Mostrando postagens com marcador Kedoshim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kedoshim. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de maio de 2017

GARANTINDO UM BOM LUGAR - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5777

"A filha do homem mais rico daquela pequena cidade ficou noiva. Todos os moradores da cidade se alegraram muito, em especial pois sabiam que a festa de casamento seria grandiosa e inesquecível. Uma das pessoas mais ricas e importantes da cidade era Joseph, o banqueiro. O dono da festa, querendo demonstrar seu apreço por Joseph, enviou um funcionário, muito bem vestido, para convidá-lo pessoalmente. No dia da festa, Joseph chegou ao salão vestindo seu terno mais elegante. Quando o dono da festa soube da chegada de Joseph, foi pessoalmente recebê-lo na porta, dando-lhe muitas honrarias. Após agradecer imensamente a sua presença, o dono da festa levou-o para se sentar em uma mesa especial, em um lugar de honra reservado apenas para as pessoas mais importantes da cidade.

Mas esta não foi a sorte de Levi, um dos pobres da cidade que pedia esmolas de porta em porta. Quando ele soube da festa, se animou muito, apesar de nem mesmo ter sido pessoalmente convidado. Ele sabia que o dono da festa era um homem generoso e que mesmo os pobres eram bem-vindos em suas festas. Quando Levi chegou ao salão, vestindo suas roupas velhas e rasgadas, não foi recebido por ninguém. Não foi chamado para se sentar nem mesmo nas mesas onde ficavam os convidados mais simples. Levi ficou de pé, em um canto do salão, junto com os outros pobres da cidade, avançando sobre todos os restos de comida que os garçons levavam de volta para a cozinha".

Explicam os nossos sábios que esta será a diferença no Mundo Vindouro entre os que chegarem "ricos", isto é, cheios de méritos espirituais, e os que chegarem "pobres", isto é desprovidos de méritos espirituais. E devemos lembrar que enquanto a diferença entre ricos e pobres neste mundo material é por apenas alguns anos, a diferença no Mundo Vindouro será por toda a eternidade.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót (literalmente "Depois da morte") e Kedoshim (literalmente "Sagrados"). A Parashá Acharei Mót descreve os serviços realizados pelos Cohanim no dia mais sagrado do ano, Yom Kipur, e traz a lista de muitos tipos de relacionamentos íntimos proibidos pela Torá. Já a Parashá Kedoshim traz uma série de Mitzvót, em especial "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante), tais como ajudar os pobres, ser honesto nos negócios, não adulterar pesos e medidas e amar o próximo.

A Parashá Acharei Mót começa nos recordando sobre a trágica morte dos filhos de Aharon, que ocorreu justamente no dia da inauguração do Mishkan (Templo Móvel), por eles terem oferecido um incenso que D'us não havia ordenado. Quando estamos diante da morte, normalmente paramos para refletir. Será que estamos aproveitando bem a vida? Será que nossos esforços estão sendo bem aplicados? O que acontecerá conosco depois da nossa morte?

O judaísmo nos tranquiliza ao ensinar que a vida não termina com a morte, ao contrário, a morte é o início da nossa vida verdadeira, a vida espiritual eterna. Porém, há uma aparente contradição entre as fontes que falam sobre a nossa vida eterna. Um Tratado do Talmud (Sanhedrin 90a) afirma que "Todo judeu tem uma porção no Mundo Vindouro", nos ensinando que todos nós já temos a vida eterna garantida. Porém, outro Tratado do Talmud (Nidá 73a) afirma que "Todo aquele que estuda Halachót (neste caso referindo-se às partes de transmissão oral da Torá) todos os dias, é garantido que ele será um "morador" do Mundo Vindouro", nos ensinando que aquele que quer ter parte no Mundo Vindouro deve diariamente estudar Torá. Como entender esta contradição entre as duas citações do Talmud? Afinal, todos nós já temos automaticamente o Mundo Vindouro garantido ou é necessário estudar Torá todos os dias para garantir nossa porção no Mundo Vindouro?

A resposta está em um versículo da Parashá Acharei Mót: "E cuidem das Minhas leis e juízos, que o ser humano cumprirá e viverá com elas" (Vayikrá 18:5). Unkelos (Roma, 35 - Israel, 120), um grande sábio que foi responsável pela tradução de toda a Torá para o aramaico, traduz a expressão "Vechai Bahem" (E viverá com elas) como "Veiechei Behon Bechaiei Alma", que significa "E viverá com elas a vida eterna". Mas o que Unkelos nos ensina ao acrescentar palavras, explicando que o versículo não se trata da vida neste mundo, e sim no Mundo Vindouro?

Explica o Rav Israel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, que todas as criaturas, desde as mais baixas que vivem na Terra, como o ser humano e as outras criaturas abaixo dele, até as criaturas que vivem nos Céus, chamadas de "exército celestial", que inclui até as criaturas espirituais mais elevadas, todos necessitam do "sustento" de D'us, como está escrito: "Você fez os Céus, e os Céus dos Céus e todos os seus exércitos. A terra e tudo o que está contido nela, os mares e tudo o que está contido neles. E Você sustenta a todos eles" (Nechemia 9:6). Isto quer dizer quer todas as criaturas, sem distinção, necessitam do "sustento" de D'us para se manterem. A diferença está no tipo de "alimento" que cada criatura necessita. Enquanto as criaturas que vivem na Terra dependem de alimentos materiais para se manterem vivas, as criaturas que vivem nos Céus dependem de um alimento espiritual refinado, como está escrito: "O ser humano comeu o pão dos poderosos" (Tehilim 28:25). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que "pão dos poderosos" trata-se do alimento dos anjos.

Portanto, desta explicação do Chafetz Chaim aprendemos que a nossa Neshamá (alma), que é completamente espiritual, também precisa de um alimento para o momento em que ela se desconectar do nosso corpo. Os alimentos do mundo materiais não podem alimentar a nossa Neshamá, pois ela é espiritual e eterna e, portanto, necessita de um alimento espiritual para se saciar. Por isso D'us nos deu a Torá, que também é eterna, e através do seu cumprimento podemos despertar a Luz de D'us sobre nossa Neshamá. Esta Luz nos traz um imenso prazer espiritual, como explica o Talmud (Brachót 17a): "No Mundo Vindouro não haverá comida nem bebida... ao invés disso, os Tzadikim se sentarão, com suas coroas sobre suas cabeças, e terão prazer do brilho da Presença Divina". Este prazer é muito maior do que qualquer prazer limitado do mundo material e é isto o que alimentará nossa Neshamá por toda a eternidade.

É isto que dizemos quando pronunciamos a Brachá justamente depois da leitura da Torá em público: "E a vida eterna Você plantou dentro de nós". D'us plantou dentro do povo judeu algo que poderemos "colher" no Mundo Vindouro e viver para sempre. Esta força vital espiritual não trará apenas vitalidade eterna para a Neshamá, mas também para o corpo, como afirma o Talmud (Ketubot 111a) que a Luz da Torá também dará vida eterna ao nosso corpo no Mundo Vindouro. Porém, infelizmente este não será o destino dos ateus e daqueles que dedicarem suas vidas às idolatrias, pois não estão "plantando" nada neste mundo e não terão o "sustento" necessário para a vida eterna. Por isso, enquanto suas almas estiverem conectadas aos seus corpos, a pessoa será alimentada pelo alimento do corpo. Porém, no momento em que a alma se desconectar do corpo, não terá mais nenhum tipo de "alimento" para manter sua vitalidade e, portanto, deixará de existir.

