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sábado, 31 de outubro de 2015

QUANTO VALE UM BOM PENSAMENTO? - PARASHAT VAIERÁ 5776

"Há muitos anos, um rabino certa vez entrou em uma pequena loja de Tel Aviv e viu que havia dois jovens, vestidos com roupas de alunos de Yeshivá, atendendo clientes. O homem descobriu que os dois rapazes eram filhos do dono da loja, e como estavam de férias, aproveitavam para ajudar o pai. Eram extremamente educados e responsáveis, e o comportamento deles chamou a atenção do rabino. O rabino perguntou ao pai dos rapazes:

- Desculpe a curiosidade, mas que bom ato você fez para ter o mérito de ter filhos assim tão maravilhosos?

O homem respondeu que não se lembrava de nada especial, porém o rabino insistiu, dizendo que era impossível que ele tivesse filhos tão especiais sem nenhum mérito. O homem ficou pensativo por alguns instantes e depois disse:

- Lembrei-me de algo, mas acho que foi um ato pequeno. Quando eu era jovem e vivia na Rússia, certa vez consegui juntar uma quantia um pouco maior de dinheiro para Tzedaká. Perguntei para o rabino da cidade o que fazer com aquela soma, e ele me falou que havia dois estudantes que estavam começando a se destacar no estudo da Torá, e que ele gostaria de mandá-los para a Yeshivá de Slobodka, na Lituânia, onde eles poderiam crescer muito mais. Aquele dinheiro seria muito importante para eles se manterem lá por algum tempo e poderem se dedicar integralmente aos estudos. Então eu dei para o rabino o dinheiro, e depois escutei que os rapazes realmente tiveram sucesso nos estudos.

- Que interessante - falou o rabino - Mas você se lembra do nome dos dois rapazes que você ajudou?

- Os nomes eram Yaacov e Aharon. Se não me engano, as famílias eram Kamenetzki e Kotler..."

Simplesmente aquele homem havia ajudado dois jovens estudantes de Torá a se transformarem em dois dos maiores líderes espirituais da geração passada, o Rav Yaacov Kamenetzki zt"l e o Rav Aharon Kotler zt"l. Pequenos bons atos e boas intenções podem trazer para nós mesmos, e para todo o povo judeu, muitos bons frutos (História Real). 

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Nesta semana a Parashat Vaierá continua descrevendo os 10 testes de Avraham, até chegar ao teste mais difícil, a "Akeidat Itzchak", no qual Avraham teve que controlar suas emoções ao nível de estar pronto a sacrificar seu próprio filho. No final, apesar de toda a preparação de Avraham, o sacrifício não ocorreu, como está escrito: "Avraham construiu um altar, arrumou as madeiras, amarrou seu filho Itzchak e colocou-o sobre o altar... E Avraham estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar seu filho. E um anjo de D'us chamou-o dos céus... Então ele disse: "Não estenda sua mão contra o rapaz, não faça nada a ele, pois agora eu sei que você tem temor a D'us" (Bereshit 22:9-12).

Porém, destes versículos surge uma pergunta: por que o anjo repetiu o comando a Avraham? Se ele já havia dito "não estenda sua mão contra o rapaz", por que acrescentou "não faça nada a ele"? Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que quando o anjo pediu a Avraham para que parasse, Avraham respondeu: "Então me deixe ao menos fazer um pequeno corte no meu filho Itzchak, para que minha vinda até aqui não tenha sido em vão". É por isso que o anjo acrescentou: "Não faça nada a ele", isto é, não faça nem um pequeno corte. Neste momento o anjo exclamou: "Agora eu sei que você tem temor a D'us", pois a reação de qualquer pessoa, ao receber o aviso de que não precisava mais sacrificar seu filho, seria pular de alegria. Mas Avraham estava mais preocupado com o comando de D'us do que com suas próprias emoções. Por isso o anjo declarou como era incrível o temor a D'us de Avraham.

