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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FONTE DA ALEGRIA VERDADEIRA - PARASHÁ MIKETZ E CHÁNUKA 5777

"O primeiro dia de aula era sempre o mais esperado pelos alunos do 4º ano. A senhora Dália, a professora, distribuía aos alunos tarefas pelas quais eles seriam responsáveis durante o ano todo, tais como preparar os livros para as aulas, manter o relógio da sala de aula sempre pontual, limpar a lousa ou cuidar de um dos animais de estimação da turma. Como algumas tarefas eram mais interessantes, as crianças ficavam ansiosas para saber quem seriam os escolhidos para serem responsáveis por elas. Porém, a distribuição não era aleatória. A senhora Dália levava em consideração quais alunos tinham sido mais responsáveis ​​no ano anterior e estas crianças eram as que recebiam as tarefas de maior responsabilidade.

Entre os melhores alunos, Sara certamente se destacava. Era uma garota boazinha e tranquila, e durante o ano anterior havia sido uma aluna exemplar. Todas as crianças sabiam que Sara era a favorita para receber a melhor tarefa. Porém, naquele ano houve uma grande surpresa. Cada criança recebeu sua tarefa, mas a tarefa de Sara foi muito diferente do que ela esperava. Ela recebeu uma pequena caixa, contendo um pouco de areia e algumas formigas. Sua função era cuidar do bem estar daquelas formigas e acompanhar o seu desenvolvimento.

A decepção de Sara era visível em seu rosto. Ao perceber, a senhora Dália tentou animá-la, insistindo que aquelas formigas eram especiais, mas Sara estava muito triste. E o pior foi o comportamento de alguns dos seus colegas. Sara podia ver o risinho de contentamento no rosto deles, como se estivessem dizendo: "agora você vai sentir o que nós sentimos". Pareciam felizes com a tristeza dela.

Uma das melhores amigas de Sara, vendo a tristeza nos olhos dela, encorajou-a a não cuidar das formigas, como uma forma de protesto contra a professora. No entanto, Sara era uma menina muito responsável. Ela escolheu ignorar as risadinhas e o desprezo dos seus colegas por sua tarefa aparentemente sem importância. Ela estava decidida a transformar aquela tarefa em algo especial. Sara começou a pesquisar tudo sobre aquela espécie de formiga. Acabou aprendendo também sobre as diferentes espécies e os detalhes de cada tipo de habitat natural. Ela modificou a pequena caixa para torná-la mais adequada às necessidades das formigas, procurou os melhores alimentos e ajudou-as a se desenvolverem bem mais do que a professora esperava. Um dia, quando os alunos estavam na sala de aula, um homem desconhecido abriu a porta. Pelas roupas, parecia ser alguém importante. A senhora Dália interrompeu a aula e, com grande alegria, disse:

- Crianças, este é o Sr. Martin. Ele é o Ministro da Educação e veio nos dar uma notícia maravilhosa. Inscrevi o trabalho da Sara com as formigas em uma Feira de Ciências nacional, representando a nossa escola, e o resultado da competição saiu ontem.  Nossa escola foi a vencedora e o prêmio é que a nossa classe participará de uma viagem para uma floresta tropical, para podermos passar uma semana pesquisando sobre todos os tipos de insetos. Parabéns, vocês serão assistentes de pesquisa.

Os alunos pularam de alegria. Todos cumprimentaram a senhora Dália pela iniciativa de inscrever a escola na Feira de Ciências.  Mas os maiores agradecimentos foram para Sara, por ter sido tão responsável. Foi assim que Sara e as outras crianças aprenderam a ter responsabilidade mesmo em tarefas aparentemente menos importantes. Além disso, aprenderam que devemos estar contentes com o que temos, sem invejar os outros e sem nos preocuparmos com o que os outros pensam sobre as nossas conquistas. Naquele dia, as crianças daquela escola aprenderam a receita da alegria verdadeira. 
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Vimos na Parashá da semana passada o início da história de Yossef. Após ter sido vendido como escravo por seus irmãos, Yossef chegou à casa de Potifar, um ministro do Faraó. Ele foi injustamente acusado de atacar a esposa de Potifar e foi mandado para a prisão. Lá, ele conheceu o padeiro-chefe e o copeiro-chefe, pois ambos haviam transgredido contra o Faraó e haviam sido enviados para a prisão. Certo dia eles tiveram sonhos estranhos, que foram interpretados por Yossef: o padeiro-chefe receberia pena de morte em três dias, enquanto o copeiro-chefe seria perdoado em três dias e voltaria às suas funções no palácio do Faraó. E assim aconteceu.

Já a Parashá desta semana, Miketz (literalmente "no fim de"), começa com um sonho perturbador do Faraó: "E o Faraó sonhou. E eis que ele estava ao lado do Nilo. E eis que do Nilo emergiram sete vacas de aparência bonita e de carne saudável, e estavam pastando no pântano. E eis que sete outras vacas emergiram do Nilo depois delas, feias e magras... e as vacas feias e magras comeram as sete vacas de aparência bonita e saudáveis, e o Faraó despertou" (Bereshit 31:1-4). Este sonho tirou o sono do Faraó e o deixou angustiado, mas nenhum de seus magos conseguia interpretá-lo. Então o copeiro-chefe lembrou-se de Yossef e a interpretação correta do seu sonho e do sonho do padeiro-chefe, e sugeriu ao Faraó trazê-lo ao palácio. Yossef foi imediatamente tirado da prisão e trazido diante do Faraó. Com inspiração Divina, Yossef interpretou corretamente o sonho do Faraó. O sonho tratava-se de uma revelação Divina ao Faraó sobre o que futuramente ocorreria ao Egito. Viriam sete anos de muita abundância e fartura, representados pelas vacas gordas e saudáveis, seguidos de sete anos de fome e escassez, representados pelas vacas feias e magras. Os anos de fome seriam tão terríveis, haveria tanta escassez, que as pessoas rapidamente esqueceriam os anos de fartura.

