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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Culpe a Revolução Sexual, não os homens

Escrito por Mona Charen


A capacidade dos homens em insistir na promiscuidade reside completamente na cooperação feminina.
Kate Bolick encara o mundo da capa da revista The Atlantic. Usa um vestido de noite, preto e de mangas. "O que, casar, eu?" pergunta a manchete. Ela não está sorrindo.
De fato, ela não está sorrindo em nenhuma das fotos que acompanham seu longo ensaio sobre solteirice, casamento e a mudança da natureza do namoro e da união na América de hoje. Bolick, 38, está tentando aceitar a ideia de que ela poderá nunca se casar. Ela quer muito convencer a si mesma - e a nós - que velhas idéias sobre solteironas "infelizes" são uma bagagem cultural inconveniente que deve ser jogada fora. E ainda há fotos glamurosas -- Bolick atrás da roda em um atraente vestido vermelho; Bolick em um vestido de gala dourado segurando uma taça de champanhe; Bolick em um elegante vestido preto – mas suas expressões variam de pensativa a triste – nunca feliz.
Bolick parece sinceramente confusa sobre casamento. Filha de uma militante feminista, ela entrou no ensino superior “em blusinhas cavadas verdes ou azuis com a frase: “UMA MULHER SEM UM HOMEM É COMO UM PEIXE SEM UMA BICICLETA.” Ela lembra que quando estava trocando carinhos com seu namorado do colegial no banco de trás do carro da família, sua mãe se virou e perguntou: “Já não é hora de vocês começarem a ver outras pessoas?” Bolick tomou por certo, ela escreve, “que [eu] casaria, e que sempre haveria homens com os quais [eu] gostaria de casar.”
Ela estava tão certa de sua disponibilidade ilimitada de oportunidades românticas que, aos 28 anos, rompeu com um namorado maravilhoso. Eles estavam juntos havia três anos. Ele era “uma pessoa excepcional, inteligente, bem-apessoado, leal, carinhoso.” Por que ela o descartou? “Faltava alguma coisa.”
Dez anos depois, ela escreve de um jeito (não totalmente) pesaroso: “Se namorar e casar são de fato um mercado [...] hoje estamos enfrentando um novo ‘gap de namoro’, onde mulheres voltadas para o casamento se confrontam cada vez mais tanto com molengas quanto com aventureiros.”
Há um dado interessante de grande importância nessa afirmação. De acordo com o Pew Research Center, 44% dos nascidos na geração do milênio e 43% da chamada Geração X pensam que o casamento está se tornando obsoleto. Em 2010, as mulheres ocupavam 51,4% de todas as posições profissionais e gerenciais, comparado com 26% em 1980. Grande parte dos bacharéis e mestres são mulheres, e elas formam a maioria na força de trabalho. Três quartos dos empregos perdidos durante a recessão pertenciam a homens. “Um estudo recente encontrou um aumento de 40% no número de homens que têm menor estatura que suas esposas.” Metade da população adulta é solteira, comparada com 33% em 1950.
Mas essas informações, ainda que interessantes, lançam apenas um olhar oblíquo sobre o problema do declínio de homens casáveis. Bolick chega perto da verdade em sua discussão sobre o sexo.
“O começo dos anos 1990”, ela escreve, “testemunhou o alvorecer da ‘cultura da paquera’ em universidades, enquanto as faculdades pararam de atuar in loco parentis [na verdade, eles abdicaram desse papel nos anos 1970] e graduandos [...] começaram a se lançar em um frenesi de sexo casual.” Algumas jovens, ela afirma, sentiram-se “compelidas a uma promiscuidade pela qual não pediram”, enquanto os rapazes “estavam mais felizes do que nunca”.
De acordo com o economista Robert H. Frank, “quando mulheres disponíveis são significativamente mais numerosas que homens [...] o comportamento de corte muda para a direção que os homens querem.” E vice-versa. Se há falta de mulheres, as mulheres têm o poder de exigir o que elas querem – o que tende à (surpresa!) monogamia. Em campi universitários, as mulheres são maioria -- 57%, contra 43% de homens.
Mas a análise econômica só chega até aqui. A capacidade dos homens em insistir na promiscuidade reside completamente na cooperação feminina. E as mulheres têm sido cúmplices tolas por décadas.
Elas conspiraram para sua própria perda de poder não porque adoram sua liberdade sexual (ainda que algumas o façam), mas porque pessoas como Gloriam Steinem e a mãe da Srta. Bolick convenceram-nas de que a antiga moral sexual, junto com casamento e crianças, era opressiva às mulheres.
O conseqüente declínio do casamento tem sido um desastre para as crianças, uma grande frustração para as solteiras relutantes, e prejudicial para homens solteiros, que estão menos felizes, vivem menos e são mais pobres que homens casados. A revolução sexual deixou um rastro de destruição em seu despertar, mesmo quando as vítimas não reconhecem seu algoz.
Mona Charen é colunista do National Review Online.
Tradução: Felipe de Oliveira Azevedo Melo, editor do blog da Juventude Conservadora da UNB.
http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/12538-culpe-a-revolucao-sexual-nao-os-homens.html#.TrG-wvw08wE.twitter

