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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

CÁLCULOS HUMANOS x CÁLCULOS DIVINOS - PARASHAT SHEMOT 5776

No inverno de 1892, uma enorme sombra recaiu sobre o povo judeu. A Yeshivá de Vologin, uma das mais proeminentes Yeshivót da época, um modelo de Torá em toda a Europa, estava em perigo. Naquela época, o Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) era o Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin zt"l (Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, um gigante de Torá. As autoridades russas, querendo arrancar a Torá do povo judeu, decretaram que na Yeshivá de Vologin fosse ensinado diariamente duas horas de estudos não judaicos. Junto com o decreto veio uma ameaça: se a diretoria se recusasse a cumprir a ordem das autoridades, a Yeshivá seria fechada.

O Netziv não quis receber sobre si a responsabilidade de decidir sozinho algo tão importante. Ele reuniu os maiores sábios de Torá da Europa em um encontro especialmente dedicado a discutir aquele assunto. A discussão foi difícil, pois havia muitos prós e contras para os dois lados. Todos concordavam que seria algo muito negativo incluir as duas horas de estudos não judaicos em uma Yeshivá, mas muitos consideravam que ainda assim o prejuízo seria menor do que fechar completamente a Yeshivá. Até que o Rav Yossef Dov Halevi Soloveitchik (Império Russo, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis Halevi, com lágrimas nos olhos, pediu a palavra. Emocionado, ele falou:

- É verdade que temos a obrigação de manter a Torá com toda a sua força e cultivar cada vez mais alunos, para que possamos transmitir a Torá às próximas gerações. Mas isto deve ser feito da maneira como ensinaram nossos antepassados. Agora que as autoridades querem nos obrigar a ensinar a Torá de novas formas, a responsabilidade não recai mais sobre nós. Devolveremos o problema Àquele quem nos deu a Torá, para que Ele faça o que achar o melhor. Portanto, eu decido que, de acordo com os ensinamentos da Torá, a Yeshivá deve ser fechada.

E assim realmente aconteceu. A Yeshivá de Vologin, o maior modelo de estudo de Torá da Europa, foi fechada. Mas explica o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, que a história não terminou aqui. Se a Yeshivá de Vologin tivesse decidido continuar com as condições impostas pelas autoridades russas, provavelmente a Torá da nossa geração teria sido esquecida. Esta é a forma de atuação do Yetser Hará (má inclinação): primeiro a Yeshivá abriria uma exceção ao permitir duas horas de estudos não judaicos, mas com o tempo provavelmente a situação se inverteria e restaria apenas duas horas de estudo de Torá. Porém, como o Netziv teve a coragem de fazer o que era correto, a Torá encontrou outros caminhos para sua continuidade. Naquela mesma época foram abertas muitas Yeshivót na Lituânia e na Polônia, que produziram os novos gigantes de Torá da geração. A Torá é como um manancial de água, pois mesmo que alguém tampe sua saída em um lugar, ela encontrará seus caminhos para fluir em outro lugar. 
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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, que descreve a terrível escravidão do povo judeu no Egito, após a morte de Yaacov e seus filhos. A Parashá desta semana, Shemot, também descreve o nascimento de Moshé, o homem que, sob o comando de D'us, fez enormes milagres e salvou o povo judeu da escravidão.

Durante a descrição dos duros decretos do Faraó contra o povo judeu, há um versículo que nos chama a atenção: "E foi um homem da casa de Levi e tomou para si uma filha de Levi. E a mulher engravidou e deu a luz a um filho" (Shemot 2:1,2). O homem descrito neste versículo era Amram, o líder do povo judeu e um grande Tzadik (Justo). A mulher descrita no versículo era Yocheved, uma mulher corajosa que constantemente arriscava sua vida e enfrentava o temível Faraó para salvar os bebês do povo judeu. E o bebê que nasceu era Moshé Rabeinu, nosso grande salvador. Porém, o que significam as palavras "e foi um homem"? Para onde Amram foi?

Explica o Talmud (Sotá 12a) que "e foi um homem" refere-se a Amram ter ido de acordo com o conselho de sua filha, Miriam. Apesar de ser uma criança, Miriam já tinha uma sabedoria acima do normal. Durante os anos de escravidão, os egípcios eram extremamente cruéis e causavam muitos sofrimentos aos judeus, com terríveis castigos físicos e psicológicos. Além disso, os astrólogos do Faraó haviam previsto o nascimento do salvador do povo judeu, mas também viram que este salvador seria punido através das águas (o que realmente ocorreu quando Moshé, ao invés de pedir água para a pedra, golpeou-a, sendo castigado por este ato com a proibição de entrar na Terra de Israel). Ao escutar a temerosa notícia de que o salvador do povo judeu estava para nascer, o Faraó decretou que todos os bebês que nascessem fossem atirados ao rio. Amram, ao perceber que não havia sentido em trazer filhos ao mundo naquelas condições, decidiu se separar de sua esposa Yocheved. Como ele era o líder da geração, sua atitude serviu como exemplo para o resto do povo, e todos se divorciaram de suas esposas para não terem mais filhos.

Foi neste contexto que Miriam quis aconselhar seu pai. Ela percebeu que seu pai havia cometido um grave equívoco ao se divorciar, e demonstrou racionalmente que ele estava causando ao povo judeu algo ainda mais duro do que o próprio decreto do Faraó. Em primeiro lugar, pois o Faraó havia feito um decreto que atingia apenas os homens, mas Amram havia decretado algo que afetava tanto os homens quanto as mulheres. Além disso, o Faraó havia decretado a morte dos judeus apenas no Olam Hazé (mundo material), enquanto Amram havia decretado a morte dos judeus no Olam Hazé e no Olam Habá (Mundo Vindouro), pois a única maneira de chegar ao Olam Habá é passando pelo Olam Hazé.

