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sábado, 10 de dezembro de 2016

HONESTIDADE ACIMA DE TUDO - PARASHÁ VAIETSE 5777

Três estudantes universitários não queriam fazer a prova final do curso de engenharia, pois haviam passado o final de semana curtindo e não tinham estudado nada. Mas como poderiam convencer o professor a deixá-los fazer a prova depois? Eles elaboraram um plano incrível. Sujaram suas roupas com graxa, óleo e gasolina e foram falar com o professor nos minutos finais da prova.

- Professor, pedimos desculpas, não conseguimos chegar a tempo para fazer a prova. Estávamos em um casamento no Rio de Janeiro e na volta o carro quebrou. Passamos muito tempo tentando consertar o carro, por isso estamos assim sujos. Não temos condições psicológicas de fazer a prova agora. Por favor, podemos fazer em outro dia?

O professor pensou por alguns instantes e, de maneira muito compreensiva, marcou a prova para três dias depois. Os amigos ficaram muito felizes com o sucesso de sua malandragem, pois haviam aproveitado o fim de semana e ainda fariam a prova em outro dia, com bastante tempo para estudar. Depois de três dias eles foram fazer a prova confiantes, pois haviam estudado muito e estavam bem preparados. Para a surpresa deles, o professor colocou-os em salas separadas. Quando receberam a prova, quase desmaiaram. A prova tinha apenas quatro perguntas:

1. De quem era o casamento no Rio de Janeiro?
2. Que horas o carro quebrou?
3. Aproximadamente em que trecho da estrada o carro quebrou?
4. Qual é o modelo do carro?

Embaixo das perguntas estava escrita a seguinte frase: "Caros alunos, ser honesto significa escolher não mentir, não roubar, não enganar e não trapacear de modo algum, mesmo quando parece justificável. Quando somos honestos, desenvolvemos a força de caráter que nos permite melhorar nosso relacionamento com D'us e com o próximo. Sendo honestos, alcançamos a paz de espírito, além do respeito e a confiança do próximo. Boa prova" 
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A Parashá desta semana, Vaietse (literalmente "E saiu"), descreve a viagem de Yaacov para a casa de seu tio Lavan, para fugir da fúria de seu irmão Essav e para procurar uma esposa. Yaacov conheceu a filha de Lavan, Rachel, e percebeu que com ela construiria o povo judeu. Mas como Yaacov não tinha dinheiro para o dote, Lavan cobrou dele sete anos de trabalho. Após trabalhar os sete anos, Yaacov foi enganado e acabou casando-se com a outra filha de Lavan, Leá. Teve então que trabalhar outros sete anos por Rachel. Depois disso, ainda trabalhou mais seis anos para Lavan com o intuito de juntar um pouco de dinheiro e bens para sua própria família. Quando decidiu voltar para casa, ainda foi perseguido por Lavan, que quis checar nos utensílios de Yaacov se ele havia roubado algo.

No total, Yaacov trabalhou por 20 anos para seu tio Lavan. Apesar do tempo tão longo e das péssimas condições de trabalho, a Torá atesta que durante todos estes anos ele foi completamente honesto, como está escrito em relação aos sete anos adicionais que Yaacov teve que trabalhar por Rachel: "E (Yaacov) trabalhou com ele (Lavan) outros sete anos" (Bereshit 29:30). Rashi aprende deste versículo que a Torá quis conectar os sete anos finais com os sete anos iniciais, para nos ensinar que, da mesma forma que os sete anos iniciais foram com honestidade completa, assim também os sete anos finais foram com honestidade completa.

Mas deste comentário de Rashi surge uma grande pergunta. Por acaso teríamos alguma desconfiança da honestidade de Yaacov? Nossos patriarcas eram incríveis exemplos de retidão. Yaacov era uma pessoa tão correta, tão íntegra, tinha tanto temor a D'us, que certamente nunca faria um ato de desonestidade. Então, por que neste momento a Torá precisou reforçar a sua honestidade?

Explica o Rav Yerucham Leibovitz zt"l (Bielorússia, 1873 - 1936) que a resposta está em um interessante Midrash: "Diz Rabi Akiva: "Ame ao próximo como a você mesmo" (Vayikrá 19:18), esta é uma grande regra da Torá. Ben Azay diz: "Esta é a narração das gerações" (Bereshit 5:1) é uma regra ainda maior. Não diga: "Pelo fato de ter sido desprezado (pelo meu companheiro), desprezarei meu companheiro junto comigo". Se você fez isto, saiba quem você está desprezando: "À imagem de D'us o fez (o ser humano)" (Bereshit 5:1). Mas o que significa este Midrash?

