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domingo, 26 de março de 2017

CONTANDO NOSSO DINHEIRO - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5777


"Rafael, nos seus quase oito anos, já tinha adquirido um hábito nada saudável. Tudo para ele se resumia em dinheiro. Queria saber o preço de tudo o que via e, se não custasse grande coisa, para ele não tinha valor algum. Rafael não entendia que há muitas coisas que o dinheiro não compra. E, dentre estas coisas, algumas são as melhores da vida.

Certo dia, no café da manhã, Rafael colocou cuidadosamente sobre o prato da sua mãe um papelzinho dobrado. Quando a mãe chegou, ela viu o bilhete, abriu e leu: "Mamãe, você me deve: Três reais por levar recados. Dois reais por tirar o lixo. Dois reais por varrer o chão. Dois reais por arrumar a cama. Total da dívida: Nove reais".

A mãe espantou-se em um primeiro momento. Depois sorriu, guardou o bilhetinho no bolso do avental e não disse nada. O garoto foi para a escola e retornou faminto. Correu para a mesa do almoço e viu, sobre o seu prato, o seu bilhetinho com nove reais em cima. Os seus olhinhos brilharam. Enfiou depressa o dinheiro no bolso e ficou imaginando o que compraria com aquele dinheiro. Foi então que ele percebeu que havia outro papel ao lado do seu prato, igualzinho ao seu e bem dobrado. Curioso, abriu e leu. Era um bilhete escrito pela sua mãe: "Meu querido filhinho, você me deve: Por cuidar da sua catapora e das suas gripes: nada. Pelas roupas, calçados e brinquedos: nada. Pelas três refeições diárias e pelo lindo quarto: nada. Total que você me deve: nada, pois tudo o que eu faço para você, eu faço por amor".

Rafael ficou sentado, lendo e relendo a sua conta. Não conseguia dizer nenhuma palavra. Depois se levantou, pegou os nove reais e os colocou na mão da sua mãe. A partir daquele dia, Rafael passou a ajudar sua mãe por amor."

Não é apenas com as crianças que isto ocorre. Infelizmente, pelo amor aos nossos bens e o desejo de sempre termos mais, nos desconectamos da nossa espiritualidade e nos tornamos pessoas mal agradecidas.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Vayakel (literalmente "E reuniu") e Pekudei (literalmente "Contas"). Apesar de a Torá ter dado detalhadas instruções sobre a construção do Mishkan (Templo Móvel) nas Parashiót anteriores (Terumá, Tetsavê e Ki Tissá), nas duas Parashiót desta semana a Torá repete os detalhes construtivos do Mishkan, porém desta vez não apenas como uma ordem de D'us, e sim como a efetiva execução.

A Parashá Pekudei começa com um detalhe interessante. Moshé prestou contas de todos os materiais que foram doados, como está escrito: "Estas são as contas do Mishkan, o Mishkan do Testemunho, que foram contadas sob o comando de Moshé" (Shemot 38:21). Apesar de ser uma pessoa acima de qualquer suspeita, Moshé achou que era importante para o povo a comprovação de que toda a doação havia sido efetivamente utilizada na construção do Mishkan. Não se tratavam de materiais simples e baratos, como tijolos e cimento, e sim materiais caros, como ouro, prata, pedras preciosas, tecidos e couros. Nada havia sido desviado para usos particulares.

O Midrash (parte da Torá Oral) conecta este versículo sobre a prestação de contas de Moshé com outro versículo, ensinado por Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Um homem de confiança terá muitas Brachót (bênçãos)" (Mishlei 28:20). Isto quer dizer que justamente pelo fato de uma pessoa ser confiável é que virá para ela uma abundância de Brachót. O Midrash diz que este versículo de Mishlei se refere a Moshé Rabeinu, que se tornou uma pessoa de integridade inigualável e, por isso, foi apontado como o tesoureiro responsável pela contabilidade de todas as doações feitas pelo povo para a construção do Mishkan. Para trazer um apoio de que o versículo de Mishlei se refere a Moshé, o Midrash traz outro versículo: "Não é assim Meu servo Moshé. Ele é confiável em toda a Minha casa" (Bamidbar 12:7). Mas qual é a conexão entre ser uma pessoa confiável e receber uma abundância de Brachót? E por que o versículo "Ele é confiável em toda a Minha casa" é utilizado para atestar a integridade financeira de Moshé, se o versículo se refere à singularidade da profecia de Moshé, única e inigualável, e não à sua honestidade? E por que Moshé era a única pessoa confiável para este cargo? Não havia outras pessoas honestas em sua geração?

Outro questionamento surge ao analisarmos um ensinamento do Talmud (Taanit 8b), que afirma que as Brachót somente repousam sobre as coisas que estão escondidas dos nossos olhos. A partir do momento que algo é contado, o seu potencial de Brachá se perde. Mas se este conceito do Talmud é verdadeiro, então por que a nossa Parashá começa justamente apresentando a contabilidade dos materiais doados para a construção do Mishkan? Se contar as coisas tira o seu potencial de Brachá, não é uma enorme contradição os materiais do Mishkan terem sido contados?

De acordo com o Zohar (parte mística da Torá), pelo fato desta contagem ter um propósito sagrado, então neste caso a contagem era permitida, como também ocorre, por exemplo, na contagem dos rebanhos para a retirada do "Maasser" (dízimo). Porém, como podemos entender este conceito do Talmud, de que algo deve ficar oculto dos nossos olhos para que receba Brachá, mas que isto não se aplica se a contagem é feita por motivos sagrados?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em outro interessante ensinamento do Talmud (Baba Metsia 21b). Quando uma pessoa encontra na rua um objeto perdido sem nenhum tipo de sinal que o identifique, mesmo assim a pessoa ainda não tem a permissão de pegar para si este objeto, a não ser que tenha certeza que já passou bastante tempo desde o momento da perda, o suficiente para que o dono do objeto já tenha sentido sua falta e já tenha desistido dele. Entretanto, o Talmud afirma que se o objeto encontrado for dinheiro e não houver no dinheiro nenhum sinal de identificação, então a pessoa pode imediatamente ficar com ele. Porém, como podemos ter a certeza de que a pessoa já percebeu que perdeu o dinheiro? Responde o Talmud que "a pessoa constantemente checa seus bolsos para se certificar que seu dinheiro ainda está lá". Isto quer dizer que, quando encontramos dinheiro sem sinal de identificação, sempre podemos ter a certeza de que a pessoa que perdeu já está ciente de sua perda e já desistiu de procurar seu dinheiro e, por isso, podemos ficar com o dinheiro.

O Talmud não está apenas nos ensinando uma Halachá (lei) em relação a objetos perdidos, mas também está nos ensinando algo incrível sobre a psicologia do ser humano. É inerente a qualquer ser humano a insegurança em relação às suas posses, algo que se manifesta através da necessidade que o ser humano tem de sentir o domínio sobre todas as suas propriedades. Ficar constantemente mexendo nos bolsos para checar se o dinheiro ainda está lá é um exemplo da necessidade que o ser humano tem de se sentir conectado às suas posses. Para atender esta necessidade de domínio, a pessoa fica constantemente contando o que tem, pois contar o que é seu traz ao ser humano um forte senso de domínio e posse. Algumas pessoas chegam ao absurdo de checar várias vezes no dia quanto dinheiro elas têm na conta ou na carteira, enquanto outros abrem o dia inteiro as notícias para saber o valor do dólar e das bolsas.

