Mostrando postagens com marcador Parasha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Parasha. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de novembro de 2016

ENXERGANDO O QUADRO COMPLETO - PARASHÁ LECH LECHÁ 5777

Amy Carmichael nasceu em uma pequena vila na Irlanda do Norte. Era a mais velha de sete filhos. Todos na casa de Amy tinham olhos azuis. Todos, menos Amy. O sonho dela era ter olhos azuis como o mar. Certo dia ela escutou que D'us responde a todas as rezas e passou o dia todo pensando nisso. À noite, na hora de dormir, ela rezou muito. Pediu que, quando acordasse, tivesse olhos azuis como os de sua mãe. Ao acordar no dia seguinte, a primeira coisa que Amy fez foi correr para o espelho. Mas, para seu desapontamento, viu que seus olhos continuavam castanhos. Sua mãe veio consolá-la e ensinou-lhe que D'us escuta todas as rezas, mas o "não" também é uma resposta, pois somente Ele sabe o que é o melhor para nós. Amy não entendia por que D'us não atendeu sua reza, mas confiava Nele.

Amy cresceu e estava sempre ajudando as pessoas, mas era uma candidata improvável para trabalhos de caridade, pois sofria de neuralgia, uma doença dos nervos que deixava seu corpo fraco, dolorido e que a deixava de cama por semanas. Mesmo assim Amy foi trabalhar na Índia. Havia escutado que famílias pobres, em momentos de desespero, vendiam seus filhos para a prostituição forçada. Amy começou a trabalhar ativamente para "comprar" estas crianças e dar a elas uma vida digna.

Para poder circular na Índia e comprar crianças sem ser reconhecida como estrangeira, Amy precisou se disfarçar de indiana. Ela passava pó de café para escurecer sua pele, cobria os cabelos e se vestia como as mulheres locais. Assim, ela podia entrar e sair livremente nos locais de venda de crianças sem chamar a atenção de ninguém. Um dia, uma amiga olhou para ela disfarçada e disse:

- Puxa, Amy, você já pensou como seria difícil você se disfarçar se tivesse olhos azuis como sua família?

Naquele momento Amy entendeu a grandeza de D'us. Ele havia lhe dado olhos bem escuros, pois sabia que isto seria essencial para a sua missão de vida.

Amy montou uma instituição chamada "Dohnavur Fellowship", situada em Tamil Nadu, no sul da Índia. O local tornou-se um orfanato que abrigou e salvou centenas, talvez milhares, de crianças "compradas", dando a elas um futuro. Amy Carmichael morreu na Índia, em 1951, aos 83 anos de idade. (História real) 
***********************************************
Nesta semana lemos a Parashá Lech Lechá (literalmente "Vá para você"), que começa a descrever a vida de uma das pessoas mais incríveis que já passaram pela face da Terra: Avraham Avinu, o nosso patriarca que trouxe o monoteísmo de volta ao mundo depois de muitas gerações de idolatria e esquecimento de D'us. Avraham era uma pessoa com um gigantesco potencial, e D'us transformou este potencial em realização através de 10 testes que ele passou em sua vida. Após cada teste que Avraham conseguia superar, ele crescia espiritualmente em uma nova área e conseguia se aproximar um pouco mais da perfeição.

Sabemos que Avraham nos deixou ensinamentos preciosos. Porém, para aprender mais de Avraham, precisamos entender exatamente quais foram os testes pelos quais ele passou. Muitas vezes olhamos os testes de maneira superficial e acabamos perdendo a lição principal. Um exemplo é o segundo teste descrito nesta Parashá: "Houve uma fome na terra, e Avram desceu para o Egito para morar lá, pois a fome era muito severa na terra" (Bereshit 12:10). Aparentemente o teste foi passar pela dificuldade da fome e a necessidade de se mudar para conseguir seu sustento sem nenhum tipo de questionamento.

Mas para entender de forma mais profunda qual foi exatamente o teste de Avraham, precisamos perceber o contexto no qual este teste aconteceu. A Parashá começa descrevendo o teste de "Lech Lechá", no qual Avraham precisou abandonar a sua casa, sua comodidade e sua "zona de conforto" para ir a uma terra estranha, na qual ele não sabia o que encontraria. Na verdade, Avraham não sabia nem mesmo para onde iria, pois D'us ainda não havia revelado. Mesmo assim, sem nenhum questionamento, ele abandonou sua nação, seus amigos e sua família e iniciou sua jornada, passando com louvor pelo difícil teste. Mas ainda não era o momento de Avraham descansar. Logo que ele chegou em Israel, o objetivo que D'us havia definido para sua viagem, houve uma grande fome que o obrigou a ir ao Egito.

De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), o teste não foi a fome propriamente dita. O desafio foi não questionar a vontade de D'us, pois Ele havia ordenado a Avraham abandonar tudo e ir para Israel, mas assim que Avraham chegou lá, D'us fez com que tivesse que ir embora. Avraham sabia que, se D'us havia pedido para que ele fosse para Israel, era para que ele pudesse atingir seu potencial espiritual. Porém, agora que ele havia acabado de chegar ao seu objetivo, ao lugar onde poderia crescer, ele se deparou com um obstáculo e foi obrigado a ir ao Egito, uma atitude que aparentemente contradizia todo o propósito da sua missão na vida. Apesar de Avraham acreditar que seu objetivo era estar em Israel, ele se viu obrigado a sair assim que chegou. Ele poderia ter questionado os motivos pelos quais ele havia sido forçado a abandonar seu objetivo espiritual.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que, apesar das dificuldades, Avraham não se sentiu frustrado nem questionou D'us. Ele reconheceu que não havia entendido completamente como sua jornada de "Lech Lechá" deveria ocorrer, pois sabia claramente que tudo está nas mãos de D'us, cuja sabedoria é infinita. Avraham fez a sua parte, se esforçou, mas aceitou que tudo o que estava além do seu controle era a Vontade de D'us e, por isso, não havia nenhum motivo para desanimar. Ele sabia que a fome não era por "causas naturais", era um decreto que vinha diretamente de D'us, então seguramente havia explicação, havia alguma lógica no Plano Divino.

De fato, enxergando o quadro completo, todos os eventos que ocorreram no Egito e todos os desafios que Avraham enfrentou demonstraram ter muitos benefícios, tanto para Avraham quanto para suas futuras gerações. Por exemplo, Avraham voltou do Egito com muitas riquezas, o que teve importantes implicações espirituais. Além disso, o incidente do sequestro de Sara no Egito e a praga que atingiu o Faraó é um exemplo de "Maassê Avót, Siman Lebanim" (Os atos dos nossos patriarcas são um "sinal" para seus futuros descendentes). Avraham estava preparando as "fundações" das futuras experiências que os judeus passariam no Egito muitos séculos depois, incluindo as pragas que atingiriam o Faraó e os egípcios por seus maus atos.

Explica o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) que todos os testes que Avraham passou na vida também serão enfrentados pelos seus descendentes, e a forma como ele lidou com seus desafios também foi herdada por nós e nos dará a habilidade para também superarmos os testes que surgem em nossas vidas. Em especial, o teste da fome é muito relevante para nós. Muitas vezes tomamos decisões baseadas no nosso entendimento do que é correto e na nossa vontade de cumprir a Vontade de D'us. Isto muitas vezes envolve mudanças em nossas vidas. Podem ser mudanças grandes, como uma mudança de país, uma mudança de carreira, a decisão de se casar ou de ter filhos, ou até mesmo mudanças pequenas, como o comprometimento de crescer espiritualmente através de pequenos acréscimos no estudo da Torá e no cumprimento das Mitzvót. Normalmente, quando a pessoa assume mudanças em sua vida, já tem suas expectativas de quais desafios terá que enfrentar e como poderá superá-los. Entretanto, é comum nos deparamos com dificuldades e obstáculos que não havíamos previsto e que parecem contradizer nosso plano de crescimento. Nestas situações, há uma forte inclinação para ficarmos frustrados por não conseguirmos crescer da maneira que desejávamos.

Mas por que nos sentimos frustrados quando nossos esforços não funcionam como havíamos planejado? Pois achamos que sabemos qual é o caminho ideal para atingirmos o nosso objetivo e o nosso verdadeiro potencial, e pensamos que somente assim nos tornaremos pessoas melhores. Quando somos colocados em uma situação que nos impossibilita de darmos continuidade ao nosso plano de crescimento previsto, nos sentimos frustrados porque achamos que isto nos impedirá de atingir o nosso objetivo. Portanto, a fonte da nossa frustração é acharmos que sabemos exatamente o que vai nos fazer chegar ao nosso máximo potencial.

Então qual é a maneira de lidar com estes obstáculos que chegam de maneira imprevista? Devemos reconhecer que somente D'us sabe quais circunstâncias a pessoa deve enfrentar na vida para potencializar seu crescimento, e que qualquer dificuldade que encontramos na vida é apenas um meio que Ele nos manda para ajudar o nosso crescimento e nos possibilitar o desenvolvimento de novas habilidades. Pensamos que as dificuldades nos afastam do nosso objetivo, mas apenas porque somos limitados. Apenas D'us, em Sua infinita sabedoria, sabe o que é realmente o melhor para nós e qual é o nosso verdadeiro caminho de crescimento.

Muitas vezes nos deparamos com obstáculos e dificuldades. Distrações inevitáveis, doenças, mudanças de vida. Nos sentimos frustrados por pensar que não podemos crescer da maneira que desejávamos. Vemos estas dificuldades como obstáculos que nos impedem de nos conectarmos a D'us. A lição do teste da fome pelo qual passou Avraham nos ensina a reconhecer que estes "incômodos" vêm de D'us, e certamente eles carregam o desafio exato que necessitamos naquele momento. Somente assim conseguiremos evitar a atitude prejudicial da frustração e poderemos focar em enfrentar os desafios com alegria e confiança em D'us.

SHABAT SHALOM    
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn.12:1-17:27, Is. 40;27

sábado, 14 de maio de 2016

ESFRIANDO OS ÂNIMOS - PARASHAT KEDOSHIM 5776

"Nachum e Chani eram dois jovens judeus que haviam chegado à idade de se casar. Eles foram apresentados um ao outro por um "Shadchan" (profissional que apresenta pessoas com o propósito de casamento) e, após alguns encontros, perceberam que tinham muito em comum. Os encontros estavam indo tão bem que chegaram a pensar em ficarem noivos.

Porém, antes do noivado se concretizar, o Shadchan recebeu uma grande soma de dinheiro para procurar um bom rapaz para uma garota americana que estava estudando em Israel. Pensando em todos os rapazes que conhecia, o Shadchan chegou à conclusão de que Nachum seria perfeito para aquela menina americana. Completamente cego pelo dinheiro, ele bolou um plano perverso para terminar o relacionamento de Nachum e Chani. Em primeiro lugar, ele contatou os pais de Nachum e disse a eles: "Ouçam, estou feliz com este belo Shiduch do Nachum com a Chani, mas eu gostaria de dizer algo a vocês, para que não surjam queixas contra mim após o casamento: os pais da Chani estão espalhando maus rumores sobre vocês". Os pais de Nachum ficaram arrasados com aquela notícia, e imediatamente decidiram interromper o Shiduch.

