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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A DIFÍCIL ARTE DE ESCUTAR - PARASHÁ ITRÓ 5777

"Yossef Goldman (nome fictício) estava se despedindo da Yeshivá. Após alguns anos de estudo em Israel, ele havia crescido muito espiritualmente. Porém, agora era hora de voltar aos Estados Unidos, para dar continuidade ao seu crescimento ao lado da família. A Yeshivá organizou uma linda festa de despedida para ele. Todos os seus amigos de anos de Yeshivá estavam presentes. Mas certamente um dos mais emocionados era Avraham Katz (nome fictício), seu "Chavruta" (colega de estudos) por muitos anos. Horas por dia eles passavam juntos, imersos no estudo da Torá, e a despedida agora era dura. Em certo momento da festa, começaram os discursos de despedida. Então chegou a vez de Avraham discursar:

- Não preciso me estender nos elogios ao Yossef - começou Avraham, visivelmente emocionado - Todos que conviveram com ele conhecem suas incríveis qualidades, como sua bondade, sempre pronto a ajudar todos que necessitam, e sua seriedade no cumprimento das Mitzvót e no estudo da Torá. Mas ele tem uma qualidade que eu, como seu Chavruta de muitos anos, fui um dos poucos privilegiados a perceber. Certo dia, nós estávamos entretidos em uma passagem do Talmud muito difícil. Tínhamos visões completamente distintas sobre como entender aquela passagem. Por muito tempo ficamos em uma discussão acalorada, cada um trazendo argumentos para defender seu ponto de vista. Era uma verdadeira "guerra de Torá" que estávamos travando. Apesar de ter defendido meu ponto de vista com unhas e dentes, Yossef é uma pessoa com uma incrível capacidade de argumentação. Mesmo me esforçando muito, parecia que ele havia saído vitorioso da discussão. Porém, no final do dia ele me chamou e disse: "Avraham, depois de refletir muito sobre seus argumentos, eu entendi os cálculos que você fez para chegar às suas conclusões. E, entendendo a forma como você chegou à sua conclusão, eu percebi que realmente é você que está certo no entendimento desta passagem que estudamos".

- Quando escutei aquilo - concluiu Avraham - eu entendi a verdadeira grandeza do meu Chavruta. Mesmo defendendo o seu ponto de vista, ele soube escutar os meus argumentos. Mas, acima de tudo, ele teve a humildade de assumir que estava errado. Não é fácil, em especial em uma discussão, alguém assumir que o outro está certo. E tenho certeza que estas duas incríveis qualidades de Yossef, a humildade e ouvidos que escutam de verdade, vão fazê-lo se tornar um dia um grande Talmid Chacham (Erudito de Torá).
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A Parashá desta semana, Itró, começa descrevendo a vinda de Itró, sogro de Moshé, ao acampamento do povo judeu no deserto. Ele trouxe também a esposa de Moshé e seus filhos, que haviam ficado em Midian enquanto Moshé foi ao Egito salvar o povo judeu. Itró havia escutado sobre o grande milagre da abertura do mar e sobre a guerra contra o povo de Amalek, e escutou de Moshé também todos os detalhes da salvação do povo judeu no Egito. Ele se surpreendeu com todos os milagres e com a incrível salvação do povo judeu. Depois disso, a Parashá descreve que Itró percebeu que Moshé julgava sozinho todo o povo, algo que era pesado para ele e para o povo, e por isso sugeriu que Moshé apontasse pessoas aptas a julgar o povo junto com ele, dividindo o peso e a responsabilidade. Moshé escutou os conselhos de seu sogro e, depois de se aconselhar com D'us, criou tribunais de instâncias menores, de forma que apenas os casos mais difíceis chegavam até ele. Por último, a Parashá também traz um dos eventos mais importantes da história do povo judeu: a entrega da Torá no Monte Sinai, diante de todo o povo judeu. Mas qual é a conexão entre a visita de Itró, o seu conselho dado a Moshé e a entrega da Torá no Monte Sinai?

Quando estamos em uma discussão importante e sentimos que não estamos conseguindo transmitir nosso ponto, como reagimos? Em um primeiro momento, repetimos e insistimos. Porém, se mesmo assim não conseguimos ter sucesso em convencer o outro de que estamos certos, o que fazemos? Começou a gritar: "Você está ouvindo o que estou dizendo? Você está prestando atenção?" Todo mundo alguma vez já tropeçou neste tipo de erro. Mas por que isto acontece? Por que às vezes queremos mostrar o nosso ponto, mas parece que a outra pessoa não está nem ouvindo nossos argumentos. O mais impressionante é perceber que nós fazemos exatamente a mesma coisa. Quantas vezes achamos que estamos ouvindo a outra pessoa mas, de repente, descobrimos que nossa cabeça estava em outro lugar e não prestamos atenção em nenhuma palavra do que o outro falou? A grande pergunta que surge é: por que é tão difícil escutar os outros?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que o ser humano tem uma tendência natural de bloquear qualquer tipo de informação que contradiz a sua própria forma de ver as coisas. Isto porque, de maneira até inconsciente, nunca queremos assumir que estamos errados, pois os erros são um ataque direto à nossa autoestima. Portanto, acabamos bloqueando qualquer tipo de informação que vá contra o que acreditamos ser o correto. Mesmo quando estamos diante das provas mais convincentes, preferimos bloquear nossos ouvidos e não escutar.

Isto é algo muito ruim para nossa vida em geral, mas há uma área em particular que é profundamente afetada por este tipo de "bloqueio": o nosso estudo de Torá. E isto pode acontecer não apenas com alunos iniciantes, mas até mesmo com grandes estudantes de Torá. De acordo com o Rav Elyahu Lopian zt"l (Polônia, 1876 - Israel, 1970), mesmo pessoas que estudam com constância e se esforçam muito no estudo da Torá podem acabar se tornando incapazes de escutar outras opiniões e de se conectar com o que dizem outras pessoas. Eles ficam completamente bloqueados, absorvidos em seus próprios pensamentos e opiniões. Pessoas com este tipo de atitude não apenas serão severamente punidas por seu comportamento inadequado, mas também nunca terão sucesso em seu aprendizado de Torá. A pessoa naturalmente é tendenciosa a ser favorável às suas próprias opiniões. Portanto, caso ela não consiga escutar o que os outros dizem, nunca conseguirá esclarecer as coisas de forma precisa.

O contrário também é válido. O Rav Chaim Ozer Grodzinsky zt"l (Bielorússia, 1863 - Lituânia, 1940) foi um dos maiores sábios de Torá de sua geração. Todos conhecem a sua grandeza no domínio da Torá, sua incrível genialidade e sua habilidade de pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Porém, poucos sabem como ele chegou a este nível tão elevado. Contam que desde muito jovem o Rav Chaim Ozer podia sempre ser encontrado entre os grandes sábios de Torá da geração. Porém, em uma discussão, o Rav Chaim Ozer nunca dizia para eles "aceitem minha opinião". Ao contrário, ele se transformou em um recipiente que reunia e acumulava todas as opiniões e explicações que ele escutava dos sábios de Torá. Ele absorveu todo o conhecimento que escutou e transformou-o em parte de sua própria essência. O segredo da grandeza do Rav Chaim Ozer foi a disposição de aprender com absolutamente tudo o que ele escutava.

