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sábado, 5 de agosto de 2017

QUANTO VALE UMA TEFILÁ? - PARASHÁ VAETCHANAN 5777

"Yaacov viveu uma vida de muita pobreza. Não havia comida suficiente para alimentar sua família, ele não conseguia pagar suas contas e nunca em sua vida conseguiu ajudar outros necessitados. Ele não tinha idéia de como mudar esta terrível situação. Tentou diversos tipos de trabalho, mas o dinheiro nunca era suficiente.

Certa vez um amigo lhe contou que havia escutado que na casa onde Yaacov vivia havia um incrível tesouro enterrado sob as tábuas do assoalho, mas Yaacov não acreditou. Outras pessoas também comentaram a mesma coisa, mas Yaacov continuava cético. De tempos em tempos ele dava uma pancada no assoalho com o calcanhar, mas sem muita vontade, para ver se escutava o som de moedas, mas escutava somente um som oco.

Quando Yaacov já estava velhinho, certo dia sentiu que suas forças terminavam. Em seu leito de morte, viu quando uma pessoa entrou em sua casa, levantou uma tábua solta do assoalho e retirou de lá um baú cheio de ouro e pedras preciosas. A riqueza que poderia ter dado a Yaacov e sua família uma vida digna estava dentro daquele baú. Diante dos seus olhos escurecidos passaram os detalhes de toda a sua vida miserável. O remorso de nunca ter procurado o tesouro foi uma facada no coração de Yaacov, que deu seu último suspiro e morreu".

Este sentimento de remorso certamente estará presente em todos aqueles que não acreditam e não utilizam a força da Tefilá (reza). Muito do que a pessoa precisa na vida já está pronto para ela, só falta ela pedir para D'us. Mas nós não pedimos. Nos esforçamos, trabalhamos mais e mais, mas não fazemos o mais importante: Tefilá.
Nesta semana lemos a Parashá Vaetchanan (literalmente "Eu implorei"), na qual Moshé continuou recordando os principais acontecimentos dos 40 anos em que o povo permaneceu no deserto, entre eles a reclamação do povo por água, que causou com que Moshé batesse na pedra ao invés de falar com ela, recebendo o decreto espiritual de não entrar mais na Terra de Israel. Porém, mesmo assim Moshé não desistiu e continuou implorando para que D'us revogasse o decreto. Nossos sábios explicam que a linguagem "Vaetchanan" tem o valor numérico de 515, que corresponde ao número de vezes que Moshé Rabeinu rezou e implorou para que pudesse entrar em Israel, tamanho era o seu amor pela Terra e pelas Mitzvót que poderia cumprir lá.

Porém, há alguns questionamentos em relação a este ensinamento. Moshé, apesar de se assemelhar a um anjo, fez um erro que, em seu nível, foi algo muito grave, pois perdeu a oportunidade de santificar o nome de D'us diante do povo, o que os ajudaria em sua elevação espiritual. Foi por isso que D'us o castigou com um decreto tão duro. Portanto, se D'us já havia feito um decreto nos mundos espirituais, de que adiantava Moshé rezar?

Além disso, Rashi (França, 1040 - 1105) nos ensina que, em Lashon HaKodesh (língua através da qual D'us criou o mundo), existem 10 linguagens diferentes para reza. O que representa a linguagem "Vaetchanan" e por que Moshé escolheu justamente esta linguagem para transmitir ao povo que ele havia rezado?

Outro questionamento surge quando observamos o conteúdo da reza de Moshé. A Parashá começa com as seguintes palavras: "Eu implorei a D'us naquele momento e disse: 'D'us, você começou a mostrar ao Seu servo a Sua grandeza e a Sua mão forte, pois quem é como D'us no Céu ou na terra que pode fazer como Suas ações e Seu poder? Por favor, deixe-me atravessar e ver a boa terra que está do outro lado do Jordão'" (Devarim 3:23-25). Percebemos que, antes de fazer seu pedido, Moshé se alongou em louvores a D'us. Mas D'us precisa de louvores? Por que Moshé não foi direto ao ponto?

