|
Mostrando postagens com marcador Chaiei Sara. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chaiei Sara. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
QUEM CONTROLA QUEM? - PARASHÁ CHAIE SARA 5778 (
sábado, 26 de novembro de 2016
ENSINANDO COM EXEMPLOS - PARASHÁ CHAIEI SARÁ 5777
"O Rav Shalom Schwadron zt"l (Israel, 1912-1997) estudou em sua juventude na Yeshivá de Chevron. Infelizmente muitos judeus naquela época estavam afastados da Torá e cometiam transgressões por desconhecimento. Como na época ainda não havia máquinas de barbear, as pessoas iam até a barbearia para fazer a barba com navalha, uma grave transgressão da Torá. Os alunos da Yeshivá de Chevron decidiram fazer um revezamento, de forma que todos os dias algum estudante de Torá ficava na porta da barbearia orientando os judeus que não sabiam da proibição.
Certa vez era o turno do Rav Shalom. Ele estava na porta da barbearia quando viu um senhor judeu entrando. O Rav Shalom chamou-o e, educadamente, explicou a gravidade de fazer a barba com navalha, comparável à transgressão de comer cinco vezes carne de porco. O senhor ficou muito agradecido pelos esclarecimentos, aceitou não entrar na barbearia e foi embora. Porém, quando foi novamente turno do Rav Shalom, ele viu aquele mesmo senhor novamente entrando na barbearia. Curioso, o Rav Shalom questionou delicadamente se não havia ficado clara a explicação sobre a gravidade de fazer a barba com navalha. O senhor então respondeu para ele:
- A verdade é que ficou bem claro quando conversamos. Porém, no primeiro Shabat após a nossa conversa, quando eu fui à sinagoga, percebi que haviam afixado uma folha explicando sobre a proibição de fazer a barba com navalha. Ao lado desta folha havia outro papel afixado, ressaltando a grave proibição de conversar durante a Tefilá (reza). Mas eu percebi, durante toda a Tefilá, que muitas pessoas conversavam despreocupadamente. Então entendi que, se conversar durante a Tefilá não é algo tão grave, então fazer a barba com navalha também não deve ser tão grave..."
Explica o Rav Shlomo Levenstein Shlita que através de cada ato que fazemos estamos sendo exemplos para os outros. Pessoas corretas se tornam bons modelos e aproximam os outros do caminho correto, mas pessoas não corretas se tornam péssimos modelos e podem desviar pessoas do caminho correto.
Certa vez era o turno do Rav Shalom. Ele estava na porta da barbearia quando viu um senhor judeu entrando. O Rav Shalom chamou-o e, educadamente, explicou a gravidade de fazer a barba com navalha, comparável à transgressão de comer cinco vezes carne de porco. O senhor ficou muito agradecido pelos esclarecimentos, aceitou não entrar na barbearia e foi embora. Porém, quando foi novamente turno do Rav Shalom, ele viu aquele mesmo senhor novamente entrando na barbearia. Curioso, o Rav Shalom questionou delicadamente se não havia ficado clara a explicação sobre a gravidade de fazer a barba com navalha. O senhor então respondeu para ele:
- A verdade é que ficou bem claro quando conversamos. Porém, no primeiro Shabat após a nossa conversa, quando eu fui à sinagoga, percebi que haviam afixado uma folha explicando sobre a proibição de fazer a barba com navalha. Ao lado desta folha havia outro papel afixado, ressaltando a grave proibição de conversar durante a Tefilá (reza). Mas eu percebi, durante toda a Tefilá, que muitas pessoas conversavam despreocupadamente. Então entendi que, se conversar durante a Tefilá não é algo tão grave, então fazer a barba com navalha também não deve ser tão grave..."
Explica o Rav Shlomo Levenstein Shlita que através de cada ato que fazemos estamos sendo exemplos para os outros. Pessoas corretas se tornam bons modelos e aproximam os outros do caminho correto, mas pessoas não corretas se tornam péssimos modelos e podem desviar pessoas do caminho correto.
***********************************************
Um dos pontos centrais da Parashá desta semana, Chaiei Sará (literalmente "A vida de Sara"), é o casamento de Ytzchak com Rivka. Após quase ter sacrificado Ytzchak, Avraham se preocupou que seu filho ainda não havia se casado e poderia ter deixado o mundo sem nenhum descendente. Avraham então decidiu procurar para Ytzchak uma esposa, mas como eles viviam entre os Knanim, um povo que havia sido amaldiçoado desde a época de Noach (Noé), Avraham não queria casar seu filho com uma mulher de lá. Por outro lado, após Ytzchak ter sido elevado sobre o altar como um Korban (sacrifício) para D'us, ele ganhou um novo status de santidade e não podia mais sair de Israel, uma terra que também tem mais santidade. Então como ele se casaria? Avraham mandou seu fiel escravo Eliezer para sua terra natal, para a casa de seus parentes, com a missão de trazer de lá uma esposa para seu filho.
Eliezer sentiu o peso da responsabilidade de sua importante missão. Procurar uma esposa adequada a alguém em um nível tão elevado quanto Ytzchak não era algo simples. Mas ele aceitou o desafio e rezou muito para ter sucesso em sua missão. D'us escutou suas rezas e o guiou, com Hashgachá Pratid (Supervisão Particular), até ele encontrar Rivka, uma Tzadeket (mulher justa) com excelentes traços de caráter. Eliezer sentou-se para conversar com os pais e com o irmão de Rivka e, para convencê-los a deixá-la partir para se casar com Ytzchak, descreveu todos os detalhes que deixavam claro que a "mão de D'us" estava por trás dos acontecimentos. A família de Rivka concordou e ela foi para a terra de Israel casar-se com Ytzchak e transformar-se em uma das nossas matriarcas.
Normalmente a Torá é muito sucinta. Inclusive, muitos ensinamentos são aprendidos de maneira indireta, apenas através de indicações na Torá. Mas prestando atenção nesta Parashá, percebemos que a Torá se alongou de maneira incomum quando descreveu cada detalhe dos atos de Eliezer. Além disso, ao invés da Torá simplesmente dizer que Eliezer contou tudo o que aconteceu para a família de Rivka, a Torá se alonga escrevendo toda a conversa e repetindo todos os detalhes. Entenderíamos se a Torá se alongasse assim para descrever os atos dos patriarcas, mas por que se alongar tanto nos atos de Eliezer, um simples escravo de Avraham?
Segundo Rashi (França, 1040 - 1105), a repetição e o detalhamento da história de Eliezer, algo que foge da forma compacta da Torá, são para nos ensinar que, aos olhos de D'us, é melhor a conversa de um escravo dos patriarcas do que a Torá dos seus descendentes. Mas o que Rashi quis dizer com isso? O há de tão especial para aprendermos de Eliezer que justificaria estas "palavras a mais" da Parashá?
Explica o Rav Aharon Kotler zt"l (Bielorússia, 1891 - EUA 1962) que no Monte Sinai foram entregues a Moshé, e posteriormente transmitidas aos sábios do povo judeu, muitas leis e regras de como estudar cada palavra da Torá, além de muitos segredos contidos nela. Na realidade, para ensinar Halachót (Leis judaicas), em geral não há necessidade de se alongar muito. Porém, o mesmo não acontece em relação às nossas Midót (traços de caráter) e o Derech Eretz (comportamento), que não são tão fixos e bem definidos como as Halachót, e muitas vezes dependem da situação, do momento e de sentimentos do coração envolvidos. Então como fazer para aprender sobre Midót e Derech Eretz? A melhor maneira é estarmos próximos dos sábios e aprender diretamente observando os atos deles. Apesar de ser muito importante o estudo de livros que nos ensinam sobre Midót e Derech Eretz, além de um direcionamento e acompanhamento constantes de um rabino que possa nos orientar, nestas áreas o melhor aprendizado é através dos exemplos.
Se prestarmos atenção no livro de Bereshit, o primeiro dos cinco livros da Torá, praticamente não encontraremos ensinamentos de Mitzvót. Na Parashá Bereshit, D'us nos deu a primeira Mitzvá, de "Pru Urvu" (crescer e multiplicar); na Parashá Noach, D'us nos ensinou a Mitzvá de Brit-Milá (circuncisão); e na Parashá Vayerá, D'us nos ensinou a Mitzvá de "Guid Hanashê" (proibição de comer o nervo ciático). Isto significa que, das 613 Mitzvót da Torá, o Livro de Bereshit inteiro nos ensina apenas três Mitzvót! Então por que este livro é tão importante? Justamente por nos ensinar os fundamentos das Midót e do Derech Eretz através do exemplo prático dos patriarcas.
Com este ensinamento podemos entender o motivo da Parashá se alongar tanto. Apesar de Eliezer ser um escravo, ele não era uma pessoa simples. Era um homem extremamente sábio e íntegro, e sua convivência com Avraham transformou-o em um "Mentch" (ser humano descente). Portanto, do comportamento de Eliezer, e de todos os detalhes de como ele procurou e encontrou Rivka, podemos aprender muito. Por exemplo, quando Eliezer foi procurar uma esposa para Ytzchak, ele focou nos traços de caráter, procurando alguém com boas Midót e com bondade no coração, ao invés de se preocupar se a moça vinha de alguma família importante e influente. Além disso, também aprendemos muito da incrível confiança de Eliezer na Providência Divina e a certeza de que todo sucesso está apenas nas mãos de D'us. Porém, talvez o que mais nos chama a atenção no comportamento de Eliezer é a forma como ele se apresentou à família de Rivka. Ele poderia ter dito que era o "camareiro chefe" de Avraham, um posto comum entre os reis e pessoas importantes da época. Ele poderia ter contado que era o homem de confiança de Avraham, a pessoa a quem Avraham confiava sua casa e seus bens. Ele poderia ter contado que, por sua integridade e sabedoria, D'us havia feito um milagre e o longo caminho de viagem à casa dos parentes de Avraham havia sido encurtado. Mas Eliezer preferiu se apresentar como "Eu sou o escravo de Avraham" (Bereshit 24:34). Não por medo que depois as pessoas descobririam que ele era um escravo, e sim por sua incrível humildade.
