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sábado, 26 de março de 2016

UTENSÍLIOS NAS MÃOS DE D'US - PARASHAT TZAV 5776

Carlinhos era um garoto curioso. Certo dia, ao observar seu avô escrevendo em um caderno, perguntou se estava escrevendo algo sobre ele. O avô sorriu e disse ao netinho:

- Sim, estou escrevendo algo sobre você. Entretanto, mais importante do que as palavras que estou escrevendo é este lápis que estou usando. Espero que você seja como ele quando crescer.

O menino olhou para o lápis e, não vendo nada de especial, comentou com o avô que parecia um lápis igual a todos os outros que ele já tinha visto. Questionou qual era a comparação do lápis com ele. O avô deu um sorriso e explicou:

- Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades em um lápis que, se você conseguir tê-las, será uma pessoa de bem e em paz com o mundo - respondeu o avô.

A primeira qualidade: assim como o lápis, de vez em quando você vai ter que parar o que está escrevendo e usar um "apontador". Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final ele se torna mais afiado. Portanto, saiba suportar as adversidades da vida, porque elas farão de você uma pessoa mais forte e melhor.

A segunda qualidade: assim como o lápis, permita que seja apagado o que está errado. Entenda que corrigir uma coisa errada que fizemos é muito importante para nos trazer de volta ao caminho certo.

A terceira qualidade: assim como no lápis, o que realmente importa não é a madeira ou sua forma exterior, mas a grafite que está dentro dele. Portanto, sempre cuide daquilo que tem dentro de você. O seu caráter será sempre mais importante do que a sua aparência.

A quarta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo o que você fizer na vida deixará traços e marcas na vida das pessoas. Portanto, procure ser consciente de cada ação, deixe um legado, e marque positivamente a vida das pessoas.

E, finalmente, a última e mais importante qualidade: assim como o lápis, você pode fazer coisas grandiosas. Mas nunca se esqueça de que existe uma mão que guia os passos do lápis, e que sem ela, o lápis não tem qualquer utilidade. Também em nossas vidas podemos fazer coisas grandiosas, mas sem nunca esquecer a "mão" que nos guia: D'us.
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Nesta semana lemos a Parashat Tzav (que literalmente significa "Ordene"). Um dos assuntos da Parashat é a consagração de Aharon e seus filhos como os Cohanim (sacerdotes) que fariam os serviços do Mishkan (Templo Móvel). No processo de consagração, Moshé falou ao povo: "Isto é o que D'us ordenou a ser feito" (Vayikrá 8:5). Depois disso Moshé começou a preparar Aharon e seus filhos, auxiliando no banho deles e ajudando-os a vestir as roupas de sacerdócio.

Porém, tudo o que Moshé fazia era de acordo com a vontade de D'us. Então por que justamente neste momento, antes de ajudar Aharon e seus filhos a se banhar e se vestir para o sacerdócio, ele sentiu a necessidade de anunciar "isto é o que D'us ordenou a ser feito"? Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que Moshé teve medo que as pessoas interpretassem erroneamente que ele estava fazendo aqueles atos apenas como uma forma de se autoglorificar. Por isso, para tirar qualquer suspeita, ele sentiu a necessidade de avisar ao povo que aquela não era uma decisão sua, e sim uma ordem de D'us para que ele ajudasse no banho e nas vestimentas dos Cohanim.

Porém, este explicação de Rashi é difícil de ser entendida. Ajudar a dar banho e a vestir alguém não parece ser algo muito honroso, que traz prestígio para quem o faz. Então por que Moshé teve medo que as pessoas pensariam que ele estava se autoglorificando com estes atos? E a pergunta fica ainda mais difícil de acordo com o Rambam zt"l (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), pois em sua obra "Mishnê Torá", no capítulo sobre as Halachót (leis) dos reis, ele escreve que é proibido um rei servir como ajudante de uma casa de banho. Moshé, por seu papel de liderança sobre o povo judeu, tinha status de rei. Então por que D'us exigiu que Moshé, apesar de sua posição tão elevada, fizesse atos que aparentemente o degradavam?

O mesmo ocorreu na história de Purim. O rei Achashverosh, sentindo-se endividado com Mordechai por ele ter salvado a sua vida, não sabia como dar-lhe o pagamento devido. Ele se aconselhou com seu ministro Haman, mas sem mencionar que a recompensa era para Mordechai. Haman, que constantemente buscava honra e prestígio, pensou que o rei se referia a ele. Sugeriu então que a pessoa deveria passear pela cidade montada no cavalo do rei, vestindo as roupas do rei e com alguém importante na frente puxando o cavalo e anunciando "Assim é feito com aquele que o rei deseja honrar". O rei, satisfeito com a sugestão, falou para Haman: "Vá imediatamente e faça para Mordechai tudo o que você me sugeriu". O Talmud (Meguila 16a) acrescenta ainda que Haman não apenas teve que puxar o cavalo de Mordechai em público, mas também teve que fazer a barba de Mordechai e ajudá-lo no banho. Porém, como entender este ensinamento do Talmud? Mesmo que o rei Achashverosh queria honrar Mordechai, por que ele precisava rebaixar e humilhar desta maneira Haman, um de seus mais altos oficiais do reinado?

Responde o Rav Yohanan Zweig que ser barbeiro ou ajudante de banho de alguém que quer apenas se enfeitar e se arrumar realmente pode ser algo degradante para alguém de grande estatura. Por isso, é proibido para um rei, por causa de sua honra perante o povo, fazer este tipo de serviço. Porém, se estes atos não forem apenas por embelezamento, e sim como parte do engrandecimento de outra pessoa, que trará mais honra ao próximo, neste caso este ato não é considerado algo degradante nem mesmo para alguém de elevada estatura. Quando o rei Achashverosh pediu para Haman cuidar pessoalmente da preparação de Mordechai, não o fez com intenção de rebaixá-lo ou humilhá-lo. Ser visto como aquele que deu honra para Mordechai seria considerado para Haman também algo honroso.

