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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SANTIFICANDO O NOME DE D'US - PARASHÁ BÔ 5777

"Josh Glick, um judeu religioso, foi logo cedo alugar um carro em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Ele precisava urgentemente do carro para resolver assuntos importantes do trabalho. Quando chegou a sua vez na fila, abriu a carteira para pegar seu cartão de crédito e sua carteira de identidade. Encontrou rapidamente o cartão de crédito mas, para seu desespero, não encontrava a carteira de identidade. Revirou todos os bolsos, procurou se tinha caído no chão da loja, mas simplesmente não encontrava. Sabia que nunca alugariam para ele um carro sem o documento, mas estava tão desesperado que resolveu tentar. Se aproximou do homem no balcão e explicou a situação. O homem então lhe fez um pedido estranho:

- Senhor, me desculpe, mas você pode arregaçar a manga esquerda do seu terno para que possa ver seu braço?

Josh achou que tinha entendido errado. O que aquele pedido estranho tinha a ver com o aluguel do carro e com a falta da carteira de identidade? Seu olhar de espanto foi percebido pelo funcionário da loja, que explicou:

- Eu só quero ver se você tem aquelas marcas no braço (que ficam por algum tempo depois que a pessoa coloca o Tefilin). Se você tiver aquelas marcas, eu sei que posso confiar em você e posso alugar o carro mesmo sem a sua carteira de identidade.

Josh, muito feliz, mostrou suas marcas de Tefilin no braço esquerdo e saiu de lá com o carro alugado. Naquele dia ele percebeu a importância de fazer "Kidush Hashem" (santificar o Nome de D'us), se comportando sempre de maneira honesta e digna, para que o povo judeu se torne, diante dos outros povos, um modelo de honestidade e retidão" (História Real, retirada do livro "Impact Stories!", de autoria do Rav Dovid Kaplan). 
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Na Parashá desta semana, Bô (literalmente "Venha"), D'us castigou os egípcios com as últimas três pragas, quebrando de vez a resistência do Faraó. Não suportando mais os sofrimentos, ele finalmente libertou os judeus. O auge do sofrimento dos egípcios foi a última praga, a Morte dos Primogênitos, quando todos os primogênitos egípcios morreram de uma só vez, enquanto os primogênitos judeus foram poupados. Em cada praga, D'us ia demonstrando um pouco mais Seu controle sobre as forças da natureza. Nesta última praga, D'us demonstrou ser o único dono da vida e da morte. Mesmo para aqueles que ainda insistiam em procurar explicações naturais para as pragas e para os milagres abertos que aconteciam no Egito, a morte dos primogênitos foi uma revelação inegável do poder de D'us. Tanto para os egípcios como para os judeus, esta última praga transformou a percepção humana em relação à presença de D'us, de algo abstrato e subjetivo em algo muito mais visível e palpável.

Esta revelação do poder de D'us acabou se transformando em um grande "Kidush Hashem", quando o Nome de D'us é santificado no mundo. E por causa deste Kidush Hashem criado, os primogênitos do povo judeu foram elevados e ganharam um status de santidade eterna. Deste momento em diante, os primogênitos se dedicariam aos Serviços Divinos. Por exemplo, eles seriam os responsáveis por todos os trabalhos feitos nos Templos Sagrados. Infelizmente, após o desastroso tropeço do povo judeu com o bezerro de ouro, no qual os primogênitos também participaram, eles perderam este grande privilégio, que foi passado para a Tribo de Levi, os únicos que não haviam se envolvido na terrível transgressão.

Porém, esta santidade recebida pelos primogênitos era tão forte que, mesmo com o bezerro de ouro, ela não foi anulada. Foi necessária uma "cerimônia" para que os primogênitos fossem "liberados" deste privilégio e ele fosse passado à Tribo de Levi. Até hoje, quando um primogênito completa 30 dias de vida, ele passa por uma cerimônia chamada "Pidion Haben", justamente para "resgatá-lo" deste nível diferenciado de santidade.

Mas este conceito desperta uma grande questão: afinal, o que os primogênitos fizeram para merecer este status espiritual tão especial? D'us mandou uma praga que matou os primogênitos egípcios, e tudo o que os primogênitos judeus fizeram foi não morrer junto com eles! Se foi uma participação tão passiva dos primogênitos judeus, então por que eles tiveram o mérito de receber tanta santidade?

Explica o Rav Yssocher Frand que este tipo de questionamento é decorrência da nossa falta de entendimento da enorme importância de fazermos Kidush Hashem. Um ato de Kidush Hashem é algo tão grande que, mesmo quando é feito de forma passiva, como ocorreu no caso dos primogênitos judeus, pelo fato de resultar em uma santificação do Nome de D'us no mundo, isto automaticamente causa um aumento da santidade daquele que participou dele. Isto quer dizer que, se os primogênitos foram recompensados de uma maneira tão grandiosa mesmo sendo meros coadjuvantes na santificação do Nome de D'us, certamente muito maior será os ganhos daqueles que conseguirem criar uma santificação do Nome de D'us de maneira ativa.

Mas como podemos santificar o Nome de D'us? Quando pensamos no conceito de "Kidush Hashem", sempre nos vêm à cabeça a ideia de pessoas fazendo grandes atos, às vezes entregando até mesmo suas próprias vidas para engrandecer o Nome de D'us. Foi o que ocorreu durante toda a história do povo judeu, como nas épocas das conquistas do Império Romano e da Inquisição, quando muitos judeus preferiram entregar suas vidas e morrer em "Kidush Hashem" do que se converter para outras religiões.

Porém, a verdade é que não é necessário morrer para fazer Kidush Hashem. Na realidade, não é necessário nem mesmo grandes atos para isto. Pequenos atos de retidão e justiça podem ter um impacto incrível no mundo. E quanto mais o mundo se afunda na escuridão da corrupção, mentira e egoísmo, maior o brilho dos nossos bons atos. As pessoas estão tão acostumadas com a desonestidade que um pequeno ato de honestidade se transforma em manchete principal da capa do jornal.

Um exemplo interessante ocorreu com o Rav Simcha Barnett. Certa vez ele estava em uma loja e, após pagar por um produto adquirido, ele recebeu de volta o seu troco. Por engano, ele contou o troco e pensou que a mulher do caixa havia se equivocado e devolvido troco a mais. Ele voltou ao caixa, comunicou à mulher o equívoco dela e devolveu parte do dinheiro. A mulher checou novamente às contas e mostrou ao rabino que o troco estava correto. O que poderia parecer um pequeno ato, quase insignificante, tomou outras proporções. A mulher, deslumbrada pela honestidade do rabino, agradeceu-o pelo incrível ato de cidadania. Ainda não satisfeita, ela agradeceu mais uma vez ao rabino pela grande gentileza. Então o rabino disse: "Senhora, eu não estou sendo gentil. Eu estou fazendo a coisa certa, apenas a coisa certa". O rabino conta que foi visível o impacto que estas palavras tiveram sobre aquela mulher. Após alguns instantes de reflexão, ela disse: "Realmente, o senhor tem razão. Isto não se trata de gentileza. Isto é apenas fazer o que é certo".

