para uma pessoa. Chessed não se faz apenas com dinheiro, se faz com um sorriso, com um abraço, com um simples telefonema. Chessed pode ser feito com os ricos e com os pobres, com os doentes e com aqueles que estão saudáveis, com todos aqueles que precisam de uma mão estendida ou de uma palavra amiga. Se Chessed é um dos pilares do mundo, ao fazer Chessed estamos nos comportando como D'us e, como sócios da Criação, estamos sustentando o mundo inteiro.

"Pois isto é o ser humano: não para si mesmo foi criado, e sim para ajudar ao próximo, com todas as forças que tiver" (Rav Chaim Vologhin).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 32:3 -36:43, Ob.1:1-21, Hb.11:11-20