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sábado, 12 de maio de 2018

DIMINUINDO OS TESTES - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5778

Moishe Fridman (nome fictício), que morava em Jerusalém, decidiu passar Rosh Hashana em Bnei Brak, na casa dos seus pais. Na hora de voltar para Jerusalém, sabia das imensas filas que haveria nos pontos de ônibus, com pessoas irritadas se empurrando para conseguir um lugar no ônibus. Decidido a não pegar fila, ele resolveu ir embora no horário do último ônibus, à 1 da manhã. Porém, para sua surpresa, quando chegou ao ponto, ainda estava lotado. As pessoas estavam muito irritadas, pois o ônibus para Jerusalém estava mais de uma hora atrasado. Estavam todos revoltados, querendo agredir o motorista. Finalmente, após muita espera, um ônibus apareceu no final da avenida. Todos se levantaram, já preparando as ofensas que diriam ao motorista. Mas a alegria não durou muito tempo. Quando o ônibus chegou mais perto, todos viram que no destino não estava escrito "Jerusalém", e sim "Rechovot". O ônibus parou, abriu as portas, mas não havia nenhum passageiro interessado em ir para Rechovot. Todos aguardavam o ônibus para Jerusalém, que não chegava.

Quando o motorista ia fechar as portas, com o ônibus completamente vazio, um homem da fila teve uma ideia. Ele perguntou ao motorista se ele não poderia levá-los para Jerusalém, já que não havia passageiros para Rechovot. O motorista disse que não podia fazer isto, pois tinha que seguir as ordens de seus superiores. As pessoas então começaram a insistir muito com o motorista. Havia muitas crianças, algumas já estavam até dormindo, deitadas na rua, com as cabeças apoiadas nas malas. Começaram a apelar para que ele fizesse aquele ato de Chessed (bondade), que tivesse misericórdia das pessoas. O motorista ficou em dúvida e disse que, por um lado, estava com dó de todos aqueles passageiros, mas por outro lado tinha muito medo da reação de seu chefe quando descobrisse que ele havia ido para outro destino. As pessoas tentaram convencê-lo a ir para Jerusalém, garantindo que, caso ele fizesse aquela Mitzvá, certamente D'us o protegeria de qualquer dano. O motorista finalmente se dobrou diante da insistência de todos. Ele levantou, mudou a placa do ônibus para "Jerusalém" e permitiu que todos subissem. As pessoas agradeceram, todos que subiam no ônibus o abençoam pelo incrível ato de bondade. Apesar de tanta espera, todos viajavam felizes, com seus corações agradecidos. Porém, Moishe não estava tranquilo. Ele havia ficado preocupado com o motorista, que poderia estar com o emprego em risco. Provavelmente ele tinha uma família para sustentar e ficaria em uma situação muito difícil caso perdesse o emprego. Começou então a conversar com o motorista e perguntou como ele explicaria para o chefe a mudança de destino. O motorista pediu para Moishe se aproximar. Olhou para ele, deu um sorriso e disse em voz baixa:

- Como você está realmente preocupado comigo, vou te contar a verdade. O destino verdadeiro deste ônibus já era Jerusalém. Porém, houve uma falha na central de ônibus e acabaram me mandando vir bem mais tarde, com mais de uma hora de atraso. Não foi minha culpa, mas eu sabia que as pessoas não iriam passar no teste. Elas estariam muito bravas, talvez chegassem até mesmo a me agredir fisicamente. Por isso, antes de chegar ao ponto, decidi mudar a placa do ônibus para "Rechovot". Assim, quando novamente mudei a placa para "Jerusalém", as pessoas ficaram felizes. Ao invés de me agredirem, elas me deram Brachót. Não me arrependo do que fiz. Simplesmente ajudei as pessoas a passarem no teste, diminuído a dificuldade para elas.
Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar (literalmente "Na montanha") e Bechukotai (literalmente "Nas Minhas leis"), terminando o terceiro livro da Torá, Vayikrá. Um dos assuntos trazidos na Parashat Behar é sobre as leis de "Shemitá", o ano Sabático, quando os campos em Israel devem passar por um descanso forçado. Após seis anos de trabalho, quando chega o sétimo ano, as pessoas não podem arar, semear nem irrigar seus campos. Além disso, a Parashat também traz outra importante Mitzvá, chamada de "Yovel" (Jubileu). Após 7 ciclos de Shemitá, totalizando 49 anos, vinha o ano 50, o ano do Yovel, que trazia consigo algumas Mitzvót especiais. Entre elas estava a Mitzvá de devolver todos os campos em Israel, inclusive os que haviam sido vendidos, aos seus verdadeiros donos. Mas o que significa esta "devolução da terra"?

Quando o povo judeu entrou em Israel, liderado por Yoshua bin Nun, cada uma das tribos foi alocada em um local específico de Israel. A terra foi toda dividida em pequenas porções, que foram entregues às famílias como parte de sua herança pessoal e foram sendo passadas de geração em geração. Portanto, mesmo que a pessoa vendesse sua terra, isto não se tratava de uma venda permanente, e sim um "aluguel", que durava até o ano do Yovel. Neste ano, as terras voltavam aos seus verdadeiros donos, conforme está escrito: "E a terra não será vendida de maneira permanente, pois toda a terra é Minha" (Vayikra 25:23).

De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), este versículo não é apenas uma narrativa, ele traz uma proibição que se aplica ao comprador de um campo. A Torá está ordenando ao comprador que ele não se recuse a devolver a terra ao seu verdadeiro dono quando o ano do Yovel chegar. Caso o fizesse, estaria cometendo uma transgressão da Torá. Porém, o Ramban (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) discorda de Rashi, já que o enfoque do versículo está na proibição da venda de forma permanente, não da compra. Por isso, a proibição parece recair sobre o vendedor, não sobre o comprador. Portanto, de acordo com o Ramban, uma pessoa que vende uma terra em Israel e sugere ao comprador que, apesar das leis do Yovel, a venda será para sempre, está violando esta proibição da Torá. Mesmo que o Beit Din (Tribunal Rabínico) force a volta da terra ao seu legítimo dono no ano do Yovel, o vendedor já cometeu uma transgressão no momento da venda, por ter sugerido ao comprador que a venda seria permanente.

É fácil entender a proibição de acordo com o entendimento de Rashi, que a proibição se aplica ao comprador. Se um comprador não quer devolver a terra ao seu dono, isto é roubo, uma apropriação indevida. Porém, como entender qual é a transgressão de acordo com o entendimento do Ramban, de que a Mitzvá está relacionada com o vendedor?

Explica o Ramban que qualquer pessoa que já precisou vender uma casa na qual viveu por muitos anos sabe o quanto isto é doloroso. As casas têm valores sentimentais, pois há muitas memórias associadas a elas. Se alguém tivesse comprado, por exemplo, uma casa no 5º ano da contagem do Yovel, ele teria vivido nesta casa por 45 anos. Neste período, ele provavelmente teria se casado e criado seus filhos e netos ali. As pessoas se conectam ao lugar onde vivem, elas amam suas casas. Após 45 anos vivendo ali, seria muito difícil simplesmente a pessoa se levantar e dizer ao dono da terra: "Você tem razão, a casa é sua, não minha". A Torá quer diminuir a dificuldade e o sofrimento do comprador, quer ajudá-lo a devolver a propriedade no momento certo. Por isso o vendedor deve lembrar ao comprador, logo no primeiro dia, que aquela terra para onde ele está se mudando, e onde ele viverá por muitos e muitos anos, não é dele. O vendedor não deve dar nenhuma sugestão ao comprador de que a venda é permanente. Ao contrário, ele deve ressaltar, logo no início do acordo, de que não se trata de uma venda permanente, e sim apenas um aluguel por um período limitado de tempo.

De acordo com o Rav Yssocher Frand, as pessoas não ficam psicologicamente conectadas às propriedades alugadas. As pessoas não se conectam emocionalmente aos quartos de hotéis onde se hospedam, pois têm total claridade que aquela propriedade não pertence a elas. A Torá quer fazer com que o teste de cumprir a Mitzvá de devolver as terras aos seus verdadeiros donos venha com o mínimo de sofrimento e dificuldade. É por isso que a Torá nos ensina que é proibido ao vendedor dar a impressão de que a venda é definitiva, o que poderia causar com que o comprador se conectasse com algo que não é verdadeiramente seu, é apenas alugado. Passar esta falsa impressão ao comprador acabaria aumentando a dificuldade no teste de devolver esta terra no momento em que o Yovel chegasse.

Explica o Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883) que a vida é cheia de testes e dificuldades. Muitas vezes é difícil cumprir as Mitzvót ou deixar de fazer transgressões. Por isso, temos que tentar transformar o cumprimento da Torá em algo que seja o mais fácil possível para nós. Não devemos tentar bater de frente com o nosso Yetser Hará (má inclinação). Precisamos sempre fugir das tentações e evitar nos colocarmos em cenários que possam aumentar as dificuldades no cumprimento das leis da Torá. Da mesma maneira que uma pessoa que está de dieta não deve frequentar uma padaria, assumindo que terá o autocontrole necessário para ignorar o aroma delicioso daqueles doces que poderiam destruir seu plano de dieta, assim também uma pessoa não deve assumir que poderá resistir ao seu Yetser Hará quando surgirem tentações que podem levar a transgressões da Torá. A pessoa deve sempre procurar um caminho de vida no qual ela evita as tentações, ao invés de desafiar seu Yetser Hará e, muitas vezes, sucumbir a ele.