Por um lado, este tipo de acontecimento nos causa certo desânimo. Vivemos em uma sociedade com valores morais tão distorcidos que um simples ato de retidão é visto como uma incrível gentileza, algo que é "mais do que nossa obrigação". Por que devolver dinheiro que recebemos a mais seria um ato de gentileza? É um ato de justiça, é apenas ser correto, fazer o que precisa ser feito. Não devolver o troco a mais é roubo, é uma enganação! Então por que o mundo atualmente se perdeu tanto moralmente a ponto de não saber mais identificar a diferença entre fazer o que é correto e fazer o que é mais do que o necessário?

Por outro lado, este exemplo nos desperta para o incrível impacto positivo que um simples e pequeno ato de retidão pode causar nas pessoas. Quando uma pessoa vê seu companheiro fazendo atos justos e corretos, ela vê de forma um pouco mais palpável a bondade e a perfeição de D'us, expressados através do bom ato desta pessoa. Isto é chamado Kidush Hashem, a santificação do Nome de D'us.

A verdade é que esta é uma das principais missões do povo judeu neste mundo, o que é confirmado pelas palavras do nosso profeta: "Eu sou D'us. Eu chamei vocês com justiça e Eu fortalecerei sua mão; e Eu formei você, e Eu fiz de você um povo do pacto, uma luz para as nações" (Yeshayahu 42:6). Ser uma "luz para as nações" significa se transformar em um modelo através do qual todas as nações do mundo verão a justiça, a retidão e a moralidade, e serão atraídas por elas e por D'us, quem as ordenou.

Os primogênitos, com um ato passivo, receberam o mérito de uma santidade mais elevada e eterna. Pequenos atos de retidão e honestidade, feitos de forma ativa e consciente, certamente trarão muito mais mérito a cada um de nós. Para santificar o Nome de D'us não é necessário mais do que pequenos atos de bondade e de sensibilidade, utilizando com todas as pessoas palavras e gestos gentis e solidários. Tratar bem os funcionários, ser educado com o motorista do ônibus, cumprimentar o porteiro ao sair e entrar no prédio e ser solidário com os colegas de trabalho são pequenos atos que podem transformar o mundo. Isto não é fazer mais do que a nossa obrigação. Isto é cumprir a missão que viemos fazer no mundo.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 10:1-13:16, Jr 46:13-28

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

APROVEITE CADA MOMENTO - PARASHAT BÔ 5776

Há muitos anos o Sr. Zaks fez a sua primeira viagem de avião. Era uma longa viagem, e o voo parecia interminável. O Sr. Zaks sentia-se sufocado em seu assento apertado, entre dois desconhecidos, quase sem ar para respirar e sem espaço para esticar as pernas. Para completar o quadro desastroso, uma criança sentada no banco de trás não parava de chutar seu assento, e havia outra criança por perto que chorava sem parar. O Sr. Zaks sentiu que precisava fugir daquele lugar. Levantou-se para caminhar um pouco, mesmo sabendo que não tinha muitas opções para onde ir.

Na parte da frente do avião, o Sr. Zaks viu uma cortina. Ao abrir, levou um susto. Seus olhos não acreditaram quando viu a primeira classe. Silêncio e tranquilidade, com assentos amplos e cômodos, muitos lugares vazios. Seria um sonho viajar daquela maneira. Sentou-se em um dos assentos da primeira classe, esticou suas pernas, começou a ler seu livro e acabou adormecendo.

- Senhor, você não pode ficar aqui - foram as palavras que o Sr. Zaks escutou enquanto uma aeromoça o sacudia, despertando-o do seu delicioso sonho - Você deve regressar imediatamente ao seu assento na classe econômica!

- Sabe, decidi trocar minha passagem - disse o Sr. Zaks, com inocência - A partir de agora quero viajar de primeira classe. Estou disposto a pagar a diferença. Pago qualquer valor, tudo para não precisar voltar às torturas do meu assento anterior.

A aeromoça balançou a cabeça negativamente e respondeu:

- Sinto muito, senhor, mas a compra de passagens ocorre unicamente em terra. Não se pode mudar de lugar aqui em cima...

O Sr. Zaks não teve outra alternativa a não ser voltar, completamente decepcionado, ao seu assento.

Mais tarde o Sr. Zaks refletiu e percebeu a importante lição que havia aprendido: a aquisição do nosso lugar no Mundo Vindouro se realiza unicamente aqui, neste mundo. Não poderemos mudar nosso nível depois que terminarmos nosso trabalho neste mundo e formos lá para cima. Por isso vale a pena se esforçar e aproveitar cada oportunidade na vida para adquirirmos um pouco mais de espiritualidade e méritos para o Mundo Vindouro. 
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Nesta semana lemos a Parashat Bô, que descreve as últimas três pragas que D'us mandou sobre os egípcios, quebrando definitivamente a resistência deles. O povo judeu, após dois séculos de convívio com os egípcios, um povo de idólatras sem valores morais, acabou se "contaminando" e também sofreu uma enorme queda espiritual. Poucas gerações após a morte dos nossos patriarcas, que atingiram incríveis níveis de conexão com D'us, o povo judeu acabou se afundando em práticas espiritualmente negativas, chegando a níveis extremos de Tumá (impureza espiritual). Se os judeus tivessem permanecido mais alguns instantes no Egito, eles teriam atingido um nível espiritual tão baixo que não haveria mais volta. Por isso D'us precisou tirar correndo o povo judeu do Egito, tão rápido que a massa que eles estavam assando não teve tempo de fermentar, e eles levaram como provisão para o deserto apenas Matzót, um tipo de pão não fermentado.

A Mitzvá de comer Matzá, que tem um simbolismo muito profundo, foi transmitida de geração em geração. Até hoje, durante a semana inteira da festa de Pessach, comemos Matzá no lugar dos pães fermentados. E assim nos comanda o versículo: "E cuidem das Matzót" (Shemot 12:17). O entendimento mais simples deste versículo é que quando preparamos nossas Matzót devemos tomar muito cuidado, pois a partir do momento em que a farinha entra em contato com a água, o atraso em assar a massa faz com que ela fermente, tornando-se "Chametz" e invalidando a Matzá para o seu consumo durante Pessach.