Mas o que exatamente incomodou Avraham, que o levou a pedir ao anjo a permissão de fazer ao menos um pequeno corte em seu filho Itzchak? Responde o Rav Yechiel Tauber que todas as vezes que fazemos uma Mitzvá, recitamos uma Brachá imediatamente antes do seu cumprimento. Por exemplo, antes do acendimento das velas de Shabat recitamos "Lehadlik Ner Shel Shabat". Se Avraham estava sacrificando seu filho para cumprir um comando de D'us, e já estava com a faca na mão, então certamente já havia pronunciado a Brachá referente à oferenda de sacrifícios. E se o anjo interrompeu-o no meio, significa que Avraham pronunciou a Brachá mas não conseguiu finalizar o ato. Avraham tinha tanto temor a D'us que ficou desesperado com a possibilidade de ter feito a transgressão de pronunciar uma Brachá em vão. Por isso Avraham pediu para pelo menos fazer um pequeno corte em seu filho, para que a Brachá pudesse recair sobre algo e não fosse em vão. Mas se realmente havia o problema de uma Brachá em vão, então por que o anjo não salvou Avraham da transgressão, permitindo-o de fazer um pequeno corte em seu filho? A recompensa desta incrível Mitzvá de Avraham, de estar disposto a sacrificar seu próprio filho, foi uma transgressão?

Existe um conceito transmitido pelos nossos sábios de que todo aquele que morre "Al Kidush Hashem" (santificando o Nome de D'us) tem o mérito de ir diretamente para o Olam Habá (Mundo Vindouro). Algumas gerações do povo judeu foram confrontadas com a escolha de se converter para outra religião ou morrer, e muitos conseguiram vencer o teste. Isto também se aplica a um judeu que morre em um atentado terrorista, pois ele morreu pelo simples fato de ser judeu, e isto santifica o Nome de D'us.

Porém, sabemos que as Mitzvót precisam ser feitas com "Kavaná" (intenção). Alguém que cumpre uma Mitzvá "sem querer", sem saber que a está cumprindo, certamente não receberá recompensa por isso. Mas aparentemente este conceito não se aplica a todos os que morrem "Al Kidush Hashem". Por exemplo, nos casos em que terroristas suicidas entram em um ônibus lotado e matam muitos inocentes, todos os que faleceram estão incluídos entre os que santificaram o nome de D'us. Porém, quantos deles tinham realmente intenção de morrer em nome de D'us? Entendemos o mérito das pessoas que na Inquisição deram suas vidas por escolha, mas como isto se aplica àqueles que morreram em um atentado sem nenhuma intenção de dar suas vidas por D'us?

Explica o Rav Ezriel Tauber que a resposta está em um incrível conceito ensinado pelo Talmud (Kidushin 40a): "D'us junta uma boa intenção a um bom ato". Isto significa que, se uma pessoa tem boas intenções mas as circunstâncias não permitem que ela faça o que pretendia, então D'us pega esta boa intenção e conecta com outro ato para que ela possa receber o mérito. Na prática como isto funciona? Muitas vezes temos boas intenções, mas não conseguimos realizá-las por motivos alheios à nossa vontade. Por exemplo, uma pessoa vai visitar um doente no hospital, mas seu carro quebra no meio do caminho. Outras vezes fazemos bons atos, mas sem nenhuma intenção. Por exemplo, quando fazemos a nossa Tefilá (reza) pensando nos negócios ou planejando as férias. D'us, em Sua misericórdia infinita, pega aquela boa intenção que não estava associada a nenhum ato e conecta com algum ato que ficou sem a intenção apropriada, dando méritos para a pessoa.

Isto ocorre também a nível comunitário. O povo judeu inteiro está conectado entre si, como se fosse uma única entidade. Há uma conexão espiritual entre todos os judeus do mundo, fazendo com que os méritos dos bons atos de cada judeu também beneficiem outros judeus. Por exemplo, quando um judeu faz uma incrível doação de milhões de reais para a construção de uma sinagoga, mas exige que seu nome apareça com muito destaque, demonstra estar procurando apenas reconhecimento e honra pelo seu ato. Neste caso temos um incrível ato de doação, mas com uma intenção inadequada. Do outro lado do mundo, um judeu muito pobre está para comer seu prato de comida, que é tudo o que ele tem na vida, quando chega outra pessoa que não tem o que comer. Em um incrível ato de doação, o homem pobre divide seu prato com o outro pobre esfomeado. Neste caso foi feita uma doação pequena, de meio prato de comida, mas com uma intenção incrível, de alguém que doou metade de tudo o que tinha. Então D'us une os dois, o ato da doação da sinagoga com a intenção daquele que doou metade de tudo o que tinha, e o benefício de um grande ato com uma grande intenção vai para o povo judeu inteiro.