De acordo com o Rav Yerucham, este Midrash traz uma discussão entre Rabi Akiva e Ben Azay, dois grandes sábios da época do Talmud, em relação a como deve ser o nosso relacionamento com o próximo. De acordo com o Rabi Akiva, nosso relacionamento com o próximo é baseado no versículo "Ame ao próximo como a você mesmo". Temos que tomar cuidado com a honra dos outros e nunca fazer ao próximo o que não gostamos que façam conosco. Porém, na prática, caso nosso companheiro nos despreze, também seria permitido desprezá-lo, pois não temos obrigação de amar o próximo mais do que amamos a nós mesmos. Já de acordo com Ben Azay, o comportamento exigido de cada ser humano vem do seguinte versículo "Esta é a narração das gerações do ser humano. No dia em que D'us criou o ser humano, à imagem de D'us o fez"". O final do versículo, "à imagem de D'us o fez", impede a pessoa de dizer "como fui envergonhado pelo meu companheiro, então envergonharei meu companheiro comigo", pois como o ser humano foi criado à imagem e semelhança de D'us, então aquele que despreza seu companheiro está, em última instância, desprezando D'us.

Com esta explicação do Midrash, podemos entender as palavras do versículo que ressaltam a honestidade de Yaacov. Ele tinha muito motivos e justificativas para não continuar a trabalhar para Lavan de maneira honesta. Ele tinha feito um trato com Lavan, com as condições muito claras. Sabendo da má índole de Lavan, Yaacov havia especificado que queria casar-se com a sua filha mais nova, Rachel. Yaacov havia tentado se proteger de todas as formas de uma enganação de Lavan. Porém, após trabalhar sete anos por Rachel, Yaacov foi enganado. A reação normal de uma pessoa enganada é revidar, tentando diminuir seu prejuízo. Por dentro, Yaacov devia estar querendo "dar o troco" em Lavan. Ele poderia facilmente retirar animais do rebanho de Lavan ou ficar descansando ao invés de ir trabalhar. Mas ele conseguiu passar por este teste de honestidade e, apesar de saber que os sete anos adicionais eram injustos, mesmo assim ele continuou fazendo seu trabalho de forma honesta. Ele foi tão íntegro e correto em seu trabalho como pastor dos animais de Lavan que seu comportamento se transformou em Halachá (Lei judaica) em relação à responsabilidade exigida dos "Shomrim" (pessoas que guardam objetos dos outros).

Há um Midrash que ressalta ainda mais a honestidade de Yaacov, demonstrando que ele tinha um comportamento impecável. Normalmente somos rigorosos em relação a objetos de maior valor, mas acabamos sendo descuidados com objetos de pequeno valor. Ninguém roubaria uma caneta Mont Blanc, mas quase ninguém se importa de levar para casa a caneta Bic do escritório ou de fazer cópias de documentos pessoais na impressora do escritório. Isto é ainda mais frequente quando se trata de pessoas próximas. É normal, quando um genro mora com seu sogro, que ele acabe tendo proveitos não permitidos dos bens do seu sogro. Porém, também em relação a isso a Torá atesta a honestidade de Yaacov. Por que Lavan perseguiu Yaacov? Pois desconfiou que ele havia pegado objetos seus de maneira desonesta. Mas após Lavan procurar em todos os utensílios de Yaacov, não encontrou nada. Yaacov então desabafou: "Pois quando você revirou os meus utensílios, o que você encontrou?" (Bereshit 31:37). O Midrash afirma que Lavan não encontrou nos pertences de Yaacov nem mesmo uma agulha sua. Yaacov, em 20 anos de trabalho, foi honesto, não apenas com objetos mais caros, mas também com os objetos mais simples.

A honestidade é um traço de caráter difícil de ser adquirido. O Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l, em seu livro Messilat Yesharim (Caminho dos Justos), ressalta o quanto devemos ser extremamente cuidadosos em situações onde é muito fácil encontrar desculpas e justificativas para sermos desonestos. Nosso modelo de verdade e honestidade é Yaacov. Por 20 anos ele viveu na casa de Lavan e diversas vezes foi trapaceado e enganado, e mesmo assim Yaacov manteve-se íntegro e não procurou justificativas para se comportar de maneira desonesta. Nestes 20 anos, nem mesmo uma agulha ele pegou sem autorização.

Ensinam os nossos sábios que todos os dias devemos nos questionar: "Quando meus atos chegarão ao nível dos atos dos meus antepassados, Avraham, Ytzchak e Yaacov?". Precisamos refletir: como reagiríamos caso estivéssemos fazendo negócios com alguém que não age conosco de forma honesta? Como lidaríamos com o fato de saber que estamos sendo enganados? O que faríamos caso esta enganação não fosse algo passageiro, e sim uma trapaça que se estende por muitos anos? Certamente sentiríamos que todas as leis da Torá não se aplicam mais neste caso e que estamos isentos de nossas obrigações e responsabilidades com a outra pessoa. Em alguns casos acharíamos que é até mesmo Mitzvá causar perdas àquele que nos enganou.

Mas não foi assim que Yaacov se comportou. Apesar de todas as trapaças e enganações de Lavan durante 20 anos, Yaacov não mudou absolutamente nada em suas responsabilidades e obrigações. Os maus atos de Lavan não causaram mudanças nos atos de Yaacov. A mesma integridade que ele tinha antes das trapaças, ele manteve depois das trapaças. Com isto, Yaacov estava cumprindo na prática o ensinamento trazido por Ben Azay, de que cada ser humano é criado à imagem e semelhança de D'us. Apesar de Lavan não merecer nenhum tipo de respeito, Yaacov sabia que devia respeitá-lo por sua semelhança com D'us.

