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sexta-feira, 21 de março de 2014

A IMPORTÂNCIA DE HONRAR - PARASHÁ SHEMINI 5774

“Os ataques terroristas que atingiram as Twin Towers, um dos mais famosos cartões postais de Nova York, no dia 11 de setembro de 2001, deixou o mundo em choque. Há centenas de histórias que, apesar de não terem se tornado públicas, contam um pouquinho mais do que foi esta terrível tragédia.

Uma destas histórias ocorreu com um homem que tinha um escritório nas Twin Towers. Depois de a primeira torre ter sido atingida, o homem, que trabalhava na segunda torre, recebeu um telefonema. Era sua mãe, desesperada, pedindo para que ele saísse imediatamente do prédio. O homem tentou acalmar a mãe, informando que uma equipe havia checado a segurança da segunda torre e tinha chegado à conclusão de que não havia nenhum perigo permanecer ali. Mas a mãe não se deu por vencida e, com um tom de voz ainda mais aflito, falou para o filho:

- Filho, não me importa o que diz a equipe de segurança. Eu ficarei mais tranquila se você sair daí agora. Por favor, me escute!

- Mãe, eu entendo sua preocupação, mas tenho muito trabalho para fazer. Está tudo bem, não se apavore, não vai acontecer nada de mal - respondeu o filho.

Tragicamente, poucos minutos depois deste telefonema a segunda torre também foi atingida por um avião. Aquele homem, que havia sido alertado por sua mãe, acabou morrendo na explosão” (História Real).

Infelizmente vemos o quanto a falta de sensibilidade em relação à importância de honrar os outros traz consequências negativas, algumas vezes trágicas, principalmente quando deixamos de honrar e escutar nossos próprios pais.


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Nesta semana lemos a Parashá Shemini, que descreve a cerimônia de inauguração do Mishkan e o início do trabalho de Aharon e seus quatro filhos como os Cohanim (sacerdotes) responsáveis por todos os serviços do Mishkan. Mas no auge da alegria da inauguração aconteceu uma enorme tragédia: os dois filhos mais velhos de Aharon, Nadav e Avihu, morreram, como está escrito: “[Nadav e Avihu] trouxeram diante de D’us um fogo estranho, que Ele não havia ordenado a eles. E veio um fogo diante de D’us e os consumiu, e eles morreram diante de D’us” (Vayikra 10:1,2). A causa da morte de Nadav e Avihu, como explicita a Torá, foi por eles terem oferecido um incenso “estranho”, isto é, que não havia sido comandado por D’us.

Porém, há um Midrash (parte da Torá Oral) que traz outros motivos para a morte de Nadav e Avihu. De acordo com uma opinião, eles morreram por terem tomado uma decisão sem consultar seu professor, Moshé Rabeinu. De acordo com uma segunda opinião, eles morreram porque entraram no Mishkan para servir a D’us embriagados, após terem bebido vinho. E de acordo com uma terceira opinião, eles morreram porque haviam decidido não se casar e, consequentemente, não ter filhos.

Deste Midrash ficam duas dúvidas. Em primeiro lugar, por que o Midrash traz motivos tão diferentes daquele explicitamente escrito na Torá, de que a morte de Nadav e Avihu foi consequência deles terem oferecido um incenso que D’us não havia comandado? E por o Midrash apresenta opiniões aparentemente tão desconectadas entre si?

Responde o Rav Moshe Schreiber (Alemanha, 1762 - Áustria, 1839), mais conhecido como Chatam Sofer, que as causas apontadas pelo Midrash não estão desconectadas entre si, pois são todas consequências de um único erro: o fato de Nadav e Avihu terem decidido não se casar e não ter filhos. Mas isto foi um erro tão grave? E como este erro se relaciona com os outros erros, mencionados na Torá e no Midrash?

Existem na Torá muitas Mitzvót relacionadas com a necessidade de honrar as pessoas, como a Mitzvá de honrar os pais e a Mitzvá de honrar nossos professores. Há também Mitzvót relacionadas com a necessidade de honrar D’us, como as leis de comportamento dentro do Mishkan e, atualmente, as leis de conduta dentro da sinagoga. Mas como desenvolvemos esta sensibilidade em relação à importância de respeitar as pessoas e D’us? Explica o Chatam Sofer que uma das formas é através da convivência com os nossos próprios filhos. Por exemplo, quando um pai é desrespeitado pelo seu filho, ele sente o quanto a falta de respeito é incômoda. Isto ajuda a pessoa a refletir e a internalizar a importância de respeitar os pais, professores e, acima de tudo, D’us.