A maioria dos comentaristas da Torá entende que existe uma relação direta entre as vacas e a economia egípcia. Por se tratar de uma sociedade basicamente agrícola, o sucesso da economia egípcia era medido em relação aos seus rebanhos. A abundância resultava em animais bem alimentados, enquanto a escassez resultava em animais desnutridos. Rashi (França, 1040 - 1105), entretanto, foge desta explicação tradicional. De acordo com ele, a expressão "Yafot Marê", que literalmente significa "de aparência bonita", é uma alusão aos anos de abundância, quando as pessoas olharão uns aos outros de forma positiva e favorável. Diferente dos outros comentaristas, Rashi afirma que as vacas não representavam os rebanhos possuídos pelos egípcios, e sim os próprios egípcios. Mas de acordo com esta explicação de Rashi, como entendemos a continuação do versículo, que diz que as vacas tinham uma carne saudável? E o que levou Rashi a "fugir" da explicação tradicional?

Explica o Rav Yohanan Zweig que o termo utilizado pela Torá para abundância é "Sôva". Rashi entende que esta expressão não se refere apenas à abundância, o lado quantitativo, mas também ao contentamento, o lado qualitativo. O contentamento de uma pessoa não é medido apenas por seu nível econômico e pela quantidade de bens que ela possui, pois também depende muito do seu estado de espírito. Muitas pessoas, apesar de terem abundância, vivem tristes e deprimidas. Um exemplo deste fenômeno é a sociedade na qual vivemos. Muitas pessoas têm muito mais recursos do que jamais precisarão em suas vidas e mesmo assim estão infelizes. Um dos principais motivos é a inveja. Estas pessoas se incomodam tanto com o sucesso dos outros que acabam se esquecendo de aproveitar e valorizar suas próprias conquistas. Por isso, apesar de terem muito, nunca estão satisfeitos com o fruto do seu próprio trabalho. A inveja e a competição tiram a alegria de vida da pessoa. Por outro lado, se uma pessoa é capaz de ver o sucesso do seu companheiro de uma forma positiva e favorável, então isto é sinal de que ela está realmente contente com o que tem. É por isso que Rashi "fugiu" da interpretação tradicional, pois ele entende que a expressão "Sôva" significa uma época de contentamento, o que somente pode ocorrer quando as pessoas são capazes de ver com bons olhos o que os outros têm.

Esta explicação de Rashi é apoiada por um Midrash (parte da Torá Oral) que explica as palavras do versículo "e estavam pastando no pântano". A palavra "pântano", em hebraico "Achu", vem da mesma raiz da palavra "Achvá", que significa "irmandade". O Midrash afirma que o conceito de "vacas de aparência bonita e saudáveis" se refere a uma época de amor e irmandade no mundo. Porém, uma pessoa somente consegue olhar com bons olhos o que o outro tem caso ela consiga olhar para si mesma de uma maneira saudável. O autorrespeito, acompanhado da habilidade de medir nosso valor de acordo com os nossos próprios esforços e conquistas, nos dá a segurança para podermos participar da alegria e do sucesso dos outros. Isto está representado nas palavras "carne saudável", que se refere a uma pessoa que está com boa disposição e vê a si mesma de uma maneira saudável e positiva. O autorrespeito e a boa autoestima trazem amor e irmandade ao mundo. Por outro lado, se uma pessoa não tem respeito por si mesma, se não tem uma boa autoestima, somente conseguirá medir suas próprias conquistas comparando com as conquistas dos outros. Assim, ela estará sempre se sentindo ameaçada pelo sucesso dos outros e, portanto, nunca se alegrará, nem com o sucesso dos outros e nem com o seu próprio sucesso. Isto gera inveja, desavenças e desunião.

A Parashá Miketz sempre coincide com a Festa de Chánuka, pois a luta do povo judeu contra os gregos está fortemente conectada com este conceito ensinado na Parashá. Parte da herança da cultura Helenista, transmitida pelos gregos ao mundo inteiro, é a valorização do material sobre o espiritual, do corpo sobre a alma. As pessoas pensam atualmente que o nosso verdadeiro valor é definido pelo que temos, não pelo que somos. Isto cria uma sociedade doente, com pessoas infelizes que não conseguem se alegrar com as conquistas dos outros por se sentirem ameaçadas, como se estivessem em constante competição. Somente quando tivermos a tranquilidade de saber que cada um tem a sua própria missão e suas ferramentas, entregues por D'us sob medida, e que não devemos nos comparar com ninguém, então poderemos nos alegrar, não apenas com as nossas conquistas, mas também com as conquistas dos outros. Desta maneira, mais uma vez teremos vencido a escuridão dos gregos.