Com este incrível conceito espiritual podemos responder nosso questionamento. Quando Avraham foi sacrificar seu filho, ele tinha a intenção perfeita de cumprir a vontade de D'us, mesmo acima de suas próprias emoções. Cada pensamento, cada ato de preparação, cada palavra da Brachá que ele pronunciou antes de sacrificar seu filho não foram em vão. Eles ficaram guardados para sempre, para os seus descendentes. Avraham teve a intenção, mas no final faltou-lhe o ato. Então todo judeu que morre "Al Kidush Hashem", mesmo que não tenha nenhuma intenção, recebe aquela Brachá de Avraham, fazendo com que seu ato fique completo e sagrado. É como se o ato de Avraham, de sacrificar seu filho para D'us, tivesse realmente acontecido, mas com um lapso de tempo, durante toda a nossa história, se materializando em cada judeu que morre santificando o nome de D'us. Cada vez que um judeu dá a vida por D'us, é como se Itzchak estivesse sendo sacrificado por Avraham sobre o altar.

Aprendemos daqui o valor de cada bom ato, e mais do que isso, o valor de cada boa intenção. Podemos receber o benefício imediatamente, mas às vezes o mérito fica guardado para o futuro. Algumas vezes pode até mesmo beneficiar outras pessoas e não a nós mesmos. Um bom ato ou uma boa intenção nunca voltam vazios, sempre trazem consigo muita Brachá, para cada indivíduo ou para o povo judeu como um todo. A força dos bons atos e das boas intenções é tão grande que até hoje, quase 4 mil anos depois, ainda recebemos os benefícios dos atos de Avraham Avinu, que mesmo quando era submetido a difíceis testes, encontrava forças para cumprir a vontade de D'us. Da mesma maneira, se nos esforçarmos, nossos bons atos e intenções poderão iluminar o mundo inteiro.  

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn.18:1-22:24

sábado, 8 de novembro de 2014

ESFRIANDO A ÁGUA QUENTE - PARASHÁ VAIERÁ 5775


"Mesmo durante o rigoroso inverno europeu, o Rav Isroel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, ia sempre à Mikve da cidade de Radin, onde morava, na véspera do Shabat. Certa vez ele encontrou a pessoa que fazia a manutenção da Mikve e perguntou se a água já havia sido aquecida. O homem respondeu que sim, pois já havia vertido quase metade do conteúdo da caldeira de água quente na Mikve. O Chafetz Chaim então se preparou para mergulhar, mas quando encostou o pé na água, percebeu que estava muito gelada.

O Chafetz Chaim não entendeu o que estava acontecendo, pois certamente o homem não havia mentido para ele, mas a água estava gelada como se nenhuma quantidade de água quente tivesse sido acrescentada. Quando checou a temperatura da água da caldeira, entendeu qual era o problema: a água estava morna, quase fria. O problema não estava na Mikve, estava na caldeira, que não estava funcionando direito e não conseguia esquentar a água. Por isso, mesmo que a água da caldeira havia sido realmente jogada na Mikve, não havia contribuído para esquentá-la.

Durante o Shabat, o Chafetz Chaim refletiu sobre o ocorrido e aprendeu uma grande lição. Mesmo a água fervendo de uma caldeira consegue apenas deixar a água da Mikve morna. E se a própria água da caldeira estiver morna, ela não contribui para esquentar a Mikve, ao contrário, esta água que acaba se esfriando".