Não querendo correr riscos, o Shadchan ainda foi falar com os pais de Chani: "Escutem bem, eu não quero que vocês tenham problemas depois do casamento. Eu sei que parece um belo Shiduch da Chani com o Nachum e que tudo está indo bem, mas quero que vocês saibam que a família de Nachum está espalhando rumores desagradáveis ​​sobre vocês". Ao escutar isso, os pais de Chani também prontamente decidiram interromper o Shiduch. Nachum, que agora estava livre para conhecer outras moças, foi apresentado à garota americana, mas o Shiduch acabou não dando certo.

Três meses depois, Nechemia, o pai de Nachum, pensando sobre todo o incidente, não conseguia entender por que Efraim, o pai de Chani, teria espalhado rumores sobre eles. Ele o conhecia desde os tempos em que ainda eram jovens estudantes da Yeshivá e sabia que Efraim não era este tipo de pessoa. Ele decidiu conversar com Efraim pessoalmente para esclarecer a história.

- Por que você fez isso, de espalhar maus rumores sobre nós? - perguntou Efraim, muito chateado - Nós te fizemos algo?

- Eu? - perguntou confuso Efraim - Fomos informados de que vocês fizeram isso, Nechemia! Estávamos muito chateados, pois escutamos que vocês estavam espalhando maus rumores sobre nossa família!

Após alguns instantes de confusão, Efraim e Nechemia entenderam que tudo havia sido um plano do Shadchan que, por ganância, havia causado toda aquela confusão. Chamaram os filhos, conversaram com eles e, naquela mesma noite, um prato foi quebrado e o noivado de dois jovens que não cabiam em si de tanta alegria foi realizado".

Quantos aborrecimentos e sofrimentos poderiam ter sido evitados se, ao invés de guardarmos rancor no coração, tivéssemos a grandeza de julgar as pessoas para o bem e tentássemos esclarecer a situação antes de tomarmos decisões precipitadas? (História real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).
*********************************************** 
Nesta semana lemos a Parashat Kedoshim (que literalmente significa "Sagrados"), que está repleta de Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), nos ensinando que, para atingirmos um nível de santidade elevado, não é suficiente apenas nos preocuparmos com o nosso relacionamento "Bein Adam LaMakom" (entre o homem e D'us), também é fundamental sermos muito cuidadosos nos nossos relacionamentos interpessoais. E entre as Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" trazidas na Parashat, há uma que é extremamente importante para o nosso cotidiano: "Não odeie seu companheiro em seu coração; advirta seu companheiro e não carregue sobre ele a transgressão" (Vayikrá 19:17).

É importante lembrar que, quando a Torá utiliza a palavra "ódio", não se refere apenas a um nível de ódio venenoso e prejudicial, mas inclui também níveis muito menores de descontentamento com o próximo. Por isso, precisamos ser muito cuidadosos nos nossos relacionamentos e com os nossos sentimentos em relação às outras pessoas. Porém, este versículo desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, a Torá está ressaltando que é proibido odiar outra pessoa no coração, o que aparentemente nos ensina que o problema é apenas quando o ódio fica guardado no coração. Pode ser que o ódio expressado externamente não está proibido pela Torá? Isto parece estranho, em especial por sabermos que o sentimento de ódio gratuito é tão grave que causou a destruição espiritual do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Além disso, qual é a conexão entre as diferentes partes do versículo, que aparentemente não tem nenhuma relação entre si? E, finalmente, o que significam as palavras "e não carregue sobre ele a transgressão"?

De acordo com o Talmud (Erchin 17b), realmente a proibição descrita no versículo se refere apenas ao ódio que fica guardado no coração da pessoa e não inclui, por exemplo, o ódio expressado externamente. Obviamente que é proibido expressar o descontentamento com outra pessoa de uma maneira hostil, que causa sofrimentos, e caso a pessoa faça isso, pode transgredir uma série de outras graves transgressões, como "não se vingar" e "não guardar rancor". Porém, aquele que expressa seu rancor e seu descontentamento não transgride a Mitzvá de "Não odeie seu companheiro em seu coração", pois neste caso o ódio não ficou guardado no coração. De acordo com o Sefer HaChinuch (Mitzvá 238), apenas transgride esta Mitzvá aquele que, ao ser machucado por alguém, guarda o ódio dentro de si e não tenta expressar seus sentimentos para a pessoa que o machucou. Mas por que a Torá focou, nesta Mitzvá, apenas o ódio do coração?

Quando a pessoa machucada discute com o agressor e vai tirar satisfações, normalmente o ódio diminui. Porém, quando a pessoa não toma nenhuma atitude, ela faz com que o ódio cresça dentro dela, causando consequências ainda mais graves. Um exemplo disso é o incidente descrito no Tanach sobre os filhos de David HaMelech (Rei David), Amnon, Tamar e Avshalom. Amnon cometeu um erro gravíssimo com sua meia-irmã Tamar, causando em Avshalom, irmão de Tamar, um ódio enorme. Nossos sábios afirmam que se Avshalom tivesse ido falar com Amnon sobre o que aconteceu, seu ódio teria se dissipado. Mas, ao invés disso, Avshalom guardou o ódio em seu coração, causando com que este ódio fosse crescendo e se tornando doentio, até o ponto em que ele se levantou e, dois anos depois, assassinou Amnon. Apesar do ato de Amnon ter sido abominável e de Avshalom ter aparentemente o direito de estar furioso com o que aconteceu, no entanto o grande erro de Avshalom foi não ter ido falar com Amnon, e assim ter deixado o ódio crescer até chegar ao ponto de causar, além do assassinato, outras terríveis consequências futuras descritas no Tanach.

Foi por isso que nesta Mitzvá a Torá focou justamente no ódio guardado dentro do coração, pois é um ódio que tem um agravante não encontrado no ódio expressado externamente. Guardar no coração pode resultar em uma intensificação do ódio e pode trazer consequências ainda mais desastrosas, o que poderia ter sido evitado se tivesse sido colocado para fora. O Sefer HaChinuch explica que esta diferença faz com que o ódio no coração seja ainda pior do que o ódio expressado, pois causa um enorme mal entre as pessoas, além de conflitos permanentes entre irmãos e amigos.

Com este conceito podemos entender a continuação do versículo: "Advirta seu companheiro". Em um entendimento mais simples, estas palavras referem-se à Mitzvá de repreender o próximo quando o vemos cometendo alguma transgressão. Da mesma maneira que existe o crime de "omissão de socorro", quando alguém não faz nada para salvar uma pessoa que está em risco de vida, também existe a "omissão de socorro espiritual", quando alguém vê seu companheiro fazendo uma transgressão, isto é, manchando sua própria alma e colocando seu futuro espiritual em risco, e não faz nada para salvá-la. Porém, estas palavras do versículo também têm outro significado, e inclui uma situação na qual a pessoa foi ferida verbalmente por seu companheiro. Neste caso, a pessoa não deve guardar a mágoa para si, em seu coração, ao contrário, ela deve falar com quem a agrediu. "Advirta seu companheiro" significa que, ao invés de guardar no coração, coloque o que está incomodando para fora, de uma maneira educada e controlada, advertindo quem lhe agrediu.

De acordo com o Rav Chaim ben Atar zt"l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Or HaChaim, há dois possíveis resultados de expor para a pessoa que nos agrediu, de forma equilibrada, a dor que ela nos causou: a pessoa pode explicar o seu lado da situação, mostrando que, na realidade, tudo não passou de um grande mau entendido, ou ela pode admitir que se comportou de maneira inadequada e, agora que percebeu o dano que causou, pedirá desculpas e se comprometerá a não errar novamente. Isto explica as palavras finais do versículo: "Não carregue sobre ele a transgressão", isto é, mesmo que alguém te machuque, você não deve imediatamente assumir que a pessoa fez uma transgressão intencional. Ao contrário, não jogue sobre ela a culpa, julgue-a de maneira favorável e dê a ela uma chance de se explicar. Dê o benefício da dúvida a todas as pessoas, pois mesmo que alguém tenha errado, ao conversarmos com ela sobre o seu erro, ela poderá se arrepender de coração ao perceber os danos que causou.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que desta Mitzvá aprendemos o quanto é grave e condenável guardar ódio em nossos corações, e o quanto uma simples conversa pode ser importante para dissipar o ódio acumulado. A experiência demonstra que, quando seguimos as instruções da Torá nesta área, o resultado quase sempre é que a pessoa se explica ou pede desculpas pelos danos não intencionais causados. A grande maioria das pessoas não é ruim e não tem intenção de causar danos e machucar. Por isso, quando a pessoa que foi agredida com duras palavras explica ao agressor como ela está se sentindo mal, o resultado é quase sempre positivo, evitando uma desnecessária intensificação do ódio e acabando com futuras dores e sofrimentos.

Não é fácil abordar alguém que nos machucou, ainda mais de uma maneira calma e educada. Porém, o medo de que não dará certo não nos isenta da obrigação da Torá de tentarmos esclarecer a situação. Existe uma importante Mitzvá de julgar para o bem e nunca acreditar nas primeiras impressões. Esta Mitzvá pode nos salvar da transgressão de "Não odeie seu companheiro em seu coração" e suas terríveis consequências. Muito sofrimento e dor são causados por problemas que nem mesmo existem na realidade, e tudo poderia ser resolvido com uma conversa franca e aberta.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9

sábado, 5 de dezembro de 2015

DEMONSTRANDO CARINHO - PARASHAT VAIESHEV E CHÁNUKA 5776

Rogério Kaufman (nome fictício) era um experiente alpinista, mas em uma de suas escaladas na Cordilheira dos Andes ele acabou se perdendo do resto do grupo. Em pouco tempo ele estava sem provisões, sem água e quase congelando. Desesperado, começou a sentir que a morte se aproximava. Seu celular já estava com pouca bateria e ele tentou chamar o socorro, mas não havia mais créditos.

Preparando-se para o seu fim, Rogério escutou seu celular tocar.  Era a telefonista da empresa de celular, informando que a empresa tinha uma excelente promoção e queria saber se ele estava interessado em adquirir um novo plano de ligações. Rogério aproveitou aquele "milagre" e começou a pedir ajuda para a telefonista. Ele levou cerca de meia hora para convencê-la de que aquilo não era um trote. Em seguida, ele levou mais seis horas para guiar o helicóptero de resgate até onde ele estava. Sua bateria não terminou durante todo aquele longo tempo de uso pois a temperatura congelante fez com que ela durasse muito mais" (História real)

A pessoa que quer ver a Supervisão Particular de D'us pode enxergá-la em cada pequeno acontecimento de nossas vidas. Pode ser na promoção especial da companhia de celular ou no tempo frio que faz a bateria durar mais. O importante é nunca esquecer que tudo isto aconteceu somente porque D'us decidiu manter Rogério vivo. Quem presta atenção nos detalhes percebe quanto amor recebemos de D'us a cada momento.
************************************************** 
Nesta semana lemos a Parashat Vaieshev, que começa a descrever a história dos filhos de Yaacov, em especial a saga de Yossef, que foi vendido como escravo por seus próprios irmãos, foi levado ao Egito acorrentado e acabou se tornando o vice-rei, a segunda pessoa mais poderosa do Império Egípcio. O que motivou a venda de Yossef foi a inveja dos seus irmãos, pelo fato de Yaacov sentir um amor especial por Yossef. E este amor especial de Yaacov por Yossef nos remete à próxima festa do calendário judaico: Chánuka.

