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domingo, 9 de outubro de 2016

VOCÊ É O QUE VOCÊ FALA - PARASHÁ VAYELECH

Em um lugar por onde passavam muitas pessoas, Rogério, um mendigo esfarrapado, sentava-se na calçada e ficava o dia inteiro pedindo esmola. Ele passava o tempo todo repetindo para si mesmo: "Sou um nada neste mundo! Ninguém me ajuda! Não tenho onde morar! Sou um homem fracassado e maltratado pela vida! Não consigo um mísero emprego que me renda alguns trocados! Mal consigo sobreviver!" As coisas iam de mal a pior. Certa noite Rogério achou um livro no lixo. Folheando, deparou-se com um trecho que dizia: "Tudo o que você fala a seu respeito vai se reforçando. Por pior que esteja a sua vida, diga que tudo vai bem. Por mais pobre que você seja, diga a si mesmo e aos outros que você vai prosperar". Aquilo tocou Rogério profundamente. Como ele não tinha nada a perder, decidiu dizer para si mesmo: "Vejam como sou feliz! Sou um homem próspero, tenho sucesso, sou saudável e bem humorado".

A partir desse dia tudo começou a mudar. Rogério percebeu que a cada dia recebia um pouco mais de dinheiro. Numa bela manhã, um executivo, que já o observava há algum tempo, aproximou-se e lhe disse:

- Você parece ser uma pessoa criativa! Gosto do seu bom humor. Não gostaria de colaborar em uma campanha de marketing da minha empresa?

Rogério aceitou, afinal não tinha nada a perder. Após um caprichado banho e com roupas novas, foi levado para a empresa. Daí para frente sua vida foi uma sequência de sucessos. Com o tempo ele tornou-se um dos sócios da empresa.

Tudo o que dizemos e pensamos a nosso respeito acaba se manifestando em nossa vida como uma realidade. Rogério finalmente havia entendido o poder das palavras.
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Nesta semana lemos a Parashá Vayelech (literalmente "E foi"), na qual Moshé, em seu último dia de vida, adverte o povo sobre os perigos de se assimilar e cair espiritualmente. O povo judeu em breve entraria na Terra de Israel e teria contato com povos idólatras, correndo o sério risco de ser influenciado por suas práticas, e por isso Moshé sentiu a necessidade de reforçar o cuidado do povo com as influências externas. E na próxima 3ª feira de noite (11/10) é Yom Kipur, o Dia do Perdão, data na qual o povo judeu foi finalmente perdoado pelo terrível pecado do bezerro de ouro. Esta influência do perdão de D'us se repete todos os anos em Yom Kipur, e todo aquele que se arrepende de seus erros neste dia, de forma sincera, é perdoado.

Uma das partes mais emocionantes do serviço de Rosh Hashaná e Yom Kipur é a Tefilá conhecida como "Unetane Tokef", na qual dizemos: "Em Rosh Hashaná somos inscritos e no jejum de Kipur somos selados. Quem vai viver e quem vai morrer... Quem vai ter tranquilidade e quem vai ter dificuldades... Quem vai enriquecer e quem vai empobrecer". É um lembrete de que tudo o que vai acontecer no nosso ano está sendo decretado nestes dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, conhecidos como "Asseret Iemei Teshuvá".

A história que está por trás da composição desta Tefilá é de cortar o coração. O livro Or Zarua registra que o autor desta reza foi o Rav Amnon de Mainz, o maior rabino de sua geração, que viveu por volta do século nove. O bispo de Mainz tinha uma grande estima pelo Rav Amnon e tentou convencê-lo a se converter. Para ganhar tempo, o Rav Amnon pediu três dias para pensar no assunto. Assim que as palavras saíram de sua boca, o Rav Amnon ficou completamente perturbado e implorou o perdão de D'us pela terrível transgressão que havia cometido. Depois de três dias, o Rav Amnon se recusou a comparecer perante o bispo. Irritado, o bispo mandou buscá-lo à força. Quando o Rav Amnom recusou a conversão, o bispo ordenou que ele fosse severamente torturado e posteriormente enviado para casa. Apesar dos graves ferimentos e das dores, o Rav Amnom conseguiu permanecer vivo até Rosh Hashaná. Ele pediu para que fosse levado à sinagoga antes da Kedushá, uma das partes mais importantes da repetição da Amidá. Quando o Chazan chegou na parte da Kedushá, o Rav Amnon pediu para ele esperasse. Ele então recitou o "Unetane Tokef" e faleceu. Três dias depois, o Rav Amnon apareceu em um sonho para um grande cabalista, o Rav Kolonymous ben Meshulam, pedindo-lhe para garantir que todos os judeus incorporassem aquela reza em seu serviço de Rosh Hashaná e Yom Kipur.