É por isso que a Parashá que fala sobre a entrega da Torá no Monte Sinai começa com as seguintes palavras: "Vaishmá Itró" (E escutou Itró). Itró se reuniu ao povo judeu após ter escutado sobre o incrível milagre da abertura do mar e sobre a vitória do povo judeu contra Amalek. Mas apenas Itró escutou? O mundo inteiro havia escutado, mas Itró foi o único que internalizou a mensagem. Os nossos sábios explicam no Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) que existem 48 ferramentas para verdadeiramente adquirir os conhecimentos da Torá. A segunda ferramenta é "Shmiat Haozen", que literalmente significa "escutar com os ouvidos". Toda vez que a Torá utiliza a palavra "Shemá", como em "Shemá Israel", isto implica um nível mais profundo de escuta, que envolve focar, prestar atenção, entender e colocar em ação. Escutar de verdade é deixar a mensagem penetrar em nossos pensamentos e nos influenciar na prática. O mundo inteiro escutou sobre os milagres que ocorreram ao povo judeu, mas somente Itró internalizou e tomou uma atitude.

Porém, há um nível ainda maior do que saber escutar as opiniões de pessoas mais elevadas do que nós: saber escutar as opiniões daqueles que estão em um nível mais baixo do que nós. Normalmente, quando escutamos uma pessoa mais baixa expressando sua opinião, nós "desligamos" os nossos ouvidos. Ao invés de escutar, nossa cabeça está focada em procurar argumentos para derrubar o que o outro está falando. Além de ser uma tremenda demonstração de falta de educação, esta atitude dificulta nossa possibilidade de crescimento em sabedoria.

Assim aprendemos daqueles que atingiram a grandeza: "Quem é o sábio? Aquele que aprende com todos" (Pirkei Avót 4:1). Mas o que significa aprender com todos? O que pessoas com menos sabedoria podem acrescentar em nossas vidas? Esta pergunta foi feita certa vez a um grande rabino, que respondeu contando algo muito interessante que havia acontecido em sua vida. Ele era um rabino muito respeitado, grande conhecedor da Torá. Certa vez ele foi convidado a dar aulas de Mishná Brurá, um livro de Halachót (leis) extremamente profundo escrito pelo Chafetz Chaim, a um grupo de Baalei Teshuvá (pessoas afastadas do judaísmo que decidiram se reaproximar da Torá). Apesar de serem pessoas ainda com pouco conhecimento de Torá, eles abordavam as Halachót através de ângulos muito diferentes do rabino e traziam questionamentos que ele nunca havia parado para pensar. Após um ano de aulas, o rabino chegou a uma incrível conclusão: por causa daquelas aulas, ele havia repensado seriamente sobre muitos fundamentos que ele já havia aceitado em sua vida, e havia chegado a um nível muito mais profundo e abrangente no entendimento das Halachót da Mishná Brurá. Ao saber escutar mesmo das pessoas com menos conhecimento, ele havia elevado de maneira significativa seu conhecimento de Torá.

É por isso que a Torá também traz como introdução à entrega da Torá o conselho de Itró a Moshé Rabeinu. Moshé foi o maior profeta da história da humanidade, havia recebido pessoalmente de D'us toda a Torá. Apesar de Itró ser uma pessoa sábia, que havia dedicado sua vida a buscar conhecimento, ele não chegava aos pés da grandeza de Moshé. Escutar Itró foi uma monumental demonstração da grandeza espiritual de Moshé. Foi a maior demonstração de que "sábio é aquele que aprende com todas as pessoas".

A Parashá nos ensina que a única maneira de se tornar grande em Torá é sendo humilde e estando com os ouvidos abertos a todos. Por educação e por sabedoria, precisamos aprender a escutar. Precisamos saber deixar o outro falar a frase até o fim e não interrompê-lo no meio já com a nossa resposta. Há muitas pessoas que fazem questão de repetir o argumento do seu companheiro antes de dar a sua opinião, para ter certeza que realmente entendeu o que o outro quis dizer. D'us não vai cobrar de nós por não estarmos sempre com a razão, mas certamente Ele nos cobrará se não soubermos escutar todas as pessoas. É sabendo escutar que se criam gigantes espirituais.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 18:1-20:26, Is. 6:1-7:6; 9:6-7

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

VOCÊ CONFIA EM D'US? - PARASHAT ITRÓ 5776

"Muitos conhecem o Rav Noach Weinberg zt"l (EUA, 1930 - Israel, 2009), o Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) do Aish HaTorá, por sua incrível capacidade de aproximar judeus que estavam completamente afastados da Torá. Porém, poucas pessoas sabem que suas gigantescas conquistas emanavam da mais pura Emuná (fé) e Bitachón (confiança) em D'us. Durante a Shivá (semana de rezas que ocorre após o falecimento) do Rav Noach Weinberg, sua filha contou uma história incrível, que demonstra o altíssimo nível de conexão que ele tinha com D'us.

Certa vez chegou à Yeshivá Aish HaTorá um jovem rapaz que demonstrou uma inteligência acima do normal. Ele não passou mais do que alguns poucos dias na Yeshivá, mas foi o suficiente para se destacar nos estudos de maneira impressionante. Porém, para a surpresa de todos, certo dia o rapaz arrumou suas coisas e se preparou para voltar aos Estados Unidos. O Rav Noach Weinberg, muito triste por ver um rapaz com um futuro tão promissor nos estudos de Torá abandonar a Yeshivá assim tão de repente, questionou os motivos daquela decisão. O rapaz explicou que, apesar de estar gostando muito da Yeshivá, ele era um jogador profissional de xadrez e estava voltando aos Estados Unidos para participar de uma importante competição.

O Rav Noach Weinberg poderia tentar convencê-lo a ficar com dezenas de argumentos lógicos. Porém, ele não tentou argumentar nem convencer o rapaz a ficar. Ao invés disso, fez um desafio a ele: propôs que eles disputassem uma partida de xadrez, uma única partida, e se o rapaz ganhasse, poderia ir embora e voltar aos Estados Unidos, mas caso o rabino ganhasse, o rapaz ficaria na Yeshivá e continuaria seus estudos e seu caminho de crescimento espiritual.

Para um campeão de xadrez, aquela proposta pareceu uma piada, pois certamente o rabino não estava tão bem preparado quanto ele. Por isso, com um sorriso de satisfação no rosto, o rapaz aceitou o desafio. Porém, o jogo foi ficando extremamente complicado, e o que parecia ser um jogo fácil, que não duraria mais que poucos minutos, se transformou em uma difícil batalha de mais de uma hora. O mais incrível foi que, no final, o Rav Noach Weinberg acabou vencendo.

As pessoas não podiam acreditar naquela vitória. O rabino, que nunca havia revelado a ninguém sobre suas incríveis habilidades no xadrez, havia derrotado um grande campeão! Quando questionado, o Rav Noach Weinberg explicou:

- Eu joguei xadrez poucas vezes na vida, quando ainda era pequeno. No decorrer do jogo eu fui aos poucos me lembrando das regras de movimentação das peças. Eu sabia que através das minhas poucas e limitadas habilidades no xadrez seria impossível vencer o jogo. Porém, eu tive a coragem de propor o jogo pois acreditava, com todas as minhas forças, que se D'us quisesse que aquele rapaz ficasse na Yeshivá, Ele poderia me fazer vencer a partida. E foi isto o que aconteceu.