No anoitecer deste próximo domingo (06/12) acenderemos a primeira vela de Chánuka, recordando os enormes milagres que D'us fez aos nossos antepassados na época da dominação grega. O Talmud (Shabat 21b) afirma que o motivo pelo qual nossos sábios fixaram esta festa para todas as gerações é a recordação do milagre do óleo. Os gregos haviam dominado os judeus e proibido os Serviços do Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Quando os judeus conseguiram finalmente expulsar os gregos, quiseram imediatamente recomeçar os Serviços do Beit Hamikdash, entre eles o acendimento diário da Menorá. Porém, um único pote de óleo foi encontrado intacto e lacrado, e isto era suficiente para acender a Menorá por apenas um dia, mas ela ardeu milagrosamente por 8 dias, o tempo suficiente para que mais óleo puro fosse produzido.

Porém, este comentário do Talmud desperta um grande questionamento. Na realidade, em Chánuka aconteceram dois grandes milagres, pois além do milagre do óleo também aconteceu o milagre da batalha. O pequeno exército dos Chashmonaim, um grupo de Cohanim (sacerdotes), se revoltou contra o poderoso exército grego, o mesmo exército que havia alcançado vitórias militares no mundo inteiro. Os Chashmonaim, através da tática de guerrilhas, conseguiram expulsar os gregos, um milagre impressionante se compararmos o poderio militar do exército grego e a insignificância do exército dos Chashmonaim. Além do milagre da batalha ter sido algo gigantesco, certamente foi muito mais importante do que o milagre do óleo, pois a vitória militar possibilitou a derrubada da hegemonia grega e abriu o caminho para a retomada do cumprimento das Mitzvót, que haviam sido proibidas pelos gregos, enquanto o milagre do óleo não teve absolutamente nenhuma participação na libertação do povo judeu. Então por que a Festa de Chánuka foi estabelecida em recordação ao milagre do óleo, ao invés de ter sido estabelecida em recordação ao incrível milagre da vitória militar?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que D'us faz dois tipos de milagre. Um tipo de milagre são aqueles essenciais, que tem uma necessidade absoluta de acontecer. Por exemplo, o milagre do "Man" que caiu no deserto e alimentou todo o povo judeu durante os 40 anos em que eles permaneceram no deserto foi um milagre extremamente necessário, pois possibilitou que os judeus ficassem vivos e bem alimentados mesmo em um ambiente tão inóspito como o deserto. Porém, há outro tipo de milagre, que são aqueles não essenciais. Mas se o milagre é "desnecessário", então para que D'us o faz? Pois a principal função deste tipo de milagre "desnecessário" é mostrar o amor de D'us por aquele que o recebe.

Há na Torá diversos exemplos deste segundo tipo de milagre. Quando David Hamelech matou seu oponente Goliat (Golias) com uma pedrada, o impacto deveria ter derrubado Goliat para trás, mas de maneira milagrosa ele caiu para frente. Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que D'us fez este milagre apenas para que David tivesse que dar menos passos quando foi cortar a cabeça de Goliat. Este é claramente um milagre que não era necessário, mas que D'us fez para demonstrar Seu amor por David.

Também com Avraham percebemos o mesmo tipo de milagre. Quando D'us mostrou para Avraham a Terra de Israel e prometeu que seus descendentes herdariam aquela terra para sempre, está escrito: "Por favor, levante seus olhos e veja, a partir do lugar em que você se encontra, norte, sul, leste e oeste" (Bereshit 13:14). De acordo com o Rav Chaim ben Atar zt"l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Or HaChaim, as palavras "a partir do lugar em que você se encontra" parecem desnecessárias. Ele explica que estas palavras escondem um grande milagre que D'us fez para Avraham. A partir do lugar onde Avraham se encontrava, sem nem mesmo precisar virar a cabeça, ele conseguiu ver a Terra de Israel inteira, em todas as direções. Novamente um milagre que não tinha necessidade de acontecer, mas que ocorreu como uma demonstração do amor de D'us por Avraham. Estes dois exemplos de milagres ocorreram como uma expressão do amor infinito de D'us por aqueles que O servem com dedicação. Na realidade, quanto menor a necessidade de um milagre, maior a demonstração do amor de D'us pela pessoa que recebe.

Neste contexto nós conseguimos entender a enorme importância do milagre do óleo. Enquanto os milagres que levaram à incrível vitória militar foram essenciais para a continuidade do povo judeu, o milagre do óleo não tinha uma necessidade fundamental de acontecer. E é justamente por esta pouca necessidade que o milagre do óleo representa uma demonstração de amor muito maior de D'us. Justamente por ter sido um milagre "desnecessário", demonstrou a afeição enorme de D'us pelos Chashmonaim.

Mas este conceito desperta outro questionamento. De acordo com os exemplos citados anteriormente, vemos que D'us somente realiza milagres "desnecessários" para grandes Tzadikim (Justos), como Avraham Avinu e David HaMelech, pessoas que andavam de forma muito reta nos caminhos de D'us. Por que no caso do óleo D'us também escolheu mudar a natureza e fazer um milagre "desnecessário" para os Chashmonaim?

A resposta está em um importante conceito espiritual, de que D'us se comporta "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, Ele se comporta de acordo com o nosso comportamento. Quando os Chashmonaim conseguiram finalmente expulsar os gregos e retomar o Beit Hamikdash, eles quiseram imediatamente reiniciar os Serviços Divinos que haviam sido interrompidos. Um dos Serviços que eles queriam retomar imediatamente era justamente o acendimento da Menorá, mas somente um pote de óleo lacrado foi encontrado, o que seria suficiente para manter a Menorá acesa por um único dia. Porém, levaria mais 7 dias para que mais óleo puro fosse produzido. Nossos sábios explicam que, naquelas condições nas quais o povo judeu se encontrava, seria tecnicamente permitido até mesmo utilizar óleo impuro, mas os Chashmonaim quiseram embelezar a Mitzvá do acendimento da Menorá, se esforçando para fazê-la da melhor forma possível, como um sinal do grande amor que sentiam por D'us e por Suas Mitzvót. Como eles estavam dispostos a ir além da lei, então também D'us se comportou com eles "além da lei", quebrando as leis da natureza e fazendo um grande milagre "desnecessário", como demonstração do Seu amor por eles.

Isto nos ajuda a entender também uma das Halachót (Leis) de acendimento da Chanukiá. De acordo com a Halachá, para cumprirmos a Mitzvá do acendimento das velas de Chánuka da forma mais básica é suficiente que cada pessoa acenda uma única vela em cada uma das noites de Chánuka. Mas o costume adotado por todo o povo judeu é de se esforçar e fazer além do básico, cumprindo a Mitzvá da maneira mais completa e bonita possível, acrescentando uma vela a cada dia de Chánuka. Isto é uma lembrança do esforço dos Chashmonaim para embelezar a Mitzvá do acendimento da Menorá, e do fato de D'us ter "embelezado" Seu ato, medida por medida, fazendo um milagre "desnecessário" pelo povo judeu.

Chánuka é uma festa única e incrível, na qual revivemos o milagre do óleo e o amor mútuo que existe entre o povo judeu e D'us. E um dos ensinamentos de Chánuka que também devemos trazer e aplicar aos nossos dias é tentar cumprir cada Mitzvá da forma mais completa e bonita possível, pois isto é uma grande demonstração do nosso amor por D'us. E quanto mais nos aproximarmos dos caminhos dos nossos antepassados, que viviam de forma correta e justa, mais traremos para nós mesmos, e para o mundo inteiro, o amor recíproco de D'us.
SHABAT SHALOM e CHÁNUKA SAMEACH
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 37:1-40:23, Am. 2:6-3:8

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

APRENDENDO COM O MAL - PARASHAT VAISHLACH 5776

"Um grupo de doze alunos americanos que estudavam em uma Yeshivá em Israel estava certo dia reunido durante o almoço relembrando sobre as delícias da gastronomia americana. Eles queriam muito comer uma boa refeição e sentiam saudades da boa comida americana, mas não encontravam em Israel um lugar que saciasse essa vontade.

Durante o período de férias eles tiveram uma incrível ideia. Coletaram cerca de cinquenta dólares de cada um dos alunos, o suficiente para comprar uma passagem aérea de ida e volta aos Estados Unidos. Um dos alunos então embarcou, em uma jornada de um dia e meio de viagem, com o único propósito de trazer comida de um restaurante famoso dos Estados Unidos. O rapaz foi em um dia e voltou, triunfante, no dia seguinte, com a deliciosa comida dentro de sua mala" (História Real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).

Aprendemos dos nossos desejos que, quando consideramos algo realmente importante, nos esforçamos no limite para alcança-lo. Por que não fazemos o mesmo em relação ao nosso crescimento espiritual? Estaríamos dispostos a fazer os mesmos esforços se fosse para ir aos Estados Unidos comprar um livro ou escutar uma aula de Torá? 

************************************************** 

A Parashat desta semana, Vaishlach, começa com a volta de Yaacov Avinu depois de mais de 30 anos longe de casa, dos quais 20 anos foram passados na casa de seu tio Lavan, trabalhando para ele. Como o principal motivo da viagem de Yaacov havia sido para fugir da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo, a primeira providência de Yaacov foi enviar mensagens apaziguadoras para seu irmão, na tentativa de promover um reencontro amigável. Ele começou com a seguinte mensagem: "Com Lavan eu vivi, e permaneci até agora" (Bereshit 32:5). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que as palavras de Yaacov tinham um duplo sentido, pois a palavra "vivi" em hebraico é "גרתי", que de maneira rearranjada forma a palavra "תריג", equivalente ao valor númerico 613, o número de Mitzvót da Torá. De acordo com Rashi, Yaacov estava dizendo para seu irmão Essav: "Apesar de ter passado tanto tempo com Lavan, uma pessoa completamente desonesta e trapaceira, mesmo assim eu cumpri as 613 Mitzvót da Torá e não aprendi com os maus atos dele".

Porém, esta explicação do Rashi é difícil de ser entendida, pois esta não parece ser uma mensagem de conciliação. Ao contrário, aparentemente a intenção de Yaacov era intimidar seu irmão Essav, mostrando que ele era uma pessoa íntegra e, por isso, certamente D'us o protegeria em um possível confronto. Portanto, se o propósito era uma tentativa de apaziguar seu irmão, como entender as palavras aparentemente intimidadoras de Yaacov?

O Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica as palavras de Yaacov de uma maneira interessante. Ele afirma que Yaacov não estava atacando Essav com esta afirmação, ao contrário, estava tranquilizando-o. Quando Yaacov disse que cumpriu as Mitzvót e não havia aprendido com os atos de Lavan, ele estava fazendo uma grande autocrítica, e por isso estava comunicando a Essav que não havia nada a temer.

Mas qual foi exatamente a autocrítica de Yaacov? Nossos sábios explicam que Lavan era uma pessoa extremamente ágil em cometer maldades e trapaças. Quando permitiu que suas filhas se casassem com Yaacov, cobrou muito caro pelo dote, fazendo com que Yaacov tivesse que trabalhar 7 anos por cada filha, um tempo absurdo. Além disso, ele trocou as filhas no momento do casamento, não cumprindo sua palavra. E para completar, Lavan trocava as condições do salário de Yaacov a todo instante, sempre buscando formas de levar vantagem. Yaacov estava dizendo para Essav que, apesar de ter cumprido as 613 Mitzvót durante todos aqueles anos, ele não havia feito com o mesmo fervor que Lavan cometia as suas transgressões. Yaacov estava reconhecendo que não havia aprendido a ter agilidade nos seus bons atos no mesmo nível que Lavan tinha nos seus maus atos.

Desta explicação do Chafetz Chaim aprendemos uma incrível lição: nosso cumprimento de bons atos é julgado em comparação com a forma como os Reshaim (malvados) cometem suas transgressões. Se os Reshaim fazem seus maus atos com mais entusiasmo do que nós cumprimos nossos bons atos, isto se transforma em uma grande acusação espiritual contra nós. Por isso temos que tomar muito cuidado para sempre fazermos as Mitzvót com agilidade, alegria e fervor, pois é assim que infelizmente os Rashaim cometem as suas inúmeras transgressões.

Este conceito também é trazido pela Torá em outro episódio que teve grande importância para o povo judeu. Quando Bilaam, o grande profeta dos outros povos, partiu para amaldiçoar o povo judeu, a Torá descreve que ele se levantou cedo de manhã, utilizando a linguagem "Vaiakam" (se levantou). O Midrash (parte da Torá Oral) nos descreve que quando D'us viu esta agilidade de Bilaam para fazer a enorme transgressão de amaldiçoar um povo inteiro, Ele exclamou: "Seu Rashá (malvado)! Avraham, o patriarca deles, já te superou!", pois está escrito (em relação ao episódio do sacrifício de Ytzchak): "E (Avraham) madrugou ("Vaiashkem")" (Bamidbar 22:21). Apesar de a linguagem "Vaiakam", que está escrita em relação a Bilaam, se referir a acordar cedo, a linguagem "Vaiashkem", que está escrita em relação a Avraham, se refere a acordar ainda mais cedo. Portanto, D'us estava informando a Bilaam que Avraham, em sua vontade de cumprir a vontade de D'us e sacrificar seu filho, havia se levantado mais cedo do que Bilaam se levantou quando tentou amaldiçoar o povo judeu. Mas que mensagem o Midrash está nos ensinando? Na prática o que importa qual dos dois acordou mais cedo?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a grande força de maldição de Bilaam era mostrar para D'us falhas nas pessoas ou povos, e com isso despertar um Julgamento Celestial mais rigoroso sobre seus inimigos. Foi justamente isto que ele tentou fazer contra o povo judeu. Bilaam queria retratar o povo judeu de uma maneira negativa ao mostrar que ele fazia seus atos de maldade com muito mais agilidade e fervor do que o povo judeu cumpria suas Mitzvót. Isto realmente teria se transformado em uma grande acusação espiritual contra o povo judeu e teria trazido consequências trágicas. Porém, D'us respondeu para Bilaam que o patriarca do povo judeu, Avraham, já havia demonstrado um nível ainda maior de agilidade e fervor no cumprimento das Mitzvót do que Bilaam havia demonstrado quando cometeu suas maldades. O que protegeu o povo judeu da enorme acusação espiritual que surgiria naquele momento foi que os descendentes de Avraham herdaram dele esta característica de agilidade nas Mitzvót, e por isso possuíam suficientes méritos para vencer a acusação de Bilaam.

No "Shemá Israel", que nós repetimos duas vezes todos os dias, dizemos: "E amarás a Hashem, teu D'us, com todo teu coração" (Devarim 6:5). A palavra "coração" está escrita de uma maneira diferente, "לבבך", e não como seria esperado, "לבך". O Talmud (Brachót 54a) aprende do fato de a letra "ב" estar escrita duas vezes que devemos amar a D'us com nossos dois "Yetzer", com o nosso "Yetzer Hatov" (boa inclinação) e também com o nosso "Yetzer Hará" (má inclinação). Mas como podemos utilizar nossa má inclinação para servir a D'us?

Uma das maneiras é observando a agilidade e fervor que utilizamos para ir atrás dos nossos desejos e tentar aplicar esta mesma agilidade em relação ao nosso Yetzer Hatov. Para preencher nosso desejo de comer algo ou de obter algum outro prazer material nós estamos dispostos a incríveis esforços e sacrifícios. Se aprendermos com a força da nossa má inclinação, poderemos utilizá-la como modelo e canalizá-la para o nosso lado espiritual. Atualmente as pessoas dedicam incontáveis horas para satisfazer seus desejos por dinheiro e honra. Muitos chegam a passar noites sem dormir para atingir seus objetivos. Algumas empresas mantêm turnos de madrugada para aqueles que passam a noite trabalhando no escritório. Por que não utilizar este mesmo potencial para manter a quantidade de horas de estudo de Torá diária que definimos para nós, ao invés de estarmos sempre procurando desculpas para justificar a nossa "falta de tempo" com os nossos compromissos espirituais?

O Rav Noach Weinberg zt"l, que dedicou a vida a trazer judeus afastados de volta ao judaísmo, dizia que aprendia muito com a forma de atuação dos nazistas, e incentivava que fosse utilizada como modelo para nosso Serviço Divino. Os nazistas matavam os judeus de forma metódica e sistemática. Investiam muito tempo e pensamento para desenvolver técnicas para matar cada vez mais judeus utilizando cada vez menos dinheiro. Desta maneira eles conseguiram exterminar 6 milhões de judeu na Europa. Será quer nos organizamos e nos motivamos como os nazistas em nossos esforços para trazer os judeus afastados de volta ao judaísmo? Investimos em maneiras de trazer cada vez mais judeus? Se indo contra D'us os nazistas mataram 6 milhões de pessoas, certamente poderíamos salvar muito mais do que 6 milhões de judeus se se nos esforçássemos e nos organizássemos para fazer o bem da mesma maneira que os nazistas se esforçaram para fazer o mal. Se utilizarmos como modelo aqueles que fazem o mal, para aprender suas estratégias e ferramentas, além do seu nível de comprometimento e dedicação, certamente venceremos os atuais desafios do povo judeu.

Não é necessário nem mesmo procurar nos atos dos Reshaim inspiração para o nosso crescimento espiritual. Se procurarmos em nossos próprios atos, certamente encontraremos áreas nas quais sentimos mais entusiasmo e fervor do que no nosso Serviço Divino. Pode ser com comida, com trabalho, com esporte ou qualquer outra área. Então temos que tentar internalizar que racionalmente o cumprimento das Mitzvót certamente traz muito mais satisfação do que qualquer outro prazer material, e com isso poderemos tentar atingir em nossa espiritualidade a mesma alegria e entusiasmo. Pois se os Reshaim podem fazer muito, mesmo indo contra D'us, imagine o verdadeiro potencial dos que caminham junto com Ele.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn. 32:3 -36:43, Ob.1:1-21

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

BONDADE E SENSIBILIDADE - PARASHAT VAIETZE 5776

Shifra era a filha mais velha da família Greenbaum (nome fictício). Quando chegou a hora de começar a "sair de Shiduch" (procurar um noivo), ela recusou todas as propostas que surgiram, mesmo após a insistência dos pais. Com o passar do tempo sua mãe começou a ficar extremamente preocupada, pois os irmãos mais novos de Shifra também já haviam chegado à  idade de se casar e ela não queria que seus filhos mais novos se casassem antes de Shifra. Mas Shifra incentivou que os irmãos saíssem de Shiduch e afirmou que não se importaria se eles se casassem antes dela.

Anos se passaram. Todos os irmãos mais novos de Shifra já haviam casado e ela já estava com trinta e dois anos de idade. Então um dia a mãe de Shifra falou para ela, com muita dor e sofrimento:

- Não entendo sua atitude. Por que você despreza todos os bons pretendentes que são apresentados para você? Quero te dizer uma coisa: você está me causando tanta dor que eu preferia estar morta!

Ao ouvir isso, Shifra decidiu começar imediatamente a procurar alguém para casar. Dentro de pouco tempo ela já estava noiva de um excelente rapaz, um estudioso de Torá. No dia do casamento todos estavam muito felizes. Assim que a "Chupá" terminou, a mãe de Shifra virou-se para um familiar e disse: "Este é o dia mais feliz da minha vida". Essas foram suas últimas palavras, pois logo depois ela teve um colapso, caiu e faleceu.

Nos dias de "Shiva" (7 dias de luto após o falecimento) todos procuraram Shifra para pedir explicações sobre o que havia acontecido. Ela então contou, muito emocionada:

- Há alguns anos minha mãe estava muito doente. Ela procurou um Tzadik (Justo), que deu a ela uma grande Brachá: ela viveria para casar todos os filhos. Eu entendi que isso significava que, enquanto todos os filhos não estivessem casados, ela ainda estaria viva. Foi por isso que eu decidi que não iria me casar, e assim poderia dar a ela muitos anos de vida. Mas no dia em que ela me disse que preferia estar morta a me ver solteira, eu percebi que naquele momento eu estava fazendo a ela mais mal do que bem ao recusar as propostas de casamento. Então eu imediatamente concordei em me casar, e foi isso o que aconteceu. (História Real, retirada do livro "Major Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).
 

---------------------------------------------------------- 

A Parashat desta semana, Vaietze, começa contando sobre a viagem de Yaacov para a casa de seu tio Lavan, que ocorreu por dois motivos: para fugir da fúria de seu irmão Essav, que queria matá-lo, e para procurar uma esposa entre os familiares de sua mãe, Rivka. A Torá então descreve um estranho incidente que ocorreu quando Yaacov chegou em Haran, a cidade dos arameus onde sua mãe havia nascido. Ele foi diretamente para o poço de água da cidade e viu que, apesar de ainda ser início da tarde, os pastores já haviam parado de trabalhar. Yaacov então deu uma grande bronca neles em relação à falta de ética no trabalho: "Ele disse: 'Vejam, o dia ainda é longo; ainda não é hora de juntar o rebanho; deem água ao rebanho e voltem a pastorear'" (Bereshit 29:7). Em outras palavras, Yaacov disse: "Se as ovelhas não são de vocês, então vocês estão sendo negligentes na sua responsabilidade com seus patrões. E se são de vocês, então vocês são preguiçosos".