Este conceito pode ser observado no comportamento de Yaacov quando ele se preparava para ir embora da casa de seu sogro Lavan. Após 20 anos trabalhando para Lavan, D'us apareceu para Yaacov em uma noite e o comandou a voltar para sua casa em Israel. Yaacov então se encontrou na manhã seguinte com suas duas esposas, Rachel e Lea, para informá-las da mensagem de D'us. Como seria a reação esperada de Yaacov? Que ele simplesmente anunciasse para as esposas que D'us havia aparecido para ele e que havia ordenado que arrumassem as malas e fossem embora. Porém, não foi o que Yaacov fez. Ele começou a apresentar uma série de motivos lógicos para justificar o quanto estava sendo difícil permanecer na casa de Lavan e o quanto seria vantajoso ir embora. Somente como uma reflexão final foi que Yaacov acrescentou a ideia de que D'us os havia ordenado a ir embora. Por que Yaacov não foi direto ao ponto, de que D'us havia ordenado que voltassem? Pois Yaacov sabia o quanto era difícil para uma filha abandonar a casa de seu pai. Ele sabia que seria um difícil desafio para suas esposas. Então Yaacov tentou diminuir o teste delas, demonstrando que, também por motivos lógicos, ir embora era o melhor a se fazer. Yaacov primeiro deu às suas esposas a motivação psicológica para abandonar a casa de seu pai e, somente depois, jogou a ideia de que isto era o que D'us queria delas.

De acordo com o Ramban, o vendedor da terra deveria ter sensibilidade com o comprador. Ele deveria se esforçar para facilitar ao comprador cumprir a Mitzvá de devolução da terra. Ele deveria desde o princípio avisar: "Isto não é uma venda. Não crie falsas esperanças, não se engane". Quando uma pessoa tem claridade desde o princípio de que é uma casa alugada, ela evita a sensação ruim de abandonar a "sua casa". Ela sabe que está abandonando apenas uma casa onde morou e viveu, mas que nunca foi verdadeiramente sua.

Cumprir Mitzvót já é suficientemente difícil sem precisarmos nos expor a outros tipos de testes. Devemos ser sábios e tentar diminuir os testes no cumprimento das Mitzvót. Devemos evitar ao máximo nos colocar em situações difíceis, nas quais fica mais difícil não transgredir. O Chafetz Chaim (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), por exemplo, nos ensina que uma pessoa não deve nem mesmo ir a um lugar no qual ela sabe que há pessoas reunidas falando Lashon Hará (maledicência), pois se ela for, acabará ficando, e se ela ficar, acabará também falando Lashon Hará. A dica então é cortar o mal pela raiz, não se expor ao teste, para conseguirmos vencer o nosso Yetser Hará. Com sabedoria, e com a ajuda de D'us, assim conseguiremos cumprir as Mitzvót e evitar as transgressões que possam surgir no nosso caminho.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Parashat Behar-Bechukotai (Leviticus 25:1 - 27:34)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

TAPAS POR AMOR - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5777

"Reuven era um garoto muito agitado. Infelizmente não escutava os conselhos e broncas de seus pais e estava sempre metido em terríveis confusões. Certa vez Reuven foi jogar futebol no gramado em frente à sua casa. Apesar de seu pai tê-lo advertido muitas vezes sobre o cuidado com os carros da rua, todas as vezes em que a bola caía no meio da rua ele saía correndo feito um louco e atravessava a rua sem nem mesmo olhar para os lados.

Da primeira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou sem olhar, um carro que estava passando teve que desviar com uma manobra arriscada. O motorista, muito irritado, parou o carro, abriu a janela e começou a gritar com Reuven, repreendendo-o por sua irresponsabilidade. Mas quando o carro partiu, Reuven simplesmente deu gargalhada do que havia acontecido. Alguns minutos depois a bola novamente caiu na rua e, sem pensar, Reuven foi mais uma vez atravessar de forma irresponsável. Um carro que passava naquele momento precisou dar uma freada brusca, deixando marcas de borracha no asfalto. O motorista saiu do carro, agarrou Reuven pelo braço e deu uma severa bronca nele. Porém, quando o motorista foi embora, mais uma vez o pequeno Reuven deu gargalhada, se divertindo com a situação.

Porém, da terceira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou de maneira irresponsável, o motorista que vinha dirigindo precisou frear forte e desviar do garoto, quase causando um acidente mais grave. O homem saiu do carro com o rosto vermelho de raiva. Quando Reuven olhou para o motorista, ficou apavorado. Ele largou a bola no meio da rua e saiu correndo. Mas o motorista não deixou barato e saiu correndo atrás dele. Eles passaram por vários quintais, pularam várias cercas, até que, finalmente, Reuven se viu diante de um beco sem saída. Era o fim da linha, não havia mais para onde correr. O motorista então o alcançou e lhe deu uma bela surra por causa de seu ato irresponsável. Quem era este homem? Obviamente que era seu pai. Os outros motoristas ficaram irritados com o ato irresponsável de Reuven, mas somente um pai leva tão a sério atos perigosos dos filhos para querer que eles nunca mais se repitam. Um pai se irrita com atitudes perigosas de seu filho e dá duras broncas nele, mas isto é uma demonstração de amor, não de raiva".

Existe um paralelo do mundo material com o mundo espiritual. Quando D'us nos vê cometendo erros que podem colocar nossa vida eterna em risco, Ele chama a nossa atenção, como um Pai responsável que ama seus filhos.

Nesta semana lemos duas Parashiót, Behar (literalmente "Na montanha") e Bechukotai (literalmente "Nas Minhas leis"). A Parashá Behar fala sobre a Mitzvá de Shmitá, que nos ensina que devemos deixar os campos que se encontram na Terra de Israel "descansando" uma vez a cada 7 anos, sem arar, plantar ou ter qualquer proveito financeiro de suas colheitas. Esta Mitzvá sempre foi difícil de ser cumprida, principalmente se nos lembrarmos que antigamente dependíamos basicamente da agricultura para nossa sobrevivência. Mesmo assim, cumprir esta Mitzvá e "descansar" nosso campo por um ano inteiro é uma demonstração de Emuná de que é D'us que controla tudo e que é Dele que vem o nosso sustento.

Já a Parashá Bechukotai começa listando as Brachót (Bênçãos) que recebemos quando andamos nos caminhos corretos e cumprimos as Mitzvót contidas na Torá. Porém, depois disso a Parashá muda o tom e começa a descrever, de forma profunda e detalhada, as terríveis tragédias que futuramente atingiriam o povo judeu caso nos desviássemos dos comandos de D'us. Mas como pode ser que um D'us bondoso permite tantas tragédias e sofrimentos? Quando vemos esta parte da Parashá fora de contexto, podemos chegar a conclusões completamente equivocadas.

Imagine um dia no qual você está em casa, conversando tranquilamente com seus amigos, quando seu pai entra. Ele está visivelmente irritado e começa a se comportar com você de maneira estranha. Ele está muito bravo, quase descontrolado. Mesmo que você tenha esquecido de arrumar seu quarto ou tenha tirado uma nota baixa na escola, nada justificaria este tipo de reação dele. Com este comportamento ele se parece um total estranho, alguém que você nem conhece. Você chegaria à conclusão de que aquele na verdade não é seu pai, ou você procuraria alguma explicação lógica para o comportamento dele? Certamente tentaríamos entendê-lo. E mesmo que não conseguíssemos entender naquele momento, esperaríamos que ele futuramente viesse explicar seu comportamento atípico. Daríamos crédito ao nosso pai, pois ele certamente conquistou, ao longo dos muitos anos de convivência, a nossa confiança.

Assim acontece com o povo judeu. D'us nos tirou do Egito, nos salvou dos nossos inimigos, nos sustentou no deserto por 40 anos, nos deu a Sua Torá, um tesouro que pode ser utilizado para trazer vida ao mundo, e nos deu a Terra de Israel, uma terra especial e sagrada. Definitivamente parece que D'us é bom e se preocupa com o nosso bem estar. Ele já tem créditos conosco. Portanto, se de repente este mesmo D'us muda de tom e nos avisa que coisas terríveis nos atingirão, devemos também presumir que existe uma explicação e uma bondade por trás. Há coisas que entenderemos sozinhos durante a vida, outras teremos que esperar até um momento futuro no qual D'us mesmo colocará as coisas no seu devido contexto. Mas uma coisa podemos ter certeza: da mesma maneira que ocorre em relação aos nossos pais, sempre há um significado nos atos de D'us e, em última instância, tudo foi planejado com amor, para o nosso bem verdadeiro.