Também prestando atenção nos atos de Rivka aprendemos muito sobre Midót e Derech Eretz. Quando Eliezer foi escolher uma esposa para Ytzchak, ele parou ao lado de um poço de água e fez uma condição para escolher a mulher que estaria apta a se casar com alguém no nível de Ytzchak: "E será, a jovem para quem eu disser 'baixe o seu jarro e eu beberei', e ela disser 'beba, e eu também darei de beber aos seus camelos', esta Você terá designado para Seu servo, para Ytzchak" (Bereshit 24:14). Porém, Rivka fez ainda mais bondade do que Eliezer tinha imaginado. Ela primeiro ofereceu água a Eliezer, mas somente quando ele havia terminado de beber foi que ela também ofereceu água aos camelos. Por que? Em primeiro lugar, pois os Tzadikim falam pouco e fazem muito. Portanto, não era apropriado prometer muitas coisas antes de fazê-las. Além disso, às vezes a pessoa se sente desconfortável ao receber muitas bondades. Rivka foi oferecendo a bondade aos poucos, uma bondade de cada vez, para que Eliezer não se sentisse desconfortável. Todos estes detalhes, que deixam a Parashá longa e "fora dos padrões", foram planejados e escritos por D'us justamente para nos ensinar as Halachót de Derech Eretz.
É muito importante aprender sobre Midót e Derech Eretz, pois através desta sabedoria podemos fazer muito Kidush Hashem (Santificar o Nome de D'us), enquanto a falta desta sabedoria pode causar muito Chilul Hashem (Denegrir o Nome de D'us). Estamos sempre na "vitrine", sendo observados e analisados pelas outras pessoas. Somos exemplos de conduta e podemos influenciar, positivamente ou negativamente, o comportamento dos outros. Uma pessoa que chega pontualmente na Tefilá incentiva os outros a também chegarem pontualmente, mas alguém que sempre chega atrasado incentiva os outros a também atrasarem. Uma pessoa que se cuida de não falar Lashon Hará (falar de forma negativa sobre os outros) influencia outras pessoas a não falarem Lashon Hará, mas a pessoa que não se cuida e frequentemente fala Lashon Hará influencia outros a seguirem seus maus atos.
De acordo com o Rav Aharon Kotler, se a pessoa não se educa a ter Derech Eretz, se não se ocupa constantemente com o estudo da Torá para aprender a como se comportar, se não se incomoda com o impacto negativo de seus maus comportamentos, provavelmente está constantemente fazendo Chilul Hashem. Mas aquele que aprende com os exemplos dos nossos sábios, que sempre se esforça para ser uma pessoa melhor, que estuda Torá e utiliza na prática os conhecimentos adquiridos, certamente se tornará, como Eliezer, um modelo positivo para as futuras gerações.
Eliezer sentiu o peso da responsabilidade de sua importante missão. Procurar uma esposa adequada a alguém em um nível tão elevado quanto Ytzchak não era algo simples. Mas ele aceitou o desafio e rezou muito para ter sucesso em sua missão. D'us escutou suas rezas e o guiou, com Hashgachá Pratid (Supervisão Particular), até ele encontrar Rivka, uma Tzadeket (mulher justa) com excelentes traços de caráter. Eliezer sentou-se para conversar com os pais e com o irmão de Rivka e, para convencê-los a deixá-la partir para se casar com Ytzchak, descreveu todos os detalhes que deixavam claro que a "mão de D'us" estava por trás dos acontecimentos. A família de Rivka concordou e ela foi para a terra de Israel casar-se com Ytzchak e transformar-se em uma das nossas matriarcas.
Normalmente a Torá é muito sucinta. Inclusive, muitos ensinamentos são aprendidos de maneira indireta, apenas através de indicações na Torá. Mas prestando atenção nesta Parashá, percebemos que a Torá se alongou de maneira incomum quando descreveu cada detalhe dos atos de Eliezer. Além disso, ao invés da Torá simplesmente dizer que Eliezer contou tudo o que aconteceu para a família de Rivka, a Torá se alonga escrevendo toda a conversa e repetindo todos os detalhes. Entenderíamos se a Torá se alongasse assim para descrever os atos dos patriarcas, mas por que se alongar tanto nos atos de Eliezer, um simples escravo de Avraham?
Segundo Rashi (França, 1040 - 1105), a repetição e o detalhamento da história de Eliezer, algo que foge da forma compacta da Torá, são para nos ensinar que, aos olhos de D'us, é melhor a conversa de um escravo dos patriarcas do que a Torá dos seus descendentes. Mas o que Rashi quis dizer com isso? O há de tão especial para aprendermos de Eliezer que justificaria estas "palavras a mais" da Parashá?
Explica o Rav Aharon Kotler zt"l (Bielorússia, 1891 - EUA 1962) que no Monte Sinai foram entregues a Moshé, e posteriormente transmitidas aos sábios do povo judeu, muitas leis e regras de como estudar cada palavra da Torá, além de muitos segredos contidos nela. Na realidade, para ensinar Halachót (Leis judaicas), em geral não há necessidade de se alongar muito. Porém, o mesmo não acontece em relação às nossas Midót (traços de caráter) e o Derech Eretz (comportamento), que não são tão fixos e bem definidos como as Halachót, e muitas vezes dependem da situação, do momento e de sentimentos do coração envolvidos. Então como fazer para aprender sobre Midót e Derech Eretz? A melhor maneira é estarmos próximos dos sábios e aprender diretamente observando os atos deles. Apesar de ser muito importante o estudo de livros que nos ensinam sobre Midót e Derech Eretz, além de um direcionamento e acompanhamento constantes de um rabino que possa nos orientar, nestas áreas o melhor aprendizado é através dos exemplos.
Se prestarmos atenção no livro de Bereshit, o primeiro dos cinco livros da Torá, praticamente não encontraremos ensinamentos de Mitzvót. Na Parashá Bereshit, D'us nos deu a primeira Mitzvá, de "Pru Urvu" (crescer e multiplicar); na Parashá Noach, D'us nos ensinou a Mitzvá de Brit-Milá (circuncisão); e na Parashá Vayerá, D'us nos ensinou a Mitzvá de "Guid Hanashê" (proibição de comer o nervo ciático). Isto significa que, das 613 Mitzvót da Torá, o Livro de Bereshit inteiro nos ensina apenas três Mitzvót! Então por que este livro é tão importante? Justamente por nos ensinar os fundamentos das Midót e do Derech Eretz através do exemplo prático dos patriarcas.
Com este ensinamento podemos entender o motivo da Parashá se alongar tanto. Apesar de Eliezer ser um escravo, ele não era uma pessoa simples. Era um homem extremamente sábio e íntegro, e sua convivência com Avraham transformou-o em um "Mentch" (ser humano descente). Portanto, do comportamento de Eliezer, e de todos os detalhes de como ele procurou e encontrou Rivka, podemos aprender muito. Por exemplo, quando Eliezer foi procurar uma esposa para Ytzchak, ele focou nos traços de caráter, procurando alguém com boas Midót e com bondade no coração, ao invés de se preocupar se a moça vinha de alguma família importante e influente. Além disso, também aprendemos muito da incrível confiança de Eliezer na Providência Divina e a certeza de que todo sucesso está apenas nas mãos de D'us. Porém, talvez o que mais nos chama a atenção no comportamento de Eliezer é a forma como ele se apresentou à família de Rivka. Ele poderia ter dito que era o "camareiro chefe" de Avraham, um posto comum entre os reis e pessoas importantes da época. Ele poderia ter contado que era o homem de confiança de Avraham, a pessoa a quem Avraham confiava sua casa e seus bens. Ele poderia ter contado que, por sua integridade e sabedoria, D'us havia feito um milagre e o longo caminho de viagem à casa dos parentes de Avraham havia sido encurtado. Mas Eliezer preferiu se apresentar como "Eu sou o escravo de Avraham" (Bereshit 24:34). Não por medo que depois as pessoas descobririam que ele era um escravo, e sim por sua incrível humildade.
Também prestando atenção nos atos de Rivka aprendemos muito sobre Midót e Derech Eretz. Quando Eliezer foi escolher uma esposa para Ytzchak, ele parou ao lado de um poço de água e fez uma condição para escolher a mulher que estaria apta a se casar com alguém no nível de Ytzchak: "E será, a jovem para quem eu disser 'baixe o seu jarro e eu beberei', e ela disser 'beba, e eu também darei de beber aos seus camelos', esta Você terá designado para Seu servo, para Ytzchak" (Bereshit 24:14). Porém, Rivka fez ainda mais bondade do que Eliezer tinha imaginado. Ela primeiro ofereceu água a Eliezer, mas somente quando ele havia terminado de beber foi que ela também ofereceu água aos camelos. Por que? Em primeiro lugar, pois os Tzadikim falam pouco e fazem muito. Portanto, não era apropriado prometer muitas coisas antes de fazê-las. Além disso, às vezes a pessoa se sente desconfortável ao receber muitas bondades. Rivka foi oferecendo a bondade aos poucos, uma bondade de cada vez, para que Eliezer não se sentisse desconfortável. Todos estes detalhes, que deixam a Parashá longa e "fora dos padrões", foram planejados e escritos por D'us justamente para nos ensinar as Halachót de Derech Eretz.