Porém Rashi (França, 1040 - 1105), citando um Midrash (parte da Torá Oral), nos ensina um significado mais profundo. A palavra "Matzót" é escrita com as mesmas letras da palavra "Mitzvót". De acordo com este ensinamento do Midrash, o versículo se transforma na exigência de que nossas Mitzvót sejam cumpridas com "zrizut" (agilidade), sem nenhum tipo de demora ou postergação. Quando temos a oportunidade de cumprir uma Mitzvá, não devemos permitir que ela "fermente", isto é, não podemos ser desleixados nem preguiçosos, e devemos cumpri-la imediatamente.
Mas esta comparação entre Matzót e Mitzvót ensinada pelo Midrash desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, se uma pessoa prepara Matzót sem a devida agilidade, ele as invalida completamente. Porém, apesar de não ser a maneira ideal de fazer o Serviço Divino, a pessoa que adia o cumprimento de uma Mitzvá ou a cumpre com desleixo e preguiça não a invalida. Então como entender a comparação feita pelo Midrash, entre Matzót e Mitzvót? Será que é apenas uma semelhança entre as letras?

Além disso, este ensinamento do Midrash aparentemente contradiz um ensinamento do Talmud (Sanhedrin 105b), que afirma que a pessoa deve estar sempre envolvida com Torá e Mitzvót, mesmo que seja com motivações incorretas, pois através do cumprimento das Mitzvót ela terminará cumprindo-as pela motivação correta. Mas como pode ser que cumprir uma Mitzvá com as motivações incorretas tem méritos, enquanto cumprir uma Mitzvá com a motivação correta, porém sem agilidade, é comparado com o Chametz, algo sem valor?

Explica o Rav Yohanan Zweig que podemos responder estas perguntas com uma interessante analogia. Imagine uma mãe que pede para que seu filho faça algumas compras no mercado que fica a duas quadras de casa. Com um senso de obrigação, o filho interrompe o que estava fazendo e vai às compras. Mas assim que ele volta a mãe informa que esqueceu de pedir um produto, então o filho tem que ir novamente ao mercado, mas desta vez já um pouco mais irritado e relutante. Se este cenário se repetir diversas vezes, isto é, cada vez que o filho voltar do mercado a mãe lembrar que esqueceu algo, obrigando o filho a fazer uma nova viagem, o nível de relutância do filho vai ficando cada vez maior, até ele chegar ao ponto de sentir ressentimento por sua mãe ter pedido para que ele fosse ao mercado. O filho pode até mesmo acaba externando este ressentimento, falando com a mãe de uma maneira desrespeitosa. Era preferível que a mãe nem mesmo tivesse pedido ao filho para ir ao mercado, pois algo que começou como um ato de respeito do filho acabou se transformando em uma terrível demonstração de desrespeito.

Mas há uma maneira como a mãe poderia ter feito para que o filho não ficasse ressentido. Se ela tivesse oferecido algum tipo de prêmio para cada vez que ele fosse ao mercado, ele certamente não se incomodaria de ir tantas vezes, ao contrário, faria a tarefa com alegria, pois saberia que em cada uma das vezes estava ganhando algo, não apenas perdendo seu tempo.

Este conceito se aplica ao cumprimento de qualquer tarefa. Quanto mais tempo a pessoa cumpre uma tarefa com algum tipo de incômodo ou resistência, mais relutante ela ficará. Aos poucos ela chegará ao ponto de se ressentir tanto desta tarefa que poderá até mesmo chegar a odiar seu cumprimento. Entretanto, algum tipo de incentivo pode aliviar sua relutância, e pode até mesmo levá-la a sentir prazer com o cumprimento desta tarefa.

Ensina o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) que é muito importante criar incentivos para estimular as crianças, como dar doces, quando elas fazem uma Mitzvá, pois assim elas vão associar a experiência de cumprir Mitzvót com algo positivo e gostoso, não algo pesado e difícil. Esta é a explicação do "homem das balas" que existe em muitas sinagogas no Shabat. A experiência já demonstrou que se forçarmos uma criança a ir para a sinagoga e a criança sair com um sentimento negativo, no momento em que os pais já não tiverem mais controle sobre o filho, ele deixará de frequentar a sinagoga. Mas ao contrário, se as crianças considerarem a experiência positiva e gostosa, mesmo que seja pelas razões incorretas, é muito provável que elas continuarão a ir à sinagoga, com grandes chances de que, ao amadurecerem, frequentarão a sinagoga com gosto e pelos motivos corretos.

Já a pessoa que cumpre uma Mitzvá com as motivações corretas, porém a cumpre de maneira desleixada, isto indica que ela está cumprindo a Mitzvá com algum nível de resistência. Esta resistência pode ir crescendo até chegar ao ponto da pessoa odiar cumprir a Mitzvá. É por isso que o Midrash comparou uma Mitzvá feita sem agilidade ao Chametz, pois da mesma forma que o Chametz é uma Mitzvá nula, assim também será, no fim das contas, a Mitzvá daquele que a cumpre de maneira desleixada, pois ele acabará até mesmo odiando cumpri-la. Por outro lado, se a pessoa cumpre as Mitzvót com entusiasmo, ela vai chegar ao nível de amar o cumprimento desta Mitzvá, mesmo que o entusiasmo seja inicialmente gerado por recompensas ou incentivos. É por isso que o Talmud incentiva o cumprimento das Mitzvót mesmo que seja inicialmente pela motivação incorreta.


Devemos chegar ao nível de cumprir as Mitzvót pelo simples fato de D'us, o nosso Criador, ter nos comandado. Porém, como combustível motivador, podemos usar o conceito de que cada Mitzvá e cada bom ato nos ajuda a construir um pouco do nosso Mundo Vindouro. Assim saberemos dar mais valor para cada oportunidade de Mitzvá quer surgir na nossa frente, pois esta vida é limitada e passageira, mas o Mundo Vindouro, criado com cada Mitzvá e bom ato, será para toda a eternidade.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 10:1-13:16, Je 46:13-28

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ACERTO DE CONTAS - PARASHÁ BÔ 5775

 "Adam e Josef eram dois irmãos judeus que viviam na Rússia. Adam era um bom rapaz, mas Josef era encrenqueiro e gostava de colocar medo nas pessoas. Ele se alegrava de saber que podia fazer o que quisesse e nada aconteceria com ele, pois ninguém tinha coragem de castigá-lo para ensinar-lhe bons modos. As pessoas da comunidade dele se perguntavam se algum dia seus maus atos seriam castigados.
 Certa vez Adam e Josef resolveram partir em uma viagem sem destino certo. Em uma noite gelada eles entraram em um bar e, para fugir do frio, sentaram-se em uma mesa no canto do salão e pediram duas doses de vodca. Pouco tempo depois alguns camponeses russos, muito antissemitas, entraram na hospedaria. Eles começaram a beber muito e, quando já estavam completamente bêbados, levantaram-se para dançar em roda pelo salão. Foi quando um dos malvados russos viu os dois judeus sentados no canto e resolveu se divertir com eles. Cada vez que ele dava uma volta completa no salão, fazia questão de passar ao lado do pobre Josef, que estava sentado mais perto da roda de camponeses, e lhe dava um soco na cabeça.