SHABAT SHALOM e CHÁNUKA SAMEACH
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 41:1-44:17, 1 Rs. 3:15-4:1

sábado, 12 de dezembro de 2015

ULTRAPASSANDO OS LIMITES - PARASHAT MIKETZ E CHÁNUKA II 5776

Shimon Waisberg (nome fictício) era um judeu israelense afastado. Conhecia pouco das Halachót (Leis Judaicas) e não sabia cumprir nem mesmo as Mitzvót mais básicas. Certo Shabat ele estava circulando de carro em um bairro religioso, onde normalmente não circulam carros no Shabat, quando de repente viu uma criança que, vinda do nada, atravessou correndo a rua bem na frente do carro dele, sem olhar para os lados. Apesar de ter freado, Shimon não conseguiu evitar a forte colisão. A criança voou longe e, gravemente ferida, foi levada às pressas ao hospital. Em poucos dias Shimon foi julgado e absolvido, pois o juiz considerou que a culpa foi exclusivamente da criança. Porém, apesar da absolvição legal, a consciência de Shimon não o deixava tranquilo, e ele ficava o tempo todo pensando no pobre menino e em sua família. Sem conseguir dormir nem comer direito, ele decidiu ir ao hospital visitar a criança e oferecer ajuda à família. Chegando lá, ele entrou no quarto e viu a criança na cama, em condições críticas. A mãe, muito abatida, estava sentada ao lado da cama, rezando pela recuperação do filho. Shimon, muito emocionado e envergonhado, disse em voz baixa:

- Sinto muito pelo seu filho, não foi minha culpa. Há algo que eu posso fazer por vocês?

- Sim - respondeu a mãe do garoto - Por favor, a partir de hoje comece a guardar o Shabat.

Shimon ficou chocado. Aquela mulher, mesmo diante de uma situação tão difícil, vendo seu filho entre a vida e a morte, conseguia estar conectada com sua espiritualidade. Ela poderia ter exigido uma compensação financeira, poderia ter respondido de maneira ríspida e grosseira. Mas, ao contrário do que Shimon esperava, ela foi gentil e se preocupou com a espiritualidade dele. Shimon se interessou em conhecer o que havia de especial dentro do judaísmo que dava forças tão incríveis para aquela mulher. Em pouco tempo ele se tornou um "Baal Teshuvá" (pessoa que retorna ao cumprimento da Torá e das Mitzvót). Em seu casamento, que seguiu cada detalhe da Halachá, todos da família daquela criança atropelada, que felizmente já havia se recuperado completamente, foram os convidados de honra. (História Real) 
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Nesta semana lemos a Parashat Miketz, que continua contando a história de Yossef, em especial a mudança repentina que ocorreu em sua vida, quando ele passou de um simples prisioneiro a vice-rei do Egito. Apesar de Yossef ser muito bonito e muito poderoso, e apesar de estar em um lugar espiritualmente baixo, de materialismo e promiscuidade, ele nunca se corrompeu. É por isso que, entre todos os nossos antepassados, foi ele que recebeu o "apelido" de Yossef "Hatzadik" (o Justo), em especial por seu autocontrole diante de tantos testes e desafios. Também neste Shabat continuamos a comemoração da Festa de Chánuka. Como esta característica de Yossef, de ter um autocontrole acima do normal, se conecta com a Festa de Chánuka?

A resposta começa com uma Mishná (parte da Torá Oral) que afirma: "Há três coroas (no povo judeu): Keter Torá (coroa da Torá), Keter Kehuná (coroa do Sacerdócio) e Keter Malchut (coroa do Reinado), mas o Keter Shem Tov (coroa do bom nome) está acima de todas" (Pirkei Avót 4:13). Porém, esta Mishná apresenta algumas dificuldades. Em primeiro lugar, o que significa a "coroa do bom nome"? Além disso, se a Mishná afirmou que há três coroas, por que listou quatro?

Há um paralelo destas três coroas com os utensílios do Beit Hamikdash (Templo Sagrado) que ficavam no "Kodesh", a parte mais sagrada. O Talmud (Yoma 72b) nos ensina que três utensílios tinham um "Zer", que literalmente significa "borda". É como se os utensílios tivessem em sua borda uma coroa, e as coroas destes três utensílios representam as três coroas mencionadas na Mishná. O Aron Hakodesh (Arca Sagrada) ostenta a coroa da Torá, o Mizbeach HaZahav (Altar de incenso) ostenta a coroa do Sacerdócio e a Shulchan (Mesa dos Pães) ostenta a coroa do Reinado.

Porém, a verdade é que no Kodesh havia quatro utensílios, não apenas três, pois lá também ficava a Menorá de ouro. O Midrash (parte da Torá Oral) explica que a Menorá ostenta a quarta coroa trazida no Pirkei Avót: a coroa do bom nome. Mas se olharmos os detalhes da Menorá, perceberemos que ela era diferente dos outros três utensílios, pois ela não tinha nenhuma coroa. Na verdade a Menorá não tinha nem mesmo bordas delimitadas como nos outros utensílios. Então como a Menorá pode representar a coroa do bom nome se ela não tinha fisicamente nenhuma coroa?
Explica o Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, que embora a Menorá não tivesse nenhuma borda física que pudesse conter uma coroa, sua coroa era representada pelas chamas das lâmpadas que a delineavam. Isto significa que os três utensílios anteriores tinham uma borda limitada, enquanto a chama da Menorá era uma borda sem limites. Portanto, a coroa da Menorá reflete o conceito de que o bom nome é superior às outras três qualidades citadas anteriormente. Mas ainda fica a dúvida de qual é o real entendimento do conceito de "coroa do bom nome". Além disso, sabemos que a Menorá é o símbolo da Festa de Chánuka. Então qual é a relação entre Chánuka e a coroa do bom nome?