O mesmo se aplica em relação à Moshé. Como o ato de banhar e vestir Aharon e seus filhos era algo que traria honra para eles, então Moshé também seria honrado com estes atos. Por isso ele se preocupou que as pessoas poderiam pensar que ele fez esta escolha sozinho, pela sua própria honra. Como neste caso ajudar a dar banho e se vestir era algo em honra dos Cohanim, isto também trazia honra a quem fazia. Portanto, não havia nenhuma contradição com estes atos e o status real de Moshé.

Daqui podemos aprender algo muito importante. Não importa o que nós façamos na vida, se fazemos pela honra de D'us, então isto também traz honra para nós. Uma das doenças que mais aflige a humanidade atualmente é a depressão. As pessoas sentem que não tem nenhum valor, pois não são atores de sucesso, presidentes de multinacionais ou jogadores de futebol famosos. As pessoas se sentem desvalorizadas, sentem que suas atividades cotidianas são medíocres. Isto é um grande erro, pois mesmo as atividades que poderiam ser até vistas como degradantes, quando são feitam em honra de D'us, se transformam em trabalhos honrosos. Aprendemos isto do primeiro serviço matinal que o Cohen Gadol fazia no Mishkan: o "Trumat HaDeshen", que consistia em retirar as cinzas do "Mizbeach" (altar de sacrifícios) que haviam sobrado do dia anterior. Apesar deste serviço de "limpeza" parecer algo baixo para alguém da estatura do Cohen Gadol, na prática não havia nenhuma degradação em fazer este tipo de serviço, pois como era feito em honra de D'us, isto era uma grande fonte de honra para o Cohen Gadol.

O contrário também é válido. Não importa o quanto uma pessoa possa ter um trabalho honroso, se ele faz as coisas pela sua própria honra e não pela honra de D'us, então este trabalho não tem valor verdadeiro. Aprendemos isso ao nos aprofundarmos nos versículos da Parashat que descrevem a preparação dos Cohanim para servirem no Mishkan. A Torá descreve que Moshé primeiro imergiu Aharon e seus filhos na Mikve, depois Moshé vestiu Aharon, o Cohen Gadol, com suas roupas sacerdotais, consagrou o Mishkan e todos os seus utensílios, e somente depois Moshé vestiu os filhos de Aharon. Aparentemente os filhos de Aharon ficaram esperando, sem roupa, até que Moshé completasse a consagração do Mishkan. Por que Moshé não os vestiu antes de consagrar o Mishkan?

A mesma pergunta surge quando observamos, na obra do Rambam, que as leis referentes aos Cohanim aparecem na seção "Klei Mikdash" (Utensílios do Santuário). Por que o Rambam achou apropriado ensinar as leis do sacerdócio junto com as leis dos utensílios do Mishkan, como se os Cohanim estivessem "à sombra" dos utensílios, ao invés de dedicar um capítulo especial somente às leis do sacerdócio? O Mishkan tinha uma importância maior do que os Cohanim?

A genialidade Rambam em seu livro de Halachót não está apenas no conteúdo, mas também na forma de classificação e codificação das leis. Ao incluir as leis de sacerdócio no meio das leis dos utensílios do Mishkan, o Rambam está nos ensinando que os Cohanim existiam em função do Mishkan, e eram, portanto, semelhantes aos utensílios no Mishkan. Foi por isso que, antes de vestir a roupa dos Cohanim, Moshé terminou a consagração do Mishkan, pois sem o Mishkan estar pronto e consagrado, o serviço dos Cohanim também não tinha nenhum sentido e valor. Portanto, a Torá está resaltando que a importância de um Cohen é em função do seu serviço Divino, e não em função de si mesmo, e por isso ele não deve sentir honra e orgulho pelo seu trabalho.

Devemos sentir alegria com o que fazemos na vida. Ao invés de invejar aquele presidente ou aquele ator, devemos saber que cada um tem um papel fundamental para o bom funcionamento do mundo. O que seria do mundo se não houvesse as profissões menos prestigiadas? Por exemplo, como o mundo poderia funcionar sem lixeiros? Portanto, o mais importante é fazermos nossas atividades com a intenção de contribuir para a humanidade, e em honra de D'us. Pois mesmo o mais simples lixeiro, que faz suas atividades de maneira humilde e honesta, é muito mais honroso do que um presidente desonesto, egoísta e orgulhoso.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24

sexta-feira, 27 de março de 2015

SER HUMANO, UM PEQUENO GIGANTE - PARASHÁ TZAV 5775

"Certa vez um jovem de uma importante Yeshivá da Europa, que estava se tornando um grande estudioso da Torá e tinha excelentes traços de caráter, ficou noivo. No discurso de noivado ele fez vários agradecimentos, mas em especial agradeceu ao seu professor do 2° ano. Todos estranharam, pois não era muito comum o agradecimento a um professor que havia ensinado há tanto tempo. Mas o jovem explicou que somente por causa da sensibilidade daquele professor ele havia conseguido chegar até onde chegou. E, para que todos entendessem, contou uma história comovente.

Quando ele estava no 2° ano, na época com 7 anos, havia na classe um garoto de família muito rica. Certo dia este garoto rico levou para a escola um caríssimo relógio de pulso. As outras crianças ficaram com inveja, pois naquela época os relógios de pulso eram muitos raros, e nenhuma outra criança possuía um. Na hora do intervalo o garoto saiu para brincar e esqueceu o relógio em cima de sua mesa, mas quando voltou descobriu que o relógio havia desaparecido. Como suspeitaram que um dos colegas de classe havia roubado o relógio, o professor pediu para que todos se levantassem e ficassem de pé ao lado de suas carteiras, enquanto ele revistava os bolsos e as mochilas de cada aluno.