A palavra Brachá, que significa "Benção", vem da mesma raiz da palavra "Breichá", que significa "Reservatório, Fonte". As Brachót são uma conexão com a nossa Fonte de existência, isto é, D'us. Se uma planta está conectada à terra, que é sua fonte, então ela se desenvolve e floresce. D'us é a fonte de toda a vitalidade. Quando o ser humano conecta algo à sua Fonte, ele recebe Brachá. Por outro lado, quando um ser humano quer demonstrar sua dominação sobre certo objeto, ele está separando este objeto de sua Fonte e, portanto, a Brachá é perdida. É por isso que a Brachá somente repousa sobre os objetos que estão escondidos dos nossos olhos, isto é, que não foram contados pelo ser humano, pois a contagem é uma maneira de demonstrar sua dominação sobre o objeto.

Esta é a diferença entre alguém que conta para si mesmo, de uma maneira dominadora, e alguém que conta "Leshem Shamaim" (em nome de D'us). Quando a contagem é para cumprir uma Mitzvá, então o próprio ato de contar conecta o objeto a D'us. Mas não adianta apenas o ato ser voltado a cumprir a vontade de D'us, pois mesmo quando uma pessoa recolhe e conta doações feitas para uma Mitzvá, como ocorreu na construção do Mishkan, existe o perigo do responsável por esta função sentir uma dominação ou uma conexão mais forte com estes fundos coletados. É por isso que o responsável por coletar as doações do Mishkan precisava ser alguém espiritualmente elevado. Moshé estava muito conectado com D'us, o que é atestado pelo versículo no qual D'us afirma que o nível de profecia dele era algo único e inigualável. Moshé estava tão elevado que é considerado como se ele estivesse na "casa de D'us". Por isso Moshé era a pessoa mais adequada para ser o tesoureiro responsável por coletar e contar as doações que o povo judeu fez ao Mishkan, pois seus atos eram completamente puros e direcionavam todos os objetos doados diretamente para D'us, a Fonte de toda a Brachá.

Assim conseguimos entender a explicação do versículo "um homem de confiança terá muitas Brachót". Aquele que é honesto, que faz tudo "Leshem Shamaim", sem motivações pessoais, se torna uma pessoa completamente íntegra. Desta maneira, ele conecta todo o fruto dos seus esforços a D'us, a Fonte de toda a vitalidade, e pode florescer e crescer abundantemente, como uma planta conectada à terra que lhe dá os nutrientes necessários ao seu crescimento.

Desta explicação do Rav Yohanan Zweig fica um ensinamento muito importante e atual. Vivemos em uma sociedade completamente conectada aos valores materiais. O valor das pessoas é medido de acordo com a quantidade de bens que elas têm. Isto faz com que as pessoas se tornem conectadas aos bens materiais de uma maneira negativa, de uma forma dominadora, se desconectando da sua espiritualidade e da Fonte de vida, D'us. Para termos Brachá na vida, é preciso usar o mundo material de forma que ele seja canalizado para nossa espiritualidade. Quando colocamos no coração que tudo vem de D'us, quando somos honestos nos negócios, quando utilizamos o que temos para também ajudar os outros e quando valorizamos as pessoas pelos que ela são e não pelo que elas têm, certamente isto nos traz muitas Brachót na vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 35:1-38:20, 1 Rs 7:13-26, 40-50 e Ex. 38:21-40:38, I Rs 7:51-8:21
É costume, após a leitura da última Parashá de cada Livro (Gn., Ex., Lv., Nm. e Dt.), dizer-se: CHAZÁK, CHAZÁK, VENITCHAZÊK! – FORÇA, FORÇA, E QUE SEJAMOS FORTALECIDOS!


sábado, 12 de março de 2016

CORAÇÃO DE OURO - PARASHAT PEKUDEI 5776


"Gabriel gostava de aventuras e queria fazer uma viagem de balão. Enquanto estava esquentando o ar do balão e preparando os últimos detalhes, surgiu Marcos, um homem muito simples e ingênuo. Marcos ficou pasmado olhando para o balão que se inflava aos poucos. Ele morava em uma pequena cidade do interior, nunca tinha visto um balão, e ficou encantado com a ideia de viajar dentro de uma "cesta voadora". Suplicou a Gabriel que o levasse junto para o voo, e estava tão entusiasmado com a possibilidade de ver sua cidade do alto que não parava de insistir. Percebendo que não teria outra opção, Gabriel aceitou levar Marcos, com a condição que ele não tocasse em nada. Quando levantaram voo, Marcos não acreditou no que viu, pois nunca havia imaginado poder voar pelo céu. Mas depois de alguns minutos, ao perceber que o balão perdia altura, se assustou:

- Estamos caindo, estamos caindo, vamos morrer!

Gabriel explicou calmamente que era apenas o ar do balão se esfriando, e que bastava aumentar a chama para o balão subir novamente. Porém, quando Gabriel foi aumentar a chama, viu que ela havia se apagado completamente. O ponteiro do gás mostrava que o reservatório estava vazio, e Gabriel lembrou que, por causa da insistência de Marcos, não havia checado antes da decolagem se havia gás suficiente. Ainda tentando manter a calma, Gabriel explicou a Marcos que a única coisa a fazer naquele momento era diminuir o peso do balão, jogando fora os objetos que eles tinham trazido, inclusive as coisas mais valiosas, para ajudar o balão a subir e chegar em segurança. Imediatamente Gabriel começou a jogar fora todos os seus pertences: sua mochila, sua carteira, e até mesmo os mantimentos que havia trazido. Mas para Marcos era muito difícil jogar seus pertences, e por isso ele olhou ao redor, procurando alguma outra alternativa. De repente, teve uma ideia genial:

- Já sei como podemos nos salvar! Se este enorme balão que está cheio de gás já não serve mais, então vamos cortar as cordas que o conectam à cesta, e assim subiremos de novo…"