Mas, prestando atenção a esta história, surgem duas perguntas. Em primeiro lugar, qual foi exatamente a transgressão cometida pelo Rabi Amnon, que o deixou tão transtornado?  E por que ele só se deu conta de seu erro após as palavras saírem de sua boca?

A vida é algo muito especial e sagrado de acordo com a Torá. Aprendemos do versículo "Você deve observar os Meus estatutos e os Meus juízos, que um homem deve fazer e viver por eles" (Vayikrá 18:5) que devemos viver pelos mandamentos, e não morrer por eles. Porém, há três Mitzvót que são exceções, e um judeu tem a obrigação de morrer para não transgredi-las: idolatria, derramamento de sangue e relações ilícitas. O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) explica que estas transgressões resultam na profanação do nome de D'us e, por isso, exigem o mais alto sacrifício do ser humano: a sua própria vida.

Porém, entendemos que é necessário dar a própria vida para não cometer relações ilícitas e derramamento de sangue, pois são transgressões que envolvem atos. Mas a adoração de ídolos é normalmente uma transgressão que envolve apenas a cabeça e o coração da pessoa. Qual é a gravidade de alguém simplesmente fingir que está acreditando em uma idolatria, mas sem a intenção verdadeira de servir outra divindade? O Rambam responde que, mesmo se um judeu não acredita em outra divindade, mas aparenta através de seus atos que acredita, a simples percepção de que ele estava disposto a servir outro deus é uma das maiores formas de profanação do nome de D'us.

Explica o Rav Yohanan Zweig que o Rav Amnon inicialmente pensou apenas em ganhar tempo ao não responder imediatamente a proposta do bispo. No entanto, ele percebeu que o bispo ficou muito satisfeito de saber que ele estava realmente pensando em atender o seu pedido. O Rav Amnom então entendeu que esta percepção por si só, de que um judeu poderia abandonar seu Criador, era uma profanação do Nome de D'us. Por isso ele ficou tão perturbado, apesar de nunca ter lhe passado pela cabeça a mínima possibilidade de realmente abandonar o judaísmo.

O Sefer HaChinuch (Mitzvá 25) acrescenta uma nova dimensão do porquê uma pessoa está obrigada a sacrificar sua vida diante da exigência de servir outra divindade. Não é suficiente acreditar em D'us apenas no pensamento, a pessoa deve verbalizar este pensamento para concretizá-lo. Por outro lado, se uma pessoa faz qualquer declaração que expressa uma negação da realidade de D'us, mesmo que ele não acredita no que está dizendo, isto já causa um impacto negativo sobre sua Emuná (fé) e pode criar dentro dele uma dúvida quanto à existência de D'us.

Com esta explicação do Sefer HaChinuch podemos entender de forma mais profunda qual foi o grande arrependimento do Rav Amnom. Quando ele pronunciou as palavras que implicavam a possibilidade dele abandonar D'us, ele imediatamente sentiu o impacto que estas palavras tiveram sobre a sua própria Emuná, e percebeu que tinha cometido um grave erro. Além de denegrir o nome de D'us, sua atitude havia causado um impacto negativo sobre a sua própria alma.

Este ensinamento nos ajuda muito a ter o foco correto em Yom Kipur. Parte importante do nosso serviço é o Vidui, a confissão das nossas transgressões, que repetimos por dez vezes durante Yom Kipur. Porém, não devemos fazer o Vidui com um sentimento de que somos fracassados. Temos que verbalizar os nossos erros, mas como uma maneira de senti-los de forma mais profunda no coração, para podermos consertá-los. Em Yom Kipur nós assumimos os nossos erros, não como perdedores que desistiram de lutar, mas como vencedores que assumem seus erros como parte do conserto. Os fracos são aqueles que pensam que estão sempre certos e desviam seus olhos de suas falhas e defeitos. Os fortes são aqueles que sabem assumir suas falhas e defeitos, e que, apesar de terem tropeçado, levantam a cabeça para consertá-los.