A grandeza de Amram foi demonstrada através de sua enorme humildade. Mesmo que o conselho vinha de uma criança, de sua própria filha, ele percebeu que ela tinha razão e se arrependeu de seu erro, imediatamente casando-se novamente com sua esposa. É justamente sobre este novo casamento de Amram e Yocheved que descreve o versículo antes do nascimento de Moshé. Mas o que Miriam havia entendido que até mesmo Amram, o líder do povo judeu, não havia? De acordo com a lógica humana, Amram parecia estar certo. Os judeus já estavam há quase dois séculos imersos em terríveis sofrimentos, então por que ter filhos em um mundo tão cruel, sem esperanças de melhorias? Afinal, qual foi o erro de Amram?

O Tanach traz outro grande Tzadik que cometeu um erro parecido. O Rei Chizkiahu ficou doente e sentiu que suas forças diminuíam a cada dia. Ele recebeu a visita do profeta Yeshaiahu, que vinha trazer uma mensagem de D'us: a morte do rei se aproximava, e ele também perderia o Mundo Vindouro. Mas o Rei Chizkiahu era uma pessoa muito correta e não entendeu porque merecia um castigo assim tão duro. O profeta explicou que Chizkiahu estava sendo punido por nunca ter se casado. Porém, Chizkiahu explicou que havia um forte motivo para esta sua decisão. Ele sabia profeticamente que seu filho seria uma grande Rashá (malvado), e por isso quis evitar a vinda de alguém tão ruim ao mundo. O profeta explicou para ele que, a partir do momento em que D'us havia dado aos seres humanos a Mitzvá de "Pru Urvu" (crescer e multiplicar), não temos o direito de fazer cálculos sobre as consequências desta Mitzvá. Chizkiahu entendeu seu erro, escutou as palavras do profeta e se arrependeu de uma maneira tão sincera que D'us o perdoou e lhe acrescentou ainda muitos anos de vida.

Explica o Chafetz Chaim que muitas pessoas em nossa história, mesmo sendo Tzadikim e grandes em Torá, acabaram cometendo este tipo de erro. Os casos de Amram e Chizkiahu nos ensinam algo muito importante em relação ao ser humano e suas obrigações. Não temos a permissão de querer analisar tudo o que ocorre de acordo com a nossa lógica e entendimento, e direcionar nossas vidas de acordo com os nossos sentimentos. Mesmo quando queremos fazer "melhor do que D'us pediu", isto é, mesmo quando somos sinceros e realmente queremos fazer o que é correto de acordo com o nosso entendimento, mesmo assim devemos sempre lembrar o quanto somos limitados, pois o ser humano somente consegue enxergar as consequências dos seus atos a curto prazo, enquanto D'us consegue enxergar tudo a longo prazo. Quando D'us nos comanda algo, não há lugar para questionamentos nem cálculos racionais.

Dizemos todos os dias na nossa reza da manhã: "Muitos são os pensamentos no coração do ser humano, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre", e a Torá nos traz muitos exemplos práticos deste conceito espiritual. O Faraó decretou que todos os bebês homens fossem atirados no rio, inclusive os bebês egípcios, pelo medo de que o salvador do povo judeu nasceria naquele momento. Mas foi justamente este decreto que fez com que Batia, a filha do Faraó, encontrasse Moshé dentro da cestinha e o criasse dentro do palácio real, sendo alimentado e protegido pelo mesmo Faraó que fez de tudo para exterminá-lo. Quando Yossef foi vendido pelos seus irmãos ao Egito, parecia algo terrível, uma tragédia, mas na verdade era a preparação para a salvação do povo judeu, pois Yossef conseguiu acabar com a fome que mataria sua família. Já a ida de Yaacov para o Egito, para reencontrar Yossef depois de 22 anos, parecia algo bom e feliz, mas na realidade era o início do exílio do povo judeu, a preparação para a terrível escravidão que viria. E se pararmos para refletir, perceberemos algo ainda mais incrível. Miriam e seu conselho estão por trás do próprio nascimento de Moshé, o salvador do povo judeu, o que Amram teria evitado caso não tivesse se casado novamente com Yocheved. Isso demonstra o quanto somos limitados e que apenas D'us, que controla tudo, sabe exatamente os impactos e as consequências de cada pequeno acontecimento.


A Parashá Shemot é um grande ensinamento de que os atos e artimanhas do ser humano na realidade não conseguem causar nenhum impacto real nos decretos Divinos. Como ensinam os nossos sábios: "A Teshuvá (arrependimento), a Tefilá (reza) e os atos de Tzedaká (caridade) podem mudar um Decreto Celestial". Todos os nossos outros atos são apenas para despertar a Misericórdia Divina. Quando insistimos em fazer cálculos e ir contra a vontade de D'us, não apenas não alcançamos nosso objetivo, mas também as consequências muitas vezes saem ao contrário do que planejávamos, como ocorreu com o Faraó. Isto nos ensina a cumprirmos a vontade de D'us, mesmo quando possa parecer ilógico, pois apesar dos nossos esforços, no final será a vontade Dele que se cumprirá.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
ÊXODO l:1-6:1, Is. 27:6-28:13, 29:22-23