E, finalmente, se D'us sabe tudo, Ele já sabia que Moshé queria entrar na Terra de Israel, já conhecia o amor dele pela Terra e sua vontade de cumprir as Mitzvót. Então por que Moshé precisou pedir?

Explicam os nossos sábios que da Tefilá de Moshé Rabeinu aprendemos muitos ensinamentos práticos para nossa própria Tefilá. Por exemplo, o Talmud (Brachót 10a) afirma que "mesmo que uma espada afiada esteja colocada sobre o pescoço de uma pessoa, ela não deve desistir da misericórdia de D'us". Isto vale para situações do mundo material, como uma pessoa literalmente em uma situação de perigo de vida, mas também vale em relação à anulação de decretos espirituais. Moshé, mesmo sabendo que havia um decreto espiritual que o impedia de entrar em Israel, não deixou de rezar.

Mas de onde Moshé aprendeu que a Tefilá pode anular até mesmo decretos Celestiais? Observando os atos de D'us. Quando houve o decreto de destruição de todo o povo judeu, após a terrível transgressão do bezerro de ouro, D'us falou para Moshé "E agora Me deixe, e Minha fúria queimará sobre eles e Eu os destruirei, e Eu farei de você um povo grande" (Shemot 32:10). Moshé então se perguntou: "Por acaso eu estou segurando D'us e O impedindo de cumprir o Seu decreto? Por que Ele está dizendo 'Me deixe'?". Moshé entendeu que D'us estava dizendo: "Está nas suas mãos salvar o povo judeu. Depende da sua Tefilá. Se você Me deixar, isto é, se você não fizer nada, Eu destruirei o povo. Mas sua Tefilá pode anular o decreto Celestial". Por isso Moshé entendeu que a Tefilá também tinha força para cancelar o decreto de não poder entrar na Terra de Israel.

Um segundo ponto que aprendemos da Tefilá de Moshé é a linguagem utilizada por ele. "Vaetchanan" vem da linguagem "Lechanen", que significa "agraciar". Rashi explica que esta expressão se refere a "Matanat Chinam", um "presente gratuito". Normalmente pedimos para D'us as coisas com o sentimento de que Ele está nos devendo, como se fosse obrigação Dele nos dar o que precisamos. Achamos que somos tão bons e corretos que temos o direito, pelos nossos méritos, de cobrar de D'us, como se disséssemos: "Minha parte eu já fiz, D'us. Agora faça a Sua parte". Porém, não é assim que os Tzadikim (Justos) se comportam. Quando eles pedem algo para D'us, o fazem com o sentimento de que receberão um presente gratuito, isto é, eles sabem que não merecem receber nada e que tudo o que D'us nos dá é apenas por causa da Sua infinita Misericórdia. Os Tzadikim sentem como se sempre estivessem devendo para D'us e nunca cobram nada Dele. Assim também deve ser a intenção dos nossos pedidos durante a Tefilá, não como uma cobrança de D'us, e sim como um pedido baseado na Sua misericórdia infinita.

Aprendemos também de Moshé que, antes de pedir algo para D'us, devemos louvá-Lo e engrandece-Lo. É por isso que a nossa principal Tefilá, a Amidá, é dividida em três partes: Louvores, Pedidos e Agradecimentos. Antes de começarmos a pedir algo, louvamos a D'us e reconhecemos a Sua grandeza. D'us não precisa dos nossos louvores, mas nós precisamos, para que antes de nos dirigirmos a D'us possamos lembrar quem Ele é. Para falar com um presidente, uma pessoa precisa de meses de espera, além de passar por um verdadeiro exército de secretárias e assessores. Mas com D'us, o Rei dos reis, é o contrário. Apesar Dele ser infinito, enquanto nós somos insignificantes diante Dele, mesmo assim Ele nos escuta e anseia pela nossa Tefilá.

