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sábado, 23 de julho de 2016

EQUILÍBRIO ENTRE O MATERIAL E O ESPIRITUAL - PARASHÁ BALAK 5776

"O Sr. Jorge estava reunido com um grupo de amigos da sinagoga, no meio de uma animada conversa. De repente, ele fez um desabafo:

- Eu tenho ido à sinagoga por trinta anos. Durante este tempo, ouvi pelo menos duas mil prédicas do rabino. Porém, não consigo lembrar de quase nenhuma. Penso que estou perdendo meu tempo, e os rabinos estão desperdiçando o tempo deles dando semanalmente estas prédicas!

A conversa tomou ares de discussão, todos querendo falar ao mesmo tempo, alguns criticando, outros concordando com o argumento filosófico do Sr. Jorge. O Sr. David, que até aquele momento havia permanecido em silêncio, pediu permissão para falar:

- Eu estou casado há mais de trinta anos. Durante todo este tempo, minha esposa deve ter cozinhado pelo menos vinte mil refeições. Apesar disso, eu não consigo me lembrar do cardápio de quase nenhuma delas. Mas de uma coisa eu sei: todas elas me nutriram e me deram a força que eu precisava para fazer o meu trabalho. Se minha esposa não tivesse me dado estas refeições, hoje eu não estaria mais vivo.

- Da mesma maneira - conclui sabiamente o Sr. David - se eu não tivesse ido à sinagoga para alimentar minha fome espiritual, hoje eu não estaria vivo espiritualmente."

Precisamos nos alimentar para manter o nosso corpo, mas também precisamos nos alimentar de espiritualidade para manter a nossa alma. Somente o material e o espiritual juntos, em equilíbrio, podem nos manter vivos de verdade. 
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A Parashá desta semana, Balak, começa descrevendo o desespero do rei do povo de Moav, chamado Balak, com a aproximação esmagadora do povo judeu, que havia vencido todos os inimigos que haviam aparecido no seu caminho. Sabendo que não tinha chances de lutar contra um povo que tinha uma proteção Divina especial, Balak contratou o profeta Bilaam, que tinha o poder de amaldiçoar até mesmo povos inteiros. Porém, apesar dos esforços de Bilaam, D'us protegeu o povo judeu e as maldições se transformaram em Brachót (bênçãos).

No final da Parashá, a Torá nos descreve que Bilaam finalmente teve uma ideia de como derrotar o povo judeu: fazendo-os cometer transgressões, para que perdessem a proteção Divina e fossem castigados. Com a ajuda do povo de Midian, que nutria um ódio gratuito pelo povo judeu, a ideia de Bilaam funcionou. Seduzidos por jovens mulheres de Midian, os judeus transgrediram e terminaram fazendo idolatria, e foram castigado com uma terrível praga. Esta tragédia foi um evento muito tristes na história do povo judeu.

A tristeza que esta tragédia causou nos recorda do período de três semanas que vamos entrar na próxima semana, chamado de "Bein Hametsarim" (literalmente "entre os apertos"), que vai do dia 17 de Tamuz até o dia 9 de Av. O nome "Bein HaMetsarim" é baseado em um versículo do profeta Yirmiahu: "Todos seus perseguidores alcançaram-na dentro dos apertos" (Eichá 1:3). E este Domingo (24/07) é o dia 17 de Tamuz, um dia de luto e muita tristeza para o povo judeu, no qual jejuamos. A causa de tanta tristeza é que justamente neste dia aconteceram cinco eventos trágicos na nossa história. Neste dia Moshé quebrou as Tábuas que continham os Dez Mandamentos; durante o cerco ao Primeiro Templo, neste dia terminou o estoque de animais utilizados para os Korbanót (sacrifícios); na época do Segundo Templo, foi neste dia que as muralhas de Jerusalém foram rompidas pelos nossos inimigos; neste dia Apostamus, um oficial romano, rasgou e queimou um Sefer Torá; e também neste mesmo dia uma idolatria foi colocada dentro do Templo Sagrado.

Destes incidentes, talvez o que mais nos chama a atenção é a quebra das Tábuas. Moshé havia subido no Monte Sinai para receber a Torá, e avisou ao povo que voltaria quarenta dias depois. Porém, o povo judeu errou nos seus cálculos e ficou desesperado quando o prazo expirou e Moshé não voltou. Quando finalmente Moshé desceu do Monte Sinai, trazendo em suas mãos as Tábuas contendo os Dez Mandamentos, ele se deparou com o povo judeu cantando e dançando alegremente pela construção do bezerro de ouro, o seu novo "líder". Ao ver aquela cena terrível, Moshé quebrou as Tábuas que trazia nas mãos. O que esta quebra significou ao povo judeu?

Há um versículo que descreve um detalhe interessante sobre as Tábuas: "E as Tábuas eram feitas por D'us, e a escrita era a escrita de D'us, gravada nas Tábuas" (Shemot 32:16). A Torá está nos ensinando que as letras das Tábuas eram esculpidas, e não simplesmente escritas com tinta. A Mishná (Pirkei Avót 6:2) se aprofunda ainda mais e nos ensina que a linguagem "Charut", que significa "gravada", vem da mesma raiz de "Cherut", que significa liberdade. Desta semelhança entre as duas linguagens a Mishná aprende que somente é livre de verdade aquele que se dedica ao estudo da Torá.

Porém, este ensinamento do Pirkei Avót é difícil de ser entendido. A Torá é composta por centenas de Mitzvót, que acabam limitando muito nossa vida. Tomando como exemplo a Kashrut (leis alimentares), há muitos tipos de comidas saborosas que a Torá nos proíbe de consumir, como a carne de porco e os frutos do mar. A Torá nos traz regras para todas as áreas da vida, desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir. Então como a Mishná pode afirmar que apenas aquele que estuda Torá pode ser livre de verdade? De que liberdade a Mishná está falando? Além disso, qual é a conexão entre o entendimento mais simples das palavras do versículo, de que as palavras dos Mandamentos eram gravadas nas Tábuas, com a interpretação mais profunda dos nossos sábios, de que apenas a Torá nos dá a liberdade verdadeira?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a dificuldade para entender a Mishná do Pirkei Avót vem do nosso conceito equivocado sobre liberdade. De acordo com o nosso entendimento, a liberdade é normalmente definida como o direito ou privilégio de agir ou se expressar sem nenhum tipo de coerção, da maneira que desejamos. Já a definição de liberdade da Torá leva em consideração o fato de que normalmente nos comportamos de uma maneira que se esconde sob o disfarce de "liberdade de expressão", mas na realidade estamos submetidos às mais diversas forças. Pensamos que somos livres, mas sem nenhum tipo de limite, na realidade somos completamente controlados pelas pressões sociais ou pelos nossos desejos físicos e emocionais. Estamos conscientes da natureza destrutiva dos nossos atos, mas nos sentimos impotentes para superar a ilusão da aceitação social e da autogratificação.

Utilizando novamente como exemplo o assunto alimentar, as pessoas acham que são livres, pois podem comer o que têm vontade, no momento em que quiserem. Mas será que somos livres de verdade? Alguma vez deixamos de comer algo gostoso por saber que faz mal à saúde? Conseguimos manter nosso autocontrole diante de uma mesa de sobremesas, mesmo sabendo do mal que o açúcar causa em nosso corpo? Quantas pessoas continuam fumando, apesar de todos os estudos que comprovam os terríveis males à saúde deste vício? Quantas vezes vestimos uma roupa apenas porque está na moda, mesmo que não é o que gostamos? Isto é liberdade?