Infelizmente todos acabam tendo contato na vida com pessoas desonestas e trapaceiras. Não devemos mudar nossos atos por causa delas nem deixar de ser corretos somente porque há pessoas à nossa volta que não são íntegras. Devemos cuidar das nossas obrigações e responsabilidades, tanto quando se trata de valores altos quanto quando se trata de valores pequenos. Não devemos fazer justiça com as próprias mãos, pois caso nossa escolha seja trapacear o trapaceiro, em última instância estaremos trapaceando D'us, o verdadeiro Dono do julgamento.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 28:10-32:2, Os.11:7-14:9

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

BONS MODOS VÊM ANTES DA TORÁ – PARASHÁ VAIETZE 5775

"O Rav Isroel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, aprendeu muitas coisas na vida observando cuidadosamente cada atitude de seu rabino, o Rav Nachum Kaplan (Lituânia, 1812 - 1879), carinhosamente conhecido como Reb Nechumke, pois sabia que todos os atos do seu rabino eram muito ponderados e tinham alguma motivação profunda.

Um dos exemplos ocorreu em um dia de Chánuka, quando a casa do Reb Nechumke estava cheia de parentes e alunos que queriam participar com ele do acendimento das velas. A Chanukiá polida e brilhante já estava no lugar apropriado, os copinhos já estavam cheios de azeite cristalino e puro, e os pavios de algodão já estavam preparados para o acendimento. Quando chegou o horário de acendimento, ao contrário do que todos esperavam, o Rav Nechumke permaneceu sentado ao lado da Chanukiá, estudando tranquilamente. Nas janelas das casas vizinhas já era possível ver várias velas de Chánuka sendo acesas, mas o Rav Nechumke não se movia do lugar para acender sua Chanukiá. Passou uma hora, e depois mais uma hora, mas o Reb Nechumke continuava sentado ao lado da Chanukiá e não se levantava para acendê-la. Lá fora já estava escuro e ninguém entendia o motivo do atraso, estavam todos perplexos. As crianças menores já estavam sem paciência, ansiosas pelo acendimento.

Após mais uma hora ter passado, todos escutaram uma leve batida na porta. A porta se abriu lentamente e a esposa do Rav Nechumke entrou em casa. Quando o Rav Nechumke viu que sua esposa havia chegado, abriu um enorme sorriso e imediatamente foi acender a Chanukiá. Depois do acendimento, os alunos questionaram o motivo daquela demora:

- Rav, de acordo com uma das opiniões dos nossos sábios, somente é possível acender as velas de Chánuka até o por do sol. Sabemos o quanto você é exigente e tenta cumprir as Mitzvót levando em consideração mesmo as opiniões mais rigorosas. Então por que você esperou pela sua esposa, se de acordo com a Halachá (Lei Judaica) ela não tinha obrigação de estar presente no momento do acendimento das velas?

- Vocês fizeram uma boa pergunta - começou a dizer o Rav Nechumke, olhando para os alunos com carinho - mas o que eu fiz está baseado em um ensinamento dos nossos sábios. Explica o Talmud (Torá Oral) que se um homem é tão pobre que não tem condições de comprar as velas de Shabat e as velas de Chánuka, ele deve dar prioridade para as velas de Shabat, pois elas envolvem o conceito de "Shalom Bait" (Harmonia familiar). Eu sabia que se eu não esperasse minha esposa e acendesse a Chanukiá sem ela, certamente eu causaria um sofrimento nela e com isso poderia prejudicar meu Shalom Bait. Se de acordo com o ensinamento dos nossos sábios as velas de Shabat têm prioridade sobre as velas de Chánuka por causa do Shalom Bait, então eu decidi que poderia me apoiar nas opiniões mais lenientes, que permitem o acendimento das velas de Chánuka depois do pôr do sol, para assim garantir que eu não causaria nenhuma mágoa em minha esposa."

Devemos cumprir com alegria e com seriedade todas as Mitzvót, mas sem nunca esquecer a nossa obrigação de "Derech Eretz" (se comportar de maneira decente e respeitosa).
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Na Parashá desta semana, Vaietze, Yaacov foge da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo, e parte em direção à casa de seu tio Lavan, onde também poderia procurar por uma esposa. Porém, antes disso, Yaacov decidiu passar 14 anos estudando na Yeshivá (Centro de estudos) de Shem e Ever, descendentes de Noach (Noé), para desenvolver sua espiritualidade e se elevar. Quando finalmente ele se dirigiu à casa de seu tio Lavan, no caminho passou por uma incrível experiência transcendental.

Quando Yaacov chegou ao lugar onde futuramente seria construído o Beit Hamikdash, anoiteceu de repente. Sem condições de continuar a viagem, ele colocou algumas pedras para apoiar sua cabeça, deitou e dormiu. Yaacov então teve um sonho profético, no qual ele viu uma escada apoiada na terra e cujo topo chegava até o céu, e nela havia anjos subindo e descendo. Uma incrível visão celestial, que poucas pessoas na história meritaram. Yaacov teve a oportunidade de atingir níveis de sabedoria ilimitados, e muitos segredos da criação foram mostrados para ele. Nesta visão profética houve também uma revelação de D'us, na qual Ele fez uma promessa eterna a Yaacov e seus descendentes.