Quando Adam viu que seu irmão apanhava muito e com ele não acontecia nada, decidiu trocar de lugar para receber as pancadas no lugar do irmão. Porém, exatamente no momento em que eles trocaram de lugar, o agressor russo pensou: "Acho que este judeu já apanhou o suficiente. A partir de agora vou começar a bater no irmão dele, que está sentado do outro lado..."

Cada sofrimento que recebemos é "sob medida". Não existem sofrimentos a mais nem a menos, pois não há erros nos cálculos Celestiais. No momento certo, cada mau ato será devidamente cobrado. 
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Na Parashá da semana passada, Vaerá, após as constantes recusas do Faraó em libertar o povo judeu, D'us mandou sobre os egípcios as primeiras sete pragas. E na Parashá desta semana, Bô, a Torá descreve as últimas três pragas: Gafanhotos, Escuridão e Morte dos primogênitos. Mas por que a Torá dividiu as pragas em duas Parashiót? E por que a divisão foi feita justamente desta maneira?

Além disso, antes da aplicação das três últimas pragas, D'us fez uma pequena introdução, na qual Ele transmitiu duas mensagens. Ele comandou Moshé a apresentar-se diante do Faraó para comunicar que ainda viriam mais pragas, como está escrito: "E disse D'us para Moshé: 'Venha ao Faraó, pois eu endureci seu coração e o coração de seus servos' " (Shemot 10:1), e comandou os judeus a contarem aos seus filhos os milagres que D'us fez no Egito, como está escrito: "Para que vocês contem nos ouvidos dos seus filhos e aos filhos dos seus filhos o que Eu fiz no Egito" (Shemot 10:2). Porém, estas duas mensagens se aplicariam também às sete pragas anteriores. Então por que somente agora D'us transmitiu estas duas mensagens a Moshé e ao povo judeu?

Também há algo que nos chama a atenção na última praga, a Morte dos primogênitos, na qual D'us matou todos os filhos primogênitos dos egípcios e poupou os filhos primogênitos dos judeus. Diferente das outras pragas, antes desta praga os judeus não ficaram assistindo passivamente, eles tiveram que participar. Cada judeu foi comandado a sacrificar um cabrito, que era uma das divindades no Egito, diante dos olhos dos egípcios, e pintar os batentes e umbrais das portas de suas casas com o sangue do cabrito sacrificado. Explicam os nossos sábios que esta incrível demonstração de Emuná (fé) do povo judeu foi necessária para aumentar os méritos dos judeus e protegê-los de qualquer dano no momento em que D'us estivesse aplicando a última praga. Este conceito foi reforçado quando D'us ensinou a Moshé sobre a praga da Morte dos primogênitos: "E Eu passarei pelo Egito nesta noite, e Eu golpearei todo primogênito na terra do Egito... E Eu verei o sangue (dos batentes e umbrais) e Eu saltarei sobre vocês, e vocês não serão atingidos pela praga" (Shemot 12:12,13). De acordo com o Rav Shlomo Itzchaki (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, a palavra "Passachti", que significa "saltarei", também significa "terei misericórdia", ensinando que esta praga somente não atingiu também os judeus pelo mérito adicional que eles adquiriram e pela misericórdia de D'us. Mas por que nas outras pragas D'us atingiu somente os egípcios, e os judeus não precisaram de nenhum mérito adicional? E por que não está escrito que D'us utilizou uma medida a mais de misericórdia para poupar os judeus das outras pragas?

Explica Rashi, baseado em um Midrash (parte da Torá Oral), que as 10 pragas não foram aleatórias, elas seguiram uma estratégia de guerra. Quando um exército quer atacar e conquistar uma cidade, a primeira estratégia é cortar o suprimento de água, forçando os moradores a se renderem. Caso eles se recusem a se render, é lançada uma guerra psicológica, fazendo muito ruído para amedrontar os habitantes e fazê-los desistir da luta. Da mesma forma, a primeira coisa que D'us atacou foi o suprimento de água dos egípcios, transformando toda a água do Egito em sangue. Mas como isto não foi suficiente para os egípcios se renderem, então D'us mandou sobre eles os sapos, que emitiam um ruído assustador, causando pânico. E assim foi com cada uma das pragas, que iam minando as forças e destruindo a autoconfiança dos egípcios, até que eles finalmente se renderam.

O Midrash traz ainda mais uma motivação para D'us ter mandado as pragas sobre os egípcios. As pragas não foram meros "tapas" que D'us estava dando nos egípcios. Cada praga foi "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, para cada sofrimento que os egípcios haviam causado aos judeus durante o período de escravidão, eles foram castigados exatamente da mesma maneira. Cada praga foi "sob medida", uma punição exata para cada mau ato dos egípcios. Portanto, o Midrash está deixando claro que as pragas tiveram dois propósitos diferentes: forçar o Faraó e seu povo a se renderem e cumprirem a vontade de D'us, e punir os egípcios por cada sofrimento que eles haviam causado ao povo judeu.

É interessante perceber que depois da sétima praga, Granizo, os egípcios já haviam se rendido, como o próprio Faraó proclamou: "D'us é o Único Justo, enquanto eu e meu povo somos os malvados" (Shemot 9:27). Mas a partir deste momento D'us começou a endurecer o coração do Faraó, para que ele não deixasse o povo judeu sair. Mesmo que o Faraó já havia aceitado as exigências de D'us, as pragas precisavam continuar, para punir os egípcios e cumprir a promessa feita por D'us para Avraham Avinu: "Mas também a nação que eles servirão Eu julgarei" (Bereshit 15:14). A medida do castigo merecido pelos egípcios somente terminou com a aplicação das dez pragas. Mesmo com a rendição após a sétima praga, eles ainda precisavam passar pelo sofrimento das últimas três pragas.

Segundo o Rav Yohanan Zweig, desta maneira é possível entender a separação entre as pragas em duas Parashiót diferentes. As sete primeiras foram focadas em derrubar as resistências do Faraó e dos egípcios, e as três últimas tinham uma natureza punitiva. Enquanto as pragas tinham como propósito apenas derrubar a resistência do Faraó, não foi exigido nenhum mérito especial do povo judeu. Mas quando as pragas adquiriram uma natureza punitiva, então o Atributo de Justiça de D'us foi desencadeado e o povo judeu também passou a ser examinado de uma maneira mais rigorosa e minuciosa, e por isso precisava de méritos para se proteger do castigo.