A solução para nos libertarmos destes tipos de influências é a Torá, que nos capacita e nos dá a habilidade de superarmos estas forças coercitivas. A Torá auxilia na remoção do conflito que existe no processo de tomada de decisões, nos possibilitando nos comportar da maneira apropriada em relação aos nossos desejos. Podemos e devemos usar os nossos sentidos físicos, mas de maneira ponderada. Os desejos devem nos trazer energia, não consumi-la. É por isso que estar limitado por restrições não implica em uma perda da liberdade. As restrições da Torá são, em última instância, para o nosso próprio benefício. Elas nos impedem de fazer atos que nós realmente gostaríamos de evitar. A Torá nos dá autocontrole, e as Mitzvót são um treinamento diário para que nosso lado racional tome as decisões, não o nosso lado emocional ou os nossos desejos. A Torá nos ajuda a fazer o que é realmente bom para nós, mesmo que não seja socialmente o mais popular nem traga mais prazeres imediatos.

Este conceito também está implícito nas palavras do versículo mencionado anteriormente. As palavras dos Dez Mandamentos representam a espiritualidade, enquanto as Tábuas representam o mundo material. Se os Dez Mandamentos tivessem sido apenas escritos, como tinta sobre o pergaminho, então isto implicaria em uma imposição e coerção das palavras sobre as Tábuas. Mas o Talmud (Meguilá 2b) nos ensina que D'us fez com que as letras dos Dez Mandamentos estivessem milagrosamente suspensas nas Tábuas. Explica o Rav Yohanan Zweig que parte do milagre foi que as Tábuas se enrolaram em volta das palavras, dando forma para as letras. O que isto nos ensina? Que o material e o espiritual não são concorrentes, e sim complementares, podendo coexistir sem nenhum tipo de conflito. É possível, através do estudo da Torá, utilizar o material e o espiritual de maneira equilibrada.

Todos nós temos uma tendência natural de nos comportarmos da maneira correta. Temos um "alarme interno", chamado consciência, que nos avisa quando estamos fazendo algo errado. Mas este "alarme" pode ser abafado dentro de nós, e até mesmo desligado, por impedimentos sociais ou desejos internos que mascaram nossos verdadeiros sentimentos. A Torá nos ajuda a retirar estes impedimentos, vencendo os conceitos errados e os sistemas de valor equivocados criados pela sociedade.

Agora podemos entender, de maneira mais profunda, que a quebra das Tábuas representou a perda da liberdade verdadeira. Esta é uma das maiores tragédias do ser humano, ser escravo achando que é livre, ser dominado por seus desejos ou pelas imposições sociais e pensar que está livre para decidir. A Torá nos dá a liberdade verdadeira, pois é através dos limites e das restrições que poderemos ser quem nós queremos ser de verdade.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

segunda-feira, 6 de julho de 2015

ELEVANDO O MUNDANO - PARASHÁ BALAK 5775

Era uma vez duas vizinhas, dona Miriam e dona Rosa, que viviam em pé de guerra. Não podiam se encontrar na rua que era briga na certa. Depois de um tempo, dona Miriam se arrependeu de tantas brigas e resolveu fazer as pazes com dona Rosa. Ao se encontrarem na rua, muito humildemente, dona Miriam falou:

- Querida dona Rosa, já estamos nessa desavença há anos, e sem nenhum motivo verdadeiro. Estou propondo que façamos as pazes e vivamos como duas boas e velhas amigas.

Na hora, a dona Rosa estranhou a atitude da velha rival e disse que iria pensar no caso. No caminho, pensamentos de desconfiança começaram a vir em sua cabeça. Será que a dona Miriam no fundo estava querendo aprontar alguma coisa? Como a dona Rosa não queria ficar por baixo, decidiu mandar para a dona Miriam um "presente". Chegando em casa, preparou uma bela cesta de presentes, cobriu-a com um lindo papel, e encheu-a de esterco de vaca. Ela ficou a tarde inteira rindo sozinha, imaginando a cara da dona Miriam ao receber aquele maravilhoso "presente". Mandou a empregada levar o presente à casa da rival, com um bilhete: "Aceito sua proposta de paz. Para selarmos nosso compromisso, envio esse lindo presente".

Quando dona Miriam abriu o pacote recebido, seu sorriso se transformou em espanto. Não conseguia entender porque a dona Rosa havia mandado aquele "presente". Ela estava tentando fazer as pazes com tanto esforço, por que sua vizinha continuava se comportado de maneira tão rude?

Alguns dias depois, dona Rosa recebeu uma linda cesta de presentes, coberta com um belo papel. Se preparou, achando que era a vingança daquela vizinha asquerosa. Ficou com medo de abrir o pacote, imaginando o que ela poderia ter aprontado. Mas em certo momento a curiosidade foi mais forte que o medo, e ela abriu. Para sua surpresa, viu um lindo arranjo das mais belas flores, junto com um cartão que trazia a seguinte mensagem: "Estas flores são o que eu te ofereço em prova da minha amizade. Foram cultivadas com o esterco que você me enviou, e que proporcionou excelente adubo para o meu jardim. Afinal, querida vizinha, cada um dá o que tem em abundância em sua vida".

As coisas mais mundanas podem ser utilizadas de uma maneira negativa, ou podem ser canalizadas para trazer coisas boas, para nós e para os outros.
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Nesta semana lemos a Parashá Balak, que nos descreve os maus atos de um dos maiores odiadores do povo judeu: o profeta Bilaam. Ele tinha um enorme poder espiritual e conseguia amaldiçoar as pessoas, de indivíduos a povos inteiros, e utilizava este "dom" para ganhar dinheiro e honra. Balak, o rei do povo de Moav, apavorado com o avanço do povo judeu e suas vitórias esmagadoras, contratou Bilaam para amaldiçoar o povo judeu. Apesar de D'us ter proibido Bilaam de se juntar a Balak com a intenção de prejudicar o povo judeu, Bilaam interpretou as palavras de D'us da maneira como lhe convinha, e por três vezes tentou amaldiçoar os judeus, mas foi impedido por D'us, que os protegeu e transformou as maldições em Brachót (bençãos).

Uma das Brachót que acabaram saindo da boca de Bilaam foi: "Quem contou o pó de Yaacov?" (Bamidbar 23:10). O que significam estas palavras? Que tipo de Brachá Bilaam estava dando ao povo judeu? Explica Rashi (França, 1040 - 1105), citando um Midrash (parte da Torá Oral), que as palavras de Bilaam podem ser entendidas como se ele estivesse dizendo: "Quem pode contar as Mitzvót agrícolas que o povo judeu cumpre, de tão numerosas que elas são". Porém, desta explicação do Rashi ainda não fica claro porque justamente as Mitzvót agrícolas, ligadas à terra, chamaram a atenção de Bilaam.