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

GRANDEZA DE D'US - PARASHÁ SHEMOT 5775

"David era um menino inteligente. Tão inteligente que às vezes fazia perguntas difíceis de serem respondidas. Certa vez ele perguntou: "Pai, qual é o tamanho de D'us?". O pai não sabia como responder, pois a pergunta era profunda e precisava ser explicada de forma que seu filho, de apenas 7 anos, entendesse. Então, ao olhar para o céu, o pai viu um avião passando e perguntou ao filho:
- David, qual o tamanho daquele avião?
- É um avião bem pequeno, quase não dá para ver - respondeu David, olhando para cima.
Pouco tempo depois a família de David foi viajar de avião. No momento do embarque, quando estavam ao lado do avião, o pai perguntou novamente:
- David, qual o tamanho desse avião?
David arregalou os olhos quando viu como aquele avião era gigantesco. Então seu pai lhe ensinou:
- Filho, você se lembra do avião que vimos voando e parecia tão pequeno? Na verdade, os dois aviões têm exatamente o mesmo tamanho. A diferença é que aquele estava longe, enquanto este está aqui pertinho.
- Assim também acontece com D'us - continuou o pai - o tamanho de D'us depende da distância que você estiver Dele. Quanto mais perto de D'us você estiver, maior Ele será na sua vida."
Nos acontecimentos cotidianos, podemos viver como se tudo fosse apenas coincidência e acaso, ou podemos perceber a mão de D'us presente em cada detalhe do que ocorre em nossas vidas.
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Nesta semana iniciamos o segundo livro da Torá, Shemot. E a Parashá da semana, Shemot, começa com o início da escravidão do povo judeu. Como o Faraó não podia escravizar os judeus sem motivo, pois eles eram os descendentes daqueles que haviam salvado o Egito da fome, então ele começou a utilizar uma propaganda antissemita para convencer os egípcios de que os judeus eram perigosos, como está escrito: "E disse (o Faraó) ao seu povo: 'eis que este povo, os Filhos de Israel, são mais numerosos e mais fortes do que nós" (Shemot 1:9). Mas de onde o Faraó tirou este argumento?

Explica o Talmud (Sotá 11a) que o Faraó tinha três conselheiros: Bilaam, Iov (Jó) e Itró. Quando o Faraó perguntou a eles sobre como lidar com o "problema judaico", a reação de cada um deles foi diferente. Bilaam, que era um grande Rashá (malvado), sugeriu perseguir e destruir o povo judeu, dando ao Faraó o argumento de que os judeus eram um perigo para o Egito, e por seu ódio contra o povo judeu foi futuramente morto. Já Iov se calou diante dos decretos que o Faraó fez contra o povo judeu, e por isso foi castigado com terríveis sofrimentos. Itró foi o único que se levantou contra a injustiça dos decretos do Faraó e fugiu, e por isso foi recompensado com descendentes que se tornaram parte do povo judeu.

Porém, este ensinamento do Talmud traz com ele um grande questionamento, pois a reação dos três conselheiros do Faraó não foi de acordo com o que esperaríamos. Bilaam é descrito na Torá como um homem orgulhoso, que buscava a todo custo honras e reconhecimento. Ele tinha o "dom" espiritual de amaldiçoar e destruir povos inteiros. O mais lógico seria se Bilaam tivesse dito ao Faraó: "Não se preocupe, eu cuido deste povo. Com minhas maldições eu posso destruí-los sozinho". Então por que Bilaam sugeriu que o povo judeu fosse escravizado, e ainda procurou argumentos lógicos para isso, ao invés de aproveitar a oportunidade para exaltar seus "dons" diante do Faraó?

Também o silêncio de Iov é incompreensível. O Talmud (Baba Batra 15b) descreve Iov como um gigante espiritual, alguém comparado com Avraham Avinu, como está descrito no Tanach: "Um homem íntegro, reto, temente a D'us e que se desviava do mal" (Iov 1:1). Então como este homem, o símbolo da bondade, da misericórdia e do bom coração, escutou o conselho de Bilaam e todos os cruéis decretos feitos pelo Faraó contra inocentes, como os bebês que foram jogados vivos no rio, e ficou quieto?

Finalmente Itró, o símbolo da verdade e da justiça, também não se comportou da maneira como era esperado. Apesar de o Talmud dizer que ele se levantou contra os decretos do Faraó e fugiu, há fontes que comprovam que isto não aconteceu imediatamente, somente após muito tempo, depois do nascimento de Moshé. Como pôde este homem da verdade e justiça suportar a mentira e a falta de justiça que o Faraó usou contra o povo judeu?

Explica o Rav Yossef Zundel Salanter (Lituânia, 1786 - Israel, 1866) que na verdade a escravidão do povo judeu no Egito já havia sido decretada muito tempo antes, quando D'us fez com Avraham Avinu o "Brit Bein HaBetarim" (pacto entre as partes) e disse para ele: "Saiba com certeza que seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não será deles - e eles os servirão, e eles os oprimirão" (Bereshit 15:13). Portanto, D'us estava simplesmente fazendo com que Seu decreto se cumprisse. Mas por que de uma maneira tão ilógica? Para que fosse percebido aos olhos de todos que somente a Supervisão Divina tem controle sobre o mundo. Ele tirou a sabedoria dos três conselheiros do Faraó, fazendo com que eles agissem contra a sua própria natureza, para demonstrar que não existe sabedoria nem planos que podem ir contra os decretos de D'us. Por isso Ele fez com que todo o início do exílio do povo judeu ocorresse através da Supervisão Divina, e não através de formas naturais.

Quando prestamos atenção na salvação do povo judeu, também percebemos que tudo ocorreu de uma maneira acima da natureza e contra qualquer lógica. Fora as pragas e sinais que D'us fez no Egito, que obviamente foram eventos milagrosos, toda a história de Moshé, o salvador do povo judeu, também foi escrita por uma cadeia de eventos acima da natureza. O nascimento de Moshé foi milagroso, pois sua mãe já tinha 130 anos. Como os astrólogos do Faraó haviam previsto o nascimento do salvador do povo judeu, o Faraó decretou que todos os bebês fossem atirados vivos no rio. Para salvar Moshé, seus pais o colocaram em uma cesta revestida de material impermeável e o deixaram no rio. Moshé foi encontrado por Batia, a filha do mesmo Faraó que fez o decreto de jogar os bebês no rio, e ele foi criado dentro do palácio real, sob os cuidados e o sustento do próprio Faraó. E apesar de Batia estar fazendo uma grande transgressão contra a lei egípcia, legislada pelo seu próprio pai, em nenhum momento ela agiu discretamente, como seria o esperado, e ainda chamou o bebê de "Moshé", que vem do hebraico "Meshitihu", que significa "retirado das águas", revelando abertamente seu ato de rebeldia sem nenhum tipo de constrangimento.