O noivo contou, com a voz emocionada, que ficou apavorado quando o professor começou a chegar perto, pois era ele quem havia roubado o relógio. Ele imaginava a humilhação pública que passaria quando fosse descoberto. Mas algo incrível aconteceu. Quando o professor aproximou-se dele e colocou a mão em seu bolso, encontrou o relógio. Porém, ao invés de anunciar que havia descoberto o ladrão, ele agiu com muita sabedoria. Sem ninguém perceber, escondeu o relógio dentro da manga do seu terno e continuou fingindo que procurava nos outros alunos. Quando terminou, ele voltou para seu lugar e anunciou:


- Eu encontrei o relógio. Mas ao contrário do que vocês imaginaram, não foi nenhum aluno desta sala que o roubou. Foi o Yetzer Hará (má inclinação), que entrou em um dos alunos e conseguiu convencê-lo a roubar o relógio. Mas como ele é um excelente menino, tenho certeza que de hoje em diante se o Yetzer Hará tentar convencê-lo a novamente fazer algo errado ele conseguirá juntar forças para vencê-lo.

Com sua incrível sensibilidade, o professor havia mudado a vida daquele rapaz. Quanta vergonha e humilhação ele poderia ter causado caso revelasse quem era o ladrão? Talvez o aluno até merecesse mesmo uma enorme bronca naquele momento, mas graças à misericórdia daquele professor, o jovem pôde continuar em um caminho correto e conseguiu chegar a ser um estudante de Torá de destaque.
 

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Na Parashá desta semana, Tzav, a Torá continua descrevendo alguns dos serviços executados no Mishkan (Templo Móvel) pelos Cohanim (sacerdotes). A Parashá começa descrevendo um dos serviços mais estranhos que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) fazia: o "Trumat HaDeshen", que consistia basicamente em limpar o Mizbeach (altar de sacrifícios). Os Korbanót, após serem abatidos, eram queimados durante todo o dia e parte da noite sobre o altar, acumulando uma grande quantidade de cinzas. O primeiro serviço matinal do Cohen Gadol era remover do Mizbeach as cinzas que haviam sobrado do dia anterior. Mas por que este serviço, aparentemente tão "baixo", era atribuído justamente ao Cohen Gadol, alguém espiritualmente tão elevado?

Explica o Rabeinu Bechaye (Espanha, 1255 - 1340) que este serviço demonstra o quanto devemos ser humildes diante de D'us, e mesmo o Cohen Gadol precisava se rebaixar e fazer um ato aparentemente degradante. O Rav Shlomo Ephraim (Polônia, 1550 - Praga, 1619), mais conhecido como Kli Yakar, ressalta que as cinzas eram um lembrete para o Cohen Gadol de que, apesar de seu elevado status, ele deveria se comportar com a mesma humildade de Avraham Avinu, que reconheceu o quanto o ser humano é pequeno e insignificante diante de D'us ao declarar: "E eu sou pó e cinzas" (Bereshit 18:27).

Há outro ensinamento que enfatiza a importância de reconhecer o quanto o ser humano é pequeno: "Saiba de onde você veio e para onde você vai... De onde você veio? De uma gota podre. E para onde você vai? Para um lugar de pó, vermes e larvas" (Pirkei Avót 3:1). Nossos sábios também ensinam: "Tenha um espírito muito muito humilde, pois a esperança do "Enosh" (ser humano) são as larvas" (Pirkei Avót 4:4).

Por outro lado, também há diversos ensinamentos dos nossos sábios que parecem ressaltar a grandeza inerente do ser humano. O Talmud (Sanhedrin 37a) afirma que aquele que salva uma única alma de Israel é considerado pela Torá como se tivesse salvado o mundo inteiro. Nossos sábios também ensinam: "O ser humano é muito precioso pois foi criado à Imagem [de D'us]" (Pirkei Avót 3:14).

Em uma análise superficial, parece que há uma enorme contradição entre os ensinamentos dos nossos sábios, pois de um lado parece que o homem é um ser muito elevado, mas de outro lado parece que o homem é um ser inferior. Como entender esta aparente contradição?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que, na realidade, não há absolutamente nenhuma contradição, pois as diferentes opiniões refletem duas diferentes abordagens em relação ao status do ser humano. Enquanto uma abordagem foca no corpo do ser humano, caracterizado pelos desejos materiais mais baixos, a outra abordagem foca a alma do ser humano, cuja grandeza é incomparável.

Uma análise mais detalhada das fontes citadas pelos nossos sábios demonstra esta diferença de abordagem. O serviço de "Trumat HaDeshen" era um lembrete ao Cohen Gadol da natureza passageira do seu corpo, recordando-o que seu final seria o pó. A Mishná no Pirkei Avót também foca apenas na parte corpórea do ser humano e utiliza a linguagem "Enosh" (ser humano), ao invés de utilizar a linguagem mais comum, "Ish". A linguagem "Enosh" representa os aspectos mais baixos do ser humano, como os seus desejos físicos. A Mishná está nos advertindo para não nos tornarmos orgulhosos por causa das nossas realizações materiais, pois como todas as coisas finitas, elas não duram muito. A Mishná não está ensinando que devemos nos sentir como pessoas inerentemente sem valor, e sim que o sucesso na área material não tem nenhum valor intrínseco. O mesmo vale para a Mishná que ensina que viemos de uma gota podre e iremos para um lugar de vermes e larvas, ela está se referindo apenas à natureza provisória e passageira do nosso corpo. Em contraste, o ensinamento do Talmud que ressalta a inerente grandeza de cada ser humano está focando no nosso potencial espiritual. A Mishná do Pirkei Avót também ressalta que somos queridos aos olhos de D'us pois fomos criados à Sua Imagem e Semelhança, o que certamente se refere à nossa alma.