Parte da nossa falta de entendimento do contexto dos atos de D'us está na nossa falta de compreensão da gravidade dos nossos atos e do que é esperado de nós durante a vida. Imagine uma pessoa muito simples, do interior, que vem à cidade grande visitar seu amigo no hospital. O doente está em estado grave, respirando com a ajuda de aparelhos. Por causa do tubo em sua boca, o doente não consegue falar nada. O amigo, em um ato de "bondade", quer ajudá-lo a falar e tira o tubo de sua boca. Apesar das melhores intenções contidas neste ato, em alguns minutos o doente morre por falta de oxigênio. Pelo fato de o amigo não enxergar o quadro completo, ele não consegue entender a consequência dos seus atos. Aos seus olhos, ele está apenas ajudando seu colega, de maneira inofensiva, retirando de sua boca o tubo que o impedia de falar. Ele faz isso com a mesma naturalidade do que alguém que tira uma sujeira do casaco de seu companheiro. Sem perceber e sem entender as consequências de seu ato, ele cometeu um assassinato.

Da mesma maneira, sem saber e sem entender as conseqüências dos nossos atos, podemos estar até matando outras pessoas. Por exemplo, o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica a gravidade do nosso Lashon Hará (causar danos a outras pessoas, que podem ser físicos, monetários ou psicológicos, através do mau uso da nossa fala). Ele diz que toda vez que alguém fala Lashon Hará, três pessoas morrem: aquele que fala, aquele que escuta e sobre quem está sendo dito coisas negativas. Porém, acabamos falando muito Lashon Hará sem perceber o mal que estamos causando ao mundo. Sempre temos justificativas para os nossos maus atos, sempre temos desculpas para enganar aos outros e a nós mesmos, nos convencendo de que o nosso ato não foi uma transgressão, e sim uma Mitzvá.

Mas pior do que o mal que causamos aos outros com nossas transgressões é o mal que causamos a nós mesmos. A forma como utilizamos equivocadamente nosso bem mais precioso, o tempo, se compara a uma pessoa que comprou um caríssimo computador de última geração e o utiliza como peso de papel, por não saber o que este computador pode produzir. Viver a vida sem ter a claridade de para onde estamos indo é uma forma lenta de suicídio, algo que muitas pessoas fazem sem perceber.

O povo judeu tem uma missão especial no mundo. Somos parte da "tripulação do barco da vida", o exército de D'us cuja principal missão é transmitir ao mundo o sentido da vida. Porém, infelizmente para D'us, para nós mesmos e para o mundo inteiro, esquecemos o nosso papel e pensamos que somos apenas passageiros do barco. Ao invés de ajudar o barco a chegar ao seu destino, passamos o dia jogando boliche no convés. Se não cumprimos o nosso papel, o barco pode acabar afundando. Mas D'us nunca vai deixar isto acontecer. Ele nunca vai deixar destruirmos a nós mesmos e ao Seu barco. Ele muitas vezes precisa nos relembrar que não somos apenas passageiros curtindo a viagem. Este é o ponto de partida para entender as dificuldades pelas quais o povo judeu passou durante sua história. Apesar de ser trágico, o antissemitismo acaba trazendo um benefício para nós. Nada tem mais força para unir o povo judeu do que as ameaças externas. Não é o que D'us gostaria de fazer, mas muitas vezes nós O deixamos "sem escolha".

Muitas pessoas questionam como D'us pôde permitir que tragédias tão grandes recaíssem sobre o povo judeu. A implicação filosófica para quem faz este tipo de pergunta é que talvez não exista D'us. Porém, imaginar isto é como o caso de um pai que tem um filho rebelde. Repetidas vezes o pai adverte o filho que, caso ele se comporte de maneira indesejável, receberá um duro castigo. Quando este filho desobedece a ordem do pai, ele fica surpreso por receber os castigos? Certamente que não, pois ele foi avisado. A única questão válida seria "Qual é o propósito destes castigos?". Mas certamente nunca viria à cabeça do filho a pergunta se o pai existe ou não. A verdade é justamente o contrário. Se o pai avisou que um castigo recairia sobre o filho caso ele fizesse coisas erradas, não há prova maior da existência e da autoridade do pai do que os castigos realmente acontecerem após os atos de rebeldia.

Explica o Rav Simcha Barnett que este é o entendimento por trás de todas as tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a história. Elas vieram justamente para comprovar a existência de D'us, não para negá-la. Como um povo poderia, durante os milênios de sua existência, passar por tantas tragédias e ainda se manter de pé, firme e forte, se não fosse por uma intervenção Divina? Portanto, a chave para colocar os sofrimentos do povo judeu na perspectiva correta é entender o contexto nos quais eles nos atingem e o papel fundamental do povo judeu no palco do mundo. Muitas vezes nos comportamos como um mensageiro que esqueceu sua mensagem. Mas D'us não desiste de Seus mensageiros. Por isso, algumas vezes Ele é "forçado" a nos dar um "tapa", para nos acordar do nosso sono espiritual e nos recordar do nosso papel de mensageiros. O mais impressionante é perceber que Ele nos avisou com antecedência que isto aconteceria.

Sem esta perspectiva correta, muitos acham que a forma de escapar do antissemitismo é sendo menos judeus, isto é, se assimilando e tentando se encaixar no mundo não judaico à nossa volta, abandonando de vez a nossa identidade e as nossas diferenças. É uma estratégia que talvez funcionaria com outros povos, mas não com o povo judeu. A Parashá Bechukotai afirma que a única maneira de prevenir as tragédias é sendo mais judeus. Através do estudo da Torá podemos entender o que D'us considera importante neste mundo. Somente então ficará mais fácil de entender as tragédias profetizadas na Parashá Bechukotai, que já se cumpriram diversas vezes durante a história do povo judeu. E com este entendimento também poderemos nos esforçar para viver a vida da maneira correta, de forma que poderemos receber as Brachót também profetizadas no início da Parashá.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 25:1-26:2, Jr 32:6-27 (Shabat Mevarchim)
Lv 26:3-27:34, Jr 16:19-17:14

sexta-feira, 27 de maio de 2016

ENGANANDO A SI MESMO - PARASHAT BEHAR 5776

Este é o "testamento ético" que um médico escreveu antes do seu falecimento, na expectativa de transmitir aos seus filhos os ensinamentos que ele aprendeu na vida:

"Meus queridos filhos, quando eu me formei na faculdade de Medicina, a minha grande ambição era me dedicar à pesquisa na área médica e descobrir a cura para uma grande enfermidade. Eu sentia que tinha o talento e as habilidades necessárias para fazê-l,o e queria fazer algo grandioso, algo importante, que melhoraria a saúde de inúmeras pessoas e prolongaria suas vidas. Eu queria ser médico no sentido literal da palavra. Mas eu também queria ter segurança financeira. Eu não queria me preocupar com as contas e com o financiamento de uma casa. Eu queria dar um padrão de vida confortável para a sua mãe. Então eu decidi abrir um consultório em um bairro de classe alta e praticar aí medicina durante dez ou quinze anos. Eu ganharia muito dinheiro e me aposentaria. Depois, eu estaria livre para dedicar a minha vida à pesquisa.

O que eu posso lhes dizer, meus filhos queridos? Vocês sabem o resto da história. A minha clínica foi muito bem-sucedida e eu ganhei muito dinheiro. Eu sempre adiava a minha aposentadoria para ganhar ainda mais dinheiro. Um ano se passou, depois outro e outro. Antes que eu me desse conta, eu passei os melhores anos da minha vida acumulando uma grande fortuna. E o meu sonho de encontrar uma cura? Eu sinto dizer que ele simplesmente continuou sendo isto: um sonho não realizado. Eu desperdicei os melhores anos da minha vida. Eu desperdicei os meus melhores talentos. Eu desperdicei uma oportunidade de ganhar a imortalidade. E tudo isto pelo quê? Por um pote de ouro.

O pior de tudo é que, olhando para trás, a sua mãe teria me apoiado na minha decisão de fazer pesquisa. Eu dizia para mim mesmo que eu fazia isto para dar a ela o padrão de vida que ela merecia, mas eu sabia que ela teria concordado em ter um padrão de vida mais simples, que ela teria me estimulado a perseguir os meus objetivos se eu tivesse pedido a ela.

Meus filhos queridos, o que eu posso dizer? O pote de ouro eu deixo para vocês. Deve ser suficiente para lhes libertar das preocupações financeiras. Não cometam o meu erro. Não passem as suas vidas preciosas enchendo o pote de ouro".