Este conceito deve ser utilizado não apenas em Yom Kipur, mas em todos os momentos da vida, pois devemos sempre pensar de maneira positiva. Nossos pensamentos e nossa fala influenciam muito em quem somos. Estamos começando um novo ano e precisamos ser otimistas, olhar as oportunidades e as nossas possibilidades de crescimento, e não as dificuldades e os fracassos do passado. Com uma atitude positiva, certamente poderemos consertar todos os nossos erros e crescer muito neste ano. O poder das palavras é incrível, e quando bem utilizadas, podem nos transformar em pessoas cada vez melhores.

SHABAT SHALOM E GMAR CHATIMÁ TOVÁ
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 31:1-30,Os.14:2-10

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

JULGANDO NOSSA PROXIMIDADE COM D'US - PARASHIÓT NITZAVIM, VAYELECH E ROSH HASHANÁ 5775

O Rav Saadia Gaon (Egito, 882 – Iraque, 942), um verdadeiro gigante de Torá, foi visto certa vez por um aluno se repreendendo de forma muito dura. O aluno questionou o porquê de ele estar sendo tão rigoroso consigo mesmo. Então o Rav Saadia Gaon explicou:

- Alguns meses atrás eu decidi que a honra que eu recebia das pessoas estava interferindo no meu serviço religioso. Sem humildade não é possível servir D'us com alegria. Decidi passar alguns meses em lugares onde ninguém me conhecia. Coloquei roupas simples e comecei meu exílio, vagando de cidade em cidade. Uma noite, cheguei a uma pequena pousada de um judeu idoso, um homem gentil e simples. Conversamos um pouco antes de ir dormir, e na manhã seguinte me despedi e segui meu caminho. Horas depois, alguns alunos que estavam me procurando apareceram e perguntaram ao judeu idoso se ele havia me visto. O homem riu e perguntou: "o que uma pessoa tão grande como o Rav Saadia estaria fazendo em um lugar como a minha pousada?". Mas quando os jovens explicaram como provavelmente eu estaria vestido, o homem deu um pulo e gritou: "Meu D'us, o Rav Saadia esteve aqui! Vocês estão certos!"

- Ele correu, pulou em sua carruagem e voou na direção em que eu tinha ido - continuou o Rav Saadia Gaon - Depois de um tempo ele me alcançou, saltou da carruagem e caiu aos meus pés, chorando: "Por favor, me perdoe, Rav Saadia, eu não sabia que era você!". Fiz ele se levantar e disse que ele havia me tratado muito bem, que não precisava se desculpar por nada. Mas ele continuava inconformado, dizendo: "Não, não, rabino. Se eu soubesse quem você era, eu teria te tratado de forma completamente diferente".

- Naquele momento eu percebi que aquele homem estava me ensinando uma lição muito importante e que o propósito do meu exílio havia se cumprido - finalizou o Rav Saadia Gaon - Agradeci, abençoei-o e ele voltou para casa. Agora, todas as noites, quando vou deitar, penso em como servi D'us o dia inteiro. Então me lembro daquele senhor e digo para mim mesmo: "Se eu soubesse sobre você, D'us, no início do dia o que sei agora, eu O teria tratado de forma completamente diferente!". E é justamente por isso que eu estava me arrependendo agora".

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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Nitzavim e Vayelech. A Parashá Nitzavim nos ensina a Mitzvá de Teshuvá, que inclui o arrependimento pelos nossos maus atos e o comprometimento em mudar. Esta Parashá normalmente é lida antes de Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, dia que todas as pessoas são julgadas. Isto ocorre justamente para nos despertar, para nos ensinar que temos a possibilidade de nos arrepender por nossos erros e mudar, influenciando de forma positiva nosso julgamento. Mas será que sabemos realmente o que está em jogo em Rosh Hashaná?

O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), em seu livro "Mishnê Torá", nos explica um pouco mais sobre o que ocorre em Rosh Hashaná. Ele diz que todas as pessoas têm méritos e transgressões. Aquele cujos méritos são mais numerosos que suas transgressões é Tzadik (Justo), e aquele cujas transgressões são mais numerosas dos que seus méritos é Rashá (malvado) (Hilchót Teshuvá Capítulo 3 Halachá 1). Já na Halachá (lei) seguinte, o Rambam explica que aqueles cujas transgressões são mais numerosas do que seus méritos imediatamente morrem por causa de sua maldade, e o mesmo se aplica a uma cidade ou ao mundo inteiro. Ele cita como exemplos a destruição da cidade de Sdom (Sodoma) e o dilúvio que ocorreu na época de Noach (Noé), que quase apagou toda a humanidade.