Mas por que algumas vezes nossos sábios focam na parte baixa e finita do nosso corpo, enquanto outras vezes eles focam na parte elevada e infinita da nossa alma? Nos ensina o Rav Shlomo Wolbe zt"l (Alemanha, 1914 - Israel, 2005) que há momentos na vida nos quais devemos focar no status baixo e pequeno do nosso corpo, enquanto em outros momentos devemos focar na elevação e na grandeza da nossa alma. O ideal seria lembrarmos sempre que somos limitados, que nossas conquistas materiais e nosso corpo são finitos, pois assim evitaríamos o orgulho e a busca desenfreada pela satisfação dos desejos físicos. Mas é muito arriscado focarmos em como somos pequenos sem antes apreciar nossa grandeza intrínseca. Se a pessoa não tem uma autoestima saudável, focar no quanto ela é pequena pode ser algo muito perigoso. Ao invés da pessoa perceber que não deve se portar com arrogância em relação às suas conquistas e realizações materiais, isto pode fazer a pessoa questionar o valor da sua própria essência. Somente uma pessoa sintonizada com a inerente grandeza da sua essência pode utilizar de uma maneira positiva a ideia de que sua parte física é extremamente baixa.

Este mesmo conceito deve ser aplicado aos pais e professores. É muito comum os educadores focarem nos aspectos negativos de seus alunos ou filhos, justificando que da mesma forma que eles receberam uma educação severa de seus pais e por isso conseguiram se transformar em pessoas saudáveis, assim também eles querem educar seus alunos e filhos. Mas muitos educadores defendem a ideia de que as pessoas das gerações passadas tinham a autoestima muito mais saudável e, portanto, os pais e professores podiam utilizar uma educação mais rígida sem medo de consequências negativas. Porém, atualmente as crianças e jovens são muito mais sensíveis e têm menos autoestima. Por isso é muito perigoso focar de forma muito severa o lado negativo delas, mesmo que seja com a intenção de educar.

Além disso, mesmo se um pai ou um professor sente que seu aluno ou seu filho pode lidar com um tipo de abordagem mais rigorosa, é bom levar em consideração um importante ensinamento do Talmud (Sotá 47a): "Sempre a mão esquerda deve afastar, enquanto a mão direita deve aproximar". O Talmud está nos ensinando que a abordagem mais rígida deve ser utilizada com a nossa mão mais fraca, a esquerda, enquanto que a abordagem mais leve e bondosa deve ser utilizada com nossa mão mais forte, a direita. O Talmud enfatiza a palavra "sempre", indicando que é um princípio que deve ser utilizado sem exceções. Alguns educadores atuais sugerem que, para cada crítica feita a um filho ou um aluno, devem ser feitos quatro comentários positivos.

Do serviço de "Trumat HaDeshen" aprendemos que, para manter nossa humildade, é necessário lembrar sempre da natureza passageira e finita do nosso corpo. Mas apesar desta ser uma lição muito importante, não é uma lição completa, e devemos sempre nos lembrar também do nosso incrível valor espiritual. Pois o segredo do verdadeiro sucesso no judaísmo, em todas as áreas, é o equilíbrio.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
 
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24

sexta-feira, 14 de março de 2014

MILAGRES QUE SALVAM VIDAS - PARASHÁ TZAV E PURIM 5774

“O mundo inteiro ainda aguarda ansiosamente notícias do Boeing 777 da Malaysia Air, que partiu na madrugada de sexta para sábado (08/03) de Kuala Lumpur (Malásia), com destino à Pequim, e simplesmente desapareceu sem deixar rastros. Após quase uma semana sem notícias, são poucas as esperanças de um desfecho feliz. As hipóteses vão de defeito mecânico a ataque terrorista. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que o voo MH370, que decolou com 239 passageiros, poderia ter decolado com mais um, se não fosse a Providência Divina. Um milagre que começou há poucos meses atrás.

Em janeiro deste ano, Andy, um judeu australiano não observante, decidiu visitar diversos países asiáticos. Ele entrou em contato com seu agente de viagens, um judeu ortodoxo de Israel, e enviou para ele o itinerário. Entre as solicitações de Andy estava um voo saindo da Malásia no dia 08/03, que era Shabat. Ao responder a solicitação de Andy, o agente de viagens informou o preço total dos voos e, sem maiores esclarecimentos, fez uma pequena alteração nas datas, mudando a saída da Malásia do dia 08/03 para o dia 07/03.

Quando Andy recebeu o e-mail do seu agente de viagens, gostou muito dos preços, mas se irritou com a mudança proposta. Ele escreveu novamente ao agente, reiterando que precisava permanecer mais um dia na Malásia, e exigiu a emissão do bilhete nas datas originalmente propostas. Mas o agente de viagens não voltou atrás. Preocupado com seu companheiro judeu que desrespeitaria o Shabat, ele informou a Andy que nunca colocava judeus durante voos no Shabat e, portanto, não poderia emitir aquela passagem na data desejada. O agente então sugeriu que Andy fizesse sozinho a emissão do bilhete daquele voo, enquanto ele cuidaria de emitir os bilhetes das outras viagens do itinerário. Andy concordou e decidiu cuidar pessoalmente da emissão do trecho entre a Malásia e a China. Ainda com uma ponta de esperanças, o agente insistiu mais uma vez para que Andy repensasse sua decisão.

Algumas horas depois, o agente de viagens recebeu um e-mail de Andy, no qual ele dizia que havia reconsiderado a data da viagem. Andy reconhecia no seu e-mail que deveria ser um judeu um pouco mais observante e, por isto, estava disposto a viajar um dia antes para não transgredir o Shabat. Ele inclusive pediu para que o agente de viagens lhe indicasse algum local na China onde ele pudesse passar o Shabat com comida Kasher. E assim, com a Mão de D’us orquestrando um milagre oculto, Andy partiu da Malásia na madrugada de quinta para sexta (07/03), ao invés de embarcar no meio do Shabat, no dia 08/03. Esta mudança salvou a vida de Andy” (História real).

Ensinam os nossos sábios: “Mais do que a pessoa guarda o Shabat, o Shabat guarda a pessoa”. Andy sentiu na pele o quanto este ensinamento é verdadeiro. Em meio a uma enorme tragédia, pelo menos uma história terminou com final feliz. E, não por coincidência, esta história ocorreu uma semana antes da festa de Purim, a data na qual relembramos que não existe acaso.