O rapaz acabou ficando na Yeshivá. Ele estudou com dedicação, tornando-se um aluno brilhante e uma fonte de inspiração para outros jovens. Tudo graças à incrível confiança que o Rav Noach Weinberg tinha em D'us. 
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Nesta semana lemos a Parashat Itró que, entre outros assuntos, nos ensina sobre os 10 mandamentos entregues por D'us no Monte Sinai, diante de todo o povo judeu. E o primeiro Mandamento entregue foi: "Eu sou Hashem, teu D'us, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão" (Shemot 20:2). Este Mandamento refere-se à importante Mitzvá de Emuná. De acordo com o Rambam zt"l (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), esta Mitzvá pode ser cumprida ao acreditarmos que há um D'us que é a causa de toda a existência, e que constantemente recria e mantém toda a criação. Porém, há outro conceito fundamental que está conectado com a Emuná: o Bitachon, que é a confiança em D'us. Será que o Bitachon é parte da Mitzvá de Emuná ou é um conceito separado, que não está diretamente conectado a nenhuma Mitzvá específica?

Explica o Rav Avraham Yeshayahu Karelitz zt"l (Bielorússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido com Chazon Ish, que Bitachon não é algo independente, e sim uma consequência natural da Emuná verdadeira. A Emuná é a obrigação de acreditar em princípios fundamentais sobre D'us, como por exemplo a Hashgachá Pratid (Supervisão particular que D'us tem sobre todo o universo, nos mínimos detalhes), enquanto o Bitachon é a aplicação desta crença nas questões práticas do cotidiano. Se a pessoa acredita na Supervisão de D'us, mas não consegue colocar isto na prática em seu cotidiano, então é um sinal de que há alguma deficiência em sua Emuná.

O Chazon Ish exemplifica isto através de uma pessoa que constantemente expressa sua Emuná de que tudo o que ele tem vem de D'us. Ele declara publicamente que reconhece que seu sustento vem diretamente de D'us e que não há nenhum motivo para ficar preocupado ou ansioso com o futuro. Entretanto, quando alguém abre uma loja concorrente perto da sua, de repente sua Emuná desaparece e ele se torna uma pessoa preocupada e desconfiada. A sua Emuná parecia ser muito forte quando tudo estava indo bem, mas quando ele passou por um teste, falhou em demonstrar o Bitachon necessário. Isto, por sua vez, demonstra que sua Emuná nunca foi completa e verdadeira, e tudo o que ele declarava em público era apenas da boca para fora. Portanto, de acordo com o Chazon Ish, o Bitachon é um aspecto essencial da Emuná, e significa aplicar a Emuná nas situações reais da vida, em especial nos momentos de dificuldade e teste.

O Rav Shalom Noach Berezovsky zt"l (Bielorússia, 1911 - Israel, 2000), em sua obra intitulada "Netivot Shalom", se aprofunda um pouco mais no conceito de Bitachón. Ele explica que, na realidade, existem dois tipos de Bitachon: um tipo inativo e um tipo proativo. O Bitachón inativo se aplica quando a pessoa se encontra em uma situação difícil e na qual não há nada que ela pode fazer para revertê-la. Nestas circunstâncias, sua "Avodat Hashem" (Serviço Divino) é confiar que tudo o que acontece é, em última instância, para o nosso bem. Já o Bitachón proativo se torna necessário quando é exigido da pessoa que ela faça algo que demonstre sua confiança em D'us. Por exemplo, durante a abertura do Mar Vermelho, Moshé Rabeinu e o povo estavam chorando e clamando a D'us para que Ele os salvasse do exército egípcio, que avançava na direção deles. Em resposta, D'us falou para que eles parassem de rezar e entrassem no mar. Mas por que D'us não abriu o mar Vermelho enquanto o povo judeu estava tranquilamente na praia, como é retratado (de forma completamente equivocada) nos filmes e novelas? Por que a necessidade de entrar no mar revolto e só depois fazer o milagre?

De acordo com o Rav Shalom Noach, para que o povo judeu pudesse ter o mérito de D'us transcender as leis da natureza através da abertura do mar Vermelho, eles deveriam demonstrar uma confiança em D'us que também transcendesse as leis da natureza. Eles deveriam acreditar que, se era a vontade de D'us que eles cruzassem o mar, então eles deveriam ter a confiança de que Ele era capaz de permitir que isto acontecesse, mesmo que eles não tinham a mínima ideia de como seria possível ocorrer na prática. Portanto, se jogar no mar revolto antes da sua abertura foi uma demonstração de Bitachón proativo, que fez o povo judeu ter direito ao mérito do grande milagre da abertura do mar.

A conclusão é que a Emuná verdadeira somente se manifesta em uma pessoa que está disposta a agir com uma inabalável confiança em D'us, com a crença de que, se for a vontade de D'us que ele se comporte de certa maneira, então ele pode, e deve, apesar das dificuldades, fazer o que é correto, e desta maneira D'us permitirá que ele tenha sucesso em seus empreendimentos.

Parece algo difícil de ser alcançado, mas muitas pessoas se esforçaram e conseguiram. Foi com esta certeza que o Rav Noach Weinberg zt"l conseguiu trazer de volta à Torá milhares de judeus que estavam completamente afastados. Ele costumava dizer que quando vemos problemas no mundo, não há nenhum motivo para não sairmos e enfrentarmos as dificuldades quando acreditamos que esta é a vontade de D'us, pois Ele não tem nenhum tipo de limitação ou dificuldade para cumprir a Sua vontade. Para o Rav Noach Weinberg isto não era apenas algo teórico, que ele dizia da boca para fora em momentos de tranquilidade. Em uma época em que o Kiruv (movimento para aproximar judeus afastados da Torá) era praticamente desconhecido no mundo, o Rav Noach Weinberg sentiu a necessidade de fazer algo pelos milhares de judeus que estavam se assimilando no mundo inteiro. Muitas pessoa ridicularizaram seus sonhos e ideais, alegando que não era algo realista, e ele foi chamado por muitos de tolo.

Porém, apesar das dificuldades, sua convicção de estar cumprindo a vontade de D'us deu forças para que ele superasse muitos contratempos e realizasse verdadeiros milagres ao despertar um movimento de Teshuvá (retorno aos caminhos da Torá) que salvou milhares e milhares de judeus de perderem sua identidade judaica. A idealização da gigantesca Yeshivá do Aish HaTorá, que atualmente fica em frente ao Kotel (Muro das Lamentações), um dos lugares mais sagrados do judaísmo, começou em uma pequena salinha no bairro de Kriat Sanz, em Jerusalém, com o Rav Noach Weinberg e mais três jovens que acreditavam no que estavam fazendo.
 
 Mas a incrível Emuná e Bitachón do Rav Noach Weinberg não caíram do céu. Foram anos e anos de um trabalho constante para desenvolver este relacionamento de confiança em D'us. Através de reflexões e do estudo da Torá, ele foi crescendo aos poucos, até atingir este nível de certeza e tranquilidade de que tudo, em cada detalhe, está nas Mãos de D'us. Se tivermos esta claridade, então quando surgirem dificuldades em nossas empreitadas, basta fazermos o nosso esforço e Ele abrirá para nós os mares de dificuldades que surgem em nossas vidas.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 18:1-20:26, Is. 6:1-7:6; 9:6-7

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O BEM ESTAR DOS OUTROS - PARASHÁ ITRÓ 5775

"O Sr. Johnson pediu para conversar com seu supervisor e foi convidado a ir à sala dele. O Sr. Johnson estava com uma expressão séria no rosto quando entrou, e começou a falar:

- Chefe, tenho um pedido importante para fazer. Amanhã minha esposa está planejando fazer uma grande arrumação e limpeza em casa. Ela me pediu ajuda, e me deixou responsável pela limpeza da garagem e do sótão, e certamente será um trabalho duro, que inclui empurrar móveis pesados de um lado para o outro, empacotar coisas e jogar muito lixo fora. Além disso, ela me disse que precisa de ajuda para cuidar das crianças, mantê-las ocupadas, dar comida e banho nelas. Por isso, preciso que você me dispense amanhã do trabalho para que eu possa ajudá-la.