O Chafetz Chaim utilizava este conceito para ensinar o perigo de entrarmos em contato com pessoas em um nível espiritual mais baixo, pois corremos o grande risco de acabarmos sendo "esfriados".
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Na Parashá desta semana, Vaierá, a Torá continua nos descrevendo os difíceis testes pelos quais Avraham Avinu passou durante sua vida. Um dos grandes testes foi ter que expulsar de casa seu próprio filho. Durante muitos anos Avraham não conseguia ter filhos. Sara, vendo que não conseguia dar filhos para Avraham, sugeriu que ele se casasse com sua escrava, Hagar, e que tivesse filhos com ela, pois assim poderia ao menos participar da educação desta criança. Avraham escutou o pedido de sua esposa e se casou com Hagar, tendo com ela um filho, Ishmael. Somente alguns anos depois D'us teve misericórdia de Sara e também deu a ela um filho, Itzchak.

Porém, certa vez Sara viu algo que não a agradou: "E viu Sara o filho que Hagar, a egípcia, havia dado à luz para Avraham, zombando" (Bereshit 21:9). Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que a linguagem "messachek" (zombando) também é utilizada em outros lugares da Torá para se referir à idolatria, relações ilícitas e assassinato. Isto quer dizer que Sara viu Ishmael fazendo atos graves, que demonstravam que ele havia se corrompido e se desviado completamente. Sara então exigiu que Avraham expulsasse de casa sua esposa Hagar e seu filho Ishmael, para que Ishmael não se tornasse uma má influência para Itzchak. A ideia de expulsar seu filho desagradou a Avraham, mas D'us apareceu para ele e confirmou que isto era o correto a se fazer. Apesar da dificuldade do teste, Avraham conseguiu dominar suas emoções e cumprir a vontade de D'us.

Mas deste acontecimento surge uma grande pergunta: Avraham não percebeu que seu filho Ishmael havia se desviado do caminho? Ele não sabia que a convivência colocava em risco a educação e o futuro de Itzchak, seu herdeiro espiritual? Então por que a ideia de expulsar Ishmael lhe desagradou?

Respondem os nossos sábios que Avraham tinha plena consciência dos maus atos de Ishmael e os riscos que seus comportamentos inadequados causariam na educação de Itzchak. Porém, Avraham acreditava que o contrário poderia acontecer, isto é, que o bom comportamento de Itzchak poderia ajudar a endireitar Ishmael. Sara também conhecia os dois lados, mas ponderou e chegou à conclusão de que era muito mais provável que Itzchak fosse mal influenciado do que Ishmael fosse bem influenciado, e por isso decidiu expulsá-lo. D'us concordou com a ponderação de Sara.

Dizem nossos sábios que "Maassê Avót, Siman Lebanim" (os atos dos nossos antepassados são um sinal para nós). Explica o Chafetz Chaim que deste episódio aprendemos uma importante lição de como nos relacionar com pessoas espiritualmente mais baixas, que se comportam de uma maneira inadequada. A Torá está nos ensinando que devemos nos afastar delas, pois esta convivência certamente nos fará mal. Muitas vezes pensamos que não seremos afetados pelos maus atos dos outros, achamos que somos fortes e não seremos influenciados por comportamentos inadequados. Mas a verdade é que tudo o que vemos à nossa volta nos influencia, para o bem ou para o mal. E a repetição constante de más influências pode nos transformar em pessoas completamente diferentes. O problema é que, quando estamos dentro da influência, acabamos não percebemos a nossa própria transformação.

Este ensinamento é ressaltado em outro episódio da Parashá, quando D'us decidiu destruir as cidades de Sdóm (Sodoma) e Amorá (Gomocha), cidades que atingiram limites absurdos de maldade. E assim está descrita a destruição: "D'us fez chover enxofre e fogo sobre Sdóm e Amorá... Ele virou estas cidades de cabeça para baixo" (Bereshit 19:24,25). O que significa que D'us virou as cidades de cabeça para baixo?