Esta é a explicação das palavras do versículo da nossa Parashá: "E cuidem das Minhas leis e juízos, que o ser humano cumprirá e viverá com elas". Somente o cumprimento das Mitzvót da Torá poderá garantir a nossa vida verdadeira, a vida eterna no Mundo Vindouro. E isto explica as lindas palavras que pronunciamos diariamente em Arvit (Tefilá da noite), imediatamente antes da leitura do Shemá Israel: "Um amor eterno pelo povo judeu, Teu povo, Você amou. Torá e Mitzvót, leis e juízos, Você nos ensinou... Pois esta é a nossa vida e a longevidade dos nossos dias". Como o amor de D'us é um amor eterno, então Ele nos deu a Torá, para que sua Luz possa nos dar vitalidade para sempre. Pois a vida eterna é a vida verdadeira, e com a Torá nossa vida limitada e finita no mundo material se alonga e se transforma em vida eterna.

Da mesma forma que o pão é o alimento para o corpo, a Torá é o alimento para a nossa Neshamá, como ensina Shlomo HaMelech: "Venha, coma do Meu pão e beba do vinho que Eu misturei" (Mishlei 9:5). "Pão" é uma alusão às Halachót (Leis) que estão na Torá, enquanto "vinho" é uma alusão aos segredos que estão ocultos dentro da Torá, como o vinho que está escondido dentro das uvas. Da mesma forma que a pessoa coloca todos os seus esforços para conseguir seu sustento, com o objetivo de conseguir dinheiro para ao menos comprar pão para manter seu corpo, para que não se enfraqueça e não se encurtem seus dias, muito maior deve ser seu esforço para preparar o alimento de sua Neshamá, através do cumprimento da Torá e das Mitzvót, para que quando termine seu tempo de vida neste mundo sua Neshamá não deixe de existir.

É muito grande o mérito do estudo de Torá, como ensinam os nossos sábios (Mishná Peá 1:1): "Estas são as coisas que a pessoa já come os frutos neste mundo, mas o "fundo" fica guardado para ela para o Mundo Vindouro: Honrar os pais, Fazer Chessed (bondade), Trazer a paz entre a pessoa e seu companheiro; e o Estudo da Torá é equivalente a todos eles juntos". Apesar de a lista conter Mitzvót importantes, vemos o incrível valor do estudo da Torá. Um dos principais motivos desta afirmação é trazida pelo Rav Eliahu (Lituânia, 1720 - 1797), mais conhecido como Gaon MiVilna. Quantas vezes podemos fazer Chessed ou fazer paz entre duas pessoas que brigaram? Poucas vezes por dia. Mas o estudo da Torá é algo que pode nos trazer méritos incríveis, pois cada palavra e palavra é uma Mitzvá por si só. Por isso, através do estudo da Torá podemos aumentar os nossos méritos de forma quase infinita.

Mas precisamos saber que o principal objetivo do estudo da Torá deve ser o estudo que leve aos atos. Através do estudo das Halachót a pessoa garante a sua vida eterna. Como na história do rico e do pobre na festa, apesar de todos terem uma porção garantida no Mundo Vindouro, aqueles que estudam Halachót todos os dias e, portanto, cumprem as Mitzvót da maneira correta, está garantido que estarão no Olam Habá como convidados de honra. O mesmo não ocorre com aqueles que não estudam Halachót e, portanto, não cumprem as Mitzvót da maneira correta. Elas também estarão no Mundo Vindouro, mas como pobres, envergonhados no canto do salão de festas, comendo apenas os "restos". Portanto, apesar de estar garantido que teremos uma parte no Mundo Vindouro, vale a pena se esforçar nesta vida para que possamos ter uma boa porção guardada para nós.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Acharêi MôtLv 16:1-18:30, Am 9:7-15
K’doshímLv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.), Ez 20:2-20 (Sef.)

sábado, 14 de maio de 2016

ESFRIANDO OS ÂNIMOS - PARASHAT KEDOSHIM 5776

"Nachum e Chani eram dois jovens judeus que haviam chegado à idade de se casar. Eles foram apresentados um ao outro por um "Shadchan" (profissional que apresenta pessoas com o propósito de casamento) e, após alguns encontros, perceberam que tinham muito em comum. Os encontros estavam indo tão bem que chegaram a pensar em ficarem noivos.

Porém, antes do noivado se concretizar, o Shadchan recebeu uma grande soma de dinheiro para procurar um bom rapaz para uma garota americana que estava estudando em Israel. Pensando em todos os rapazes que conhecia, o Shadchan chegou à conclusão de que Nachum seria perfeito para aquela menina americana. Completamente cego pelo dinheiro, ele bolou um plano perverso para terminar o relacionamento de Nachum e Chani. Em primeiro lugar, ele contatou os pais de Nachum e disse a eles: "Ouçam, estou feliz com este belo Shiduch do Nachum com a Chani, mas eu gostaria de dizer algo a vocês, para que não surjam queixas contra mim após o casamento: os pais da Chani estão espalhando maus rumores sobre vocês". Os pais de Nachum ficaram arrasados com aquela notícia, e imediatamente decidiram interromper o Shiduch.

Não querendo correr riscos, o Shadchan ainda foi falar com os pais de Chani: "Escutem bem, eu não quero que vocês tenham problemas depois do casamento. Eu sei que parece um belo Shiduch da Chani com o Nachum e que tudo está indo bem, mas quero que vocês saibam que a família de Nachum está espalhando rumores desagradáveis ​​sobre vocês". Ao escutar isso, os pais de Chani também prontamente decidiram interromper o Shiduch. Nachum, que agora estava livre para conhecer outras moças, foi apresentado à garota americana, mas o Shiduch acabou não dando certo.

Três meses depois, Nechemia, o pai de Nachum, pensando sobre todo o incidente, não conseguia entender por que Efraim, o pai de Chani, teria espalhado rumores sobre eles. Ele o conhecia desde os tempos em que ainda eram jovens estudantes da Yeshivá e sabia que Efraim não era este tipo de pessoa. Ele decidiu conversar com Efraim pessoalmente para esclarecer a história.

- Por que você fez isso, de espalhar maus rumores sobre nós? - perguntou Efraim, muito chateado - Nós te fizemos algo?

- Eu? - perguntou confuso Efraim - Fomos informados de que vocês fizeram isso, Nechemia! Estávamos muito chateados, pois escutamos que vocês estavam espalhando maus rumores sobre nossa família!

Após alguns instantes de confusão, Efraim e Nechemia entenderam que tudo havia sido um plano do Shadchan que, por ganância, havia causado toda aquela confusão. Chamaram os filhos, conversaram com eles e, naquela mesma noite, um prato foi quebrado e o noivado de dois jovens que não cabiam em si de tanta alegria foi realizado".

Quantos aborrecimentos e sofrimentos poderiam ter sido evitados se, ao invés de guardarmos rancor no coração, tivéssemos a grandeza de julgar as pessoas para o bem e tentássemos esclarecer a situação antes de tomarmos decisões precipitadas? (História real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).
*********************************************** 
Nesta semana lemos a Parashat Kedoshim (que literalmente significa "Sagrados"), que está repleta de Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), nos ensinando que, para atingirmos um nível de santidade elevado, não é suficiente apenas nos preocuparmos com o nosso relacionamento "Bein Adam LaMakom" (entre o homem e D'us), também é fundamental sermos muito cuidadosos nos nossos relacionamentos interpessoais. E entre as Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" trazidas na Parashat, há uma que é extremamente importante para o nosso cotidiano: "Não odeie seu companheiro em seu coração; advirta seu companheiro e não carregue sobre ele a transgressão" (Vayikrá 19:17).