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Nesta semana lemos a Parashá Tzav, que continua nos ensinando sobre os Korbanót (sacrifícios) que eram oferecidos no Mishkan, entre ele o “Korban Todá”, que literalmente significa “Sacrifício de agradecimento”. Ele era oferecido por pessoas que haviam passado por algum grande perigo de vida. O Talmud (Brachót 54b) enumera quais perigos obrigavam a pessoa que saiu ilesa a trazer um Korban Todá: aquele que atravessou o oceano, aquele que atravessou o deserto, aquele que passou por uma grave doença e aquele que esteve na prisão. O propósito deste Korban era despertar na pessoa o agradecimento a D’us e o entendimento de que a salvação vem apenas através Dele, e não através de meios naturais, pois todas as criaturas são apenas ferramentas em Suas mãos, utilizadas para cumprir a Sua vontade.

Isto conecta a Parashá com a festa que se inicia logo após o fim do Shabat: Purim. Não é uma festa na qual comemoramos e agradecemos pela salvação de uma única pessoa, como ocorria quando alguém oferecia um Korban Todá, mas nesta festa nos alegramos e recordamos a salvação de um povo inteiro. Purim é a festa na qual revivemos a incrível salvação do povo judeu nos dias de Mordechai e Ester, quando conseguimos cancelar o decreto de Haman, a “Solução Final” proposta por ele contra os judeus, a tentativa de extermínio do povo inteiro em um único dia. Milagrosamente uma situação que parecia perdida se reverteu, e o que se encaminhava para uma gigantesca tragédia terminou como um dia de festa para todas as gerações.

Neste ano a festa de Purim tem uma pequena diferença em relação aos outros anos. Como este ano é bissexto, é acrescentado nele mais um mês. Na prática, ao invés de apenas um mês de Adar, temos dois meses, isto é, Adar I e Adar II. Portanto, há duas opções de quando comemorar a festa de Purim, em Adar I ou em Adar II. Qual o critério utilizado para decidir em qual mês devemos comemorar Purim? Explica o Talmud (Meguilá 6b) que devemos comemorar Purim em Adar II, para que a salvação de Purim esteja o mais próximo possível da salvação de Pessach, que comemoramos no mês de Nissan, o próximo mês depois de Adar. Mas o que significa este motivo que, segundo o Talmud, se sobrepõe às outras razões pelas quais Adar I seria mais propício para comemorar Purim? Qual a relação entre Pessach e Purim, festas aparentemente tão diferentes?

Explicam nossos sábios que realmente Purim e Pessach têm algumas diferenças marcantes. Por exemplo, enquanto em Pessach ocorreram milagres abertos, como as 10 pragas e a abertura do mar, em Purim os milagres foram todos ocultos, e somente prestando muita atenção nos detalhes e refletindo sobre a forma como tudo ocorreu é que conseguimos perceber a atuação de D’us nos bastidores. Porém, apesar das diferenças, estas duas festas também têm pontos em comum muito interessantes.

Entre as semelhanças, há algo que nos ensina uma importante lição. Se observarmos com atenção, perceberemos que tanto a salvação do Egito quanto a salvação de Purim começaram com passos que iam em direção contrária à salvação. No momento da libertação do Egito, D’us ordenou que cada judeu pedisse aos seus vizinhos roupas e objetos de ouro e prata. E foi justamente por causa destes utensílios de valor que os egípcios decidiram perseguir os judeus quando eles já estavam há alguns dias caminhando pelo deserto. Em uma primeira análise, nos parece que esta ordem de D’us para que os judeus pedissem aos egípcios objetos de valor foi uma atitude equivocada, pois levou os egípcios a novamente ameaçarem o povo judeu. Por que D’us fez as coisas acontecerem desta maneira, induzindo os egípcios a perseguirem o povo judeu mais uma vez? Em primeiro lugar, para que os egípcios entrassem no Mar Vermelho e fossem afogados, recebendo um castigo “medida por medida” por terem atirado os bebês judeus no Rio Nilo. E em segundo lugar, para internalizar no coração do povo judeu a certeza de que cumprir a vontade de D’us, mesmo quando na nossa visão limitada parece ser algo ilógico, sempre vale a pena, pois no final de contas os judeus foram salvos e ainda ficaram com aquela grande fortuna dos egípcios.

A história de Purim também começou com passos que iam em direção contrária à salvação. Mordechai convocou os judeus a desafiarem o rei Achashverosh, proibindo a participação de todo o povo no banquete oferecido pelo rei. Além disso, Mordechai também se recusava a se curvar diante de Haman, indo assim contra as leis da Pérsia. Aparentemente foram estas atitudes que colocaram o povo judeu diante de uma ameaça de extermínio, pois deixaram Haman furioso e fizeram com que ele estendesse seu ódio a todo o povo judeu. Porém, a verdade é que os atos de Mordechai foram os verdadeiros responsáveis pela salvação, pois apesar de irem contra a lógica humana, os atos de Mordechai estavam de acordo com a vontade de D’us. Como na salvação do Egito, os atos de Mordechai também tiveram dois propósitos. Em primeiro lugar, fez com que os inimigos do povo judeu fossem castigados “medida por medida”. Por exemplo, o ódio fez com que Haman construísse uma forca para pendurar Mordechai, mas ele mesmo acabou sendo enforcado nela. Em segundo lugar, para novamente internalizar no coração do povo judeu que mesmo uma conduta que pareça ilógica aos nossos olhos, mas que está de acordo com a vontade de D’us, certamente sempre trará bons resultados. Não apenas os judeus da Pérsia foram salvos, mas saíram poderosos e respeitados por todos, e puderam inclusive pegar todos os bens daqueles que queriam destruí-los, como ocorreu na saída do Egito.