Os judeus haviam se assimilado muito no Egito, e muitos faziam até mesmo idolatria. Por isso Moshé teve medo das consequências para o povo judeu das últimas três pragas. Consciente do perigo iminente ao povo, Moshé ficou relutante em continuar sua missão após a sétima praga, e por isso foi necessário um comando especial de D'us para que Moshé se apresentasse diante do Faraó para informá-lo de que as pragas continuariam. E Moshé estava certo em seus temores, pois quando o Atributo de Justiça de D'us foi desencadeado, ocorreram consequências trágicas também para o povo judeu. Há um Midrash que afirma que 80% do povo judeu morreu na nona praga, Escuridão, para que a morte deles fosse encoberta pela escuridão e os egípcios não pudessem testemunhar que os judeus também estavam sendo castigados.

E por que D'us comandou que o milagre das pragas fosse transmitido aos nossos filhos apenas nas últimas três pragas? D'us criou o mundo material para que Ele pudesse se ocultar, causando muitas vezes a impressão de que injustiças acontecem. Não são raras as vezes em que escutamos pessoas questionando a bondade de D'us com a famosa pergunta: "Por que as pessoas boas sofrem, enquanto as pessoas ruins têm tranquilidade na vida?". Certamente os judeus no Egito também tiveram este questionamento. Eles não entendiam como os egípcios causavam a eles tantos sofrimentos e nada acontecia. Onde estava a justiça de D'us? Não haveria nenhuma cobrança daqueles maus atos? Por isso D'us quis transmitir ao povo judeu uma mensagem eterna, passada de pai para filho, de que a justiça Divina sempre se cumpre. Cada sofrimento causado aos judeus foi vingado, cada detalhe da escravidão infligida pelos egípcios teve o seu preço, e no devido momento tudo foi cobrado por D'us. Mesmo quando os egípcios já tinham se rendido, eles continuaram recebendo sofrimentos, Midá Kenegued Midá, até que tudo estivesse pago.

Infelizmente vivemos em tempos difíceis, quando o roubo, a corrupção, a enganação e a violência parecem sempre ficar impunes. Mas da nossa Parashá fica a certeza de que, no momento certo, a justiça prevalecerá. Da mesma forma como ocorreu no Egito, várias outras vezes na história as situações que pareciam perdidas se reverteram e se transformaram em grandes salvações. Grandes inimigos do povo judeu, como o Faraó e Haman, que pareciam estar acima da lei, no momento adequado foram humilhados e destruídos. Devemos sempre fazer a nossa parte para estabelecer a justiça no mundo, mas podemos ter a tranquilidade de saber que uma pessoa pode até escapar da justiça humana, mas nunca da justiça Divina.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 10:1-13:16, Jr 46:13-28

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O VALOR DE CADA UM - PARASHÁ BÔ 5774


"O Rav Shlomo Heimann (Bielorússia, 1892 – EUA, 1945) era um dos professores da Yeshivá Torá Vadaat, nos Estados Unidos, e dava diariamente aula para um grupo enorme de alunos, com mais de cem estudantes. Ele era muito conhecido pela sua energia e entusiasmo, conseguindo prender a atenção de todos os alunos, mesmo com a sala de aula completamente lotada.

Certo dia, uma pesada nevasca caiu na cidade, bloqueando as ruas e impossibilitando as pessoas de se locomoverem. Somente quatro alunos conseguiram vencer a neve e chegar à Yeshivá. Apesar disso, o Rav Heimann deu sua aula com a mesma energia e entusiasmo de sempre, como se a sala estivesse com uma centena de alunos escutando. Um dos seus alunos, ao final da aula, perguntou:


- Rav, se você estava dando aula para apenas quatro alunos, por que precisou gastar tantas energias, gritando e gesticulando como se estivesse diante de centenas de alunos?

- Não estava dando aula para apenas quatro alunos – respondeu o Rav Heimann – Mas para vocês, seus filhos, netos, e todos os futuros descendentes e alunos que sairão de vocês. Por isso, a sala não estava vazia, ao contrário, ela estava bem cheia..."

O valor de uma pessoa não é medido apenas por ela mesma, mas também por todos os descendentes que virão futuramente. Portanto, cada um faz muita diferença, como ensinam nossos sábios: "Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro"

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Na Parashá desta semana, Bô, D'us mandou as últimas três pragas, devastando completamente o Egito e acabando de vez com a resistência do Faraó, que finalmente concordou em libertar o povo judeu. As pragas atingiram somente os egípcios e seus bens, mas os judeus, que viviam na cidade de Goshen, não foram atingidos, como está escrito: "Havia uma escuridão espessa em toda a terra do Egito por três dias... E para os Filhos de Israel havia luz em suas moradias". (Shemot 10:22,23).

Porém, nossos sábios ensinam que a praga da escuridão sim afetou de certa maneira o povo judeu. Rashi (França, 1040 - 1105), citando um Midrash (parte da Torá Oral), afirma que apenas um quinto do povo judeu saiu do Egito, conforme está escrito no versículo "Os filhos de Israel estavam armados quando saíram do Egito" (Shemot 13:18). A palavra "armados", que em hebraico é "chamushim", também significa "um quinto". O que aconteceu com os outros quatro quintos do povo? Morreram e foram enterrados durante a praga da escuridão, para que os egípcios não percebessem e não achassem que os judeus também estavam sendo atingidos pelas pragas.

Mas este Midrash citado pelo Rashi desperta muitos questionamentos. Em primeiro lugar, a Torá diz que havia 600 mil homens no Monte Sinai no momento da entrega da Torá. Considerando também as mulheres e as crianças, chegamos à conclusão de que mais de 3 milhões de judeus saíram do Egito. Segundo o Midrash, isto representava apenas 20% do povo e, portanto, havia mais de 15 milhões de judeus no Egito. A escravidão, que durou 210 anos, começou logo depois da morte dos filhos de Yaacov. Se Yaacov havia ido ao Egito com apenas 70 pessoas, como pode ser que em tão pouco tempo já havia 15 milhões de judeus no Egito? Além disso, se morreram 12 milhões de judeus durante a praga da escuridão, este evento teve consequências muito mais terríveis para o povo judeu do que todos os castigos que os egípcios receberam nas 10 pragas. Afinal, quem estava sendo castigado, o povo judeu ou os egípcios? E finalmente, se os judeus morreram durante a praga da escuridão justamente para que os egípcios não percebessem, será que adiantou? Os egípcios não notaram o sumiço repentino de 12 milhões de judeus, se sobraram apenas 3 milhões?

Responde o Rav Shimon Shwab que o Midrash não deve ser entendido de forma literal. Na verdade, durante a praga da escuridão, apenas um número pequeno de judeus morreu. Provavelmente eram judeus muito Reshaim (malvados), que não tinham o mérito para serem salvos do Egito e se tornarem parte do povo judeu, somente uma minoria. Mas então por que o Midrash diz que um número tão grande de judeus morreu? Pois o Midrash não está levando em conta apenas os poucos judeus que efetivamente morreram no Egito, mas também todos os seus descendentes, milhões de pessoas que sairiam deles nas futuras gerações.