A resposta está um importante ensinamento em relação à Criação do mundo. No terceiro dia da criação, D'us instruiu que houvesse vegetação, como está escrito: "E disse D'us: que a terra produza vegetação: grama produzindo semente, árvores de frutas produzindo frutas de sua espécie" (Bereshit 1:11). Porém, no momento em que as árvores realmente foram criadas, o versículo utiliza uma linguagem diferente: "e árvores produzindo frutos" (Bereshit 1:12). Ao invés de "árvores de frutas produzindo frutas", o versículo disse apenas "árvores produzindo frutas". Rashi explica que esta diferença é porque D'us comandou que a terra produzisse árvores que também fossem comestíveis e que tivessem o mesmo gosto das frutas que produzissem. Isto significa que, de acordo com a ideia original de D'us, se alguém quisesse comer partes do tronco de uma macieira, sentiriam o mesmo gosto que sentem ao comer uma deliciosa maça. Porém, a terra não obedeceu ao comando de D'us e produziu árvores que, apesar de darem frutos, elas mesmas não eram comestíveis. Esta "indisciplina" da terra não passou despercebida aos olhos de D'us, e quando Adam Harishon transgrediu e foi amaldiçoado por ter comido o fruto do conhecimento do bem e do mal, D'us amaldiçoou também a terra, como está escrito: "Maldita é a terra por sua causa" (Bereshit 3:17).

Porém, como entender este ensinamento da Torá de que a terra desobedeceu a vontade de D'us? Qual é o conceito espiritual que está sendo transmitido? Além disso, se a terra transgrediu a vontade de D'us, por que sua punição foi postergada até o momento em que Adam foi castigado, ao invés de ser aplicada imediatamente?

Responde o Rav Yohanan Zweig shlita que obviamente a terra não pode se rebelar contra a vontade de D'us. Portanto, a explicação é que quando D'us criou a terra, Ele mesmo já "programou-a" de maneira que, ao invés de produzir árvores em seu estado perfeito, que tinham o mesmo gosto de suas frutas, a terra produziria algo imperfeito. Mas por que D'us criou uma ilusão de que uma de suas criaturas estava se rebelando contra Ele?

O nome "Adam" vem da mesma raiz da palavra "Adamá", que significa "terra", pois o homem foi criado da terra, como está escrito "E D'us formou o homem do pó da terra" (Bereshit 2:7). E como o homem foi criado da terra, e a terra "escolheu" não seguir a vontade de D'us, é isto o que dá ao ser humano a possibilidade do livre arbítrio, isto é, da escolha entre obedecer a vontade de D'us ou se rebelar contra ela. E como a possibilidade do homem transgredir é consequência dele ter sido criado da terra, foi somente no momento em que ele realmente transgrediu que a terra também foi castigada. A punição da terra representa um aprofundamento da ilusão de que a terra tem a sua independência e a possibilidade de escolher não obedecer a vontade de D'us. Da punição da terra aprendemos as consequências negativas de quando utilizamos nossa livre escolha de maneira equivocada.

Portanto, o propósito final das Mitzvót agrícolas, que envolvem o uso da terra, é pegar o elemento da criação que parece estar mais distante e desconectado de D'us, e que carrega a maior expressão do distanciamento de D'us do mundo, que é a terra, e reconectá-la a D'us. E justamente por ser o elemento que aparenta estar mais desconectado, ao ser reconectado ele revela o poder de D'us de uma maneira mais forte.

Foi justamente este potencial do povo judeu, o potencial de pegar algo que foi amaldiçoado e transformar em uma Brachá, de reconectar a D'us algo que havia se desconectado, que teve um impacto tão grande sobre Bilaam. Ele reconheceu que o povo judeu tem a incrível habilidade de ver algo amaldiçoado como uma oportunidade de revelar o poder de D'us, e não como um obstáculo. O povo judeu tinha a força de transformar a maldição da terra em Mitzvót agrícolas. Por isso Bilaam entendeu que o povo judeu estava imune às suas terríveis maldições, que ao saírem de sua boca se transformavam em Brachót.

Este é o potencial do povo judeu: transformar as coisas mais mundanas em espirituais. Através do estudo da Torá aprendemos a utilizar o mundo material de forma a elevá-lo. Mesmo os atos mais básicos do ser humano podem ser transformados em formas de nos aproximar de D'us. Por exemplo, apesar de comer ser um ato que até mesmo os animais fazem, podemos transformar nossa mesa em um "Mizbeach" (altar de oferendas) para D'us. Limitar nossa alimentação apenas às coisas que D'us nos permitiu, dizer Brachót antes e depois de comer e os bons modos na mesa transformam o alimento físico em algo espiritual. Assim, podemos nos conectar a D'us através das coisas mais elevadas, como a Tefilá (reza), e também podemos estabelecer e manter esta conexão através das coisas mais mundanas do nosso dia a dia. Esta foi a Brachá que saiu da boca de Bilaam, e que nos acompanha até os nossos dias.

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 4 de julho de 2014

DINHEIRO E HONRA - PARASHÁ BALAK 5774

"Diz uma lenda que, pouco antes da criação do ser humano, vários anjos se reuniram e chegaram à conclusão de que se toda a humanidade fosse sempre feliz, as pessoas se acostumariam e não dariam o devido valor para a felicidade. Decidiram então, pelo bem da humanidade, esconder a felicidade. Porém, onde poderiam escondê-la para que ninguém pudesse descobrir facilmente e revelar a todos?

O primeiro anjo propôs escondê-la na montanha mais alta do mundo, mas a ideia foi rapidamente afastada, pois os anjos sabiam que os seres humanos, através de sua força física, algum dia poderiam facilmente subir lá. Outro anjo propôs ocultá-la no fundo do mar, mas foi logo contestado, pois sabiam da curiosidade dos seres humanos, que um dia os levaria a construir algum aparelho que pudesse descer mesmo nos mares mais profundos. Um terceiro anjo sugeriu escondê-la em outro planeta, mas logo também sua sugestão foi vetada, pois sabiam que os seres humanos têm inteligência e algum dia eles construiriam uma nave para poder viajar aos outros planetas. O último anjo, que havia permanecido em silêncio, escutando atenciosamente cada uma das sugestões dos demais, falou:

- Acredito que encontrei um lugar para esconder a felicidade, de forma que a maioria nunca vai encontrá-la com facilidade. Vamos escondê-la dentro deles mesmos. Eles estarão tão ocupados procurando lá fora que nunca a encontrarão"

Infelizmente estamos realmente tão preocupados em procurar nossa felicidade nas aquisições materiais, no "quando eu tiver" ou "quando eu for", que acabamos esquecendo que a felicidade verdadeira está dentro de cada um de nós. Basta só saber procurar.
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A Parashá desta semana, Balak, descreve mais uma das inúmeras tentativas dos nossos inimigos de destruir o povo judeu. Balak, rei de Moav, com medo da aproximação do povo judeu, enviou emissários para contratar o profeta Bilaam para amaldiçoá-los, na esperança de poder vencer a iminente guerra que se travaria entre os dois povos. No final, D'us nos protegeu das maldições de Bilaam e saímos vitoriosos da batalha.

Porém, o que nos chama mais a atenção nesta Parashá é a personalidade contraditória de Bilaam, um profeta que, apesar de seu elevado potencial espiritual, preferiu se deixar levar pelos desejos e se transformou em um modelo de más características. O Pirkei Avót (5:19) nos ensina que Bilaam tinha três traços de caráter extremamente negativos: "Ain Raá" (olhar as pessoas de forma negativa), "Ruach Gevoá" (arrogância) e "Nefesh Rechavá" (ganância).