Finalmente, se D'us sabe tudo, então por que precisamos pedir? Para que possamos colocar no nosso coração a certeza de que tudo vem Dele. Muitas vezes nos perdemos na escuridão e confusão do mundo material. Achamos que a cura vem do médico e dos remédios. Achamos que encontrar a nossa "alma gêmea" depende das pessoas que vão nos apresentar alguém que combina conosco. Achamos que o dinheiro vem do nosso esforço e da nossa inteligência. Tudo isso é uma grande enganação. A Tefilá nos dá a claridade de que tudo vem de D'us. Devemos fazer o nosso esforço, mas nunca esquecendo que tudo vem Dele. É por isso que, mesmo D'us sabendo o que necessitamos, nós precisamos pedir.

O Rav Chaim Vologziner zt"l (Lituânia, 1749 - 1821) explica que as palavras do versículo "Ele (D'us) reconta para a pessoa quais foram os seus atos" (Amós 4:13) se referem à revelação que as pessoas terão, no Mundo Vindouro, em relação aos presentes que elas teriam recebido se tivessem acreditado na força da Tefilá e a tivessem utilizado. Será mostrado para estas pessoas como suas Tefilót teriam feito diferença se tivessem sido ditas com concentração e sinceridade. A pessoa doente poderia ter se curado, o casal sem filhos poderia ter sido atendido e a pessoa procurando por uma esposa poderia ter encontrado. Assim afirma o Talmud (Brachót 6b): "Há coisas que estão no topo do mundo, porém as pessoas desprezam". Rashi explica que este ensinamento se refere a coisas elevadas como a nossa Tefilá, que podem mudar a nossa vida, neste mundo e no Mundo Vindouro, e mesmo assim nós não damos o devido valor.

De acordo com o Midrash (parte da Torá Oral), no versículo "Eu implorei a D'us naquele momento e disse", a linguagem "e disse" se refere a um ensinamento de Moshé para as futuras gerações. Moshé estava dizendo que ninguém deve se desesperar nem desanimar diante de uma situação difícil. Da mesma forma que ele nunca desistiu e continuou rezando mesmo após D'us ter decretado que os portões da Terra de Israel estavam trancados para ele, nós também nunca devemos desistir da misericórdia de D'us.

Depois da destruição do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado), uma divisória de ferro nos separou do nosso "Pai Celestial". Porém, um portão nunca foi fechado: o portão das lágrimas. A Tefilá é chamada de "o serviço do coração". Portanto, o principal é abrir o nosso coração, colocando toda a nossa confiança em D'us, cuja Misericórdia é infinita. Como um pai que ama seu filho, D'us quer nos dar tudo o que precisamos. Ele está ansiosamente aguardando apenas a nossa Tefilá.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26

sábado, 20 de agosto de 2016

APRENDENDO A SER MISERICORDIOSO - PARASHÁ VAETCHANAN 5776

Dois judeus da Lituânia brigaram e um deles, completamente fora de si, começou a difamar o outro. Porém, como ele não era uma má pessoa, quando Rosh Hashaná e Yom Kipur começaram a se aproximar ele ficou extremamente incomodado e arrependido pelo seu mau ato. Juntando todas as suas forças para passar por cima do seu ego e da vergonha, ele dirigiu-se ao seu companheiro e pediu perdão com sinceridade. Porém, para sua surpresa, a vítima se recusou a perdoá-lo, citando uma Halachá (Lei judaica) de que não havia obrigação de perdoar uma difamação. O transgressor ficou desesperado, não sabia mais o que fazer. O Rav Yitzchak de Volozhin (Lituânia, 1780 - 1849), que havia presenciado a conversa, chamou a vítima de canto e disse:

- Sabe, você realmente tem razão, a Halachá não nos obriga a perdoar alguém que nos difamou. Mas não se esqueça que Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, está chegando. Neste dia, todos os nossos atos passam diante de D'us e são detalhadamente analisados. Quando somos misericordiosos com os outros e nos comportamos "Lifnim Mishurat HaDin" (além do que é exigido pela lei judaica), D'us se comporta "Midá Kenegued Midá" (medida por medida) e nos julga com Misericórdia, não sendo tão rigoroso. Mas se formos rigorosos no julgamento dos outros, então D'us também será extremamente rigoroso no nosso julgamento. Você está pronto para um julgamento tão rigoroso de D'us quanto o que você está fazendo com seu companheiro, usando a justiça estrita ao invés da misericórdia?