- Johnson - respondeu o chefe - você é um ótimo funcionário e eu entendo a necessidade de sua esposa. Porém, infelizmente estamos atualmente com poucos funcionários e não temos ninguém para te substituir. Por isso, não posso te dispensar de jeito nenhum amanhã, me desculpe.

Para a surpresa do supervisor, que esperava uma reação de nervosismo e irritação, Johnson imediatamente abriu um enorme sorriso, deu um grande abraço no supervisor e disse:

- Obrigado, chefe. Sabia que eu podia contar com você..."

Será que nos nossos relacionamentos estamos realmente preocupados com as necessidades dos outros e sempre buscando formas de ajudar, ou preferimos buscar formas de nos isentar das nossas responsabilidades?

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 Nesta semana lemos a Parashá Itró. Entre outros assuntos, a Parashá traz os Dez Mandamentos, entregues ao povo judeu na primeira e última vez na história da humanidade na qual D'us se revelou a um povo inteiro. Estes mandamentos são fundamentais para a nossa conduta, tanto em relação à D'us quanto em relação ao próximo. D'us dividiu os Mandamentos em duas tábuas, cinco Mandamentos baseados no nosso relacionamento com Ele e cinco Mandamentos baseados no nosso relacionamento com o próximo, justamente para nos ensinar como o nosso relacionamento com o próximo é tão importante aos olhos de D'us.

O primeiro mandamento, que é a base para todas as Mitzvót da Torá, nos chama a atenção em seus detalhes. Está escrito: "Eu sou Hashem, teu D'us, que te tirou do Egito" (Shemot 20:2). Este Mandamento exige de nós Emuná, a crença de que existe um Criador, que criou todo o Universo e controla cada pequeno detalhe de tudo o que ocorre com "Hashgachá Prati" (Supervisão Particular). Mas por que está escrito que Hashem é o D'us que nos tirou do Egito? Não teria sido mais apropriado Hashem ter se definido como o D'us que criou o Universo? Se D'us é definido como o Criador, isto O coloca como o único responsável por toda a existência, mas se Ele é definido como Aquele que nos tirou do Egito, isto O coloca apenas como o responsável por um evento histórico, algo muito menor, que não expressa a verdadeira grandeza Dele. Portanto, por que utilizar esta expressão logo no primeiro Mandamento?

O Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, traz duas explicações. Em primeiro lugar, Rashi explica que é como se D'us estivesse dizendo ao povo judeu: "Eu sou o D'us que tirou vocês do Egito, e isto já é razão suficiente para que vocês sirvam a Mim". Aparentemente Rashi está explicando que nós somos obrigados a servir a D'us pelo fato Dele ter nos salvado da tirania do Faraó. Rashi traz também outra explicação, baseada em um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que quando D'us estava punindo os egípcios, Ele apareceu ao povo judeu como um "homem de guerra", enquanto no Monte Sinai, no momento da entrega da Torá, Ele apareceu como um "homem idoso cheio de misericórdia". Como havia o risco de o povo judeu achar que existiam duas divindades independentes, então D'us fez questão de afirmar "Eu sou o D'us que tirou vocês do Egito", isto é, existe apenas um único D'us, que se manifestou de forma diferente nas duas ocasiões. D'us estava se identificando no Monte Sinai como sendo aquela mesma força que havia tirado o povo judeu do Egito, para desfazer qualquer mal entendido.

Porém, há algo aparentemente contraditório nas duas explicações trazidas por Rashi. Se o Midrash afirma que D'us apareceu para o povo judeu no Monte Sinai como um idoso cheio de misericórdia, então como este idoso misericordioso estava afirmando que o povo judeu deveria se subjugar a Ele? Não parecem ideias contrárias, alguém demandando subserviência e, ao mesmo tempo, sendo um ancião misericordioso?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está no entendimento correto das palavras do Rashi. Quando o povo judeu saiu do Egito, iniciou-se um relacionamento do povo com D'us. A primeira resposta do Rashi não significa que a base do nosso relacionamento com D'us é que nós devemos a Ele nossa fidelidade por Ele ter nos salvado do Egito. Ao contrário, Rashi está explicando que a base para qualquer relacionamento saudável é que cada uma das partes se preocupe com o bem estar do outro. O fato de Hashem ter nos tirado do Egito reflete Sua compaixão e o cuidado com o povo judeu e é, portanto, a pedra fundamental do relacionamento. O que Rashi está nos ensinando é que a expressão "isto já é razão suficiente para que vocês sirvam a Mim" significa que é apropriado que o ato de D'us, de nos ter tirado do Egito, seja a base para que sirvamos a Ele, pois foi a demonstração do Seu comprometimento e da Sua preocupação com o nosso bem estar. Por isso a Torá afirma que, a partir daquele momento, era a nossa vez de mostrar o nosso comprometimento.

O relacionamento criado no Monte Sinai entre D'us e o povo judeu é descrito pelos nossos sábios como um casamento e, portanto, deveria refletir um caráter de exclusividade. Se estivesse declarado que D'us é o Criador do Universo, isto não indicaria nenhuma preocupação especial e única com o povo judeu, e por isso não poderia ser a pedra fundamental do casamento entre os dois. Já a saída do Egito, que foi feita única e exclusivamente para o povo judeu, é a base apropriada para nossa conexão eterna.

Esta Parashá nos traz um incrível ensinamento sobre o nosso relacionamento com D'us que também deve ser utilizado em todos os nossos relacionamentos humanos. A base de qualquer relacionamento, para que ele seja sincero, verdadeiro e duradouro, precisa ser a vontade de fazer o bem, de querer ajudar o outro, e não uma motivação egoísta, de pensar no que podemos ganhar com o relacionamento. Não são raras as histórias de pessoas ricas, cheias de "amigos", que ficaram sozinhas após terem perdido seu dinheiro. Por que isto acontece? Pois não eram amigos verdadeiros, eram apenas oportunistas querendo aproveitar e "sugar" tudo o que fosse possível. O amigo de verdade é aquele que quer o seu bem, que quer fazer algo por você, não aquele que quer apenas receber.

Isto não se aplica apenas nos relacionamentos de amizade, mas também é a base para um casamento verdadeiro e duradouro. O primeiro casamento registrado na Torá é o de Adam e Chavá (Adão e Eva), enquanto eles ainda estavam no Gan Éden. Quando D'us criou o mundo, havia apenas Adam, e D'us exclamou: "Não é bom o homem estar sozinho; farei para ele uma companheira correspondente a ele" (Bereshit 2:18). Mas esta afirmação de D'us é difícil de ser entendida. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que Adam estava em um lugar paradisíaco, com os anjos servindo-o com as melhores iguarias e cuidando de todas as suas necessidades. Então por que D'us afirmou que não era bom o homem estar sozinho? O que faltava para ele? Respondem os nossos sábios que realmente não faltava nada para Adam receber, mas mesmo assim ainda faltava algo para ele ser completo: alguém com quem ele pudesse fazer bondades. Enquanto Adam não tinha Chavá, ele não podia se comportar como D'us, que apenas faz bondades sem receber nada em troca. Cada vez que nos comportamos como D'us, nos conectamos a Ele e nos preenchemos, enquanto toda vez que nos comportamos ao contrário de D'us, nos desconectamos Dele e aumentamos ainda mais o nosso vazio existencial.