A ganância de Bilaam pode ser observada em sua conversa com os emissários de Balak. Para tentar convencê-lo a aceitar o "serviço", os emissários disseram: "E então disse Balak ben Tsipor: por favor, não se recuse a vir até mim, pois eu te darei muita honra, e tudo o que você disser eu farei; então por favor vá e amaldiçoe por mim este povo" (Bamidbar 22:16,17). Bilaam respondeu: "Mesmo que Balak me desse sua casa cheia de prata e ouro, eu não poderia transgredir a palavra de D'us, para fazer algo pequeno ou grande" (Bamidbar 22:18). Aparentemente a prova da ganância de Bilaam vem da enorme quantidade de dinheiro mencionada em sua recusa.

Porém, se é daqui que aprendemos a ganância de Bilaam, estão como entender quando um grande Tzadik (Justo) também utiliza a mesma expressão? Nossos sábios ensinam que Rabi Yossei ben Kisma foi abordado por um homem muito rico, que lhe ofereceu milhares de moedas de ouro e pedras preciosas para que ele abandonasse o lugar onde vivia, uma cidade com muitos sábios de Torá, e se mudasse para a cidade daquele homem, onde não haviam sábios de Torá. Rabi Yossei respondeu: "Mesmo se você me desse toda a prata, o ouro e as pedras preciosas do mundo, eu não moraria a não ser em um lugar de Torá" (Pirkei Avót 6:9). Portanto, se Bilaam é considerado um ganancioso por causa da resposta que deu aos emissários de Balak, então o que dizer sobre o Rabi Yossei, que mencionou uma quantia ainda maior do que Bilaam?

Se prestarmos atenção nos detalhes, veremos que há uma diferença muito grande nas duas respostas. Quando o homem tentou persuadir o Rav Yossei a ficar em sua cidade, ele ofereceu uma grande quantidade de dinheiro. Em resposta, o Rav Yossei mencionou que nenhum dinheiro do mundo, nem mesmo muito mais do que o homem havia oferecido, seria suficiente para convencê-lo a sair de perto de um lugar de Torá. Era apropriado para o Rav Yossei mencionar o dinheiro, pois aquele homem havia tentado convencê-lo justamente oferecendo dinheiro. Por outro lado, quando os emissários de Balak vieram tentar convencer Bilaam a amaldiçoar o povo judeu, em nenhum momento eles mencionaram dinheiro, apenas ofereceram honrarias. Mas na resposta de Bilaam ele ressaltou que não aceitaria o "serviço" nem por uma grande quantidade de dinheiro. Isto demonstra que o dinheiro era algo que estava tão presente na sua vida que, mesmo quando nada em relação a dinheiro havia sido mencionado, a primeira coisa que veio à sua cabeça foram as moedas de prata e ouro.

Há ainda um entendimento mais profundo das palavras de Bilaam. Existem dois motivos pelos quais uma pessoa pode ser gananciosa e amar o dinheiro. Um motivo é a busca de prazeres físicos, quando a pessoa quer muito dinheiro para poder preencher seus desejos materiais, como uma casa cinematográfica, um carro de último tipo ou uma viagem exótica. O outro motivo é querer acumular dinheiro para receber honra, pois pessoas com muito dinheiro normalmente são mais respeitadas. Quando os emissários de Balak ofereceram honra a Bilaam, ele respondeu que dinheiro não o faria mudar de ideia. Isto significa que, para Bilaam, dinheiro e honra eram uma coisa só, demonstrando que sua ganância não era motivada apenas por desejos materiais, mas principalmente pela busca de honra. Porém, por que a Torá quis nos ensinar qual era a motivação de Bilaam em sua ganância? Na prática, qual é a diferença entre os dois motivos pelos quais uma pessoa ama o dinheiro?

Responde o Rav Yehonatan Gefen que enquanto o amor pelo dinheiro com o intuito de saciar os desejos físicos é apenas uma vontade do corpo, o amor pelo dinheiro para receber honras é uma vontade da alma. Prazeres físicos não preenchem a alma, mas a honra, um prazer espiritual, é uma das formas através das quais uma alma sedenta de motivação na vida pode encontrar alguma satisfação no mundo material.

Se compararmos as duas motivações do amor pelo dinheiro, certamente a segunda é muito mais perigosa para o ser humano do que a primeira. Quando a pessoa ama o dinheiro como forma de conseguir alcançar prazeres físicos e luxúrias, por se tratar de preencher os desejos do corpo, que é limitado e finito, chega um momento em que a pessoa se sacia, mesmo que seja apenas por pouco tempo. Por exemplo, alguém que está com um desejo incontrolável de comer algo, após comer uma grande quantidade desta comida ele se sente saciado e não tem mais desejo de comer. Inclusive, se ele repetir muitas vezes este tipo de prazer, pode até mesmo enjoar e não se interessar mais por ele. Mas se o amor pelo dinheiro for motivado pela busca de honra, um desejo espiritual que vem da nossa alma infinita e ilimitada, a pessoa nunca vai se sentir saciada. Para esta pessoa, como o dinheiro é um meio de receber honra, e ela está sempre desejando mais honra, portanto ela sempre vai querer mais dinheiro para satisfazer seus desejos.

Quando Bilaam igualou o dinheiro à honra, ficou claro que sua "Nefesh Rechava" (ambição) causou a ele o mais maligno dos amores pelo dinheiro: aquele que emana do desejo por honra. E até onde vão as consequências desta ambição? A resposta está na continuação da Mishná do Pirkei Avót, que diz: "Os estudantes de Avraham comem no Olam Hazé (mundo material) e herdam o Olam Habá (Mundo Vindouro)... mas os estudantes de Bilaam, o malvado, herdam o Guehinom ("inferno") e descem para o poço da destruição" (5:19). Da mesma forma que em relação aos alunos de Avraham estão escrito as consequências de ter boas características neste mundo e no Mundo Vindouro, também em relação às más características dos alunos de Bilaam devemos aplicar o mesmo padrão. Portanto, aquele que apresentam estas más características de Bilaam não sofrerão apenas no Mundo Vindouro, mas também já sofrem muito neste mundo. As pessoas gananciosas, em especial aquelas que vivem atrás de honra e respeito, nunca vão se satisfazer com nada, estarão sempre infelizes, correndo atrás de mais honras e prazeres, e por isso suas vidas neste mundo serão um verdadeiro inferno.

Fica deste ensinamento da Parashá uma importantíssima lição para nossas vidas: a incansável busca pelos bens materiais e pela honra nunca dará ao ser humano a verdadeira e duradoura satisfação. Precisamos do dinheiro para sobreviver, e devemos utilizá-lo como um meio para atingir o nosso objetivo de crescimento espiritual, mas devemos estar sempre atentos para que o dinheiro não se torne um objetivo por si só e destrua nossas vidas. Pois somente quando ocuparmos nosso tempo desenvolvendo um relacionamento verdadeiro com a nossa espiritualidade é que teremos alcançado a fonte de satisfação duradoura.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Nm. 22:2-25:9, Mq 5:6-6:8
 
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

TRAZENDO O CÉU PARA A TERRA - PARASHÁ BALAK 5773


Havia em Israel um grupo de empresários que se reuniam todas as noites na sinagoga para estudar Torá. Certa vez o Rav Shlomo Wolbe zt"l escutou que o tema das aulas deste grupo era as leis relacionadas com a Mitzvá de Tsitsit. Ele ressaltou que estudar aquelas leis era algo realmente muito importante, mas sugeriu que o grupo, justamente por ser formado por empresários, deveria estudar o Choshen Mishpat, a parte do Shulchan Aruch (Código de leis judaico) que trata das leis relacionadas aos negócios.