Explica o Rav Yssocher Frand que, após muitos anos de trabalho árduo, este médico compreendeu que desperdiçou décadas da sua vida na busca por riqueza material. Um tempo que poderia ter sido passado com a família ou na busca de ideais nobres foi direcionado na busca interminável por dinheiro. E este tempo nunca voltará...
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Nesta semana lemos a Parashat Behar (que literalmente significa "No Monte"). A Parashat começa descrevendo uma Mitzvá difícil de ser cumprida, e que tem um grande impacto na forma como nos relacionamos com D'us e como enxergamos o nosso trabalho neste mundo: a Mitzvá de "Shemitá" (Ano Sabático), que se aplica apenas às terras de Israel. Durante seis anos o povo judeu pode arar o campo, semear, irrigar e colher o produto do seu esforço. Porém, no sétimo ano, o ano de Shemitá, o povo judeu não pode arar, plantar e nem mesmo ter proveito financeiro dos frutos do seu campo. As portas de todos os campos devem ser abertas, para que os pobres e todos que tiverem vontade possam comer livremente das frutas. Isto nos ensina que o verdadeiro provedor de tudo o que temos é D'us, pois apesar de passarmos um ano inteiro sem cultivar o campo e sem vender as frutas, nunca faltou sustento ao povo judeu no ano de Shemitá em mais de 3.000 anos. A Torá inclusive nos garante que não apenas não haverá fome, mas também haverá uma grande abundância, como está escrito: "E Eu comandarei a Minha Benção para vocês no sexto ano, e a produção será equivalente a três anos" (Vayikrá 25:21).

Porém, o Talmud (Kidushin 20a) descreve as terríveis consequências àquele que não cumpre a Mitzvá de Shmitá e busca lucros com a venda de produtos agrícolas durante o sétimo ano. O Talmud também ressalta que a severidade dos castigos vai aumentando progressivamente caso a pessoa persista na transgressão. Por exemplo, aquele que desrespeitou as leis de Shmitá inicialmente começará a perder seus lucros, precisando vender seus móveis e outros objetos de sua casa para se sustentar. Posteriormente ela acabará sendo obrigada a vender até mesmo a terra que herdou de seus antepassados. As consequências dos seus atos vão aumentando em severidade, até que a pessoa se vê obrigada a se vender como escrava para fazer serviços em um templo de idolatria.

O Talmud ressalta que a razão pela qual as consequências se tornam mais severas é porque a pessoa não abandona a transgressão nem ao perceber os castigos que está recebendo. Por que a pessoa não se arrepende? Pois quanto mais a transgressão fica profundamente enraizada dentro do transgressor, é menos provável que ele sinta remorso por seus erros, como afirma o Talmud: "Quando uma pessoa repete o seu delito, ele torna-se permitido aos seus olhos".

Mas por que o Talmud resolveu transmitir este ensinamento justamente associado à Mitzvá de Shemitá, se isto se aplica a qualquer transgressão da Torá? Explica o Rav Yohanan Zweig que, para responder esta pergunta, antes precisamos entender o que leva alguém a desrespeitar a Mitzvá de Shemitá. A motivação mais óbvia seria o medo de não conseguir sustento no sétimo ano. Mas esta é uma motivação sem sentido, pois D'us prometeu abundância para todos aqueles que cumprirem a Mitzvá de Shemitá, garantindo que nada faltará para eles. E isto pôde ser verificado nos últimos três mil anos, quando o povo judeu cumpriu a Mitzvá e nada faltou. Então qual é a motivação verdadeira que leva alguém a transgredir esta Mitzvá?

A Torá nos ensina que "o ser humano foi criado para trabalhar" (Yov 5:7). Isto significa que o ser humano somente consegue se preencher através do seu esforço e de suas realizações. Por isso, o ser humano acaba se definindo justamente pelas ações através das quais ele busca seu preenchimento. Em condições ideais, o ser humano deveria receber esta sensação de preenchimento através dos seus esforços no serviço Divino. Porém, na maioria das vezes, a pessoa acaba se definindo de maneira completamente equivocada, através do produto do seu trabalho profissional. É por isso que uma das depressões que mais atingem a humanidade está relacionada justamente com a época em que as pessoas se aposentam. Como elas sentem que seu valor está diretamente ligado à sua produção profissional, a aposentadoria representa o fim do valor da pessoa e, por isso, muitos passam por sofrimentos psicológicos profundos quando param de trabalhar.

Com este conceito fica mais fácil entender a motivação por trás de quem transgride a Mitzvá de Shemitá. Aquele que trabalha com agricultura acaba se identificando com este trabalho da terra como se fosse parte da sua própria essência. Por isso, não é uma opção desejável ficar um ano inteiro parado, sem produzir nada, pois isto traz para a pessoa uma sensação de vazio existencial. Por outro lado, como a pessoa vê sua essência como uma consequência de seus atos, então fazer uma transgressão de maneira aberta e descarada também causaria na pessoa a mesma sensação de vazio, pois o definiria como sendo um transgressor. A única forma de fugir deste paradoxo é a pessoa racionalizar seus atos e procurar desculpas para encobrir sua transgressão, como assumir que está trabalhando por causa do medo de não ter sustento. Desta maneira, a pessoa pode se sentir tranquila, trabalhando na terra durante o sétimo ano, que é o que define a sua essência, e ao mesmo tempo sentindo que não está fazendo nada de errado.

Quando a pessoa se esforça para encobrir seus erros buscando racionalizações, normalmente ela entra na regra de "quando uma pessoa repete o seu delito, ele torna-se permitido aos seus olhos". Com isso a pessoa acaba se afundando cada vez mais na transgressão e se tornando cada vez mais insensível às consequências espirituais negativas. É por isso que a Shemitá é o cenário ideal para ensinar este conceito, pois justamente a racionalização dos erros é o que está por trás da transgressão da Shemitá. O medo de não ter sustento, apesar de D'us ter garantido que nada faltará, é apenas uma "justificativa racional" para tirar o peso na consciência da pessoa.

Desta Parashat ficam dois ensinamentos muito importantes. Em primeiro lugar, aprendemos que o nosso verdadeiro valor não deve ser definido através de nossos empregos e formação profissional. Não somos engenheiros, advogados ou médicos, somos seres humano, e temos dentro de nós uma alma eterna, que deseja cumprir sua missão e se conectar com D'us. Podemos gostar do que fazemos, mas nossas profissões devem ser vistas apenas como uma forma de termos o nosso sustento, de podermos ter a tranquilidade material suficiente para nos permitir fazermos o nosso serviço espiritual, e não como nossa meta na vida. Nosso valor verdadeiro é medido de acordo com o quanto estamos próximos do nosso preenchimento espiritual, que é o verdadeiro motivo pelo qual D'us nos colocou neste mundo. Os lucros que tivemos na empresa e o sucesso profissional não servirão para nada quando terminar o nosso tempo neste mundo. O que ficará para sempre serão as nossas bondades, as nossas contribuições para a humanidade. Não precisam ser atos grandiosos, pois mesmo pequenos bons atos ajudam a iluminar o mundo, e cada luz acesa com uma Mitzvá nunca mais se apagará.

Em segundo lugar, aprendemos o quanto precisamos ser sinceros com nossas atitudes na vida. D'us sabe quais são as nossas verdadeiras intenções, e Ele sabe quando estamos apenas buscando racionalizações e justificativas para os nossos erros. Na vida podemos enganar as outras pessoas, podemos até mesmo conseguir enganar a nós mesmos, mas nunca conseguiremos enganar a D'us, que enxerga até cada pequena vontade do nosso coração.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 25:1-26:2, Je 32:6-27

sexta-feira, 15 de maio de 2015

DIFICULDADES TRAZEM MÉRITOS - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5775

"Certo dia Adriano estava observando um casulo de borboleta quando, naquele exato momento, uma pequena abertura apareceu. Ele resolveu se sentar e observar o que aconteceria. Ele viu que a borboleta se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco aberto no casulo, mas em certo momento pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso e não conseguia  mais sair. Adriano decidiu ajudar a borboleta: pegou  uma tesoura e cortou o restante do casulo.  A borboleta então saiu  facilmente, mas  seu corpo estava pequeno e murcho, e suas asas estavam amassadas.

Adriano continuou a observar a borboleta, pois esperava  que, a qualquer momento, as asas dela se abririam e se esticariam para  serem  capazes de suportar o peso do corpo. Mas nada aconteceu. Na verdade, a borboleta passou o resto da vida rastejando, com um corpo murcho e as asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar.

Adriano, em sua vontade de ajudar, não compreendia que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura serviam para  que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas, de modo que ela estivesse  pronta para voar quando conseguisse sair do casulo. Ao cortar a pequena abertura, Adriano acabou tirando as chances de um dia aquela borboleta conseguir voar.

Algumas vezes o esforço é justamente o que precisamos em nossa vida. Se não fossem os obstáculos, nós não seríamos tão  fortes quanto poderíamos ter sido"

Eu pedi a D'us força, mas Ele me mandou dificuldades para me fazerem forte. Eu pedi a D'us sabedoria, mas Ele me mandou problemas para eu aprender a resolver. Eu pedi a D'us prosperidade, mas Ele me mandou uma boa cabeça para pensar e músculos para eu trabalhar. Eu pedi a D'us coragem, mas Ele me mandou perigos para eu superar. Eu pedi a D'us amor, mas Ele me mandou pessoas com problemas para eu ajudar. Eu pedi a D'us favores, e Ele me mandou oportunidades. Eu não recebi nada do que pedi a D'us, mas Ele me mandou tudo o que eu precisava... 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar e Bechukotai. A Parashá Behar nos ensina sobre a importante Mitzvá de Shmitá, que exige que os agricultores de Israel descansem suas terras a cada 7 anos, reforçando nossa Emuná (fé) de que todo o nosso sustento vem diretamente de D'us, e não do nosso esforço. Já a Parashá Bechukotai descreve as Brachót que recaem sobre o povo judeu quando andamos no caminho das Mitzvót, mas logo depois descreve as advertências e os consequentes castigos caso o povo judeu se desvie e abandone o pacto com D'us.