Mas estes ensinamentos do Rambam levantam alguns questionamentos. Em primeiro lugar, por que o Rambam dividiu seu ensinamento em duas Halachót diferentes, se elas tratam do mesmo tema, isto é, do que ocorre com alguém que tem mais méritos ou mais transgressões? Além disso, o Rambam cita Sdom e a destruição do mundo através do dilúvio como exemplos de decretos que se cumprem imediatamente. Porém, sabemos que ambos os decretos somente ocorreram muito tempo depois das pessoas já terem atingido níveis terríveis de maldade. Em especial o dilúvio, cuja destruição já havia sido decretada 120 anos antes dele ocorrer. Então como entender as palavras do Rambam?

Outra dúvida surge quando observamos a terceira Halachá deste capítulo e percebemos uma aparente contradição. O Rambam diz que, da mesma forma que após a morte a pessoa é julgada por seus atos, isto também ocorre uma vez por ano, em Rosh Hashaná. Aquele que é considerado Tzadik é selado para a vida, enquanto aquele que considerado Rashá é selado para a morte. Mas por que nesta Halachá o Rambam diz que o Rashá é selado para a morte, se ele havia dito que o Rashá morre imediatamente?

E a principal dificuldade nas palavras do Rambam é algo que nos questionamos todos os anos: como pode ser que aqueles que têm mais transgressões do que méritos recebem imediatamente o decreto de morte em Rosh Hashaná, se nós vemos pessoas ruins que já passaram por vários julgamentos de Rosh Hashaná e nada aconteceu? E por que nunca mais o mundo foi destruído, como no dilúvio? Com tantas gerações corruptas, imorais e sanguinárias que existiram na história da humanidade, será que nunca mais as transgressões foram mais numerosas do que os méritos?

O Rav Baruch Leff traz uma possível explicação que nos ajuda a responder todos estes questionamentos. Ele explica que há dois aspectos diferentes no julgamento de Rosh Hashaná. Um dos aspectos é que a pessoa recebe em Rosh Hashaná um "rótulo", que define seu status espiritual e seu relacionamento com D'us, independente de qualquer castigo ou consequência direta. É isso o que o Rambam está discutindo na primeira Halachá. Já na segunda Halachá o Rambam está descrevendo como ocorre a aplicação da justiça de acordo com o status espiritual que a pessoa recebeu. Mas nem sempre o julgamento e a aplicação da justiça acontecem juntos, pois D'us nos julga e aplica Sua justiça apenas em alguns momentos específicos, que podem ser épocas específicas do ano ou após certas atitudes das pessoas que podem despertar o julgamento ou a aplicação de um castigo.

Isto quer dizer que, mesmo que a pessoa seja um Rashá, não significa que ela será julgada imediatamente. E mesmo se for julgada e "rotulada" como Rashá, não quer dizer que vai morrer imediatamente. A linguagem utilizada pelo Rambam, "miad", que significa "imediatamente", também pode ser entendida como "inevitavelmente, certamente". Isto quer dizer que, a partir do momento em que uma pessoa, uma cidade ou o mundo inteiro forem considerados "Reshaim", então a morte ou a destruição certamente ocorrerão. Em Sua sabedoria infinita, D'us apenas decidirá quando será o momento correto.

Foi o que aconteceu em Sdom. Certamente eles já tinham o "rótulo" de Reshaim, mas a destruição foi precedida por eventos que despertaram a aplicação da justiça, como está escrito: "E assim disse D'us: 'Pois os gritos de Sdom e Amorá se tornaram muito grandes' "  (Bereshit 18:20). Nossos sábios explicam que naquele momento as injustiças chegaram a um nível insuportável, despertando a aplicação imediata do castigo. No dilúvio, o mundo inteiro já havia se corrompido há mais de uma centena de anos, mas o que despertou a aplicação do castigo foi a imoralidade, como está escrito poucos versículos antes da descrição do dilúvio: "E os Nefilim (gigantes) estavam na terra naqueles dias. E também depois disso, quando os filhos dos governantes vieram até as filhas dos homens" (Bereshit 6:4).