Apesar de ser uma piada, esta história tem uma forte relação com os momentos de dificuldade que passamos na vida. Por exemplo, em épocas de dificuldade financeira, temos duas escolhas: podemos "apertar o cinto" diminuindo nossos luxos e comodidades, ou podemos cortar as doações que fazemos para os necessitados e para as instituições de Torá. Infelizmente a escolha natural é cortar as doações. Porém, deveríamos fazer justamente o contrário, pois é a bondade que fazemos ao próximo e os méritos de mantermos o estudo da Torá que podem nos ajudar a sair da crise. Quando cortamos nossos atos de bondade, nos assemelhamos àquele homem simples que, na sua ingenuidade, sugeriu cortar as cordas que amarravam a cesta ao balão.
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Nesta semana lemos a Parashat Pekudei (que literalmente significa "contas"). O povo havia doado os materiais para a construção do Mishkan (Templo Móvel) e seus utensílios. Eram materiais caros e valiosos, como ouro, prata, cobre e tecidos. A Parashat começa justamente com a prestação de contas feita por Moshé, para justificar o uso de cada doação feita, como está escrito: "Estas são as contas do Mishkan, o Mishkan do Testemunho, que foram contadas sob o comando de Moshé" (Shemot 38:21).  
Porém, esta prestação de contas feita por Moshé apresenta uma aparente dificuldade. De acordo com o Rav Avraham ben Meir zt"l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, se prestarmos atenção nos versículos que descrevem a totalização das doações, perceberemos que a prestação de contas ocorreu apenas com a prata e o cobre, porém não há prestação de contas do ouro. A Torá apresenta apenas qual foi o total de ouro doado, mas não explica como ele foi utilizado, como ocorre com a prata e o cobre, cuja utilização é descrita em detalhes. Por que Moshé não se preocupou em prestar contas da utilização do ouro?  
A resposta pode estar em uma interessante explicação do Daat Zkeinim MiBaalei HaTossafot (comentaristas da Torá que viveram na época de Rashi) trazida na Parashat Terumá, em relação às doações feitas para a construção do Mishkan. Na Parashat Terumá, a Torá também lista três metais entre os materiais que deveriam ser doados: o ouro, a prata e o cobre. De acordo com o Daat Zkeinim, cada um destes metais representa um nível de doação. O ouro representa as doações de uma pessoa que está completamente saudável, a prata representa a doação de alguém que está doente e o cobre representa a doação de alguém que já faleceu. Mas o que significa estas representações dos metais doados?
Explica o Rav Yohanan Zweig que, quando uma pessoa faz uma doação, há dois fatores a serem considerados: o impacto sobre a pessoa que abre mão dos seus recursos, e o retorno que a pessoa recebe do seu "investimento", isto é, o que ela espera receber em troca de sua doação.  
Quando falamos sobre alguém que doou depois do falecimento, isto representa a pessoa cuja doação não implica praticamente em nenhum perda financeira, e que é feita com o único intuito de acumular méritos para protegê-la no Olam Habá (Mundo Vindouro). Este é o nível mais baixo de doação, e é representada pela doação do cobre. Já a doação que é motivada por uma doença implica em uma certa perda de recursos, mas a pessoa faz a doação pensando no retorno do seu "investimento", que neste caso é a recuperação da sua saúde. Este é um nível intermediário de doação, e é representada pela doação da prata. Finalmente, a doação de uma pessoa saudável, que também implica em uma perda de recursos, é o modelo da doação sincera e altruísta, pois é feita sem segundas intenções. Pelo fato da pessoa estar viva e saudável, isto demonstra que ela não está querendo nada em troca de sua doação. Este é o maior nível de doação, e é representado pela doação do ouro.  
Mas como estes três níveis de doação explicam a falta de prestação de contas em relação às doações do ouro? Explica o Rav Yohanan Zweig que as pessoas normalmente costumam atribuir aos outros as suas próprias falhas e defeitos. O Talmud (Kidushin 70b) refere-se a este tipo de comportamento como "Kol Hapossel, Bemumó Possel", que significa que todo aquele que enxerga um defeito no seu companheiro está simplesmente projetando no outro as sua própria deficiência. Quando nos incomoda ver em outra pessoa algum traço de caráter negativo, significa que em algum nível nós também possuímos este mesmo traço de caráter negativo. D'us criou este incrível sistema para nos ajudar, pois normalmente é mais fácil enxergar os defeitos nos outros do que em nós mesmos. Então, quando enxergamos algo negativo em outra pessoa, é um reflexo de um erro que nós mesmos também estamos cometendo e que precisamos consertar.  
Com este conceito do Talmud podemos então entender a diferença que ocorreu na prestação de contas. Quando uma pessoa doa sem sinceridade, com segundas intenções em sua doação, então ela exigirá uma prestação de contas de como sua doação foi utilizada, pois pelo fato dela não ter doado de uma forma genuinamente altruísta, generosa e desinteressada, ela "projeta" no outro seu próprio defeito e assume que aquele que está recolhendo sua doação também está fazendo por motivos pessoais e interesseiros. Por isso, suspeitando de alguma irregularidade, ela exige uma prestação de contas completa de como sua doação foi utilizada.  
Quando a Torá apresenta a prestação de contas das doações de prata e cobre, é porque aqueles que doaram a prata e cobre assim exigiram. Porém, pelo fato daqueles que trouxeram o ouro terem feito uma doação completamente altruísta e desinteressada, eles também não despertaram nenhuma dúvida sobre a seriedade e a motivação pura daqueles que recolheram as doações. Não foi necessário fazer nenhum tipo de prestação de contas do ouro utilizado no Mishkan e em seus utensílios, pois os doadores não exigiram.  
Desta Parashat aprendemos duas importantes lições. A primeira é a incrível regra espiritual de "Kol HaPossel, Bemumó Possel", isto é, toda vez que nos irritamos com os defeitos dos outros, é um sinal que nós também temos, em algum nível, exatamente os mesmos defeitos. Portanto, ao invés de tentar corrigir os outros, em primeiro lugar devemos olhar para nós mesmos e corrigir o que estamos fazendo de errado.  
A segunda importante lição desta Parashat é em relação à pureza dos nossos atos de bondade. Muitos pensam que o importante é apenas o ato de doar, mas que as intenções pouco importam. Do Mishkan aprendemos que as intenções puras e altruístas são tão importantes quanto o ato de doação em si. A doação do ouro representa aqueles que doam com intenções puras e altruístas, e não com o desejo de receber algo em troca. Talvez é por isso que utilizamos a expressão "a pessoa tem um coração de ouro" quando nos referimos a alguém cujos atos de bondade são puros e altruístas.
  
Estamos passando no Brasil por uma crise econômica difícil. Porém, não podemos esquecer que tudo o que ocorre tem suas raízes nos mundos espirituais. Infelizmente a primeira atitude que tomamos em momentos de aperto não é cortar os nossos gastos supérfluos, e sim cortar as nossas doações, tanto para os necessitados quanto para as instituições de Torá. Mas isto é um grande erro, pois as doações e os nossos atos de bondade altruístas são justamente as atitudes que trazem méritos e que podem nos ajudar a superar as dificuldades e reverter a situação difícil. Como a pessoa em um balão caindo, para deixar de perder altura devemos jogar fora os bens "pesados", e não cortar o próprio balão, que é a única coisa que pode nos fazer voltar a subir.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 38:21-40:38, I Re. 7:51-8:21, 2

sexta-feira, 13 de março de 2015

INFLUÊNCIA DOS NOSSOS ATOS - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5775

 
"Yaacov era um homem de bom coração, sempre que podia ajudava os outros. Certo dia ele caminhava com alguns amigos por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. Yaacov teve misericórdia e não pensou duas vezes, correu pela margem do rio, entrou na água e pegou o escorpião na mão para salvá-lo. Porém, quando o trazia para fora, o escorpião picou sua mão. Devido à dor, Yaacov deixou o escorpião cair novamente no rio, e ele foi arrastado novamente pelas águas. Mas Yaacov não desistiu, ele foi até a margem, pegou um galho de árvore caído, alcançou novamente o  escorpião e o salvou, mas desta vez sem encostar a mão no bicho. Os amigos, que haviam assistido a cena, ficaram perplexos e disseram:

- Yaacov, deve estar doendo muito. Por que você foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse, seria um a menos! Veja como ele retribuiu a sua ajuda, picando a mão que o havia salvado! Este bicho não merecia sua misericórdia.