Além disso, a Torá ressalta que todo o evento foi diretamente direcionado por D'us, e muitas coisas acima das leis da natureza ocorreram para que Yaacov tivesse esta visão profética. Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que há vários milagres indicados no seguinte versículo: "Ele (Yaacov) encontrou o lugar e passou a noite lá, pois o sol se pôs. E ele pegou das pedras do lugar que ele tinha colocado em volta de sua cabeça, e deitou naquele lugar" (Bereshit 28:11). "Pois o sol se pôs" significa que D'us fez com que milagrosamente o pôr do sol acontecesse antes do horário, para forçar Yaacov a dormir lá. "E encontrou o lugar" significa que Yaacov "saltou" de forma milagrosa até aquele lugar sagrado, onde D'us queria se revelar para ele. "E ele pegou as pedras do lugar" significa que as pedras se juntaram e se tornaram uma só pedra grande, para que Yaacov pudesse apoiar sua cabeça e dormir.

Se nós tivéssemos o mérito de receber durante um sonho uma visão profética tão elevada como a de Yaacov, não acordaríamos muito felizes por esta experiência transcendental e esta conexão espiritual tão incrível? Não estaríamos contentes por termos sido escolhidos para tal revelação, com a ocorrência de tantos milagres que a antecederam? Mas a Torá descreve que esta não foi a reação de Yaacov: "E Yaacov acordou do seu sono e disse: 'Então existe D'us neste lugar, e eu não sabia'" (Bereshit 28:16). De acordo com Rashi, é como se Yaacov estivesse dizendo: "Se eu soubesse, não teria dormido neste lugar tão sagrado". Ao invés de acordar alegre, Yaacov acordou arrependido de ter dormido lá.

A reação de Yaacov é difícil de ser entendida. Nossos sábios ensinam que não foi nem mesmo um sono pesado, foi apenas uma soneca. E foi justamente por causa desta soneca que a alma de Yaacov se conectou com D'us e alcançou incríveis visões proféticas. Além disso, estava óbvio pelos milagres que aconteceram que foi D'us que "forçou" Yaacov a dormir naquele lugar sagrado. Então por que ele ficou tão temeroso de ter dormido lá? Se não tivesse dormido, ele teria perdido a oportunidade daquela visão profética, então por que se arrependeu?

Explica o Rav Nosson Tzvi Finkel (Lituânia, 1849 - Israel, 1927), mais conhecido como Alter MiSlobodka, que daqui aprendemos o quanto nossos antepassados eram rigorosos com a característica de "Derech Eretz". Derech Eretz é a forma da pessoa se comportar, em todos os seus atos, com educação, respeito, atenção e decência. Yaacov entendeu que, mesmo que foi apenas uma soneca, era um sinal de desrespeito com a santidade do lugar. Isto significa que Yaacov deu mais importância ao Derech Eretz do que à Revelação Divina e todos os segredos ocultos que foram mostrados a ele, e estaria disposto a abrir mão de todo aquele crescimento espiritual apenas para ter se portado com mais Derech Eretz.

Este comportamento de Yaacov ilustra muito bem um importante conceito ensinado pelos nossos sábios: "Derech Eretz Kadmá LaTorá" (o Derech Eretz vem antes da Torá). O que significa esta expressão? Explica o Rabeinu Yona (Espanha, século 12) que a pessoa precisa continuamente melhorar seus traços de caráter, pois somente assim a Torá que ela estudar ficará para sempre com ela. Mas se a pessoa estudar sem ter refinado seu caráter, no final acabará perdendo seu estudo. O Derech Eretz precisa vir antes da Torá pois é parte das fundações do ser humano, que permitirá que tudo construído em sua vida se mantenha em pé.

Se Yaacov estava disposto a abrir mão de uma grande Revelação Divina por causa do Derech Eretz, muito maior é a nossa obrigação de termos cuidado com nosso comportamento nos atos cotidianos, evitando causar qualquer constrangimento ou sofrimento aos outros. Muitas vezes, por nos descuidarmos, acabamos ofendendo e até mesmo humilhando outras pessoas. Por isso, antes de almejar nos tornarmos pessoas espiritualmente elevadas, precisamos almejar no tornarmos pessoas educadas e corretas. Assim, tudo o que construirmos espiritualmente se manterá para sempre.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sábado, 9 de novembro de 2013

UMA CASA COM HARMONIA - PARASHÁ VAIETSE 5774


Com paciência e sabedoria, um professor ensinava seu aluno a ler a Torá. Quando chegou a um determinado versículo, vendo que o rapaz não sabia pronunciar uma palavra, o professor explicou:

- Estas duas letras "yud" juntas representam o sagrado nome de D'us, que não deve ser mencionado a não ser em ocasiões especiais. Este nome é tão sagrado que muitas vezes ele não é nem mesmo escrito nos livros, e sim substituído por estas duas letras "yud". Portanto, quando estas letras aparecerem, substitua por "Hashem", que significa literalmente "o Nome de D'us".