Ensinam nossos sábios: "Raban Shimon bem Gamliel disse: o mundo se sustenta por três coisas: a justiça, a verdade e a paz" (Pirkei Avót 1:18). Apesar de a justiça ser um dos pilares que sustentam o mundo inteiro, Sdóm e Amorá literalmente inverteram a justiça e os caminhos corretos. O Talmud (Sanhedrin 109a) nos ensina que eles legislaram leis injustas, que prejudicavam os bons e protegiam os malvados. Por exemplo, havia Em Sdóm uma grave proibição de receber convidados ou ajudar os pobres, e a violação destas leis era punida de forma severa. Pelo fato de eles terem literalmente invertido a justiça, medida por medida D'us fez com que suas cidades, que se encontravam no topo de uma enorme rocha, virassem de cabeça para baixo e fossem destruídas.

Porém, por que as pessoas de Sdom e Amorá eram tão ruins? De onde vinha tanta maldade? O Talmud (Sanhedrin 109 a) nos dá uma incrível explicação, dizendo que tudo começou com uma grande Brachá (benção) de D'us, quando Ele deu aos habitantes de Sdóm e Amorá uma terra extremamente fértil, cheia de ouro e safiras. Os habitantes não eram pessoas ruins, mas começaram a pensar em maneiras de fazer com que pessoas de fora não viessem para se aproveitar das riquezas de lá. Eles fizeram leis abomináveis e contrataram juízes malvados que julgariam de acordo com estas leis e castigariam de forma dura todo aquele que as transgredissem, somente para afastaram possíveis novos moradores que quisessem vir para extrair o que a terra tinha de bom.

Portanto, em um primeiro momento estas leis não eram motivadas pela maldade, e sim como uma forma de proteger suas riquezas. Mas o que era apenas algo externo, com o passar do tempo começou a influenciar para o mal toda a população de Sdóm e Amorá. As pessoas acabaram se tornado realmente malvadas e cruéis. Quando Lót, o sobrinho de Avraham, recebeu convidados em sua casa, a cidade inteira veio tirar satisfação, desde os mais jovens até os mais velhos. A população estava inflamada, querendo "justiça". Pessoas que eram corretas e bondosas haviam se tornado agentes do mal, prontas a destruir e cometer as piores crueldades imagináveis. Rashi ressalta que não havia na cidade inteira nem mesmo um único habitante que era justo e correto. Esta é a força das influências internas sobre o nosso comportamento.

De Sdóm e Amorá aprendemos o quanto o costume nos transforma em pessoas diferentes. Não podemos pensar que estamos imunes às influências externas, pois somos criaturas sociais e absorvemos muito do ambiente à nossa volta. Algo abominável, quando repetido muitas vezes, vai sendo internalizado e se transformando em natureza, a ponto de acabarmos intelectualmente defendendo tal ideia após algum tempo. Ninguém está imune de sofrer influências externas, e por isso devemos escolher bem quem são as pessoas à nossa volta e quais são os valores da sociedade na qual escolhemos viver, como ensinam nossos sábios: "Nitai Haarbeli disse: Se afaste de um mau vizinho e não se associe a um homem perverso" (Pirkei Avót 1:7). Foi por isso que D'us concordou com o pedido de Sara. Este era o correto a se fazer, pois certamente Itzchak, que era uma criança pura e correta, aprenderia com os maus atos de Ishmael e se desviaria do caminho. Ninguém está a salvo das más influências.

Precisamos tomar cuidado, pois o "mau vizinho" descrito pelos nossos sábios não são apenas pessoas de carne e osso, mas tudo o que permitimos que entre em nossas casas. Quando abrimos nosso lar às ideias "estranhas" ao judaísmo, acabamos nos acostumando mesmo com coisas que há pouco tempo achávamos abomináveis. Infelizmente vivemos em uma sociedade cujos valores são cada vez mais corrompidos, e se não tivermos uma constante referência do que é o correto, podemos facilmente cair. O perigo não é apenas o quanto as más influências afetam nossos filhos, mas também o quanto elas afetam a cada um de nós. Certamente os habitantes de Sdóm e Amorá achavam que eles estavam corretos. Eles caiam pouco a  pouco, mas não percebiam. Como a água morna jogada na piscina gelada, eles iam perdendo um pouco mais de "calor" a cada dia. Isto pode acontecer a cada um de nós, mas acontece em especial com aqueles que acham que estão acima de qualquer influência.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FAZENDO CÁLCULOS EQUIVOCADOS - PARASHÁ VAIERÁ 5773

 
"Adriano e Gustavo, dois grandes amigos, decidiram participar de uma tradicional competição de natação que era realizada no principal lago da cidade onde moravam. Enquanto Adriano investiu muito tempo para aprender e praticar as regras fundamentais da natação, Gustavo não se interessou em aprender nada, muito menos em praticar.