Além disso, ao ser encontrado ainda bebê por Batia, Moshé foi enviado para que sua própria mãe o amamentasse, garantindo o contato constante com o seu pai, a maior autoridade espiritual daquela geração, e dando a Moshé um pretexto para mais tarde visitar seus pais frequentemente. E quando Moshé cresceu, ele matou um egípcio para proteger um judeu que apanhava, e por sua desobediência às leis egípcias foi condenado à morte pelo Faraó, mas foi salvo da espada afiada por um milagre e conseguiu fugir. Tudo isto ocorreu contra a lógica humana, também para demonstrar que não há ninguém que pode impedir os planos de D'us.

No versículo onde está a profecia dita para Avraham sobre a escravidão de seus descendentes, está escrito "Iadoa Tedá", normalmente traduzido como "saiba com certeza", mas que literalmente significa "Saiba saiba". Por que esta repetição? Explica o Midrash que é como se D'us estivesse dizendo: "Saiba que Eu escravizarei o povo judeu, e saiba que Eu os libertarei", isto é, se refletirmos que todo o início da escravidão foi completamente contra a lógica, entenderemos que foi a mão de D'us que levou à escravidão do povo judeu, e então entenderemos também que somente D'us pode salvar o povo judeu do exílio. Tudo ocorreu sem lógica, tanto a escravidão quanto a salvação, para nos ensinar que a vontade de D'us sempre se cumpre.

Estamos atualmente em um exílio difícil, no qual fomos duramente perseguidos e massacrados por séculos. Este exílio foi marcado por um ódio antissemita com motivações ilógicas que dura até os nossos dias. Antigamente éramos perseguidos com o argumento que matávamos crianças não judias para utilizar o sangue na fabricação de Matzót, apesar da Torá explicitamente nos proibir de comer sangue. Atualmente os argumentos antissemitas mudaram, mas continuam ilógicos. Somos atacados por terroristas com mísseis e homens-bomba, mas quando nos defendemos somos acusados de "reação desproporcional". Quando há atentados em qualquer lugar do mundo, como o que ocorreu nesta semana em Paris, o mundo inteiro se levanta contra o terrorismo, mas quando o atentado é em Israel não é terrorismo, é busca pela liberdade. Enquanto na Síria morrem milhares de pessoas, o único problema que incomoda o mundo são os ataques israelenses contra Gaza. A ONU, que deveria ter sido criada como uma organização imparcial que busca a justiça, mostra-se cada vez mais parcial e injusta. E o Hamas, que abertamente prega o ódio e a destruição de Israel, não é mais considerada uma organização terrorista.

Quando não há nenhuma lógica que explica os acontecimentos atuais, podemos enxergar a mão de D'us no nosso exílio. Nossa falha é que esperamos a salvação através de meios naturais. Nos apoiamos na proteção dos Estados Unidos e achamos que a morte de terroristas resolverá nossos problemas. Esquecemos de refletir que o caráter ilógico do exílio é um sinal de que é D'us que está manejando tudo. Nossos sábios ensinam que Moshé tinha muitos nomes, mas de todos os nomes D'us fez questão de chamá-lo apenas de Moshé. Um dos motivos é que, ao mencionar este nome, reconhecemos o caráter ilógico e sobre-humano da salvação do povo judeu, deixando claro que toda salvação do povo judeu não é um processo natural, e sim uma intervenção Divina direta. Este é o nosso consolo neste exílio tão longo e sofrido: da mesma maneira que D'us demonstra que é Ele que nos mantém no exílio, Ele também garantiu que será Ele, pessoalmente, que nos tirará de lá.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
ÊXODO l:1-6:1, Is. 27:6-28:13

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

LUTANDO CONTRA D'US - PARASHÁ SHEMOT 5774

Há cerca de 200 anos viveu um homem temente a D'us, chamado Sr. Moshe Soloveitchik. Como ele havia herdado uma grande fortuna dos seus pais, e entre os bens estavam gigantescas florestas, decidiu entrar no ramo madeireiro, cortando árvores e vendendo com um bom lucro. Na época, a madeira era muito necessária, tanto para cozinhar quanto para o aquecimento das casas no rigoroso inverno europeu.

O Sr. Moshe também era uma pessoa de bom coração. Ele não media esforços para ajudar os necessitados. Sua casa estava com as portas sempre abertas para os pobres, e ele sustentava com alegria muitas instituições de Torá. Porém, por causa dos seus negócios, ele não podia dedicar muito tempo para o estudo da Torá, apesar de gostar muito.

Mas apesar de tanta filantropia, um dia os negócios começaram a desandar e o Sr. Moshe perdeu toda sua fortuna. Todos questionaram como um homem tão caridoso poderia perder de repente toda a sua fortuna. Até mesmo o Rav Chaim Vologziner (Lituânia, 1749 - 1821), o maior rabino da geração, que era muito próximo do Sr. Moshe, se preocupou e convocou algumas pessoas para investigarem as causas espirituais de tamanha perda financeira. Talvez o Sr. Moshe estivesse fazendo transações ilegais, por isso eles foram diretamente procurar nos livros de contabilidade, mas absolutamente nada, nem mesmo uma única transação suspeita, foi encontrada. A única falha que eles encontraram foi que o Sr. Moshe doava para caridade muito mais do que 20% dos seus lucros, ultrapassando o limite permitido pela Halachá (Lei Judaica). Mas o Rav Chaim Vologziner imediatamente rechaçou a hipótese, pois era inaceitável que D'us puniria de forma tão dura uma pessoa por ter um coração tão caridoso.