Por isso, quando Nadav e Avihu decidiram não se casar e não ter filhos, isto os impediu de desenvolver a apreciação correta da necessidade de honrar os outros. A consequência foi que eles tropeçaram em diversas áreas relacionadas ao respeito. Ignorar a opinião de Moshé e decidir algo sem consultá-lo indica uma falha em dar a honra necessária ao seu professor. Também entrar no Mishkan embriagados demonstra uma falha em dar a devida honra para a Presença Divina que residia ali. E finalmente, ao oferecer um incenso que D’us não havia pedido, apesar das boas intenções, demonstrou uma falta de suficiente temor e respeito por D’us. Portanto, a decisão equivocada de não casar e não ter filhos resultou em diferentes erros, cujo ponto em comum de todos eles foi a falha em honrar tanto o próximo quanto D’us.

Explica o Rav Yonatan Guefen que este ensinamento da Parashá nos desperta para a importância do cuidado necessário no nosso relacionamento com as pessoas. Para pessoas que vivem sem os conceitos da Torá, os relacionamentos interpessoais são vistos com a ótica de “o que eu posso ganhar com este relacionamento?”, e isto se aplica tanto nas amizades quanto no casamento e na criação dos filhos. Portanto, o que as pessoas buscam nos relacionamentos é algo egoísta, e talvez isto explique por que os casamentos e as relações entre pais e filhos têm se degradado tanto nas últimas gerações. Se a meta da pessoa em um relacionamento é primariamente algo egoísta, então seus desejos e esperanças vão inevitavelmente se chocar com os do seu companheiro ou filhos, que também estarão movidos apenas por desejos egoístas. Mais do que isso, muitas pessoas sentem que casar ou ter filhos vai impedi-las de aproveitar os prazeres da vida e, por isso, acabam fugindo destes compromissos, em sua busca de prazeres e conforto. Isto pode ser percebido nas festas de “despedida de solteiro”, como se para os noivos fosse uma última oportunidade de aproveitar os verdadeiros prazeres da vida, o que não será mais possível depois do casamento.

O Chatam Sofer ressalta que um dos principais propósitos de ter filhos é para nos possibilitar crescer em áreas nas quais não seria possível de outra maneira. O mesmo se aplica ao casamento e outros tipos de relacionamento. A visão da Torá é que a pessoa deve entrar em um relacionamento de maneira desinteressada, isto é, focando em como podemos ajudar aos outros e, ao mesmo tempo, como podemos crescer espiritualmente com este relacionamento e nos tornarmos pessoas melhores. Este crescimento pode ocorrer com as partes “agradáveis” dos relacionamentos, mas muitas vezes ocorre através da superação das dificuldades que surgem.

Em última instância, nossos relacionamentos com as pessoas nos ajudam a crescer espiritualmente em todas as áreas da vida e a nos conectar com D’us. Aquele que aprende a honrar o próximo vai se desenvolver e aprender a honrar D’us da maneira correta. Portanto, é importante nos esforçarmos para construir relacionamentos desinteressados e verdadeiros com as pessoas, mesmo que para isso seja necessário diminuir um pouco nosso nível de conforto. Somente assim, com a somatória dos bons momentos e das dificuldades, chegaremos a ser verdadeiramente pessoas completas.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Lv 9:1-11:47, 2 Sm. 6:1-7:17, At. 10: 9-22, 34-35

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

CUIDADO COM A HONRA DOS OUTROS - PARASHÁ VAYIGASH 5774


O Rav Elazar Man Shach (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), um dos maiores sábios da geração passada, era frequentemente visitado por um jovem emocionalmente desequilibrado. Toda vez que o rapaz se sentia triste ou deprimido, ele procurava o Rav Shach, que o recebia com alegria e passava horas sentado com ele, tranquilizando-o. Certa vez um familiar do Rav Shach, incomodado com o fato de ele dedicar tanto tempo para este rapaz, disse:

- Rav, não há um limite de quanto você deve ajudar outras pessoas? Se você fosse uma pessoa normal, com tempo sobrando, eu entenderia. Mas você é um dos grandes rabinos da geração, você não tem um minuto sobrando nem para você mesmo. Você não acha que deveria proibir este rapaz de vir aqui e dedicar seu precioso tempo para o seu próprio crescimento espiritual?