Chegou o esperado dia da competição. Adriano entrou na água com confiança e segurança. Já experiente nas regras da natação, manteve seu corpo plano sobre a água. As mãos estavam em formato de concha, puxando o máximo de água a cada braçada. Os pés, movimentando-se com firmeza e coordenação, o impulsionavam para frente com velocidade. Adriano sentia uma alegria especial enquanto se deslocava com tanta agilidade. Assim, com constância e tranquilidade, chegou à pequena ilha no meio do lago, o ponto de chegada, entre os primeiros colocados. Enquanto descansava ele refletiu e percebeu o quanto ter se focado no conhecimento e na prática das regras o havia ajudado a atingir seu objetivo.

Já Gustavo não teve tanto sucesso. Ao contrário, sua participação na competição foi um grande fracasso. Ele entrou apressado na água, sem nenhuma preparação nem aquecimento, sentindo um enorme nervosismo desde o primeiro momento. Sem conhecer as regras básicas da natação, ao invés de nadar com tranquilidade e equilíbrio, Gustavo começou a chutar a água e a se debater, seus braços e pernas se movimentando de maneira aleatória. Sem nenhum objetivo em mente, ele começou a nadar em muitas direções. Rapidamente ele foi superado pela exaustão. A emoção de participar da competição foi substituída pelo terror de sentir que estava se afogando.

Enquanto Adriano recebia uma medalha de honra por ter completado a prova entre os primeiros e era muito aplaudido pelo público, que reconheceu seu esforço, Gustavo era retirado da água pelo salva-vidas, completamente humilhado, diante da multidão que apontava para ele e dava gargalhadas"

Muitas vezes queremos fugir das regras. Queremos nos sentir livres, fazer as coisas do nosso jeito, sem obrigações. Mas na verdade as regras não nos atrapalham, ao contrário, são elas que nos ajudam a chegar ao topo. Se fugirmos das regras, o mais provável é acabarmos afundando no fracasso.
 