Em um primeiro momento eles não gostaram muito da ideia. Eles preferiam estudar assuntos mais espirituais, não queriam assuntos "pequenos", que envolviam atividades do dia a dia. Queriam ser mais espiritualizados, queriam assuntos mais elevados. Mas como viram que o Rav Shlomo Wolbe insistia tanto, aceitaram a mudança.

Quando começaram as aulas de Choshen Mishpat, foi um grande choque. Eles começaram a perceber quantas leis eles desconheciam, quantas vezes eles haviam sido desonestos, com a melhor das intenções, e haviam prejudicado clientes e concorrentes! Foi então que eles perceberam que a espiritualidade verdadeira não está nos assuntos mais místicos e nem nas Mitzvót mais elevadas, e sim nos assuntos do nosso cotidiano. A espiritualidade está nos assuntos mais simples do dia a dia, justamente para que possamos, com cada pequeno ato, contribuir para que o mundo inteiro possa se elevar espiritualmente.

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Durante a história do povo judeu, poucas vezes tivemos inimigos tão perversos quanto Balak, o rei do povo de Moav, e Bilaam, o profeta de elevado nível espiritual que, ao invés de utilizar seu potencial para ajudar as pessoas, utilizou seu poder para amaldiçoar e destruir. E a Parashá desta semana, Balak, é inteira dedicada a descrever os esforços destes dois Reshaim (perversos), junto com o povo de Midian, para prejudicar o povo judeu. Eles entenderam que não poderiam vencer fisicamente os judeus e, por isso, utilizaram seus conhecimentos espirituais para tentar atingir seus objetivos abomináveis.

Mas de todos os esforços de Balak e Bilaam, ficam algumas dúvidas. Em primeiro lugar, ao utilizar seus conhecimentos espirituais, aparentemente eles queriam que D'us se voltasse contra o povo judeu para destruí-los. Isto parece um propósito fútil, até mesmo tolo, pois todos sabiam do relacionamento eterno e do pacto inquebrável criado entre D'us e o povo judeu, desde a época dos nossos patriarcas, Avraham, Yitzchak e Yaacov. Portanto, qual era a real intenção de Balak e Bilaam? Além disso, Balak declarou seu objetivo como sendo "talvez eu poderei golpeá-los e expulsá-los da terra" (Bamidbar 22:6). Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que o objetivo de Balak era impedir o povo judeu de entrar na Terra de Israel. Mas as terras de Moav e Midian não estavam no caminho do povo judeu e, portanto, a entrada deles em Israel não oferecia nenhuma ameaça à Balak e Bilaam. Então por que esta obstinação em não permitir a entrada do povo judeu em Israel?

Há um interessante versículo nos Tehilim (Salmos), escritos por David Hamelech (Rei David), que nos ajuda a encontrar a resposta: "O Céu é de D'us, e a terra Ele deu ao ser humano" (115:1). Poderíamos pensar que este versículo significa que D'us cuida das coisas espirituais, e Ele nos deu a terra para que possamos nos dedicar ao que é apenas material. Mas explica o Rav Yitzchak Meir Rottenburg, mais conhecido como "Chidushei Harim", que o entendimento correto do versículo é completamente diferente. Neste versículo está contido o propósito da Criação do mundo. D'us deu ao ser humano a terra, isto é, tudo o que está contido no mundo material, para que possamos, através das Mitzvót que Ele nos ordenou, elevar o mundo material e transformá-lo em um "Céu", em espiritualidade.

Portanto, desta explicação, aprendemos que a meta de nossas vidas não é viver uma vida puramente espiritual. Devemos nos envolver com o mundo material, isto faz parte do nosso objetivo. E a missão do povo judeu é justamente transformar o uso do mundo material em algo espiritual. Quando este objetivo for atingido, chegará o Fim dos Tempos e toda a existência humana mudará completamente. Isto influenciará profundamente também as outras nações do mundo, forçando que todos abandonem qualquer forma de comportamento imoral e incorreto, e todos se esforcem para elevar sua existência física.

Explica o Rav Shmuel Bornsztain, mais conhecido como "Shem MiShmuel", que isto poderia acontecer no momento em que o povo judeu entrasse na Terra de Israel. Por que eles não poderiam atingir este nível tão elevado ainda no deserto? Pois durante os 40 anos em que estavam no deserto, os judeus viveram uma vida completamente desconectada das necessidades do mundo material, já que elas eram supridas de maneira sobrenatural e eles estavam livres para se dedicar integralmente ao serviço Divino. Como a existência espiritual do povo judeu estava completamente desconectada do mundo material, eles ainda não tinham conseguido atingir o objetivo da Criação. Mas no momento em que o povo entrasse na Terra de Israel, eles passariam por uma mudança significativa em seu estilo de vida. Eles precisariam lutar pela sua subsistência, elevando o mundo físico, principalmente através das Mitzvót conectadas com a agricultura.

Com esta explicação podemos entender melhor qual era a motivação verdadeira de Balak e Bilaam. Eles sabiam que quando o povo judeu entrasse na Terra de Israel eles poderiam atingir o propósito da Criação, e todas as outras nações se sentiriam obrigadas a mudar também seus estilos de vida. Balak e Bilaam se sentiram pessoalmente ameaçados pelo povo judeu, pois desejavam manter separado o mundo material do mundo espiritual. Apesar de terem um potencial espiritual muito grande, eles não queriam abrir mão de suas vidas completamente conectadas ao mundo material, repleta de prazeres momentâneos. Balak, e principalmente Bilaam, eram pessoas que buscavam prazeres de maneira incessante, e desejavam manter a espiritualidade afastada do mundo material, como se fosse possível se comportar como um animal e, ao mesmo tempo, ser elevado espiritualmente.

Portanto, Balak e Bilaam não queriam necessariamente destruir o povo judeu. O que eles queriam era evitar que o povo judeu conectasse o material com o espiritual. Eles não haviam entendido que parte fundamental do propósito do povo judeu é justamente se envolver com o mundo material para santificá-lo, elevando os elementos da terra, o mundo material, ao status de "Céu", injetando espiritualidade em cada pequeno ato cotidiano. Por isso eles tentaram evitar que o povo judeu entrasse em Israel. Se eles permanecessem no deserto, o propósito de elevação do mundo material nunca seria alcançado e eles não teriam suas vidas alteradas.

Após algumas vezes tentar amaldiçoar o povo judeu, Bilaam finalmente entendeu seu grande erro, o que pode ser percebido em uma das Brachót (Bençãos) que saiu de sua boca: "Quem contou o pó de Yaacov?" (Bamidbar 23:10). Explica o Midrash que Bilaam está se referindo às inúmeras Mitzvót relacionadas ao pó da terra, isto é, as leis que envolvem a agricultura. As leis agrícolas são aquelas que estão relacionadas à vida no mundo material, que representam a forma mais básica de buscar a subsistência. É justamente por isso que D'us nos deu tantas Mitzvót relacionadas com a agricultura, para que mesmo as atividades mais mundanas possam ser elevadas a atos de santidade.