Se prestarmos atenção, perceberemos que há uma diferença intrínseca entre as quatro coroas citadas no Pirkei Avót. Enquanto as três primeiras coroas são qualidades que dependem da própria pessoa (Torá, Sacerdócio e Reinado), o bom nome é algo que não depende da própria pessoa, e sim de como os outros a percebem. Mas ficar se esforçando apenas para encontrar apreciação aos olhos dos outros é algo elevado e saudável para o ser humano? É isto que significa construir um bom nome, algo que está acima das outras qualidades?

A resposta está em um incrível ensinamento do Talmud (Yoma 35b), que afirma que o comprometimento com o estudo de Torá do grande sábio Hilel, que vivia nas mais severas condições de miséria, obriga todos aqueles que são pobres a estudarem Torá. Já o estudo de Torá do Rav Elazar ben Charsum, o homem mais rico da época, obriga todos aqueles que são milionários a estudarem Torá de uma forma fixa e séria, apesar das preocupações com os negócios. E Yossef HaTzadik, cuja beleza e poder chamavam a atenção de toda as mulheres no Egito, ao demonstrar um incrível poder de autocontrole e retidão ao recusar as insistentes investidas da esposa do Potifar, uma mulher extremamente atraente, obriga todos a controlarem seus impulsos e demonstrarem autocontrole mesmo nas situações mais difíceis.

Mas qual é a mensagem transmitida por este ensinamento do Talmud? Já não estamos obrigados a fixar nosso tempo de estudo de Torá diariamente, independente do nosso status financeiro? Não temos de qualquer maneira a obrigação de controlar os nossos impulsos e evitar qualquer tipo de prazer proibido na vida? Então por que o Talmud traz estes três exemplos como se fossem a fonte da nossa obrigação?

Existe algo interessante na psicologia do ser humano. As pessoas normalmente estão cientes de suas responsabilidades e obrigações na vida, porém também estão cientes de que há situações que estão além do seu controle e que, nestes casos, elas não podem ser responsabilizadas por seus atos. Este conceito de "força maior", isto é, se deparar com situações que estão fora do nosso controle, acaba tornando-se uma desculpa para os nossos comportamentos. Por exemplo, quando a pessoa tem trabalho demais no escritório e se sente impedida de ir para a sinagoga estudar Torá, ou quando a pessoa está presa em uma situação da qual ela não consegue se libertar, ela se sente completamente isenta de responsabilidades, pois considera que nestas condições todos os seus atos são justificáveis.

Porém, como medimos as situações de dificuldade para decidirmos se são realmente situações de "força maior" ou não? Não fazemos isso de acordo com os nossos próprios acertos e erros, e sim comparando com os acertos e erros dos outros. Baseados em padrões criados por outras pessoas nós determinamos se certa situação com a qual nos confrontamos está além do nosso controle. Se nós vemos outros tropeçando em certas dificuldades que nós também estamos enfrentando, sentimos imediatamente um alívio, pois consideramos que é algo que está além da nossa capacidade de controle.

Este é o grande louvor que o Talmud traz para os três grandes Tzadikim citados, Hilel, Rav Elazar e Yossef. Qualquer pobre poderia argumentar que suas dificuldades financeiras são uma "força maior" que o isentam de suas obrigações no estudo da Torá e em outras Mitzvót. O mesmo ocorreria para pessoas muito ricas ou muito bonitas. Mas a grande realização destes três Tzadikim foi que eles estabeleceram novos padrões, e assim elevaram nossos modelos de comparação, ensinando que mesmo em situações muito difíceis ainda somos plenamente responsáveis por nossos atos. Eles se enxergaram como sendo independentes dos padrões estabelecidos pelos que estavam em sua volta. Foi justamente por isso que conseguiram transcender os padrões e estabelecer novos limites. Eles demonstraram que é humanamente possível atingir estes limites, e que tudo depende do nosso próprio esforço. Depois das conquistas deles, colocar a culpa na quantidade de trabalho ou nas dificuldades financeiras tornaram-se apenas desculpas.

É justamente esta habilidade de criar uma nova realidade, através da qual as pessoas precisam comparar os seus esforços com os esforços das pessoas que alcançaram níveis mais altos, é o que os nossos sábios chamam de "bom nome". Na realidade o bom nome não é uma quarta coroa, e sim o título conferido àqueles que estabeleceram novos padrões de excelência nas três coroas anteriores. É por isso que a Mishná diz que a "quarta" coroa está acima das três anteriores, pois é a coroa daqueles que superaram os limites e se tornaram novos modelos do povo judeu.