Yaacov, sem demonstrar nenhum tipo de arrependimento, respondeu:

- O escorpião me picou porque agiu conforme a sua natureza, e eu o salvei pois agi de acordo com a minha natureza".

De acordo com os nossos atos nós moldamos a nossa natureza e o nosso coração. Bons atos repetidos continuamente resultam em um bom coração, enquanto maus atos repetidos continuamente resultam em um mau coração. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Vayakel e Pekudei, que descrevem respectivamente as atividades de construção do Mishkan e a prestação de contas que Moshé fez dos materiais doados para a construção o Mishkan. A Parashá Vayakel também descreve o momento em que as pessoas escolhidas para construir o Mishkan terminaram seu serviço: "E eles trouxeram o Mishkan para Moshé: a Tenda e todos os seus utensílios..." (Shemot 39:33). Por que o Mishkan foi levado até Moshé, e já não foi montado pelos próprios construtores?

Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que quando Moshé anunciou ao povo que todos poderiam participar na construção do Mishkan através da doação dos materiais, eles se alegraram muito e doaram com entusiasmo e agilidade, atingindo a meta em apenas dois dias. Depois que os trabalhos foram concluídos, o povo inteiro ficou muito ansioso, esperando pelo momento em que a "Shechiná" (Presença de D'us) repousaria entre eles. Os sábios construtores tentaram montar o Mishkan, mas ele não conseguia se manter de pé e caía. Por que eles não conseguiam montar o Mishkan, se D'us havia dado a eles a sabedoria necessária para construir cada parte do Mishkan e cada um dos seus utensílios?

Continua o Midrash e explica que Moshé estava sofrendo muito por não ter participado ativamente na construção do Mishkan. D'us viu o sofrimento de Moshé e disse para ele: "Como você está sofrendo por não ter participado da construção do Mishkan, então Eu não deixarei que os homens sábios que construíram o Mishkan consigam montá-lo sem você, para que todo o povo judeu saiba que somente através de você o Mishkan pode ser montado". É por isso que o versículo enfatiza que o Mishkan foi levado até Moshé, pois ele foi o único que realmente conseguiu montá-lo.

Mas desta explicação surge uma grande pergunta, pois o Midrash afirma que Moshé estava muito triste por não ter participado da construção do Mishkan. Porém, há outro Midrash que afirma que Moshé estava muito presente durante toda a construção do Mishkan e teve uma participação fundamental, pois ele circulava o tempo inteiro entre os profissionais que estavam construindo o Mishkan para ensiná-los como fazer cada parte e cada utensílio com perfeição, sem nenhum erro. Moshé foi tão zeloso e tão minucioso em construir o Mishkan exatamente da maneira como D'us havia ensinado que diversas vezes a Torá repete que os objetos foram feitos "conforme D'us ordenou a Moshé".

Além disso, está escrito na Torá: "E foi no dia em que Moshé terminou de construir o Mishkan" (Bamidbar 7:1). Rashi questiona por que está escrito que foi Moshé quem construiu o Mishkan, como se ele tivesse o mérito de ter construído o Mishkan sozinho, ao invés de atribuir o mérito a Betzalel, Ahaliav e os outros tantos homens sábios que haviam se voluntariado para fazer as atividades construtivas do Mishkan? Ele responde que Moshé se entregou completamente à tarefa de construir o Mishkan, checando uma por uma todas as formas de todos os utensílios e partes do Mishkan e ensinando a cada construtor todos os minuciosos detalhes conforme D'us havia mostrado para ele no Monte Sinai. E o empenho de Moshé teve frutos, pois nenhum formato continha nenhum erro, tudo saiu exatamente como D'us havia mostrado. A dedicação de Moshé foi tanta que ele meritou um versículo que atribui a ele sozinho a construção de todo o Mishkan. quem estabeleceu o Mishkan, e nbçstruçatamente da maneira como D'turesençade  Então por que ele se entristeceu por não ter "colocado a mão na massa", se sua participação na construção havia sido tão fundamental? O que faltava para Moshé?

Responde o Rav Bentzion Bamberg zt"l (Alemanha, 1920 - Israel, 1981) que da tristeza de Moshé aprendemos qual é a importância de fazer bons atos na prática. Apesar de toda a sua dedicação e sua participação "intelectual" no Mishkan, Moshé estava triste por não ter participado diretamente na construção física do Mishkan, isto é, por não ter colocado a mão na massa, com atos físicos de construção. Mas o que teria mudado se ele tivesse feito algum ato na prática? Por que não foi suficiente sua participação "intelectual"?

Um dos motivos pelos quais D'us nos ordenou Mitzvót que necessitam da utilização de objetos e partes do nosso corpo, como colocar Tefilin no braço e na cabeça ou segurar os Arba Minim em Sucót, é para que as Mitzvót possam ser internalizadas, através dos atos, em nossos corações. O ser humano não consegue, apenas através de seu intelecto, canalizar seus desejos e mudar características que estão naturalizadas. Cada ato externo que fazemos funciona como um contrapeso para as tendências naturais do nosso corpo, como ensinam os nossos sábios: "Atrás dos nossos atos é levado o nosso coração". Por isso muitas Mitzvót envolvem atos físicos, para poderem nos ajudar no processo de purificação e elevação espiritual.

Há uma Mitzvá interessante que demonstra o quanto este conceito é verdadeiro. Em relação ao Korban Pessach (sacrifício de Pessach), há uma proibição na Torá de quebrar qualquer osso do Korban. Qual é o motivo desta Mitzvá? Ensina o Sefer HaChinuch (Mitzvá 16) que quebrar os ossos é a forma como os animais e as pessoas pobres e famintas comiam. Mas como o povo judeu foi tirado do Egito para se tornar uma luz para as nações do mundo, um povo sagrado e elevado, não era apropriado que eles se comportassem com atos que não condiziam com o seu novo status, pois os atos que uma pessoa faz ficam gravados em sua alma para sempre. O coração e os pensamentos de uma pessoa sempre vão atrás de seus atos, tanto para o bem quanto para o mal.

O Sefer HaChinuch revela algo ainda mais impressionante: mesmo um Rashá Gamur (pessoa completamente má), se ele começar a fazer constantemente bons atos, como estudar Torá, cumprir Mitzvót e fazer atos de caridade, mesmo que não seja com as intenções corretas, sua natureza finalmente penderá para o lado positivo, pois cada ato externo influencia seu interior. E assim nos ensina o Talmud (Makot 23b): "D'us quis trazer méritos ao povo judeu, por isso multiplicou para eles a Torá e as Mitzvót". Como há muitas Mitzvót na Torá, praticamente o dia inteiro estamos nos ocupando com elas. Quando acordamos, quando nos vestimos, quando nos alimentamos, e até mesmo quando vamos ao banheiro. A repetição constante de Mitzvót nos torna, a cada instante, pessoas melhores. O mesmo conceito é ensinado em outro Tratado do Talmud (Menachót 43b): "Aquele que tem Tefilin no braço e em sua cabeça, fios de Tsitsit em sua roupa e uma Mezuzá em sua porta, é garantido que não vai cometer transgressões". Por que justamente estas Mitzvót? Pois são Mitzvót constantes, que cumprimos o tempo inteiro, e por isso elas vão purificando nosso coração e nos afastando das transgressões.