Não apenas Balak e Bilaam cometeram este erro, de tentar separar o mundo material do mundo espiritual, como se fossem duas coisas contraditórias. Infelizmente nós também cometemos este grande erro conceitual. A espiritualidade não está apenas dentro da sinagoga ou do Beit Midrash (centro de estudos de Torá). Nossas atividades cotidianas também contém muita espiritualidade. Por exemplo, existem muitas Halachót (leis) que nos ajudam a sermos honestos nos negócios. O simples ato de comer requer um significativo conhecimento das leis de Kashrut e das Brachót (bênçãos) que devem ser pronunciadas antes e depois de cada tipo de alimento. E entre centenas de religiões existentes no mundo, apenas o judaísmo tem uma Brachá especialmente pronunciada após a utilização do banheiro. Mesmo um dos atos mais baixos e animalescos do ser humano, de expulsar os restos da comida que não foram absorvidos pelo corpo, pode ser transformar em espiritualidade e santidade. De todas as Brachót estabelecidas pelos nossos sábios, a Brachá dita depois de irmos ao banheiro é a única que menciona o "Kissê HaKavód" (Trono Celestial de D'us), o ápice de santidade e elevação espiritual. Tudo isto para nos ensinar que, mesmo os atos mais mundanos, e até mesmo os aparentemente mais baixos, são queridos aos olhos de D'us, pois podem ser transformados em espiritualidade.

A Parashá nos ensina que temos duas escolhas de como viver nossas vidas. Quando a pessoa se conecta de forma desenfreada ao mundo material, termina se afundando, como Bilaam, e se torna completamente dependente dos prazeres físicos, que não nos preenchem. Mas quando a pessoa utiliza o mundo material com controle, com direcionamento, ela transforma a terra em Céu. Este é o papel do povo judeu e, portanto, o papel de cada um de nós.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 22:2-25:9, Mq 5:6-6:8, 1 Co. 1:20-31

sábado, 7 de julho de 2012

VIVER, E NÃO MORRER, POR UM IDEAL - PARASHÁ BALAK 5772

"Roberto era uma ótima pessoa. Era muito responsável e queria que sua família tivesse uma vida tranquila e sem nenhum tipo de privação. Para isso, trabalhava duro, inclusive aos domingos e feriados. Mas seu filho, o pequeno Johny, não estava contente. Apesar de ter os melhores brinquedos, ele sentia a falta do pai. Toda semana Johny perguntava para seu pai se eles poderiam jogar bola no domingo, mas sempre recebia a mesma resposta: "Infelizmente nesta semana não vai dar, filhão. O papai precisa trabalhar".
Então, numa certa semana, após muitas e muitas recusas de Roberto, Johny perguntou:
- Pai, quanto dinheiro você ganha quando trabalha no domingo?
O pai, perplexo com a pergunta do filho de 5 anos, fez algumas contas rápidas de cabeça e respondeu o valor. O filho agradeceu e entrou no quarto, sem dar nenhuma satisfação do porquê tinha perguntado aquilo. O pai ficou curioso, mas preferiu não falar nada.
No domingo de manhã, Roberto estava saindo de casa para ir trabalhar quando viu Johny parado na porta de casa. Era muito cedo, por que será que ele já tinha levantado? Johny mostrou ao pai a mão fechada. Quando abriu, Roberto viu que havia muitas moedinhas. Johny então começou a contá-las em voz alta e, quando terminou a conta, estendeu o dinheiro ao pai e disse:
- Pai, isto deve ser suficiente para pagar 1 hora do seu domingo. Podemos agora sair para jogar futebol?"
Esta história é um bom exemplo de como vivemos em uma triste ironia. Toda razão pelo qual um pai trabalha tão duro é para dar aos filhos uma boa vida. Mas o trabalho acaba ocupando tanto nosso tempo que, no final das contas, perdemos o propósito das coisas. Pois os filhos acabam tendo tudo do bom e do melhor, mas ficam sem o principal: ficam sem um pai...
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Nesta semana lemos a Parashá Balak, que nos descreve um dos personagens mais contraditórios da Torá: o profeta Bilaam. Em geral, todas as pessoas que estão mencionadas na Torá têm um comportamento bem definido, isto é, ou são Tzadikim (justos), apesar de algumas vezes cometerem erros, ou são Reshaim (malvados). Mas Bilaam é uma grande exceção. Por um lado era uma pessoa com alto nível de profecia, talvez até maior do que Moshé Rabeinu, e podia falar diretamente com D'us através de sonhos. Por outro lado, se comportava como um animal, dominado por seus desejos e pela busca de honrarias.
Bilaam era muito famoso por utilizar seus "dons espirituais" para amaldiçoar pessoas ou povos inteiros. O rei Balak, do povo de Moav, teve medo do avanço esmagador do povo judeu, que no deserto conseguiu derrotar todas as grandes potências da época. Balak sabia que era inútil tentar lutar contra os judeus, pois eram abençoados por D'us. Ele sabia que o sucesso na batalha dependia de méritos espirituais e, por isso, contratou Bilaam para amaldiçoar o povo judeu, aumentando suas chances de vitória. Bilaam aceitou, em troca de uma grande quantidade de moedas de ouro, mas sua missão foi um grande fracasso, pois D'us protegeu o povo judeu e, por três vezes, transformou as tentativas de maldição de Bilaam em Brachót (bênçãos) para o povo judeu.
Das palavras que saíram da boca de Bilaam aprendemos muito para nossas vidas. Por exemplo, da primeira vez em que ele tentou amaldiçoar o povo judeu, assim ele falou: "Que minha alma morra a morte dos justos, e que meu fim seja como o deles" (Bamidbar 23:10). O que estas palavras significam? Que tipo de morte Bilaam queria? E por que ele, um grande Rashá, se compara aos Tzadikim?
A resposta começa na diferença entre Bilaam e os grandes profetas do povo judeu. Os grandes profetas judeus tiveram que trabalhar duro para atingir o nível de profecia. Para cada um deles foi um trabalho de crescimento gradual, durante toda a vida. Pessoas como Moshé Rabeinu e Eliahu Hanavi trabalharam muito para chegar ao nível em que chegaram. Já Bilaam recebeu seu elevado nível espiritual pronto, sem nenhum esforço, e por isso não conseguiu manter-se elevado.
Mas se Bilaam era um profeta, então ele sabia toda a verdade. Ele sabia da existência de D'us, sabia que Ele entregou ao povo judeu a Torá, o documento Divino que contém valores morais para toda a humanidade. E se ele sabia que a Torá era Divina, sabia que todos nossos atos têm consequências espirituais eternas, para o bem ou para o mal. Então, com todo este conhecimento, como ele pode ter se transformado em uma pessoa tão baixa, quase no nível de um animal?