Isto também nos remete diretamente à Festa de Chánuka, simbolizada pela Menorá. O clima na época da dominação grega era de tristeza e submissão. Mas os Chashmonaim, um pequeno grupo de Cohanim, se levantaram com coragem e enfrentaram o poderoso exército grego. Eles também decidiriam que não queriam acender a Menorá com óleo impuro, apesar de ser permitido pela Halachá (Lei). Através destes esforços eles definiram novos padrões de pureza e de "Messirut Nefesh" (comprometimento com os valores judaicos, independente do custo). Por isso o conceito de "Shem" (nome) é encontrado em vários símbolos de Chánuka: no "Shemen" (óleo), na quantidade de dias que o milagre durou (Shemone=oito), nos Cohanim que ajudaram a libertar o povo judeu (Chashemonaim), e finalmente na Menorá, que carrega a coroa do bom nome.

Podemos nos contentar em ficar dentro dos limites estabelecidos pelos outros à nossa volta, ou podemos decidir que queremos ultrapassar estes limites. No judaísmo o número 7 representa o natural, enquanto o número 8 representa o sobrenatural. É por isso que Chánuka representa o potencial do povo judeu de transcender. Que possamos utilizar a força espiritual de Chánuka para vencer nossas dificuldades, derrotar o comodismo e superar os nossos limites.
SHABAT SHALOM e CHÁNUKA SAMEACH
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 41:1-44:17, 1 Rs. 3:15-4:1

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

RASO OU PROFUNDO? - CHÁNUKA II 5775

"Certa vez um professor de moral e ética de uma escola tradicional foi pego traindo a esposa, um ato completamente imoral. Foi um grande choque saber que justamente aquele que ensinava moral e ética se comportava de maneira tão vergonhosa. O professor foi chamado pelo diretor da escola para dar explicações, mas ao contrário do que era esperado, ele não pediu desculpas e nem se envergonhou do seu comportamento imoral. Ele ainda quis se justificar:

- Por acaso o professor de matemática precisa ser um triângulo? Ou o professor de biologia precisa ser uma batata? Então por que eu, só por dar aula de moral e ética, preciso ser uma pessoa moral e ética?"

Infelizmente este comportamento é um dos legados da superficialidade da cultura helenista. Quando Aristóteles, o grande filósofo grego, certa vez foi pego cometendo um ato imoral, ele foi questionado por seus alunos se aquilo não era contraditório com seus ensinamentos. Sem se abalar, ele explicou: "Naquele momento em que eu estava fazendo aquele ato, eu não era o Aristóteles".
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Neste Shabat lemos a Parashá Miketz e continuamos comemorando a festa de Chánuka, que relembra a incrível vitória militar do povo judeu sobre o poderoso exército grego e o posterior milagre do óleo, que era suficiente para acender apenas um dia da Menorá que havia no Beit Hamikdash (Templo Sagrado), mas durou oito dias, tempo suficiente para que mais óleo puro fosse produzido. Inicialmente os Yevanim (gregos) vieram a Israel sem intenção de nos atacar militarmente, pois eles acreditavam que poderiam influenciar o povo judeu a abandonar a Torá e as Mitzvót através da ideologia "iluminada" do Helenismo, que eles consideravam como sendo uma forma superior de vida. Porém, como a maioria do povo judeu resistiu às suas tentativas de assimilação, os gregos se tornaram hostis e começaram a obrigar os judeus a abandonarem a Torá. Um pequeno grupo de judeus iniciou uma rebelião e conseguiu expulsar os gregos. A partir daí nossos sábios decidiram estabelecer uma comemoração permanente desta vitória.

Mas sabemos que no judaísmo as festas não são apenas recordações de algo que aconteceu no passado. Por que continuar comemorando um evento que ocorreu há mais de 2 mil anos? Explica o Rav Yehonasan Gefen que para aprender lições atuais do conflito entre os judeus e os gregos, devemos entender com maior profundidade exatamente o que estava em jogo, e para isso precisamos voltar à descrição que a Torá faz dos antepassados que deram origem aos judeus e aos gregos. Noach (Noé) tinha três filhos: Shem, que deu origem ao povo judeu; Yefet, que deu origem aos gregos; e Cham. A Torá descreve um incidente envolvendo os três filhos de Noach que traria consequências importantes para seus descendentes. Logo após o dilúvio, Noach desceu da arca, se embebedou e ficou nu em sua tenda. Cham, o filho mais novo, não queria dividir a herança de seu pai com mais irmãos, então aproveitou para castrar seu pai, evitando que ele tivesse mais filhos. Quando Shem e Yefet escutaram que Noach estava nu na sua tenda, foram imediatamente cobri-lo para diminuir sua vergonha, e ambos foram recompensados por este bom ato. Os descendentes de Shem foram recompensados com a Mitzvá de vestir uma roupa contendo "Tzitzit", enquanto os descendentes de Yefet foram recompensados com um enterro digno dos corpos de seus soldados após as batalhas. Mas por que esta diferença, se aparentemente o ato foi o mesmo? Por que os descendentes de Shem meritaram uma nova Mitzvá, que é uma oportunidade para crescer em espiritualidade, enquanto a recompensa de Yefet foi apenas um benefício para o corpo?
Explica Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, que foi Shem quem iniciou o ato de cobrir seu pai, e somente depois Yefet se juntou a ele. Isto quer dizer que Shem teve uma incrível agilidade e preocupação com a vergonha de se pai, enquanto Yefet apenas seguiu o que seu irmão já tinha começado a fazer. Além disso, há outra enorme diferença entre os dois atos: a Kavaná (intenção) de cada um deles. Quando Shem viu a nudez de seu pai exposta, ele entendeu que aquilo era um enorme problema espiritual, associado à falta de Tzniut (recato), e por isso teve a reação imediata de cobrir seu pai para tirá-lo daquele estado de vergonha. Já Yefet não reagiu imediatamente, pois não considerava a nudez um problema. Ele somente tomou uma atitude quando percebeu que o corpo do seu pai havia sido mutilado, "estragando" sua perfeição natural e necessitando ser coberto por causa da vergonha de seu corpo não estar intacto. Como Shem viu o ato de cobrir seu pai como algo que podia trazer dignidade ao ser humano, então ele foi recompensando com a mais digna forma de vestimenta: o Tzitzit, que carrega o "emblema" de D'us. Já Yefet, que somente viu problemas na exposição de um corpo nu por causa de sua mutilação, meritou que os corpos de seus descendentes não ficariam abandonados ao apodrecimento nos campos de batalha, e sim seriam honrados através de um enterro digno.