Porém, se estes poucos que morreram eram pessoas tão ruins, que não mereciam nem mesmo fazer parte do povo judeu por estarem completamente afastados de D'us, então por que o Midrash dá tanta ênfase aos seus futuros descendentes? Para nos ensinar que a perda de cada judeu é causa de uma dor ilimitada para D'us, não importa o quanto este judeu esteja afastado dos caminhos corretos. Mais do que a dor pela perda da própria pessoa é a dor pela perda dos futuros Tzadikim (Justos) que estariam entre os descendentes desta pessoa, e que se perderam para sempre.

Este conceito também pode ser visto no primeiro assassinato da história. Após Cain ter matado seu irmão Hevel (Abel), D'us falou para ele: "O que você fez? As vozes dos sangues do seu irmão estão gritando por Mim a partir da terra" (Bereshit 4:10). Por que está escrito "as vozes dos sangues", ao invés de "a voz do sangue"? O Talmud (Sanhedrin 37a) responde que não apenas o sangue derramado de Hevel gritava por D'us, mas também o sangue de todos os seus potenciais descendentes, que nunca chegariam a viver. Isto quer dizer que o crime hediondo de Cain não foi apenas assassinar uma única pessoa, mas destruir o potencial dos milhões de descendentes que sairiam dele.

Moshé também conhecia bem este conceito. Quando ele viu um egípcio covardemente golpeando um judeu, com intenção de matá-lo, Moshé se levantou para protegeu a vida de seu irmão judeu. Ele então matou o egípcio, como está escrito: "Ele olhou para um lado e para o outro lado e não viu nenhum homem, e então ele golpeou o egípcio e o enterrou na areia" (Shemot 2:12). Rashi explica que as palavras "olhou para um lado e para o outro e não viu nenhum homem" significa que Moshé viu, através de seu elevado nível profético, que daquele egípcio não sairia nenhum descendente Tzadik. Isto quer dizer que se houvesse apenas um descendente Tzadik que sairia daquele egípcio, talvez Moshé teria poupado a vida dele.

É por isso que o Holocausto foi uma tragédia tão grande para o povo judeu, pois os nazistas não mataram apenas seis milhões de judeus, eles assassinaram incontáveis milhões de vidas inocentes, isto é, todos os potenciais descendentes dos judeus assassinados que nunca viverão.

O Rav Yonathan Guefen faz uma pergunta interessante: se o Midrash demonstra a dor que devemos sentir pela morte de alguns Reshaim, em especial pela destruição de suas futuras descendências, como devemos nos sentir com a situação atual do povo judeu, quando nosso inimigo não é mais um holocausto físico, mas um holocausto espiritual silencioso, chamado "assimilação"? Diferente do Egito, hoje praticamente não existem mais pessoas no nível de serem chamados de Reshaim, mas há milhões de judeus que, educados em casas completamente laicas, cresceram desconectados dos valores da Torá e acabaram perdendo a sua conexão com o judaísmo através de casamentos mistos. Não é apenas o próprio judaísmo da pessoa que se perde com a assimilação, mas também o judaísmo de todos os milhões de futuros descendentes que provavelmente não terão a oportunidade de se conectar com a Torá.

Muito dizem que não é necessário se preocupar com a assimilação, pois apesar das altíssimas taxas de casamentos mistos, que em alguns lugares chega a alarmantes 80%, está profetizado que o povo judeu sempre vai existir, em todas as épocas, até a chegada do Mashiach. Mas este é um pensamento completamente equivocado, pois apesar das profecias garantirem que o povo judeu será eterno, devemos chorar e nos enlutar por cada judeu que se perde, tanto por ele quanto por todos os seus potenciais descendentes que se perderão.

Da mesma forma que nem todo o povo judeu participou da redenção do Egito, infelizmente nem todos terão o mérito de participar da Redenção Final, nos dias do Mashiach. É por isso que cada alma importa muito, e não devemos medir esforços para ajudar a trazer de volta as pessoas mais afastadas do nosso povo. Qualquer esforço vale, nem que seja para trazer de volta apenas um único judeu.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 10:1-13:16, Je 46:13-28

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

ENSINAR ATRAVÉS DO EXEMPLO PESSOAL – PARASHÁ BÔ 5773



"Alguns cofres de segurança de um grande banco de Montreal, que eram utilizados por clientes para guardar joias e outros pertences de valor, foram arrombados por ladrões e completamente esvaziados. Quando os clientes souberam do roubo, imediatamente enviaram aos diretores uma lista dos objetos que estavam dentro dos cofres para serem ressarcidos. Apesar de não haver responsabilidade legal de o banco ressarcir as perdas, os diretores temiam manchar o nome do banco e decidiram compensar seus clientes. Porém, havia um grande problema: como saber se os clientes estavam realmente sendo honestos? As listas poderiam conter objetos caros que nunca estiveram guardados no cofre, e não haveria como saber que era mentira. O que fazer?

Um dos diretores teve uma ideia brilhante. De todos os cofres, os ladrões não haviam conseguido arrombar sete deles. Eles chamariam aleatoriamente um dos donos destes cofres, diriam que seu cofre havia sido arrombado também e pediriam para que a pessoa preenchesse uma ficha detalhando tudo o que havia lá dentro para fins de ressarcimento. Assim, eles poderiam abrir o cofre e checar se a pessoa estava sendo honesta ou não. O resultado obtido com este cliente aleatoriamente escolhido seria utilizado como norma para a reclamação dos outros clientes.

A pessoa chamada foi a Sra. Bluenstein, uma mulher judia que cumpria as leis da Torá. Ela sabia como a desonestidade é algo abominável e era uma pessoa muito temente a D'us, por isso escreveu na lista apenas os objetos que realmente estavam no cofre, sem acrescentar nem mesmo um item estranho, mesmo sabendo que era uma grande oportunidade para "levar vantagem" da situação. Os diretores, ao verem que a mulher havia sido completamente honesta, concluíram que as pessoas são normalmente honestas e reembolsaram tudo o que eles haviam listado em suas reclamações.

A história ficou tão famosa que ganhou destaque no principal jornal do país, criando um enorme Kidush Hashem (Santificação do nome de D'us)" (História Real)

Toda vez que somos honestos e educados, estamos mandando uma mensagem ao mundo. Uma mensagem de que viver de acordo com as leis da Torá, que D'us nos entregou, ajuda a nos tornar pessoas cada vez melhores. Assim contribuímos para que o mundo possa chegar à perfeição. 