Após o dilúvio, D'us escolheu não castigar mais o mundo como um todo, mesmo que tivesse o "rótulo" de Rashá, como ele prometeu a Noach: "E Eu não mais golpearei todos os seres vivos, como Eu fiz" (Bereshit 8:21). Por isto o mundo inteiro nunca mais foi destruído, apesar de certamente já termos passado por algumas gerações nas quais as transgressões foram mais numerosas do que os méritos.

Agora é possível entender porque o julgamento de Rosh Hashaná é tão importante. Não apenas pelas consequências que podem vir do julgamento, mas principalmente pelo "rótulo" com o qual seremos classificados. E isto muda todo o nosso relacionamento com D'us, como o Rambam explica: "Grande é a força da Teshuvá, que aproxima o ser humano de D'us... ontem ele era odiado por D'us, e considerado repugnante e abominável, e hoje ele é amado e querido". (Halachót Teshuvá, Capítulo 7, Halachót 6). E na Halachá seguinte ele explica: "Quanto é elevado o nível da Teshuvá. Ontem ele estava separado de D'us... gritava e não era escutado, cumpria Mitzvót e elas eram rasgadas diante dele... Hoje ele está conectado com D'us... grita e é respondido imediatamente... faz Mitzvót e elas são recebidas com agrado e alegria".

Ninguém gosta de ser chamado de Rashá, muito menos por D'us. Em Rosh Hashaná nosso status espiritual é decidido. Se somos Tzadikim ou Reshaim, se somos amados ou desprezados por Ele. E apesar de todos os erros que cometemos durante o ano, D'us nos deu um presente, que é a força da Teshuvá, a possibilidade de mudarmos nossos atos, de nos arrependermos pelos nossos erros. Quando nos arrependemos com sinceridade, nossos erros são apagados. Se nos arrependemos por amor a D'us, nossos erros são transformados em Mitzvót. A Teshuvá não apenas nos salva das punições, mas tem a incrível força de recriar nossa conexão com D'us e mudar nosso status espiritual. Toda a ajuda espiritual que teremos para crescer no próximo ano depende do julgamento de Rosh Hashaná.

O principal pensamento de Teshuvá em Rosh Hashaná deve ser de voltar a fazer de D'us o nosso Melech (rei). Apesar de Ele ser o nosso Pai, Ele é também o nosso Rei, e por isso devemos respeitar Suas leis e escutar Seus ensinamentos. Devemos saber que tudo o que Ele nos comandou é apenas para o nosso bem, para que possamos viver uma vida mais harmônica, para que possamos fazer o bem às outras pessoas e trabalharmos nossos traços de caráter. Somente através do estudo da Torá, do cumprimento das Mitzvót e do arrependimento sincero pelos nossos erros é que vamos conseguir atingir um dia a perfeição.

Na próxima 4ª feira de noite (24/09) começa Rosh Hashaná. Que possamos nos esforçar neste "sprint final" para melhorarmos nossos atos, e assim possamos todos ser "rotulados" como Tzadikim, para que nossas Tefilót (rezas) sejam recebidas de bom grado por D'us e possamos ter um ano com muitas Brachót (bençãos) e boas notícias para toda a humanidade.

SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida)

SHABAT SHALOM e SHANÁ TOVÁ
Dt. 29:10-30:20, Is. 61:10-63:9, Rm. 10: 1-13
Dt. 31:1-30,Os.14:2-10, Jl 2:11-27, Mq.7:18-20, Is.55:6-56:8, Rm. 7: 7-12
 
 

sábado, 31 de agosto de 2013

CARREGANDO O PESO JUNTO COM OS OUTROS – PARASHIÓT NITZAVIM E VAYELECH E ROSH HASHANÁ

 
"O rabino Moshé Feinstein, um dos maiores rabinos da geração passada, ficou muito conhecido não apenas por sua grande erudição no estudo da Torá, mas principalmente pela sua preocupação com o próximo. Em diversas situações ele demonstrou um incrível grau de consideração com o sofrimento alheio.