É muito importante aprender sobre Midót e Derech Eretz, pois através desta sabedoria podemos fazer muito Kidush Hashem (Santificar o Nome de D'us), enquanto a falta desta sabedoria pode causar muito Chilul Hashem (Denegrir o Nome de D'us). Estamos sempre na "vitrine", sendo observados e analisados pelas outras pessoas. Somos exemplos de conduta e podemos influenciar, positivamente ou negativamente, o comportamento dos outros. Uma pessoa que chega pontualmente na Tefilá incentiva os outros a também chegarem pontualmente, mas alguém que sempre chega atrasado incentiva os outros a também atrasarem. Uma pessoa que se cuida de não falar Lashon Hará (falar de forma negativa sobre os outros) influencia outras pessoas a não falarem Lashon Hará, mas a pessoa que não se cuida e frequentemente fala Lashon Hará influencia outros a seguirem seus maus atos.
De acordo com o Rav Aharon Kotler, se a pessoa não se educa a ter Derech Eretz, se não se ocupa constantemente com o estudo da Torá para aprender a como se comportar, se não se incomoda com o impacto negativo de seus maus comportamentos, provavelmente está constantemente fazendo Chilul Hashem. Mas aquele que aprende com os exemplos dos nossos sábios, que sempre se esforça para ser uma pessoa melhor, que estuda Torá e utiliza na prática os conhecimentos adquiridos, certamente se tornará, como Eliezer, um modelo positivo para as futuras gerações.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
R' Efraim Birbojm
Gn.23:1-25:18, 1Rs.1:1-31, 1
sábado, 7 de novembro de 2015
RESPEITO AOS IDOSOS - PARASHAT CHAIEI SARA 5776
"Um
frágil e velho senhor ficou viúvo e foi viver com seu filho, sua nora e seu neto
de quatro anos. A família se reunia todos os dias para comer em uma bela mesa na
sala de jantar. Porém, as mãos do velhinho tremiam e a vista dele já estava um
pouco embaçada, o que tornava difícil o simples ato de comer. A todo instante a
comida caía da sua colher, sujando todo o chão, e o leite derramava na toalha. A
sujeira começou a irritar muito seu filho e sua nora:
- Nós precisamos fazer algo em relação ao meu pai - disse o filho, irritado - Já estou cheio do tanto leite derramado, de ouvir os ruídos que ele faz quando come e de toda a comida que ele derruba no chão.
O marido e a esposa decidiram preparar uma mesa pequena no canto da área de serviço. Lá o velhinho comia sozinho, abandonado, enquanto o resto da família continuava comendo na sala de jantar. Além disso, depois do velhinho ter quebrado um ou dois pratos, a comida dele passou a ser servida em uma tigela de madeira. Quando eles olhavam de relance na direção do velhinho, às vezes percebiam uma lágrima nos olhos dele. Ainda assim, as únicas palavras que o casal dirigia a ele eram duras broncas quando a colher caía com comida ou ele derramava o leite. O neto de quatro anos assistia tudo em silêncio. Uma noite, antes do jantar, o pai notou que a criança estava brincando no chão com sucatas de madeira. Perguntou docemente ao filho o que ele estava fazendo, e com um enorme sorriso o menino respondeu:
- Eu estou fabricando duas pequenas tigelas de madeira, para você e a mamãe poderem comer sua comida quando estiverem velhinhos.
As palavras do menino penetraram como uma faca afiada no coração dos pais. Lágrimas rolaram dos rostos deles. Não era preciso falar nada, eles sabiam o que precisava ser feito. Naquela noite o marido pegou a mão do pai e, com suavidade, conduziu-o de volta para a mesa da família. E daquele dia em diante, nem o marido nem a esposa pareciam se preocupar quando uma colher caia no chão, o leite era derramado ou quando a toalha da mesa tinha se sujado".
A Torá nos ordena tratar os idosos com muito respeito.
Acima de tudo é um reconhecimento pelo que eles já contribuíram, e certamente
continuam contribuindo, com enorme sabedoria, na construção de um mundo
melhor.
****************************************************
A Parashá desta semana, Chaiei Sara, fala sobre o final
das vidas de Avraham e Sara. Avraham viveu muitos anos, como está escrito:
"Avraham estava velho, com idade avançada, e D'us abençoou Avraham com tudo"
(Bereshit 24:1). Apesar de muitos problemas e desafios que Avraham enfrentou
durante sua longa vida, ele sempre soube olhar as situações de maneira positiva.
E, acima de tudo, ele confiava plenamente em D'us.
Em relação a este versículo, o Talmud (Sanhedrin 107b) traz um incrível ensinamento. Até a época de Avraham não havia o conceito de envelhecimento. Como Ytzchak era muito parecido com Avraham, quando as pessoas iam falar com Avraham, acabavam falando por engano com Ytzchak, e quando iam falar com Ytzchak acabavam falando por engano com Avraham. Avraham então rezou e pediu para que D'us incluísse o envelhecimento no ciclo de vida do ser humano, para evitar este tipo de confusão, e D'us concordou com o pedido de Avraham.
Os comentaristas da Torá perguntam qual é o ensinamento presente nesta passagem do Talmud, pois desperta um grande questionamento. O Rav Ishaia MiTrani (Itália, 1180 - 1250), mais conhecido como Tossafot Rid, argumenta que existem diversas fontes que comprovam que o envelhecimento já existia até mesmo antes do nascimento de Ytzchak, tais como os versículo "Avraham e Sara estavam velhos" (Bereshit 18:11) e "Eu realmente terei um filho, agora que eu estou velha?" (Bereshit 18:13). Poderíamos explicar que os versículos se referem a um envelhecimento que não era fisicamente perceptível, e o pedido de Avraham foi justamente para que o envelhecimento se tornasse algo visivelmente reconhecido pelas pessoas, evitando confusões.
Porém, esta explicação apresenta algumas dificuldades. Em primeiro lugar, após o erro de Adam Harishon, a existência física do ser humano tornou-se finita e seu corpo foi fadado a um estado de decadência física. Por que D'us decretaria a morte do ser humano e não faria com que a proximidade do seu fim fosse visivelmente perceptível? Além disso, há versículos que comprovam que o ser humano já apresentava sinais de envelhecimento em seu corpo mesmo antes do nascimento de Ytzchak. Sara, quando escutou os anjos anunciando que ela ficaria grávida aos 90 anos, comentou: "Depois de estar tão enrugada, eu voltarei a ter uma pele delicada?" (Bereshit 18:12). Deste versículo fica claro que já havia sinais físicos de envelhecimento antes mesmo do pedido de Avraham. Então o que ele exatamente pediu para D'us em sua reza? E o que D'us concedeu à humanidade ao concordar com o pedido de Avraham?
Responde o Rav Yohanan Zweig que talvez o pedido de Avraham realmente não estava relacionado com o estado físico das pessoas. O que chamou a atenção de Avraham foi que as pessoas falavam com ele, um ancião com mais de 100 anos, exatamente da mesma maneira como falavam com seu filho Ytzchak, um rapaz ainda extremamente jovem. Isto significa que as pessoas não tinham nenhuma apreciação pela sabedoria dos idosos e não demonstravam o devido respeito a eles. Avraham queria que os idosos fossem respeitados e honrados pelos seus conhecimentos e por suas experiências de vida. Foi este tipo de apreciação pelos idosos que Avraham pediu para que D'us incutisse na humanidade, e D'us atendeu o seu pedido, como confirmam as palavras finais do versículo: "D'us abençoou Avraham com tudo".
Infelizmente, se olharmos o comportamento da nossa sociedade, perceberemos que esta apreciação dos idosos novamente está ausente. De acordo com a Cultura Ocidental, a velhice é uma deficiência do ser humano. A juventude é vista como referência nas mais diversas áreas: nos negócios, na medicina, nas tecnologias e até mesmo nos governos. As novas gerações insistem em "inovar e aprender com seus próprios erros", ao invés de construir a partir da experiência adquirida pelos mais velhos. Aos 50 anos uma pessoa é considerada alguém "no limite" de sua produtividade, e já começa a receber os primeiros avisos de que seu cargo estaria melhor preenchido por alguém 20 anos mais jovem. Em muitas empresas multinacionais a aposentadoria é obrigatória aos 60 anos, para que alguém de "sangue novo" possa assumir os novos desafios.
Portanto, nossa sociedade acaba forçando com que os últimos anos de vida de uma pessoa sejam de inatividade e decadência. Os mais velhos são tratados como se fossem inúteis, como se fossem um peso para a sociedade. A mensagem transmitida aos idosos é que o ideal seria se estivessem confinados em um asilo. Depois de décadas de conquistas e realizações, seus conhecimentos e talentos se tornam repentinamente sem valor. Depois de muitos anos de importantes contribuições, os idosos se tornam peças indesejáveis no jogo da vida.
Não podemos escapar da realidade de que a natureza do corpo humano aos 70 anos não é a mesma do que aos 30 anos. Mas o valor de uma pessoa é definido por suas proezas físicas? Se a força física de alguém diminuiu, mas suas capacidades intelectuais e sua sabedoria aumentaram, isto é considerado uma melhoria ou um declínio? Se o rendimento de uma pessoa diminui em quantidade, mas melhorou em qualidade, então seu valor aumentou ou diminuiu? A atitude da Cultura Ocidental em relação aos idosos reflete bem a noção dos seus valores: a ênfase está apenas na força física, enquanto a força intelectual é completamente desprezada.
Um jovem de 20 anos pode dançar por horas sem se cansar, enquanto um senhor de 75 anos provavelmente se cansará em poucos minutos. Mas o ser humano não foi criado para dançar. Ele foi criado para transformar a vida na Terra em algo mais puro, mais brilhante e mais sagrado do que era antes do seu aparecimento. Deste ponto de vista, a maturidade espiritual dos anciãos certamente compensa, e muito, sua diminuição física.