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Nesta semana lemos a Parashá Bô, que traz as últimas três pragas que D'us mandou sobre os egípcios e a posterior libertação do povo judeu do Egito. E os judeus, após 210 anos de pesada escravidão, não saíram de mãos vazias, como ensina o versículo: "E os Filhos de Israel fizeram conforme as palavras de Moshé. Eles pediram dos egípcios utensílios de prata, utensílios de ouro e roupas. E D'us deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, e eles concederam seu pedido. Então eles esvaziaram o Egito" (Shemot 12:35,36).

Neste versículo há algo que nos chama a atenção. Está escrito que D'us fez com que os judeus encontrassem graça aos olhos dos egípcios, e eles deram de bom grado todas as suas riquezas para o povo judeu. Porém, os egípcios haviam acabado de ser esmagados e humilhados pelas 10 pragas que D'us havia mandado através de Moshé, o líder do povo judeu. Portanto, os egípcios terem dado seus pertences de bom grado foi um grande milagre. Mas para que este milagre foi necessário? Pois D'us estava cumprindo uma promessa feita a Avraham Avinu. Quando D'us revelou a ele que seus descendentes seriam escravos em uma terra estranha, afirmou que depois sairiam com uma grande riqueza. Por isso, D'us fez com que os egípcios dessem suas joias e roupas de bom grado, para que os judeus saíssem de lá ricos, cumprindo as palavras da profecia.

Mas ainda fica uma grande dificuldade. Após a última praga, a morte dos primogênitos, os egípcios estavam apavorados, achando que não apenas os primogênitos morreriam, mas todo o povo. Certamente fariam qualquer coisa que os judeus dissessem, por temor de que algo ruim aconteceria caso recusassem. Portanto, se os judeus pedissem as riquezas dos egípcios, eles as entregariam imediatamente. Então por que foi necessário um milagre para que os egípcios entregassem suas joias e roupas de bom grado? Qual a diferença se eles entregassem por admiração ou por temor?

Explica o Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin, mais conhecido como Netziv, que o propósito da Criação do mundo é para que toda a humanidade possa reconhecer D'us. A importância de que todos os povos do mundo tenham consciência de D'us pode ser observada em outro grande milagre que ocorreu após a saída do Egito. Na abertura do Mar Vermelho, assim diz o versículo: "Os egípcios devem saber que Eu sou D'us" (Shemot 7:5). De que egípcios o versículo está falando? Dos egípcios que, poucos instantes depois, morreram afogados. Isto quer dizer que o tremendo milagre da abertura do Mar Vermelho foi realizado apenas para que alguns poucos egípcios reconhecessem a força de D'us, por alguns poucos instantes, sem que eles tivessem a possibilidade de passar adiante o conhecimento da força de D'us. Por que? Pois o Mundo Vindouro não é uma exclusividade do povo judeu. Todos os não judeus que andarem no caminho correto também terão o mérito de ir para o Mundo Vindouro.

Mas como as nações do mundo podem saber como cumprir a vontade de D'us? Quando D'us entregou a Torá ao povo judeu no Monte Sinai, Ele nos tornou Seus mensageiros no mundo material, como afirmou o Profeta Yeshaiahu: "Nós somos uma luz para as nações" (Yeshaiahu 42:6). Não através de aulas, mas através do nosso exemplo. Segundo o Netziv, poderíamos cumprir nossa função morando na Terra de Israel, e de lá poderíamos inspirar o mundo inteiro. Mas infelizmente, por causa de nossas transgressões, não tivemos este mérito. Nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado), que iluminava o mundo inteiro, foi destruído. Como não conseguíamos mais ser a luz para as nações estando em Israel, D'us nos espalhou por todo o mundo, para que possamos espalhar a sabedoria de D'us morando entre as nações. Agora nossa obrigação é santificar o nome de D'us através de cada pequeno ato cotidiano. 

É por isso que a Halachá (Lei judaica), em vários aspectos do nosso dia a dia, nos obriga a viver com santidade e a nos comportar da maneira correta, para que possamos santificar o nome de D'us. É estritamente proibido fazer qualquer ato que leve os não judeus a nos punirem por uma conduta que não é adequada a um povo de elevada santidade. Temos que tomar cuidado inclusive com atos que, apesar de serem corretos, podem dar a impressão de que estamos sendo desonestos ou fazendo algo errado. Santificar o nome de D'us é uma faceta da Mitzvá de "amar a D'us", pois ao nos comportarmos da maneira correta, estamos contribuindo para que toda a humanidade possa reconhecer e servir a D'us.

Como representantes de D'us, temos a grande responsabilidade e a obrigação de buscar respeito e favor aos olhos das nações do mundo. Rashi, comentarista da Torá, explica que isto ocorrerá apenas quando nós cumprirmos as Mitzvót da maneira correta, pois uma Mitzvá feita da maneira correta é algo Divino e gera respeito e admiração, como diz o versículo: "Você deve guardá-las e cumpri-las (as Mitzvót), pois é sua sabedoria e seu entendimento aos olhos das nações, que escutarão todas estas leis e proclamarão: 'É realmente sábia e entendida esta grande nação' " (Devarim 4:6). Mas uma Mitzvá que não é feita da maneira correta faz com que sejamos considerados tolos, denegrindo nossa imagem e, automaticamente, a imagem de D'us.

Antes da nossa primeira redenção, a saída do Egito, D'us milagrosamente deu ao povo judeu graça aos olhos dos egípcios. Os egípcios nos deram seus utensílios de ouro e prata e suas roupas para que pudéssemos melhorar nosso serviço a D'us no deserto. Ensinam nossos sábios que a primeira redenção do povo judeu é um modelo de como será a redenção final, na época do Mashiach. Portanto, para que possamos chegar à nossa redenção final, temos que nos esforçar para sermos exemplos ao mundo. Em uma sociedade com tanta violência, corrupção e roubo, bons atos têm um brilho especial. Quando a infidelidade e a desonestidade são a regra, podemos fazer a diferença, mostrando ao mundo que podemos e devemos viver de acordo com os valores corretos. Esta é a maior contribuição que podemos dar para que o mundo chegue um dia à sonhada perfeição. 

