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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PASSANDO POR UMA PONTE ESTREITA - PARASHÁ EKEV 5777

"Dois amigos, Avraham e Jacques, resolveram fazer uma viagem de navio. Estavam aproveitando cada segundo da viagem, até que o navio atravessou uma terrível tempestade. O mar estava revolto e enormes ondas golpeavam o casco. A água começou a entrar no convés, colocando em risco a segurança de todos os passageiros. Sentindo que a situação se complicava cada vez mais, o capitão do navio emitiu um pedido de socorro para todos os barcos da região. O navio começou a tombar para um dos lados, deixando todos apavorados. Estava claro que o naufrágio era iminente.
 Foi então que um barco da guarda costeira apareceu. Todos respiraram aliviados, estavam salvos. O barco encostou ao lado do navio e os marinheiros colocaram uma tábua de madeira ligando as duas embarcações, formando uma estreita ponte. Aos poucos cada um dos passageiros do navio foi atravessando por aquela tábua para chegar, são e salvo, ao barco de resgate.
 Quando chegou a vez de Avraham atravessar, ele sentiu muito medo. A tábua parecia instável e estreita. Olhando para baixo era possível ver o mar revolto e as ondas se chocando com força contra a embarcação. Precisava se concentrar, sem olhar para os lados, apenas para a frente. Cada passo que ele dava era cuidadoso e preciso. Somente assim ele conseguiu atravessar e chegar ao outro lado.
 Porém, Jacques não se importou com os perigos. Quis atravessar a estreita tábua de maneira "descolada". Apesar dos avisos dos marinheiros, ele não tomou nenhum cuidado. Atravessou olhando para os lados, mexendo no celular, com passos descuidados. Quase no meio da travessia ele pisou em falso e caiu no mar. Foi necessário jogar uma bóia para salvá-lo. Jacques saiu da água completamente encharcado. Mas o pior foi a vergonha e a humilhação de ver todos os passageiros do navio dando gargalhadas de sua situação"
 Nossa vida se assemelha a uma caminhada em uma ponte estreita. Podemos cumprir as Mitzvót de maneira cuidadosa, com a certeza de que assim chegaremos "ao outro lado", ou de uma maneira mecânica, sem atenção e sem as intenções corretas, correndo o grande risco de acabar tropeçando no caminho.
Nesta semana lemos a Parashá Ekev (literalmente "Se"), na qual Moshé continua seu discurso de encorajamento para o povo judeu, que estava prestes a entrar na Terra de Israel. Moshé tinha uma grande preocupação com o contato que os judeus teriam com os outros povos, que eram idólatras e poderiam influenciá-los de forma negativa, desviando-os do caminho de D'us.

Uma das advertências que Moshé deu ao povo é parte dos versículos que compõem o Shemá Israel: "Se cuidem, para que seus corações não sejam enganados e vocês se desviem, sirvam outros deuses e se curvem para eles" (Devarim 11:16). Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que a linguagem "se desviem" se refere a se afastar da Torá, tanto do seu estudo quanto do seu cumprimento. A consequência deste afastamento está na continuação do versículo, "e sirvam outros deuses". Rashi está afirmando que aquele que se afasta da Torá não fica no "vazio", ele automaticamente se encaminha para se conectar com as idolatrias.

Quando escutamos esta afirmação de Rashi ficamos tranquilos, pois sentimos que estas palavras não se aplicam a nós. Pelo fato de cumprirmos as Mitzvót e nos cuidarmos das transgressões da Torá, que são as ferramentas para chegarmos à perfeição, acreditamos que estamos fazendo tudo o que necessitamos para o nosso crescimento espiritual. Do momento em que acordamos até a hora em que vamos dormir estamos cercados de Mitzvót por todos os lados, que nos conectam com D'us. Mitzvót como Tzitzit, Tefilin, Mezuzá, Kriat Shemá e Brachót nos mantém conectados com D'us o dia inteiro. Por isso sentimos que não há com o que se preocupar em relação à esta advertência da Torá. Porém, não é tão simples assim.

Ao explicar as terríveis consequências de se desviar da Torá, Rashi traz como exemplo uma situação vivida por David HaMelech, quando ele se afastou por um tempo do estudo da Torá, como está escrito: "Pois hoje me afastaram de me conectar com a herança de D'us e me disseram: 'Vá e sirva outros deuses'" (Shmuel 1 26:19). Com estas palavras, David HaMelech estava dando seu testemunho para as futuras gerações de como ele se sentiu espiritualmente prejudicado quando se afastou da Torá.

Porém, deste versículo citado por Rashi surge um grande questionamento. Em que contexto isto ocorreu? Shaul HaMelech estava perseguindo David para matá-lo, pois algumas pessoas haviam falado mentiras para Shaul em relação a David. Para salvar sua vida, David teve que fugir e, por algum tempo, não pôde se dedicar como gostaria ao estudo de Torá. Mas se David não pôde se dedicar ao estudo da Torá por estar fugindo para salvar sua vida, então por que ele sofreu consequências espirituais? Entenderíamos se isto tivesse ocorrido em uma situação na qual ele tivesse intencionalmente abandonado o estudo da Torá, mas David HaMelech estava em uma situação na qual ele se afastou por motivos de força maior, para salvar sua própria vida!

Existem muitos paralelos entre o mundo material e o mundo espiritual. Por exemplo, quando uma pessoa coloca a mão no fogo, ela se queima. Isto não ocorre como um castigo, e sim como uma consequência natural, pois o fogo queima. Mesmo se alguém coloca a mão no fogo porque está sendo obrigado, também vai se queimar. O mesmo ocorre com nossa espiritualidade. Quando a pessoa se afasta da Torá, a consequência natural é uma imensa queda espiritual. Rashi quis nos ensinar que mesmo se isto ocorre de uma maneira forçada, como no caso de David Hamelech, ainda assim as consequências espirituais são sentidas. David Hamelech não foi castigado espiritualmente por ter se afastado da Torá, mas sofreu as consequências espirituais naturais deste afastamento. E se isto se aplica a uma situação de "força maior", muito mais se aplica a uma situação na qual a pessoa se afasta da Torá por vontade.

Imaginamos que o conceito de se afastar da Torá somente se refere àquele que não estuda Torá ou que não cumpre Mitzvót. Porém, nos ensina o profeta: "E disse D'us: 'Pois este povo se aproxima de Mim; com suas bocas e seus lábios eles Me honram, mas seus corações estão afastados de mim e seu temor a Mim se tornou "Mitzvót Anashim Melumadá" (literalmente "comandos de pessoas, aprendidos por hábito"). Portanto Eu continuarei trazendo escuridão sobre o povo, escuridão sobre escuridão, e se perderá a sabedoria dos sábios e o entendimento dos cultos se ocultará" (Yeshayahu 29:13).

De acordo com os nossos sábios, a linguagem "Mitzvót Anashim Melumadá" utilizada no versículo se refere ao cumprimento das Mitzvót sem vitalidade e sem vontade. Uma Mitzvá feita sem Kavaná (intenção) se compara a um corpo sem alma. É como um corpo, com todos os seus membros e órgãos em perfeito estado, cada um em seu devido lugar, mas sem a alma que dá a vitalidade a todos eles. Portanto, pela rigorosidade da linguagem do profeta, vemos o quanto é grave cumprir as Mitzvót de maneira simplesmente mecânica. De acordo com o livro Lekach Tov, quando a pessoa cumpre as Mitzvót de maneira mecânica, sem sentimento, isto também é considerado um afastamento da Torá, com todas as suas implicações espirituais.