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tuareg - Poder e rebeldia dos "homens azuis"

Suas origens parecem perdidas no tempo. Uns lhes atribuem ascendência egípcia. Outros, iemenita. Alguns ainda os consideram descendentes de uma antiga tribo européia. Mas a maioria acredita se tratar de um povo berbere, os antigos habitantes do Saara.

Tuareg: esse nome evoca fantásticas imagens de maravilhosos cenários no deserto do Saara.
Imagens de intermináveis e vagarosas caravanas de camelos entre dunas de areia avermelhada.
De fogosos esquadrões de cavalos montados por bandidos com turbantes de um azul inconfundível.
De esbeltas figuras femininas com seus belos rostos emoldurados por longos cabelos finamente trançados.

DISPERSOS EM CINCO PAÍSES DO NORTE AFRICANO
Hoje, no entanto, os Tuareg são sinônimo de minoria oprimida e de povo perseguido por sua rebeldia. Já foram "senhores do deserto", e agora se vêem condenados a exibir seu aspecto folclórico para turistas que percorrem livremente seu antigo reino.
A falta de um censo oficial torna impossível determinar o número dos "homens do deserto". Calcula-se que são 1 milhão, distribuídos em cinco países: Níger, Mali, Líbia, Burkina Fasso e Argélia. A metade vive na Argélia. Outros 300 mil, no Mali.
Os vestígios de suas origens se perderam, mas se sabe com certeza que, durante muito tempo, dominaram enormes extensões do deserto. Viviam do pastoreio e do comércio, atacando caravanas e os povoados à sua volta.
Os Tuareg não se distinguem por traços físicos comuns. Costumam ser altos e delgados, de pele clara, rosto alargado, olhos escuros e cabelos ondulados e negros.

LINGUAGEM SECRETA NOS NEGÓCIOS E NO AMOR
O nome "Tuareg" lhes foi dado pelos europeus, a fim de distingui-los de outros povos. Sua verdadeira designação, porém, é kel tamashek - aqueles que falam o tamashek, sua língua comum.
Sua escrita original, o tifinarh, de origem fenícia, tem sido objeto de intensos estudos. Ainda hoje encontramos seus caracteres gravados nas figuras rupestres tão abundantes no Saara. No passado, só as mulheres tuaregues sabiam escrever.
Existe também uma "linguagem muda", usada para transmitir mensagens secretas. Os Tuareg a empregam tanto em transações comerciais quanto nas relações amorosas. Nela, o dedo indicador traça complexos ideogramas na palma da mão daquele a quem se dirige a mensagem.

PODER DE VIDA E MORTE SOBRE OS SÚDITOS
A organização social dos Tuareg é típica dos povos pastores e guerreiros: dá-se muita importância à nobreza de sangue.
Tradicionalmente, as tribos tuaregues formavam uma confederação sob o comando de um chefe supremo, o amenokal, que tinha poder de vida e morte sobre seus súditos. As decisões mais importantes eram discutidas por um conselho dos chefes, o arrollan.
A insígnia do poder é o tobol, o grande tambor real de 80 centímetros de diâmetro.
Depois das independências nacionais, o amenokal foi eleito para a assembléia nacional argelina, da qual foi também vice-presidente.

SOCIEDADE FEUDAL COM CLASSES FECHADAS
A estrutura hierárquica da sociedade tuaregue tradicional sofreu consideráveis mudanças neste século.
Antes, a sociedade era claramente feudal. Estava dividida em cinco classes sociais fechadas, e não se podia passar de uma para outra.
Os nobres, os imuhar, proporcionavam os guerreiros e garantiam a proteção dos vassalos, os imrad.
Os imrad, por sua vez, que cuidavam do pastoreio e da condução das caravanas, confiavam os trabalhos mais pesados à casta dos servidores, os iklan, que geralmente eram escravos.
A casta inferior era a dos verdadeiros "servos da gleba", os bella ou harratin, de pele negra.
Por último estavam os "fora de casta", os inaden, isto é, os artesãos que trabalhavam o ferro e o couro. Estes não eram nômades, mas iam de um acampamento a outro, quando lhes era solicitado, para oferecer seus serviços.