"HOJE EM DIA AS PESSOAS SABEM O PREÇO DE TUDO, MAS NÃO SABEM O VALOR DE NADA"

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DESPERTADOR ESPIRITUAL - PARASHÁ BÔ 5772

Em uma época em que o anti-semitismo havia voltado à tona com toda sua força, um judeu teve uma discussão sobre questões financeiras com um vizinho não-judeu e, como não entravam em um acordo, o caso terminou nos tribunais, para ser julgado por um juiz não-judeu.
Alguns dias antes do julgamento, o judeu mandou ao juiz um presente caro. O juiz mandou imediatamente chamá-lo e deu-lhe uma enorme bronca:
- Escute aqui, meu senhor. Não está escrito na sua Torá que é proibido subornar um juiz? É um mandamento que tem lógica, pois o coração do juiz penderá para o lado daquele que lhe deu o suborno e, portanto, o julgamento não será honesto. Como você ousa tentar me subornar?
O judeu, sem perder a calma, respondeu:
- Vou explicar ao senhor a lógica deste mandamento da Torá. Se o senhor fosse judeu e diante de você estivessem o Reuven e o Shimon, dois judeus, aos seus olhos os dois estariam equilibrados. Seu coração não penderia naturalmente para nenhum deles e o julgamento seria completamente justo. Neste caso, se o Reuven te mandasse um presente, assim ele estaria desviando o julgamento para o lado dele, aumentando suas chances de vencer a disputa e, portanto, sendo desonesto.
- Mas neste caso – continuou o judeu – em um país tão anti-semita como o nosso, quando chega diante de um juiz não-judeu dois litigantes, sendo um deles judeu e o outro não-judeu, o julgamento já não começa equilibrado, pois o juiz já pende, desde o início, contra o judeu. E foi justamente para equilibrar a balança e merecer um julgamento honesto e justo que eu mandei um presente para você...
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Na Parashá desta semana, Bô, D'us mandou as três últimas pragas sobre o Egito: Gafanhotos, Escuridão e Morte dos primogênitos. Os egípcios foram duramente atingidos pelas dez pragas, como castigo por todos os sofrimentos que haviam causado aos judeus durantes os duros anos de escravidão. O Faraó, em especial, sofreu muito por causa de sua obstinação de não deixar os judeus saírem.
Mas, ao observarmos os versículos que descrevem o comportamento do Faraó diante dos sofrimentos causados pelas pragas, vemos que até a sexta praga, bolhas, ele realmente não se curvou e não permitiu, por livre e espontânea vontade, a saída do povo judeu, merecendo todos os castigos que recebeu. Mas a partir da sexta praga está escrito "D'us endureceu o coração do Faraó" (Shemot 9:12), isto é, aparentemente o Faraó não teve mais livre arbítrio a partir deste momento. Então por que ele foi castigo? Onde está a justiça?
Explica o Rav Yossef Dov Soloveitchik, mas conhecido como Beit Halevi, que a vontade verdadeira do Faraó era não deixar o povo judeu sair. Mas a partir do momento em que os sofrimentos causados pelas pragas tornaram-se insuportáveis, ele quis agir contra a sua vontade verdadeira ao permitir a saída do povo judeu. Se o povo judeu saísse naquele momento, o Faraó não teria nenhum mérito, pois estava "fora de si", sob intensa dor, não nas condições normais. Portanto o termo "endureceu o coração" não significa que D'us tirou o livre arbítrio do Faraó, ao contrário, significa que Ele deu ao Faraó novamente a possibilidade da escolha, como se fosse uma anestesia para tirar dele o medo e a dor dos castigos. Como no caso do juiz e o judeu, o endurecimento do coração era para reequilibrar suas escolhas, permitindo ao Faraó mostrar quem era ele de verdade, sem estar pendendo para nenhum lado.
Mas a pergunta continua. Explica o Rabeinu Iona, em seu livro Shaarei Teshuvá (Os portões do arrependimento) que D'us, em Sua infinita misericórdia, aceita a Teshuvá (retorno aos caminhos corretos) de uma pessoa mesmo se for motivada pelos sofrimentos pelos quais ela está passando na vida. Portanto, de acordo com este conceito, por que D'us não permitiu que o Faraó deixasse o povo judeu sair quando ele estava imerso em sofrimentos? Por que não foi considerado que ele se arrependeu dos seus erros por causa de toda a dor que estava sentindo quando ele quis libertar o povo judeu?
Para responder esta pergunta, antes precisamos entender por que D'us, que é tão bondoso, nos manda sofrimentos. Como um pai que ama seu filho acima de tudo, D'us nos manda sofrimentos quando transgredimos. Não por raiva, mas por amor, como uma forma de nos despertar e nos fazer voltar aos caminhos corretos. O ideal seria um mundo sem sofrimentos, isto é, a pessoa estar sempre atenta aos seus erros para corrigi-los automaticamente, sem a necessidade de um "despertador" externo. Mas como não fazemos isto, ao contrário, vivemos "anestesiados", sem refletir e questionar nossos atos, D'us precisa nos despertar. É por isso que Ele aceita a Teshuvá de uma pessoa que despertou apenas por causa dos sofrimentos que passou, pois este é justamente o propósito dos sofrimentos que Ele enviou para a pessoa.
Mas explica o Beit Halevi que a Teshuvá motivada pelos sofrimentos, apesar de realmente funcionar, é condicional. Ela somente é aceita por D'us se os sofrimentos fazem a pessoa despertar da anestesia. O que significa despertar? Entender que estava errando, se arrepender sinceramente e decidir não voltar a cometer o mesmo erro. Mas se a pessoa apenas mudou por estar cansada dos sofrimentos, porém internamente não se arrependeu, a Teshuvá não é aceita. Qual é a prova que a pessoa realmente fez uma Teshuvá sincera? O seu comportamento depois que os sofrimentos terminam. Se a pessoa fez uma Teshuvá sincera, seu comportamento deve continuar adequado mesmo depois do fim dos sofrimentos. Mas se foi apenas algo externo, sem um arrependimento verdadeiro, assim que os sofrimentos desaparecem a pessoa volta aos maus caminhos.
A Teshuvá do Faraó por causa dos sofrimentos, em um primeiro momento, pareceu sincera. Mas o que ocorreu imediatamente após D'us retirar os sofrimentos? Ele voltou a pecar, demonstrando que esta era a sua verdadeira vontade. Não apenas uma vez, mas várias vezes ele mostrou-se arrependido, mas voltou a pecar assim que os sofrimentos sumiram, demonstrando que nunca havia se arrependido sinceramente.
Os sofrimentos se assemelham a uma prensa onde é produzido azeite. Nesta prensa são colocadas azeitonas e, após o processo, sai o azeite pronto. A prensa não acrescenta azeite às azeitonas, ela apenas tira o azeite que já existia dentro delas. Assim também é a Teshuvá verdadeira e sincera, os sofrimentos somente ajudam a retirar de dentro da pessoa a vontade de fazer o que é correto que já existia.
Infelizmente reclamamos muito das dificuldades e sofrimentos. Realmente eles são difíceis e amargos, mas nos ajudam a "ajustar as velas" para andarmos sempre nos caminhos corretos. Portanto, quando passamos por sofrimentos, o comportamento correto é, ao invés de reclamar de D'us, verificar os nossos próprios atos e procurar onde estamos errando. Somente assim poderemos um dia chegar à perfeição.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
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