O que aconteceu após o Sr. Moshe perder todo o seu dinheiro? Ele poderia ter trabalhado dia e noite até reconstruir sua fortuna, de uma forma obstinada e sem limites. Mas ele fez diferente. Ele aceitou a vontade Divina e, agora que lhe sobrava tempo, foi para o Beit Midrash (Centro de estudos de Torá) se dedicar exclusivamente ao estudo da Torá. Pouco a pouco ele revelou talentos ocultos e foi avançando firmemente, até se tornar um dos maiores estudantes de Torá de sua cidade. O Sr. Moshe Soloveitchik, um homem de negócios com poucos conhecimentos de Torá, tornou-se em poucos anos o Rav Moshe Soloveitchik. Com o tempo, ele assumiu o posto de "Av Beit Din" (Chefe do Tribunal Rabínico) da cidade de Kovno. Ele encorajou seus filhos a seguirem seus passos e eles aceitaram o desafio, tornando-se também pessoas muito sábias. Começava então a dinastia dos "Brisk Rav", que encheu o mundo de sabedoria da Torá. Desta dinastia saíram gigantes de Torá como o Beit HaLevi (1820 - 1892), o Rav Chaim Soloveitchik (1853 - 1919) e o Brisker Rav (1886 – 1959).

Somente muito tempo depois o Rav Chaim Vologziner entendeu porque o Rav Moshe Soloveitchik havia perdido toda sua fortuna de uma só vez. Suas ocupações com os negócios não deixavam ele se ocupar com seu maior potencial: o estudo da Torá. D'us então removeu o que o impedia de crescer, abrindo o caminho para que o mundo se enchesse um pouco mais com a luz da Torá.
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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot. E a Parashá da semana, Shemot, começa a descrever a terrível escravidão do povo judeu no Egito. Um dos piores sofrimentos pelos quais o povo judeu passou foi quando os astrólogos do Faraó previram que estava para nascer o salvador do povo judeu. O Faraó fez grandes esforços para impedir a vinda deste salvador, incluindo o decreto de que todo bebê que nascesse fosse atirado no rio Nilo. O Rav Yaacov Kanievsky, mais conhecido como Steipler (Ucrânia, 1899 – Israel, 1985), ressalta a ironia dos eventos que sucederam o decreto do Faraó. Para salvar a vida de Moshé, sua mãe Yocheved o colocou em uma cesta à deriva no rio Nilo. E ninguém menos do que Batia, a filha do Faraó, encontrou a cesta onde estava Moshé e decidiu criá-lo. Isto quer dizer que o Faraó fez todos os esforços possíveis para matar o salvador do povo judeu, mas acabou criando e alimentando-o em seu próprio palácio.

Explica o Steipler que daqui aprendemos um importante fundamento: quando D'us decreta algo, é impossível mudar Seus planos, mesmo com os maiores esforços. O Faraó se equivocou, achando que seus atos seriam suficientes para mudar o que estava decretado nos mundos espirituais. Ele quis que sua vontade se cumprisse à força, pois vivia na ilusão de que tinha o controle de tudo.

Infelizmente muitas vezes nós também nos comportamos como o Faraó e achamos que temos o controle de tudo. Somos teimosos a ponto de colocarmos nossas forças e energias para tentar mudar decretos Divinos. Um exemplo é na área da nossa Parnassá (sustento). Ensina o Talmud (parte da Torá Oral) que todos os ganhos e perdas de uma pessoa são decretados em Rosh Hashaná. Porém, o que fazemos quando nossa fonte de sustento diminui? Dobramos os nossos esforços, trabalhamos até mais tarde, nos finais de semana, abandonamos nossas famílias. Será que funciona? Será que não estamos fazendo exatamente o que o Faraó fez, lutando contra algo que D'us decretou?

Então o que fazer quando passamos por dificuldades, como uma perda financeira? Explica o Rav Yonathan Guefen que devemos fazer apenas o que é considerado um esforço "normal", isto é, que não ultrapasse os limites do bom senso. Dedicar nosso tempo para recuperar o dinheiro perdido à custa de todo o resto certamente não é o caminho correto. Por exemplo, quando acontece uma grande crise econômica, qual é a primeira coisa que as pessoas cortam nos seus gastos? A Tsedaká (caridade). Será que não deveríamos fazer justamente o contrário? Ao invés de diminuir nossos méritos espirituais, não deveríamos tentar aumentá-los, para conseguir reverter o mau decreto? Será que as perdas não podem ter sido um sinal de que não estamos dando atenção para as coisas mais importantes da nossa vida, como nossos valores espirituais e nossas famílias?

Por que é tão fácil se enganar e cair neste erro de lutar contra os decretos Divinos? Pois quando fazemos um esforço e obtemos bons resultados, achamos que somos nós os responsáveis pelo sucesso, esquecendo que tudo passa pela Supervisão Divina. Por exemplo, uma pessoa compra ações da bolsa e logo depois estas ações sobem muito, resultando em um excelente lucro. Normalmente pensamos que o lucro foi o resultado do esforço, a consequência de um investimento correto. Mas isto é uma forma enganosa de ver a realidade. Na verdade, já estava decretado nos mundos espirituais que a pessoa deveria receber aquele dinheiro. D'us tem muitas formas para cumprir a Sua vontade e fazer com que este dinheiro chegue às mãos daquela pessoa. Ele pode colocar na cabeça da pessoa a ideia de investir justamente nas ações que futuramente subiriam, ou pode fazer com que as ações que a pessoa comprou mudem seu comportamento e subam. No final, o lucro já havia sido decretado, e o esforço foi somente para fazer o decreto Divino se cumprir. Qualquer esforço adicional teria sido em vão, e até mesmo negativo caso a pessoa tivesse deixado de lado coisas mais importantes apenas para receber aquele dinheiro que já estava decretado.