Este incidente relatado pela Torá levanta dois questionamentos. Em primeiro lugar, sabemos que a Torá é muito concisa e somente escreve eventos que são realmente relevantes. Então por que escrever este incidente aparentemente sem nenhuma importância? Além disso, o ato de Yaacov de censurar os pastores da cidade parece uma atitude um pouco arrogante, por se tratar de um estranho recém-chegado à cidade. Por que ele achou importante dar esta bronca nos pastores de Haran?

A Torá, quando fala sobre Lavan, o descreve como um "Ramai", que significa "trapaceiro", e não como um ladrão. Um ladrão não demonstra gostar da sua vítima, ele mostra abertamente que sua única intenção é prejudica-la. Ao contrário do ladrão, o Ramai se apresenta como alguém confiável, demonstrando querer o bem estar da vítima, e somente depois acaba causando danos sem que ela perceba. É isto o que percebemos quando observamos atentamente os atos de Lavan. Ele prometeu que Yaacov se casaria com sua filha Rachel após trabalhar sete anos por ela, mas no dia do casamento Lavan trocou Rachel por sua outra filha, Lea, e ainda justificou seu ato indecente dizendo que naquela região ninguém casava a filha mais nova antes da mais velha. Seu nome Lavan, que literalmente significa "branco", demonstra que por fora ele transmitia ser alguém puro e correto, alguém de confiança, mas por dentro era uma pessoa egoísta e desonesta.

Na realidade, esta era uma característica não apenas de Lavan, mas de todos os arameus, pois a palavra "Arami" (arameu) tem exatamente as mesmas letras de "Ramai", demonstrando que esta era uma característica presente em todos os moradores daquela região. Porém, esta informação desperta um grande questionamento. Não podemos esquecer que muitos dos nossos patriarcas vieram justamente daquela região. Avraham, Sara, Rivka, Rachel e Lea eram descendentes dos arameus. Então por que nós não vemos neles este traço de caráter tão negativo, se era algo inerente daquela região?

Explicam os nossos sábios que a palavra "Midót", que significa "traços de caráter", também significa "medidas". Se perguntarmos a um cozinheiro se o sal é algo bom ou ruim na comida, ele nos responderá que depende, pois se for utilizado sal demais isto certamente estragará a comida, mas se for utilizado pouco sal a comida ficará sem gosto. Para o sal ser algo bom, deve ser utilizado na medida certa. Ensina o Rav Yohanan Zweig que o mesmo ocorre em relação aos nossos traços de caráter, pois nenhum deles é essencialmente positivo ou negativo, dependem da maneira como são utilizados. Mesmo os melhores traços de caráter podem ser mal utilizados, e mesmo os piores traços de caráter podem ser canalizados e utilizados de maneira produtiva.

O traço de caráter de ser um "Ramai", apesar de normalmente ser utilizado para enganar e levar vantagem sobre os outros, não é necessariamente algo negativo. O Ramai atua baseado no desejo natural do ser humano de querer sempre levar vantagem sobre os outros. O trapaceiro engana suas vítimas fazendo-as acreditar que elas estão levando a melhor na negociação, e quando as vítimas percebem que foram enganadas já é tarde demais. Mas apesar de ser algo negativo, o que está por trás desta característica é um grau muito elevado de sensibilidade. Para ser um trapaceiro de sucesso a pessoa precisa perceber as necessidades e desejos de seu companheiro. O trapaceiro usa sua sensibilidade aguçada para deixar sua vítima em desvantagem. Mas se ele conseguir utilizar esta sensibilidade de maneira positiva, pode trazer muitos benefícios ao mundo. Nossos patriarcas que vieram de Haran se destacaram muito no atributo de Chessed (bondade) justamente pois canalizaram o lado negativo da trapaça para algo positivo. Eles aproveitaram a enorme sensibilidade, a capacidade de sentir o que o outro realmente precisa, para fazer o bem. Normalmente fazer Chessed, para a maioria das pessoas, significa dar ao próximo o que nós achamos que ele precisa. Mas o Chessed verdadeiro é tentar realmente perceber o que o outro está sentindo e o que ele necessita.

Por outro lado, esta sensibilidade aguçada pode ser um grande desafio. Um dos nossos maiores testes na vida é termos ética no trabalho. Normalmente nos comportamos muito diferente quando nosso chefe não está olhando. É muito tentador encontrar maneiras de enganar o chefe e fingir que estamos trabalhando enquanto na verdade estamos cuidando das nossas próprias necessidades, como aquele que finge estar digitando no computador um relatório do escritório enquanto está na realidade navegando nas redes sociais. Quanto mais sensibilidade alguém tem, quanto mais consegue entender a cabeça do outro, mais consegue enganar e manipular, fazendo com que o outro pense que ele é um funcionário exemplar.

Somos descendentes daqueles que conseguiram se sobressair justamente na característica de sensibilidade. Isto significa que precisamos nos proteger do tropeço de querer utilizar negativamente esta sensibilidade. Uma das maneiras é criar uma forte ética no trabalho, tentando fazer jus a tudo o que recebemos e trabalhando o tempo inteiro como se o chefe estivesse ao nosso lado acompanhando cada atitude. Devemos enraizar em nossa essência que somente aceitaremos os ganhos pelos quais nós trabalhamos e merecemos de verdade, e devemos sentir repulsa de querer tirar proveito de algo que nós não merecemos. Somente assim estaremos garantindo que nunca nos tornaremos pessoas desonestas e trapaceiras.

Yaacov tinha total consciência de que os arameus tinham o traço de caráter de serem "Ramaim". Ao ver os pastores descansando ao lado do poço de água no meio do dia, ficou evidente que eles estavam utilizando este traço de caráter de maneira negativa, pois uma das consequências deste traço de caráter mal utilizado é a preguiça e a busca de caminhos mais curtos e fáceis na vida. Quando Yaacov viu isso, censurou-os com a intenção de despertá-los, para ensinar que se eles fossem mais éticos no trabalho, poderiam canalizar este traço de caráter para fazer bondades e ter mais sensibilidade com as necessidades dos outros.

Este é um grande teste que temos na vida. Mas se nos esforçarmos, conseguiremos usar nossa herança espiritual da maneira correta. O importante é sermos muito honestos em qualquer situação, cada um começando consigo mesmo, pois é negativo enganar os outros, mas pior ainda é enganar a si mesmo. 

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn. 28:10-32:2, Os.11:7-14:9

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O PARADOXO DO NOSSO TEMPO - PARASHAT TOLDOT 5776

"O paradoxo do nosso tempo é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos; estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; gastamos mais, mas temos menos; compramos mais, mas desfrutamos menos; temos casas maiores e famílias menores; mais graus acadêmicos, mas menos bom senso; mais conhecimento e menos poder de julgamento; mais medicina, mas menos saúde.
 Bebemos demais, fumamos demais, gastamos demais e dirigimos rápido demais. Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores; adicionamos anos à extensão de nossas vidas, mas não vida à extensão dos nossos anos; já fomos à Lua procurar vida, mas não conseguimos enxergar a vida que existe na Terra; enxergamos outras galáxias, mas não vemos o mendigo que dorme na rua em que caminhamos.
 Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior; nos preocupamos com a limpeza do ar, mas não com a poluição da nossa alma; quebramos o átomo, mas não nossos preconceitos; temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral; as pessoas estão cada vez mais altas, mas o caráter cada vez mais baixo; almejamos a paz mundial, mas não superamos as discórdias nem dentro dos nossos lares; temos maior variedade de comidas, mas menos nutrição; temos residências mais belas, mas lares quebrados.
 É um tempo no qual as fraldas e a moralidade são descartáveis; em que há muito na vitrine e nada no estoque. Um tempo em que sabemos de cor o objetivo das nossas empresas, mas não sabemos nem mesmo qual é o objetivo da nossa vida. E tudo isso ocorre pois, na nossa ânsia de controlar o mundo, acabamos esquecendo de controlar a nós mesmos"

É um tempo difícil este que nós vivemos. E é justamente nestes momentos de dificuldade e escuridão espiritual que o brilho da nossa Torá se ressalta ainda mais, ao nos ensinar que a maior das nossas conquistas é dominar os nossos próprios desejos e inclinações. 
**************************************************** 

Na Parashat desta semana, Toldot, a Torá descreve o nascimento dos irmãos Yaacov e Essav. Mas apesar de serem gêmeos, quando eles cresceram tomaram rumos completamente diferentes na vida. Enquanto Yaacov se dedicou ao estudo da Torá e teve um comportamento exemplar e digno, Essav se dedicou à caça e se desviou completamente do caminho correto, chegando ao nível de cometer as piores transgressões.

Apesar de Essav ter se desviado tanto do caminho, há um versículo que descreve seu relacionamento com seu pai, Ytzchak, e que nos chama a atenção: "Ytzchak amava Essav por causa da caça que estava na sua boca, e Rivka amava Yaacov" (Bereshit 25:28). Aparentemente o versículo descreve que Ytzchak tinha uma preferência por seu filho Essav em relação ao seu filho Yaacov. Porém, como alguém tão reto e íntegro como Ytzchak pôde se enganar tanto a ponto de pensar que Essav era alguém virtuoso? Será que Ytzchak não enxergava a diferença entre a má indole de Essav e a boa índole de Yaacov?

Responde o Rav Yosef Tzvi Salant zt"l (1885 - 1981) que há dois tipos de Tzadikim (Justos): um é aquele cujos traços de caráter já são naturalmente refinados e puros, enquanto o outro é aquele cujas tendências naturais são negativas e ele precisa trabalhar muito para derrotar seu Yetzer Hará (má inclinação). Certamente o segundo tipo de Tzadik tem muito mais méritos do que o primeiro, pois alcançar o nível de retidão exigiu dele um esforço muito maior.

Ytzchak acreditava que seus dois filhos eram Tzadikim. Entretanto, ele pensava que cada um era Tzadik de um tipo diferente. Ele imaginava que Yaacov era aquele tipo de Tzadik que nasceu com inclinações naturais para ter bons traços de caráter, enquanto Essav era um exemplo de Tzadik que havia superado através de muito esforço seu Yetzer Hará. O engano de Ytzchak foi ter pensado que Essav havia dominado seus maus instintos, enquanto a verdade era justamente o contrário, isto é, seus maus instintos o haviam dominado e o levaram à sua destruição espiritual.

Mas qual foi a fonte do erro no julgamento de Ytzchak? Ele reconheceu em Essav as características de "vermelhidão" (Essav tinha todos os pelos do corpo ruivos), o que de acordo com o Talmud (Shabat 156a) é indicação de uma natureza sanguinária. O Talmud ensina que quem nasce com este tipo de influência normalmente canaliza suas energias para alguma atividade relacionada com o derramamento de sangue. Se ele utilizar suas energias de forma positiva, pode se tornar um Shochet (pessoa que faz o abate Kasher dos animais) ou um Mohel (pessoa que faz o Brit Milá), mas se utilizar suas energias de maneira negativa, poderá se tornar um assassino.