Desta semelhança entre as duas salvações fica um importante ensinamento: não há nada melhor do que cumprir a vontade de D’us. Quando fazemos o que é correto, mesmo que em um primeiro momento não conseguimos entender a lógica, a longo prazo percebemos os benefícios. Como no caso do voo MH370, vemos que não somos nós que cuidamos das Mitzvót, são elas que, no final das contas, cuidam de nós.

SHABAT SHALOM e PURIM SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24
 

sábado, 23 de março de 2013

CONTROLANDO AS TENTAÇÕES - PARASHÁ TZAV E PESSACH 5773

CONTROLANDO AS TENTAÇÕES - PARASHÁ TZAV E PESSACH 5773 (22 de março de 2012)

"Um fumante foi se consultar com um terapeuta, buscando ajuda para controlar seu vício de fumar vários maços de cigarro por dia. Muitas vezes ele havia tentado parar de fumar, mas sem sucesso. O terapeuta, para ajudá-lo, admitiu ao paciente:
- Sabe, eu também costumava fumar muito. Tentei parar, convencendo a mim mesmo que cigarros são nojentos, prejudiciais à minha saúde e perigosos também para minha família. E funcionou, mas apenas por alguns poucos dias. Passado algum tempo, eu voltei a me convencer que fumar não era algo assim tão ruim. Tentando racionalizar, decidi que voltaria a fumar apenas alguns poucos cigarros por dia, e sempre longe da minha família, de preferência onde ninguém poderia me ver. E assim foi no início, mas com a volta do hábito de fumar, tive uma forte recaída e logo estava fumando tanto quanto antes, mesmo na presença da minha família.
- E como você realmente conseguiu parar de fumar? - perguntou o paciente, curioso.
- Certa vez – disse o terapeuta – eu tentei uma estratégia diferente. Peguei um cigarro na mão, olhei fixamente para ele por alguns instantes e disse para mim mesmo: 'Sim, este cigarro me trará muito prazer se eu fumá-lo. E o que eu desejo agora é fumá-lo para sentir este prazer. Mas eu decidi que vou parar.
- Esta mudança de atitude funcionou para conter meu vício, e depois disso eu nunca mais fumei – finalizou o terapeuta – O motivo de esta técnica ter funcionado é que eu não tentei me enganar, fingindo que o cigarro não me dava prazer. Em vez disso, eu decidi admitir para mim mesmo que eu desejava fumar um cigarro, mas que preferia controlar meu desejo".
Assim deve ser nossa atitude em relação aos nossos vícios. Não podemos tentar nos enganar. Temos que encarar o problema de frente e buscar soluções que possam realmente nos ajudar a fugir dos nossos vícios e desejos, principalmente daqueles que prejudicam as nossas vidas e as vidas das pessoas em volta.

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Nesta semana lemos a Parashá Tzav, que continua descrevendo as leis dos Korbanót (sacrifícios) que eram oferecidos no Mishkan (Templo Móvel). E um dos Korbanót era o "Korban Todá", o sacrifício de agradecimento, trazido por uma pessoa que havia passado por um grande risco de vida. O Korban servia para a pessoa reconhecer que a mão de D'us estava por traz de sua salvação, evitando assim o grave erro de pensar que as coisas acontecem por acaso, sem controle. E muitas vezes esta Parashá é lida no "Shabat HaGadol", o último Shabat antes da festa de Pessach, que começa na próxima segunda feira de noite (25/03). Talvez uma das conexões da Parashá Tzav com a festa de Pessach é que, da mesma forma que o Korban Todá era um lembrete para a pessoa não se esquecer da "Mão de D'us" em sua salvação, assim também é Pessach, a festa em que reunimos nossas famílias, principalmente durante o Seder de Pessach, e recordamos de todos os milagres que D'us fez para nos salvar do Egito.

A salvação do Egito não foi apenas uma salvação física. O povo judeu estava em uma terrível queda espiritual. O profeta Yechezkel, para descrever a decadência espiritual do povo judeu durante a escravidão no Egito, após dois séculos no lugar mais promíscuo e idólatra do mundo, utiliza a seguinte expressão: "Ve At Eirom VeEria" (Yechezkel 16:7), que significa literalmente "você estava nua e sem roupa". O que significa esta expressão, e por que o profeta utilizou duas linguagens aparentemente redundantes, nu e sem roupa?

Além disso, o profeta Yechezkel também descreve que quando D'us viu o povo judeu naquele nível tão baixo, sob a terrível opressão egípcia, Ele falou: "Vocês devem viver através do seu sangue, vocês devem viver através do seu sangue" (Yechezkel 16:6). O Midrash (parte da Torá Oral) ensina que as duas menções do sangue se referem ao sangue do Brit Milá (circuncisão) e ao sangue do Korban Pessach. O que isto significa? O povo judeu estava em um nível espiritual muito baixo, também imersos em idolatria e promiscuidades, e por isso não tinham méritos suficientes para serem salvos por D'us. Mas com as Mitzvót do Brit Milá e do Korban Pessach, eles conseguiram se elevar e atingir o nível necessário para a salvação. Porém, como o sangue do Brit Milá e o sangue do Korban Pessach serviram como antídoto para o nível espiritual baixo do povo judeu, descrito como "nu e sem roupa"?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a linguagem "Eirom", que significa "nu", se refere a um nível de nudez no qual a pessoa sente a vergonha e a humilhação de estar sem roupa. É o mesmo termo que a Torá utiliza quando Adam e Chava (Adão e Eva), após terem comido do fruto proibido, tiveram consciência de sua nudez e se esconderam por causa da vergonha. Já a linguagem "Eria", que significa "sem roupa", vem da raiz "Ervá", uma linguagem que está relacionada com libertinagem e imoralidade. É um nível no qual a pessoa perde a sua grandeza de ser humano e não sente mais nenhuma vergonha ou humilhação por estar nu. Os animais não tem nenhuma vergonha de sua nudez, pois a vergonha é um sentimento inato do ser humano. Quando uma pessoa cai neste nível, ela desce a um grau igual ao dos animais. De onde vem esta dessensibilização? Do constante envolvimento com comportamentos imorais.