David HaMelech, por seu afastamento da Torá, sentiu o quanto isto o aproximou de servir outros deuses. Ninguém o comandou a servir outros deuses, mas ele sentiu em sua espiritualidade uma queda tão grande que era como se alguém o tivesse aproximado de uma idolatria e o tivesse ordenado a servi-la. Ele não se apoiou em seu incrível nível espiritual e no seu vasto conhecimento de Torá para achar que estava protegido. E se isto ocorreu com David HaMelech, muito mais pode ocorrer com cada um de nós.

Porém, não sentimos que o nosso afastamento da Torá, mesmo quando não ocorre por "força maior", nos aproxima das idolatrias. Podemos até sentir um pequeno "esfriamento" espiritual, mas com certeza não sentimos o mesmo que David HaMelech sentiu. Isto ocorre justamente porque, mesmo quando nós cumprimos as Mitzvót e estudamos Torá, fazemos como "Mitzvót Anashim Melumadá". Infelizmente já estamos tão afastados de D'us que nem mais sentimos, quando deixamos de estudar Torá ou cumprir Mitzvót, que algo nos falta. E talvez não há tragédia maior do que perder a nossa espiritualidade e nem mesmo sentir isto.  

No livro "Mito de Sísifo", Albert Camus descreve a realidade da grande maioria das pessoas: "Levantar, metrô, quatro horas no escritório ou na fábrica, refeição, mais quatro horas de trabalho, metrô, refeição e dormir. Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado, no mesmo ritmo constante. Na grande maioria dos casos as pessoas seguem neste caminho facilmente. Mas um belo dia ela desperta e se questiona: Por que?". Infelizmente o que Albert Camus está descrevendo não se aplica apenas a pessoas afastadas da Torá e das Mitzvót. Muitas vezes nós cumprimos as Mitzvót apenas de maneira mecânica, dia após dia, ano após ano, sem sentimento e sem vivacidade. Deixamos nossa vida e nossas Mitzvót caírem no comodismo.

Precisamos fugir deste tipo de "sonolência espiritual". Precisamos sair da indiferença e começar a cumprir as Mitzvót com seriedade e reconhecimento. Precisamos estudar as Halachót para saber como cumprir as Mitzvót da maneira correta. A vida é como uma ponte estreita, precisamos ser cuidadosos com cada passo, com cada Mitzvá. Mas, acima de tudo, precisamos viver com entusiasmo. Somente com esta energia, com concentração e com foco conseguiremos atravessar a estreita ponte da vida e atingir o nosso objetivo.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3,

sábado, 27 de agosto de 2016

PEQUENOS GRANDES ATOS DE AMOR - PARASHÁ EKEV 5776

Um garoto pobre, com cerca de doze anos de idade, vestido de forma muito humilde, entrou na perfumaria, escolheu um sabonete comum e pediu a Rafael, o proprietário, que embrulhasse para presente. Com orgulho, explicou que era um presente para sua mãe. Rafael ficou comovido diante da simplicidade daquele presente. Olhou com dó para o garoto e teve vontade de ajudá-lo. Pensou em embrulhar, junto com o sabonete comum, algum artigo mais significativo, mas ficou na dúvida. O garoto, notando a indecisão do homem, pensou que ele estava duvidando da sua capacidade de pagar. Colocou a mão no bolso, retirou as moedinhas que tinha juntado com dificuldade e colocou-as sobre o balcão. Rafael ficou ainda mais comovido quando viu as moedas, de valor tão insignificante. Concluiu que se o garoto pudesse, certamente compraria algo bem melhor para a mãe. Lembrou-se de sua própria mãe. Ele também tinha sido muito pobre em sua infância, e muitas vezes quis presentear sua mãe, mas nunca teve condições. Quando finalmente conseguiu seu primeiro emprego, ela já havia partido deste mundo. Impaciente com a demora, o garoto perguntou:

- Moço, falta alguma coisa?

- Não - respondeu Rafael - É que, de repente, eu me lembrei da minha mãe. Ela morreu quando eu ainda era muito jovem. Sempre quis dar um presente para ela, mas nunca consegui comprar nada.

Com a espontaneidade natural das crianças, o garoto perguntou:

- Nem um sabonete?

Rafael ficou em silêncio. Pensou um pouco e desistiu da ideia de melhorar o presente do garoto. Embrulhou o sabonete com o melhor papel que tinha na loja, colocou uma fita e entregou para o garoto sem dizer mais nada. Quando ficou sozinho, as lágrimas começaram a sair. Como é que nunca havia pensado em dar algo pequeno e simples para sua mãe? Sempre havia entendido que presente deveria ser alguma coisa significativa, tanto que, minutos antes, havia sentido dó da simples compra do garoto e chegou a pensar em melhorar o seu presente. Comovido, Rafael aprendeu naquele dia uma grande lição. Junto com o sabonete do menino vinha algo muito mais importante e grandioso, o melhor de todos os presentes: o gesto de amor. 
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A Parashá desta semana, Ekev (literalmente "Se"), começa com uma introdução que condiciona o recebimento de recompensas ao cumprimento das Mitzvót da Torá, como está escrito: "E será, se vocês escutarem estes mandamentos, e os observarem, e os cumprirem, então D'us cuidará de vocês... Ele os amará, e os abençoará, e os multiplicará" (Devarim 7:12,13). O entendimento simples destas palavras é que, se demonstrarmos o nosso amor por D'us, escutando Suas ordens e cumprindo Suas Mitzvót, então Ele se comportará conosco na mesma medida e nos amará.

Porém, algo nos chama a atenção nas palavras de Rashi (França, 1040 - 1105), um dos maiores comentaristas da Torá, conhecido por trazer normalmente a explicação mais simples e direta dos versículos. Porém, neste versículo, percebemos que ele "fugiu" da explicação mais simples, que seria dizer que a Torá condiciona a recompensa recebida ao cumprimento de todas as Mitzvót da Torá. Ao invés disso, Rashi cita um Midrash (parte da Torá Oral) que explica que a palavra "Ekev", que significa a condição "se", também significa "calcanhar". Ele diz que o versículo não se refere a todas as Mitzvót, e sim especificamente às Mitzvót que nós "pisamos sobre elas com o nosso calcanhar", isto é, Mitzvót que desprezamos por considerarmos como sendo menos importantes. De acordo com esta explicação, a Torá está nos advertindo a não desprezarmos estas Mitzvót que consideramos menos importantes.

Esta explicação de Rashi desperta um questionamento. A explicação mais simples do versículo é muito mais abrangente e incluiu todas as Mitzvót da Torá. Então por que Rashi abandonou a explicação mais simples e abrangente, e escolheu trazer uma explicação que se aplica somente a um grupo reduzido de Mitzvót? Por que o amor de D'us estaria condicionado apenas às Mitzvót que têm menos importância aos nossos olhos?