- Este rapaz tem sérios problemas psiquiátricos – respondeu o Rav Shach. Ele veio me visitar mês passado, e veio novamente há duas semanas. Certamente ele estará de volta em duas semanas, e também daqui a um mês. Eu o encorajo, eu o acalmo, mas vejo que isso não é suficiente para curá-lo. Certamente é um caso no qual a cura somente virá através de um milagre, diretamente das mãos de D'us.

- Mas então por que você se esforça tanto, conversando intermináveis horas com ele? – insistiu o familiar.

- Pois eu acredito que D'us fará um milagre acima das leis da natureza apenas se nós também nos esforçarmos acima das leis da natureza. É por isso que, apesar de ter uma vida tão corrida, eu faço minha parte dedicando bastante tempo a este rapaz. Pois eu acredito que ele merece uma cura completa da sua doença, e isto vem antes do meu próprio bem estar.


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Na Parashá desta semana, Vayigash, a Torá descreve o feliz desfecho da história de Yossef e o emocionante reencontro com Yaacov, seu pai, depois de 22 anos de separação, como está escrito: "E Yossef preparou sua carruagem e subiu ao encontro de seu pai Israel em Goshen. Ele apresentou-se diante dele, e atirou-se sobre seu pescoço e chorou muito sobre seu pescoço" (Bereshit 46:29). Depois disso, Yaacov ainda viveu mais 17 anos no Egito, até o seu falecimento.

Yossef, que era apenas um jovem imaturo quando foi vendido como escravo por seus irmãos, aos 17 anos, agora havia se tornado o vice rei do Egito e tinha em suas mãos muito poder, como está escrito no final da Parashá: "E fez o povo (egípcio) trocar de cidades, de um extremo ao outro extremo das fronteiras" (Bereshit 47:21). Yossef obrigou todos os egípcios a saírem de suas casas e mudarem de cidade, até que ninguém mais permanecesse no mesmo lugar em que vivia anteriormente. Por que ele fez isto? O Faraó havia sonhado que viriam sete anos de fartura e sete anos de fome, e Yossef aconselhou-o a armazenar comida durante os anos de fartura. Quando chegaram os anos de fome, as pessoas precisaram vender até mesmo suas terras para poder comprar comida. Assim, todas as terras do Egito passaram a ser propriedade do Faraó. Portanto, um dos motivos pelo qual Yossef mudou os egípcios de cidade foi para que ficasse claro que as terras não pertenciam mais a eles.

Mas sabemos que a Torá é um livro de ensinamentos para nossa vida e, portanto, nenhuma informação foi escrita desnecessariamente. Se a atitude de Yossef tivesse apenas motivações administrativas, não haveria necessidade da Torá nos contar este detalhe. Então por que a Torá quis ensinar que Yossef mudou todas as pessoas de lugar no Egito?

Explica Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, que o versículo foi escrito para louvar um excelente traço de caráter desenvolvido por Yossef. Apesar do final feliz, Yossef poderia ter guardado muito rancor dos seus irmãos por terem-no vendido como escravo ao Egito. Tendo tanto poder, Yossef poderia até mesmo ter se vingado deles. Mas Yossef conseguiu perdoar seus irmãos e chegou ao nível de colocar seu poder em risco apenas para cuidar da honra deles. Quando Yossef mudou as pessoas de uma cidade para outra, sua verdadeira intenção era que seus irmãos não fossem vistos como "os exilados". Yossef fez com que todos os egípcios também se transformassem em exilados, tirando dos irmãos este "rótulo" negativo. Yossef poderia ter causado uma rebelião popular, poderia perder seu cargo caso o Faraó não gostasse de sua atitude. Apesar disso, Yossef não mediu esforços para poupar a honra dos irmãos.