Desta Parashá aprendemos o quanto devemos ter cuidado com nossos atos, pois atrás dos nossos ato
s será levado o nosso coração. Moshé sofreu por não ter colocado a mão na massa na construção do Mishkan, pois sabia o quanto cada bom ato que fazemos nos influencia para o bem e purifica nossos corações e pensamentos. Mesmo Mitzvót pequenas e bons atos aparentemente sem importância contribuem para o nosso crescimento constante. Por isso devemos procurar o tempo inteiro oportunidades de cumprir Mitzvót e fazer bons atos, mesmo que em um primeiro momento não façamos com as intenções mais puras e elevadas, pois a repetição de bons atos faz com que nos elevemos e consigamos, em algum momento, atingir também as intenções puras e elevadas, como afirmam os nossos sábios: "Através da repetição de bons atos, mesmo que em um primeiro momento sejam sem intenções puras, virão atos com as intenções mais puras e elevadas".

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 35:1-38:20
Ex. 38:21-40:38

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

VERDADEIRO VALOR DAS COISAS - PARASHÁ PEKUDEI 5774

O rei de um importante reinado tinha um fiel ajudante muito dedicado. Todas as manhãs ele ia até o rio, enchia dois baldes de água fresca, prendia um balde em cada ponta de um bastão de madeira, apoiava o bastão sobre seus ombros e caminhava de volta ao palácio.

Porém, os baldes que o ajudante do rei utilizava não eram iguais. Um deles era um balde de ouro, novo e bonito, enquanto o outro era um balde de plástico, simples. O balde de plástico já estava velho e, por causa de tanto uso, já apresentava alguns pequenos furos. Quando o ajudante do rei chegava de volta ao palácio, o balde de plástico já tinha esvaziado um pouco, pois a água ia gotejando pelo caminho, enquanto o balde de ouro ainda continuava completamente cheio. Com o tempo, o balde de ouro se tornou orgulhoso e arrogante, e começou a achar que era melhor que os outros por causa de sua bela aparência e seu alto valor. Já o balde de plástico se sentia frustrado e triste, pois fazia de tudo para que a água não escapasse, mas não conseguia. Certo dia, não aguentando mais tanta vergonha, o balde de plástico falou para o ajudante do rei:

- Por favor, termine com meu sofrimento. Eu sou um inútil. Você me enche com água fresca, mas quando chegamos ao palácio, parte já se perdeu. Nem para isso eu sirvo. Por que você não me joga fora?

O ajudante do rei não respondeu nada, mas não deixou de reparar no sorrisinho do balde de ouro, o ar de superioridade. No dia seguinte, como sempre fazia, foi até o rio, encheu os dois baldes de água e começou a voltar ao palácio. Então, com carinho, falou para o balde de plástico:

- Querido balde, olhe para baixo. Você percebeu que do seu lado há uma trilha de lindas flores e um lindo gramado verde? Todos os dias quando vou ao rio eu jogo sementes de flores pelo caminho. Na volta, ao gotejar água, você me ajuda a regar o solo, fazendo as sementes germinarem. Quando as flores desabrocham, eu as colho e coloco na mesa do rei para enfeitá-la. Você percebe o quanto você é especial?

- Mas do outro lado o que você vê? Apenas terra seca, sem vida – continuou o ajudante do rei – Isto acontece porque o balde de ouro não compartilha a água que traz dentro dele. E ele é tão orgulhoso, tão focado apenas em si mesmo, que não percebe que do seu lado há lindas flores e vida, enquanto do lado dele há apenas terra seca.


Depois de anos de tristeza, pela primeira vez o balde de plástico abriu um sorriso. Ele havia percebido seu verdadeiro valor. Ele não era feito de ouro, não era tão bonito como o outro balde, mas contribuía para embelezar a casa do rei. Foi a vez do balde de ouro, com toda a sua beleza e esplendor, sentir uma enorme vergonha.

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A Parashá desta semana, Pekudei, começa com a descrição da prestação de contas das doações feitas pelo povo judeu para a construção do Mishkan (Templo Móvel), como está escrito: “E estas são as contas do Mishkan, o Mishkan do Testemunho, que foi contado sob o comando de Moshé. O serviço dos Leviim estava sob a autoridade de Itamar, filho de Aharon HaCohen. Betzalel, filho de Uri, filho de Chur, da tribo de Yehudá, fez tudo o que D’us comandou a Moshé” (Shemot 38:21,22).

Mas se prestarmos atenção nestes versículos, algumas das informações parecem ser desnecessárias ou estar fora de contexto. Por exemplo, se a Parashá estava falando sobre a contabilidade das doações, por que foi necessário acrescentar que Itamar era o responsável pelo serviço dos Leviim? Além disso, a Torá já havia ensinado diversas vezes que Betzalel era o responsável pela construção do Mishkan, então por que a necessidade de repetir novamente?

Se pararmos para refletir sobre o Mishkan, perceberemos que ocorreu algo interessante durante a história. Alguns anos após o povo judeu ter entrado em Israel, o Mishkan foi definitivamente substituído pelo Beit Hamikdash (Templo Sagrado) de Jerusalém. Mas houve uma grande diferença entre o Mishkan e os dois Templos. Enquanto o Primeiro e o Segundo Templos foram capturados por outros povos, profanados e finalmente destruídos, o Mishkan nunca foi capturado, profanado nem destruído. Por que?

Explica o Rav Ovadia Sforno (Itália, 1475-1550), comentarista da Torá, que estas partes aparentemente desnecessárias dos versículos iniciais da Parashá são, na verdade, informações fundamentais que nos ajudam a entender a enorme diferença espiritual que havia entre o Mishkan e os dois Templos. Os versículos descrevem os motivos pelos quais o Mishkan tinha um nível espiritual tão elevado. As palavras “Mishkan do Testemunho” se referem à presença das Tábuas sagradas, nas quais D’us escreveu pessoalmente os 10 Mandamentos e entregou-as a Moshé no Monte Sinai. As palavras “sob o comando de Moshé” se referem ao fato de Moshé ter participado pessoalmente da montagem do Mishkan, fazendo com que o Mishkan absorvesse parte da sua própria majestade. Os versículos ainda ressaltam que os serviços do Mishkan tinham a participação de Itamar, filho de Aharon, um homem de elevado nível espiritual, que contribuiu para que o Mishkan alcançasse um grande nível de santidade. E finalmente a Torá ressalta que os trabalhos foram pessoalmente supervisionados por Betzalel, um homem muito conectado com a espiritualidade, que recebeu do seu avô, Chur, a característica de dedicar a vida para D’us.