Uma pergunta semelhante surge em relação a outro ensinamento dos nossos sábios: "Seja tão meticulosos no cumprimento das Mitzvót menos importantes como no cumprimento das Mitzvót mais importantes, pois você não sabe como as Mitzvót serão recompensadas" (Pirkei Avót 2:1). Porém, o que esta Mishná (parte da Torá Oral) está nos ensinando? Se a própria Mishná reconhece que existem Mitzvót mais importantes e outras menos importantes, por que a conclusão é que talvez D'us não nos recompensará de maneira proporcional ao valor das Mitzvót? Se há Mitzvót mais importantes, não seria mais lógico dar ênfase ao cumprimento delas?

Explica o Rav Yohanan Zweig que quanto mais forte é o relacionamento entre duas pessoas, é mais comum elas sentirem liberdade de pedir coisas relativamente simples e triviais uma à outra. Entretanto, se o relacionamento não é tão forte, as duas partes tendem a limitar os pedidos a assuntos de maior importância. Por exemplo, uma pessoa não pensaria duas vezes em acordar algum conhecido às duas da manhã para pedir um auxílio médico urgente, mas a mesma pessoa acharia inconcebível a ideia de acordar um conhecido às duas da manhã para pedir a ele um pote de sorvete. No outro extremo, uma esposa não veria nenhum problema em pedir para que seu marido compre para ela um pote de sorvete às duas da manhã, em especial se ela estiver grávida. Isto quer dizer que sentir liberdade de fazer pedidos simples é uma demonstração de amor e conexão.

Esta ideia se aplica também espiritualmente. Nós somos naturalmente mais cuidadosos com as Mitzvót que consideramos como sendo mais importantes e fundamentais, enquanto naturalmente cumprimos com menos entusiasmo e cuidado as Mitzvót que não consideramos como princípios fundamentais. Entretanto, isto é um grande erro, pois quanto mais forte é um relacionamento, mais apta está a pessoa a concordar com pedidos aparentemente triviais e simples. Portanto, é justamente através das Mitzvót mais simples e básicas que nós demonstramos o nosso compromisso e expressamos o nosso amor por D'us. É por isso que o cumprimento das Mitzvót "leves", que parecem ser menos sérias, é justamente o que mede o nosso relacionamento com D'us.

Com este conceito podemos entender o que a Mishná de Pirkei Avót está nos ensinando. Há duas maneiras através das quais D'us pode definir a recompensa de uma Mitzvá: através da sua importância ou através do comprometimento e amor refletido no cumprimento desta Mitzvá. Como não nos foi revelado qual das duas medidas D'us usará na definição da nossa recompensa, então é importante sermos igualmente cuidadosos com ambos os tipos de Mitzvót, pois um tipo tem uma maior recompensa por sua importância, enquanto outro tipo tem uma maior recompensa pela sua demonstração de amor e comprometimento.

Assim também é possível entender o motivo pelo qual Rashi abandonou a explicação convencional, mais abrangente, e optou por trazer uma explicação baseada no Midrash, mais limitada. O versículo descreve explicitamente o cumprimento de certas Mitzvót cuja recompensa será o amor de D'us. Como D'us se comporta conosco "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), então certamente trata-se de Mitzvót que demonstram um nível maior do nosso amor por D'us. É por isso que Rashi entende que as Mitzvót às quais o versículo se refere são aquelas que consideramos menos importantes, pois são justamente elas que, quando cumpridas com cuidado, entusiasmo e alegria, verdadeiramente demonstram o nosso enorme amor por D'us.

Precisamos colocar no coração este ensinamento para conseguirmos cumprir com alegria e entusiasmo mesmo as Mitzvót mais simples do cotidiano. É fácil se sentir inspirado na Tefilá de Yom Kipur, mas o que demonstra de verdade o nosso amor por D'us é tentar se inspirar nas Tefilót do dia-a-dia, mesmo com toda a correria e obstáculos que surgem quando tentamos rezar com concentração. É fácil sentir a santidade da mesa de Shabat, mas o que ressalta o nosso amor pelas Mitzvót é sentir também a santidade da mesa durante a semana. É mais fácil sentir temor no cumprimento das Mitzvót da Torá, mas é uma demonstração muito maior de conexão espiritual e temor a D'us quando também conseguimos cumprir, com o devido respeito, as Mitzvót que foram decretadas pelos nossos sábios. Assim, os pequenos atos do cotidiano se transformam, através do entusiasmo e da alegria, em atos gigantescos.

Este conceito também se aplica ao nosso relacionamento com as outras pessoas. Muitas vezes queremos demonstrar o quanto gostamos ou nos importamos com alguém, e esperamos algum momento especial e grandioso para demonstrar o que sentimos. Mas isto é um grande erro, pois são justamente os pequenos atos do cotidiano que demonstram o quanto nos importamos com as pessoas. Quando damos um presente a alguém, muitas vezes o que mais toca a pessoa não é o conteúdo do embrulho, e sim as palavras que estão escritas no cartão. O nome "presente" já indica que o principal objetivo de darmos uma lembrança a alguém é demonstrar o quanto queremos estar presentes na sua vida. Por isso, a melhor maneira de demonstrar o nosso amor não são com grandes presentes, e sim com pequenas atitudes diárias de carinho, respeito e atenção.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

BOAS INTENÇÕES E MAUS ATOS - PARASHÁ EKEV 5774

Apenas três dias antes da libertação do Campo de Concentração de Dachau, as tropas nazistas da SS, vendo o rápido avanço dos aliados, levaram cerca de 7.000 prisioneiros, em sua maioria judeus, em uma marcha em direção ao sul, para a cidade de Tegernsee. Durante a caminhada, que durou seis dias, aqueles que não conseguiram manter o ritmo foram executados a tiros, e muitos outros morreram de fome, exposição às condições climáticas extremas ou exaustão. Esta caminhada ficou conhecida como "a marcha da morte". As forças aliadas libertaram o Campo de Concentração de Dachau em 29 de abril de 1945. No início de maio daquele mesmo ano, tropas norte-americanas libertaram os prisioneiros sobreviventes da marcha da morte.

Abraham Lewent, um judeu polonês, foi um dos sobreviventes da marcha da morte e relatou ao mundo os horrores da guerra e a crueldade dos nazistas. Para ele, um episódio que nunca saiu de sua memória foi quando os prisioneiros foram libertados pelos soldados americanos. Abraham Lewent estava deitado, junto com uma centena de pessoas, muitas mortas de fome e de frio. Os soldados americanos colocaram os sobreviventes em jipes e os levaram para hospitais ou prontos-socorros improvisados. Na ânsia de ajudar, vendo os judeus em estado lastimável, eles distribuíram generosamente água e pacotes de comida. Abraham Lewent conta que, quando recebeu seu pacote de comida, um rapaz judeu que estava perto, que era médico, apesar de estar quase morto, gritou:

- Não coma nada! Se você comer qualquer coisa você vai morrer. A única coisa você deve fazer é pegar um pouco de açúcar, colocar na boca e chupar. Jogue o resto fora. E se você quiser guardar, tudo bem, mas não coma nada. Não coloque o leite na boca, não morda o chocolate e não coma a carne!