É importante lembrar que, quando a Torá utiliza a palavra "ódio", não se refere apenas a um nível de ódio venenoso e prejudicial, mas inclui também níveis muito menores de descontentamento com o próximo. Por isso, precisamos ser muito cuidadosos nos nossos relacionamentos e com os nossos sentimentos em relação às outras pessoas. Porém, este versículo desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, a Torá está ressaltando que é proibido odiar outra pessoa no coração, o que aparentemente nos ensina que o problema é apenas quando o ódio fica guardado no coração. Pode ser que o ódio expressado externamente não está proibido pela Torá? Isto parece estranho, em especial por sabermos que o sentimento de ódio gratuito é tão grave que causou a destruição espiritual do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Além disso, qual é a conexão entre as diferentes partes do versículo, que aparentemente não tem nenhuma relação entre si? E, finalmente, o que significam as palavras "e não carregue sobre ele a transgressão"?

De acordo com o Talmud (Erchin 17b), realmente a proibição descrita no versículo se refere apenas ao ódio que fica guardado no coração da pessoa e não inclui, por exemplo, o ódio expressado externamente. Obviamente que é proibido expressar o descontentamento com outra pessoa de uma maneira hostil, que causa sofrimentos, e caso a pessoa faça isso, pode transgredir uma série de outras graves transgressões, como "não se vingar" e "não guardar rancor". Porém, aquele que expressa seu rancor e seu descontentamento não transgride a Mitzvá de "Não odeie seu companheiro em seu coração", pois neste caso o ódio não ficou guardado no coração. De acordo com o Sefer HaChinuch (Mitzvá 238), apenas transgride esta Mitzvá aquele que, ao ser machucado por alguém, guarda o ódio dentro de si e não tenta expressar seus sentimentos para a pessoa que o machucou. Mas por que a Torá focou, nesta Mitzvá, apenas o ódio do coração?

Quando a pessoa machucada discute com o agressor e vai tirar satisfações, normalmente o ódio diminui. Porém, quando a pessoa não toma nenhuma atitude, ela faz com que o ódio cresça dentro dela, causando consequências ainda mais graves. Um exemplo disso é o incidente descrito no Tanach sobre os filhos de David HaMelech (Rei David), Amnon, Tamar e Avshalom. Amnon cometeu um erro gravíssimo com sua meia-irmã Tamar, causando em Avshalom, irmão de Tamar, um ódio enorme. Nossos sábios afirmam que se Avshalom tivesse ido falar com Amnon sobre o que aconteceu, seu ódio teria se dissipado. Mas, ao invés disso, Avshalom guardou o ódio em seu coração, causando com que este ódio fosse crescendo e se tornando doentio, até o ponto em que ele se levantou e, dois anos depois, assassinou Amnon. Apesar do ato de Amnon ter sido abominável e de Avshalom ter aparentemente o direito de estar furioso com o que aconteceu, no entanto o grande erro de Avshalom foi não ter ido falar com Amnon, e assim ter deixado o ódio crescer até chegar ao ponto de causar, além do assassinato, outras terríveis consequências futuras descritas no Tanach.

Foi por isso que nesta Mitzvá a Torá focou justamente no ódio guardado dentro do coração, pois é um ódio que tem um agravante não encontrado no ódio expressado externamente. Guardar no coração pode resultar em uma intensificação do ódio e pode trazer consequências ainda mais desastrosas, o que poderia ter sido evitado se tivesse sido colocado para fora. O Sefer HaChinuch explica que esta diferença faz com que o ódio no coração seja ainda pior do que o ódio expressado, pois causa um enorme mal entre as pessoas, além de conflitos permanentes entre irmãos e amigos.

Com este conceito podemos entender a continuação do versículo: "Advirta seu companheiro". Em um entendimento mais simples, estas palavras referem-se à Mitzvá de repreender o próximo quando o vemos cometendo alguma transgressão. Da mesma maneira que existe o crime de "omissão de socorro", quando alguém não faz nada para salvar uma pessoa que está em risco de vida, também existe a "omissão de socorro espiritual", quando alguém vê seu companheiro fazendo uma transgressão, isto é, manchando sua própria alma e colocando seu futuro espiritual em risco, e não faz nada para salvá-la. Porém, estas palavras do versículo também têm outro significado, e inclui uma situação na qual a pessoa foi ferida verbalmente por seu companheiro. Neste caso, a pessoa não deve guardar a mágoa para si, em seu coração, ao contrário, ela deve falar com quem a agrediu. "Advirta seu companheiro" significa que, ao invés de guardar no coração, coloque o que está incomodando para fora, de uma maneira educada e controlada, advertindo quem lhe agrediu.

De acordo com o Rav Chaim ben Atar zt"l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Or HaChaim, há dois possíveis resultados de expor para a pessoa que nos agrediu, de forma equilibrada, a dor que ela nos causou: a pessoa pode explicar o seu lado da situação, mostrando que, na realidade, tudo não passou de um grande mau entendido, ou ela pode admitir que se comportou de maneira inadequada e, agora que percebeu o dano que causou, pedirá desculpas e se comprometerá a não errar novamente. Isto explica as palavras finais do versículo: "Não carregue sobre ele a transgressão", isto é, mesmo que alguém te machuque, você não deve imediatamente assumir que a pessoa fez uma transgressão intencional. Ao contrário, não jogue sobre ela a culpa, julgue-a de maneira favorável e dê a ela uma chance de se explicar. Dê o benefício da dúvida a todas as pessoas, pois mesmo que alguém tenha errado, ao conversarmos com ela sobre o seu erro, ela poderá se arrepender de coração ao perceber os danos que causou.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que desta Mitzvá aprendemos o quanto é grave e condenável guardar ódio em nossos corações, e o quanto uma simples conversa pode ser importante para dissipar o ódio acumulado. A experiência demonstra que, quando seguimos as instruções da Torá nesta área, o resultado quase sempre é que a pessoa se explica ou pede desculpas pelos danos não intencionais causados. A grande maioria das pessoas não é ruim e não tem intenção de causar danos e machucar. Por isso, quando a pessoa que foi agredida com duras palavras explica ao agressor como ela está se sentindo mal, o resultado é quase sempre positivo, evitando uma desnecessária intensificação do ódio e acabando com futuras dores e sofrimentos.