Esta é a visão da Torá. A velhice é uma virtude, é uma Brachá (benção). Em toda a Torá o conceito de "ancião" é sinônimo de sabedoria. O Talmud (Kidushin 33a) nos ordena respeitar os anciãos, independente de sua escolaridade, pois os vários desafios e experiências pelos quais eles passaram na vida resultam em uma sabedoria que até mesmo os mais talentosos entre os jovens não podem alcançar. Um dos segredos da imortalidade do judaísmo é justamente o respeito aos idosos. Pois uma sociedade que não sabe respeitar o passado é certamente uma sociedade que não terá futuro.
Em relação a este versículo, o Talmud (Sanhedrin 107b) traz um incrível ensinamento. Até a época de Avraham não havia o conceito de envelhecimento. Como Ytzchak era muito parecido com Avraham, quando as pessoas iam falar com Avraham, acabavam falando por engano com Ytzchak, e quando iam falar com Ytzchak acabavam falando por engano com Avraham. Avraham então rezou e pediu para que D'us incluísse o envelhecimento no ciclo de vida do ser humano, para evitar este tipo de confusão, e D'us concordou com o pedido de Avraham.
Os comentaristas da Torá perguntam qual é o ensinamento presente nesta passagem do Talmud, pois desperta um grande questionamento. O Rav Ishaia MiTrani (Itália, 1180 - 1250), mais conhecido como Tossafot Rid, argumenta que existem diversas fontes que comprovam que o envelhecimento já existia até mesmo antes do nascimento de Ytzchak, tais como os versículo "Avraham e Sara estavam velhos" (Bereshit 18:11) e "Eu realmente terei um filho, agora que eu estou velha?" (Bereshit 18:13). Poderíamos explicar que os versículos se referem a um envelhecimento que não era fisicamente perceptível, e o pedido de Avraham foi justamente para que o envelhecimento se tornasse algo visivelmente reconhecido pelas pessoas, evitando confusões.
Porém, esta explicação apresenta algumas dificuldades. Em primeiro lugar, após o erro de Adam Harishon, a existência física do ser humano tornou-se finita e seu corpo foi fadado a um estado de decadência física. Por que D'us decretaria a morte do ser humano e não faria com que a proximidade do seu fim fosse visivelmente perceptível? Além disso, há versículos que comprovam que o ser humano já apresentava sinais de envelhecimento em seu corpo mesmo antes do nascimento de Ytzchak. Sara, quando escutou os anjos anunciando que ela ficaria grávida aos 90 anos, comentou: "Depois de estar tão enrugada, eu voltarei a ter uma pele delicada?" (Bereshit 18:12). Deste versículo fica claro que já havia sinais físicos de envelhecimento antes mesmo do pedido de Avraham. Então o que ele exatamente pediu para D'us em sua reza? E o que D'us concedeu à humanidade ao concordar com o pedido de Avraham?
Responde o Rav Yohanan Zweig que talvez o pedido de Avraham realmente não estava relacionado com o estado físico das pessoas. O que chamou a atenção de Avraham foi que as pessoas falavam com ele, um ancião com mais de 100 anos, exatamente da mesma maneira como falavam com seu filho Ytzchak, um rapaz ainda extremamente jovem. Isto significa que as pessoas não tinham nenhuma apreciação pela sabedoria dos idosos e não demonstravam o devido respeito a eles. Avraham queria que os idosos fossem respeitados e honrados pelos seus conhecimentos e por suas experiências de vida. Foi este tipo de apreciação pelos idosos que Avraham pediu para que D'us incutisse na humanidade, e D'us atendeu o seu pedido, como confirmam as palavras finais do versículo: "D'us abençoou Avraham com tudo".
Infelizmente, se olharmos o comportamento da nossa sociedade, perceberemos que esta apreciação dos idosos novamente está ausente. De acordo com a Cultura Ocidental, a velhice é uma deficiência do ser humano. A juventude é vista como referência nas mais diversas áreas: nos negócios, na medicina, nas tecnologias e até mesmo nos governos. As novas gerações insistem em "inovar e aprender com seus próprios erros", ao invés de construir a partir da experiência adquirida pelos mais velhos. Aos 50 anos uma pessoa é considerada alguém "no limite" de sua produtividade, e já começa a receber os primeiros avisos de que seu cargo estaria melhor preenchido por alguém 20 anos mais jovem. Em muitas empresas multinacionais a aposentadoria é obrigatória aos 60 anos, para que alguém de "sangue novo" possa assumir os novos desafios.
Portanto, nossa sociedade acaba forçando com que os últimos anos de vida de uma pessoa sejam de inatividade e decadência. Os mais velhos são tratados como se fossem inúteis, como se fossem um peso para a sociedade. A mensagem transmitida aos idosos é que o ideal seria se estivessem confinados em um asilo. Depois de décadas de conquistas e realizações, seus conhecimentos e talentos se tornam repentinamente sem valor. Depois de muitos anos de importantes contribuições, os idosos se tornam peças indesejáveis no jogo da vida.
Não podemos escapar da realidade de que a natureza do corpo humano aos 70 anos não é a mesma do que aos 30 anos. Mas o valor de uma pessoa é definido por suas proezas físicas? Se a força física de alguém diminuiu, mas suas capacidades intelectuais e sua sabedoria aumentaram, isto é considerado uma melhoria ou um declínio? Se o rendimento de uma pessoa diminui em quantidade, mas melhorou em qualidade, então seu valor aumentou ou diminuiu? A atitude da Cultura Ocidental em relação aos idosos reflete bem a noção dos seus valores: a ênfase está apenas na força física, enquanto a força intelectual é completamente desprezada.
Um jovem de 20 anos pode dançar por horas sem se cansar, enquanto um senhor de 75 anos provavelmente se cansará em poucos minutos. Mas o ser humano não foi criado para dançar. Ele foi criado para transformar a vida na Terra em algo mais puro, mais brilhante e mais sagrado do que era antes do seu aparecimento. Deste ponto de vista, a maturidade espiritual dos anciãos certamente compensa, e muito, sua diminuição física.
Esta é a visão da Torá. A velhice é uma virtude, é uma Brachá (benção). Em toda a Torá o conceito de "ancião" é sinônimo de sabedoria. O Talmud (Kidushin 33a) nos ordena respeitar os anciãos, independente de sua escolaridade, pois os vários desafios e experiências pelos quais eles passaram na vida resultam em uma sabedoria que até mesmo os mais talentosos entre os jovens não podem alcançar. Um dos segredos da imortalidade do judaísmo é justamente o respeito aos idosos. Pois uma sociedade que não sabe respeitar o passado é certamente uma sociedade que não terá futuro.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojmhttp://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn.23:1-25:18, 1Rs.1:1-31
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
FALANDO COM CUIDADO - PARASHÁ CHAIEI SARA 5775
"Rodrigo contratou Fernando, um
experiente e renomado carpinteiro, para reformar alguns móveis de sua casa. Mas
o dia de Fernando não começou nada bem. Ele chegou atrasado, com as mãos sujas
de graxa, pois o pneu do seu caminhão havia furado. E o resto do dia também não
foi fácil. Sua furadeira queimou, a serra quebrou, ele fez um corte na mão e, na
hora de ir embora, seu caminhão não funcionou. Rodrigo, com dó, ofereceu uma
carona. Sem alternativa, Fernando aceitou.
Durante o caminho, Fernando estava com o rosto tenso. Ia em silêncio, olhando para baixo, sem querer muita conversa. Rodrigo respeitou e também não tentou puxar papo. Quando chegaram, Fernando convidou-o para conhecer sua casa e sua família. Rodrigo estava com pressa, mas ficou sem jeito de não aceitar. Não deixou de notar que Fernando, antes de entrar em casa, apoiou as duas mãos sobre uma árvore, ficando assim por alguns instantes, e somente depois entrou em casa. E um grande milagre aconteceu, pois Fernando transformou-se em outra pessoa. O rosto tenso foi substituído por um enorme sorriso e o silêncio virou gargalhadas enquanto ele abraçava os filhinhos e a esposa.
No momento de ir embora, Fernando agradeceu muito pela carona e acompanhou Rodrigo até o carro. Ao passarem pela árvore, Rodrigo não aguentou a curiosidade e perguntou sobre a estranha atitude de Fernando e a mudança repentina de comportamento. Fernando explicou:
- Todos nós temos dificuldades no nosso dia, e quando voltamos para casa acabamos descontando em nossas esposas e filhos todas as nossas frustrações. Mas eles não merecem escutar grosserias, pois eles não têm nada a ver com as dificuldades do nosso dia. Então eu decidi que, todas as vezes que eu chegasse em casa, deixaria todos os meus problemas naquela árvore que fica ao lado da entrada, e quando eu saísse de casa de manhã, eu pegaria os problemas de volta.
- Que interessante - falou Rodrigo, surpreso com a atitude positiva do marceneiro - Mas funciona mesmo?
- Melhor do que eu esperava - respondeu Fernando, abrindo um sorriso - Pois eu deixo os problemas na árvore de noite, mas quando eu volto para pegá-los no dia seguinte, eles não são nem metade do que eu me lembrava ter deixado..."
Não é algo fácil, mas precisamos desenvolver a capacidade de, mesmo nas situações mais difíceis do nosso cotidiano, manter o autocontrole e não "descontar" nos outros nossos problemas e dificuldades.