Aquele rapaz realmente estava certo. O que parecia um ato de bondade e caridade do exército americano transformou-se em uma terrível tragédia. Os judeus, após anos sem comer uma refeição, começaram a desesperadamente comer tudo o que havia naqueles pacotes de comida. Estavam com tanta fome que nem se preocuparam com as consequências. Infelizmente, o mesmo fenômeno se repetiu na libertação de vários Campos de Concentração, causando a morte de milhares de judeus por colapso do estômago ou diarreia, porque seus estômagos não estavam mais acostumados com comida".

Não é suficiente apenas termos boas intenções na vida. Precisamos sempre checar se nossos aparentes bons atos não estão trazendo danos ou consequências negativas, para outras pessoas e para nós mesmos.
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Nesta semana lemos a Parashá Ekev, que começa listando uma série de Brachót (bênçãos) que recaem sobre nós quando cuidamos do cumprimento das Mitzvót. E no final da Parashá novamente D'us condiciona o sucesso da conquista da terra de Israel ao cuidado com as Mitzvót, como está escrito: "E se vocês cuidarem de toda esta Mitzvá que Eu comando para vocês, e a cumprirem, e amarem a Hashem, teu D'us, e andarem em todos os Seus caminhos, e se apegarem a Ele, então Hashem expulsará todas estas nações diante de vocês" (Devarim 11:22,23). Mas o que significa "andar nos caminhos de D'us"? Explica Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, que da mesma forma que Ele é misericordioso, nós também devemos ser misericordiosos. Da mesma forma que Ele faz bondades, nós também devemos fazer bondades. Quando nos comportamos como D'us, estamos andando nos caminhos Dele.

Ao escutar a explicação de Rashi, pode parecer que é fácil andar nos caminhos de D'us. Mas explica o Rav Yaacov Naiman, em seu livro Darkei Mussar, que não é tão simples assim. Muitas vezes a pessoa pode fazer um ato pensando que está fazendo uma Mitzvá, mas na verdade está fazendo uma grande transgressão. Por exemplo, quando alguém faz uma Mitzvá e, por causa deste ato, acaba causando um dano ou um sofrimento ao seu companheiro, isto é chamado de "Mitzvá Habá BeAveirá" (Mitzvá que vem através de uma transgressão". Quando fazemos uma Mitzvá, nossa intenção é agradar a D'us, quem nos comandou fazer aquele ato. E certamente cumprir uma Mitzvá que causa danos ou sofrimentos aos outros não agrada a D'us. Porém, na maioria das vezes, fazemos isto sem perceber e sem nenhuma intenção de causar dano aos outros. Será que mesmo assim é grave transgredir por desconhecimento?

A resposta está na Parashá da semana passada, Vaetchanan. Há na Parashá um versículo que fala sobre a importância de cumprir as Mitzvót da Torá: "E cuidem e cumpram, pois ela é sua sabedoria e seu entendimento aos olhos dos povos... E dirão (os outros povos): certamente um povo sábio e entendido é esta grande nação" (Devarim 4:6). Rashi conecta este versículo com outro versículo escrito um pouco depois: "Somente cuide muito para você, e cuide muito para sua alma, para que você não se esqueça" (Devarim 4:9). Rashi explica que quando cumprirmos a Torá da maneira correta, com todos os seus detalhes, então todos os povos nos considerarão uma nação de pessoas sábias e entendidas. Mas se não a cumprirmos e nos desviarmos por esquecer das Mitzvót, então os outros povos nos considerarão tolos.

Porém, desta explicação de Rashi fica uma grande pergunta: uma pessoa que se esquece das Mitzvót e se desvia dos caminhos corretos pode chegar a fazer atos terríveis. Então por que Rashi diz que esta pessoa será um tolo? Não seria mais correto dizer que ela será um Rashá (malvado)?

Explicam os nossos sábios que quando alguém faz um ato errado, mas com intenções puras e pensando em cumprir a vontade de D'us, mesmo que as circunstâncias não sejam corretas, neste caso a pessoa não é chamada de Rashá, e sim de tolo. Rashá é aquele que faz um mau ato intencionalmente, com consciência do seu erro, enquanto o tolo é aquele que faz o mau ato de forma inconsciente, achando que está fazendo a coisa certa. Ele é chamado de tolo pois seus atos não são bem recebidos por D'us, apesar do esforço e das suas boas intenções.

Obviamente que fazer maus atos de forma intencional e consciente é algo muito grave e desprezível aos olhos de D'us. Porém, de certa maneira, pode ser até pior ser um tolo do que um Rashá. O Rashá sabe que transgrediu, tem consciência de que fez algo incorreto, e por isso pode conseguir se arrepender e corrigir seu erro. Mas o tolo nem mesmo sabe que errou, e por isso não conseguirá consertar seus erros.

Pensamos que isto pode ocorrer apenas com pessoas pequenas, mas a Torá nos ensina que até mesmo gigantes espirituais cometeram erros graves sem intenção. Um dos exemplos mais marcantes ocorreu com Shaul HaMelech (Rei Shaul), que recebeu de D'us uma importante missão: destruir o povo de Amalek, o povo que representa o mal no mundo. Mas infelizmente Shaul HaMelech não cumpriu a ordem de D'us. Ele teve misericórdia do rei de Amalek, Agag, e o manteve vivo. Este erro de Shaul HaMelech, além de ter sido uma grave transgressão, teve consequências trágicas ao povo judeu. Haman, o Rashá que decretou o extermínio do povo judeu durante o exílio da Babilônia, era descendente do rei Agag. Se não fosse pela intervenção miraculosa de D'us, o povo judeu inteiro poderia ter sido destruído por ele.

Porém, o mais incrível é que Shaul HaMelech, o primeiro rei da história do povo judeu, um homem completamente puro e justo, não percebeu que errou. Quando ele voltou da guerra e se encontrou com Eliahu Hanavi, o profeta naquela época, suas primeiras palavras foram: "Bendito seja você para D'us. Eu cumpri as palavras de D'us" (Shmuel I 15:13). Eliahu Hanavi respondeu com uma forte repreensão: "Por você ter rejeitado a palavra de D'us, Ele rejeitou você como rei" (Shmuel I 15:23). Por este grave erro, Shaul Hamelech perdeu o reinado. Mas ele não estava sendo hipócrita ou falso quando disse que havia cumprido a vontade de D'us. Ele realmente achava que havia feito o que era correto, apesar de ter mudado o que D'us havia explicitamente pedido.