A essência de um casamento verdadeiro é quando há comprometimento entre as partes, quando o foco de cada um é visar o bem estar do outro, buscar maneiras de como fazer bondades, não apenas querer receber e ter proveito. Hoje em dia há muitos divórcios, pois as pessoas perderam até mesmo a claridade de qual é o propósito do casamento. O casamento se tornou algo egoísta, uma tentativa de preencher o que nos falta. Mas tudo isso vem da falta de claridade de que o que nos preenche de verdade é o que fazemos e doamos para os outros, não o que recebemos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Exodo 18, 1- 20,26

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

ABRINDO OS OUVIDOS - PARASHÁ ITRÓ 5774


"Fábio era uma boa pessoa, tentava melhorar em todas as áreas da vida, mas havia algo que ele não conseguia mudar: seu egoísmo. Isto atrapalhava muito seus amigos e familiares, a ponto de muitos irem se queixar com o rabino da cidade sobre o seu comportamento. Após quebrar muito a cabeça, o rabino teve uma ideia de como ajudar Fábio a mudar sem deixá-lo chateado. Ele preparou um discurso inteiro falando das vantagens de fazer bondades com o próximo e o quanto era negativo ser uma pessoa egoísta. Mudando os nomes e alguns detalhes, o rabino queria ilustrar o discurso com as próprias situações que as pessoas haviam se queixado sobre Fábio, para ver se assim ele percebia que o discurso era para ele.

Quando chegou o Shabat, a sinagoga estava lotada. O rabino procurou e reconheceu Fábio sentado em uma das primeiras fileiras. Então ele começou seu discurso cheio de energia, emocionando as pessoas. Ele citou os exemplos de problemas que o egoísmo causa, e constantemente olhava para Fábio, tentando perceber se ele esboçava algum tipo de reação. E ele ficou muito contente ao perceber que Fábio escutava suas palavras com muito interesse. Para aumentar a sua felicidade, quando ele terminou o discurso, Fábio imediatamente se levantou e caminhou em sua direção. O rabino ficou esperançoso que Fábio havia entendido o recado e o estava procurando para pedir ajuda para mudar. Mas o que Fábio disse quase fez o rabino desmaiar. Com um grande sorriso no rosto, ele falou:

- Rabino, que belas palavras você falou hoje. Que discurso inspirado, me tocou profundamente. Coitado daqueles que são egoístas. Foi uma grande pena, pois um amigo meu, que era quem realmente precisava ter escutado estas palavras, infelizmente não pôde vir hoje. Rabino, acho bom você repetir este discurso para ele, pois ele é egoísta e precisa melhorar muito..."

Enquanto não aprendermos a escutar as críticas, enquanto sempre procurarmos os defeitos nos outros, esquecendo que primeiro devemos procurar em nós mesmos, estaremos perdendo excelentes oportunidades de melhorar e crescer espiritualmente.

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Nesta semana lemos a Parashá Itró, que traz dois assuntos muito importantes. O primeiro assunto é o reencontro de Moshé Rabeinu com seu sogro Itró no meio do deserto. Mas por que Itró foi procurar Moshé? A Parashá começa com as seguintes palavras: "E escutou Itró". Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que Itró escutou os eventos milagrosos da abertura do Mar Vermelho e da guerra contra o povo de Amalek, e por isso decidiu unir-se ao povo judeu. O segundo assunto é a entrega da Torá no Monte Sinai, que ocorreu depois da revelação de D'us diante de todo o povo judeu.

A entrega da Torá foi um evento que mudou o curso da história da humanidade, foi o que deu sentido para a criação do ser humano. Será que este evento tão grandioso não merecia uma Parashá inteira somente para ele? Por que o reencontro de Itró com Moshé precisou ser escrito na mesma Parashá da entrega da Torá? Além disso, segundo Rashi, Itró se uniu ao povo judeu somente depois da entrega da Torá. Então por que foi importante a Torá mencionar a vinda dele antes da entrega da Torá?

Explica o Rav Zev Leff que a conexão entre os dois assuntos nos ensina uma importante preparação para o recebimento da Torá. Há dois motivos pelos quais foi importante relatar a vinda de Itró antes da entrega da Torá. Em primeiro lugar, quando está escrito na Torá "E escutou Itró", parece que apenas ele escutou. Mas o Zohar (parte mística da Torá) afirma que todas as nações do mundo também escutaram sobre a abertura do mar e a guerra contra Amalek. Então qual foi a diferença entre Itró e o resto do mundo? Todas as pessoas escutaram o que aconteceu, mas continuaram suas vidas sem nenhum tipo de mudança ou busca pela verdade, enquanto Itró ouviu e internalizou as informações. Ele refletiu, procurou a verdade, e finalmente concluiu que deveria buscar a Torá.

Outro motivo para ensinar sobre a vinda de Itró está relacionado com a crítica que ele fez sobre o sistema que Moshé utilizava para julgar o povo. Moshé julgava sozinho o povo todo, cansando a si mesmo e as pessoas, que precisavam passar o dia esperando para serem atendidas. Itró sugeriu que Moshé não deveria ficar com todo o peso do julgamento sobre suas costas, ele deveria distribuir os julgamentos em tribunais menores, e somente os casos mais difíceis chegariam até ele. Moshé sabia que o sistema que ele utilizava era pesado para ele e para o povo, mas ele queria fazer com que as pessoas o procurassem quando houvesse alguma disputa, e assim ele aproveitaria o contato com as pessoas para ensinar a elas um pouco mais de Torá. Apesar de Itró ser um homem muito sábio, com uma grande bagagem acumulada com as buscas pela verdade que havia feito na vida, ele não chegava aos pés de Moshé. Além disso, Itró nunca havia sido exposto à sabedoria da Torá. Moshé poderia simplesmente ter escutado a sugestão de Itró e depois ter educadamente rejeitado, sem nem mesmo levá-la em consideração. Mas Moshé demonstrou sua grandeza ao escutar com atenção as palavras de Itró, que o levaram a uma reflexão mais profunda e à conclusão de que seu sogro estava certo. No final, Moshé Rabeinu acabou acatando a sugestão de Itró e mudou todo o sistema de justiça do povo judeu, cumprindo o que está escrito: "Quem é o sábio? Aquele que aprende de todas as pessoas" (Pirkei Avót 4:1).

Isto quer dizer que o motivo da Torá ter antecipado a vinda de Itró foi para nos ensinar uma das características mais importantes para que uma pessoa possa crescer espiritualmente: a capacidade de escutar o que os outros têm para dizer, principalmente se for uma crítica, algo que pode ser melhorado. Tanto Itró quanto Moshé demonstraram que seu crescimento espiritual somente foi possível pela capacidade que eles adquiriram de escutar de verdade.

Este mesmo ensinamento é repetido durante a entrega da Torá. Entre os milagres que aconteceram no Monte Sinai, um deles foi que os sentidos físicos das pessoas se alteraram, como está escrito: "E o povo inteiro viu os sons" (Shemot 20:15). Mas para que foi necessário este milagre? Explica o Rav Zev Leff que a audição não necessita de nenhuma preparação, pois os sons de todas as direções são recebidos pelo ouvido sem a necessidade de focar ou se virar para a direção de onde vem o som. Já a visão é mais seletiva, pois vemos apenas se abrimos os olhos e focamos em algum objeto ou paisagem. Quando D'us nos permitiu ver os sons, Ele estava nos ensinando uma preciosa lição: devemos escutar com o mesmo foco que utilizamos na visão. Muitos sons chegam aos nossos ouvidos, mas apenas aquele que aprende a focar sua audição consegue absorver as mensagens contidas em cada coisa que escutamos.