Imediatamente após este incidente, Noach fez uma importante afirmação: "D'us dará beleza para Yefet, e ele habitará nas tendas de Shem" (Bereshit 9:27). Os comentaristas explicam que Yefet recebeu a Brachá (Benção) do tipo mais superficial de beleza. Mas para que este tipo de beleza seja utilizada da maneira correta, ela deve estar na "tenda de Shem", isto é, deve ser utilizada para aumentar a espiritualidade do ser humano. Há um interessante ensinamento do Talmud (Meguila 9b), baseado no versículo mencionado acima, que ensina que um Sefer Torá somente pode ser escrito em duas línguas: hebraico e grego. O Talmud está dando um exemplo de como a beleza de Yefet, quando utilizada na tenda de Shem, pode produzir uma linda combinação.

Por que Noach deu esta Brachá para Shem e Yefet logo depois do incidente ocorrido? Apesar de utilizar uma lógica equivocada, da beleza e perfeição do corpo, Yefet se juntou ao bom ato de seu irmão Shem, que fazia o ato com as intenções espirituais corretas. Apesar de Yefet não ter a intenção correta, junto com Shem ele fez o ato correto, tirando a vergonha de seu pai. E esta foi a Brachá, de que se Yefet estivesse continuamente junto com Shem, aprenderia a fazer os atos corretos e com as intenções corretas. Ele continuaria a apreciar a perfeição do corpo e sua beleza, mas canalizaria isso para o lado espiritual, aprofundando algo que era apenas superficial.

Porém, a Brachá de Noach foi bem clara: isto somente se aplica quando Yefet se esforça para se aprofundar na sua apreciação da beleza e conectá-la com a espiritualidade de Shem. Mas quando Yefet rejeita este aprofundamento, o resultado é que a beleza rapidamente se degrada e se transforma em algo apenas físico e superficial. Foi o que ocorreu com os gregos, que enfatizaram apenas a beleza física do ser humano, e acabaram praticando atos grosseiros de indecência e imoralidade.

Explica o Rav Chaim Friedlander (1923 - Israel, 1986) que há outro aspecto que ressalta a superficialidade dos gregos. Também na área da sabedoria os gregos eram muito superficiais, isto é, o que eles sabiam não influenciava no que eles eram, como se justificou Aristóteles ao deixar claro que os ensinamentos de sua sabedoria não deveriam obrigatoriamente se refletir em seus atos cotidianos. Por outro lado, o judaísmo representa justamente o contrário desta superficialidade grega. A Torá nos obriga a aplicarmos suas lições à nossa parte mais interior. Uma pessoa que estuda Torá e não a aplica em seus atos cotidianos não é considerado um verdadeiro estudioso de Torá. Estas diferenças entre os gregos e o povo judeu causaram este grande antagonismo entre as duas nações, e ao invés de apreciar a profundidade dos ensinamentos da Torá, os gregos reagiram com inveja e fizeram enormes esforços para destruir esta forma de sabedoria "rival". A superficialidade dos gregos pode ser percebida até mesmo nas letras de seu nome. "Yavan" é escrito com as letras "yud", "vav" e "nun sofit", sendo as três letras finas e retas, sem nenhuma "espessura", demonstrando que Yavan era uma nação superficial.

Portanto, esta guerra entre os gregos e o povo judeu não foi apenas uma batalha militar entre duas nações lutando pelo poder, mas sim uma batalha espiritual, um choque entre duas ideologias: a superficialidade de Yavan contra a espiritualidade profunda de Israel. Esta foi a primeira guerra ideológica da história da humanidade, um choque entre duas perspectivas de vida que não podiam coexistir de forma pacífica. Por isso todos os anos recordamos o conflito judaico-helenista, que aconteceu há mais de 2 mil anos atrás, pois apesar de termos sido vitoriosos naquela batalha, a luta continua até os nossos dias.

A Cultura Ocidental foi fortemente influenciada pela forma de pensar dos gregos, em especial a superficialidade, a falta de espiritualidade e a busca pela beleza do material sem nenhuma profundidade. Esta guerra existe inclusive dentre aqueles que estão conectados com a Torá. Por exemplo, muitas pessoas julgam os outros mais pelas roupas que usam do que pelos seus traços de caráter, criando rótulos de "kasher" ou "não kasher" sem nem mesmo conhecer as pessoas. Mesmo quando julgamos a nós mesmos, sentimos que usar roupas "religiosas" é um grande indicador do nosso sucesso espiritual, e não fazemos uma real reflexão sobre o nosso comprometimento com a Torá e com as Mitzvót. Muitas vezes nos preocupamos mais em como os outros nos veem rezando do que com a nossa real conexão com D'us no momento da Tefilá. Estes são apenas alguns poucos exemplos que demonstram o enorme risco de que toda a Torá que aprendemos se mantenha apenas em um nível superficial, sem conseguir penetrar em nossos corações e influenciar nossos traços de caráter.