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Na Parashá desta semana, Vaierá, D'us continuou testando Avraham Avinu. O décimo e mais difícil teste foi o pedido de D'us para que Avraham sacrificasse seu filho, como está escrito: "E Ele disse: Por favor, pegue seu filho, seu único, aquele que você ama, Yitzchak, e vá para a terra de Moriá; eleve-o ali como uma oferenda sobre uma das montanhas que Eu vou te dizer" (Bereshit 22:2).
Muitas vezes o teste de Avraham é entendido de maneira infantil, perdendo com isso muito do profundo ensinamento que nos transmite. Por isso, antes de tudo precisamos entender qual foi exatamente o último teste de Avraham. Será que foi apenas a dificuldade de vencer o amor pelo filho, ou será que este teste esconde uma luta interna de Avraham muito mais intensa?
Explicam os nossos sábios que o teste de Avraham não foi um teste emocional como aparenta. Por mais que Avraham amava muito Yitzchak, e um pai naturalmente arrisca sua própria vida para proteger a vida de seu filho, o teste não foi sentimental, pois Avraham chegou a um nível de entendimento intelectual de D'us tão profundo e completo que nunca deixaria seus sentimentos influenciarem na sua escolha de seguir a verdade. O teste de Avraham foi, na realidade, um teste intelectual muito difícil. Que teste foi este?
Na época de Avraham, uma das idolatrias mais comuns era chamada "Molech". A pessoa servia esta idolatria passando o próprio filho sobre uma fogueira e queimando-o vivo. Avraham levantou-se fortemente contra esta prática absurda de sacrificar o próprio filho para um deus. O que aconteceria se Avraham sacrificasse seu filho a pedido de D'us? Ele seria considerado um grande hipócrita e perderia a credibilidade. Toda a luta de Avraham para aproximar as pessoas de D'us e afastá-las da ideia estúpida de que o mundo era controlado por deuses de madeira e pedra perderia completamente a força e o sentido. Avraham poderia ter pensado que, por D'us, seria melhor ele não sacrificar seu filho Yitzchak.
Além disso, o Rambam (Maimônides) diz que Avraham investiu todo o seu intelecto, dos 3 aos 48 anos de idade, para entender D'us em todos os níveis possíveis para um ser humano. Ele pretendia dar continuidade a este trabalho espiritual através de seu filho Yitzchak. Ele queria que esta claridade atingisse toda a humanidade e que todos entendessem o conceito da unicidade de D'us. Mas se ele sacrificasse Yitzchak, quem daria continuidade ao seu trabalho espiritual, um investimento de uma vida inteira? Quem transmitiria ao mundo suas revelações sobre o monoteísmo? Não fazia sentido algum o que D'us estava pedindo, pois aparentemente ia contra o propósito da criação do mundo.
Portanto, o verdadeiro teste enfrentado por Avraham foi um teste intelectual, uma contradição no seu entendimento de D'us. E agora, o que seria melhor fazer: cumprir a ordem de D'us, mesmo que parecia completamente ilógica e ia contra tudo o que ele havia entendido até aquele momento, ou atender ao pedido de D'us sem questionamentos?
Para entender a dificuldade da escolha de Avraham, precisamos voltar um pouco no tempo, até Adam Harishon, o primeiro ser humano, que passou por um teste parecido. D'us havia dado para Adam apenas uma Mitzvá, e se ele tivesse passado pelo teste de escutar D'us, teria chegado à perfeição e todos os seus descendentes teriam nascido em um nível elevado. A ordem de D'us era para que ele não comesse do fruto do conhecimento do bem e do mal. Mas Adam comeu e despencou espiritualmente, causando que seus descendentes nascessem em um nível muito mais baixo. Por que Adam, que era elevado como um anjo, não escutou a ordem de D'us, que havia sido simples e direta?
Explicam nossos sábios que Adam escutou e entendeu a ordem de D'us, mas ao invés de cumpri-la, ele preferiu fazer cálculos. Confiando em sua própria sabedoria, Ele quis fazer melhor do que D'us havia pedido. Como Adam conhecia a força da Teshuvá (arrependimento), ele sabia do conceito espiritual de que uma pessoa que se arrepende por amor transforma seus erros em méritos. Por isso ele pretendia intencionalmente errar e ir contra a vontade de D'us, para depois se arrepender e transformar seu erro em mérito, chegando a um nível ainda mais alto do que chegaria antes do erro.
Aparentemente a ideia de Adam estava correta. Existe realmente o conceito de que se uma pessoa arrepende-se de seus erros e, por amor a D'us, corrige seus atos, neste caso suas transgressões são transformadas em méritos. Mas no caso de Adam isto não se aplicava. O Talmud explica que isto vale apenas para alguém que transgrediu por ter sido levado por seu mau instinto, mas uma pessoa que comete um erro e diz "vou pecar agora, mas não tem problema, pois depois D'us vai me perdoar", esta pessoa não merece o perdão. Foi este o erro de Adam: a lógica parecia boa, mas ele apenas esqueceu o pequeno detalhe de que estava indo contra a lógica do próprio Criador do mundo, que havia ordenado que ele não comesse do fruto proibido.