E esta não foi a única vez em que Yossef demonstrou este cuidado com a honra dos irmãos. No momento de se revelar para eles, Yossef sabia que seus irmãos sentiriam vergonha. Por isso, ele pediu para que todos os egípcios saíssem do salão, inclusive os homens da sua guarda pessoal, colocando sua própria vida em risco para não envergonhar publicamente seus irmãos. Também sempre que Yossef resolvia problemas de ordem pública, ele o fazia em seu gabinete. Mas quando ele quis aplicar seu plano para testar se seus irmãos estavam arrependidos de tê-lo vendido, ele recebeu-os na sua própria casa, e não no seu gabinete, para não humilha-los em público.

Há um Midrash (parte da Torá Oral) que ensina algo ainda mais impressionante sobre esta característica de Yossef. O Midrash afirma que durante os 17 anos em que seu pai esteve no Egito, Yossef não o procurou, pois não queria ficar sozinho com ele. Mas esta informação do Midrash é um pouco estranha, pois a Torá descreve o enorme amor que havia entre Yaacov e Yossef, o seu filho preferido. Eles estavam há 22 anos separados, certamente estavam com muitas saudades um do outro, teriam muito o que conversar. Além disso, Yossef poderia ter crescido muito estudando com seu pai, poderia ter alcançado níveis espirituais muito mais elevados. Então por que Yossef não procurou Yaacov durante todos estes anos? Pois Yossef sabia que se ficasse sozinho com seu pai, Yaacov perguntaria como ele havia chegado ao Egito, e Yossef precisaria contar sobre a sua venda. Para não envergonhar seus irmãos, Yossef abriu mão do amor que sentia pelo pai e do seu próprio crescimento espiritual.

Até onde vai a obrigação de se preocupar com a honra do próximo? Se prestarmos atenção no versículo que descreve o reencontro entre Yaacov e Yossef, há algo que nos chama a atenção. Explica o Talmud (Tratado de Kalá, capítulo 3) que quando Yossef e seu pai se reencontraram, Yaacov não o beijou. Por que? Pois ele suspeitava que Yossef, um homem extremamente bonito, havia se impurificado com as mulheres egípcias durante os anos em que esteve sozinho no Egito. Yossef, que era muito sábio, rapidamente entendeu o motivo pelo qual seu pai, que o amava tanto, não o havia beijado. Yossef tinha, portanto, mais um importante motivo para ter procurado seu pai durante aqueles anos. Yossef poderia se explicar para ele, poderia provar que se manteve o tempo inteiro em um nível espiritual elevado. Se Yossef tivesse contado para o pai todos os testes que havia vencido, como quando fugiu das investidas da bela esposa do Potifar, certamente Yaacov teria mudado de opinião sobre seu filho. Apesar de tudo isso, Yossef nunca foi procurar seu pai. Ele preferiu ficar com a sua própria honra manchada e sob suspeita de ter cometido graves transgressões apenas para poupar seus irmãos. Daqui vemos que para Yossef, a honra dos seus irmãos estava acima da sua própria honra.

Aprendemos de Yossef o quanto devemos nos esforçar para cuidarmos da honra dos outros. Quando uma pessoa não se importa com a honra dos outros, pode acabar cometendo algumas das piores transgressões da Torá, como falar Lashon Hará (maledicência sobre o próximo) ou humilhar alguém em público, que é considerada pelos nossos sábios algo tão grave quanto o assassinato.

Esta característica de Yossef também foi ensinada pelos nossos sábios: "Que a honra do seu companheiro seja tão preciosa para você quanto a sua própria honra" (Pirkei Avót 2:10). Da mesma maneira que não gostamos de ser humilhados, principalmente em público, também devemos tomar muito cuidado com a honra dos outros. Apesar de vermos o esforço de Yossef para cuidar da honra de seus irmãos, muitas vezes, mesmo sem más intenções, nos descuidamos e acabamos humilhando outras pessoas. Atitudes aparentemente inofensivas, como contar uma piada que denigre os outros ou dar apelidos pejorativos, podem causar muito sofrimento. Por isso, temos que ser muito mais cuidadosos e sempre pensar bastante antes de falar. Assim estaremos garantindo que nunca estaremos desrespeitando outras pessoas.

"Quem é a pessoa honrada? Aquele que honra e respeita as outras pessoas" (Pirkei Avót 4:1).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 44:18-47:27, Ez. 37:15-28, Lc. 6:9-16