Não é fácil abordar alguém que nos machucou, ainda mais de uma maneira calma e educada. Porém, o medo de que não dará certo não nos isenta da obrigação da Torá de tentarmos esclarecer a situação. Existe uma importante Mitzvá de julgar para o bem e nunca acreditar nas primeiras impressões. Esta Mitzvá pode nos salvar da transgressão de "Não odeie seu companheiro em seu coração" e suas terríveis consequências. Muito sofrimento e dor são causados por problemas que nem mesmo existem na realidade, e tudo poderia ser resolvido com uma conversa franca e aberta.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9

sábado, 2 de maio de 2015

CONTINUE ANDANDO - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5775

"Nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, os corredores estavam preparados para a largada da semifinal da prova de 400 metros rasos masculina. Entre eles estava um jovem inglês, Derek Redmond, um dos favoritos para a grande final. Quando foi dada a largada, os competidores começaram a disputa de forma acirrada, cada um no limite do seu esforço físico. Derek estava bem na corrida, e vinha com boas chances de classificação. Eram segundos decisivos na vida daqueles que haviam treinado e se preparado tanto, e estavam ali para fazer valer o esforço de uma vida de dedicação.
 Derek Redmond tinha um motivo a mais para querer a vitória. Quatro anos antes, nas Olimpíadas de Seul, ele havia passado por cinco operações em ambos os tendões. Após muito esforço, ele havia conseguido se recuperar e participar daquela olimpíada. Porém, no meio da corrida, seu tendão direito se rompeu. Derek foi ao chão, sentindo muita dor. Era o fim do sonho, e agora restavam apenas a tristeza e a dor. As câmeras não focalizaram Derek caído, e sim o campeão Steve Lewis, que havia completado a prova em 44s50.

Mas Derek Redmond não desistiu. Determinado a concluir a prova, ele se levantou com muita dificuldade e, saltando com apenas uma das pernas, retomou a corrida, obviamente sem a menor chance de classificação. Foi quando seu pai, Jim Redmond, de 49 anos de idade, desceu a arquibancada, escalou a cerca de proteção e saltou para a pista antes que qualquer fiscal pudesse impedi-lo. Ele alcançou seu filho, abraçou-o e ajudou-o a caminhar.

A multidão, de pé, começou a aplaudir ao perceber que Derek Redmond estava participando da corrida da sua vida. O jovem corredor apoiou sua cabeça no ombro direito do pai e juntos eles percorreram o que restava da pista até a linha de chegada, sob os aplausos de incentivo da multidão de mais de 60 mil espectadores. Derek não venceu a corrida, mas naquele dia ele saiu de lá como um grande vencedor".

Dificuldades e tropeços na vida sempre existirão. Mas não podemos parar, não podemos desistir. Temos que continuar sempre buscando o nosso crescimento, nos esforçando um pouco mais a cada dia. 
*********************************************** 

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót e Kedoshim. Enquanto a Parashá Acharei Mót descreve os serviços feitos pelo Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) em Yom Kipur, a Parashá Kedoshim traz várias Mitzvót "Bein Adam LeHaveiró" (entre o homem e seu semelhante), nos ensinando que, para chegarmos ao nível de sermos Kedoshim (pessoas sagradas), não podemos focar apenas no nosso relacionamento com D'us, também devemos ser muito cuidadosos no nossos relacionamento com o próximo.

Na Parashá Acharei Mót, no meio da descrição de algumas Mitzvót, a Torá nos traz um mandamento genérico: "E cumpram Minhas Leis, e guardem Meus Estatutos, para andar neles, Eu sou Hashem teu D'us" (Vayikrá 18:4). O que significa a expressão "andar" em relação às Mitzvót? E o que esta expressão acrescenta neste comando genérico de cumprir as Mitzvót da Torá?

Explica o Rav Avraham Shmuel Binyamin (Eslováquia, 1815 - 1872), mais conhecido como Ktav Sofer, que muitas vezes podemos aprender o verdadeiro significado de uma palavra estudando o seu oposto. Neste caso, o oposto de "andar" seria "ficar parado", que em hebraico é "omed". Em muitas situações o Tanach utiliza esta expressão em relação aos anjos, como em uma das visões do profeta Yeshayahu: "Os Serafim (tipo de anjo) estavam parados ("omdim") sobre ele" (Yeshaiahu 6:2). Mas qual é o sentido da Torá dizer que os anjos estavam "parados"? Segundo o Ktav Sofer, esta expressão é utilizada para ensinar que os anjos se mantêm estacionados em seu nível espiritual, isto é, eles não têm conexão com o conceito de "crescimento espiritual". Apesar de terem sido criados em um nível espiritual muito elevado, eles não crescem mais. Já a linguagem "andar" foi utilizada em relação ao ser humano, para ensinar sobre a sua possibilidade de crescer e melhorar continuamente seu nível espiritual através de seu esforço, evitando permanecer espiritualmente parado.

O mesmo conceito é utilizado pelo Ktav Sofer nas palavras iniciais da Parashá Bechukotai: "Se vocês andarem nos Meus Estatutos, e guardarem as Minhas Mitzvót, e as cumprirem" (Vayikrá 26:3). A expressão "andarem nos Meus Estatutos" significa que não é suficiente manter as Mitzvót todos os dias exatamente no mesmo nível em que as cumprimos nos dias anteriores, ao contrário, devemos constantemente crescer em nosso nível espiritual, cumprindo cada uma das Mitzvót de uma maneira melhor e mais louvável a cada dia.

Das palavras do Ktav Sofer aprendemos dois conceitos muito importantes. Em primeiro lugar, que não é suficiente nos acomodarmos na vida, achando que ao cumprir algumas Mitzvót já fazemos tudo o que é necessário no nosso trabalho espiritual. A Torá ressalta que devemos estar constantemente nos esforçando para continuar crescendo, não apenas acrescentando Mitzvót que ainda não cumprimos, mas tentando sempre melhorar ainda mais as Mitzvót que já cumprimos. Um segundo ponto interessante é perceber que, se a Torá repetidamente utiliza a linguagem de "parado" em relação aos anjos, isto significa que permanecer parado não é uma opção para os seres humanos. A Torá explicitamente nos comandou a "andar nas Mitzvót", isto é, a continuar crescendo sempre, pois apenas os anjos conseguem permanecer estacionados em sua espiritualidade sem cair para trás. Já os seres humanos, que não têm esta característica, caso não estejam crescendo, automaticamente estão caindo espiritualmente.

Este conceito também pode ser visto em uma interessante Halachá (Lei Judaica). A Torá nos ensina que em relação ao Mizbeach (Altar de Sacrifícios) há um pequeno detalhe construtivo, como está escrito: "Você não deve subir no Meu Mizbeach através de degraus" (Shemot 20:23). Como o Mizbeach tinha cerca de um metro e meio de altura, então os Cohanim subiam nele através de uma rampa. Explica o Rav Motty Berger que o final do versículo traz um motivo explícito para esta proibição de subir no Mizbeach através de degraus, que está relacionado com o conceito de "Tzniut" (recato). Porém, há outro incrível ensinamento por trás desta proibição. Quando uma pessoa está subindo uma rampa íngreme, se ela não faz nenhum esforço, a inclinação da rampa faz com que ela naturalmente caia para trás. O esforço precisa ser grande não apenas para subir, mas até mesmo para ficar parado no mesmo lugar. Já em uma escada, quando a pessoa está subindo, é possível ficar parada em um dos degraus sem o risco de cair para trás, pois a superfície onde ela está pisando é plana. Portanto, a proibição de utilizar degraus no Mizbeach nos ensina que, quando estamos fazendo o nosso Serviço Divino, não podemos ficar parados, pois nossa subida espiritual não ocorre como alguém que sobe em uma escada, e sim como alguém que sobe em uma rampa.

Mas por que uma pessoa que não faz esforços ativos para se manter espiritualmente acaba caindo, ao invés de ficar parada no mesmo nível? Pois o nosso Yetzer Hará (má inclinação) está o tempo inteiro nos puxando espiritualmente para baixo. Se a pessoa não aplica uma força ativa para crescer, então ela automaticamente cai, pois o Yetzer Hará a puxa para baixo e não há nenhuma força contrária para mantê-la estável. Já os anjos, que não têm Yetzer Hará, podem se manter constantes mesmo sem precisar de nenhum tipo de esforço.