Mas explica o Steipler que há algo que pode efetivamente causar mudanças nos decretos espirituais: os esforços espirituais. Através da Tefilá (reza) e da Teshuvá (arrependimento pelos erros cometidos) podemos interferir nos mundos espirituais. Nem sempre é possível cancelar decretos Divinos, mas quando mudamos nossos atos, podemos ao menos diminuir o impacto de decretos negativos em nossas vidas. Por exemplo, se foi decretado para um agricultor que, por causa de alguma transgressão que ele cometeu, apenas uma pequena quantidade de chuva vai cair durante o ano em sua plantação, o que causaria um tremendo prejuízo, a Tefilá pode fazer com que esta pequena quantidade de chuva caia no lugar certo e de forma mais propícia. Outra possibilidade é que mesmo se em Rosh Hashaná for decretado para uma pessoa, por causa do seu baixo nível espiritual naquele momento, apenas uma pequena quantia de dinheiro para o ano, a Teshuvá pode fazer com que ela consiga se saciar mesmo recebendo pouco.

Porém, não podemos esquecer que, apesar do crescimento espiritual ajudar a reverter problemas financeiros e diminuir outros tipos de sofrimentos e dificuldades, o principal benefício do nosso crescimento espiritual, através da Tefilá, da Teshuvá e do cumprimento das Mitzvót, é nos aproximarmos de D'us. Muitas pessoas, como o Rav Moshe Soloveitchik, aproveitaram as dificuldades para crescer em espiritualidade, ao invés de se afundarem de maneira desesperada no mundo material.

É muito difícil encarar as dificuldades de forma positiva. Mesmo sabendo que é a vontade de D'us que sempre se cumpre, é difícil não querer fazer esforços para mudar as coisas para que fiquem do nosso jeito. Mas temos que saber que cada desafio é uma oportunidade de mudar a direção de nossas vidas. Cada dificuldade é uma comunicação de D'us, que quer que ao menos possamos parar para escutá-Lo. Com muita reflexão, poderemos chegar ao nível de entender que não apenas a vontade de D'us sempre se cumpre, mas que também a vontade Dele é o melhor para nós.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
ÊXODO l:1-6:1, Is. 27:6-28:13, 29:22-23, At. 7:17-29

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O QUE ESTÁ POR TRÁS DE UM NOME? - PARASHÁ SHEMOT 5773

"Ronaldo foi contratado para trabalhar no censo demográfico de sua cidade. Quando chegou a uma das últimas casas que teria que visitar naquele dia cansativo, percebeu que os moradores eram judeus, por causa da mezuzá na porta. Tocou a campainha e foi recebido por uma mulher que estava rodeada por várias crianças. Ele se apresentou como funcionário do censo e perguntou se a mulher estava disposta a colaborar, respondendo algumas perguntas simples. Como ela concordou, ele começou a perguntar:
- Minha senhora, quantos filhos você tem?
- Bom, deixe-me ver. Tem a Miriam, o David, o Jonathan...
O funcionário do censo interrompeu-a, visivelmente irritado, e disse:
- Minha senhora, eu não estou interessado em seus nomes. Eu quero apenas saber os números!
A mulher olhou-o nos olhos e respondeu, com indignação:
- Senhor, meus filhos não são objetos. Eles não são números, eles têm nomes..."
Quando um judeu era mandado a um Campo de Concentração, em seu braço era tatuado um número. O que os nazistas queriam não era manter o controle do número de prisioneiros. Eles queriam desumanizar os judeus, atribuindo a eles um número e transformando-os em objetos. Pois o nome não é apenas uma forma de sermos reconhecidos, ele carrega muito do nosso potencial espiritual.

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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, também conhecido como "Sefer HaGalut Ve HaGueulá" (O livro do Exílio e da Redenção), pois descreve todas as dificuldades e sofrimentos do povo judeu no exílio egípcio e a posterior salvação, culminando com o recebimento da Torá no Monte Sinai e a transmissão das primeiras Mitzvót ao povo judeu. Mas há algo um pouco estranho no nome deste livro, pois a palavra "Shemot" significa "Nomes". Por que o segundo livro da Torá se chama "Nomes"? E qual a conexão com o exílio e a redenção do povo judeu?

Quando nasce uma criança e os pais escolhem para ela um nome, achamos que este nome é fruto da criatividade dos pais. Mas, na realidade, o nome vem através de inspiração Divina, pois o nome não é algo "decorativo" na vida de uma pessoa, ele traz profundas implicações espirituais. Por exemplo, o Talmud (parte da Torá Oral) afirma que o Mazal (influência dos mundos espirituais) pode ser modificado através da mudança no nome da pessoa. Por que isto acontece?

No mundo material, quando combinamos diferentes elementos químicos, formamos um composto. Por exemplo, combinando dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio forma-se a água. Se os elementos forem alterados, a composição final também muda. Explica o Rav Simcha Barnett que cada letra em hebraico representa um "elemento" espiritual. A combinação destes "elementos" forma um componente espiritual único. Portanto, o nome de uma pessoa revela suas características espirituais e seu potencial espiritual único.

Mais do que isso, a palavra "Shem", que em hebraico significa "nome", vem da mesma raiz da palavra "Sham", que significa "lá". Mesmo que não conseguimos enxergar os átomos de oxigênio e hidrogênio do composto H2O, sabemos que a água que bebemos contém estes dois elementos químicos. Da mesma maneira, a realidade espiritual de uma pessoa está lá, em sua alma. A sua essência está escondida dentro dela, por trás de seu exterior físico. Todos os seres humanos são impulsionados para transcender suas limitações físicas, emocionais e espirituais. O destino está lá, no espiritual, em algo mais real e duradouro do que o mundo material. O nome de uma pessoa representa esta busca do seu potencial.

Cada um de nós é enviado para este mundo para buscar algo. Buscamos em muitos lugares, durante muitos anos, sob uma grande variedade de condições. Mas nem sempre encontramos o que estamos buscando, pois a missão de nossas vidas é encontrar o verdadeiro "eu", não apenas quem somos, mas quem deveríamos ser. A viagem da vida nos leva a lugares e situações estranhas e difíceis, mas o itinerário é apenas um meio para o crescimento e o autoconhecimento. Somente aquele que segue a viagem com sucesso, sem desistir ou parar nas paradas intermediárias do caminho, encontrará seu verdadeiro nome, isto é, o seu verdadeiro "eu".