Quando Ytzchak viu que Essav havia escolhido ser caçador, o que seria comparado com a função de um Shochet, ele pensou que esta havia sido a forma escolhida por Essav para canalizar de forma positiva suas tendências violentas. Além disso, Essav usava suas habilidades de caça para cumprir a Mitzvá de "Kibud Av ve Em" (Honrar os pais), pois ele sempre servia a comida caçada ao seu pai. Desta maneira, Ytzchak acreditou que Essav havia atingido o status de Tzadik, e em um nível ainda mais alto do que Yaacov.

É possível desenvolver um pouco mais o conceito de Ytzchak ter dado preferência a Essav. Explicam os nossos sábios que cada um dos patriarcas se sobressaiu em um traço de caráter específico. Avraham se sobressaiu em "Chessed" (bondade), Ytzchak em "Guevurá" (força) e Yaacov em "Emet" (verdade). Quando Ytzchak viu que Essav também tinha inclinações para a Guevurá, achou que ele utilizaria este traço de caráter para vencer seus maus instintos. Porém, o erro de Ytzchak foi não perceber que realmente Essav tinha o traço de caráter de Guevurá, mas estava utilizando esta característica de maneira completamente equivocada.

Antes de tudo precisamos entender o que significa o conceito de "Guevurá". O primeiro pensamento que nos vem à cabeça está relacionado com o uso da força física. Mas nos atos de Ytzchak descritos pela Torá não vemos que ele participou de sangrentas batalhas, conquistou reinados ou derrotou fortes oponentes. Então onde estava a Guevurá de Ytzchak? Sua grande força estava em sua habilidade de conquistar qualquer inclinação negativa que surgisse e de anular seus desejos e necessidades egoístas. Isto resultou em um alto nível de autodisciplina e pureza, através do qual ele conseguiu que toda sua essência se transformasse em cumprir a vontade de D'us. Ytzchak viu em Essav o potencial de também se sobressair neste traço de caráter e atingir níveis até mesmo maiores do que o seu próprio nível. Apesar de estar claro para Ytzchak que Essav era puxado por fortes inclinações negativas, ele acreditava que se Essav utilizasse sua Guevurá da maneira correta, poderia vencer suas inclinações.

Mas Essav acabou direcionando sua Guevurá para propósitos egoístas. Ao invés de usar sua enorme força para controlar a si mesmo, Essav usou para controlar os outros. Ao invés de buscar a autodisciplina, ele canalizou sua força para dominar e subjugar outras pessoas. Isto fica claro através da profissão que ele escolheu: ser um caçador, atividade que envolvia dominar poderosos animais. Mas Essav não se limitou a usar sua força apenas contra os animais, ele também direcionou suas forças contra os seres humanos e tornou-se um assassino. Ao invés de investir em seu autocontrole, ele se deixou levar por todos os seus desejos, a ponto de se tornar uma pessoa extremamente imoral.

Percebemos que estes traços negativos de Essav foram transmitidos aos seus descendentes. Os romanos, por exemplo, deram continuidade ao mau uso que Essav fez da Guevurá. Eles se tornaram uma nação empenhada em conquistar o mundo apenas com o propósito de obter poder. Além disso, eles também não se importaram em se esforçar para ter autocontrole, preferindo adotar um estilo de vida imoral. E a nossa Cultura Ocidental, que também faz parte da descendência espiritual de Essav, atribui grande importância ao uso externo da força, ao invés do seu uso interno. Não apenas o uso da força física, mas também o uso da força do dinheiro para influenciar e dominar outras pessoas. Ao invés de investir no autocontrole, atualmente o objetivo de vida das pessoas tornou-se obter o máximo de poder e prazer pessoal.

A visão da Torá sobre o uso correto da Guevurá é exatamente o oposto da forma como Essav a utilizou. A ênfase da força é em seu uso interno, na busca de autocontrole, e não no seu uso externo, como ensinam nossos sábios: "Quem é forte? Aquele que domina suas inclinações, como está escrito: "Aquele que é devagar em se irritar é melhor do que o homem forte, e aquele que domina seus desejos é melhor do que aquele que conquista uma cidade" (Pirkei Avót 4:1). Quando a Torá nos ensina que Ytzchak se sobressaiu na Guevurá, significa a Guevurá interna, o poder de controlar as suas inclinações naturais, para cumprir sempre a vontade de D'us. É esta forma de poder, e não a exercida por Essav, que nós devemos aspirar. Aquele que domina os outros ainda assim continua escravo dos seus próprios desejos, e satisfazer seus desejos nunca trará um preenchimento verdadeiro. Por outro lado, aquele que adquiriu o autocontrole é a pessoa verdadeiramente livre e, portanto, a que detêm o verdadeiro poder. 
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

http://ravefraim.blogspot.com.br/
Gn. 25:19-28:9, Ml. 1:1-2:7

sábado, 29 de agosto de 2015

SACRIFÍCIO PELOS FILHOS - PARASHAT KI TETSE 5775

Certa vez Yaacov (nome fictício) foi falar com o Rav Elazar Menachem Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) da Yeshivá de Ponovich, em Bnei Brak. Ele tinha uma interessante pergunta em relação à Mitzvá de "Kibud Av Ve Em" (honrar os pais):

- Rav, nesta semana meu pai me pediu para que eu parasse de fumar. Eu tenho obrigação de escutá-lo?
- Não entendi sua pergunta - respondeu o Rav Shach - É óbvio que você tem o dever de escutá-lo, por causa da Mitzvá de "Kibud Av Ve Em"!
- Mas Rav - insistiu Yaacov - eu já fumo há muitos anos, e será um enorme sacrifício conseguir parar de fumar. Por isso eu estou perguntando se realmente eu preciso escutar meu pai...
- Como você pode considerar a possibilidade de não escutar seu pai apenas pelo fato de ele ter pedido algo difícil? Você acha que isto te isenta da obrigação de escutá-lo? - questionou o Rav Shach - Eu já fui fumante, sei o quanto é difícil parar de fumar. Mas a verdade é que milhares de dificuldades como esta não chegam nem a um milésimo do que nós devemos aos nossos pais. Ao invés de pensar no sacrifício que você terá que fazer pelo seu pai, você alguma vez já parou para pensar quantos sacrifícios ele já fez por você na vida?

************************************************** 
Nesta semana lemos a Parasha Ki Tetse, que traz uma das Mitzvót mais enigmáticas da Torá: o "Shiloach HaKen". Se uma pessoa encontra um ninho de pássaro e a mãe está lá, cuidando dos seus ovos ou dos seus pequenos filhotes, a Torá proíbe a pessoa de pegar a mãe junto com os ovos ou os filhotes. O correto é primeiro espantar a mãe, garantindo sua liberdade, e somente depois pegar os ovos ou os filhotes. Mas qual é a lógica desta Mitzvá?
Há alguns detalhes que tornam esta Mitzvá ainda mais interessante e enigmática. Por exemplo, a Torá descreve explicitamente a recompensa daqueles que a cumprem: "Para que seja bom para você e seus dias se prolonguem" (Devarim 22:7). Mas por que uma recompensa tão grande, de prolongamento da vida, para uma Mitzvá aparentemente tão simples, de espantar um pássaro do seu ninho? Qual mensagem D'us quer nos transmitir ao valorizar tanto esta Mitzvá?
 
Além disso, a Torá detalha as 613 Mitzvót que D'us nos comandou no Monte Sinai, sendo que 248 delas são Mitzvót positivas (Mitzvót que devemos ativamente cumprir, como fazer o Brit Milá no 8º dia de vida de um bebê ou colocar Tefilin) e 365 são Mitzvót negativas (Transgressões que devemos evitar, como o "Não matarás" e o "Não roubarás"). As Mitzvót negativas normalmente têm o seu castigo explicitamente escrito na Torá, mas as recompensas das Mitzvót positivas não estão escritas. As duas únicas exceções em toda a Torá são as Mitzvót de "Shiloach HaKen" e "Kibud Av ve Em", pois apesar de serem Mitzvót positivas, suas recompensas estão explícitas na Torá.
Ao observarmos as recompensas explícitas destas duas Mitzvót positivas, algo nos chama ainda mais a atenção: a recompensa das duas Mitzvót é exatamente a mesma. Enquanto em relação ao "Shiloach HaKen" está escrito "Para que seja bom para você e seus dias se prolonguem" (Devarim 22:6,7)", em relação ao "Kibud Av Ve Em" está escrito "Para que se prolonguem seus dias" (Shemot 20:12). Porém, estas parecem ser Mitzvót muito diferentes e sem nenhum tipo de vínculo entre elas. Então por que a Torá somente ensinou a recompensa destas duas Mitzvót positivas, e por que justamente as duas têm exatamente a mesma recompensa? Há algum ponto em comum entre elas?
 