Mas não é fácil colocar este conceito tão importante no coração. Uma das grandes dificuldades é que olhamos para pessoas que não demonstram estar fazendo nenhum esforço ativo para crescer, e mesmo assim parece que elas estão se mantendo no mesmo lugar, elas não demonstram estar se deteriorando espiritualmente. Mas a verdade é que o nosso Yetzer Hará nos derruba com sabedoria, de maneira que não conseguimos perceber. Ele vai atacando devagarzinho a pessoa, fazendo-a gradualmente se enfraquecer no cumprimento das Mitzvót. O processo é tão sutil que dificilmente é percebido pelos que estão observando-a de fora. Normalmente nem mesmo a própria pessoa está realmente consciente de seu processo lento de declínio espiritual. Ela fica tranquila, pensando que está estável, mas a verdade é que sem esforços a pessoa vai dando ao Yetzer Hará pequenos avanços que, somados, se tornam grandes derrotas.

Outra forma do Yetzer Hará nos atacar é através da força do costume. Quando uma pessoa não se esforça para melhorar em áreas onde ela ainda tem alguma deficiência, ela vai caindo cada vez mais na armadilha do hábito. E quanto mais uma pessoa repete um mau hábito, mais vai se tornando difícil se separar deste comportamento errado. Cada transgressão cria uma pequena "linha" que nos conecta um pouco mais aos maus hábitos. Aquela frágil linha, que em um primeiro instante poderia ser facilmente rompida, vai se acumulando até tornar-se uma corda grossa, muito difícil de ser arrebentada.

D'us poderia ter criado o mundo da maneira que quisesse. Portanto, tudo o que Ele criou é necessário, e tem como um de seus propósitos nos ensinar como funcionam as regras do mundo espiritual. Por exemplo, uma das coisas que D'us criou foi a força da gravidade. O que podemos aprender com a força da gravidade? Que o tempo inteiro estamos sendo puxados "para baixo". Mesmo ficar parado de pé exige esforço. Para saltarmos é necessário um esforço ainda maior. D'us nos dá, através da força da gravidade, um exemplo de que estamos o tempo inteiro sendo espiritualmente puxados para baixo. Sem nenhum esforço, acabamos no chão, sem nenhuma espiritualidade. Mesmo para nos mantermos parados de pé é necessário continuamente nos esforçar. E para subir precisamos utilizar ainda mais energia.

Aprendemos deste conceito da Parashá o quanto é fundamental nos esforçarmos ativamente para continuar crescendo espiritualmente, e que não existe para o ser humano a possibilidade de ficar parado constantemente no mesmo nível espiritual. Este ensinamento é ainda mais importante nesta época do ano. Passamos pela festa de Pessach, que representa a força de renovação do povo judeu, e estamos agora nos dias da Contagem do Omer, que fazem a conexão entre a saída do Egito e o recebimento da Torá no Monte Sinai. Da mesma forma que nestes dias o povo judeu cresceu, do pior nível de impureza até o nível de estarem prontos para receber a Torá, assim também temos a enorme oportunidade de crescer, nestes dias tão propícios, em todas as áreas espirituais. O mais importante é nunca desistir, apesar das dificuldades que surgem no nosso caminho, e continuar "andando nas Mitzvót", para conseguirmos vencer a corrida da vida.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Lv 16:1-18:30, Am 9:7-15 (Ash.), Ez. 22:1- 16 (Sef.)
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.)




 
 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

FUGINDO DO EGOÍSMO - PARASHÁ KEDOSHIM 5774

"Em Jerusalém, os prédios não têm faxineiros nem serviço de limpeza. Cada morador precisa retirar seu próprio lixo e jogar em uma enorme lixeira pública, que fica na rua e é periodicamente esvaziada pela prefeitura. Certa vez, na véspera de Shabat, Jaques (nome fictício) saiu para jogar seu lixo e viu um vizinho agindo de maneira muito estranha. Ele estava debruçado sobre a grande lixeira e parecia estar procurando algo. De repente, ele tirou de lá uma caixa de papelão, desmontou-a para que ficasse achatada e jogou-a novamente para dentro da lixeira. Ele se inclinou novamente, encontrou outra caixa, desmontou-a e atirou de volta. Assim fez diversas vezes, para o assombro de Jaques, que assistia aquela cena sem entender nada. Ele conhecia pessoas que tinham hobbies estranhos, mas nunca tinha visto nada parecido com aquilo. Sem aguentar de curiosidade, ele perguntou:

- Perdão, mas o que você está fazendo?

O homem, surpreso com a pergunta, explicou:

- Você deve ter escutado sobre a greve municipal que começará no Motsei Shabat. Portanto, certamente o lixo que costuma se acumular no Shabat não será recolhido. Eu estou achatando todas as caixas de papelão que encontro na lixeira para ter certeza de que haverá espaço suficiente para que todos possam jogar o seu lixo fora" (História real).

Felizmente há no mundo pessoas que pensam no próximo e dedicam seu tempo para facilitar a vida dos outros. São pessoas simples que, com pequenos atos, contribuem para construir um mundo melhor.

********************************************

A Parashá lida nesta semana é a Parashá Kedoshim, que começa com as seguintes palavras: "Sejam santos, pois Eu, Hashem, teu D'us, sou Santo" (Vayikrá 19:2). Esta introdução é como se a Torá estivesse nos preparando para receber a "fórmula mágica" que nos levará ao nível de santidade. Mas, ao invés de nos "prescrever" jejuns e mergulhos na Mikve, a Torá enumera diversas Mitzvót "Bein Adam LeHaveiró" (entre o homem e seu semelhante), tais como ajudar os necessitados e ser honesto nos negócios. Isto nos ensina que para chegarmos à santidade não é suficiente apenas focarmos no nosso relacionamento com D'us, também é essencial trabalharmos no nosso relacionamento com o próximo. E um dos ensinamentos mais importantes que é trazido nesta Parashá em relação ao cuidado com os outros é a famosa Mitzvá de "Ame ao teu próximo como a ti mesmo" (Vayikrá 19:18).

A forma como a Mitzvá de amar ao próximo é ensinada na Torá desperta um grande questionamento: se D'us quer que amemos uns aos outros de forma irrestrita, por que a Mitzvá diz "ame ao teu próximo como a ti mesmo" e não diz "ame ao teu próximo com todas as suas forças"? Por que é importante para a Torá ressaltar que o amor que devemos sentir pelos outros deve ser como o nosso amor próprio?

O Rav Eliyahu Dessler (Latvia, 1892 - Israel, 1953) define que egoísmo é o sentimento interno, presente em todas as pessoas, que faz com que ela pense, de forma subconsciente e natural, que tem prioridade em relação aos outros. O ego do ser humano deseja constantemente saciar todas as suas vontades e preencher todas as suas faltas. Porém, quando a pessoa corre atrás dos seus desejos e os alcança, seu egoísmo se fortalece ainda mais. A pessoa que entra neste ciclo passa a buscar com todas as suas forças as honrarias, e chega ao ponto de querer louvores através da vergonha do próximo. Por isso, ela não hesita em pisar e humilhar os outros, contanto que saia honrada e prestigiada.