Explica um dos mais famosos comentaristas da Torá, o Rav Chaim ben Atar, mais conhecido como Or Hachaim, que Bilaam não conseguiu internalizar as verdades que conhecia porque não parava para refletir e, consequentemente, seus atos não estavam de acordo com seu elevado potencial espiritual. Mas por outro lado, as palavras que saíram de sua boca demonstram que, apesar de viver uma vida desregrada e vazia, ele esperava receber, após a morte, a mesma recompensa dos grandes Tzadikim, isto é, o Mundo Vindouro e seus prazeres espirituais infinitos. Bilaam, que sabia a verdade, achava que receberia uma recompensa mesmo sem ter feito nenhum bom ato? Certamente que não. Ele sabia que existe um sistema de castigo e recompensa para os nossos atos, nada é de graça no mundo espiritual. Então como ele esperava receber esta grande recompensa eterna?
O Or HaChaim traz uma resposta surpreendente. Bilaam planejava corrigir sua conduta e fazer Teshuvá (se arrepender de todos os seus maus atos). Mas quando ele pretendia fazer isto? Bilaam sabia que vivia uma vida de mentira e que perdia, a cada instante, méritos para adquirir a vida eterna no Mundo Vindouro. Ele queria mudar, queria ser uma pessoa correta, mas queria isto somente no final de sua vida.
Mas por que deixar para o final da vida? Se esta era a verdade, por que não se arrependeu imediatamente?
Bilaam fez um erro nos seus cálculos. E por mais ilógico que seus pensamentos possam parecer, não foi o único na história que errou desta maneira. O Or HaChaim diz que conheceu pessoalmente muitos Reshaim que afirmaram que, se fosse possível fazer Teshuvá e imediatamente morrer, eles fariam, mas não conseguiriam fazer Teshuvá e viver da maneira correta uma vida inteira. Eles argumentavam que eram dominados pelo Yetzer Hará, a má inclinação, e por isso logo voltariam aos maus atos. Bilaam e todos os seus "seguidores" durante a história achavam que era impossível derrotar o Yetzer Hará. Mas eles se esqueceram de um fundamento ensinado pelos nossos sábios: "Não há nada que pode impedir a vontade verdadeira". Mesmo que eles tinham muito Yetzer Hará, se quisessem de verdade poderiam ter vencido. Mas preferiram se acomodar e aceitar passivamente a derrota.
Bilaam não é apenas mais um personagem da Torá. Ele representa as pessoas que sabem a verdade e estão dispostas a morrer por ela, mas não estão dispostas a viver por ela. Parece que Bilaam era um grande tolo e fraco. Mas será que muitas vezes não cometemos o mesmo erro? Será que não nos comportamos da mesma maneira no nosso cotidiano, apesar de saber a verdade?
Há uma questão básica que todos devem se perguntar em algum momento da vida: "Qual é o propósito da minha vida? Pelo que eu estou vivendo?". E, ao contrário do que parece, esta não é uma questão simples de ser respondida. A grande maioria das pessoas não tem resposta, pois nunca se questionou ou, mesmo se chegou ao questionamento, nunca se aprofundou para encontrar respostas. E mesmo entre os que realmente buscam respostas, a maioria define seu propósito de maneira vaga, dizendo que a meta é se aproximar de D'us. Mas há muitas maneiras de se aproximar de D'us, e não é fácil encontrar um caminho específico, que se adeque ao potencial e às características individuais de cada pessoa. Como fazer então, na prática, para ter a certeza de que estamos vivendo uma vida de verdade?
O Rav Noach Weinberg dá uma sugestão para tornar esta busca menos abstrata. A pessoa deve pensar nas coisas pelas quais ela está disposta a morrer. Então, ela deve dizer a si mesma: "Eu não quero morrer por isso. Eu quero viver por isso".
Um excelente exemplo, que demonstra que não vivemos de acordo com nossas convicções, é como cuidamos dos nossos filhos. Qualquer um de nós daria a vida pelos filhos, mas será que dedicamos o tempo e a energia suficientes para viver por eles? Muitas vezes optamos por uma vida com mais conforto, mesmo que isto resulte em praticamente trocar o tempo com os filhos por mais e mais tempo no escritório. Também muitos dariam a vida pelo povo judeu, em situações em que a continuidade do judaísmo está sob ameaça de destruição, como fizeram tantos mártires durante nossa história. Mas quanto nos dedicamos para viver pelo povo judeu? Quanto do nosso tempo é dedicado aos nossos irmãos necessitados? Quanta energia gastamos para trazer de volta judeus afastados, que mal sabem o que é judaísmo? Abrimos mão do tempo em que ficamos no escritório em prol do judaísmo ou do povo judeu? Nos sentimos verdadeiramente responsáveis pela continuidade do judaísmo? Infelizmente não.
Apesar do seu potencial espiritual elevado, Bilaam é chamado pela Torá de Rashá, pois ele estava apenas disposto a morrer pela verdade, não a viver por ela. Por isso ele acabou se deixando levar pelos seus desejos mais baixos. Qualquer um deve parar e se questionar sobre suas convicções, para não nos perdermos com a correria de nossas vidas. A dica prática é sempre lembrar quais são as coisas pelas quais estaríamos dispostos a morrer, e nos questionar o quanto estamos efetivamente vivendo por elas.
Explica o Rav Yonathan Guefen que em muitas gerações os judeus precisaram morrer fazendo "Kidush Hashem" (santificando o nome de D'us), isto é, dando suas próprias vidas para manter a chama do judaísmo aceso. Durante a Inquisição, por exemplo, muitos judeus preferiram morrer a se converter. Também os judeus preferiram abandonar a comodidade de suas vidas em Portugal e na Espanha, e muitos morreram de fome e doenças pelo caminho, mas nunca abandonaram seu judaísmo. Mas nossa geração não precisa mais de judeus que estão dispostos a morrer pelo judaísmo. Nossa geração precisa cada vez mais de judeus que estão dispostos a viver pelo judaísmo. Pois decidir fazer um ato heroico e logo depois morrer é muito louvável e uma decisão difícil, mas não se compara a viver uma vida inteira heroicamente fazendo o que é correto, mesmo quando vai contra nosso comodismo e nossos desejos.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
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Nm. 22:2-25:9, Mq 5:6-6:8, Rm. 11:25-32