Durante o caminho, Fernando estava com o rosto tenso. Ia em silêncio, olhando para baixo, sem querer muita conversa. Rodrigo respeitou e também não tentou puxar papo. Quando chegaram, Fernando convidou-o para conhecer sua casa e sua família. Rodrigo estava com pressa, mas ficou sem jeito de não aceitar. Não deixou de notar que Fernando, antes de entrar em casa, apoiou as duas mãos sobre uma árvore, ficando assim por alguns instantes, e somente depois entrou em casa. E um grande milagre aconteceu, pois Fernando transformou-se em outra pessoa. O rosto tenso foi substituído por um enorme sorriso e o silêncio virou gargalhadas enquanto ele abraçava os filhinhos e a esposa.
No momento de ir embora, Fernando agradeceu muito pela carona e acompanhou Rodrigo até o carro. Ao passarem pela árvore, Rodrigo não aguentou a curiosidade e perguntou sobre a estranha atitude de Fernando e a mudança repentina de comportamento. Fernando explicou:
- Todos nós temos dificuldades no nosso dia, e quando voltamos para casa acabamos descontando em nossas esposas e filhos todas as nossas frustrações. Mas eles não merecem escutar grosserias, pois eles não têm nada a ver com as dificuldades do nosso dia. Então eu decidi que, todas as vezes que eu chegasse em casa, deixaria todos os meus problemas naquela árvore que fica ao lado da entrada, e quando eu saísse de casa de manhã, eu pegaria os problemas de volta.
- Que interessante - falou Rodrigo, surpreso com a atitude positiva do marceneiro - Mas funciona mesmo?
- Melhor do que eu esperava - respondeu Fernando, abrindo um sorriso - Pois eu deixo os problemas na árvore de noite, mas quando eu volto para pegá-los no dia seguinte, eles não são nem metade do que eu me lembrava ter deixado..."
Não é algo fácil, mas precisamos desenvolver a capacidade de, mesmo nas situações mais difíceis do nosso cotidiano, manter o autocontrole e não "descontar" nos outros nossos problemas e dificuldades.
*****************************************
Nesta semana lemos a Parashá Chaiei
Sara, que descreve a busca de uma esposa para o nosso patriarca Ytzchak. Avraham
havia quase sacrificado Ytzchak, chegando a colocá-lo sobre um altar a pedido de
D'us, mas foi impedido por um anjo na última hora. Avraham entendeu que se
Yitzchak tivesse realmente sido sacrificado, ele teria morrido sem deixar
descendentes. Portanto, ele viu que era hora de Ytzchak se casar e ter uma
família, e confiou a Eliezer, seu fiel ajudante, a importante missão de voltar
para sua terra natal e procurar entre seus parentes uma esposa para
Ytzchak.
Eliezer não queria procurar uma esposa qualquer para Ytzchak, e sim uma moça que tivesse bons traços de caráter. Ele fez uma longa viagem até a cidade natal de Avraham e, chegando lá, foi direto para um poço de água, no fim da tarde, justamente na hora em que as mulheres costumavam ir para lá buscar água. Eliezer sabia que lá poderia testar a bondade das moças, pedindo que elas lhe servissem água e também dessem água aos seus camelos. A Providência Divina fez com que a primeira moça que apareceu foi Rivka, que era parente de Avraham. Após ela ter enchido seu jarro, Eliezer se aproximou e pediu água, como está escrito: "Por favor, me deixe beber um pouco da água do seu jarro" (Bereshit 24:17).
Deste versículo surge uma pergunta curiosa: Eliezer tinha acabado de atravessar um enorme deserto para buscar uma esposa para Ytzchak. Certamente ele devia estar com muita sede, e com as altas temperaturas do deserto era até mesmo um risco de vida caso ele não tomasse água. Então por que ele pediu para Rivka apenas um pouco de água, ao invés de pedir muita água?
Explica o Rav Ytzchak Zilberstain que o ser humano não é testado por seus atos grandes, e sim pelos seus pequenos atos cotidianos. A forma como ele fala com as outras pessoas e como ele se comporta nas pequenas atitudes mostram quem é ele de verdade. Para definir o nível espiritual de uma pessoa, é necessário observar como ela se comporta no seu dia-a-dia, nas coisas mais comuns e simples que ela faz.
Há um interessante ensinamento do mais sábio de todos os homens, Shlomo Hamelech (Rei Salomão), que nos ajuda a entender este conceito: "O Tzadik (justo) come para se saciar, mas o estômago do Rashá (malvado) está sempre insatisfeito" (Mishlei 13:25). O entendimento mais simples do versículo é que o Tzadik é aquele que come apenas o que é necessário para se sentir saciado, e fica satisfeito mesmo com pouco, enquanto o Rashá é aquele que come por gula, em excesso, para se empanturrar, e por isso sempre sente que ainda lhe falta algo. Porém, há um Midrash (parte da Torá Oral) que aprofunda o entendimento do versículo e afirma que "Tzadik" se refere a Eliezer, justamente por ter pedido para Rivka apenas um pouquinho de água, não de forma rude e descontrolada. Já "Rashá" se refere a Essav, que pediu para seu irmão Yaacov comida de forma grosseira, como está escrito: "Verta na minha boca desta coisa vermelha vermelha, pois eu estou exausto" (Bereshit 25:30).
O ensinamento deste Midrash é incrível. Eliezer fazia muitos atos positivos e construtivos, enquanto Essav fazia muitos atos negativos e destrutivos. Apesar disso, quando o Midrash quis dizer que "Tzadik" e "Rashá" se referem a Eliezer e Essav, traz como prova os versículos que apenas mencionam a forma como cada um deles pediu comida ou bebida em momentos de dificuldade. Isto demonstra que a forma como nos comportamos nos pequenos desafios do cotidiano é o que define nosso status espiritual.
Mas surge um grande questionamento quando refletimos sobre a definição de Essav como um "Rashá" por ter pedido para que seu irmão vertesse comida em sua boca. Antes de tudo, precisamos entender melhor em que contexto isto aconteceu. O versículo ressalta que Essav estava exausto, e nossos sábios explicam que naquele dia Essav havia saído para caçar algum animal para servir ao seu pai. Porém, no meio do caminho, ele se deparou com Nimrod, o governante da época, e os dois tiveram um desentendimento. Apesar de Nimrod ser considerado pela Torá um "Gibor" (valente e destemido), Essav se levantou contra ele e o assassinou. Além disso, nossos sábios dizem que Essav também cometeu naquele dia outras graves transgressões. Por causa de todo o esforço e energia gastos nestas transgressões, Essav estava extremamente cansado, a ponto de quase desmaiar, correndo até mesmo risco de vida caso não comesse algo logo. Foi por isso que ele pediu desesperadamente para que Yaacov despejasse a comida em sua boca. Essav falou de maneira grosseira justamente por seu desespero e pelo cansaço que dominava seu corpo. A prova disso é que ele já nem refletia mais sobre as palavras que saíam de sua boca, repetindo a palavra "vermelha" duas vezes, sem nenhum sentido.
Sabemos que em situações de "Pikuach Nefesh" (quando há algum risco de vida envolvido), a vida está acima das Mitzvót da Torá (com exceção de idolatria, relações ilícitas e assassinato). Isto quer dizer que em qualquer situação onde há perigo de vida, a pessoa deve transgredir as Mitzvót para se salvar ou salvar a vida de outra pessoa. O Talmud (Sanhedrin 74a) aprende isso do versículo que diz "E observem os Meus decretos e as Minhas leis, que o homem deve fazer e viver por elas, Eu sou D'us" (Vayikrá 18:5). O versículo ressalta "viver por elas", e não morrer por elas. Por exemplo, temos a proibição de fazer certas atividades construtivas no Shabat, mas alguém que está com risco de vida deve ir imediatamente ao hospital para receber o tratamento necessário, mesmo que para isso necessite desrespeitar o Shabat. Portanto, se Essav estava em uma situação de Pikuach Nefesh, por que a Torá está cobrando dele um comportamento exemplar? Por que ele é considerado "Rashá" por ter falado com uma linguagem grosseira neste momento?
Explica o Rav Ytzchak Zilberstain que a Torá está nos ensinando algo impressionante. Apesar de o "Pikuach Nefesh" prevalecer até mesmo sobre a grande maioria das Mitzvót da Torá, ele não prevalece sobre a obrigação de falarmos as coisas de forma delicada. Por que o Midrash comparou Essav justamente com Eliezer? E com tantos bons atos que Eliezer fez na vida, por que justamente trazer o versículo do momento em que ele se encontrou com Rivka? Pois quando Eliezer viajou para procurar uma esposa para Ytzchak, ele também estava exausto por causa da viagem. Além disso, ele devia estar sedento e certamente muito pressionado pela responsabilidade de sua importante missão. Mas mesmo assim a Torá fez questão de registrar o quanto ele foi rigoroso consigo mesmo, pedindo água de uma maneira educada e comedida, diferente de Essav, que em um momento de dificuldade pediu comida de forma grosseira.
Fica para nós um ensinamento muito importante. Sempre focamos nos grandes atos, nos grandes testes que podem surgir pelo caminho. Queremos ser espiritualmente grandes, e achamos que isto somente ocorrerá quando vencermos testes difíceis como o sacrifício de Yitzchak. Mas a Torá nos ensinou, através da simples conduta de Eliezer em um pequeno detalhe do seu cotidiano, que não é nos grandes testes que podemos mostrar para D'us quem somos, é justamente nas pequenas atitudes, nos pequenos detalhes, que podemos fazer a diferença. Apesar de não serem tão difíceis quanto o teste do sacrifício de Ytzchak, os pequenos testes do cotidiano podem nos dar o rótulo de "Tzadik".