MULHERES DE ROSTO VERMELHO E LÁBIOS AZUIS
A alimentação dos Tuareg, tanto agora como antes, tem sua base no leite e seus derivados. Só se abatem animais por ocasião das grandes festas.
Por causa de sua resistência, o camelo é o animal preferido nas viagens pelo deserto. Possuem também ovelhas e cavalos. Há ainda muitos asnos, que vivem em liberdade e não têm valor comercial.
Diferentemente de outros povos berberes, os Tuareg não usam tatuagens. Homens e mulheres pintam os olhos com o kohl, pó negro de sulfato de antimônio.
Os rapazes raspam a cabeça, deixando apenas uma espécie de crista no centro. Segundo acreditam, isso servirá para que Alá os "arraste" ao paraíso.
As mulheres têm longas cabeleiras presas em tranças. Em ocasiões especiais, pintam o rosto de vermelho ou amarelo e os lábios de azul, formando uma espécie de máscara que serve de enfeite e de símbolo mágico.

MISTURA DE ISLAMISMO E CRENÇAS ANCESTRAIS
Em geral, os Tuareg vivem em tendas - imahan -, ou em cabanas transportáveis.
Mas há também diversos tipos de casas fixas, feitas com blocos de terra e palha misturadas, os tub. A zeriba é uma habitação provisória de folhagens. O dahamus, uma casa fresca para o verão, é parcialmente escavado no terreno.
Tuareg praticam a monogamia, embora um homem que faça uma longa viagem possa ter concubinas de castas inferiores.
As mulheres gozam de mais consideração do que em outras sociedades muçulmanas. Inclusive, pode ser da mulher a iniciativa de pedir o divórcio.
A religião é uma mistura de islamismo e crenças ancestrais, relacionadas com o juun, o espírito da natureza.

INDEPENDÊNCIA DOS PAÍSES GERA CONFLITOS
A independência das antigas colônias africanas deu origem a uma verdadeira tragédia. Os novos governantes não se impuseram através do triunfo guerreiro e, por isso, sua autoridade se tornou insuportável, quase um verdadeiro insulto para os "homens azuis".
Ademais, os chefes dos países que se formaram na região pertenciam às etnias agrícolas e sedentárias do sul do Sahel, que sempre haviam servido aos Tuareg como depósito de escravos e de gado. Compreende-se assim o desejo dos novos chefes de se vingarem dos antigos "bandidos".
As grandes secas que atingiram a região do Sahel nos anos 70 abateram ainda mais os Tuareg, empurrando-os para o sul. Ali se depararam com a hostilidade dos povos agrícolas africanos, cujos pastos não eram suficientes para alimentar também os imensos rebanhos dos nômades.

EXOTISMO DOS "HOMENS AZUIS" ATRAI TURISTAS
A maior parte do povo tuaregue foi parar nas grandes cidades africanas da região. Os ricos formaram uma nova classe: a burguesia urbana. Os pobres se viram obrigados a mendigar ou vender objetos de madeira e couro nas entradas dos hotéis.
Muitas jovens caíram na prostituição. Alguns descobriram profissões mais modernas, como as de mecânico ou guia de turismo.
A imagem dos "homens azuis", que nunca mostram o rosto e têm a pele tingida de azul, é um mito para o turista ocidental em busca de exotismo.
O estilo de vida dos Tuareg mudou por completo. Hoje, os arrogantes guerreiros nômades se encontram deslocados de seu hábitat natural. Além disso, sofrem uma verdadeira perseguição em um mundo que não compreende sua forma de ver a vida.

SEM PÁTRIA EM TERRITÓRIO ANTES TODO SEU
Os problemas enfrentados atualmente pelos Tuareg nascem de sua recusa em aceitar as fronteiras de cinco Estados - Argélia, Mali, Líbia, Níger e Burkina Fasso -, estabelecidas nos tempos coloniais em territórios que sempre lhes pertenceram.
Expulsos da Argélia em 1986 e obrigados a sair da Líbia em 1990, os Tuareg se refugiaram no Níger e no Mali. Ali criaram vários distúrbios, e por isso sofreram a dura reação dos governos locais. Houve matanças e verdadeiros genocídios.
Para os povos sedentários, é muito difícil compreender a vida nômade dos Tuareg.
Não se pode esquecer que esses nômades ainda não tiveram a chance de encontrar um território para si, numa imensa região que pertenceu a eles durante séculos.
Um território onde possam se estabelecer e conservar o estilo de vida que lhes é próprio, desde tempos imemoriais.