sexta-feira, 8 de julho de 2011

NÃO TROQUE O CERTO PELO INCERTO - PARASHÁ BALAK 5771 (08 de julho de 2011)

"Há cerca de 20 anos passava na televisão um programa dominical, conduzido pelo famoso apresentador Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos. O programa era conhecido como "A cabine do Silvio Santos", pois o elemento principal era uma cabine à prova de som colocada no meio do palco. Uma pessoa sorteada entrava na cabine e ficava fechada lá dentro, sem saber o que acontecia do lado de fora. Enquanto isso o Silvio Santos perguntava para a pessoa se ela queria trocar certo objeto por outro. Uma luz vermelha acendia-se na cabine e o participante tinha que dizer "Sim" ou "Não". Após algumas trocas o jogo terminava e a pessoa recebia o prêmio que havia restado após a última rodada.
Certa vez Antônio Golçalves foi sorteado. Ele não acreditou na imensa sorte de participar do programa do Silvio Santos, pois além dos 15 minutos de fama, os prêmios oferecidos eram muito bons. Fogões, geladeiras, motos e até carros. Antônio estava nervoso quando começou o jogo. Ansioso, ele permanecia em silêncio absoluto, esperando a luz vermelha. Então a luz acendeu e ele gritou "Sim", trocando uma bicicleta por um fogão. Na outra rodada ele decidiu gritar "Não", salvando-se de trocar seu fogão por uma boneca. A sorte parecia estar do lado de Antônio. Na penúltima rodada Antônio estava com uma moto. Então o Silvio Santos trouxe um carro para o palco e perguntou: "Você troca sua moto por este carro zero quilômetros? Antônio viu a luz acendendo e, sem saber o que acontecia do lado de fora, gritou "Sim". Chegou a rodada final e Antônio tinha um carro em suas mãos. Foi então que o Silvio Santos, fez a última pergunta: "Você troca seu carro por uma coxinha?". A luz vermelha acendeu-se e Antônio, confiante, fechou seus olhos e gritou com toda sua força: "Siiiiiiim".
A porta da cabine foi aberta e Antônio saiu, esperançoso. Que grande prêmio teria ganhado? Viu no palco uma televisão, um fogão e uma geladeira. Seus olhos viram também um carro parado no palco e brilharam de alegria. Foi então que o Silvio Santos veio trazendo uma coxinha. Era a coxinha pela qual Antônio havia trocado seu carro. Que decepção! Antônio Golçalves queria sumir de tanta vergonha. Ao sair do palco levava em sua mão a coxinha que havia trocado pelo seu carro zero quilômetros"
Algumas vezes nos equivocamos e, no jogo da vida, nos comportamos como o Antônio Gonçalves. Nos esquecemos que os prazeres do mundo material são limitados e temporários, enquanto os prazeres do mundo espiritual são infinitos. Algumas vezes D'us nos pergunta se queremos trocar os prazeres eternos por prazeres limitados e, na ingenuidade, respondemos "Siiiiiiiim".
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Na Parashá desta semana, Balak, a Torá descreve uma pessoa de personalidade interessante chamada Bilaam. Ele tinha um nível muito elevado de profecia, ao ponto de falar diretamente com D'us, mas preferiu utilizar seu potencial espiritual para ganhar dinheiro e fama vendendo seus "serviços" para interessados em amaldiçoar pessoas e até mesmo povos inteiros. Um dos "clientes" de Bilaam foi o rei Balak, do povo de Moav, que temeu muito o iminente confronto com o povo judeu após ver sua esmagadora vitória contra o povo de Amorá. Balak sabia que a vitória na guerra não dependia de força física, mas sim de méritos espirituais, por isso contratou Bilaam por uma enorme soma de dinheiro para amaldiçoar o povo judeu, possibilitando assim vencer na guerra.
Bilaam, que era famoso pelo grande sucesso em seus "trabalhos espirituais", aceitou a generosa oferta de Balak e, por três vezes, tentou amaldiçoar o povo judeu, mas em todas elas D'us protegeu os judeus, fazendo com que as maldições que saíam da boca de Bilaam se transformassem em Brachót (Bençãos).
Na terceira vez, antes de tentar amaldiçoar o povo judeu, Bilaam pediu para subir em uma montanha e observar o acampamento dos judeus, garantindo que assim poderia amaldiçoá-los. Porém, da sua boca saíram as seguintes palavras de louvor ao povo judeu: "Quão belas são tuas tendas, Yaacov, teus tabernáculos, Israel". Mas que tipo de louvor é esse? O que havia de especial nas tendas do povo judeu? Além disso, por que o versículo mistura as linguagens "Yaacov" e "Israel", já que ambas são utilizadas para se referir ao povo judeu? E finalmente, para que Bilaam precisava ver o povo judeu para poder amaldiçoá-lo?
Explicam nossos sábios que D'us criou e dirige o mundo baseado em misericórdia, pois se Ele julgasse nossos atos com justiça estrita, o mundo não sobreviveria. Mas existem alguns poucos instantes em cada dia em que D'us sim julga o mundo com justiça estrita. Bilaam não tinha o poder de amaldiçoar ninguém. Ele tinha, na realidade, o potencial espiritual de saber qual era o momento da justiça estrita de D'us. Como ele aproveitava este dom espiritual? No exato momento da justiça estrita ele mencionava para D'us alguma transgressão da pessoa ou povo, causando uma "maldição", que nada mais era do que a consequência de uma punição espiritual mais severa. Por isso ele subiu na montanha, para observar o acampamento do povo judeu e procurar qualquer defeito que pudesse ser mencionado no momento da justiça estrita de D'us.
O que Bilaam esperava ter visto? Um erro comum de acontecer entre vizinhos: a falta de recato, resultado da curiosidade que temos de sempre querer saber o que está acontecendo na vida dos outros. Vivemos sem privacidade, janela com janela, um olhando sempre o que os vizinhos estão fazendo. Porém, Bilaam viu no acampamento do povo judeu justamente o contrário. As tendas eram montadas de forma recatada, isto é, nunca a abertura de uma tenda ficava de frente para a abertura de outra tenda. O povo judeu se preocupava com a privacidade e o recato de cada família. Ao invés de uma maldição, Bilaam pronunciou uma Brachá.
Explica o Rav Moshe Shterenbuch que, além desta explicação mais simples, a Brachá de Bilaam pode ser entendida de uma maneira mais profunda, necessitando apenas uma pequena introdução. A Torá se refere ao povo judeu de duas maneiras diferentes. Pessoas mais simples, com um nível espiritual mais baixo, são chamadas de "Yaacov", enquanto pessoas em um nível espiritual mais elevado são chamadas de "Israel".
O que significa "Quão belas são tuas tendas, Yaacov"? A tenda simboliza coisas provisórias e temporárias. Elas não são moradias fixas, são utilizadas apenas como uma solução temporária por pessoas que estão fora de casa. Este foi o louvor que Bilaam deu ao povo judeu: da mesma forma que eles moravam em tendas porque estavam apenas de passagem pelo deserto, assim eles também viviam suas vidas. Eles colocavam no coração que a vida no Olam Hazé (Mundo Material) é provisória e passageira, apenas uma preparação para o Olam Habá (Mundo Vindouro), que é a vida verdadeira e eterna. Bilaam ressaltou como é bom viver com esta certeza, mesmo para as pessoas mais simples chamadas de "Yaacov", pois assim podem dedicar suas vidas ao que realmente é importante, sem investir mais do que o necessário no que é passageiro e limitado.
E o que significa "Teus tabernáculos, Israel"? Que as pessoas mais elevadas, chamadas de "Israel", podem viver em um nível espiritual ainda mais alto. Para elas não é suficiente apenas viver com a certeza de que o mundo material é temporário, elas conseguem transformar suas vidas em um pequeno Mishkan (tabernáculo ou Templo Móvel). Qual a característica de um Mishkan? Através da utilização de objetos do mundo material, da maneira como D'us ensinou, conseguimos trazer a Sua presença para o mundo. Viver uma vida de Mishkan significa utilizar o mundo material e seus prazeres de uma forma tão sagrada que podemos elevar tudo o que é material a um nível espiritual.
Deste ensinamento aprendemos algo muito interessante: não é abdicando dos prazeres do mundo material e vivendo uma vida de pobreza e privações que podemos nos tornar pessoas espiritualmente mais elevadas. A maneira verdadeira de criar uma conexão com D'us é utilizando o mundo material, tendo proveito dos prazeres que ele pode nos oferecer, mas canalizando estes prazeres ao mundo espiritual. As Mitsvót nos ajudam nesta difícil tarefa. Por exemplo, podemos ter o prazer de uma boa comida, mas a comida Kasher e as Brachót feitas antes e depois de termos proveito transformam a comida gostosa em alimento para a alma. E assim funciona com todos os prazeres do mundo material que, ao serem obtidos da maneira correta, podem virar prazeres espirituais, transformando nossas casas e nossas vidas em um verdadeiro Templo Móvel.
A Brachá de Bilaam não foi apenas para o povo judeu que estava no deserto, foi para cada um de nós. Foi uma Brachá para que possamos ter claridade durante o tempo limitado em que estamos neste mundo material e possamos focar corretamente os nossos atos. Não apenas para não gastarmos o nosso tempo na busca incessante de prazeres limitados que não nos preenchem, mas para que possamos trazer espiritualidade para o mundo com cada pequeno ato que fazemos.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
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