Isto mostra a importância aos olhos de D'us do nosso "Derech Eretz", isto é, a forma como falamos e nos comportamos com as outras pessoas. Mesmo nos momentos difíceis, temos que trabalhar muito nosso autocontrole. Pois morrer para santificar o nome de D'us, como Ytzchak estava disposto a fazer, é sem dúvida um ato heroico. Mas viver e santificar o nome de D'us através dos pequenos atos do cotidiano é mais heroico ainda.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
Eliezer não queria procurar uma esposa qualquer para Ytzchak, e sim uma moça que tivesse bons traços de caráter. Ele fez uma longa viagem até a cidade natal de Avraham e, chegando lá, foi direto para um poço de água, no fim da tarde, justamente na hora em que as mulheres costumavam ir para lá buscar água. Eliezer sabia que lá poderia testar a bondade das moças, pedindo que elas lhe servissem água e também dessem água aos seus camelos. A Providência Divina fez com que a primeira moça que apareceu foi Rivka, que era parente de Avraham. Após ela ter enchido seu jarro, Eliezer se aproximou e pediu água, como está escrito: "Por favor, me deixe beber um pouco da água do seu jarro" (Bereshit 24:17).
Deste versículo surge uma pergunta curiosa: Eliezer tinha acabado de atravessar um enorme deserto para buscar uma esposa para Ytzchak. Certamente ele devia estar com muita sede, e com as altas temperaturas do deserto era até mesmo um risco de vida caso ele não tomasse água. Então por que ele pediu para Rivka apenas um pouco de água, ao invés de pedir muita água?
Explica o Rav Ytzchak Zilberstain que o ser humano não é testado por seus atos grandes, e sim pelos seus pequenos atos cotidianos. A forma como ele fala com as outras pessoas e como ele se comporta nas pequenas atitudes mostram quem é ele de verdade. Para definir o nível espiritual de uma pessoa, é necessário observar como ela se comporta no seu dia-a-dia, nas coisas mais comuns e simples que ela faz.
Há um interessante ensinamento do mais sábio de todos os homens, Shlomo Hamelech (Rei Salomão), que nos ajuda a entender este conceito: "O Tzadik (justo) come para se saciar, mas o estômago do Rashá (malvado) está sempre insatisfeito" (Mishlei 13:25). O entendimento mais simples do versículo é que o Tzadik é aquele que come apenas o que é necessário para se sentir saciado, e fica satisfeito mesmo com pouco, enquanto o Rashá é aquele que come por gula, em excesso, para se empanturrar, e por isso sempre sente que ainda lhe falta algo. Porém, há um Midrash (parte da Torá Oral) que aprofunda o entendimento do versículo e afirma que "Tzadik" se refere a Eliezer, justamente por ter pedido para Rivka apenas um pouquinho de água, não de forma rude e descontrolada. Já "Rashá" se refere a Essav, que pediu para seu irmão Yaacov comida de forma grosseira, como está escrito: "Verta na minha boca desta coisa vermelha vermelha, pois eu estou exausto" (Bereshit 25:30).
O ensinamento deste Midrash é incrível. Eliezer fazia muitos atos positivos e construtivos, enquanto Essav fazia muitos atos negativos e destrutivos. Apesar disso, quando o Midrash quis dizer que "Tzadik" e "Rashá" se referem a Eliezer e Essav, traz como prova os versículos que apenas mencionam a forma como cada um deles pediu comida ou bebida em momentos de dificuldade. Isto demonstra que a forma como nos comportamos nos pequenos desafios do cotidiano é o que define nosso status espiritual.
Mas surge um grande questionamento quando refletimos sobre a definição de Essav como um "Rashá" por ter pedido para que seu irmão vertesse comida em sua boca. Antes de tudo, precisamos entender melhor em que contexto isto aconteceu. O versículo ressalta que Essav estava exausto, e nossos sábios explicam que naquele dia Essav havia saído para caçar algum animal para servir ao seu pai. Porém, no meio do caminho, ele se deparou com Nimrod, o governante da época, e os dois tiveram um desentendimento. Apesar de Nimrod ser considerado pela Torá um "Gibor" (valente e destemido), Essav se levantou contra ele e o assassinou. Além disso, nossos sábios dizem que Essav também cometeu naquele dia outras graves transgressões. Por causa de todo o esforço e energia gastos nestas transgressões, Essav estava extremamente cansado, a ponto de quase desmaiar, correndo até mesmo risco de vida caso não comesse algo logo. Foi por isso que ele pediu desesperadamente para que Yaacov despejasse a comida em sua boca. Essav falou de maneira grosseira justamente por seu desespero e pelo cansaço que dominava seu corpo. A prova disso é que ele já nem refletia mais sobre as palavras que saíam de sua boca, repetindo a palavra "vermelha" duas vezes, sem nenhum sentido.
Sabemos que em situações de "Pikuach Nefesh" (quando há algum risco de vida envolvido), a vida está acima das Mitzvót da Torá (com exceção de idolatria, relações ilícitas e assassinato). Isto quer dizer que em qualquer situação onde há perigo de vida, a pessoa deve transgredir as Mitzvót para se salvar ou salvar a vida de outra pessoa. O Talmud (Sanhedrin 74a) aprende isso do versículo que diz "E observem os Meus decretos e as Minhas leis, que o homem deve fazer e viver por elas, Eu sou D'us" (Vayikrá 18:5). O versículo ressalta "viver por elas", e não morrer por elas. Por exemplo, temos a proibição de fazer certas atividades construtivas no Shabat, mas alguém que está com risco de vida deve ir imediatamente ao hospital para receber o tratamento necessário, mesmo que para isso necessite desrespeitar o Shabat. Portanto, se Essav estava em uma situação de Pikuach Nefesh, por que a Torá está cobrando dele um comportamento exemplar? Por que ele é considerado "Rashá" por ter falado com uma linguagem grosseira neste momento?
Explica o Rav Ytzchak Zilberstain que a Torá está nos ensinando algo impressionante. Apesar de o "Pikuach Nefesh" prevalecer até mesmo sobre a grande maioria das Mitzvót da Torá, ele não prevalece sobre a obrigação de falarmos as coisas de forma delicada. Por que o Midrash comparou Essav justamente com Eliezer? E com tantos bons atos que Eliezer fez na vida, por que justamente trazer o versículo do momento em que ele se encontrou com Rivka? Pois quando Eliezer viajou para procurar uma esposa para Ytzchak, ele também estava exausto por causa da viagem. Além disso, ele devia estar sedento e certamente muito pressionado pela responsabilidade de sua importante missão. Mas mesmo assim a Torá fez questão de registrar o quanto ele foi rigoroso consigo mesmo, pedindo água de uma maneira educada e comedida, diferente de Essav, que em um momento de dificuldade pediu comida de forma grosseira.
Fica para nós um ensinamento muito importante. Sempre focamos nos grandes atos, nos grandes testes que podem surgir pelo caminho. Queremos ser espiritualmente grandes, e achamos que isto somente ocorrerá quando vencermos testes difíceis como o sacrifício de Yitzchak. Mas a Torá nos ensinou, através da simples conduta de Eliezer em um pequeno detalhe do seu cotidiano, que não é nos grandes testes que podemos mostrar para D'us quem somos, é justamente nas pequenas atitudes, nos pequenos detalhes, que podemos fazer a diferença. Apesar de não serem tão difíceis quanto o teste do sacrifício de Ytzchak, os pequenos testes do cotidiano podem nos dar o rótulo de "Tzadik".
Isto mostra a importância aos olhos de D'us do nosso "Derech Eretz", isto é, a forma como falamos e nos comportamos com as outras pessoas. Mesmo nos momentos difíceis, temos que trabalhar muito nosso autocontrole. Pois morrer para santificar o nome de D'us, como Ytzchak estava disposto a fazer, é sem dúvida um ato heroico. Mas viver e santificar o nome de D'us através dos pequenos atos do cotidiano é mais heroico ainda.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
| Gn.23:1-25:18, 1Rs.1:1-31 |
sábado, 26 de outubro de 2013
FUGINDO DO COMODISMO - PARASHÁ CHAIEI SARA 5774
Alguns estudos biológicos demonstram que é muito
positiva a capacidade de adaptação dos animais às modificações que ocorrem no
ambiente, mas que algumas vezes também pode ser extremamente negativa. Por
exemplo, se um sapo for jogado em um recipiente que contém água fervendo, ele
salta imediatamente para fora. Ele pode até ficar um pouco queimado, mas escapa
vivo. Porém, o que acontece se o mesmo sapo for colocado em um recipiente que
contenha a água de sua lagoa, fresca e límpida, e aquela água for lentamente
aquecida? O sapo fica estático durante todo o processo de aquecimento, não se
move. Ele não reage ao gradual aumento de temperatura e morre, sem esboçar
nenhum tipo de reação, quando a água chega a altas temperaturas. A mesma
temperatura, que antes era quente o suficiente para que ele imediatamente
saltasse para fora, desta vez nem mesmo o tira de sua apatia.
Às vezes nos comportamos como os sapos. Nos
acomodamos às mudanças negativas. Aceitamos tudo com passividade. Achamos que
está tudo muito bom, ou que o que esta mal vai passar sozinho, é só questão de
tempo. O casamento não anda bem, o relacionamento com os filhos cada vez pior, o
trabalho cada vez mais desgastante, mas preferimos ficar boiando, estáveis e
apáticos, na água que se aquece a cada instante.********************************************
A Parashá da semana passada,
Vayerá, terminou com o último e mais difícil teste de Avraham Avinu, que ele
passou com sucesso: o sacrifício de Itzchak. Avraham fez exatamente o que D'us
havia lhe ordenado e, vencendo todo o sentimento de amor e misericórdia pelo seu
próprio filho Itzchak, colocou-o sobre o altar e preparou a faca para fazer o
sacrifício. No último momento um anjo de D'us interrompeu-o e impediu o
sacrifício de ser realizado. Aquele teste, que inicialmente parecia que
terminaria com muita tristeza e sofrimento, aparentemente terminou bem.