As advertências da Parashá Bechukotai terminam com um consolo: "E Eu lembrarei Meu pacto com Yaacov, e também Meu pacto com Ytzchak, e também Meu pacto com Avraham Eu lembrarei..." (Vayikrá 26:42). Se prestarmos atenção neste versículo, perceberemos que há algo interessante: a expressão "zachor" (lembrar) aparece junto ao nome do nosso patriarca Avraham e junto ao nome do nosso patriarca Yaacov, mas não aparece junto ao nome do nosso patriarca Ytzchak. Por que esta diferença?

Explica o Rav Yaakov ben Asher zt"l (Alemanha, 1269 - Espanha, 1343), mais conhecido como Baal HaTurim, que este versículo ressalta que D'us lembrou de maneira especial os méritos de Avraham e Yaacov pois eles cumpriram as Mitzvót tanto quando estavam em Israel quanto quando estavam fora de Israel, mas Ytzchak, que viveu apenas em Israel todos os dias da sua vida, nunca teve a oportunidade de cumprir as Mitzvót fora de Israel. O Baal HaTurim acrescenta que tanto Avraham quanto Yaacov receberam de D'us o título de "Meus servos", enquanto este título não foi concedido a Ytzchak. Mas o que nos intriga nesta explicação do Baal HaTurim é que aparentemente o fato de Ytzchak nunca ter saído de Israel foi algo negativo, que deu a ele menos méritos do que os outros patriarcas. Por que isto diminuiria seus méritos?

A pergunta fica ainda mais intrigante quando nos aprofundamos no motivo pelo qual Ytzchak nunca saiu de Israel. O Rav Shlomo Itzchaki zt"l (Rashi) (França, 1040 - 1105) explica que D'us o proibiu de sair após ele ter sido oferecido por Avraham, seu pai, como um "Korban" (sacrifício), no episódio da "Akeidat Ytzchak". A partir daquele momento Ytzchak havia se tornado uma "Olá Temimá" (oferenda de elevação perfeita), e justamente por ter atingido este nível espiritual tão elevado ele foi instruído por D'us a permanecer sempre em Israel, a "Terra Sagrada". De acordo com a explicação de Rashi, Ytzchak não podia sair de Israel por ter criado um relacionamento especial com D'us, em um nível mais elevado do que dos outros patriarcas. Então como pode ser que Avraham e Yaacov, que serviram a D'us em locais com muito menos santidade, possuíam méritos maiores do que os méritos de Ytzchak, que somente serviu a D'us em Israel?

Além disso, há outro ensinamento interessante de Rashi. Quando a Torá nos descreve as Mitzvót de Tefilin e Mezuzá (Devarim 11:18,20), Rashi explica que o propósito de uma pessoa que está fora de Israel de colocar Tefilin e de fixar Mezuzót nos batentes de sua casa é apenas para que ela não se esqueça de como cumprir estas Mitzvót, e assim possa novamente cumpri-las quando chegar o momento de voltar para Israel. O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 – Egito, 1204) vai além e afirma que este conceito se aplica a todas as Mitzvót. Isto significa que, de acordo com o Rambam, o propósito de cumprirmos as Mitzvót fora de Israel é apenas para nos prevenir de esquecermos como elas devem ser cumpridas, e somente em Israel nós estamos verdadeiramente obrigados a cumpri-las. Mas como entender esta explicação do Rambam? Não há nenhum valor intrínseco em cumprir as Mitzvót fora de Israel? E isto não é contraditório com a explicação do Baal HaTurim, de que Avraham e Yaacov tinham mais méritos do que Ytzchak justamente por terem cumprido Mitzvót também quando estavam fora de Israel?

Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ajuda a responder estas perguntas através de uma parábola. O Midrash conta sobre um rei que, após ter se enfurecido com sua esposa, expulsou-a do palácio e mandou-a de volta para a casa dos seus pais. O pai dela sugeriu que, mesmo enquanto ela estivesse fora do palácio, continuasse usando as roupas reais e os cosméticos. O Rav Yakov Tzvi Mecklenberg (Alemanha, 1785 - 1865) explica que o Midrash nos transmite duas mensagens. A primeira mensagem é que, ao continuar a vestindo suas roupas reais e seus cosméticos, a mulher continuaria se lembrando de todos os costumes do palácio e estaria pronta para voltar assim que fosse eventualmente chamada de volta. A segunda mensagem é que, ao manter suas roupas reais e seus cosméticos, a mulher se manteria em seu status elevado, proporcionando uma grande honra ao seu distante marido.

Ensina o Rav Yochanan Zweig que as Mitzvót efetivam nosso relacionamento com D'us. Em Israel, onde a Presença Divina é muito mais perceptível, a realidade do relacionamento proporciona ao povo judeu um sentimento de reciprocidade em seus atos. Principalmente na época em que existiam os Templos Sagrados, nos sentíamos mais próximos de D'us ao cumprirmos as Mitzvót em Israel, e este sentimento de proximidade nos preenchia e nos satisfazia. Mas fora de Israel não há este sentimento imediato de reciprocidade, pois a Presença de D'us está oculta. Como falta a reciprocidade, as Mitzvót são cumpridas como se fossem parte de um relacionamento unilateral. Por isso, a única motivação para continuar cumprindo as Mitzvót fora de Israel é o desejo de obedecer a D'us.

Este é o paralelo que podemos aplicar ao ensinamento do Rambam. Quando cumprimos as Mitzvót fora de Israel, nós demonstramos nosso desejo de continuar nosso relacionamento com D'us, e fazendo isso nós trazemos honra para Ele. Apesar de Ytzchak ter atingido elevados níveis de santidade e ter mantido durante toda sua vida um relacionamento perfeito com D'us, ele nunca enfrentou o desafio de servir a D'us sob circunstâncias nas quais o relacionamento recíproco não podia ser percebido. Já Avraham e Yaacov se sobressaíram em sua conexão com D'us e no cumprimento das Mitzvót mesmo nos momentos em que o relacionamento parecia ser unilateral. Foi justamente por isso que seus méritos tiveram um impacto muito maior sobre os seus descendentes.

É neste sentido que o Baal HaTurim ressalta que somente Avraham e Yaacov receberam o título de "escravos de D'us", pois um escravo cumpre a vontade de seu dono independente se existe um relacionamento recíproco ou não. Já Ytzchak pode ser comparado a um filho cumprindo as ordens de seu pai, que apesar de ser um relacionamento em um nível mais alto, não é tão digno de louvor quanto a dedicação de uma pessoa que aceita ser um escravo e servir seu dono mesmo sem receber a satisfação de um relacionamento recíproco.

Portanto, a Parashá nos traz um incrível ensinamento de vida. Normalmente fugimos das dificuldades, e até mesmo sofremos antecipadamente por imaginarmos os eventuais testes que podem surgir em nossas vidas. Mas a Parashá nos ensina que as dificuldades nos fortalecem e nos trazem méritos, como ensinam nossos sábios: "De acordo com a dificuldade, assim é a recompensa" (Pirkei Avót 5:26). As dificuldades nos ajudam a desenvolver os músculos físicos e "espirituais" que estavam atrofiados. Por isso, quando surgirem dificuldades em nossas vidas, temos que levantar a cabeça e enfrentá-las com coragem, sabendo que estaremos dando importantes passos para o nosso crescimento espiritual.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
Lv 25:1-26:2
Lv 26:3-27:34
 
 
 
 
 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

DOANDO DIGNIDADE - PARASHÁ BEHAR 5774

"Roberto era muito bondoso, esforçava-se para ajudar a todos. Sua casa estava sempre aberta aos necessitados, e todos sabiam que aquele que batia na sua porta nunca saía de mãos vazias. Porém, certo dia algo diferente começou a acontecer. Roberto comprou uma grande pilha de toras de madeira e colocou na frente de casa. Mas o mais estranho é que algumas vezes a pilha inexplicavelmente aparecia nos fundos da casa, e depois voltava novamente para a frente. O que estava acontecendo?