Com este novo entendimento, o menino tentou ler sozinho. Mas na conclusão de cada versículo, para a surpresa do professor, o aluno dizia "Hashem".

- Onde você vê o Nome de D'us após cada versículo? - perguntou o professor, curioso.

O menino apontou os dois pontos que apareciam no final de cada versículo. Eram pontos que lembravam duas letras "Yud", mas que ficavam um em cima do outro e separavam os versículos. O professor sorriu e explicou:

- Meu querido, um judeu é representado pela letra "yud". Quando dois "yud" estão lado a lado, unidos, D'us fica feliz e habita ali. Estes são os dois "yud" que são pronunciados como o Nome de D'us. Porém, se um judeu fica acima do outro, significa que eles não estão em harmonia, e então D'us não habita ali. Estes são os dois "yud" do final de cada versículo. Eles representam o fim, não o sagrado Nome de D'us.
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Na Parashá desta semana, Vaietse, a Torá descreve uma experiência sobrenatural pela qual passou nosso terceiro patriarca, Yaacov. Para fugir da fúria de seu irmão Essav, ele partiu para o exílio, para a terra de seu tio Lavan, pai de suas futuras esposas Rachel e Léa. Quando escureceu, Yaacov estava no lugar onde futuramente seria construído o Beit Hamikdash (Templo Sagrado), e ali ele deitou para dormir. Durante a noite, ele sonhou com uma escada que chegava até o céu, de onde desciam e subiam anjos. Neste mesmo sonho D'us se revelou para ele e prometeu protegê-lo durante todo o tempo em que estivesse no exílio. Quando Yaacov acordou, ele disse: "Certamente D'us está neste lugar e eu não sabia... Como é incrível este lugar. Aqui é nada menos do que a Casa de D'us, e este é um portão para o Céu" (Bereshit 28:16,17). Mas o que Yaacov quis dizer quando afirmou que aquele lugar era a "Casa de D'us"?

Esta pergunta se conecta com uma intrigante afirmação do Talmud (Pessachim 88a): "Não como Avraham, que chamou (o Templo) de 'montanha', como está escrito: "Na montanha D'us será visto" (Bereshit 22:14), e não como Itzchak, que chamou (o Templo) de 'campo', como está escrito: "E Itzchak saiu para rezar no campo" (Bereshit 24:63), mas como Yaacov, que chamou (o Templo) de 'casa', como está escrito: "Ele chamou o lugar de 'Bet-El' (Casa de D'us)" (Bereshit 28:19). O que os nossos patriarcas estavam nos ensinando ao se referirem ao Templo como uma montanha, um campo e uma casa?

A resposta está nas palavras do Rambam (Maimônides), que ensina que o Beit Hamikdash tinha três propósitos: ser literalmente uma Casa de D'us, isto é, o local onde repousava a Shechiná (Presença Divina); ser um local para a oferenda de Korbanót (sacrifícios); e ser um local para que o povo judeu pudesse subir, três vezes ao ano, para comemorar as Festas Judaicas (Pessach, Shavuot e Sucót) e se inspirar.

Explica o Rav Zev Leff que Avraham referiu-se ao local do Beit Hamikdash como uma montanha, isto é, um lugar onde a pessoa pode subir e se inspirar. Avraham estava referindo-se ao nosso Primeiro Beit Hamikdash, onde a Presença Divina era mais evidente e aconteciam muitos milagres abertos, como a ausência de moscas no local onde os animais eram sacrificados e a coluna de fumaça que subia do Mizbeach (altar de sacrifícios) e que não se desviava nem mesmo com os ventos mais fortes, causando um enorme reforço espiritual em cada judeu que entrava pelos seus portões.

Já Itzchak referiu-se ao local do Beit Hamikdash como um "campo". O campo é um lugar propício para o crescimento e o desenvolvimento das sementes. Assim também é o Beit Hamikdash, um ambiente que conduz o ser humano ao seu crescimento e desenvolvimento espiritual. Mas o campo não inspira as pessoas como uma montanha alta. Itzchak estava referindo-se ao Segundo Beit Hamikdash, onde a Presença Divina já não era mais tão perceptível e muitos dos milagres que ocorriam no Primeiro Beit Hamikdash já não ocorriam mais no Segundo. Porém, mesmo assim era um lugar incrível para as Tefilót (rezas) e para a oferenda dos Korbanót.

Finalmente Yaacov referiu-se ao local do Beit Hamikdash como a "Casa de D'us". O que ele queria nos ensinar ao fazer este paralelo com uma casa? Para responder, precisamos antes entender qual é a função de uma casa. Ela é composta basicamente por quatro paredes, uma porta e uma janela, e tem principalmente três funções: criar um domínio interno privado, separado do domínio público; formar um ambiente que envolve e une os indivíduos que vivem nesta área interna; e servir como proteção contra as influências externas hostis. Yaacov estava referindo-se ao nosso futuro Terceiro Beit Hamikdash, que será um lugar com muita santidade, harmonia e proteção contra as más influências.