Devemos tomar muito cuidado com os nossos atos, e mesmo quando estamos cumprindo Mitzvót, não esquecer de olhar em volta, nunca esquecer de "andar nos caminhos de D'us", para ter certeza de que neste momento não estamos pisando em ninguém. Pois mesmo sem intenção, se ao fazermos uma Mitzvá acabamos prejudicando outra pessoa, certamente não era isso o que D'us gostaria e, portanto, este ato não será recebido por Ele. Além disso, é importante sempre estudar e conhecer bem as Mitzvót, pois aprendemos que a ignorância não nos isenta das consequências dos nossos atos. Somente assim, conhecendo profundamente a Torá e se preocupando de verdade com as pessoas, conseguiremos alegrar D'us e todos os que estão em volta de nós.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O MOMENTO MAIS IMPORTANTE É AGORA – PARASHÁ EKEV

 
Esta declaração, feita por um paciente terminal de 70 anos que estava internado na UTI, foi publicada em um jornal americano:

"Meu primeiro sonho foi terminar a escola. Eu imaginava que somente quando as pessoas entravam na faculdade e começavam as festas e os namoros é que a vida realmente começava. Meu segundo sonho foi terminar a faculdade, pois eu já me imaginava trabalhando, comprando meu primeiro carro. Meu próximo sonho foi estar casado, pois eu via as pessoas mais velhas casando e me imaginava casado com uma bela esposa e sabia que somente assim eu realmente seria feliz. Depois do casamento eu comecei a sonhar com a alegria verdadeira que seria quando eu tivesse filhos. Então eu comecei a sonhar como seria bom quando eles crescessem e se casassem, quando eu poderia relaxar um pouco. Finalmente meu sonho foi a felicidade que viria com a tão esperada aposentadoria. Só agora, que eu estou morrendo, percebo que nunca vivi de verdade. Eu vivi uma ilusão"

Para realmente aproveitarmos cada segundo de nossas vidas neste mundo, há uma lição muito importante que devemos aprender: devemos estimar o momento em que estamos vivendo agora, ao invés de viver olhando sempre para algo no futuro.

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Há milênios o ser humano se questiona: qual o nosso papel neste mundo? O que exatamente o Criador do mundo quer de cada um de nós? Na Parashá desta semana, Ekev, a Torá nos responde este questionamento em um único versículo: "E agora, Israel, o que Hashem, teu D'us, pede de você? Somente que tema a Hashem, teu D'us, ande nos Seus caminhos e O ame" (Devarim 10:12).

Mas este versículo levanta muitos questionamentos profundos. É fácil temer o guarda de trânsito, que pode nos dar uma multa por alta velocidade. É fácil amar nossos pais, que fazem tanto por nós. São coisas palpáveis, podemos vê-los, fazem parte da nossa realidade cotidiana. Mas como podemos sentir temor ou amor pelo Criador do mundo, com Quem não mantemos uma comunicação direta e Quem não podemos nem mesmo enxergar? E sendo tão difícil, por que a Torá diz "somente", como se fosse algo fácil de ser conseguido? Além disso, podemos entender que D'us nos comande Mitzvót que envolvam atos físicos, como colocar Tefilin ou acender as velas de Shabat. Mas como é possível D'us nos comandar um sentimento? Como podemos forçar uma emoção?

O Rambam (Maimônides) escreve que existe um caminho para amar e temer a D'us. Quando o ser humano reflete sobre Suas maravilhosas e impressionantes criações, onde podemos enxergar Sua infinita sabedoria, inevitavelmente ele chega a amar o Criador. E quando o ser humano percebe quanto D'us é grande e, ao contrário, o quanto nós somos pequenos e insignificantes diante do Criador do universo, inevitavelmente ele chegará ao temor pelo Criador.

É interessante observar que quando o Rambam fala sobre outras leis como, por exemplo, as leis de Tefilá (reza), ele não menciona sobre um "caminho". Por que? Pois em mandamentos que envolvem ações não é necessário um caminho e sim atos. Para fazer Tefilá é simples, basta abrir um livro de rezas e começar a rezar. Porém, quando se tratam de sentimentos, como amar e temer, o Rambam ressalta que a única maneira de cumprir a Mitzvá é através de um caminho, pois não há como obrigar uma emoção a não ser através de um processo que garanta alcançar este sentimento. Não se pode acordar um dia sentindo amor e temor por D'us. Mas quando o ser humano constantemente reflete sobre o Criador e Seus atos, com o tempo ele chegará inevitavelmente ao temor e ao amor. Pois apesar de D'us não poder ser enxergado ou tocado, Ele pode ser claramente sentido através de Seus atos.

E do conceito de que existe um "caminho" para atingir o temor e o amor por D'us aprendemos outro ponto importante. Nossa preocupação não pode ser em apenas atingir o objetivo final, pois o futuro está apenas nas mãos de D'us. O que está em nossas mãos é o caminho diário e contínuo de reflexão. É nisso que temos que concentrar o nosso foco, no nosso serviço diário. Com muita dedicação e perseverança os objetivos finais – amar e temer a D'us – certamente virão. Para alcançar os objetivos devemos apreciar os nossos esforços diários. Os resultados somente chegarão se sentirmos a alegria de estar construindo, passo a passo, o nosso objetivo. Por que está escrito "somente"? Pois adquirir o temor e o amor a D'us verdadeiro leva muito tempo, mas o que D'us espera de nós é o trabalho diário, nas coisas mais simples do cotidiano, que nos levarão ao nosso objetivo. Isto está ao alcance de todos nós.

Este conceito pode ser comparado à dois trabalhadores contratados para construir uma casa. Um deles somente enxerga a casa pronta e, portanto, cada tijolo que ele coloca é um peso, pois parece um ato pequeno. Já o outro enxerga que cada tijolo é parte do todo e, por isso, se alegra com cada pequeno pedaço de parede que aumenta. Para aquele que se alegra com cada tijolo, cada dia de empreitada é uma grande emoção e certamente a casa inteira chegará um dia a ser construída. Já para o outro, o trabalho diário é tão insuportável que dificilmente ele chegará até o fim da construção.

Existe um fenômeno estudado pela psicologia chamado "A depressão do Domingo à noite". Por que a maioria das pessoas sente esta angústia quando o final de semana chega ao fim? Pois ao invés de viver cada momento e crescer com cada oportunidade, nós vivemos para o próximo final de semana, para as próximas férias, para a aposentadoria. Vivemos pensando no futuro sem aproveitar o dia de hoje. O judaísmo nos ensina a dar valor para cada pequeno ato, para cada pequeno momento. Não vivemos para o fim de semana, vivemos para o agora. É preciso planejar nosso futuro, é preciso ter a vontade de chegar ao objetivo, mas sem esquecer-se de valorizar cada passo dado.

Um exemplo clássico é a educação dos filhos. Todos querem ser bons pais. Queremos educar nossos filhos para que eles nos amem e nos respeitem no futuro. Mas para conseguir isso é necessário gostar do que fazemos. Nos pequenos atos do cotidiano o relacionamento é criado. Uma boa conversa, escutar o filho lendo suas primeiras palavras, ensiná-lo a jogar futebol, levando-o para um passeio de Domingo. Se o pai não gosta de cada passo do "caminho", se para ele é um peso a educação do filho, é algo que ele quer se livrar logo, certamente nunca transmitirá amor ao filho e nunca se tornará o pai que gostaria de ter sido.

Em cada ato que fazemos na vida precisamos apreciar os processos e não apenas focar no objetivo final. Cada dia deve ser significativo, cada momento deve ser único e importante. É o que nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "A sabedoria está diante da pessoa com entendimento, mas os olhos do tolo estão direcionados ao fim da Terra" (Mishlei - Provérbios 17:24). A pessoa que valoriza cada instante é um sábio, enquanto aquela que foca apenas no objetivo final é um tolo, pois nunca conseguirá alcançá-lo. O tolo vê o tamanho de um livro e nem começa a ler, pois pensa que nunca conseguirá terminar. O sábio foca apenas na página que ele estuda hoje, e com perseverança e determinação ele conseguirá terminar o livro todo.