Uma das qualidades mais importantes para uma pessoa que quer crescer espiritualmente é saber escutar o que é dito para ela, principalmente em relação às críticas. Em geral temos a tendência de nos esquivar das críticas, atribuindo o que está sendo dito a outras pessoas. O próprio formato do ouvido nos ensina esta importante lição. A parte externa do ouvido tem o formato de um funil, e tem a função de trazer para a parte interna do ouvido os sons captados externamente. Isto nos ensina que quando escutamos uma crítica, devemos escutar como se tivesse sido dito diretamente para nós.

A Torá traz um exemplo das graves consequências de não querer escutar. Cain e Hevel (Abel) protagonizaram o primeiro assassinato da história da humanidade. Motivado pela inveja, Cain se levantou e matou seu irmão Hevel. Antes do assassinato, Cain e Hevel se encontraram no campo e conversaram, mas a Torá não conta qual foi o conteúdo da conversa. Ibn Ezra (Espanha, 1089 -1167), comentarista da Torá, explica que D'us havia dado uma bronca em Cain, como está escrito: "Se você melhorar, então você será perdoado, mas se não, o pecado estará na entrada, e sobre você estará o desejo, mas você pode controlá-lo" (Bereshit 4:7). Como a grande maioria das pessoas, ao invés de Cain escutar a bronca de D'us, ele achou que era para os outros, não para ele. Como só havia Hevel, ele entendeu então que a bronca era para Hevel, e repetiu-a para ele. Uma discussão se iniciou e terminou com o primeiro assassinato da história. Tudo porque Cain, ao invés de escutar a crítica, preferiu achar que ela era para os outros.

Temos uma tendência natural de achar que estamos sempre certos, e ficamos cegos em relação ao que não condiz com nossa opinião. Moshé, Itró e todos os outros que chegaram à grandeza espiritual certamente adquiriram a capacidade de escutar. O Midrash (parte da Torá Oral) afirma que há aqueles que escutam e perdem, e há aqueles que escutam e lucram. Escutar corretamente as coisas é a chave para o sucesso. Antes mesmo de escutarmos no Monte Sinai "E disse D'us", a Torá nos ensinou o que significa escutar. Pois a menos que haja um ouvido que escute, mesmo as mensagens mais poderosas, vindas diretamente de D'us, acabarão se perdendo para sempre.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 18:1-20:26, Is. 6:1-7:6; 9:6-7
 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

JUNTOS NOS BONS E MAUS MOMENTOS - PARASHÁ ITRÓ 5773


"No caminho de seu trabalho, Henrique passou na frente de uma loja de roupas finas e viu um lindo casaco na vitrine. Imaginou como ficaria bem com aquele casaco elegante. Vestindo aquele casaco tão chique ele ganharia um ar nobre e deixaria as pessoas boquiabertas.

Sonhando acordado, Henrique entrou na loja para experimentar o casaco. Estava decidido a comprá-lo, apesar do preço exorbitante. O vendedor recebeu-o de forma amável e trouxe o casaco escolhido. Mas após algumas tentativas de vestir o casaco, Henrique descobriu que, decididamente, aquele casaco não era do seu tamanho. Por mais que insistisse, o casaco não entrava. Porém, o vendedor era persistente e não desistiu tão fácil. Ele pediu para que Henrique levantasse uma das mãos, abaixasse a outra, dobrasse um pouco os joelhos, curvasse a coluna para o lado. Então foi só forçar um pouquinho e o casaco entrou. Mas o casaco ficou tão justo no corpo de Henrique que, para andar, ele precisava ficar completamente torto. Obcecado, apesar do desconforto e de estar todo torto, Henrique decidiu comprar o casaco. Após pagar, saiu da loja com ele já vestido.

Henrique caminhava pela rua, todo torto, com seu casaco novo, quando passou por duas mulheres que eram da alta sociedade. Escutou então elas conversando:

- Veja, querida, aquele pobre homem caminhando. Coitado, olha como ele é torto! – disse a primeira.

A segunda olhou com atenção e exclamou:

- É verdade, querida. Mas veja que casaco elegante ele está vestindo. Que caimento perfeito..."

Parece uma grande piada, mas é exatamente isto que fazemos quando tentamos moldar a realidade de acordo com nossas próprias necessidades e vontades, ao invés de enxergar a verdade.

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Na Parashá desta semana, Itró, estão descritos os detalhes do evento que mudou a história da humanidade: a entrega da Torá no Monte Sinai, quando D'us se revelou para os judeus, um povo inteiro, com mais de 3 milhões de pessoas. A entrega da Torá envolveu grandes milagres, como o Monte Sinai inteiro ardendo em fogo e tremendo, sob um intenso som do toque do Shofar e o brilho da luz dos relâmpagos. Houve fogo e trovões, como está escrito: "Todo o povo viu os trovões e as chamas..." (Shemot 20:15).

Rashi, comentarista da Torá, diz que há mais um milagre implícito neste versículo. Quando a Torá diz que "todo o povo viu", isto quer dizer que mesmo aqueles que eram cegos foram milagrosamente curados e conseguiram ver. O mesmo conceito aparece no versículo que descreve a aceitação da Torá pelo povo judeu: "E respondeu todo o povo junto, e disseram: 'Tudo o que D'us disse, nós faremos' " (Shemot 19:8). A linguagem "respondeu todo o povo" significa que todas as pessoas do povo falaram, inclusive os que eram mudos e surdos, pois foram milagrosamente curados no momento da entrega da Torá.

Mas deste comentário do Rashi surge uma grande questão. Nossos sábios ensinam que os judeus passaram por um processo de preparação para o recebimento da Torá. Eles saíram do Egito em um elevado nível de impureza espiritual e foram, aos poucos, se purificando, até chegar ao nível de profecia. Todo este crescimento espiritual foi um pré-requisito indispensável, pois o povo precisava se purificar espiritualmente para poder absorver os conceitos da Sagrada Torá. Mas, de acordo com a explicação de Rashi, a perfeição física também foi um pré-requisito para o recebimento da Torá. Por que?

Explica o Rav Yohanan Zweig que existe um mito de que religião é apenas uma "muleta" para os doentes e infelizes. De onde vem esta ideia completamente equivocada? De uma triste constatação: quanto mais rica é uma sociedade, mais ela abandona D'us. Países estáveis, como a Suíça e a Suécia, onde há estabilidade socioeconômica e poucas doenças, o índice de ateísmo chega a 60%. Já em países pobres da África, onde há muitas dificuldades e doenças, o ateísmo não passa de 1%. Por que isto acontece? Pois quando a pessoa tem dificuldades financeiras ou enfermidades, a conexão com D'us traz consolo e esperança. Mas quando a pessoa tem estabilidade, fartura e saúde, ela prefere viver ignorando D'us.