A construção dos dois Templos Sagrados, por outro lado, não envolveu tanta santidade quanto no Mishkan. Por exemplo, apesar de o Primeiro Templo ter sido construído por Shlomo Hamelech (Rei Salomão), um homem muito reto e elevado, os trabalhadores foram homens de outros povos que moravam na cidade de Tsur, pessoas não comprometidas com a espiritualidade. E por isso o Templo se deteriorava e exigia uma manutenção constante, diferente do Mishkan, que não se deteriorava. Além disso, por causa do seu nível espiritual mais baixo, ele foi finalmente capturado pelos nossos inimigos e destruído. O Segundo Templo tinha um nível de santidade ainda mais baixo, pois as Tábuas que continham os 10 Mandamentos já não estavam mais presentes e sua construção foi autorizada por Koresh (Ciro), o Rei da Pérsia. Por isso, o Segundo Templo também caiu nas mãos dos nossos inimigos, foi profanado e finalmente destruído.

O Sforno aponta outra diferença interessante entre o Mishkan e os dois Templos. Na continuação da Parashá, a Torá apresenta o total de materiais que foram doados para a construção do Mishkan. A quantidade é muito menor do que a quantidade de materiais nobres que foram utilizados nos dois Templos. Isto quer dizer que os dois Templos eram construções muito mais bonitas, caras e esplendorosas do que o Mishkan. Mas apesar disso, foi do “humilde” Mishkan que a Presença Divina nunca se afastou.

Da justaposição destas duas características, isto é, o nível espiritual das pessoas envolvidas na construção e a quantidade de materiais nobres utilizados, o Sforno chega a uma incrível conclusão: a santidade de uma construção não é definida pelo valor de seus materiais nem por sua beleza, mas pelo nível espiritual das pessoas envolvidas em sua construção. Os Templos eram certamente mais imponentes e impressionantes, mas apesar disso o valor espiritual do Mishkan era muito maior, por causa da pureza e espiritualidade daqueles que cuidaram da sua construção.

Nos ensina o Rav Yehonasan Gefen que desta explicação do Sforno aprendemos algo mais abrangente para nossas vidas. A perspectiva da Torá sobre quanto vale um objeto físico ou uma construção é completamente diferente da visão não judaica. Enquanto a visão não judaica define o valor das coisas através da beleza externa e do custo dos materiais utilizados, a Torá dá pouca importância para as qualidades externas, uma vez que a espiritualidade interna que foi investida é o que define o verdadeiro valor das coisas. Isto nos ensina que um ato pequeno, mas feito com humildade e intenções corretas, é muito maior aos olhos de D’us do que grandes atos feitos com orgulho e com intenção de se autopromover. Às vezes nos sentimos menores por não podermos contribuir tanto quanto grandes filantropos, mas a verdade é que se fizermos a nossa parte, de acordo com as nossas possibilidades e com as intenções puras, nossos atos serão mais queridos para D’us do que a doação de enormes quantias acompanhada de intenções não tão puras.

Outro ensinamento importante que fica é o quanto é uma grande tolice dedicar a vida para acumular bens materiais. O verdadeiro valor de uma pessoa não é o que ele tem, e sim o que ele é. A Civilização Ocidental nos ensina que o valor de uma pessoa é medido pelo tamanho do seu apartamento, pela quantidade de carros na sua garagem ou pelo seu cargo na empresa, pois o valor das coisas é função das aparências superficiais ou do valor monetário. É por isso que tantas pessoas entram em depressão quando se aposentam ou perdem muito dinheiro, pois sentem que a parte mais importante delas se foi. Mas de acordo com o judaísmo, o valor verdadeiro de uma pessoa é medido pelos seus traços de caráter, pela forma como ela se relaciona com as outras pessoas e pela pureza com que ela faz seus pequenos atos cotidianos.

Por isso, ao invés de nos sentirmos pequenos, devemos saber o quanto nos tornamos grandes aos olhos de D’us quando fazemos a nossa parte na construção do mundo, com muito esforço e, acima de tudo, com muita humildade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 38:21-40:38, I Re. 7:51-8:21
 

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5773

"Como você espera que as crianças escutem seus pais? Veja como se comportam seus heróis! O Tarzan vive seminu; a Cinderela volta para casa depois da meia-noite; o Pinóquio conta mentiras o tempo todo; o Aladdin é o rei dos ladrões; o Batman dirige a 320 km/h; a Bela Adormecida é preguiçosa; a Branca de Neve vive em uma casa com 7 homens.

Nós não devemos ficar surpresos quando nossos filhos se comportam mal. Eles aprenderam com seus livros de história"

Procuramos a fonte dos atuais problemas de educação dos jovens em tantos lugares, mas não sabemos que a resposta está bem mais perto do que imaginamos...

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Um dos grandes desafios de psicólogos e pesquisadores atualmente é entender por que há tanta violência e drogas entre os jovens. Tornaram-se comuns casos de rebeldia e falta de limites. Qual é a raiz deste problema, que traz tanta dor de cabeça para os pais? A resposta está nas Parashiót lidas nesta semana, Vayakel e Pekudei.

Enquanto as Parashiót Terumá e Tetzavê descreveram a construção do Mishkan na teoria, as Parashiót Vayakel e Pekudei descrevem os trabalhos práticos de construção. E assim diz um dos versículos da Parashá Vayakel: "E todas as mulheres que elevavam os seus corações com sabedoria fiavam o pelo das cabras" (Shemot 35:26). Mas é assim tão difícil fiar pelo de cabras, a ponto de ser necessário a Torá louvar a sabedoria das mulheres que fizeram este trabalho?

Uma parte do Mishkan era coberta com cortinas feitas de pelo de cabra. Para tecer o pelo das cabras, o normal é primeiro cortá-lo e somente depois começar todos os processos para trabalhar os fios. Explica Rashi, comentarista da Torá, que no povo judeu havia mulheres que tinham a incrível sabedoria de trabalhar o pelo das cabras sem cortá-lo, isto é, enquanto ainda estava conectado com as cabras vivas.

Mas esta explicação do Rashi desperta uma grande curiosidade: é verdade que transformar em cortina o pelo da cabra enquanto ele ainda está conectado ao animal é uma grande sabedoria. Mas para que isto era necessário? Por que não trabalhar o pelo das cabras da maneira tradicional, depois que ele já havia sido cortado, o que facilitaria muito o trabalho das mulheres?

Explica o Rav Meir Tzvi Bergman que o Mishkan era um lugar de grande pureza espiritual e, portanto, todas as suas partes e utensílios deveriam ser completamente puros. Nossos sábios explicam que, entre as leis sobre pureza e impureza espiritual, há uma regra de que nenhum animal vivo, e nenhuma parte do seu corpo, recebe impureza espiritual. Por isso as mulheres utilizaram a incrível técnica de fazer as cortinas do Mishkan com o pelo ainda conectado às cabras, evitando assim qualquer risco de contaminação espiritual. Provavelmente estas cortinas eram mantidas conectadas às cabras até o momento de sua utilização, quando eram cortadas e imediatamente incorporadas ao Mishkan, sem nenhum risco de se impurificar.

Mas de acordo com um comentário do Rambam (Maimônides), ainda assim fica difícil entender qual o motivo da utilização desta sabedoria especial das mulheres. Explica o Rambam, em um comentário sobre as Mishnaiót (parte da Torá Oral), que há maneiras de purificar objetos que receberam impurezas espirituais. Isto quer dizer que, mesmo se as cortinas entrassem em contato com qualquer tipo de impureza, elas poderiam ser purificadas para serem utilizadas no Mishkan. Portanto, por que as mulheres queriam garantir a pureza das cortinas de uma maneira tão difícil e complicada, se havia uma maneira muito mais fácil?