Um dos vizinhos de Roberto, muito curioso, quis desvendar o mistério. Ele passou o dia inteiro escondido, observando a movimentação na casa. Primeiro ele viu um pobre batendo na porta. Roberto abriu com um grande sorriso no rosto, conversou um pouco com o pobre, apontou para a pilha de madeira que estava na frente da casa e depois apontou para os fundos da casa. O vizinho viu então que o pobre foi levando as toras de madeira, uma por uma, e novamente empilhou-as nos fundos da casa. Quando o pobre terminou, Roberto agradeceu muito, tirou um pouco de dinheiro do bolso e entregou a ele. Mas o mais inexplicável aconteceu um pouco mais tarde. Outro pobre bateu na porta e também foi recebido com grande alegria por Roberto. Ele então apontou para a pilha de madeiras que estava nos fundos da casa e depois apontou para a frente da casa. Para a surpresa do vizinho, ele viu o segundo pobre levar todas as toras de madeira e empilhá-las novamente na frente da casa. Mais uma vez Roberto agradeceu, tirou um pouco de dinheiro do bolso e deu ao pobre.

Ao ver esta cena, o vizinho não aguentou mais de curiosidade. Ele esperou o pobre sair e foi perguntar ao Roberto o que estava acontecendo. Apanhado em flagrante, Roberto ficou vermelho de vergonha. Depois de muita insistência, ele explicou:

- Eu gosto muito de ajudar as pessoas, sempre me esforcei para dar aos necessitados tudo o que eles precisavam. Mas um dia parei para refletir e percebi que eu não dava a eles o mais importante: dignidade. A partir daquele dia decidi não dar apenas dinheiro aos pobres, quis dar a eles a oportunidade de se sentirem úteis, e para isso comprei estas madeiras. Agora toda vez que alguém vem me pedir ajuda eu não ofereço dinheiro, eu ofereço um trabalho. A quantia que eu dou é a mesma, mas desta maneira eles não sentem vergonha. Ao invés de se sentirem humilhados, eles sentem orgulho por terem se esforçado pelo dinheiro que receberam"

Existem várias maneiras de ajudar uma pessoa necessitada. Mas nada ajuda mais um ser humano do que devolver a ele sua dignidade perdida.
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Nesta semana lemos a Parashá Behar. Entre outros assuntos, a Parashá fala sobre a Mitzvá de dar Tzedaká (caridade) aos necessitados, como está escrito: "Se seu irmão se empobrecer, e se os meios dele faltarem na sua proximidade, você deve fortalecê-lo" (Vayikrá 25:35). Mas por que é utilizada a linguagem "fortalecê-lo" ao invés de "ajudá-lo"? Explica Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, que este versículo refere-se à ajuda necessária a uma pessoa que começou a perder sua independência financeira, mas que ainda não chegou ao nível de tornar-se um completo destituído. Alguns comentaristas chegam a afirmar que ajudar pessoas que ainda estão caindo financeiramente é uma Mitzvá por si só, independente da Mitzvá de ajudar alguém completamente pobre. Mas qual é a diferença entre ajudar um pobre ou alguém que ainda está caindo? Na prática não estamos fazendo exatamente o mesmo ato?

O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), em suas leis sobre Tzedaká (Hilchót Matanot Aniim 10:10), explica que há oito níveis diferentes de Tzedaká, que começa com o ato de doar mesmo que seja de má vontade. Segundo ele, o nível mais elevado de Tzedaká é ajudar uma pessoa de maneira que ela não necessite se apoiar continuamente na ajuda dos outros, isto é, a ajuda deve ser dada de forma que a pessoa volte a ser, o mais rapidamente possível, financeiramente independente e não precise mais pedir aos outros. Por exemplo, o doador pode ajudar doando ou fazendo um empréstimo (sem juros) para que a pessoa reconstrua sua empresa falida, pode oferecer uma sociedade ou pode simplesmente ajudá-lo a conseguir um emprego. E a fonte citada pelo Rambam é justamente o versículo da nossa Parashá, enfatizando que a linguagem "fortalecê-lo" nos ensina a não deixar a pessoa cair completamente, dando a ela a força para se reerguer e novamente caminhar com suas próprias pernas.

O Rav Yossef Karo (Espanha, 1488 - Israel, 1575), mais conhecido como Beit Yossef, explica que esta é a maior forma de caridade pois é feita de forma que não envergonha aquele que recebe a ajuda. Quando oferecemos ajuda a alguém que está caindo, ele não sente que está recebendo uma esmola. A natureza humana nos faz querer ganhar o nosso próprio sustento, e quando somos obrigados a receber algo pelo qual não nos esforçamos, perdemos nosso senso de dignidade. Por isso é tão louvável ajudar o próximo de maneira que ele não se sinta envergonhado nem humilhado pela situação difícil pela qual está passando. Portanto, a melhor forma de ajudar alguém é fazer com sabedoria, de maneira que a pessoa não sinta que está sendo ajudada, ao contrário, que ela sinta que é ela quem está contribuindo de alguma maneira. É mais importante dar um trabalho do que apenas dar dinheiro a um pobre, pois o trabalho dá a ele a certeza de que ainda pode produzir, que ainda tem muito valor, enquanto o dinheiro é apenas uma esmola.

Há um ensinamento interessante no Talmud (Pessachim 8a), que afirma que uma pessoa que diz "estou dando esta Tzedaká para que meu filho viva" é chamada de "Tzadik Gamur" (um justo completo). O Talmud está falando sobre o caso de um pai cujo filho está gravemente doente e ele quer, através do mérito da Mitzvá de Tzedaká, que o filho possa se recuperar. Mas por que o Talmud louva esta pessoa ao ponto de chamá-la de "Tzadik Gamur", título atribuído a poucas pessoas, se ele cumpriu a Mitzvá de Tzedaká por motivos tão egoístas? O mais elevado é aquele que cumpre as Mitzvót apenas por D'us ter nos ordenado, e não aquele que as cumpre para receber algo em troca, como afirmam nossos sábios: "Não sejam como escravos que servem o seu dono para receber uma recompensa" (Pirkei Avót 1:3). Entendemos o desespero de um pai ao ver seu filho doente, e sabemos que um pai faria qualquer coisa para salvar a vida de seu filho, mas por que chamá-lo de Tzadik Gamur?

Responde o Rav Yehonasan Gefen que existem várias explicações para este ensinamento do Talmud. Mas há uma explicação "não convencional" que se conecta com os ensinamentos da nossa Parashá. Ele explica que o caso trazido pelo Talmud refere-se a uma pessoa que está dando Tzedaká e quer ter certeza de que aquele que recebe não vai sentir nenhum tipo de vergonha ou constrangimento. Por isto o doador fala para o pobre: "Estou dando esta Tzedaká para que meu filho viva", isto é, "Não sou eu quem está te ajudando, é você que está me fazendo um grande favor. É pelo mérito desta Mitzvá que você está me possibilitando cumprir que meu filho será curado". E o Talmud quer enfatizar que aquele que chega ao nível de fazer de tudo para não causar nenhuma vergonha ou constrangimento no momento de dar Tzedaká para uma pessoa necessitada é considerado um Tzadik Gamur. Preocupar-se em ajudar o próximo já é um ato bonito, mas preocupar-se além de tudo que o necessitado não se sinta humilhado é ainda mais importante e louvável.

Se pararmos para refletir, chegaremos à conclusão do quanto estamos longe desta forma ideal de ajudar o próximo. Normalmente ajudamos somente àqueles que já estão nas ruas, pedindo esmola para comprar o próximo pãozinho. Porém, muitas vezes perdemos a oportunidade de ajudar pessoas, às vezes até próximas, que estão caindo e perdendo tudo, mas que se envergonham de pedir ajuda. Temos que desenvolver nossa sensibilidade para perceber os sinais e escutar o grito silencioso das pessoas que estão caindo. Pois a pessoa que ainda está caindo se levanta com apenas um pouco de ajuda, mas para reerguer alguém que já caiu é muito mais difícil.

Na prática, fica o ensinamento de sempre pensar no necessitado quando vamos ajudá-lo. Não apenas dar um dinheiro para a uma pessoa necessitada, mas fazê-lo com um sorriso, com uma mensagem de esperança, se esforçando para dar o que a pessoa realmente necessita. Certamente isto fará com que a doação seja recebida com muito mais alegria, tanto aqui embaixo quanto lá em cima.
"Não dê um peixe ao pobre. Dê-lhe uma vara e ensine-o a pescar" (Ditado popular).
Shabat Shalom!
Lv 25:1-26:2, Je 32:6-27
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sexta-feira, 3 de maio de 2013

O BENEFÍCIO DAS MITZVÓT - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5773


"Rafael (nome fictício) era um jovem estudante de Torá. Ele estava certa vez atravessando uma movimentada rua de Tel Aviv quando foi atingido por um carro que trafegava em alta velocidade. Apesar do motorista ter tentado brecar, o impacto foi forte e Rafael teve suas pernas duramente atingidas. Ele ficou estendido no meio da rua, esperando pelo socorro médico, sentindo terríveis dores. Um policial que passava por ali correu para dar os primeiros socorros e perguntou ao rapaz:

- A ambulância já está a caminho. Há algo mais que eu posso fazer para ajudá-lo?

- Sim – respondeu Rafael, se esforçando para dar um sorriso – Por favor, comece a cumprir o Shabat.