O dia de hoje é o mais importante de nossas vidas. Cada dia é valioso, cada pequeno ato é mais um tijolo que colocamos na nossa construção espiritual. Se fizermos com alegria e vontade, chegar ao amor e temor a D'us será algo fácil, como Moshé nos ensinou na Torá.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/search/label/Parash%C3%A1%20Eikev
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3, Ro. 8: 31-39

sábado, 11 de agosto de 2012

ENSINAMENTOS DE PAI PARA FILHO - PARASHÁ EKEV 5772

Em uma tarde fria de inverno em Tsfat, norte de Israel, o rabino Yaakov Dovid Wilovsky, mais conhecido como Ridvaz, um dos gênios da Torá de sua geração, foi para a sinagoga para Minchá (reza da tarde) um pouco antes de seu horário habitual. Naquele dia era o "Yortzait" (aniversário de falecimento) de seu pai. Ele sentou-se e ficou imerso em seus pensamentos, até que seus olhos se encheram de lágrimas. Os homens que entraram na sinagoga para Minchá perceberam o choro do Ridvaz e, sabendo que era Yortzait de seu pai, mantiveram uma distância respeitosa dele. Um amigo mais próximo aproximou-se dele e perguntou:
- Por que você está tão triste? Seu pai tinha 80 anos quando faleceu, morreu com boa idade, não era um homem jovem. E já faz cinquenta anos que ele morreu. Nossos sábios não ensinam que está decretado que a tristeza em relação aos nossos mortos vai enfraquecendo com o tempo?
- Não estou chorando de saudades - respondeu o Ridvaz - Mas lembrei de algo que me fez chorar. Quando eu ainda era garoto, meu pai contratou o melhor professor da cidade, Rav Chaim Sender, para ser meu professor de Torá. Ele cobrava pelas aulas um rublo por mês, valor muito alto naqueles dias, principalmente para o meu pai, que era um homem pobre. Era uma luta para conseguir o dinheiro cada mês, pois meu pai sustentava a casa construindo fornos. Houve então um inverno no qual não havia cimento nem gesso em nenhuma loja, e por isso meu pai ficou impossibilitado de trabalhar. Como ele não recebia dinheiro, não conseguia pagar as aulas ao Rav Chaim. Após três meses assim, um dia eu cheguei com uma carta do meu professor, na qual ele dizia que não poderia continuar a me ensinar se não recebesse seu salário na manhã seguinte. Quando meus pais leram a carta, foi como se o mundo tivesse acabado. Para eles, a minha educação de Torá era tudo!
- Naquela noite, meu pai foi à sinagoga, como de costume. – continuou o Ridvaz, visivelmente emocionado - Lá ele ouviu um frequentador, que era muito rico, se queixando que a construtora que estava fazendo uma casa para seu filho era incapaz de construir um forno por causa da escassez de cimento e gesso. O homem rico ofereceu seis rublos para quem pudesse montar um forno para seu filho. Na Rússia, um forno era uma necessidade absoluta, para aquecer as casas e cozinhar. Meu pai voltou para casa e, discutindo o assunto com minha mãe, decidiu desmontar o nosso próprio forno, tijolo por tijolo, e usar os materiais para construir um novo forno para o filho do homem rico. Assim eles teriam os seis rublos para pagar o meu professor. Meu pai entregou o forno ao homem rico e recebeu os seis rublos em troca. Ele me chamou e disse: "Filho, diga ao seu professor que três rublos são para o pagamento dos meses que eu estou devendo, e os outros três são para os próximos três meses de aula para o meu Yankel Dovid". Aquele foi um inverno muito frio, e estávamos sempre tremendo e quase congelando. E tudo isto para que eu pudesse ter o melhor professor e poder crescer na Torá.
- Estava frio lá fora hoje - concluiu o Ridvaz - e eu pensei em mandar trazer um Minyan (grupo de 10 homens) para minha casa, ao invés de ir para a sinagoga. Então eu decidi, em honra de meu pai, que eu deveria fazer um esforço especial para ir à sinagoga. Quando senti o frio na rua, refleti sobre todo sofrimento que minha família passou durante aquele longo e frio inverno. Sofrimento por mim e pela minha Torá. É por isso que eu chorei, lembrando do amor dos meus pais e a dedicação sem fim para que seu filho pudesse aprender a sagrada Torá. Se não fosse por seu sacrifício, eu nunca teria sido capaz de escrever o meu comentário sobre o Talmud Yerushalmi".
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Na Parashá desta semana, Ekev, a Torá traz mais alguns versículos que compõe o Shemá Israel. E um dos versículos nos ensina sobre a importância da transmissão dos conceitos e valores judaicos para os nossos filhos, como está escrito: "E você deve ensiná-las aos seus filhos" (Devarim 11:19). Diz o Talmud (Tratado Kidushin 29b) que deste versículo aprendemos que não é apenas "bonito" ensinar judaísmo aos filhos, na verdade o pai tem uma obrigação de ensinar Torá para o seu filho e, se necessário, deve contratar um professor de Torá para ele. Caso o filho precise estudar Torá em outra cidade, o pai tem a obrigação de prover todas as necessidades, como comida e estadia, para que o filho possa aprender Torá.