Certa vez um aluno veio buscar o Rav Moshe Feinstein para uma aula que ele daria em uma sinagoga. Quando o aluno entrou na casa do rabino, viu que ele estava sentado na mesa com uma mulher que chorava sem parar. O aluno percebeu que o Rav Moshe Feinstein também estava chorando e lágrimas rolavam sem parar do seu rosto. Preocupado, o aluno fez um sinal para saber se estava tudo bem e o Rav Moshe Feinstein respondeu que sim. Novamente o aluno fez um sinal para o rabino, indicando que estavam atrasados para a aula, mas o Rav Moshe Feinstein pediu para que esperasse mais um pouco.

Alguns instantes depois, a mulher enxugou as lágrimas com um lenço, agradeceu profundamente ao Rav Moshe Feinstein e saiu. O aluno perguntou o que havia acontecido e o Rav Moshe Feinstein respondeu:

- Esta mulher bateu na porta e pediu para conversar comigo. Porém ela entrou, sentou-se na mesa e começou a chorar. E durante todo o tempo que ele ficou aqui ela apenas chorou.

 O aluno quis saber qual era o problema dela, mas o Rav Moshe Feinstein disse que também não sabia, pois ela não havia dito nada, havia apenas chorado. Então o aluno perguntou, curioso:

- Mas rabino, então por que você também estava chorando?

- Isto é simples – respondeu o Rav Moshe Feinstein, enxugando suas lágrimas – Como eu poderia ver uma mulher tão sofrida como esta, chorando sem parar, e não chorar junto com ela?"

Apesar de vivermos em um mundo com milhares de pessoas à nossa volta, o que reina é o egoísmo. A maioria das pessoas vive focada em si mesma, negligenciando as necessidades dos outros. Mas muitos conseguiram vencer sua natureza egoísta e, através de um trabalho árduo, conseguiram chegar ao nível de amar ao próximo como a si mesmos. Isto nos ensina que, quando queremos algo de verdade e lutamos para alcançar, conseguimos.

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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Nitzavim e Vayelech. E assim começa a Parashá Nitzavim: "Vocês estão hoje parados, todos vocês, diante de Hashem, teu D'us... para que entrem no pacto com Hashem, teu D'us... para que se estabeleçam hoje como um povo para Ele e Ele será um D'us para vocês... como Ele falou para vocês e como Ele jurou para os seus antepassados Avraham, Yitzchak e Yaacov. Não apenas com vocês eu selo este pacto e este juramento, mas com todos os que estão aqui, parados conosco hoje, diante de Hashem, teu D'us, e com os que não estão aqui conosco hoje" (Devarim 29:9-14). O final destes versículos nos deixa uma pergunta: o que significa que o pacto está sendo selado também com os que não estão aqui hoje? Alguém perdeu a oportunidade participar deste novo pacto?
Explica Rashi, comentarista da Torá, que as palavras "os que não estão aqui hoje" se referem às futuras gerações do povo judeu. Nos ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que a alma de todos os judeus estavam presentes no pacto com D'us, mesmo antes da criação dos seus corpos físicos. Mas o que este versículo está nos ensinando? Afinal, de que adianta apenas nossa alma fazer um pacto com D'us sem o nosso corpo, já que o livre arbítrio apenas ocorre quando os dois estão juntos?

A resposta está em um interessante conceito da biologia. Se pudéssemos rastrear e identificar todas as células de um ser humano, perceberíamos algo interessante. De todas as células identificadas em um bebê, nenhuma delas poderia ser encontrada quando este bebê chegasse à fase adulta. Por acaso este bebê se transformou em outra pessoa? Obviamente que não, ele sempre se manteve a mesma pessoa, apenas as suas células foram envelhecendo e sendo gradativamente substituídas por células mais novas.
Poderíamos pensar que o povo judeu é composto por indivíduos isolados, unidos apenas por idéias em comum. Mas a Parashá vem nos ensinar justamente o contrário. Gerações de judeus nascem, vivem e são substituídas por novas gerações, como células de um organismo. Mas o povo judeu continua intacto, pois somos uma única entidade contínua que existiu durante toda a nossa história. Como a geração do deserto fez um pacto com o Criador do mundo, esta força foi sendo transmitida por todas as gerações e, por sermos parte da mesma entidade, é como se nós também estivéssemos presentes naquele momento. Não somos indivíduos isolados, cada um de nós faz parte de uma única entidade que não pode ser dividida: o povo judeu.