Um casal não religioso que passava por ali naquele momento e havia se juntado à grande multidão que se aglomerava em volta do rapaz acidentado ficou admirado com a resposta dele. Apesar da dor que estava sentindo, apesar de todo o sofrimento, a primeira coisa com que ele se preocupou foi a espiritualidade do policial que havia chegado para socorrê-lo.

Emocionado com a atitude do rapaz, aquele casal decidiu acompanhá-lo até o hospital, para garantir que ele seria bem atendido e teria todo o cuidado médico necessário. Eles visitaram Rafael todos os dias durante a sua internação e se alegraram muito quando ele se recuperou completamente do acidente. Daquele dia em diante eles mudaram suas vidas e começaram a se conectar mais com a Torá e suas Mitzvót. Quando as pessoas perguntavam o motivo da mudança repentina, eles explicavam:

- Agora nós entendemos o verdadeiro significado do estudo da Torá e do cumprimento das Mitzvót. Uma pessoa que vai para a Yeshivá (Centro de estudos de Torá) se transforma, de um animal que caminha sobre duas pernas, em um ser humano de verdade, que mesmo diante de grandes sofrimentos e dificuldades, consegue se preocupar com as outras pessoas e com o seu Criador" (História Real)


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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar e Bechukotai. A Parashá Behar fala de duas Mitzvót muito importantes: a Shmitá (Ano Sabático, que se repete a cada 7 anos, no qual todas as terras de Israel passam por um descanso, não sendo permitido nenhum tipo de trabalho agrícola) e o Yovel (Jubileu, que se repete a cada 50 anos, quando as terras em Israel voltavam aos seus antigos donos). Na Parashá Bechukotai a Torá enumera uma série de Brachót (Bençãos) guardadas ao povo judeu caso ele siga os caminhos de D'us e cumpra as Mitzvót, mas também descreve as terríveis maldições que recaem sobre o povo judeu caso a Torá e as Mitzvót sejam abandonadas.

Se observarmos as Brachót escritas na Parashá Bechukotai, perceberemos que elas estão escritas em uma aparente ordem crescente de conexão com D'us. Ele nos promete prosperidade, paz, segurança e que Sua presença repousará entre nós, isto é, no Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Mas depois disso são enumeradas outras Brachót que necessitam de uma explicação mais profunda. Por exemplo, está escrito "Meu Espírito não rejeitará vocês... e Eu conduzirei vocês de cabeça erguida" (Vayikrá 26:11,13). Em primeiro lugar, se estamos falando das Brachót que virão caso estejamos conectados com a Torá e as Mitzvót, por que D'us tem que nos dar uma Brachá na qual Ele garante que não nos rejeitará? Se Ele já garantiu que quando cumprirmos nossa parte Sua presença repousará entre nós, não é óbvio que Ele não nos rejeitará? E por que esta Brachá é tão elevada, a ponto de estar acima da Brachá da Presença Divina repousar entre nós?

Além disso, há uma dificuldade na Brachá "Eu conduzirei vocês de cabeça erguida". O Talmud (Brachót 43b) nos ensina que é proibido uma pessoa andar de cabeça erguida, pois isto demonstra arrogância, e é considerado pelo Talmud como "derrubar os pés da Presença Divina". Mas o próprio Talmud (Baba Batra 75a), quando comenta esta Brachá, explica que "andaremos na mesma altura e estatura do Beit Hamikdash". Como entender esta aparente contradição entre a proibição de andarmos de maneira que demonstra arrogância e a Brachá de que andaremos de cabeça erguida? E qual a conexão desta Brachá com o Beit Hamikdash?

De acordo com o Targum Yonatan, o versículo "Lo Tigal Nafshi Etchem", traduzido como "Meu Espírito não rejeitará vocês", também pode ser entendido de outra maneira. A Brachá não é que D'us não nos rejeitará, e sim que nós não rejeitaremos os mandamentos de D'us, isto é, a Sua Torá. Mas mesmo com este entendimento, a dificuldade continua. Não é óbvio que, no momento que estivermos cumprindo a vontade de D'us, não rejeitaremos Suas Mitzvót? E por que isto seria considerado um dos níveis mais altos de Brachá que podemos conseguir?

Explica o Rav Yohanan Zweig que uma das principais diferenças entre o ser humano e o resto do Universo, incluindo os seres espirituais, é que o ser humano tem livre arbítrio, enquanto as outras criaturas não. Mas o que significa ter livre arbítrio? Muitas vezes pensamos que o livre arbítrio é o direito de escolher entre o certo e o errado. Porém, isto não é verdade. Livre arbítrio é a possibilidade, mas não o direito, de desrespeitar os mandamentos de D'us. É por isso que, no final de nossas vidas, prestaremos contas dos nossos atos e sofreremos as consequências das nossas escolhas erradas, pois temos a possibilidade, e não o direito, de errar.

Porém, este entendimento pode criar no ser humano um sentimento de que as coisas são impostas sobre ele. E a consequência natural deste sentimento é que, mesmo quando a pessoa cumpre suas obrigações, fica uma sensação interna de resistência, uma vontade de tirar o peso das costas. É por isto que, em alguns casos, pessoas comprometidas como a Torá podem, após alguma dificuldade específica, se afastar completamente do caminho correto. Mas será que assim devemos viver e, mesmo quando fazemos o que é o correto, ficar com uma sensação ruim, que nos incomoda? É isto o que D'us quer de nós?

Obviamente que a resposta é não. D'us não nos deu as Mitzvót para nos prejudicar, para que sejam um peso nas nossas costas e nos causem um sentimento negativo. Temos obrigações na vida, temos um objetivo, mas as Mitzvót são mais do que apenas obrigações, são benefícios que D'us nos deu. E quando chegamos neste nível de entendimento, as Mitzvót deixam de ser algo pesado. Por exemplo, foi isto o que ocorreu quando o povo judeu recebeu a Torá no Monte Sinai e todos juntos proclamaram em uma só voz: "Cumpriremos e entenderemos". O que significou esta afirmação? Que naquele momento o povo judeu havia transcendido todos os sentimentos de imposição e resistência. O que eles estavam reconhecendo no Monte Sinai é que, através do cumprimento das Mitzvót, eles perceberiam os benefícios que elas trariam para suas vidas. O povo judeu havia entendido que, mais do que uma obrigação, as Mitzvót são uma grande oportunidade para atingirmos a perfeição.

A Torá nos possibilita entender nosso potencial e definir quem nós verdadeiramente somos. Portanto, aceitar a Torá não é uma imposição, e sim, o benefício máximo concedido por D'us para toda a humanidade. E esta é a maior forma de conexão com D'us, quando conseguimos superar qualquer sentido de resistência e imposição. A Brachá de que não rejeitaremos as Mitzvót significa que, se cumprirmos nossas obrigações, atingiremos este nível de superar qualquer resistência natural ao cumprimento delas. Esta Brachá foi deixada como uma das últimas, pois retrata um dos níveis mais elevados de conexão com D'us que podemos atingir.

Mas nos falta ainda entender a contradição entre a Brachá de andar de cabeça erguida com a terrível transgressão do orgulho. Para isso, precisamos nos aprofundar no entendimento do erro de sentir orgulho. Por que andar de cabeça erguida é algo tão negativo, comparado com "derrubar os pés da Presença Divina"? Pois o orgulho é o resultado da resistência que temos em aceitar a Torá de D'us. A arrogância do ser humano vem da necessidade de brigar pelos nossos próprios direitos, ao invés de entender quais são as nossas obrigações. Mas quando a pessoa chega ao nível de um relacionamento no qual não há nenhum tipo de resistência, ela se torna um utensílio que reflete a grandeza de D'us, e andar de cabeça erguida deixa de ser uma "rebeldia" e torna-se uma santificação do Seu Nome. É por isso que o Talmud afirma que "andaremos na mesma altura e estatura do Beit Hamikdash", pois da mesma maneira que o Beit Hamikdash reflete a honra de D'us, nós também podemos fazer com que nosso relacionamento com D'us possa refletir ao mundo inteiro a Sua honra.