Por que Yaacov percebeu o aspecto daquele local como sendo a "Casa de D'us" justamente quando estava indo para o exílio? Para nos ensinar que durante o nosso exílio, enquanto ainda não temos o nosso Terceiro Beit Hamikdash construído, o conceito da "Casa de D'us" se materializa através de três locais: a "Casa de Rezas" (Beit Haknesset), a "Casa de Estudo de Torá" (Beit Midrash) e a "Casa judaica". Estas três "Casas" são as responsáveis por manter o povo judeu vivo mesmo durante a escuridão espiritual do exílio, e nos darão a força necessária para um dia voltarmos para Israel e meritarmos a verdadeira e definitiva "Casa de D'us": o Terceiro Beit Hamikdash.

Obviamente que não podemos desprezar a santidade necessária nas nossas "Casas de Reza" e nas nossas "Casas de Estudo", mas será que nos preocupamos com a santidade das nossas próprias casas? Será que entendemos que o nível espiritual dos nossos lares é tão importante quanto o nível espiritual das sinagogas e centros de estudo de Torá?

Precisamos transformar nossas casas em um Beit Hamikdash em miniatura, isto é, devemos criar um ambiente de morais e valores judaicos, um santuário interno de espiritualidade que serve como fundação para o estudo e a observância da Torá. Além disso, nossas casas devem transbordar harmonia e entendimento. O conceito de "Shalom Bait" (paz familiar) refere-se à harmonia perfeita que a casa cria, onde cada indivíduo se sente parte de uma unidade que funciona apenas quando todos trabalham juntos, cada um com seus talentos, para atingir uma meta em comum. E finalmente nossa casa deve ser uma fortaleza, que nos protege dos valores deturpados que vão contra os princípios da Torá e das Mitzvót. Uma vez que a área interna da casa está repleta de santidade e propósito, a luz interior pode ser projetada através da janela, e a intensa santidade deste ambiente familiar pode ser exposta ao mundo externo.

É interessante perceber que estes importantes valores podem ser alcançados através de algumas Mitzvót relacionadas justamente com as nossas casas. Por exemplo, a Mitzvá de acender as velas de Shabat simboliza a santidade que a casa deve produzir e a iluminação dos valores e da ética da Torá. Além disso, as velas de Shabat representam a harmonia que é produzida quando cada um dos membros cuida para não pisar nos outros, pois a luz espiritual criada afasta a escuridão da ignorância e do egoísmo. As Mitzvót da Mezuzá e do Maakê (proteger com um parapeito os locais da casa que possam oferecer perigo, como uma varanda) simbolizam a proteção que a casa oferece contra os perigos físicos e espirituais do mundo externo. A Mitzvá de checar e exterminar o Chametz (farinha fermentada) antes de Pessach nos ensina que, de tempos em tempos, precisamos checar se influências externas estranhas conseguiram invadir nossa casa e, caso isto tenha ocorrido, devemos nos esforçar para removê-las completamente. E, finalmente, a Mitzvá de acender as velas de Chánuka e colocá-las fora de casa ou em uma janela de onde podem ser vistas da rua, simbolizando a influência que uma casa judaica deve ter sobre o mundo externo.

Para sobrevivermos espiritualmente ao nosso exílio e meritarmos o Terceiro Beit Hamikdash, que influenciará positivamente o mundo inteiro, devemos preparar nossas Casas de estudo e nossas Casas de reza para que elas estejam sempre com alto nível de santidade. Mas, acima de tudo, devemos preparar as nossas próprias casas para que elas possam refletir as reais funções da futura "Casa de D'us", que são a santidade, a harmonia e a proteção contra os valores incorretos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn. 28:10-32:2, Os.11:7-14:9, Jo. 1:43-51




Gn. 28:10-32:2, Os.11:7-14:9, Jo. 1:43-51
 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

EU TINHA TUDO E NUNCA TIVE NADA - PARASHÁ VAIETSE 5773

"Brian Epstein era um jovem inglês de Liverpool que trabalhava em uma loja de discos. Certa vez, após ter escutado sobre um jovem grupo de rapazes que tocava em um pub chamado "Cavern Club", resolveu ir conhecê-los. Eles realmente tocavam muito bem e Brian Epstein ficou impressionado com a música, o ritmo e o sentido de humor deles sobre o palco. Além disso, eles tinham um incrível carisma, perceptível mesmo em um primeiro encontro. No final da noite, Brian Epstein foi procurá-los. Propôs ser o empresário deles e se prontificou a encontrar uma gravadora. Os 4 rapazes concordaram e assinaram um contrato.

Mas o que parecia algo fácil se transformou em um grande desafio. Brian Epstein tentou algumas gravadoras, mas foi recusado em todas. Grandes empresas como a Columbia, Pye, Philips e Oriole nem se interessaram em gravar uma versão de demonstração. A gravadora Decca ainda gravou algo, mas logo dispensou os 4 rapazes. Foi somente na gravadora Parlophone que eles foram aceitos e gravaram seu primeiro disco.