Vemos que no mundo não judaico, e também no mundo judaico, ainda é muito forte a influência da ideologia grega. Portanto, a guerra contra os gregos não é algo do passado, é algo do presente, é uma luta que cada um de nós deve lutar. A luta contra a superficialidade, contra os rótulos que criamos em nossas cabeças, contra a exaltação da beleza física sem nenhum tipo de profundidade. Quando acendemos cada uma das velas de Chánuka, é uma nova chance de abrirmos nossos corações, para que todo o nosso conhecimento de Torá possa penetrar e nos preencher, e não permanecer dentro de nós apenas de maneira superficial.

Que em Chánuka possamos não apenas vestir roupas "religiosas", mas possamos também meritar um coração "religioso", que não rotula as pessoas e que absorve e transforma em bons atos todos os nossos conhecimentos de Torá.

SHABAT SHALOM e CHÁNUKA SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

FAZENDO O IMPOSSÍVEL - PARASHÁ MIKETZ E CHÁNUKA II 5773

"Um senhor idoso chamado Yossi, muito devoto e doce, estava no Campo de Concentração de Aushwitz. Yossi estava determinado a não deixar que os nazistas vencessem seu orgulho judaico. Ele insistia em jejuar no dia de Yom Kipur, mesmo que isso significava não comer a pequena porção de comida que os prisioneiros recebiam diariamente. Todos os dias, enquanto caminhava pelo Campo de Concentração executando pesados trabalhos braçais, seus lábios proferiam silenciosamente as palavras do Livro de Tehilim (Salmos). Yossi media seus dias pelo número de vezes que completava o Livro de Tehilim.

Quando chegou Chánuka, Yossi estava determinado a acender um Chanukiá. Mas parecia ser algo impossível. Como conseguir óleo, pavios e fósforos no meio do Campo de Concentração, onde nem mesmo comida eles recebiam? Mas Yossi sabia que não tinha escolha. Ele não deixaria o judaísmo morrer, ele nunca aceitaria a vitória dos nazistas. Com muito esforço ele conseguiu um pouco de óleo vegetal, subornando um dos guardas do Campo de Concentração com suas botas de inverno. Subornou outro guarda para conseguir os fósforos e, com alguns fios da sua roupa, fez um pavio. Na primeira noite de Chánuka, Yossi acendeu sua vela caseira, e seu rosto brilhava refletindo o brilho da vela.

Poucos minutos depois a porta se abriu abruptamente e alguns soldados nazistas entraram no dormitório onde Yossi havia acendido a vela. Eles exigiram saber quem tinha acendido a vela e ameaçaram matar todos os prisioneiros do dormitório se não fosse revelada a identidade do "culpado". Naquele momento, embora curvado pela idade e pela dor do trabalho escravo pesado, Yossi encheu o peito, deu um passo à frente e disse, com orgulho e coragem: "Fui eu que acendi a vela".

As pessoas que testemunharam a cena dizem que jamais viram alguém demonstrar tanta força e coragem quanto Yossi demonstrou naquele momento. Imediatamente os assassinos arrastaram-no para fora e, sem nenhuma misericórdia, o mataram. Mas os nazistas esqueceram de apagar a vela que Yossi havia acendido. E todos os judeus que estavam presentes afirmam que o milagre de Chánuka voltou a se repetir naqueles dias, pois aquela pequena vela, feita de um pouco de óleo vegetal e fios de uma roupa, ardeu durante os oito dias de Chánuka"

Esta não é apenas a história real de um judeu corajoso chamado Yossi. Esta é a história do povo judeu.


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Nesta semana lemos a Parashá Miketz, que continua descrevendo a história de Yossef no Egito. Após ter ficado 12 anos preso, acusado injustamente de ter atacado a esposa de Potifar, um dos ministros egípcios, Yossef foi libertado da prisão para decifrar o enigmático sonho do Faraó. Ele tornou-se vice-rei do Egito ao entender que o sonho do Faraó era uma mensagem profética, sobre os anos de fome que sucederiam os sete anos de abundância. Yossef aconselhou o Faraó a como se preparar para os anos de fome e acabou salvando sua família, pois a terra de Israel também foi castigada pela fome. Como não havia comida, os irmãos de Yossef foram obrigados a ir ao Egito buscar mantimentos. Yossef, que havia sido vendido muito jovem, reconheceu seus irmãos, mas não foi reconhecido por eles. Ele aproveitou a oportunidade para testar se eles estavam arrependidos por sua venda e pressionou seus irmãos, causando uma série de situações desconfortáveis, para ver como eles reagiriam.

O plano final de Yossef foi esconder na sacola de Biniamin, o outro filho favorito de Yaacov, um cálice de prata. Após a partida deles, Yossef os perseguiu e os acusou de roubo, informando que aquele que tivesse roubado o cálice viraria escravo. O cálice foi encontrado na sacola de Biniamin, para o desespero de seus irmãos. Liderados por Yehuda, todos os irmãos se ofereceram para virar escravos, mas Yossef recusou, dizendo que seria uma abominação castigar inocentes. Apenas Biniamin deveria permanecer como escravo.