Há uma interessante passagem do Talmud (Baba Metsia 85b), que nos ajuda a encontrar a resposta. O Talmud conta que Rav Chia, um dos grandes sábios do povo judeu, queria garantir que a Torá nunca seria esquecida. O que ele fazia? Pessoalmente plantava sementes de linho. Com o linho ele costurava redes, com as quais caçava cervos. A carne dos cervos era utilizada para alimentar órfãos, enquanto a pele era usada como pergaminho, para escrever os 5 livros da Torá. Então ele ia com a Torá que havia escrito na pele de cervo de cidade em cidade, para ensinar Torá e Mishnaiot para as crianças. Assim ele garantia que a Torá nunca seria esquecida.

Mas se o intuito era apenas garantir que a Torá não seria esquecida, por que simplesmente o Rav Chia não pegava uma Torá pronta e ensinava às crianças? Por que precisava até mesmo plantar o linho e fazer a rede para caçar? A resposta é que a melhor garantia do sucesso espiritual é fazer cada pequena etapa do processo, do início até o final, com intenções puras e sem interesses pessoais. E assim afirmava o Gaon Mi Vilna, que se uma sinagoga fosse inteiramente construída com intenções puras, isto é, desde cada tijolo assentado e cada prego fixado na parede, e até mesmo as ferramentas dos trabalhadores fossem fabricadas com as mais puras intenções, e tudo fosse feito com o único intuito de cumprir a vontade de D'us, então era garantido que naquele lugar sagrado ninguém nunca teria um pensamento impuro durante as rezas, pois o Yetzer Hará (má inclinação) não receberia permissão de influenciar ninguém em um local tão puro. Foi por isso que o Rav Chia, para garantir que a Torá não seria esquecida, cuidou de tudo desde o princípio, isto é, desde o plantio das sementes, para garantir a pureza total de cada pequena parte do processo. Somente assim a transmissão da Torá, em sua máxima pureza e elevação, estaria garantida.

É por isso também que as mulheres que teceram as cortinas do Mishkan escolheram a maneira mais difícil de prepará-las, pois era a forma de garantir que tudo seria feito com muita pureza. Como elas estavam participando da construção da estrutura mais sagrada que o mundo já havia visto, elas fizeram de tudo para que nenhum tipo de impureza pudesse estar presente. Cada pequena parte do trabalho com o pelo das cabras, isto é, desde pentear, lavar e fiar, era feito com ele ainda conectados aos animais, em um estágio em que o pelo ainda não se contaminava com nenhuma impureza. Isto garantia que o resultado final seria uma cortina no máximo grau de pureza e devoção.

Mas quantas pessoas no mundo sabem pentear, lavar e fiar a lã enquanto ela ainda está conectada à cabra viva? Certamente muito poucas. É uma técnica muito difícil, são necessárias aptidões naturais, dedicação e longos treinamentos. Mas se as mulheres que fizeram as cortinas foram escravas no Egito durante toda a vida, como adquiriram esta destreza? A resposta está no começo do versículo: "E todas as mulheres que elevavam os seus corações com sabedoria". As mulheres realmente não conheciam esta técnica, não tinham feito cursos e não tinham ninguém para orientá-las durante a execução. Mas elas tinham o coração puro e determinado a cumprir a vontade de D'us. Quando elas se voluntariaram e voltaram seus corações para D'us em busca de ajuda, Ele as iluminou com toda a sabedoria necessária.

Este ensinamento está diretamente conectado com um dos principais fundamentos da educação dos filhos. Se quisermos que uma criança seja pura e possa levar esta pureza para toda a vida, precisamos cuidar da sua educação desde o nascimento. Cada etapa do seu desenvolvimento deve ser acompanhada de perto pelos pais, para afastar qualquer tipo de má influência. E, acima de tudo, os pais devem se esforçar para que todos seus atos também sejam feitos com pureza, pois muito mais do que palavras, o que mais educa um filho é o exemplo pessoal dos pais.

Não podemos esquecer que infelizmente o contrário também é válido. Quando uma criança é educada desde pequena sem a devida atenção dos pais e é exposta desde cedo a jogos com violência e uma programação de televisão recheada com cenas de promiscuidade, consumismo desenfreado e violência, como podemos esperar que esta criança cresça com boas características e valores? Atualmente os pais não têm mais tempo de acompanhar a educação dos seus filhos, acreditam que é suficiente contratar uma babá e matricular os filhos em uma boa escola. Mas a prática vem demonstrando que crianças educadas desta maneira, sem a participação ativa dos pais, se transformam em jovens problemáticos, que não respeitam os mais velhos, não conhecem seus limites e não estão dispostos a seguir regras. Isto tem um impacto negativo em toda a sociedade, com aumento no número de acidentes com motoristas jovens completamente embriagados, overdoses de drogas e vandalismo. Resumindo, vemos um fracasso total na atual "educação à distância" dos nossos filhos.

Da mesma forma que trabalhar o pelo das cabras com ele ainda conectado ao animal é algo quase impossível, um trabalho que necessita de uma destreza fora do normal, o mesmo se aplica à difícil tarefa de educar os filhos da maneira correta. Então como fazer para termos sucesso na educação dos nossos filhos? A resposta não está em buscar apoio pedagógico e se aprofundar em técnicas trazidas por livros que ensinam a educar os filhos. No caso das cortinas do Mishkan, para que as pessoas vencessem as limitações e fizessem o impossível, foi necessário que seus corações os levassem a fazer o que era correto. Aqueles que se esforçaram acima do normal para fazer o Mishkan com o máximo de pureza receberam de D'us o dom e a sabedoria de como fazer isso. Assim também certamente acontecerá com os pais que, com dedicação especial, voltando seus corações para D'us, se esforçarem para que seus filhos sejam educados no máximo nível de pureza, se tornando pessoas saudáveis e que possam contribuir para que o mundo seja um lugar melhor.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 35:1-38:20, 1 Re 7:13-26, 40-50, 2 Co. 9: 6-11
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sexta-feira, 16 de março de 2012