Qual foi a fonte do erro de Adam? Ele se considerou mais sábio do que D'us. Ele se achou no direito de fazer cálculos intelectuais para descumprir um pedido explícito do Criador. E as consequências foram trágicas para ele e para o resto da humanidade. Adam foi expulso do Gan Éden e dificultou o trabalho do ser humano de chegar à perfeição. Portanto, as consequências do seu erro são sentidas até os nossos dias.
Esta foi a semelhança do teste de Avraham com o teste de Adam Harishon. Quando D'us comandou Avraham a sacrificar seu filho, ele também poderia ter feito cálculos, poderia ter tentado fazer "melhor" do que D'us pediu, ele tinha motivos lógicos suficientes para isso. Mas Avraham venceu o teste, como afirma o próximo versículo: "E Avraham madrugou de manhã e selou seu jumento..." (Bereshit 22:3). Avraham não ficou dormindo até tarde, esperando D'us mudar de ideia. Ele madrugou e começou a fazer pessoalmente os preparativos, para cumprir a vontade de D'us o mais rápido possível.
Porém, o teste não terminou no momento em que Avraham decidiu fazer a vontade de D'us. Assim diz o próximo versículo: "No terceiro dia Avraham levantou os olhos e viu o lugar de longe" (Bereshit 22:4). Por que a Torá detalhou que o sacrifício aconteceria no terceiro dia, que diferença faz? D'us não queria que Avraham fizesse Sua vontade apenas por impulso. Se D'us pedisse para Avraham sacrificar seu filho imediatamente, teria sido mais fácil ele juntar suas forças e, no ímpeto, sacrificar seu filho. Mas D'us fez com que Avraham andasse por três dias, o tempo todo com a ideia na cabeça de que estava indo sacrificar seu próprio filho. Por três dias Avraham lutou contra seu próprio intelecto, e venceu. A conclusão da história é que Avraham cumpriu a vontade de D'us e tudo terminou bem, sem nenhuma contradição. A lógica de D'us se mostrou, obviamente, muito superior à lógica limitada de Avraham.
Podemos criticar Adam Harishon por ter caído no seu teste. Mas na realidade temos que perceber que esta é a fonte da maioria dos erros que nós cometemos. A falta de humildade nos leva a pensar que podemos ir contra a vontade de D'us e ainda assim ter sucesso. Ele nos entregou a Torá, um "manual de instruções" de como viver a vida, para que possamos errar menos e acertar o caminho correto. Para todas as atividades que fazemos na vida há um certo e um errado, e a Torá nos ensina o que fazer em cada situação. Mas apesar disso, jogamos o manual pela janela e preferimos viver de acordo com as nossas "certezas", mesmo que a experiência mostre que estamos indo cada vez mais para baixo. Desunião, desonestidade, violência e promiscuidade são, infelizmente, valores cada vez mais normais.
Um dos equipamentos imprescindíveis de mergulhadores profissionais é um relógio que mostra se ele está afundando ou subindo. Aparentemente este relógio não serve para nada, pois qualquer pessoa normal sabe, sem dificuldades, se está subindo ou descendo na água. A resposta é que por causa das altas pressões no fundo do mar, muitas vezes um mergulhador pode sentir um mal estar súbito chamado "embriaguez dos mergulhadores", no qual ele perde as referências de direção, como se tivesse ingerido uma grande quantidade de álcool. Isto pode ser fatal no fundo do mar, pois a pessoa pode afundar ao invés de subir, morrendo afogado. O relógio serve para a pessoa, neste momento em que está se sentindo desnorteada, saber se está afundando ou subindo. Assim também é a nossa Torá, um "equipamento" para utilizarmos em momentos como o que vivemos atualmente, onde tudo está confuso, para saber se estamos subindo ou afundando.
Por que Avraham é chamado de "Avinu" (Nosso pai)? Pois da mesma forma que um pai transmite para seus filhos a herança genética, Avraham nos transmitiu uma herança genética espiritual. Recebemos dele a força para vencer os testes que surgem em nossa vida. Recebemos dele o ensinamento de não fazer cálculos diante dos ensinamentos de D'us. Se foi D'us Quem nos comandou algo, não devemos questionar, pois somos limitados, somos insignificantes diante Dele. Seguindo o "manual", podemos nos tornar grandes vencedores, ao invés de terminar a corrida da vida afogados nas incertezas e dificuldades.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
Gn.18:1-22:24, 2Rs. 4:1-37, Lc.1:26-38, 24:36-53