Porém, a Parashá desta semana,
Chaiei Sara, nos ensina que o evento do sacrifício de Itzchak sim teve uma
consequência dolorosa. A Parashá começa descrevendo a morte de Sara, aos 127
anos. Qual a conexão entre o sacrifício de Yitzchak e a morte de Sara? Explica
Rashi, comentarista da Torá, que Sara, ao ficar sabendo que Avraham havia levado
Itzchak para sacrificá-lo, não aguentou a emoção e morreu.
Mas desta explicação do Rashi fica uma grande pergunta. O Rashi mesmo afirma que o nível de profecia de Sara era ainda maior do que o de Avraham, como D'us explicitamente falou para Avraham: "Tudo o que Sara te disser, escute a voz dela" (Bereshit 21:12). Então como Avraham passou no teste do sacrifício de Itzchak, enquanto Sara, que era mais elevada espiritualmente do que ele, não conseguiu passar?
Responde o Rav Chaim Shmulevitz que houve uma grande diferença na forma como Avraham e Sara foram testados. Avraham foi sendo colocado no teste pouco a pouco, como está escrito: "Pegue seu filho, seu único filho, aquele que você ama, Itzchak, e vá para a Terra de Moriá, e lá o eleve como um sacrifício" (Bereshit 22:2). Por que D'us não disse imediatamente que se tratava de Itzchak e não de Ishmael? Por que esta aparente "enrolação"? Pois D'us não queria dar a notícia de surpresa, Ele foi preparando aos poucos o coração de Avraham. Primeiro Ele falou "pegue seu filho", para Avraham já aceitar a ideia de que precisaria pegar um dos seus filhos. Cada pequena espera até D'us finalmente revelar que se tratava de Itzchak ia dando tempo para Avraham se acostumar com a ideia, e somente assim ele conseguiu vencer o amor por Itzchak e chegar ao nível de aceitar sacrificá-lo, de forma consciente e sem nenhuma confusão em seus pensamentos. Já Sara, ao contrário, escutou a notícia repentinamente, sem preparação nem tempo para absorver o impacto, e não aguentou a forte emoção.
Mas será que esta "preparação"
realmente foi o que fez a diferença? Afinal, Avraham escutou de D'us que teria
que sacrificar seu próprio filho. Por que ter escutado aos poucos esta notícia
fez com que fosse mais fácil passar o teste? Explica o Rav Chaim Shmulevitz que
D'us naturalizou na alma do ser humano a característica de se adaptar às
situações difíceis, para que o ser humano pudesse resistir mesmo às piores
condições de vida. Infelizmente vimos este fenômeno acontecer durante a época
das terríveis atrocidades nazistas. Quando visitamos o Museu do Holocausto ou
assistimos filmes e documentários sobre os crimes nazistas, sempre nos
perguntamos: como houve pessoas que sobreviveram à este inferno? Como as pessoas
aguentaram os sofrimentos insuportáveis aos quais passavam todos os dias, por
anos, nos guetos e Campos de Concentração? Como suportaram estas condições e não
morreram de desgosto? A resposta é que a transição entre uma vida tranquila e o
inferno pelo qual eles passaram ocorreu aos poucos, não foi algo repentino. Os
judeus foram passando por várias fases difíceis: a perda dos direitos sociais, a
perda dos direitos civis, a obrigação de viver em guetos com terríveis
privações, o transporte em trens de carga, até chegar aos horrores dos Campos de
Concentração. A cada fase que passavam, as pessoas iam se acostumando, e isto
lhes dava força para aguentar a próxima fase. Foi somente assim que muitos
conseguiram sobreviver.
Vimos que esta característica que
D'us naturalizou em nossa alma, de se adaptar às dificuldades, de se acostumar
com uma situação mais difícil, pode ser utilizada de maneira positiva, para dar
a força ao ser humano de suportar e passar os piores testes com os quais nos
deparamos em nossa vida. Porém, esta característica também pode ser um grande
obstáculo para o nosso crescimento espiritual. Muitas vezes passamos por um
momento de despertar espiritual. Pode ser por motivações externas, como algum
acontecimento que nos faz buscar um sentido para a vida, ou por motivações
internas, quando paramos para refletir e começamos a questionar a forma como
vivemos. Mas este despertar, que no início surge como um fogo ardente, com o
passar do tempo começa pouco a pouco a diminuir. Mesmo pessoas que passam por
verdadeiros milagres, com o tempo se acomodam e esquecem tudo o que
presenciaram. Pessoas que saíram ilesas de acidentes onde praticamente não havia
chances de terem escapado com vida passam por um primeiro momento de despertar
espiritual, uma vontade de se conectar à espiritualidade, de deixar de viver tão
focada apenas no mundo material, mas em pouco tempo tudo volta ao normal.
A Torá nos traz um exemplo
impressionante de como ninguém está a salvo desta acomodação espiritual. Quando
nosso patriarca Yaacov morreu no Egito, seus filhos levaram seu corpo para ser
enterrado em Israel, na Mearat HaMachpela, onde estavam enterrados Avraham e
Itzhak. Mas quando chegaram, tiveram uma surpresa: Essav estava na porta,
tentando impedir o enterro, dizendo que era ele, o primogênito, que tinha o
direito de ser enterrado lá. Os filhos de Yaacov explicaram que ele havia
vendido para seu irmão a primogenitura, mas Essav tentou outro argumento, e
depois outro. Os filhos de Yaacov, ao invés de perceberem que aquela demora
causava uma vergonha para Yaacov, cujo corpo estava lá, esperando para ser
enterrado, entraram cada vez mais na discussão. O tempo foi passando e o enterro
não acontecia. Até que Chushim, um dos netos de Yaacov, que era surdo, viu que o
corpo de seu avô estava ali parado, em total desprezo, sem ser enterrado. Ao
entender que Essav estava impedindo o enterro, Chushim pegou um pedaço de
madeira e atingiu a cabeça de Essav com um golpe fatal. Somente depois disso
Yaacov pôde ser dignamente enterrado. Mas será que nenhum filho de Yaacov se
importou com o desprezo ao corpo do pai, somente Chushim? Isto nos ensina até
onde chega a força de acomodação espiritual. Os filhos de Yaacov, ao entrarem na
discussão com Essav, foram perdendo a sensibilidade ao fato do corpo de Yaacov
estar sendo desprezado. Cada novo argumento os afastava um pouco mais da
realidade. Somente Chushim, que era surdo, não entrou na discussão e, por isso,
não perdeu a sensibilidade.
Este é um dos principais inimigos
do nosso crescimento: o comodismo, se acostumar com a nossa condição espiritual.
A força do comodismo entorpece nosso coração e nos faz perder a noção verdadeira
das coisas. Nos acostumamos com a desonestidade, com a imoralidade e com a
violência. Nos acostumamos a aceitar as coisas erradas como se fossem normais.
Mesmo quando temos certezas na vida, se não tomamos atitudes de mudanças, com o
tempo vamos perdendo a força de vontade. Temos que lutar para não cair nunca no
comodismo. Como? Refletindo sempre sobre os nossos caminhos e as nossas
convicções. Tentando melhorar um pouco a cada dia, em pequenos detalhes,
consertar atos cotidianos simples. Com pequenos passos de crescimento, um dia
olharemos para trás e sentiremos um grande orgulho de tudo o que
conquistamos.
"A vida é uma escada rolante que
desce. Se não estamos subindo, então estamos automaticamente descendo"
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojmhttp://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn.23:1-25:18, 1Rs.1:1-31, 1 Co. 15: 50-57
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
PEREGRINO OU MORADOR? - PARASHÁ CHAIEI SARA 5773
"Os habitantes de certo
reinado tinham um costume muito estranho: uma vez por ano eles saíam pela
estrada principal que levava ao reinado e coroavam como rei o primeiro que
aparecia no caminho. Esta pessoa recebia o poder de decidir todos os assuntos do
reinado por um ano. No fim deste ano, eles tiravam a pessoa do trono e a
expulsavam da cidade. Sem a sua realeza, a pessoa ia embora sem nada, exatamente
como tinha chegado. Então os habitantes iam para a estrada escolher um novo
rei.
Certa vez, um mendigo estava passando naquela estrada. Apesar de não ter dinheiro, ele tinha muita sabedoria. De repente, viu uma enorme multidão vindo em sua direção, cantando alegremente. Antes mesmo de entender qual era o motivo de tanta alegria, ela já estava vestindo um manto e a coroa real, e estava sendo carregado nos ombros da multidão em direção ao palácio. Lá, uma grande festa o aguardava para que oficialmente assumisse o trono daquele reinado.
Pensando nos estranhos acontecimentos daquele dia, o novo rei reuniu seus ministros e pediu explicações. Eles descreveram o costume local de, uma vez por ano, escolher uma pessoa qualquer na estrada para ser o rei. Como ele estava no local certo e no momento certo, havia sido o escolhido da vez.
Quando foi deitar-se, o novo rei parou para refletir um pouco. Se uma vez por ano um novo rei era escolhido, isto significava que dentro de um ano ele seria destituído do trono e voltaria à sua miséria. Então o que ele poderia fazer para não perder tudo no final daquele ano? Após pensar bastante, encontrou a solução: durante todo o tempo em que foi rei, enviou para sua própria casa o máximo de dinheiro, joias e mercadorias valiosas que conseguiu.