Pouco tempo depois, aqueles 4 rapazes de Liverpool eram as pessoas mais famosas do planeta: os Beatles. Brian Epstein, também conhecido como o 5º Beatle, foi o empresário que os lançou para a fama. Ele influenciou fortemente os Beatles na forma de cantar, de se vestir e de se comportar no palco. Ele ficou milionário e seu nome ficou guardado para a história. Sua fortuna era tão grande que, segundo informações da época, ele tinha em sua garagem 7 Rolls-Royce.

Mas aos 32 anos, com uma fortuna estimada em 7 milhões de libras, famoso e considerado o grande xodó da imprensa, Brian Epstein se matou. Alguns dizem que foi com um tiro, outros dizem que foi uma overdose de drogas. Segundo algumas fontes, Brian Epstein deixou um bilhete que dizia: "I had everything, yet I had nothing" (Eu tinha tudo, mas ao mesmo tempo eu não tinha nada)."

E a história se repete. Não são poucos os casos de pessoas bem sucedidas que terminam suas breves vidas de maneira trágica. Jimi Hendrix, Kurt Cobain e Marilyn Monroe, entre outros, são alguns exemplos. O que faltava para eles? O que o dinheiro deles nunca conseguiu comprar?

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A Parashá desta semana, Vaietse, nos conta sobre a vida de Yaacov, nosso terceiro patriarca, desde quando ele foi para a casa de seu tio Lavan, fugindo da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo. Yaacov se casou com suas primas Rachel e Lea, pelas quais teve que trabalhar para Lavan por 14 anos. Além disso, Yaacov trabalhou para Lavan por mais 6 anos para juntar dinheiro para sustentar sua família.

Mesmo com Lavan tentando enganar Yaacov centenas de vezes, D'us protegeu-o e ele enriqueceu muito, despertando a inveja de Lavan e seus filhos. Yaacov começou a perceber que Lavan já não o tratava bem e decidiu que era o momento de voltar para casa. D'us então apareceu para ele e confirmou que realmente era o momento de voltar para Israel. Yaacov foi falar com suas esposas, para convencê-las a abandonar a casa de seu pai e ir para a terra de Israel. Mas a conversa deles, descrita pela Torá, precisa de explicações.

Em primeiro lugar, quando Yaacov falou com suas esposas e apresentou a ideia de voltar para Israel, fez uma enorme introdução, relembrando o quanto Lavan havia tentado enganá-lo durante todos aqueles anos. Ele também ressaltou o fato de que já não era visto com bons olhos por Lavan e seus filhos. Somente depois disso Yaacov mencionou que D'us os havia mandado voltar. Não era suficiente ele ter mencionado desde o princípio que D'us os havia mandado voltar?

E o que necessita ainda mais explicação é a resposta de Rachel e Lea, que disseram: "E responderam Rachel e Lea: Por acaso ainda temos alguma parte e herança na casa de nosso pai?... Então agora, faça tudo o que D'us disse para você" (Bereshit 31:14). O que significam estas palavras? Por que elas não disseram diretamente que estavam dispostas a cumprir a vontade de D'us de forma incondicional? Se estivesse tudo bem, se elas tivessem parte na herança do pai, elas não iriam para Israel? Elas somente concordaram em voltar para Israel, conforme D'us havia comandado a Yaacov, pois sabiam que não tinham nada a perder?

Para encontrar a resposta, antes precisamos desmitificar a forma como enxergamos a religião. Para muitos, o cumprimento das Mitzvót é visto de uma maneira negativa. Por que tantos insistem em continuar afastados dos ensinamentos da Torá? Pois, influenciados por conceitos de outras religiões, acabamos acreditando na ideia equivocada de que viver uma vida espiritual significa abrir mão de todos os prazeres do mundo material e viver imerso em sofrimentos e abstinência. Os religiosos são aqueles coitados que vivem no passado, sem prazeres materiais. Muitos acreditam que, de acordo com a religião, viemos para este mundo apenas para sofrer, e que este sofrimento é a única forma de alcançar nossa porção no Mundo Vindouro. Porém, de acordo com a filosofia judaica, isto é um completo equívoco.

Explica o Rav Eliahu Lopian que não estamos neste mundo para sofrer. Se tivéssemos vindo neste mundo apenas para sofrer, por que D'us teria criado um mundo tão maravilhoso? Por que teria feito tanta abundância de frutas e flores? Por que teria feito com que todos os dias tivessem um nascer e um por do sol espetaculares? D'us nos criou para nos dar prazer, e quando cumprimos a vontade Dele, já começamos a desfrutar deste prazer ainda neste mundo. É uma obrigação de cada ser humano refletir e entender que cumprir a vontade de D'us faz com que recebamos muitas Brachót (bênçãos) e coisas boas aqui, como ensinam nossos sábios: "Os frutos são comidos neste mundo e o fundo fica guardado para o Mundo Vindouro". A principal recompensa das nossas Mitzvót fica guardada para o Mundo Vindouro, mas é possível aproveitar as Brachót já neste mundo.