O Rav Dessler vai além e afirma que existem duas forças predominantes no mundo: a "Coach HaNetiná" (Força de Doar) e a "Coach HaNetilá" (Força de Pegar). Todas as boas qualidades de uma pessoa, como o altruísmo e a misericórdia, são derivações da "Força de Doar", enquanto todas as más qualidades de uma pessoa, como o egoísmo e a desonestidade, são derivações da "Força de Pegar". A pessoa que não controla seu egoísmo acaba desenvolvendo também todas as outras más características incluídas na "Força de Pegar". Mais do que isso, o egoísta acaba encobrindo e ofuscando também todo o seu reconhecimento pelas bondades recebidas de D'us, e ao invés de se anular perante Ele, vive como se estivesse em um domínio particular e independente, chegando muito perto de cometer a "egolatria", isto é, a idolatria de si mesmo.

O egoísmo é algo muito nocivo para o ser humano, e pode desencadear todas as forças "escuras" que existem dentro dele. O egoísta pode chegar ao ponto de afastar de seu coração todo o amor que sente, até mesmo pelos seus parentes e pelas pessoas mais queridas. Mesmo que o coração do egoísta esteja cheio de amor, é apenas algo externo, superficial, pois dentro do coração dele o que existe é amor próprio.

Podemos achar que isto é um grande exagero, mas a Torá nos traz um exemplo de até onde pode chegar o egoísmo. Depois de a cobra ter conseguido persuadir Chavá (Eva) a comer do fruto proibido, a Torá descreve que imediatamente Chavá foi levar do fruto para que Adam (Adão) também comesse. Rashi (França, 1040 - 1105) explica que o ato de Chavá não foi um ato de Chessed (bondade), ela não queria que Adam também tivesse proveito do sabor daquele fruto. Quando ela se deu conta e percebeu que havia transgredido a ordem de D'us, que explicitamente havia avisado que quem comesse daquele fruto morreria, ela imediatamente quis dar do fruto a Adam, pois pensou que se ela morresse, ele se casaria com outra mulher. Isto quer dizer que, apesar do amor que Chavá sentia por Adam, por dentro do seu coração ainda havia muito egoísmo.

Mas então surge um grande questionamento: se o egoísmo é algo tão prejudicial, se é algo tão forte, por que D'us naturalizou este sentimento no coração do ser humano? Se tudo o que D'us faz é para nos dar a possibilidade de nos aprimorarmos um pouco mais a cada dia e atingirmos a perfeição, por que Ele nos deu esta força com um potencial tão destrutivo?

A resposta é que esta força poderosa foi colocada dentro de nós pois somente através dela conseguiremos o impulso necessário para atingir os máximos níveis no nosso serviço espiritual, como está escrito nos Provérbios de Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Se você buscá-lo como [se fosse] prata, e procurá-lo como [se fossem] tesouros, então você entenderá o temor a D'us" (Mishlei 2:4,5). Shlomo Hamelech quis nos ensinar que a única maneira de atingir os níveis espirituais mais elevados é justamente utilizando as forças mais baixas, as forças dos desejos materiais egoístas.

Mas por outro lado devemos ter o cuidado para que estas forças negativas não sejam utilizadas da maneira equivocada e o "tiro não saia pela culatra", afastando a pessoa de D'us e de sua espiritualidade. Para acostumar o ser humano a utilizar seu egoísmo somente da maneira correta, para o seu crescimento espiritual e para o bem do próximo, a Torá nos deu uma importante Mitzvá: "Ame ao teu próximo como a ti mesmo". Por que o "como a ti mesmo"? Para que o ser humano se acostume a aprender com o seu próprio egoísmo a forma de ajudar o próximo, e dos seus próprios sentimentos a não magoar nem ferir os sentimentos do seu companheiro, como afirma o Talmud (Shabat 31a), em nome do sábio Hilel: "O que você não gosta, não faça aos outros". Mais do que isso, devemos desejar chegar ao nível de querer ao próximo o que queremos para nós mesmos.

Transformar esta força tão destrutiva em algo positivo é um trabalho difícil. É necessária uma nova postura para que possamos mudar nossos costumes e nossa natureza. Mas o esforço vale a pena. Podemos deixar nossa natureza controlar nossas características e aceitar sermos pessoas egoístas, ou podemos controlar nossa natureza e nos tornarmos pessoas benevolentes e proativas, que conseguem pensar não apenas em si mesmas, mas também nos outros, e ajudar a construir, com pequenos atos, um mundo melhor.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.), Ez 20:2-20 (Sef.)
 
 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

MANCHAS NA ALMA - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5773

 

"A família Blinder (nome fictício) morava em São Paulo, mas há muito tempo sonhava em viver na Terra de Israel. Porém, o medo da mudança empurrava sempre os planos para depois. Certa vez o Sr. Blinder chegou em casa decidido a tomar alguma atitude. Conversou com a esposa e, juntos, decidiram passar um mês em Israel, para sentir de perto como era a vida lá. Desta forma poderiam tomar a decisão com mais embasamento, evitando futuros arrependimentos. E assim fizeram.

Certa tarde, a família Blinder estava sentada em um banco de uma praça da tranquila Bnei Brak, uma cidade onde a grande maioria dos habitantes cumpre a Torá. Na esquina da praça ficava a agência de um famoso Banco israelense, e do lado de fora havia um caixa eletrônico. O Sr. Blinder conversava tranquilamente com sua esposa quando escutaram gritos vindos do banco. Acostumados com a violência de São Paulo, imediatamente acharam que era um assalto. Mas o que viram os deixou sem palavras.

Um homem havia ido ao caixa eletrônico sacar dinheiro. Ele estava tão apressado que foi embora, esquecendo na máquina uma enorme quantia. Mas um homem muito pobre, de roupas esfarrapadas, percebeu que ele havia esquecido o dinheiro no caixa eletrônico. O que o pobre fez? Pegou aquela enorme quantia e saiu correndo em direção ao dono do dinheiro, gritando com toda a força para que ele voltasse e pegasse suas notas. Os Blinder ficaram encantados com aquela cena. Era algo que, infelizmente, não estavam acostumados a ver no Brasil.

Duas semanas depois eles estavam de volta ao Brasil. Na semana em que chegaram, enquanto ainda decidiam o que fazer, a Sra. Blinder foi passear com seu bebê pelo bairro. Quando passava na frente da agência de um Banco, ela escutou muitos gritos. Mas, diferente de Israel, não era nenhum pobre fazendo atos de bondade, e sim um assalto à agência bancária. Pessoas gritavam, desesperadas, enquanto bandidos trocavam tiros com os seguranças do banco, colocando a vida de todos em risco. A Sra. Blinder conseguiu sair dali rapidamente, e graças a D'us sem nenhum ferimento.

Para a família Blinder, a comparação entre os dois eventos era inevitável, e assim ficou mais fácil decidir o que fazer. Em poucos meses eles estavam morando em Israel, na pacata cidade de Bnei Brak, onde decidiram viver para poder criar seus filhos em um ambiente tranquilo e harmônico" (História Real)

Qual é o segredo de cidades como Bnei Brak, onde quase não há violência e as pessoas se esforçam para serem honestas? E por que na maioria dos lugares do mundo vemos justamente o contrário?