Mas por que precisamos deste ensinamento especificamente para o estudo da Torá? Apesar de uma criança não estar obrigada a cumprir as Mitzvót da Torá antes de sua maioridade religiosa, os pai tem a obrigação de ensinar aos seus filhos o cumprimento delas, por "Chinuch" (educação). Assim, quando o filho chega à idade em que estará obrigado a cumprir as Mitzvót, já terá se acostumado e não será uma carga tão pesada em suas costas de uma só vez. Portanto, qual a diferença entre a Mitzvá de ensinar Torá aos filhos e as outras Mitzvót da Torá?
Explicam nossos sábios que esta obrigação de preparar os filhos para as Mitzvót (Chinuch) é uma obrigação rabínica. Mas existem 3 Mitzvót que são exceções, nas quais o pai está obrigado a educar seus filhos, mesmo os que ainda não atingiram a maioridade religiosa, não apenas por Chinuch, mas por obrigação direta da Torá. São as Mitzvót de Brit-Milá (circuncisão), Shabat e Torá. Nestas 3 Mitzvót há versículos que explicitamente incluem os filhos no seu cumprimento. Em relação ao Brit-Milá está escrito: "E com 8 dias de idade serão circuncidados todos os filhos homens, por todas as gerações" (Bereshit 17:12). Em relação ao Shabat está escrito: "Não farão nenhum trabalho, você e teu filho e tua filha" (Shemot 20:10). E em relação à Torá está escrito: "E você deve ensiná-las aos seus filhos" (Devarim 11:19).
Há algo interessante que também percebemos em relação a estas 3 Mitzvót. Todas as vezes em que o povo judeu foi exilado ou esteve sob o domínio dos outros povos, sempre houve decretos que proibiam a prática do judaísmo. Mas "coincidentemente", as primeiras Mitzvót a serem proibidas sempre foram estas três, como diz o Talmud (Taanit 18a): "Foi decretado sobre o povo judeu que não se ocupassem com o estudo da Torá, e que não circuncidassem seus filhos, e que desrespeitassem o Shabat". O que há de tão especial nestas 3 Mitzvót, que faz com que mesmo os outros povos queiram arrancá-las de nós?
Responde o livro "Lekach Tov" que, apesar de todas as Mitzvót da Torá estarem incluídas dentro de um pacto que fizemos com D'us no Monte Sinai, estas 3 Mitzvót são individualmente chamadas de "pacto". Em relação ao Shabat está escrito: "Os filhos de Israel devem guardar o Shabat, para cumprir o Shabat por todas as gerações, um pacto eterno" (Shemot 31:16). Em relação ao Brit Milá está escrito: "E você deve guardar o meu pacto" (Bereshit 17:9). E em relação à Torá está escrito: "Se não cumprirem o Meu pacto dia e noite, as leis do céu e da terra Eu não teria instituído" (Irmiahu 33:25).
Portanto, como são pactos do povo judeu com D'us, mesmo as crianças já estão obrigadas a cumprir estas 3 Mitzvót. Um bebê já é introduzido ao pacto do Brit Milá com 8 dias de vida. As crianças já são ensinadas, desde pequenas, a não transgredir o Shabat, sendo proibidas de realizar para os seus pais qualquer uma das atividades criativas proibidas no Shabat. E os pais já ensinam, desde muito cedo, Torá para os seus filhos, acompanhando os seus estudos e seu crescimento espiritual.
Estas 3 Mitzvót são tão fundamentais e vitais para o povo judeu que o nosso Yetzer Hará (má inclinação), quando quer nos derrotar, ataca diretamente neste três pilares. Por isso se repetem, de geração em geração, decretos nos proibindo de cumpri-las. Mas o povo judeu nunca desistiu de manter nossos pactos com D'us. Mesmo em épocas nas quais vigoraram decretos proibindo as Mitzvót, mesmo quando havia pena de morte, muitos deram suas próprias vidas para manter nossos pilares. Mesmo nos momentos em que era impossível cumprir abertamente estas Mitzvót, elas foram cumpridas em segredo. Um exemplo é a antiga União Soviética. Em épocas em que havia proibição de qualquer prática religiosa, sob o risco de ser enviado para a Sibéria, a cerimônia de Brit Milá era feita em garagens e porões das casas, diante de poucos familiares, para não levantar suspeitas dos agentes do governo. Muitas vezes as famílias tinham que esperar o momento certo e o Brit Milá acontecia quando os bebês já tinham mais de 1 ano de idade.
Atualmente vivemos uma época de liberdade religiosa. Apesar do antissemitismo estar cada vez mais presente, na mídia e nos ataques isolados contra a comunidade judaica em todo o mundo, não existem decretos que nos proíbem de cumprir as Mitzvót. Mesmo na Rússia, atualmente os judeus são livres para cumprir suas Mitzvót. Porém, apesar desta liberdade, grande parte do povo judeu está tão afastada que abandonou completamente as Mitzvót. Não conhecemos mais as leis de Shabat, a Torá não é mais ensinada aos nossos filhos, e muitos estão deixando de se importar até mesmo com o Brit-Milá. Isto nos prova que o pior inimigo do povo judeu não é nem os antissemitas nem os ataques de terroristas árabes. Nosso pior inimigo é o comodismo e a ignorância dos ensinamentos da Torá.
Devemos aproveitar nossa liberdade para conhecer os ensinamentos pelos quais nossos antepassados deram a vida para manter. Devemos ter orgulho da nossa Torá, que encheu o mundo inteiro de justiça e sabedoria. Há mais de 3 mil anos a Torá é transmitida, de pai para filho, de professor para aluno, em uma corrente que nunca foi interrompida. Agora chegou a nossa vez, precisamos sentir a responsabilidade de transmitir a Torá para as futuras gerações. Não morrendo pela Torá, mas vivendo por ela, e dando vida espiritual para nossos filhos, netos e bisnetos.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3, Hb. 11:8-13