DÊ O EXEMPLO – PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5772

"Paulo, torcedor fanático de futebol, levava seus dois filhos para o jogo do seu time do coração. Na bilheteria, perguntou o preço do ingresso.
- Acima de 12 anos o ingresso é R$ 20,00. Entre 7 e 12 anos o ingresso custa R$ 10,00. Até 6 anos a entrada é gratuita - informou o rapaz da bilheteria.
O rapaz viu os dois garotos, pareciam pequenos. Perguntou a idade deles, com a certeza de que o pai responderia que os dois tinham menos de 6 anos. Mas, para sua surpresa, Paulo respondeu:
- Um deles tem quatro e o outro tem sete anos.
- O senhor poderia ter dito que o mais velho tem só 6 anos - disse o rapaz da bilheteria - Ele é pequeno, eu não desconfiaria. Assim você teria economizado 10 reais.
Paulo abriu um sorriso e respondeu:
- Você talvez nunca ficaria sabendo a idade verdadeira, mas meus filhos com certeza sabem. E o mau exemplo ficaria gravado na cabeça deles para sempre. Eu ganharia 10 reais, mas perderia muito mais. Perderia a incrível oportunidade de ensinar a importância da honestidade para os meus filhos"
Reclamamos da desonestidade dos políticos e dirigentes. Abominamos as notícias de desvios de dinheiro e corrupção. Mas será que somos honestos nos nossos atos cotidianos? Que exemplo passamos aos nossos filhos quando fazemos nossos pequenos atos de "malandragem"?
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Vayakel e Pekudei, terminando o segundo livro da Torá, Shemót. Enquanto as Parashiót Terumá e Tetzavê descreveram com detalhes todas as ordens de D'us de como deveria ser a construção do Mishkan (Templo Móvel), isto é, as instruções teóricas, nas Parashiót lidas nesta semana são descritos todos os detalhes da execução do Mishkan na prática.
O Mishkan foi construído com materiais nobres, como ouro, prata e pedras preciosas. De onde vieram todos estes materiais? Foram doados pelo povo judeu. Apesar de serem materiais muito caros, os judeus não mediram esforços e, com enorme boa vontade, doaram todos os materiais necessários.
Na verdade, a generosidade do povo judeu foi tão grande que Moshé, avisado pelos artesãos responsáveis pela construção do Mishkan, pediu para que o povo parasse de doar, já que a quantidade necessária de materiais havia sido atingida. Após o anúncio de Moshé, a Torá traz um versículo interessante: "E o trabalho (de doação do povo) era suficiente para todo o trabalho, para fazê-lo. E sobrou" (Shemot 36:7). Este versículo desperta duas grandes perguntas. Em primeiro lugar, há uma enorme contradição, pois se o versículo diz que havia suficiente, por que logo depois diz que sobrou? Além disso, o que foi feito com estas sobras?
Os materiais doados foram utilizados em todas as partes do Mishkan. Na estrutura, nos utensílios, nos tecidos e nas roupas dos Cohanim (sacerdotes). Mas o maior desejo das pessoas era que sua doação fosse utilizada na construção do Aron Hakodesh (Arca Sagrada), utensílio que continha as tábuas dos 10 mandamentos e o Sefer Torá escrito pessoalmente por Moshé Rabeinu. Este utensílio era tão importante que ficava no "Kodesh Hakodashim", o lugar mais sagrado dentro do Mishkan, onde apenas o Cohen Gadol (Sumo sacerdote) podia entrar, e somente em Yom Kipur, o dia mais sagrado do ano. Moshé começou a se preocupar com os doadores dos materiais que, ao passarem pelo Mishkan, pensariam: "com o meu ouro foi feito o Aron Hakodesh", o que causaria neles um sentimento de Gaavá (orgulho).
Mas será que Moshé realmente precisava se preocupar? E se o povo sentisse Gaavá, qual o problema? Ensina o livro Orchot Tzadikim (Psicologia dos Justos) que a Gaavá é considerada por D'us uma abominação. A pessoa orgulhosa se sente melhor que os outros e acaba achando que não precisa nem mesmo de D'us. E assim D'us diz sobre os orgulhosos: "Eu e ele não podemos viver no mesmo mundo". Portanto, se as pessoas que doaram os materiais para o Mishkan sentissem Gaavá, isto seria uma grande contradição com o propósito de sua construção. O Mishkan era uma morada para D'us, isto é, uma maneira de trazer a presença Divina para o mundo material, e definitivamente as pessoas orgulhosas e a presença de D'us são duas coisas que não combinam.
Moshé não ficou de braços cruzados vendo o povo judeu transgredir. O que ele fez para ajudar o povo a não sentir Gaavá? Ele propositalmente pediu que as pessoas doassem um pouco a mais de material do que era necessário para a construção. O que sobrou foi empilhado e deixado em um local bem visível, onde todos que passavam pelo Mishkan podiam enxergar. Por que? Para que, quando vissem, pensassem que era sua doação que não havia sido aceita por D'us. Isto "derrubava" o coração da pessoa, pois ela imaginava que D'us estava descontente por alguma transgressão que ela havia cometido. A consequência é que a pessoa se arrependia de todas as suas transgressões e colocava humildade em seu coração, fugindo da terrível característica de Gaavá.
Quando pensamos nas características de um líder, infelizmente as primeiras idéias que vêem à nossa cabeça são corrupção, desejo pelo poder e interesses próprios. Parece que o normal é um líder não se importar de verdade com o seu povo. Mas a Torá nos deu um presente: um modelo de um líder verdadeiro, que nos ensinou, não apenas com suas palavras, mas principalmente com seus atos, quais características um verdadeiro líder deve possuir.
Em primeiro lugar, o que nos chama a atenção é a honestidade de Moshé. Assim diz o versículo sobre a doação dos materiais nobres: "E pegaram da frente de Moshé toda a doação que trouxeram os Filhos de Israel" (Shemot 36:3). O que significa "da frente de Moshé"? As pessoas traziam suas doações para a tenda de Moshé e de lá eram levadas para o local da construção do Mishkan. Se Moshé quisesse ser desonesto, poderia pegar o que quisesse para si mesmo, pois estava tudo na porta de sua casa. E ele poderia pegar sem peso na consciência, bastava convencer a si mesmo que merecia enriquecer por todo seu esforço em prol do povo judeu.
Mas Moshé venceu qualquer tipo de tentação. Além de não pegar absolutamente nada para si mesmo, Ele ainda avisou quando as doações já estavam suficientes, para que as pessoas parassem de doar. E a Torá ainda ressalta que Moshé, apesar de estar acima de qualquer suspeita, fez questão de prestar contas de todos os gastos, mostrando que tudo o que foi doado foi devidamente utilizado na construção do Mishkan, como está escrito "Estas são as contas do Mishkan..." (Shemot 38:21).
Em segundo lugar, nos impressiona a preocupação verdadeira de Moshé com o povo. Se as pessoas iriam sentir Gaavá, o que ele perderia com isso? Nada. Porém, ele se preocupou com o povo e fez de tudo para afastá-los das transgressões. Isto demonstra o grande amor de Moshé pelo povo judeu e a responsabilidade que ele sentia de ser, antes de tudo, um grande professor e educador do povo. Sua preocupação com o bem estar das pessoas era verdadeira e sincera, como deve ser a de um líder de verdade.
Na realidade estes ensinamentos não são apenas para os líderes. A honestidade e a preocupação com o próximo devem ser as bases de todo ser humano. Julgamos os políticos desonestos e interesseiros, mas se estivéssemos lá, será que faríamos diferente? Como nos comportamos nos pequenos testes do cotidiano? Quando recebemos troco a mais no banco, quando estamos presos no congestionamento e vemos o acostamento completamente livre, quando temos a oportunidade de falar pequenas mentiras para ganhar um pouco mais de dinheiro, como reagimos? São estes os momentos nos quais podemos verificar se somos realmente tão honestos como pensamos ou se há ainda um grande trabalho pela frente.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/

Vaiak’hêl   Ex. 35:1-38:20, Hb. 9:1-11
Pekudêi    Ex. 38:21-40:38, Hb. 8:1-12 (Shabat Pará)4