Responde o Rav Yaacov Weinberg zt"l (Israel, 1923 - EUA, 1999) que o ponto em comum é a Messirut Nefesh (auto sacrifício) que as duas Mitzvót envolvem, e em ambos os casos a Torá oferece uma grande recompensa como um estímulo para o reconhecimento desta Messirut Nefesh envolvida nelas.
Quando a Torá nos instruiu a honrar os nossos pais, um dos motivos é para nos fazer reconhecer os enormes sacrifícios que os pais fazem pelos seus filhos. Esta verdadeira "entrega total" já começa durante a gravidez, quando a vida dos pais começa a sofrer mudanças. A mãe começa a sentir náuseas, tonturas e um cansaço fora do normal, mudando toda a rotina do casal. Depois do nascimento a situação fica ainda mais complicada, pois as tranquilas noites de sono se transformam em noites de vigília, tanto durante a amamentação quanto nas noites em que as crianças ficam doentes e precisam dos cuidados dos pais. E como diz o famoso ditado, "pequenas crianças, pequenos problemas; grandes crianças, grandes problemas", pois conforme a criança vai crescendo, assim também as preocupações dos pais com o seu bem estar, com a sua educação e com as dificuldades naturais do seu crescimento. E talvez o auge de todo o stress seja o momento do casamento dos filhos, quando recai sobre os pais o grande peso de arcar com as despesas da festa e de uma possível ajuda financeira ao novo casal. Portanto, ser pai significa abrir mão de seu próprio conforto em prol do conforto dos seus filhos. A Torá oferece esta recompensa incrível, o prolongamento dos dias de vida, para aquele que cumpre a Mitzvá de honrar os pais justamente para que as pessoas se esforcem para apreciar, reconhecer e agradecer toda a Messirut Nefesh feita por eles desde a sua concepção.
É exatamente o ponto da Messirut Nefesh pelos filhos que conecta a enigmática Mitzvá de "Shiloach HaKen" com a Mitzvá de "Kibud Av Ve Em". Qualquer pessoa que já tentou pegar um pássaro com suas próprias mãos sabe que isto é uma missão praticamente impossível. Os pássaros são muito ágeis e levantam voo ao menor sinal de ameaça. Em uma praça cheia de pombas, basta chegarmos perto e elas já levantam voo para alcançar algum lugar mais seguro. Existe uma única forma de agarrar um pássaro com as nossas próprias mãos: no momento em que ele está no ninho, cuidando de seus filhotes ou chocando seus ovos. Por que? Pois como qualquer outra mãe, o pássaro está disposto a sacrificar sua própria liberdade apenas para estar junto com os filhotes, tentando protegê-los de qualquer perigo.
Esta é a essência da Mitzvá de "Shiloach HaKen". Ao nos obrigar a espantar a mãe, a Torá está nos proibindo de tirar vantagem do imenso sacrifício que uma mãe faz pelos seus filhos, que é parte de seu instinto maternal. Não podemos aprisionar o pássaro nos aproveitando deste momento de "fraqueza". Portanto, quando damos para a mãe dos filhotes a sua liberdade, deixando-a ir embora, estamos evitando utilizar contra ela o atributo de se sacrificar pelos filhos. De certa maneira isto também é uma forma de apreciar e reconhecer o ato de Messirut Nefesh de uma mãe pelos seus filhos, e por isso as duas Mitzvót estão tão conectadas. E em ambas as Mitzvót, pelo fato de estarmos reconhecendo e apreciando o amor maternal e a enorme preocupação que os pais têm com seus filhos, acabamos nos tornando merecedores de receber uma recompensa tão grande quanto o alongamento dos dias.
Desta Parashat aprendemos o quanto é querido aos olhos de D'us darmos o devido valor a todo o sacrifício que nossos pais fizeram ou continuam fazendo por nós. Na verdade, a Mitzvá de "Kibud Av Ve Em" é tão importante que não termina nem depois do falecimento dos pais. Mesmo depois que eles já partiram deste mundo, continuamos obrigados a honrá-los e a fazer de tudo para elevar suas almas. A Halachá (Lei Judaica) exige que, ao se referir aos nossos pais, mesmo já falecidos, devemos fazê-lo sempre de uma maneira muito honrosa e respeitosa.
Infelizmente vivemos de acordo com aquele ditado que diz que "somente damos valor para a luz quando ela falta". Somos tão egoístas que, na maioria das vezes, somente aprendemos a dar valor aos nossos pais quando nós temos os nossos próprios filhos e sentimos na pele as dificuldades de criá-los. Através destas duas Mitzvót tão especiais, de "Shiloach HaKen" e de "Kibud Av ve Em", D'us nos estimulou a prestarmos mais atenção nas coisas boas que recebemos dos nossos pais e a refletirmos sobre o quanto eles se dedicaram e se dedicam por nós, e o quanto devemos a eles as nossas próprias vidas e tudo o que recebemos de bom deles.
"Um pai consegue cuidar de 10 filhos, mas 10 filhos não conseguem cuidar de um pai"
"SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM" (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA)
SHABAT SHALOM                                        
Rav Efraim Birbojm
Dt. 21:10-25:19, Is. 54:1-10

sábado, 25 de julho de 2015

JULGANDO COM JUSTIÇA - PARASHÁ DEVARIM 5775

 
Avraham, um jovem estudante de Torá, mudou-se para uma Yeshivá de Israel onde iria estudar. Logo no primeiro dia, na reza da manhã, ele percebeu que um dos alunos da Yeshivá começou a tirar seu Tefilin antes do final da reza e depois correu em direção ao refeitório. Avraham ficou irritado com aquela demonstração de descaso com a Tefilá (reza). Ficou imaginando que o rapaz era alguém sem autocontrole, cujo desejo pela comida não o permitia esperar até o final da Tefilá, como os outros alunos.

Avraham terminou sua Tefilá, pensando em como ele era Tzadik (Justo) e como aquele outro aluno era egoísta e descontrolado. Ele tirou seu Tefilin e foi para o refeitório tomar o seu café da manhã. Foi então que Avraham viu o rapaz que havia saído antes do final da Tefilá. Ele estava dentro da cozinha, vestindo um avental e voluntariamente ajudando a preparar o café da manhã dos outros alunos da Yeshivá. Depois Avraham soube que todos os dias aquele rapaz terminava sua Tefilá correndo, justamente para poder fazer Chessed (bondade) com os outros alunos.

Avraham entendeu que havia julgado aquele rapaz de forma precipitada. Pois na verdade, o rapaz era uma pessoa muito altruísta, enquanto na verdade o verdadeiro egoísta era ele mesmo. 
**************************************************** 

Na Parashá desta semana, Devarim, Moshé começou a relembrar muitos dos momentos vividos pelo povo judeu durante os 40 anos no deserto, e criticou duramente o povo por muitos dos graves erros cometidos. E logo depois do Shabat começa Tishá Be Av, o dia mais triste do ano, no qual choramos ao relembrar as grandes tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a nossa história, como a destruição dos dois Templos Sagrados e a expulsão dos judeus da Espanha e Portugal em 1492. Em geral, Tishá Be Av cai junto com a Parashá Devarim. Qual é a conexão entre os dois?

Um dos pontos que Moshé relembrou foi como era pesado para ele julgar sozinho todo o povo, e a solução sugerida por seu sogro, Itró, de apontar pessoas retas e íntegras do povo como juízes, que o auxiliariam nos casos mais simples. Moshé também relembrou as instruções que ele passou aos juízes escolhidos: "Escutem entre os seus irmãos, e julguem com justiça" (Devarim 1:16). Mas estas palavras de Moshé precisam de explicação, pois por que dizer aos juízes que eles deviam escutar as partes envolvidas antes de dar o veredicto final, se era algo óbvio? Além disso, por que o versículo diz "escutem entre os seus irmãos" e não simplesmente "escutem seus irmãos"? E finalmente, por que era necessário Moshé ressaltar aos juízes que eles deveriam sempre julgar com justiça e retidão, se o papel de um juiz é justamente ser alguém justo e reto para definir quem tem a razão?

Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Moshé estava exigindo dos juízes que eles fossem extremamente cuidadosos em cada julgamento, e mesmo que vários casos similares já tivessem sido julgados por aquele tribunal, eles não deveriam julgar de forma precipitada. Esta é a fonte da primeira Mishá do Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Sejam cautelosos no julgamento" (1:1). Aparentemente esta Mishná nos ensina que cada situação tem nuances que podem afetar e resultado do julgamento, e por isso cada caso deve ser analisado com cuidado.

Apesar deste ensinamento de Moshé também se aplicar para casos criminais, ele está escrito em um contexto de casos civis, pois foi utilizada a linguagem "entre os seus irmãos", isto é, em casos onde há algum tipo de disputa. Porém, o ensinamento de "sejam cautelosos no julgamento" deveria ter sido ensinado em um caso criminal. Um veredicto equivocado em um caso civil, como a disputa por um bem material, pode ser facilmente revertido se o Beit Din (Tribunal Rabínico) identificar o erro. Mas um erro do Beit Din no julgamento de um crime pode ter consequências muito mais graves e, portanto, neste caso o Beit Din deveria ser muito mais cuidadoso. Então por que o ensinamento é em um contexto civil e não criminal? E, além disso, se é tão importante ser uma pessoa ponderada e cautelosa nos nossos atos, por que a Torá não aplica esta exigência também a outros profissionais, como os médicos, cuja falta de cautela pode resultar na perda de uma vida?

Explica o Rav Yohanan Zweig que, no mundo empresarial, a grande maioria das disputas civis não ocorre entre indivíduos que sempre mantiveram um relacionamento conflituoso, pois neste caso as duas partes tentam deixar bem claro quais serão as medidas tomadas caso surjam situações indesejadas e tomam as precauções necessárias para evitar maus entendidos. As disputas costumam ocorrer justamente quando há um elemento de confiança entre as partes, e por causa desta confiança, muitos detalhes técnicos, como recibos e contratos, acabam sendo deixados de lado, abrindo brechas para desentendimentos e dúvidas.
Quando a confiança inicial é quebrada e inicia-se uma disputa, cada uma das partes tem uma percepção subjetiva da realidade, e por isso cada um percebe os fatos de acordo com as suas próprias predisposições e tendências. Nos casos em que esta disputa não pode ser resolvida sem a ajuda do Beit Din, então os juízes devem estar cientes que cada pessoa está aderindo às suas percepções distorcidas e está completamente relutante em enxergar a percepção da outra parte envolvida, fato que dificulta a reconciliação. E pelo fato de nenhuma das duas percepções representarem a realidade objetiva, então é responsabilidade dos juízes verificar e encontrar a verdade objetiva a partir das duas opiniões subjetivas dos litigantes.

Este conceito nos ajuda a entender um intrigante ensinamento dos nossos sábios: "Quando os litigantes estiverem diante de você, considere ambos como culpados, mas quando eles partirem de você, considere ambos como inocentes" (Pirkei Avót 1:8). O Pirkei Avót não está indo contra o conceito de que a pessoa deve ser considerada inocente até que provem a sua culpa. Mas no momento da argumentação, o juiz deve ver os litigantes como se fossem culpados, pois certamente cada um deles está apresentando a sua percepção distorcida dos fatos, e é obrigação do juiz não acreditar cegamente nas palavras de nenhum dos litigantes sem verificá-las bem. É justamente isto o que Moshé estava transmitindo aos juízes. Um juiz tem que tomar muito cuidado para julgar de maneira correta. Nunca dois casos são iguais, pois cada pessoa entende as coisas de acordo com a sua própria perspectiva, e determinar a verdade objetiva a partir das argumentações subjetivas dos litigantes exige muita cautela. Por isso os casos civis, onde há disputas entre dois litigantes, exige mais cuidado até mesmo do que casos criminais.

Por que a Torá se preocupou somente em ensinar este conceito aos juízes e não aos médicos? Pois ao contrário do juiz, o maior colaborador do médico para chegar a um diagnóstico correto e preciso é o próprio paciente. Baseado nas reclamações do paciente, nos sintomas e nas dores que ele relata, o médico consegue chegar ao diagnóstico da enfermidade. Já os litigantes têm um relacionamento conflituoso com o juiz, pois o juiz está buscando a verdade objetiva, enquanto os litigantes estão oferecendo uma percepção subjetiva da realidade. Por isso é um grande feito quando um juiz consegue ter sucesso e se proteger das enganações dos litigantes. É por causa desta grande dificuldade que a Torá sentiu a necessidade de ordenar aos juízes que eles se protejam, na busca pela verdade, contra as enganações e visões subjetivas do caso.

Qual a conexão com Tishá Be Av? Esquecemos que não apenas os juízes fazem julgamentos. Cada um de nós, no nosso dia a dia, também está constantemente julgando as outras pessoas. E da mesma maneira que os juízes devem ser cautelosos e ponderados nos julgamentos de disputas civis ou na elucidação de casos criminais, nós também devemos ser muito cuidadosos com a maneira como julgamos os outros. Normalmente somos muito apressados em julgar e rotular as pessoas de maneira negativa, por pequenas atitudes que elas fizeram que pareciam erradas aos nossos olhos.