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ENTENDENDO A MENSAGEM - PARASHÁ EKEV 5771

"O Rav Avraham Grodzinski, que chegou a ser o Mashguiach (líder espiritual) da Yeshivá de Slobodka, era um grande erudito de Torá desde muito jovem. Aos 17 anos ele começou a estudar na Yeshivá de Slobodka, tornando-se muito próximo do Rosh Yeshivá (Diretor), Rav Natan Tzvi Finkel. Além de se destacar nos estudos, ele era um rapaz com excelentes Midót (traços de caráter), em especial a vontade de ajudar aos outros. Desde pequeno, enquanto seus amigos iam brincar, ele acompanhava seu pai em trabalhos comunitários voluntários ou se esforçava para cumprir com perfeição a Mitzvá de Achnassat Orchim (receber convidados), pois sua casa estava constantemente cheia de convidados e visitas, em geral rabinos importantes e grandes estudiosos de Torá.
Foi justamente por todas estas boas qualidades que o Rav Ber Hirsch Heller, que na época era o Mashguiach da Yeshivá de Slobodka, quis casá-lo com sua filha, Chasia. Eles saíram algumas vezes para se conhecerem melhor e, como era esperado, ela ficou encantada com o rapaz. Apenas algo a incomodava demais: o Rav Grodzinski era notavelmente manco de uma das pernas. Infelizmente, por este motivo, ela desistiu de se comprometer com ele, deixando seu pai muito triste.
Algum tempo depois Chasia estava subindo no sótão da casa quando escorregou da escada e caiu, quebrando imediatamente a perna. Sabendo que nada ocorre por acaso, ela refletiu sobre os motivos pelos quais D'us teria mandado aquele sofrimento. O único motivo que veio em sua cabeça foi a tristeza que havia causado ao pai por ter desistido de se casar com o Rav Avraham Grodzinki, um rapaz com tanto potencial e tão boas Midót. Ficou arrepiada ao notar que havia quebrado justamente a mesma perna que ele mancava.
Arrependida de sua decisão equivocada, ele comunicou ao pai que gostaria se comprometer com o Rav Avraham Grodzinski, trazendo muita alegria para ambas as famílias. Após algum tempo eles finalmente se casaram e construíram uma casa com muita Torá e muito Chessed (bondade), cujas portas estavam sempre abertas para qualquer necessitado"
D'us está constantemente nos mandando "recados". Será que estamos "sintonizados" para escutar e entender o que Ele nos diz?
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Na Parashá desta semana, Ekev, Moshé continuou seu discurso de despedida, enfatizando ao povo judeu a necessidade de reforçar a Emuná (fé) no momento em eles estavam prestes a entrar na Terra de Israel. Por que ele sentiu a necessidade de reforçar a Emuná do povo justamente neste momento? Pois o decreto de permanecer 40 anos vagando no deserto foi consequência justamente da falta de Emuná. Como o povo havia passado por muitos sofrimentos e dificuldades, principalmente após alguns erros graves cometidos e os conseqüentes castigos recebidos, Moshé tentou encorajá-los e motivá-los, como está escrito: "E você deve saber em seu coração que, da mesma forma que um pai castiga seu filho, assim D'us castiga vocês" (Devarim 8:5). Que ensinamento Moshé quis transmitir ao comparar os castigos de D'us com a forma como um pai castiga seu filho?
O primeiro ponto é que um pai só castiga seu filho por amor e pelo seu crescimento. O pai sofre quando precisa castigar seu filho, mas sabe que o castigo é importante para que ele não continue nos caminhos errados. D'us também nos manda sofrimentos somente por amor e para o nosso próprio benefício. D'us tem controle sobre todo o universo, não há nada que Ele não possa fazer. Portanto, quando chega sobre nós alguma dificuldade, certamente esta é a vontade de D'us. Por isso, sempre que estivermos em um momento doloroso ou passando por uma dificuldade, mesmo quando não conseguimos entender racionalmente porque estamos passando por isso, precisamos ter a certeza de que D'us está fazendo por bondade infinita. D'us não foi obrigado a criar o mundo, Ele criou apenas por bondade e nos mantém vivos por bondade. Portanto, entendemos de maneira lógica que também os sofrimentos são baseados na Sua característica de bondade.
Mas há outro ponto importante que podemos aprender da comparação dos castigos de D'us com os castigos de um pai. Toda vez que o filho comete um erro, o pai tenta conversar. Se a conversa não resolve, o pai dá uma bronca. Se mesmo assim a bronca não funciona, então o pai castiga o filho. De que forma o pai castiga seu filho? De maneira que o filho entenda seu erro e o corrija. Se o filho não aprender nada com o castigo e voltar a errar, é sinal de que o castigo não atingiu seu objetivo. Este é também um dos principais propósitos pelo qual D'us nos castiga: para que possamos melhorar algum aspecto do nosso comportamento e não voltar a errar.
Explica o Rav Avraham Grodzinski, Mashguiach da Yeshivá de Slobodka, que durante muitos séculos o povo judeu teve grandes profetas, como Moshé Rabeinu e Eliahu Hanavi. A profecia era o canal de comunicação que D'us utilizava para advertir o povo sobre os erros que estavam cometendo. Mesmo quando não eram erros grosseiros e evidentes, os profetas conseguiam investigar o coração das pessoas e apontar com precisão o que precisava ser consertado. Mas atualmente não temos mais profetas. Então como D'us se comunica conosco? Como podemos saber o que é necessário corrigir e consertar em nossos atos e características?
A resposta é uma das chaves mais importantes para o nosso verdadeiro crescimento espiritual: quando terminou a profecia no mundo, D'us passou a demonstrar Sua preocupação e a se comunicar conosco através dos sofrimentos. Isto quer dizer que, quando uma pessoa está passando por uma dificuldade ou sofrimento, é D'us que está comunicando, por amor, que algo em sua vida precisa ser melhorado. Portanto, o sofrimento é um grande presente de D'us, uma oportunidade de consertar nossos erros e chegar à perfeição. O Talmud explica que mesmo pequenas dificuldades, como tentar pegar duas moedas no bolso e saírem três, também são considerados sofrimentos e carregam consigo uma mensagem.
Mas deste ensinamento do Rav Avraham Grodzinski fica uma pergunta óbvia: quando D'us se comunicava conosco através de profecia, a mensagem era direta e facilmente entendida. Agora que Ele se comunica através dos sofrimentos, como saber exatamente qual é a mensagem e o que devemos melhorar?
A resposta está em um dos fundamentos do judaísmo: D'us sempre pune uma pessoa "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, da mesma maneira que cometemos um erro assim somos castigados. A Torá está repleta de exemplos deste comportamento de D'us. Os egípcios afogavam os bebês judeus no Rio Nilo e foram afogados no Mar Vermelho. Shimshon (Sansão) pecou com seus olhos e foi castigado através da cegueira. A pessoa que transgredia falando Lashon Hará (maledicência), tentando com seu ato causar o afastamento entre as pessoas, era castigada passando uma semana isolada do resto do povo. E assim há inúmeros casos na Torá onde podemos encontrar esta marcante característica de D'us.
Portanto, a comunicação de D'us continua sendo direta. Pelo fato de D'us nos castigar "Midá Kenegued Midá", se pararmos para refletir ao passarmos por um sofrimento, encontraremos o que precisamos mudar. Se alguém grita conosco, provavelmente estamos sendo desrespeitosos com alguém. Se alguém nos rouba, provavelmente estamos sendo desonestos em alguma área da vida. Se queimamos a língua, provavelmente estamos falando Lashon Hará (maledicência) ou mentiras. E assim com todos os tipos de sofrimentos.
Quando passamos por sofrimentos, muitas vezes tentamos escapar desta reflexão, principalmente ao utilizar fatores externos para explicar as nossas dificuldades. Por exemplo, muitos acham que suas dificuldades são sempre resultado de Ain Hará (inveja). Outros imediatamente verificam as Mezuzót para certificar que estão em ordem. É verdade que existe Ain Hará, uma força espiritual que pode causar danos, e por isso devemos tomar cuidado para não despertar a inveja nos outros. É verdade que devemos verificar periodicamente nossas Mezuzót para certificar que nenhuma letra está apagada ou danificada. Mas não podemos perder o foco principal dos sofrimentos, que é a reflexão, buscar algum tipo de crescimento nos nossos atos. Não podemos esquecer que os sofrimentos são uma mensagem clara de D'us nos dizendo que devemos crescer.
Temos que tomar apenas o cuidado de utilizar este ensinamento apenas para nós mesmos. É uma grave transgressão ver uma pessoa sofrendo e, ao invés de ajudá-la e confortá-la, ficar tentando buscar motivos para o sofrimento dela, imaginando que transgressão grave ela pode ter cometido. Esta forma de reflexão deve ser aplicada apenas para as nossas próprias dificuldades e sofrimentos.
D'us não gostaria de nos mandar sofrimentos. Ele nos manda bondades o tempo inteiro para que possamos refletir e consertar nossos erros. Mas infelizmente não prestamos atenção a tudo de bom que recebemos. Um surdo pagaria milhares de dólares para voltar a escutar, mas escutamos tudo e não damos valor. Um cego daria todo seu dinheiro para ter de volta sua visão, mas enxergamos e não apreciamos. Um paralítico trocaria até seu último centavo para levantar da cadeira de rodas e andar, mas andamos e nem prestamos atenção na bondade que estamos recebendo. E pelo fato de não refletirmos e corrigirmos nossos erros através das coisas boas, D'us precisa nos mandar sofrimentos, pois isto nos balança, nos desperta e nos faz pensar na vida. Ele faz isso apenas por amor e bondade, não o amor limitado de um pai, mas um amor ilimitado que apenas D'us pode sentir por nós.
Quando um pai dá uma bronca ou um castigo, ele não quer que seu filho fique depressivo. Ao contrário, ele quer que seu filho utilize o ensinamento de uma maneira positiva, consertando o que estava errado. D'us nos ama muito mais do que um pai ama seu filho. Cada sofrimento é resultado de amor e uma sabedoria infinita. D'us não se revela para nós de maneira aberta neste mundo e, por isso, pode ser que sairemos daqui sem entender muitos dos sofrimentos pelos quais passamos na vida. Mas uma coisa podemos ter certeza: através dos sofrimentos D'us está se comunicando conosco, Ele está demonstrando que se importa. Ele quer nos ensinar a escutar Suas mensagens que chegam através das dificuldades para que possamos, a cada dia, nos conectar um pouco mais com Ele para toda a eternidade.
Shabat Shalom
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3, Hb. 11:8-13