Por outro lado, também sabemos que não viemos para ficar o tempo inteiro imersos nos prazeres do mundo material. É importante perceber que os prazeres materiais sem nenhuma conexão com o espiritual são completamente vazios e não nos preenchem. É fácil ver isto na prática, através de muitas pessoas que tinham tudo o que o dinheiro podia comprar e, mesmo assim, se mataram ou morreram de overdose de drogas. Mesmo que nem todos chegam a este extremo, a maioria ao menos demonstra, de alguma maneira, que não se preenchem, apesar de tudo o que têm na vida.

Mick Jagger, vocalista da banda Rolling Stones, é um exemplo de alguém que alcançou o sucesso e é invejado por muitos. Ele é famoso, tem dinheiro, honra, mulheres e prazeres acessíveis apenas para poucos. Mas que tipo de sentimento ele expressa em suas músicas? "I try, and I try, and I try, I can get no satisfaction!" (Eu tento, eu tento, eu tento, mas eu não consigo ter satisfação). O que falta para ele e para tantos outros que, por um lado têm tudo, mas ao mesmo tempo não têm nada? Falta canalizar o material para o lado espiritual, utilizar os prazeres para um propósito maior.

Em Lashon Hakodesh (língua sagrada na qual foi escrita a Torá), a palavra "Osher" significa "riqueza" e também significa "felicidade". Poderíamos pensar que daqui aprendemos que riqueza e felicidade são sinônimos. Mas diferente do que aparenta, ao observar de perto percebemos que as palavras não são escritas da mesma maneira. Felicidade começa com a letra "Alef", enquanto riqueza começa com a letra "Ain". Isto quer dizer que, olhando de fora, a riqueza e a felicidade parecem iguais, mas após investigar um pouco, chegamos à inevitável conclusão de que o dinheiro não necessariamente traz felicidade. Se for bem utilizado, se estiver conectado com a espiritualidade, pode ser uma grande fonte de prazer e Brachá. Mas se estiver sem espiritualidade, a riqueza acaba sendo a ruína da pessoa, como foi para Brian Epstein e muitos outros.

Portanto, para chegar ao nível de sentir prazer com espiritualidade, são necessárias duas importantes reflexões. Em primeiro lugar, precisamos saber que espiritualidade e sofrimento não são sinônimos. É possível, e até mesmo desejável, crescer espiritualmente com os prazeres da vida. Originalmente D'us criou o mundo sem sofrimentos e dificuldades, eles vieram apenas quando nos desviamos do caminho. Se voltarmos ao caminho correto, a tendência é já sentirmos as Brachót aqui neste mundo. Podemos aprender muito com os sofrimentos, mas devemos desejar chegar ao nível no qual D'us não precisará mais mandar sofrimentos ao mundo.

Em segundo lugar, mesmo quando precisamos deixar de "aproveitar" alguns tipos de prazer do mundo para fazer a vontade de D'us, como quando deixamos de comer certos tipos de comida não-Kasher, precisamos internalizar que não estamos perdendo nada, pois o uso dos prazeres do mundo material que estão desconectados de espiritualidade são apenas vanidades, são prazeres vazios que não nos preenchem. Um adúltero pode encontrar prazer momentâneo junto de sua amante, mas ele não se satisfaz. O ladrão pode aproveitar o objeto do seu roubo, mas ele não se sacia. Os jovens saem da balada, depois de uma noite cheia de bebida e prazeres, e afirmam que não se sentem preenchidos. Por que? Pois todos os prazeres voltados apenas ao prazer do corpo nos satisfazem por alguns instantes, mas depois deixam um grande vazio, porque não têm nenhum tipo de espiritualidade. Podem saciar momentaneamente o corpo, mas não saciam a alma.

Foi esta a ideia que tanto Yaacov quanto suas esposas quiseram transmitir para nós. Obviamente seria suficiente para Yaacov mencionar diretamente que D'us havia pedido para eles voltarem a Israel, mas ele queria ressaltar para suas esposas que eles não perderiam nada cumprindo a vontade de D'us, nem mesmo no mundo material. Também não há dúvidas de que Rachel e Lea cumpririam a vontade de D'us mesmo se precisassem abrir mão de sua herança ou passar por algum tipo de sofrimento, mas elas também queriam ressaltar que estava claro que não se perde absolutamente nada quando se cumpre a vontade de D'us, e mesmo o que aparentemente estamos deixando para trás, é apenas vazio e vanidade que não nos preenchem.

Portanto, aqueles que cumprem as Mitzvót estão guardando uma grande recompensa para o Mundo Vindouro, mas já começam a comer seus frutos aqui neste mundo. Pois não há prazer maior do que deitar a cabeça de noite e saber que vivemos nosso dia da maneira correta. Nada preenche mais o ser humano do que viver uma vida honesta. Construir uma família harmoniosa, ser um bom trabalhador e, antes de tudo, um ser humano consciente. Não viemos aqui para sofrer, viemos aqui para aproveitar. Mas para aproveitar de verdade, precisa ser com prazeres que também preenchem nossa alma, não apenas nosso corpo.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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Gn. 28:10-32:2, Os.11:7-14:9, Jo. 1:19-51