Ensinam os nossos sábios que o Primeiro Templo Sagrado foi destruído por que o povo judeu estava praticando as três transgressões mais graves: idolatria, relações ilícitas e assassinato. Mas após a destruição do Templo e o exílio do povo judeu, eles se arrependeram e consertaram seus graves erros, e em 70 anos o Templo foi reconstruído. Porém, o Segundo Templo Sagrado foi destruído pelo ódio gratuito e por causa do Lashon Hará (maledicência) que havia dentro do povo judeu. Infelizmente já se passaram mais de dois mil anos e não tivemos ainda o mérito de reconstruir o Templo Sagrado. Isto significa que, mesmo após tanto tempo, ainda não conseguimos consertar estes erros tão graves.

Por que é tão difícil não falar Lashon Hará? Pois o Lashon Hará é uma consequência direta de não julgarmos as pessoas de forma positiva e favorável. Falamos Lashon Hará porque consideramos que nós estamos sempre certos e aqueles que discordam de nós estão sempre errados. Falamos Lashon Hará pois consideramos que a nossa forma de viver é a perfeita e ideal, e portanto todo aquele que é mais rigoroso do que nós é visto como um fanático, enquanto aquele que é menos rigoroso do que nós é desleixado. Falamos Lashon Hará pois não damos aos outros o benefício da dúvida, da mesma maneira que gostaríamos que os outros dessem quando nós cometemos algum erro. Por exemplo, quando alguém chega atrasado a uma reunião, imediatamente é visto como um irresponsável, enquanto quando nós chegamos atrasados, esperamos que as pessoas sejam compreensivas e entendam que o trânsito estava caótico.

Pensamos que tragédias somente podem ocorrer quando juízes erram nos julgamentos de casos criminais. Mas Tishá Be Av é um lembrete constante de que os erros de julgamento no nosso dia a dia podem ser ainda mais trágicos.

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
DEUTERONÔMIO 1:1-3:22

sábado, 11 de julho de 2015

ACIMA DAS MÁS INFLUÊNCIAS - PARASHÁ PINCHÁS 5775

"Reuven estava pacientemente esperando na longa fila do check-in no aeroporto. De repente, um homem simplesmente furou a fila, entrou na sua frente e ficou tranquilamente lendo um livro, como se nada tivesse acontecido. Reuven ficou extremamente irritado com aquele descaramento. Ele já estava há um bom tempo esperando e aquele homem entra no meio da fila!

Reuven teve vontade de gritar com ele, de fazer um enorme escândalo e expulsá-lo da fila. Mas decidiu trabalhar seu autocontrole e, apesar de estar com o sangue fervendo de raiva e indignação, decidiu aguentar e não falar nada. Sabia que ninguém ganha nada sendo malandro.

Porém, o teste mais difícil de Reuven ainda estava por vir. Quando chegou a vez daquele homem descarado se dirigir ao guichê, Reuven escutou o funcionário da companhia aérea falar em alto e bom som: "O senhor pegou o último assento livre do avião". O homem abriu um sorriso, e em sua cabeça certamente estava passando a ideia de o quanto havia valido a pena ter furado a fila. Reuven não estava assim tão contente. Sua irritação era visível, e a vontade que ele tinha era de pular no pescoço daquele sujeito e lhe dar uns bons tapas na cara para ensinar-lhe uma lição. Mas novamente Reuven se controlou e conseguiu manter a calma. Foi então que Reuven escutou o funcionário da companhia aérea chamando-o. Quando aproximou-se do guichê, o funcionário disse:

- Senhor, o seu voo está lotado e os assentos comuns terminaram. Por isso, estamos colocando o senhor na primeira classe, sem nenhum custo extra. Boa viagem". (História Real)

O desafio de ser honesto em um mundo tão desonesto é muito grande. Mas isto faz com que cada bom ato que fazemos se torne ainda mais especial e tenha uma recompensa maior. E acima de tudo precisamos manter a calma nestes momentos, pois existe "Hashgachá Pratid" (Supervisão Divina particular), e nenhuma malandragem terá um benefício real no final. 

****************************************************

A Parashá desta semana, Pinchás, traz mais uma contagem do povo judeu. Logo depois a Torá descreve o incidente das cinco filhas de Tzlofechad. Eram cinco mulheres Tzadikót (justas), filhas de um homem que havia morrido no deserto sem deixar filhos homens. A Torá descreve que elas se levantaram e foram reclamar com Moshé, e pediram uma porção na Terra de Israel. Mas por que elas estavam reclamando, se todo o povo estava indo para Israel? E qual a conexão entre a contagem do povo e a reclamação das filhas de Tzelofechad?

De acordo com o Rav Avraham ben Meir zt"l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, a Terra de Israel seria dividida entre as tribos, e cada família receberia uma terra proporcional ao seu número de integrantes. Esta contagem do povo foi feita no final dos 40 anos de permanência no deserto, quando a entrada na Terra de Israel já estava iminente, pois estava relacionada com a divisão da terra. Como as filhas de Tzelofechad perceberam que apenas os homens haviam sido contados, elas entenderam que ficariam sem nenhuma porção. O amor delas por Israel era tão grande que elas se levantaram para reclamar com Moshé, como está escrito: "E se aproximaram as filhas de Tzlofechad... e pararam diante de Moshé e de Elazar HaCohen, e diante dos líderes e de todo o povo... e disseram: 'Nosso pai morreu no deserto... e ele não tinha filhos homens... nos dê uma parte entre os irmãos do nosso pai' " (Bamidbar 27,1-4).

Apesar de várias reclamações do povo judeu terem terminado de maneira trágica, com a morte dos reclamões, desta vez aconteceu justamente o contrário. Não apenas D'us concordou com a reclamação das filhas de Tzelofechad, dando a elas uma porção na Terra de Israel, mas também pelo mérito delas as leis de herança foram imediatamente ensinadas, e o nome destas cinco Tzadikót ficou gravado para sempre na Torá.

Mas desta explicação fica uma grande dúvida: o que as filhas de Tzelofechad fizeram para meritar algo tão grande? Afinal, o que há de especial em querer um pedaço de terra em Israel? Atualmente há milhares de judeus do mundo inteiro que sonham em voltar para Israel. Alguns vão ainda mais longe e abandonam toda a comodidade de suas vidas para efetivamente viver em Israel. Portanto, por que o ato delas foi considerado por D'us algo tão elevado?

A pergunta fica ainda mais difícil de acordo com um interessante Midrash (parte da Torá Oral), que afirma que toda pessoa correta que se levanta em uma geração que não é correta merita receber a recompensa de toda a geração. O Midrash traz alguns exemplos que já ocorreram durante a história da humanidade, como Noach (Noé), que foi contra sua geração na época do dilúvio e recebeu a recompensa de toda sua geração; Avraham Avinu, que foi contra sua geração na época da Torre de Babel e recebeu a recompensa de toda sua geração; e Lót, que foi contra as pessoas malvadas da cidade de Sdom (Sodoma) e recebeu a recompensa de toda a cidade. O Midrash termina citando as filhas de Tzelofechad, que também se levantaram contra a geração do deserto e meritaram receber a recompensa de toda aquela geração. Mas se o ato ao qual o Midrash se refere é a reclamação por uma porção na Terra de Israel, o que isto tem de tão especial para que elas meritassem receber a recompensa de toda a geração?

Encontramos a resposta ao prestarmos atenção em um pequeno detalhe, mas que faz muita diferença. Em que momento as filhas de Tzelofechad reclamaram com Moshé que queriam uma porção na Terra de Israel? Não foi quando as coisas estavam fáceis ou quando havia incentivos e ajuda financeira para quem quisesse morar em Israel. Ao contrário, o ato delas foi logo depois do povo judeu ter reclamado e dito: "Vamos fazer um líder e voltar para o Egito" (Bamidbar 14:4). O povo estava cansado de tantos anos de viagens no deserto, após muitos castigos por causa de erros cometidos pelo povo. Eles se sentiam fracassados e estavam sem vontade de continuar a jornada. Preferiam voltar ao Egito, mesmo que isto significasse voltar para a escravidão. Era um sentimento negativo contagiante, que contaminou praticamente todo o povo.

Explica o Rav Mordechai Ilan zt"l (Polônia, 1917 - Israel, 1981) que foi neste contexto que se levantaram as filhas de Tzelofechad contra toda a geração. Elas nadaram contra a correnteza turva que arrastava as pessoas para longe da vontade de D'us. A forma firme como elas se levantaram contra a tendência de todo o povo expressa a confiança plena delas de que, apesar das dificuldades, o correto era sempre seguir a vontade de D'us. Indo contra o desânimo generalizado, as filhas de Tzelofechad se levantaram com uma incrível Emuná (fé) de que D'us estava levando o povo para uma terra muito boa.

Esta atitude das filhas de Tzelofechad foi um verdadeiro "tapa na cara" do resto do povo, e elas se tornaram um modelo para a geração inteira. As pessoas pararam para refletir e perceberam como era absurdo que eles, que já tinham uma porção garantida na Terra de Israel, estavam desprezando aquele presente maravilhoso de D'us, enquanto as filhas de Tzelofechad estavam brigando por uma porção em Israel. Isto deu um novo ânimo para o resto do povo, e por isso a recompensa que elas receberam foi tão grande.

Deste evento aprendemos um fundamento espiritual muito importante. Os atos que fazemos na vida não são julgados e valorizados apenas pela sua própria essência, mas também de acordo com o nível da geração, o momento, o local e o ambiente. Nossos atos podem mudar radicalmente de acordo com estes fatores, e mesmo um ato que passaria despercebido espiritualmente em certo momento pode trazer muitos méritos em outro momento. Portanto, uma pessoa que consegue se levantar contra uma geração inteira, alguém capaz de dizer "não" à opinião geral prevalecente, automaticamente eleva muito a qualidade do seu ato. É o que a Torá nos ensina quando ressalta que "Noach era um Tzadik, um homem correto em sua geração" (Bereshit 6:9). Por que "em sua geração"? Pois comparado com Avraham, provavelmente Noach não teria sido nada, mas em sua geração, uma geração muito baixa, seus bons atos brilharam com muito mais intensidade.

Este é certamente o desafio da nossa geração. Normalmente as pessoas justificam seus maus atos com a famosa expressão "mas todo mundo também faz assim". Porém, o fato de muitas pessoas fazerem o que é errado não transforma o ato em algo correto. Ao contrário, o fato de muitas pessoas fazerem o que é errado se torna uma grande oportunidade para nos transformarmos em um modelo de boa conduta. Ser honesto já é uma importante Mitzvá, mas ela fica ainda mais especial quando é feita mesmo em um ambiente onde os governantes são corruptos, e as pessoas que criticam os governantes também não se importam em enganar os outros nos pequenos atos do dia-a-dia. Devolver troco a mais, pagar os funcionários no dia certo, não mentir a idade dos filhos para obter desconto e nunca furar filas nem andar no acostamento da estrada lotada são alguns poucos exemplos das oportunidades que temos de nos tornarmos modelos de honestidade em uma geração tão desonesta.

SHABAT SHALOM                                          

Rav Efraim Birbojm
Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21