A vítima da difamação, ao escutar as palavras do Rav Yitzchak, imediatamente aprendeu a lição e perdoou o homem que o havia caluniado. 

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A Parashá desta semana, Vaetchanan (literalmente "E implorei"), enumera novamente os dez mandamentos que o povo judeu recebeu de D'us no Monte Sinai. E o final da Parashá traz um ensinamento muito importante: "E você fará o que é certo e bom aos olhos de D'us, para que Ele faça bem para você" (Devarim 6:18). Nossos sábios explicam que este versículo é a fonte de Torá de que devemos nos comportar "Lifnim Mishurat HaDin", isto é, que devemos evitar sermos muito rigorosos e exigentes com os outros em relação à aplicação da lei, e devemos  saber perdoar em certas situações, mesmo quando temos razão.

O Talmud (Baba Metsia 30b) traz um exemplo na prática: uma pessoa encontra um objeto perdido que, por certas condições específicas, poderia ficar com ele de acordo com a Halachá. Por outro lado, a pessoa sabe quem é o verdadeiro dono do objeto. Neste caso, baseado neste versículo da Parashá, o Talmud diz que o correto seria devolver o objeto ao dono, apesar da permissão técnica de ficar com ele. Outro exemplo trazido pelo Talmud (Baba Metsia 108a) é quando um terreno é colocado à venda e, apesar de haver outras pessoas interessadas, é necessário dar a preferência de compra ao dono do terreno vizinho. E como estes, há inúmeros exemplos de situações do nosso cotidiano nas quais devemos nos comportar "Lifnim Mishurat HaDin".

De acordo com o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), apesar da Torá não escrever explicitamente em todos os casos que devemos nos comportar "Lifnim Mishurat HaDin", aprendemos deste versículo da Parashá a constantemente nos esforçar para tratar as pessoas de uma maneira compreensiva, sempre buscando evitar o uso das leis da Torá de forma muito estrita e rígida. O Talmud (Baba Metsia 30b) nos ensina que o nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado) foi destruído porque naquela geração as pessoas eram muito rigorosas umas com as outras e aplicavam sempre a lei de forma muito estrita.

Porém, é difícil entender este ensinamento do Talmud. A priori, se comportar "Lifnim Mishurat HaDin" é justamente fazer mais do que somos obrigados. Então por que a falha em se comportar desta maneira teve uma consequência tão negativa e uma punição tão rigorosa de D'us? Faz sentido dizer que o Beit Hamikdash foi destruído apenas pelo fato das pessoas terem aplicado a lei de forma estrita e rigorosa?

A pergunta fica ainda mais difícil quando o Talmud (Yoma 9b) afirma que o Primeiro Beit Hamikdash foi destruído por causa das três transgressões mais graves da Torá, que são assassinato, idolatria e imoralidade, e o Segundo Beit Hamikdash foi destruído por causa do ódio gratuito que havia dentro do povo judeu. Afinal, qual foi a verdadeira causa da destruição dos Templos, estas graves transgressões ou a aplicação rígida da lei?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a falha em tratar as pessoas "Lifnim Mishurat HaDin" reflete um profundo equívoco na atitude da pessoa em relação ao seu Serviço Divino. De acordo com o Ramban, o ensinamento "e você fará o que é certo e bom" seria o paralelo da Mitzvá de "Kedoshim Tihiu" (Sejam Sagrados) aplicado à área de "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante). Segundo o Ramban, o "Kedoshim Tihiu" é uma advertência para evitar que a pessoa cumpra todas as Mitzvót e ainda assim seja um "mau-caráter com permissão da Torá". Mas como isto é possível? A pessoa pode ser extremamente rigorosa em não transgredir nenhuma Mitzvá da Torá e, ao mesmo tempo, pode não ter nenhum interesse em se elevar espiritualmente nas áreas de "Reshut" (atos que não são intrinsecamente Mitzvót) como, por exemplo, o que a pessoa faz em seus momentos de lazer, quanto ela dorme ou a quantidade de comida que ela come.