É impressionante perceber que estas tristes estatísticas estão profetizadas nas palavras do "Shemá Israel", que lemos duas vezes ao dia: "... e você vai comer e se saciar. Cuidem-se para que seus corações não sejam seduzidos e se desviem, e servirão outros deuses" (Devarim 11:15,16). A idolatria a que a Torá se refere é a "egolatria", o autoendeusamento, a pessoa atribuir a si mesmo todo o sucesso e sabedoria, esquecendo que D'us está por trás de tudo o que ocorre no universo. Quando esta "egolatria" ocorre? Quando estamos saciados. Quanto mais sucesso a pessoa tem na vida, maior a chance dela se desconectar da busca pela verdade que está contida na religião, pois a pessoa que atinge sucesso e prosperidade financeira não quer seguir regras, ela prefere viver de acordo com suas próprias leis. Portanto, fica a impressão de que a religião é importante apenas para pobres, necessitados e doentes.

Os judeus saíram do Egito carregados com grandes riquezas em ouro e prata. Além disso, D'us provia diariamente ao povo o "Man", a comida milagrosa que caía do céu, na quantidade exata para cada família. Um poço acompanhava os judeus no deserto, fornecendo toda a água necessária. As roupas cresciam junto com o corpo e não se estragavam com o uso. Em resumo, não havia pobres nem necessitados entre os judeus que estavam no deserto. Eles tinham abundância, tinham estabilidade, tinham a tranquilidade de saber que nada material faltava em suas vidas. A única coisa que faltava era a saúde, pois havia doentes dentro do povo. Havia cegos, surdos, mudos, e todos os outros tipos de defeitos físicos. Portanto, ao curar os doentes antes da entrega da Torá, D'us estava deixando uma mensagem muito clara para nós: a Torá não foi entregue para tratar apenas dos pobres e desafortunados. Ao contrário, quanto mais a pessoa tem sucesso na vida, mais ela deve estar conectada com a sua espiritualidade, para agradecer tudo o que tem de bom e não se perder no materialismo exagerado e desequilibrado.

Infelizmente, a maioria das pessoas espera as dificuldades e doenças para lembrar-se de D'us e de Sua Torá. Mas isto não é o correto, não devemos frequentar a sinagoga apenas quando nos falta algo e desaparecer novamente logo após a solução dos nossos problemas. A Tefilá (reza) não foi fixada pelos nossos sábios apenas para que possamos pedir o que nos falta, mas também como uma ferramenta de agradecimento a D'us por tudo o que temos de bom. Devemos estar conectados à nossa espiritualidade principalmente quando tudo está bem, quando temos estabilidade, quando nada nos falta. Pois quando a pessoa se desconecta de sua espiritualidade, uma das maneiras que D'us tem para nos despertar é através das dificuldades.

Podemos enganar a nós mesmos, querendo nos acomodar em uma vida sem regras, onde nós fazemos as nossas próprias leis. Mas a experiência mostra que saímos perdendo duas vezes, tanto espiritualmente quanto materialmente. A cultura ocidental, que prega uma vida sem regras e sem limites, está em colapso após pouco mais de 200 anos de existência. As consequências são evidentes, estão diante dos nossos olhos: divórcios, traição, abuso de alimentação não saudável, vidas desregradas e famílias desestruturadas. Por outro lado, vemos o judaísmo e suas leis, com seus mais de 3000 anos de existência, manter-se firme e saudável, ensinando aos judeus a necessidade do equilíbrio, da estabilidade e dos valores corretos.

Muitas civilizações já surgiram e desapareceram, mas o judaísmo continua. Pois as leis que D'us nos entregou no Monte Sinai não foram apenas para curar nossas doenças ou resolver nossos problemas, mas para que possamos ser felizes de verdade, neste mundo e no Mundo Vindouro.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 18:1-20:26, Is. 6:1-7:6; 9:6-7, Mt. 5:17-32, Hb. 12: 18-24