Da mesma forma que isto ocorre no mundo material, também ocorre em um sentido espiritual. Uma pessoa que se afasta dos caminhos corretos pode sofrer duas consequências espirituais diferentes. Em um primeiro nível, a pessoa comete transgressões mas sente vergonha por isso. Porém, há um nível ainda mais baixo, no qual a pessoa se sente confortável com seus maus atos e perde a sensibilidade, não sentindo nem mesmo vergonha dos seus erros. Neste nível, a pessoa perde o foco do que é requerido dela como ser humano.

Antes da saída do Egito, o povo judeu havia caído no 49º grau de impureza espiritual, em uma gradação que ia até 50. O profeta Yechezkel nos ensina que eles estavam tão dessensibilizados que já não sentiam nenhuma vergonha de estarem "nus espiritualmente", isto é, desprovidos de qualquer espiritualidade. O enorme peso da escravidão, junto com o profundo envolvimento com as idolatrias egípcias, desumanizaram tanto os judeus que eles perderam até mesmo a vergonha de sua condição espiritual tão baixa. Por isso o profeta utilizou as duas linguagens, para demonstrar que não apenas o povo judeu pecava, mas já não sentia nem mesmo a vergonha pelos seus erros.

O Talmud (Sanhedrin 62b) ensina que a idolatria é, na verdade, um meio que a pessoa utiliza para entrar em imoralidades. Enquanto uma pessoa sente vergonha do seu comportamento imoral, ela não pode aproveitar totalmente a libertinagem, pois sua consciência não a deixa. A única maneira é tirar de si a responsabilidade com D'us, e a idolatria é a maneira de atingir esta "liberdade". A escravidão piorou ainda mais a situação, pois o escravo é o protótipo da pessoa que não tem responsabilidade por seus atos e suas consequências futuras, se envolvendo muito mais facilmente em comportamentos promíscuos. Neste contexto, foram necessárias as duas Mitzvót, o Brit Milá e o Korban Pessach, para afastar o povo judeu do caminho da idolatria e da imoralidade, e trazer os méritos necessários para a salvação.

Explica o Rambam (Maimônides) que o Brit Milá é um símbolo de moralidade, sendo especificamente realizado no órgão reprodutor para nos ensinar a elevarmos nossos desejos e energias e canalizá-los ao cumprimento do nosso propósito na vida, o oposto do que fazem os animais, que são completamente dominados e guiados apenas por seus desejos. Ainda segundo o Rambam, o Korban Pessach era a negação final da idolatria. O cordeiro era a divindade egípcia e, portanto, o abate do cordeiro demonstrava a lealdade do povo judeu com D'us. Os dois sangues ajudaram o povo judeu a retomar o foco, possibilitando a redenção.

Quando lemos a Hagadá na noite do Seder de Pessach e dizemos "Se D'us não tivesse tirado nossos antepassados do Egito, nós, nossos filhos e os filhos dos nossos filhos ainda estaríamos subjugados ao Faraó no Egito", estamos reafirmando que se D'us não tivesse nos tirado do Egito, estaríamos até hoje entregues à promiscuidade e à idolatria, dois erros que nos afastam do nosso caminho correto e não nos deixam cumprir o nosso papel espiritual no mundo.

Da mesma forma que o povo judeu foi salvo pelo mérito dos dois sangues, do Brit Milá e do Korban Pessach, que possamos meritar a nossa salvação final voltando nossos corações para D'us em Emuná (fé) completa e canalizando nossos desejos apenas para fazer o que é correto na vida.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24, Hb. 8: 1-6
 
 