A jornada de cada um é uma viagem solitária. Por mais que as pessoas à nossa volta possam nos ajudar, ninguém pode fazer a busca por nós. Algumas vezes sentimos dor, frustração e dificuldades. É como entrar em um túnel escuro carregando apenas uma pequena lanterna. Esta viagem é muito instável, nunca nos sentimos em casa. Por que? Pois esta é a sensação da nossa alma enquanto está no mundo material, dentro de um corpo, longe de sua morada espiritual. Isto é comparado a um exílio.

É por isso que o segundo livro da Torá, que descreve o exílio e a redenção do povo judeu, chama-se "Shemot" (Nomes), pois D'us está nos lembrando da nossa própria jornada pessoal no mundo material, que se inicia em uma situação de exílio, o exílio espiritual de nossas almas, mas que terminará com a nossa redenção, quando nossa alma voltará para casa após atingir o potencial contido em seu nome.

Este conceito pode ser observado na luta entre Yaacov e o anjo da guarda de Essav. Após ver que não conseguiria derrotar Yaacov, o anjo perguntou a ele seu nome. Mas se os anjos são seres espirituais, conectados diretamente com D'us, como pode ser que este anjo não sabia o nome de Yaacov? A resposta é que o anjo sim sabia, mas a pergunta tinha outro contexto. O anjo queria saber se, depois de tanta luta e dificuldades, Yaacov ainda lembrava-se de sua missão, que estava "embutida" em seu próprio nome. Então o anjo anunciou que o nome de Yaacov mudaria para Israel. Por que? Pois ao vencer o anjo, Yaacov terminou sua missão neste mundo. Ao receber um novo nome, ele estava recebendo uma nova missão.

Mas a grande pergunta é: como chegar "lá", ao nosso objetivo, mesmo imersos em tanta escuridão? Como não esquecer o nosso "nome" depois de tanta luta e dificuldade aqui no mundo material? A resposta está na nossa Parashá. D'us tem vários Nomes, pois cada um deles descreve alguma característica de Sua essência. Quando D'us escolheu Moshé como líder, pediu para que ele avisasse ao povo judeu que havia chegado o momento da salvação. Moshé então questionou: como o povo saberia que ele estava dizendo a verdade, isto é, que D'us realmente havia se revelado para ele? E se o povo perguntasse qual era o nome deste D'us que havia se revelado, o que ele deveria responder? D'us então ensinou que Seu nome era "Eu serei o que Eu serei", revelando para Moshé que Ele é a única realidade verdadeira, todo o resto é enganação. Mesmo o nome mais conhecido de D'us, de 4 letras, carrega esta mensagem. As letras que compõe este nome (Iud, Hei, Vav e a letra Hei), quando combinadas entre si, formam as conjugações do verbo "ser" no passado, no presente e no futuro, isto é, "Haia" (Eu fui), "Hovê" (Eu sou) e "Ihie" (Eu serei), nos ensinando que D'us é a única realidade, a única verdade, eterno e acima do tempo e do espaço.

A luta para se conectar com a realidade é a única maneira de alcançar a verdadeira felicidade. Mecânicos precisam entender a realidade sobre motores para poder consertar os carros. Médicos precisam saber a realidade do corpo humano para tratar os doentes. Precisamos saber a realidade da vida para podermos alcançar a felicidade. Será que é com nosso dinheiro, atrás do qual gastamos tanto tempo e esforços, que chegaremos à felicidade verdadeira? A experiência nos ensina que não. Pois no fundo, nossa busca pela realidade e pela felicidade é uma busca por D'us, e não será preenchida por nenhum prazer deste mundo.

"Geralmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens, respondo que sei muito bem do que estou fugindo, mas não o que estou procurando" Michel de Montaigne, filósofo francês.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