Muitas pessoas ainda tem medo de se aproximar da Torá e das Mitzvót. É o receio de perder uma vida de prazeres e entrar em um estilo de vida de abstinência. Mas cada vez mais este conceito equivocado vem sendo derrubado. Quando temos contato com pessoas que vivem uma vida de Torá e Mitzvót, nos salta aos olhos a harmonia, os valores verdadeiros e a santidade da família. Prazeres materiais são passageiros, duram pouco tempo. Mas o prazer de saber que estamos fazendo o que é correto dura uma vida inteira.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Lv 25:1-26:2, Je 32:6-27, Lc. 4:16-21
Lv 26:3-27:34, Je 16:19-17:14, 2 Co. 6: 14-18
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sábado, 19 de maio de 2012

OLHE SEMPRE PARA CIMA – PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5772

"O Rav Mendel foi enviado para a Sibéria, onde permaneceu um longo tempo preso. Foram anos muito difíceis, mas lá ele aprendeu uma importante lição, que levou para toda a vida.
Seu companheiro de cela era um senhor cuja profissão era caminhar na corda bamba. Sua especialidade era esticar uma corda entre dois edifícios altos e atravessá-la, diante do olhar maravilhado e ansioso dos espectadores. Quando conseguia chegar ao outro lado, era ovacionado pelo público. O Rav Mendel quis entender como ele conseguia realizar tal proeza e perguntou:
- Eu sempre tive uma grande curiosidade. Quando você está lá no alto, suspenso no ar, sem nenhum lugar para se apoiar, como você faz para manter o equilíbrio?
O equilibrista abriu um sorriso, como uma criança que revela seu segredo, e disse:
- É muito simples. Antes de começar a travessia, procuro do outro lado algum objeto e me concentro nele. Não ouso tirar meus olhos daquele objeto enquanto estou caminhando. Não olho nem para a direita e nem para a esquerda. Somente assim, concentrado no meu objetivo e sem tirar os olhos do objeto, é possível atravessar utilizando uma corda bamba"
Este é um grande ensinamento para nosso cotidiano. Nossa vida é como uma corda bamba, pois se não tomamos cuidado, podemos cair a qualquer momento. O segredo é focar em D'us, colocando toda nossa confiança Nele, para conseguirmos assim vencer os desafios e dificuldades da vida.
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar e Bechukotai, que ensinam Mitzvót muito importantes. Por exemplo, a Parashá Behar começa com a Mitzvá de Shmitá, o Ano Sabático. Após seis anos de trabalho, os donos de terras em Israel não podem trabalhar em seus campos durante todo o sétimo ano, e devem deixá-los abertos a qualquer um que queira usufruir de seus frutos. Por um lado é uma Mitzvá muito difícil de ser cumprida, mas por outro lado é uma grande oportunidade espiritual, pois todos os que a cumprem da maneira correta conseguem enraizar no coração um dos fundamentos mais importantes do judaísmo: a Bitachon (confiança em D'us), a certeza de que D'us tem controle sobre tudo e cuida, de cada um de nós, com Hashgachá Pratid (Supervisão particular).
Quando um engenheiro constrói um prédio, precisa construir um sistema de distribuição de água, para que todos os moradores recebam, em seus apartamentos, água corrente para os mais diversos usos. As instalações de água são compostas por uma enorme caixa d'água localizada na cobertura, uma extensa rede de tubulações descendo pelo edifício e torneiras localizadas dentro dos apartamentos. Este sistema, se não for bem projetado e executado, pode trazer enormes dores de cabeça para os moradores. Por exemplo, o que aconteceria se o engenheiro, por desleixo, deixasse de fazer as tubulações? Mesmo se a caixa d'água estivesse cheia, os moradores não conseguiriam utilizar a água, mesmo abrindo as torneiras.
A Bitachón tem alguns pontos em comum com a tubulação de água de um edifício. Por exemplo, da mesma forma que a tubulação é o que faz a ligação entre a caixa d'água e as torneiras, assim também a Bitachón é a força que traz para o nosso mundo as Brachót criadas por D'us nos Mundos espirituais. Da mesma forma que não adianta abrir a torneira se não houver uma tubulação ligada até a caixa d'água, também não é possível receber Brachót sem que a pessoa desenvolva sua Bitachón.
Mas não é suficiente apenas fazer uma tubulação de qualquer jeito, sem o dimensionamento correto. Ela precisa ser larga, pois quanto mais largo for o tubo, maior a vazão de água que pode passar nele. Assim também é a Bitachón, a cada nível maior que chegamos, mais Brachót conseguimos trazer para este mundo.
E mais um ponto em comum interessante é que a tubulação de água precisa ser íntegra, isto é, sem furos ou rachaduras, pois nestes furos e rachaduras a água vaza e não chega às torneiras. Assim também a nossa Bitachón deve ser completa, devemos tirar do nosso coração qualquer dúvida ou insegurança, pois as dúvidas e inseguranças são sinais de que a nossa Bitachón ainda não é tão completa quanto deveria ser.
Mas como saber se estamos crescendo em Bitachón? Como saber, na prática, se a nossa Bitachón é completa ou se ainda temos "furos na nossa tubulação"? O livro "Chovot Halevavot" (Deveres do coração) ensina que há um indicador do nível de Bitachón: a tranquilidade da pessoa, mesmo diante dos testes e das dificuldades. A pessoa com elevado nível de Bitachón não se desespera diante de uma dificuldade ou sofrimento, ao contrário, fica tranquila e em silêncio, sem reclamações ou cobranças, pois sabe que tem em quem se apoiar, sabe que pode contar com o Criador, que controla todo o universo e nos criou apenas por bondade.
Porém, será que podemos aplicar este conceito à Mitzvá de Shmitá? Pois assim está escrito: "E se vocês disserem: O que vamos comer no sétimo ano, já que não vamos semear nem recolher nossas colheitas? Eu ordenarei Minha benção no sexto ano e farei com que tenham uma colheita para os três anos" (Vayikra 25:20,21). O que aprendemos destes versículos? Que as pessoas que questionarem D'us no ano de Shmitá, dizendo "O que comerei", receberão no sexto ano uma produção tripla, suficiente para os três próximos anos, até que a pessoa possa voltar a produzir e a colher suas frutas. Já as pessoas que não questionarem D'us, de acordo com os versículos, não receberão nada a mais de produção no sexto ano.
Estes versículos, portanto, despertam grandes questionamentos. Como se sustentam as pessoas que não questionam D'us, no ano de Shmitá e no ano seguinte? E como entender os ensinamentos sobre Bitachón se o que os versículos sugerem é justamente o oposto do foi ensinado, pois o correto seria a pessoa ficar tranqüila e quieta, com a certeza de que D'us cuidaria de suas necessidades, e qualquer questionamento seria um sinal de falta de Bitachón. Então por que a Torá diz que justamente uma produção tripla viria para aqueles que questionassem D'us, enquanto aqueles que não questionassem receberiam a mesma quantidade de produção? Isto não é completamente contraditório?
Explica o Sforno, comentarista da Torá, que havia duas maneiras da pessoa ter seu sustento garantido durante o ano de Shmitá e o ano seguinte. Uma maneira era a Brachá de D'us que fazia com que a produção no sexto ano fosse tripla. Mas esta Brachá vinha junto com grande dificuldade e esforço, pois no sexto ano a pessoa precisava trabalhar de maneira exaustiva, três vezes mais do que nos outros anos. Porém, havia outra maneira da pessoa ter seu sustento. Para as pessoas que não questionavam, D'us mandava Suas Brachót de maneira oculta, isto é, a pessoa trabalhava e colhia no sexto ano exatamente a mesma quantidade de comida, mas as coisas milagrosamente duravam 3 anos, pois a pessoa se saciava com muito menos.
Portanto, há uma grande diferença entre aquele que se cala e confia em D'us e aquele que reclama. Aquele que tem Bitachón recebe a verdadeira Brachá, de se saciar com o que já tem, sem nenhum esforço extra. Já aquele que reclama recebe, junto com o sustento, o triplo de trabalho e esforço. A reclamação demonstra falta de Bitachón e, por isso, mesmo que a pessoa receba seu sustento, recebe com um nível de Brachá muito menor.
Explica o livro "Lekach Tov" algo ainda mais profundo. Na realidade, a pessoa que reclama com D'us destrói sua tubulação espiritual, não merecendo mais receber, por seus méritos, as Brachót que estavam guardadas para ela no Céu. Então por que acontecia o milagre da produção tripla? Por causa de uma regra espiritual que "quando uma pessoa se ocupa de uma Mitzvá, nenhum mal pode atingi-la". Isto é, como a pessoa está cumprindo a Mitzvá de Shmitá, a Mitzvá a protege de passar fome e por isso a comida vêm, mas junto com um enorme esforço. A verdadeira Brachá, que traria toda a comida necessária sem nenhum esforço a mais, ela não merece, por ter destruído sua Bitachón.
E assim disse o profeta Irmiahu: "Bendito é o homem que confia em D'us" (Irmiahu 17:7). Quando a pessoa confia em D'us, ela torna-se uma pessoa bendita, isto é, merita todas as Brachót do Céu. E como ela demonstra que confia em D'us? Mantendo-se tranquilo e confiante mesmo diante das dificuldades, sabendo que não há nenhuma necessidade de se preocupar.
Este é um grande ensinamento para nossas vidas. Nossa falta de Bitachón nos faz sofrer por antecipação. Imaginamos que coisas terríveis vão acontecer e, na maioria das vezes, nossas previsões negativas não se cumprem. Perdemos a esperança, desistimos fácil demais. Portanto, aquele que tem Bitachón vive mais tranquilo, mais feliz, e garante que todas as Brachót guardadas para ele no Céu chegarão, mais cedo ou mais tarde, para beneficiá-lo.
"Obstáculos são aquelas coisas assustadoras que você vê quando tira os olhos da sua meta"

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Behár Lv 25:1-26:2, Lc. 4:16-21
Bechukotai Lv 26:3-27:34, Jr 16:19-17:14, Mt.22: 1-14