 Mas que diferença faz se somos pessoas isoladas ou conectadas entre si? Explica o Rambam (Maimônides) que por sermos parte de uma única entidade, temos a obrigação de cuidar e de se preocupar com cada um dos que também fazem parte dela. Ele nos ensina que aquele que se não sente a dor de seus irmãos e não derrama lágrimas junto com eles quando ocorrem tragédias e dificuldades, perde sua parte no Mundo Vindouro mesmo que não tenha cometido nenhuma transgressão durante toda sua vida.
Para um judeu, não existe viver de maneira isolada e individual, pois somos parte de um grupo. Não existe o conceito de uma pessoa cumprir suas Mitzvót sossegadamente, sem se preocupar com as dificuldades que os outros estão passando. Qualquer tragédia pessoal é parte da tragédia coletiva do povo judeu. É por isso que, quando vamos consolar um enlutado, dizemos: "Que D'us possa te trazer consolo dentre os outros enlutados (pela destruição) de Tzion e Jerusalém". O mesmo vale para as alegrias particulares, nas quais devemos participar como se a alegria fosse algo coletivo, de todo o povo.

 Por este conceito também fazemos as nossas rezas no plural. Mesmo quando não estamos doentes, pedimos durante a Amidá (reza silenciosa) "Nos cure". Mesmo quando não estamos precisando de dinheiro pedimos "Nos abençoe". Um judeu não pode descansar e relaxar despreocupado enquanto há judeus espalhadas pelo mundo que não podem descansar. Quando uma parte do nosso corpo fica doente, o corpo inteiro adoece. Enquanto um dos nossos irmãos estiver com problemas, todos nós temos o mesmo problema.

Na próxima 4ª feira de noite (04 de setembro) é Rosh Hashaná, o ano novo judaico, a comemoração da criação do primeiro ser humano, Adam Harishon. Da mesma forma que ele foi criado e julgado no mesmo dia, assim também todos os seres humanos são julgados neste dia. Todos os nossos atos passam na frente do Criador do mundo, mesmo os menores detalhes de tudo o que fizemos durante o ano. D'us também vê nossos corações e, no momento em que pedimos mais um ano de vida, Ele vê quais são os nossos planos de crescimento espiritual para o próximo ano.

Há muitas áreas onde precisamos crescer. Há muitas Mitzvót que precisamos começar a cumprir ou melhorar ainda mais. Mas talvez a área onde mais devemos investir é no "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e o seu companheiro). Há mais de 2.000 anos sofremos sem o nosso Templo Sagrado, que foi destruído por causa do ódio gratuito dentro do povo judeu. Ódio gratuito não significa apenas ofender ou agredir outro judeu. O descaso e a falta de sensibilidade com os problemas dos outros também é considerado ódio gratuito. Estar confortável no sofá assistindo televisão enquanto há judeus sem ter o que comer também é ódio gratuito. Como podemos assistir as notícias do soldado israelense Gilad Shalit, seqüestrado há mais de 4 anos por terroristas palestinos, sem dividir com sua mãe tamanha dor e sofrimento?

Para aumentar nossa sensibilidade com os outros é necessário muito trabalho. O primeiro passo é querer. O segundo passo é tentar vencer o nosso egoísmo, refletindo sobre as dificuldades dos outros, tentando nos imaginar na mesma situação. Precisamos entender que não estamos em uma corrida para chegar em primeiro lugar sozinhos, pois enquanto há irmãos que não passaram pela linha de chegada, não somos considerados vencedores. Devemos receber sobre nós a responsabilidade de ajudar, dentro das nossas possibilidades, a todos aqueles que necessitam. Seja com dinheiro, seja com um ombro amigo, seja com um sorriso. O importante é começar a sentir, desde já, que na verdade somos todos um só.

 Que neste ano de 5774 tenhamos apenas alegrias para todos os povos..

 SHABAT SHALOM e SHANÁ TOVÁ UMETUKÁ (Um ano bom e doce para todos)

"SHETICATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA).

 Rav Efraim Birbojm
 
Nitsavim  Dt. 29:10-30:20, Is. 61:10-63:9, Ro. 10: 1-13
Vayelech Dt. 31:1-30,Os.14:2-10, Jl 2:11-27, Mq.7:18-20, Is.55:6-56:8, Rm. 7: 7-12
Rosh HaShaná (Ano Novo Judaico) Gn. 21:1-34 (Maftír Nm. 29:1-6), 1 Sm. 1:1-2:10, 1 Ts. 4:13-18