DESPERTANDO UM GIGANTE – PARASHÁ SHEMOT 5772

O Rav Naftali Tzvi Berlin, mais conhecido como Netziv, viveu há cerca de 150 anos e foi o Rosh Yeshivá (líder espiritual) da Yeshivá de Vologin, na Lituânia. Não apenas foi o maior estudioso de Torá de sua geração, mas também um prolífico escritor, compilando dezenas de livros durante sua vida, entre eles comentários da Torá e do Talmud (Torá Oral). Como o Netziv chegou a ser o maior de sua geração? Ele era muito constante no estudo, aproveitava cada segundo para conhecer um pouco mais da Torá ou entender algum assunto de maneira mais profunda e completa.
Mas nem sempre foi assim. Quando ele era criança, não gostava de estudar. Apesar dos esforços do pai, ele não levava os estudos de Torá a sério. Um dia ele estava brincando em casa quando escutou seu pai chorando. Seu pai estava conversando com sua mãe na cozinha e não percebeu que o Netziv podia escutar tudo. Ao escutar que a conversa era sobre ele, ficou curioso e chegou mais perto para prestar atenção. Escutou o pai, chorando muito, dizendo:
- Eu já tentei de tudo para fazer com que nosso filho se interessasse pelos estudos de Torá. Até já ofereci para ele prêmios, mas foi tudo em vão. Não sei mais o que fazer. Acho que devemos desistir dele ser um grande estudioso.
O Netziv percebeu que, enquanto o pai falava, lágrimas corriam em seu rosto. Ele ficou profundamente tocado com a dor e as lágrimas do seu pai. Quando o pai terminou de falar, o Netziv correu até ele e prometeu que, daquele dia em diante, se esforçaria para se tornar um bom estudante. E realmente cumpriu suas palavras. Em pouco tempo se tornou o melhor aluno de sua sala e nunca mais parou de crescer, até tornar-se o maior de sua geração.
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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, também conhecido como "Sefer Galut VeHagueulá" (O livro do exílio e da redenção), pois começa descrevendo todo o sofrimento da escravidão do povo judeu no Egito e sua posterior salvação.
E a Parashá desta semana, Shemot, descreve o nascimento e o crescimento, tanto físico quanto espiritual, do homem escolhido por D'us para ser o salvador do povo judeu, Moshé Rabeinu. E assim a Torá descreve seu nascimento: "Um homem da Casa de Levi foi e casou-se com uma filha de Levi. A mulher engravidou e deu a luz" (Shemot 2:1,2). Mas se a Torá estava falando de Amram e Yocheved, por que não mencionou explicitamente o nome dos pais de Moshé?
A mesma pergunta surge ao observarmos o início da Meguilat Ruth, livro que conta a história de Ruth, uma mulher Tzadeket (Justa) do povo de Moav que decidiu se converter ao judaísmo. Assim começa o livro: "E foi nos dias em que julgavam os Juízes, e houve uma fome na terra. E um homem saiu de Beit Lechem, em Yehudá, para morar nos campos de Moav..." (Ruth 1:1). Poderíamos pensar que o nome do homem não era importante e por isso não foi mencionado, mas assim começa o próximo versículo: "O nome do homem era Elimelech..." (Ruth 1:2). Por que o primeiro versículo já não disse que foi Elimelech quem saiu de Beit Lechem? E qual a conexão da história de Ruth com a Parashá desta semana?
Explica o Rav Pessach Krohn que é uma grande desgraça quando uma pessoa conhece seu potencial e não o aproveita. Mas é uma desgraça ainda maior quando a pessoa nem mesmo conhece seu potencial. Quantas pessoas poderiam ter mudado o mundo mas se acomodaram, achando que nada podiam fazer? Quantos gigantes passaram a vida adormecidos, sem imaginar seu verdadeiro potencial? Por que tantos não percebem seu verdadeiro valor?
Quando conhecemos alguém espiritualmente elevado, qual o primeiro pensamento que vem em nossas cabeças? "Nunca poderei ser como ele, pois ele veio de uma família elevada, eu não". Nos limitamos, achando que apenas alguns poucos "pré-escolhidos" podem chegar a níveis muito elevados. Assim nem tentamos nos esforçar para atingir um nível maior na vida.
A fórmula para não cairmos neste equívoco está ensinada na Parashá da semana e na Meguilat Ruth. De Amram e Yocheved saiu Moshé, o salvador do povo judeu, o maior de todos os tempos. Elimelech foi o sogro de Ruth, a chave que abriu as portas para sua conversão. O bisneto de Ruth foi o David Hamelech (Rei David) e, portanto, dela virá também o Mashiach, que reinará sobre todo o mundo com sua grandeza. Poderíamos pensar que Moshé somente chegou a ser Moshé Rabeinu pois era filho de Amram e Yocheved, respectivamente o líder de sua geração e uma grande Tzadeket (Justa) cujo temor a D'us estava acima de tudo. Poderíamos pensar que a descendência de David Hamelech e do Mashiach somente poderia começar com alguém do nível de Elimelech, o líder de sua geração. Por isso os versículos escrevem apenas que "um homem saiu", sem mencionar os nomes, para nos ensinar que, apesar de realmente serem descendentes de pessoa muito elevadas, os níveis espirituais de Moshé Rabeinu, David Hamelech e do Mashiach somente podem ser alcançados através de um grande e constante esforço.
Durante a Parashá é possível ver a dificuldade do trabalho espiritual de Moshé para chegar a ser o líder do povo judeu. Mesmo morando no palácio real, cercado de riquezas e mordomias, ele não esqueceu o sofrimento dos seus irmãos e abandonou tudo para ajudá-los. Além disso, Moshé aceitou o papel de salvador do povo, mesmo que isto significava desafiar o faraó, o homem mais poderoso do planeta, colocando sua própria vida em risco. Nenhum crescimento veio sem esforço, sem auto-sacrifício.
Portanto, achar que existem pessoas grandes apenas porque nasceram em "berço especial" é um grande erro. As pessoas que chegaram a níveis elevados trabalharam e se esforçaram muito para isso. Apesar de D'us ser o único responsável por todo sucesso, eles fizeram sua parte. Foi necessária muita dedicação, constância e perseverança para chegar aonde chegaram. Gigantes espirituais, como o Netziv e muitos outros, apesar de terem vindo de boas famílias, se não tivessem se esforçado, não teriam se tornado os líderes de suas gerações.
O Netziv, ao contar a história de sua vida, sempre acrescentava uma importante idéia. O que teria acontecido se ele não tivesse escutado seu pai chorando e não tivesse se sensibilizado? Por causa da excelente educação que teve em casa, certamente teria sido um judeu honesto, temente a D'us. Teria seu negócio, estudaria um pouco de Torá no final do dia, cumpriria as Mitzvót de maneira adequada. Mas quando chegasse ao seu Julgamento Celestial e lhe perguntassem onde estavam todos os livros que ele deveria ter escrito, o que ele responderia? Se dissesse que não tinha potencial para isto, eles lhe mostrariam todos os livros que ele efetivamente escreveu e diriam que potencial ele tinha, apenas tinha deixado de aproveitá-lo.
Quando achamos que os grandes líderes do povo judeu somente chegaram a um elevado nível por causa de suas famílias, acabamos utilizando isto como desculpa para não nos esforçarmos. Quando pensamos que apenas os outros podem ser elevados, desistimos mesmo sem tentar. Infelizmente não é um argumento que utilizamos para enganar aos outros, e sim a nós mesmos.
Nem todos chegarão a ser o líder de sua geração, mesmo com esforço, pois nem todos têm este papel no mundo. Mas não sabemos os planos de D'us, não sabemos até onde vai a nossa verdadeira contribuição, por isso temos que fazer a nossa parte e nos esforçar. Todos têm um potencial gigantesco, um trabalho individual que apenas cada um de nós pode cumprir no mundo. Ao invés de procurar desculpas, precisamos despertar o gigante adormecido que está dentro de nós. Somente assim poderemos mudar o mundo de verdade.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
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