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

PROGRESSO: PASSADO OU FUTURO? - PARASHÁ ITRÓ 5772

"Um senhor idoso estava sentado em um banco na frente de sua casa, ao lado de seu filho que lia, concentrado, as notícias do jornal. De repente, o pai escutou um barulho e perguntou ao filho o que era aquilo. O filho desviou os olhos do jornal, olhou para o local que o pai havia indicado, respondeu que era apenas um pássaro que havia pousado ali e imediatamente voltou à sua leitura. Mais alguns instantes se passaram e o pássaro fez um novo ruído. Novamente o pai idoso perguntou o que era aquilo e o filho, já um pouco mal humorado, respondeu que era apenas um pássaro. Quando pela terceira vez o pai interrompeu o filho após escutar um barulho, o filho perdeu a paciência, estourou e começou a gritar:- Você está surdo? Você não escutou que é apenas um pássaro? Um pássaro!!! Só um pássaro!!! Nada mais do que um pássaro, entendeu?
O pai, calado e cabisbaixo, levantou-se do banco, entrou em casa e voltou alguns instantes depois, trazendo um livro na mão. Era um diário, que ele havia escrito muitos anos atrás, quando seu filho ainda era pequeno. Abriu em uma página, estendeu ao filho e mandou-o ler em voz alta. O filho começou:
- Hoje meu filho, que fez três anos há poucos dias, estava sentado comigo em um parque quando um pássaro veio em nossa direção. Meu filho me perguntou 21 vezes o que era aquilo e eu respondi, 21 vezes, que era um pássaro. Eu o abraçava cada vez que ele me fazia a mesma pergunta, sem ficar zangado, sentindo carinho pelo meu pequeno garoto...
O filho não conseguiu mais terminar de ler. Lágrimas rolavam do seu rosto. Ele abraçou e beijou seu pai, arrependido por ter perdido a paciência e tê-lo tratado tão mal"
Como diz o ditado, um pai pode cuidar de 10 filhos, mas 10 filhos não conseguem cuidar de um pai.
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A parte central da Parashá desta semana, Itró, e certamente o evento que mudou a história da humanidade, é a entrega da Torá no Monte Sinai, a primeira e única revelação de D'us para um povo inteiro, mais de 3 milhões de pessoas. D'us começou com a entrega das duas tábuas que continham os 10 Mandamentos. Por que duas tábuas e não apenas uma? Pois a primeira tábua continha os Mandamentos "Bein Adam LaMakom" (Entre o homem e D'us), como, por exemplo, não cometer idolatria nem pronunciar o nome de D'us em vão, enquanto a segunda tábua continha os Mandamentos "Bein Adam Lehaveiró" (Entre o homem e seu semelhante), como, por exemplo, não matar e não cometer adultério. D'us estava nos ensinando que não podemos ser rigorosos apenas no cumprimento das Mitzvót que são relacionadas com Ele, mas lenientes com as Mitzvót relacionadas aos outros seres humanos, pois todo aquele que causa um dano ao seu companheiro, tanto se for algo físico, emocional ou financeiro, é como se também estivesse causando um dano ao próprio Criador.
Mas se observarmos com cuidado os Mandamentos, surgem algumas perguntas. Por exemplo, o quarto Mandamento é "Lembre-se do Shabat para santificá-lo" (Shemot 20:8), enquanto o quinto Mandamento é "Honrarás teu pai e tua mãe, para que se alonguem seus dias sobre a terra que Hashem, teu D'us, dá para vocês" (Shemot 20:12). Será que existe algum motivo especial para D'us ter juntado estes dois Mandamentos? A pergunta fica ainda mais forte quando observamos, na Parashá Kedoshim, que estas duas Mitzvót são mencionadas juntas no mesmo versículo: "Todo homem deve respeitar sua mãe e seu pai, e Meu Shabat você deve observar. Eu sou Hashem, teu D'us" (Vayikrá 19:3). Qual a conexão entre estas duas Mitzvót aparentemente tão diferentes? Além disso, se a primeira tábua traz Mandamentos entre o homem e D'us, por que a Mitzvá de honrar os pais, que aparentemente é uma Mitzvá entre o homem e seu semelhante, foi escrita na primeira tábua? E, finalmente, é interessante perceber que a Mitzvá de honrar os pais é uma das poucas Mitzvót da Torá cuja recompensa está explicitamente escrita. Mas por que a Torá utiliza a linguagem "alongar seus dias", ao invés de "aumentar seus dias"? Quem cumpre a Mitzvá de honrar os pais faz com que seu dia fique mais longo?
Muitas vezes surgem dilemas morais em nossas vidas. Por exemplo, um cardiologista que está a caminho do casamento de sua própria filha e recebe um chamado urgente para operar um paciente que está entre a vida e a morte, o que ele deve fazer? O que é mais correto, deixar sua própria filha sozinha na Chupá e salvar a vida de um estranho? Quem pode responder perguntas deste tipo, onde os dois lados parecem ser corretos?
Quando D'us nos entregou a Torá, não recebemos apenas um livro, recebemos um "Manual de instruções" da vida. Portanto, a Torá deve conter todos os ensinamentos que precisamos para tomar sempre as decisões corretas, inclusive quando surgem dilemas morais.
 Explica Rashi, comentarista da Torá, que a proximidade entre os assuntos de Shabat e honrar os pais nos ensina a resolver um difícil dilema moral. A Torá obriga os filhos a respeitarem seus pais, e também a Torá nos obriga a guardar o Shabat, evitando fazer qualquer atividade criativa neste dia. Mas o que acontece se os pais nos ordenam a desrespeitar o Shabat? O que prevalece? A ordem das Mitzvót no versículo nos ensina que devemos respeitar os pais, mas se eles nos ordenarem a quebrar o Shabat ou qualquer outra Mitzvá da Torá, estamos isentos de escutá-los. Por que? A explicação está nas últimas palavras do versículo, "Eu sou Hashem, teu D'us". É como se D'us estivesse dizendo: "Eu comandei a vocês escutarem seus pais, mas Eu também comandei seus pais a guardarem Meu Shabat. Por isso, se seus pais ordenarem que Meu Shabat seja quebrado, vocês estão isentos de escutá-los, pois Eu sou D'us, Quem criou todas as leis da Torá".
Mas se o ensinamento é em relação a todas as Mitzvót da Torá, isto é, que estamos isentos de escutar nossos pais se eles forem contra qualquer uma das 613 Mitzvót que D'us nos comandou, por que justamente o Shabat foi escolhido para nos transmitir este ensinamento?
Outra grande pergunta, que muitos educadores tentam responder, é por que os jovens atualmente desrespeitam tanto seus pais? Não estamos falando de casos extremos, como o de jovens que chegam a utilizar violência física e moral contra seus pais. A pergunta é sobre a maioria dos jovens, pessoas normais, mas que tratam seus pais como se fossem colegas de escola, passando por cima de suas ordens e tomando suas próprias decisões sem levar em consideração a opinião dos pais. Qual é a fonte deste desrespeito? Por que os jovens já não escutam mais a orientação e a experiência de seus pais?
Explica o Rav Yaacov Kamenetzky que a resposta está justamente na proximidade entre os conceitos do Shabat e de honrar os pais. O Shabat representa a Emuná (fé) de que D'us criou o mundo em 6 dias e descansou no sétimo dia. Todo aquele que guarda o Shabat demonstra, através do seu ato de respeito, que ele acredita que foi D'us Quem criou o universo e o primeiro homem, Adam Harishon, à Sua imagem e semelhança, isto é, em um nível espiritual muito alto. Portanto, esta pessoa consegue automaticamente entender que cada geração acima de nós estava mais próxima da Criação e, portanto, é mais meritória de receber respeito. Já uma pessoa que acredita que o mundo é uma grande "coincidência" e que viemos de simples proteínas que se juntaram ao acaso e formaram a vida, quanto mais a geração se afasta do "Big Bang", mais evoluída se torna. Portanto, cada nova geração se sente mais meritória do que a anterior.
O próprio Rav Yaacov Kamenetzky, quando já tinha certa idade, vivenciou este conceito ao viajar de avião acompanhado por seus filhos e netos. Ao seu lado viajava um professor israelense não-religioso que durante toda a viagem observou, surpreso, os netos do rabino vindo a todo instante para servi-lo ou apenas para verificar se estava tudo bem. Ele questionou como o rabino conseguia ter netos que o respeitavam tanto, já que ele também tinha alguns netos, mas que não lhe davam o mínimo respeito. O rabino respondeu que o professor havia ensinado aos seus netos que eles descendiam do macaco. Portanto, cada geração que passa se afasta mais dos macacos e torna-se mais evoluída e, portanto, era ele quem deveria honrar seus netos. Já os netos do rabino haviam aprendido que eles descendem de Adam Harishon, um ser criado à imagem e semelhança de D'us, e cada geração que passa vai sofrendo uma queda espiritual e se afastando da criação inicial. Portanto, eles entendem que o avô está em um nível mais elevado que eles e, por isso, o respeitam tanto.
A visão judaica nos ajuda a ver o passado com um brilho especial, justamente ao contrário da Cultura Ocidental, que enfatiza o progresso e vê o passado como algo velho e decadente. O judaísmo enfatiza que devemos viver de acordo com os ensinamentos da Torá, que foram entregue há mais de 3 mil anos e, apesar disso, continuam completamente atuais. Em Lashon Hakodesh, a palavra "progresso" é "Kadima", que vêm da mesma raiz de "Kedem", que significa "passado". Segundo a Torá, o progresso verdadeiro deve estar conectado com os valores do passado, pois estes valores verdadeiros e eternos podem nos ajudar muito em nossas vidas. Se não há respeito pelo passado, não há futuro.
É por isso que atualmente os jovens não respeitam mais seus pais, pois em suas vidas D'us não está mais presente. Para a juventude, a religião tornou-se algo mecânico, que se pratica apenas nas poucas vezes em que vão à sinagoga, sem nenhuma importância para seu cotidiano. Por isso, o respeito aos pais virou algo antiquado. Nos sentimos mais modernos que nossos pais, pois conhecemos melhor do que eles os computadores, os Ipads e os smartphones. Apenas nos esquecemos que eles têm algo que demoraremos muito para ter: experiência de vida.
Portanto, isto ajuda a explicar por que a recompensa de honrar os pais é "alongar seus dias". No nosso dia-a-dia, por inexperiência, perdemos muito tempo. Por causa de pequenos erros muitas vezes precisamos refazer as mesmas coisas várias vezes. Por isso, aquele que honra seus pais e escuta seus ensinamentos, que aproveita a experiência de vida que eles têm a oferecer, aproveita muito melhor seu tempo e evita muitos erros, fazendo com que seus dias sejam mais bem vividos, como se fossem mais longos.
Qualquer ser humano é criado através de uma "sociedade" entre o pai, a mãe e D'us. Portanto, quando um filho honra seus pais, D'us também é honrado, pois Ele diz: "Se eu estivesse ali com eles, também estaria recebendo esta honra". Mas se um filho não respeita seus pais, D'us também se sente desrespeitado e diz: "Se eu estivesse ali com eles, também estaria sendo desrespeitado". É por isso que o quinto Mandamento, que nos comanda a honrar nossos pais, apesar de ser entre o homem e seu semelhante, está na primeira tábua, junto com os outros Mandamentos entre o homem e D'us.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
Ex. 18:1-20:26, Is. 6:1-7; 9:6-7, Mt. 5:8-20