********************************************

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót e Kedoshim. A Parashá Acharei Mót fala principalmente dos serviços feitos durante o dia mais sagrado do ano, Yom Kipur. Já a Parashá Kedoshim fala sobre a importância de o povo judeu manter sua santidade, e traz diversas Mitzvót "Bein Adam LaMakom" (entre o homem e D'us) e "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), que nos ajudam a nos elevar espiritualmente. Um dos pontos em comum entre as duas Parashiót é que elas ensinam sobre a grave transgressão de se envolver em relações ilícitas, entre elas as relações que envolvem certos graus de parentesco.

Mas se prestarmos atenção, perceberemos que há uma grande diferença na forma como cada Parashá fala sobre as relações proibidas. Na Parashá Acharei Mót, a Torá apenas adverte sobre a proibição do povo judeu se envolver neste tipo de relacionamento. Já a Parashá Kedoshim traz explicitamente as diversas punições para quem comete este tipo de transgressão. Mas será que esta aparente repetição era realmente necessária? Por que a Parashá Acharei Mót precisou trazer a advertência de que são proibidos estes tipos de relações, se através dos duros castigos ensinados na Parashá Kedoshim aprenderíamos automaticamente que estes atos são proibidos e muito graves?

Ensinam nossos sábios que um dos motivos desta aparente repetição é para nos ensinar uma regra em relação à aplicação de castigos pela Torá. Para que uma pessoa possa receber um castigo através do Beit Din (Tribunal rabínico), ela deve estar completamente ciente das consequências do seu ato. Por isso, ela precisa ser advertida antes de cometer a transgressão, como afirma o Talmud (Makót 17b): "Não é permitido aplicar um castigo sem que haja antes uma advertência". Caso ninguém a advirta, o Beit Din não pode aplicar nenhuma das punições previstas pela Torá. A Torá repete o assunto das relações ilícitas para ensinar a forma correta de cumprir a lei, primeiro trazendo a advertência e somente depois o castigo.

Mas explica o Rav Yohanan Zweig que há uma explicação mais profunda para esta aparente repetição. Em nossa sociedade, o sistema de justiça é baseado em uma legislação rígida, com punições aplicadas àqueles que desobedecem à lei. Quanto mais grave o erro, mais dura é a punição. Por exemplo, uma pessoa que comete assassinato pode ser julgado e punido com muitos anos de detenção, perdendo sua liberdade e vivendo muitos anos em péssimas condições. Este sistema é baseado no medo do castigo, e deveria funcionar para coibir o descumprimento das regras. Mas vemos, através dos jornais e noticiários, que infelizmente o sistema não funciona como deveria. Sequestros relâmpagos, desvios de milhões de reais, escândalos. A sensação é de que a violência só aumenta e a impunidade parece prevalecer sobre a justiça. Por que isto acontece?

Quando a única restrição à transgressão é a possível punição aplicada pela justiça, nem sempre isto funciona para "frear" o transgressor. Por exemplo, quando uma pessoa tem uma forte tentação de cometer um crime, ou as chances dela ser punida são pequenas, ela prefere correr o risco e transgredir, pois aposta na possibilidade de ficar impune. Quanto mais ineficiente a polícia ou o sistema judiciário, maior a ousadia daqueles que querem transgredir as leis, pois menor é a chance do castigo realmente vir. É por isso que aumenta tanto o número de crimes em situações extremas, como em apagões ou após grandes acidentes naturais, como terremotos, onde saques às lojas e supermercados se tornam comuns. Como ensinam os nossos sábios: "Se não fosse o medo das autoridades, cada um engoliria o seu companheiro vivo" (Pirkei Avót 3:2).

Mas nem tudo está perdido. Em locais onde as pessoas vivem de acordo com a Torá, a violência é muito rara, e até mesmo casos de roubo são exceção. Em cidades como Bnei Brak, em Israel, os feirantes deixam seus produtos na rua, sem ninguém cuidando, e os compradores escolhem o que querem levar e deixam o dinheiro em uma caixinha. Em várias sinagogas de Jerusalém os vendedores deixam dezenas de livros à venda, sem ninguém tomando conta, e os compradores escolhem o que querem e deixam o dinheiro em uma caixinha. Qual é o método da Torá para coibir as transgressões, cujo sucesso é tão evidente?

Apesar de não enxergarmos o mundo espiritual, suas regras são tão rígidas quanto as leis do mundo material. Da mesma maneira que uma pessoa que joga sujeira em sua roupa mancha o tecido, assim também acontece com nossa alma toda vez que cometemos uma transgressão. Pelo fato da transgressão ser algo inerentemente errado, ela imediatamente prejudica o transgressor, independentemente de qualquer outra futura consequência.

É este o ensinamento que a Torá está transmitindo ao separar o conceito da advertência e do castigo aplicado pelo Beit Din. A Torá está nos ensinando que podemos enganar a polícia ou os tribunais, podemos até ser bem sucedidos em fazer uma transgressão sem que ninguém veja, mas nunca saímos ilesos de uma transgressão. A advertência ensina que o ato é intrinsecamente errado e causa imediatamente consequências espirituais negativas. Independentemente das futuras consequências do erro, mesmo que não ocorra nenhuma punição no Beit Din, nossa alma já sai manchada, necessitando passar por difíceis processos de "limpeza" espiritual. Certamente o preço desta "limpeza" será muito maior do que o benefício obtido com a transgressão, como ensinam os nossos sábios: "Leve em consideração o que você ganha com uma transgressão e o que você perde" (Pirkei Avót 2:1).

Este é o grande segredo da Torá. As pessoas sabem que cada ato tem consequências. Podemos enganar os outros, podemos até mesmo enganar a nós mesmos, mas não podemos enganar a D'us. Isto faz com que uma sociedade com pessoas que vivem de acordo com a Torá sejam muito mais harmônica, propícias para que as pessoas melhorem cada vez mais seus atos e possam crescer espiritualmente. Pois mesmo que os olhos não veem as consequências diretas dos nossos atos, a nossa alma sente.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 16:1-18:30, Am 9:7-15 (Ash.), Ez. 22:1- 16 (Sef.), Hb. 9:11-28
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.), Ez 20:2-20 (Sef.), 1 Pe. 1: 13-16

sexta-feira, 4 de maio de 2012

DISTÂNCIA ENTRE A CABEÇA E O CORAÇÃO- PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5772