Quando o ano estava para terminar, uma multidão entrou em sua casa trazendo suas velhas roupas de mendigo. Após se trocar, ele foi oficialmente expulso daquele reinado e escoltado até os portões, onde os guardas receberam a ordem de nunca mais deixá-lo entrar. Mas ao contrário do que as pessoas esperavam, o mendigo estava feliz, até cantava de alegria. Ele se lembrou do imenso tesouro que o esperava em casa. E aquele tesouro foi suficiente para sustentar sua esposa e filhos, com conforto, pelo resto de suas vidas"
Explica o Rav David HaNaggid que viemos para este mundo apenas por um tempo limitado. Muitas vezes estamos tão imersos na busca de prazeres materiais que esquecemos que o tempo está passando rapidamente. E somente quando chega o momento de partir, a pessoa percebe que está indo embora de mãos completamente vazias. Já a pessoa sábia prevê o futuro e, enquanto está neste mundo, se esforça para mandar um tesouro para depois de sua partida daqui. Este tesouro é composto por Mitzvót e bons atos, que servem como méritos para nossa vida eterna no Mundo Vindouro.
********************************************
A
Parashá desta semana, Chaiei Sara, começa nos contando sobre a morte de Sara, a
nossa primeira matriarca, aos 127 anos. Além do sofrimento pela perda de sua
querida esposa, Avraham passou por mais uma grande dificuldade. Apesar de D'us
já ter prometido que daria a ele e a seus descendentes a Terra de Israel, ele
precisou comprar, por um preço muito alto, um lugar para enterrar sua
esposa.Certa vez, um mendigo estava passando naquela estrada. Apesar de não ter dinheiro, ele tinha muita sabedoria. De repente, viu uma enorme multidão vindo em sua direção, cantando alegremente. Antes mesmo de entender qual era o motivo de tanta alegria, ela já estava vestindo um manto e a coroa real, e estava sendo carregado nos ombros da multidão em direção ao palácio. Lá, uma grande festa o aguardava para que oficialmente assumisse o trono daquele reinado.
Pensando nos estranhos acontecimentos daquele dia, o novo rei reuniu seus ministros e pediu explicações. Eles descreveram o costume local de, uma vez por ano, escolher uma pessoa qualquer na estrada para ser o rei. Como ele estava no local certo e no momento certo, havia sido o escolhido da vez.
Quando foi deitar-se, o novo rei parou para refletir um pouco. Se uma vez por ano um novo rei era escolhido, isto significava que dentro de um ano ele seria destituído do trono e voltaria à sua miséria. Então o que ele poderia fazer para não perder tudo no final daquele ano? Após pensar bastante, encontrou a solução: durante todo o tempo em que foi rei, enviou para sua própria casa o máximo de dinheiro, joias e mercadorias valiosas que conseguiu.
Quando o ano estava para terminar, uma multidão entrou em sua casa trazendo suas velhas roupas de mendigo. Após se trocar, ele foi oficialmente expulso daquele reinado e escoltado até os portões, onde os guardas receberam a ordem de nunca mais deixá-lo entrar. Mas ao contrário do que as pessoas esperavam, o mendigo estava feliz, até cantava de alegria. Ele se lembrou do imenso tesouro que o esperava em casa. E aquele tesouro foi suficiente para sustentar sua esposa e filhos, com conforto, pelo resto de suas vidas"
Explica o Rav David HaNaggid que viemos para este mundo apenas por um tempo limitado. Muitas vezes estamos tão imersos na busca de prazeres materiais que esquecemos que o tempo está passando rapidamente. E somente quando chega o momento de partir, a pessoa percebe que está indo embora de mãos completamente vazias. Já a pessoa sábia prevê o futuro e, enquanto está neste mundo, se esforça para mandar um tesouro para depois de sua partida daqui. Este tesouro é composto por Mitzvót e bons atos, que servem como méritos para nossa vida eterna no Mundo Vindouro.
********************************************
Na conversa que Avraham teve com o povo de Chet, os habitantes do local naquela época, ele pediu que lhe vendessem a "Mearat Hamachpelá" como local de sepultura para Sara. E há algo que nos chama a atenção na frase dita por Avraham: "Eu sou um peregrino e um residente permanente com vocês" (Bereshit 23:4). Este versículo é completamente contraditório, pois como alguém pode ser, ao mesmo tempo, um peregrino e um residente permanente? O que Avraham quis dizer para o povo de Chet?
A mesma pergunta surge quando observamos um dos versículos da Parashá Emor, que trata sobre as leis de venda de um terreno na Terra de Israel. Assim está escrito: "E a terra não será vendida de maneira permanente, pois a terra é Minha, pois vocês são peregrinos e habitantes permanentes Comigo" (Vayikrá 25:23). Este versículo nos ensina que as terras em Israel somente podiam ser vendidas até o ano do Yovel (Jubileu), que ocorre a cada 50 anos. No Yovel, cada terra que havia sido vendida voltava automaticamente aos seus verdadeiros donos. O que nos chama a atenção é que novamente um versículo junta os conceitos de peregrinos e residentes permanentes. Isto não é contraditório?
O Maguid Mi Duvno explica qual foi a intenção de Avraham quando ele disse esta frase contraditória ao povo de Chet. Segundo o judaísmo, a mentira é uma transgressão muito grave, a ponto de D'us nos advertir de maneira mais enfática do que em outras transgressões, como está escrito: "Se afaste da mentira" (Shemot 23:7). Não é suficiente apenas não mentir, devemos fazer todo o possível para nos afastar de uma mentira. Porém, existem algumas poucas situações nas quais há permissão de distorcermos a verdade, como em casos onde dizer a verdade completa causaria uma briga ou colocaria uma pessoa em perigo de vida. Esta situação aconteceu com Avraham, pois D'us havia prometido para ele a Terra de Israel, Avraham sabia que aquela terra era toda sua, mas se ele falasse a verdade para os Chitim, colocaria sua vida em risco. Por outro lado, Avraham era uma pessoa tão íntegra e correta que não concebia a possibilidade de que mentiras saíssem de sua boca, mesmo que o momento assim exigia. Por isso, quando ele falou com os Chitim, ele foi extremamente cuidadoso e sábio, utilizando uma linguagem com duplo sentido e falando a verdade, mas deixando que os Chitim entendessem o que quisessem entender.
Como Avraham conseguiu este efeito de duplo sentido? Ele disse "eu sou um peregrino e um residente permanente com vocês". Quando ele incluiu o "com vocês", Avraham quis dizer que, entre ele e os Chitim, um era peregrino e o outro era residente permanente. O entendimento mais simples, e assim os Chitim entenderam, é que Avraham era o peregrino e eles eram os residentes permanentes. Porém, a intenção de Avraham era dizer justamente o contrário, que ele era o residente permanente enquanto os Chitim eram os peregrinos.
Mas ao entendermos a intenção de Avraham, surge outra grande pergunta. Se a estrutura da frase dita por Avraham era para dar um duplo sentido às suas palavras, então o mesmo conceito deve se aplicar ao versículo que fala sobre a venda de terras em Israel. Por que D'us falou algo com duplo sentido? Qual o entendimento verdadeiro das palavras do versículo da Parashá Emor?
A resposta começa com as palavras dos nossos sábios: "Este Mundo se assemelha a um corredor diante do Mundo Vindouro. Se prepare no corredor para que você possa entrar no palácio" (Pirkei Avót 4:16). Da mesma forma que o corredor de um palácio é apenas uma passagem, assim também é a nossa vida neste mundo material, devemos viver como se fossemos peregrinos em uma terra estranha, como pessoas convidadas para passar a noite em uma casa estranha, pois é somente algo passageiro. Então o que viemos fazer aqui? Nos preparar para poder entrar no "palácio", o Mundo Vindouro. E como fazemos a preparação? Diz David Hamelech (Rei David): "Eu sou um peregrino na terra, não oculte de mim as Suas Mitzvót" (Tehilim 119:19). David Hamelech está nos ensinando que a estadia do ser humano neste mundo é apenas temporária e, portanto, ele não deve desperdiçar esta oportunidade, que apesar de ser breve, é muito valiosa. O ser humano deve se esforçar para dar sentido à sua existência através da conexão com as Mitzvót de D'us. Devemos viver como peregrinos, isto é, nossa dedicação principal deve ser as aquisições espirituais, enquanto nossas ocupações com o mundo material devem ser secundárias, pois do mundo material não levaremos nada para nossa eternidade. De que adianta trabalhar 24 horas por dia e acumular milhões se de nada servirão para adquirir nosso Mundo Vindouro?
Portanto, quando D'us disse "Vocês são peregrinos e habitantes permanentes Comigo", o versículo está juntando D'us e os seres humanos na mesma frase. O sentido da frase, como no caso de Avraham, é que entre D'us e nós há um que é peregrino e um que é habitante permanente. O que isto significa? Que o comportamento de D'us conosco depende das escolhas que fazemos na vida, está em nossas mãos. Se nós escolhemos ser peregrinos neste mundo, isto é, se vivemos de maneira em que a busca pelos prazeres materiais é secundária e nos dedicamos com prioridade aos valores espirituais, então D'us se comporta conosco como um residente permanente, está constantemente ao nosso lado. Mas se nos comportamos neste mundo como residentes permanentes, investindo nossos esforços apenas em adquirir mais bens, prestígio e prazeres, então Ele se comporta conosco como se fosse apenas um peregrino de passagem.
É por isso que o versículo diz: "E a terra não será vendida de maneira permanente", pois devemos viver aqui como vive uma pessoa que está em uma casa alugada. Alguém que vive de aluguel não passa o tempo todo investindo em melhorias no apartamento, pois sabe que é uma estadia provisória, sabe que a qualquer momento terá que deixá-lo. Assim também em nossas vidas, devemos investir no que levaremos para sempre, ao invés de investir nas coisas que ficarão aqui neste mundo. Somente assim nossa existência fará sentido e sairemos deste mundo para receber, no Mundo Vindouro, um verdadeiro tesouro.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn.23:1-25:18, 1Rs.1:1-31, Mt.1:1-17
Assinar:
Postagens (Atom)