sexta-feira, 30 de março de 2012

PARA CIMA E PARA BAIXO AO MESMO TEMPO - PARASHÁ TZAV 5772

"Um grupo de garotos estava reunido sob uma imensa árvore, admirando sua altura. Entre eles estava Shmuel, um garoto muito bonzinho e de coração puro. Um dos garotos teve a idéia de fazer uma competição para ver quem conseguia subir mais alto na árvore, e todos concordaram. A competição começou e, um a um, os garotos tentavam subir, mas passada certa altura, eles caíam. Apenas Shmuel não desistiu. Com coragem e persistência ele foi subindo, pouco a pouco, até chegar ao topo da árvore, vencendo a competição.
A mãe de Shmuel, que estava acompanhando tudo sentada em um banco próximo à árvore, perguntou:
- Shmuel, por que todos os meninos caíram no meio, mas você conseguiu ir até o final?
Shmuel respondeu com um sorriso no rosto:
- Quando os outros meninos estavam tentando chegar ao topo, percebi que todos cometiam o mesmo erro. Quando eles estavam bem alto, olhavam para baixo e, vendo a altura que estavam, se apavoravam e caíam.
- Mas eu fiz diferente - continuou Shmuel - Eu olhei o tempo inteiro para cima. E como meus olhos estavam voltados sempre para cima, por mais alto que eu subisse, eu sentia que ainda estava baixo. Assim eu consegui reunir forças e tranquilidade para chegar até o topo da árvore"
Precisamos viver com a coragem de olhar sempre para cima, investindo no nosso crescimento. Aquele que olha só para baixo fica preso no chão e não consegue atingir o seu potencial. Mas aquele que olha para cima consegue chegar no topo.
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A Parashá desta semana, Tzav, começa com uma Mitzvá pouco convencional, chamada "Trumat HaDeshen". Em que consistia esta Mitzvá? Antes de começar os serviços matinais no Templo, o Cohen (sacerdote) precisava remover todas as cinzas que haviam sobrado das oferendas do dia anterior. Em outras palavras, o Cohen, que era alguém espiritualmente muito elevado, precisava fazer uma faxina, algo aparentemente degradante para sua posição de líder espiritual. Por que uma Mitzva tão "baixa" para alguém tão elevado?
Explica o Kli Yakar, comentarista da Torá, que as cinzas serviam para recordar o Cohen de Avraham Avinu, que reconheceu que o ser humano veio do pó e das cinzas, como ele falou para D'us: "Sou apenas pó e cinzas" (Bereshit 18:27). Isto significa que, justamente pelo Cohen ser alguém tão elevado, era importante que ele colocasse humildade em seu coração, refletindo que o ser humano, no fim das contas, não é nada.
Além deste ensinamento da nossa Parashá, existem na Torá diversas fontes que ressaltam a natureza baixa do ser humano. Por exemplo, o Pirkei Avót diz: "Saiba de onde você veio e para onde você vai... De onde você veio? De uma gota pútrida. E para onde você vai? Para um lugar de pó, vermes e larvas" (Avót 3:1). Há outro Pirkei Avót que ressalta a mesma idéia: "Seja muito, muito baixo de espírito, porque a esperança do ser humano são as larvas" (Avót 4:4).
Vemos, através destas diversas fontes, que o ser humano precisa constantemente se rebaixar e se sentir como se fosse um nada, o pó da terra. Mas há neste conceito uma aparente contradição, pois há diversos ensinamentos que, ao contrário, ressaltam justamente a grandeza inerente do ser humano, como diz o Talmud: "Aquele que salva uma vida, a Torá considera como se tivesse salvado o mundo inteiro" (Sanhedrin 37a). O próprio Pirkei Avót, que ressaltou o lado baixo do ser humano, também ensina o seu lado de grandeza: "O ser humano é precioso, pois ele foi criado à imagem de D'us" (Avót 3:18). O que significa esta contradição? Afinal, o ser humano é uma criatura elevada e preciosa ou uma criação de natureza baixa e desprezível?
Explica o Rav Yehonatan Gefen que não há nenhuma contradição. Os diferentes ensinamentos dos nossos sábios são, na realidade, dois enfoques diferentes sobre o ser humano. Um tipo de ensinamento enfoca a parte material, enquanto o outro enfoca a parte espiritual. Quando nossos sábios ressaltam a natureza baixa do ser humano, se referem ao corpo, aos desejos materiais, que são passageiros. Quando ressaltam a grandeza do ser humano, se referem à nossa alma, de grandeza infinita, uma parte de D'us que temos dentro de cada um de nós.
Mas por nossos sábios escreveram estes ensinamentos de maneira a nos dar a impressão de que existe uma contradição? Pois devemos constantemente utilizar estes dois enfoques juntos no nosso trabalho espiritual. Como fazer isso? Lembrando-se sempre que temos, por um lado, um gigantesco potencial espiritual, mas que por outro lado nossa passagem pelo mundo material é limitada, pois do pó viemos e ao pó voltaremos, e toda nossa oportunidade de crescimento deve ser atingida durante nossa vida limitada. Portanto, devemos aproveitar cada segundo para preencher nosso potencial enquanto ainda temos tempo.
Outro motivo pelo qual nossos sábios trazem os dois lados do ser humano é para nos ensinar que precisamos viver com equilíbrio, pois se focarmos em apenas um deles, é muito fácil desviar do caminho correto. Por exemplo, sem a lembrança de que somos apenas pó e cinzas, podemos nos tornar arrogantes. Mas o outro lado é ainda mais perigoso. Sem a consciência de que somos seres elevados, criados à imagem e semelhança de D'us, uma pessoa pode tornar-se depressiva e deixar de dar valor à sua própria essência. É um dos motivos pelo qual vemos cada vez mais pessoas tristes e sem motivação na vida.
Outro efeito negativo de esquecer nosso lado espiritual elevado é a pessoa se conectar aos desejos materiais com tanta intensidade que passa a se comportar como um animal, completamente controlada por suas vontades.
Portanto, podemos perceber que estes dois enfoques, de que temos um lado baixo e um lado elevado, devem ser usados juntos em várias áreas da vida. Mas infelizmente na área de educação das crianças, uma das mais importantes na formação de pessoas equilibradas e felizes, acabamos negligenciando este conceito e focando muito mais no lado negativo do que no lado positivo. Por exemplo, quando os pais e educadores veem uma criança fazendo algo errado, dão uma enorme bronca, focando apenas no erro e questionando as qualidades da criança, destruindo assim seus pilares de auto-estima. A criança se sente um verdadeiro Rashá (malvado) após ter cometido uma pequena transgressão, e pode levar este trauma para toda sua vida, destruindo seu potencial.
Como é a forma correta de repreender uma criança que fez algo errada? Conta o Rav Avraham Twersky que seu pai era um grande modelo de educador. Quando o Rav Twersky era pequeno e fazia algo errado, seu pai o repreendia, mas com um tom calmo e utilizando as seguintes palavras em Yidish: "Ess Past Nisht" (isto não lhe fica bem). O que ele transmitia ao filho com estas palavras? Que aquela transgressão, algo baixo, não combinava com o seu caráter elevado. A sua alma era simplesmente muito preciosa para ser exposta ao risco de se sujar ou se estragar. Isto transmitia para o filho o quanto seu erro, motivado pelos desejos do corpo, era feio. Mas ao mesmo tempo não o deixava esquecer de sua grandeza espiritual.
Portanto, o equilíbrio ideal é o que descreve o Talmud: "Sempre a mão esquerda deve afastar e a mão direita deve aproximar" (Sotá 47a). A mão esquerda representa o julgamento estrito, enquanto a mão direita representa a bondade. Mesmo quando tivermos que dar uma bronca em alguém, a parcela negativa da bronca deve ser sempre menor do que a parcela positiva. Muitos utilizam na prática este ensinamento através da "crítica sanduíche", isto é, sempre uma bronca deve ser precedida por um elogio e deve ser terminada com outro elogio. Assim, a pessoa sente que a bronca foi dada por amor e não sente seu ego ferido. Alcançamos assim nosso objetivo de ajudar a corrigir o erro do próximo e contribuir para construir uma pessoa melhor, sem precisar demolir tudo antes.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 6:8 -8:36, Hb. 9:11-28 (Shabat haGadol)