Os Asseret Iemei Teshuvá são os dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, quando todos os nossos atos passam diante de D'us e somos julgados se merecemos mais um ano de vida. São dias onde cada pequena Mitzvá e cada arrependimento pelos nossos maus atos pode fazer uma grande diferença. Mas como fazer para sentir, na prática, que este momento é tão decisivo? Há uma história sobre o rabino Israel Meir HaCohen, mais conhecido como Chafetz Chaim, que nos ensina como os grandes do nosso povo faziam para despertar seus corações.
Certa vez, durante os Asseret Iemei Teshuvá, um dos alunos do Chafetz Chaim viu que ele subiu sozinho para uma sala no alto da sinagoga, se trancou e começou a falar sozinho em voz alta. Curioso, o aluno aproximou-se da porta da sala para escutar o que ele dizia. O Chafetz Chaim estava descrevendo o que estaria acontecendo em seu próprio julgamento no Tribunal Celestial naquele momento. Primeiro ele convocou os anjos brancos, os advogados de defesa, criados através de cada Mitzvá e bom ato feito durante o ano, e descreveu a enorme quantidade de anjos que se apresentavam diante do Juiz. Depois ele convocou os anjos negros, os advogados de acusação, criados quando havia feito alguma Mitzvá sem a devida intenção ou quando havia cometido algum erro, e também descreveu a enorme quantidade de anjos que se apresentaram. Finalmente ele descreveu que os anjos subiram na balança, mas que esta não pendeu para nenhum dos dois lados, mostrando que o julgamento estava equilibrado. Então o Chafetz Chaim descreveu uma voz celestial que dizia: "Ser mortal, aproveite que você ainda está vivo para se arrepender e consertar os seus erros". Ao pronunciar estas palavras, o Chafetz Chaim começou a chorar sem parar.
Assim o Chafetz Chaim conseguiu chegar a níveis espirituais tão elevados. Ele trabalhava, com todos os seus sentidos e utilizando a força de sua imaginação, para sentir no coração o que ele entendia racionalmente.
*******************************************
Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót e Kedoshim. A Parashá Acharei Mót descreve os serviços realizados pelo Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) em Yom Kipur, o Dia do Perdão, o único dia em que ele podia entrar na parte mais sagrada do Templo Sagrado, o Kodesh Hakodashim. Era um local de muita santidade, onde ficava o Aron Hakodesh (Arca Sagrada). Já a Parashá Kedoshim lista diversas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante).
Assim começa a Parashá Acharei Mót: "E disse D'us para Moshé, depois da morte dos dois filhos de Aharon, quando eles se aproximaram diante de D'us e morreram. E D'us disse para Moshé: Fale com Aharon, seu irmão – ele não deve entrar em todos os momentos no Santuário... para que não morra" (Vayikrá 16:1,2). D'us estava advertindo Aharon, o Cohen Gadol, a nunca entrar no Kodesh Hakodashim sem a Sua permissão, pois caso contrário ele morreria. Mas qual a relação entre esta proibição e a morte de adav e Avihu, os dois filhos mais velhos de Aharon?
Explicam nossos sábios que os filhos de Aharon morreram justamente por terem entrado no Kodesh Hakodashim sem a permissão de D'us. Agora que D'us estava ensinando a Aharon as leis do serviço do Mishkan (Templo Móvel), Ele relembrou a morte dos seus filhos para ressaltar a gravidade e as pesadas consequências deste tipo de erro.
Rashi, comentarista da Torá, compara esta advertência de D'us a um doente que recebe a visita de dois médicos. O primeiro médico examina o doente, identifica a doença e o proíbe de consumir bebidas geladas, pois isto traria perigo à sua vida. Já o segundo médico é mais direto e, ao identificar a doença, relembra ao doente que daquela mesma doença morreu outra pessoa conhecida, justamente por não ter se cuidado em não tomar coisas geladas. Certamente o doente escuta o segundo médico com muito mais atenção, pois consegue sentir de forma mais clara o perigo que corre se não escutar as orientações médicas. Assim também foi com Aharon, D'us quis ressaltar o perigo de entrar no Kodesh Hakodashim sem permissão relembrando da morte de seus filhos.
Mas é um pouco difícil entender a comparação, trazida pelo Rashi, de Aharon com um doente diante do médico. O doente muitas vezes acha que sabe tudo e, por isso, não precisa escutar os conselhos médicos. São comuns casos de doenças que se agravam justamente pelos pacientes não terem seguido à risca as orientações do médico. Portanto, muitas vezes é necessário e justificável que o médico coloque medo no coração de um paciente mais desleixado, para que ele não seja imprudente em seus atos, colocando sua vida em risco. Mas Aharon, que era um gigante espiritual e cumpria com exatidão tudo o que D'us lhe comandava, precisava deste "reforço"? Não era suficiente D'us apenas avisá-lo da proibição?
Ensinam os nossos sábios que daqui aprendemos uma importante lição: há uma enorme distância entre o nosso intelecto e o nosso coração. Muitas vezes pensamos que é suficiente saber o que é correto e o que é incorreto, e automaticamente nossas ações serão de acordo com as nossas convicções. Mas a verdade é que apenas saber algo não é suficiente para que se transforme em atitudes. Vemos isto na prática todos os dias, em exemplos nos quais nosso bem mais importante, a nossa própria vida, é colocada em risco de maneira estúpida. Por exemplo, todos sabem que dirigir em alta velocidade ou embriagado é um grande perigo para a vida do motorista e dos outros em volta, mas os casos de acidentes com motoristas embriagados ou imprudentes aumentam cada vez mais.Todos sabem que o cigarro causa diversas doenças graves, algumas fatais, mas o número de fumantes aumenta a cada dia. Por que, se é tão racional e lógico, as pessoas não conseguem mudar seus maus hábitos? Pois sabemos as coisas racionalmente, mas não conseguimos colocá-las no coração.
Este conceito também se aplica na forma como vivemos nossas vidas cotidianas. Sabemos que vivemos por tempo limitado, que um dia vamos morrer e deixar este mundo, e ninguém sabe quando será este momento, como ensina Shlomo Hamelech: "Nenhum ser humano sabe sua hora, como um peixe que foi pego na rede ou um pássaro que foi preso na armadilha" (Kohelet 9:12). Shlomo Hamelech ressalta a fragilidade da vida humana que, como um peixe apanhado na rede, pode terminar de um momento para o outro. Se isto é tão óbvio, deveríamos aproveitar cada instante da vida. Por que deixamos tantas coisas importantes para depois? Por que dedicamos tanto tempo buscando aquisições materiais quando sabemos que deveríamos estar adquirindo espiritualidade? Pois apesar de sabermos racionalmente que não vamos viver para sempre, nosso coração nos faz sentir como se nunca fossemos morrer.
Em alguns raros momentos despertamos desta "anestesia". Por exemplo, quando vamos ao cemitério acompanhar o enterro de algum conhecido ou escapamos com vida de algum acidente ou doença grave. Por que? Pois nestes casos o conceito da morte não fica apenas no intelectual, ela entra em nosso coração. O choque psicológico faz com que possamos sentir a morte de perto, não como algo hipotético, mas como algo real, como ensina Shlomo Hamelech: "É melhor ir ao cemitério do que ir a uma festa" (Kohelet 7:2). Na festa nós aproveitamos e nos divertimos, mas é no cemitério que despertamos para o fato de que a vida é limitada e, portanto, precisamos aproveitá-la.
Explica o Rav Yaacov Neiman que este é o ensinamento que a Torá nos ressalta nas primeiras palavras da Parashá. Realmente Aharon era um gigante espiritual, certamente entenderia racionalmente que não podia entrar no Kodesh Hakodashim sem permissão. Mas D'us não queria que Aharon soubesse apenas racionalmente, Ele queria deixar marcado em seu coração este ensinamento, de uma maneira mais forte, de forma que nunca seria esquecido. Por isso mencionou a morte de seus filhos, para que ele utilizasse seus sentidos e colocasse em seu coração as terríveis consequências deste erro.
Também temos que trabalhar muito para que as nossas convicções se transformem realmente em atos. É necessário muito esforço e reflexão, pois um ensinamento somente entra em nosso coração quando o repetimos diversas vezes. Esta é a maneira de despertar da sonolência e da anestesia. Esta é a única maneira de crescer espiritualmente. Saber não é suficiente, é necessário sentir em nosso coração cada uma das nossas certezas. Precisamos lembrar, a cada instante, a fragilidade e a limitação da nossa vida, para que possamos aproveitar cada segundo para crescer um pouco mais.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 16:1-18:30, 1Co 6:9-20
Lv 19:1-20:27, Ez 20:2-20, Mt 5:43-48