O desfecho desta história ocorre apenas na Parashá da semana seguinte, Vayigash. Yehuda, que até aquele momento havia falado com Yossef de maneira delicada e através de um tradutor, se dirigiu a ele de maneira mais dura e direta. Yehuda enfrentou Yossef com duras palavras e ameaças, e se dispôs a ficar como escravo no lugar de Biniamin. Então Yossef, não aguentando mais, se revelou para seus irmãos.

Deste episódio ficam duas perguntas interessantes. Yehudá sabia que Biniamin nunca roubaria nada, que aquela era uma falsa acusação, um pretexto para condená-lo injustamente. Então por que ele não se levantou imediatamente contra esta injustiça? Explicam nossos sábios que ele sabia que era impossível lutar, com um exército de 10 pessoas, contra o Egito inteiro, a maior potência militar da época. Por isso, a única solução lógica era se submeter ao Faraó e se tornar seu escravo. Porém, se este era o motivo, por que depois Yehuda enfrentou Yossef, ato que significava enfrentar o Egito inteiro? O que mudou depois da recusa de Yossef? Além disso, por que a Parashá Miketz sempre coincide com a festa de Chánuka?

A resposta é que, após a recusa de Yossef em libertar Biniamin, os irmãos teriam que voltar para casa e contar ao seu pai que seu outro filho querido também estava perdido para sempre. Isto era ainda mais pesado para Yehuda, que havia ficado responsável por Biniamin e havia garantido ao seu velho pai que o traria de volta são e salvo. Yehuda havia visto Yaacov passar 22 anos em luto por Yossef, ele havia escutado de Yaacov que se Biniamin não voltasse ele morreria de desgosto. Portanto, Yehuda não estava pronto para encarar seu pai com aquela terrível notícia sobre a prisão de Biniamin.

Explica o Rav Noach Weinberg zt"l que deste episódio aprendemos algo impressionante para nossas vidas: quando uma pessoa sabe que não tem outra opção, ela encontra forças para fazer o impossível. Lutar contra o Egito era impossível, mas como era a única alternativa, Yehuda juntou as forças para conseguir. Eram apenas 10 homens contra um exército inteiro, mas como não havia outra possibilidade, Yehuda aceitou o desafio.

É por isso que a Parashá desta semana está sempre conectada com Chánuka. Os gregos, a maior potência militar de sua época, governavam sobre o povo judeu em Israel. Encorajados por judeus que aderiram à cultura helenista, os gregos fizeram vários decretos proibindo a prática do judaísmo. Eles decretaram que os judeus idolatrassem os deuses gregos e ameaçaram de morte aqueles que não obedecessem. Muitos judeus preferiram dar suas vidas a se render aos gregos.

Quando os gregos chegaram a uma cidade chamada Modiim, onde viviam Matitiahu e seus filhos, Cohanim (sacerdotes) da família dos Chashmonaim, as pessoas estavam preparadas para morrer e não fazer idolatria. Mas um judeu, diante de todos, pegou um porco e sacrificou-o diante de um altar de idolatria. Naquele momento, Matitiahu e seus filhos se rebelaram contra os gregos e mataram toda a legião que havia entrado na cidade. Então eles fugiram para as montanhas e, utilizando o sistema de guerrilhas, finalmente conseguiram expulsar os gregos de Israel.

Mas se eles tinham a força para se revoltar contra o exército grego, por que não fizeram isto antes? Por que eles estavam preparados para entregar passivamente suas vidas quando poderiam ter lutado desde o princípio? Pois para um pequeno grupo de camponeses, destreinados e mal equipados, lutar contra um exército bem treinado e armado era impossível. Seria melhor morrer uma morte digna, santificando o nome de D'us, do que lutar contra uma força esmagadora. Então o que mudou? Quando Matitiahu e seus filhos viram um judeu se rendendo diante dos gregos, disposto a fazer idolatria em público, eles perceberam que os gregos poderiam ter êxito em destruir o judaísmo e quebrar o espírito dos judeus. Ver a Torá e os judeus sendo destruídos pelos gregos era algo que Matitiahu e seus filhos não podiam suportar. Diante de uma alternativa inaceitável, eles não tiveram outra opção a não ser fazer o impossível. E, ajudados por D'us, eles conseguiram expulsar os gregos e retomar os serviços do Beit Hamikdash (Templo Sagrado).
A mesma lição precisamos aplicar para os nossos dias. Choramos pelos judeus que morreram no Holocausto, mas esquecemos de chorar pelos judeus que estão sendo destruídos diariamente pela assimilação. Não podemos aceitar que mais de 6 milhões de judeus já se assimilaram e se desconectaram do judaísmo só nos Estados Unidos, desde 1945 até agora. Precisamos encontrar a força para lutar contra o "impossível" e trazer o nosso povo de volta aos caminhos da Torá. Se decidirmos com toda a nossa vontade, certamente D'us nos ajudará, da mesma maneira que ajudou os judeus na época dos Chashmonaim, na época onde o impossível tornou-se possível.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Gn. 41:1-44:17, Zc 2:14-4:7, Mt. 27:15-46 (Shabat Chanucá)