A razão por trás deste tipo de comportamento é que a pessoa acredita na veracidade da Torá e, portanto, que ela deve ser cumprida com todo o cuidado. Porém, a pessoa demonstra que não entendeu a verdadeira perspectiva da Torá, pois não se interessa em se elevar espiritualmente. A consequência é que ela fica presa em metas do mundo material, com objetivos como alcançar os desejos físicos e acumular riquezas. Por reconhecer a veracidade da Torá, ela nunca cometerá de forma intencional uma transgressão, mas ao mesmo tempo é completamente desinteressada de se elevar nas áreas nas quais não é "tecnicamente" obrigada.

Um paralelo deste fenômeno pode ocorrer na área de "Bein Adam LeHaveiró". A pessoa pode reconhecer a necessidade de seguir as leis da Torá, mas não ter nenhum interesse de se conectar com o que está por trás destas leis. A consequência disso é que a pessoa sempre vai aplicar a lei de forma estrita, mesmo quando isso causa sofrimentos para outras pessoas. Por exemplo, caso encontre um objeto perdido que tecnicamente é seu, não levará em consideração o sofrimento do seu companheiro que perdeu o objeto.

É por isto que a Torá nos ensinou o versículo "E você fará o que é certo e bom". Precisamos olhar para a Torá e para as Mitzvót da maneira correta, aprender o respeito que a Torá exige de nós, em relação a D'us e em relação ao nosso semelhante. Através das Mitzvót, a Torá nos ensina a sermos mais misericordiosos e não tão rigoroso com os outros, desenvolvendo um genuíno senso de amor ao próximo. Devemos tratar cada semelhante com o mesmo respeito e compaixão que gostaríamos de ser tratados. Quando alguém encontra um objeto perdido, deve sentir a dor daquele que perdeu o objeto. Quando alguém empresta dinheiro a um pobre que não tem como pagar, deve sentir misericórdia e ser flexível.

Com este ensinamento é possível entender o que o Talmud está nos transmitindo quando afirma que o Beit Hamikdash foi destruído pelo fato das pessoas estarem sendo muito rigorosas e estritas umas com as outras. Isto demonstra que aquela geração havia esquecido o "faça o certo e bom", havia perdido a lição de que não se deve tratar outro ser humano de maneira muito dura e sem misericórdia. Este comportamento rígido não se enquadra com o que a Torá espera de nós em relação aos outros seres humanos.

Podemos entender também a contradição que existe no Talmud em relação ao motivo da destruição do Beit HaMikdash. De acordo com o Rav Yitzchak Vologzin, obviamente que a destruição do Beit HaMikdash foi consequência das terríveis transgressões descritas no Talmud, algumas tão graves que um judeu deveria estar disposto até mesmo a abdicar de sua vida para não transgredi-las. Porém, o Talmud quer nos ensinar que quando tratamos nossos companheiro com misericórdia, "Lifnim Mishurat HaDin", e não somos rigorosos demais em cobrar nossos semelhantes, Hashem também se comporta da mesma maneira, Midá Kenegued Midá, e nos perdoa mesmo das transgressões mais graves. Entretanto, quando D'us viu as pessoas se comportando uns com os outros de uma maneira muito estrita e rigorosa, não se perdoando, então Ele também foi extremamente rígido no julgamento do povo, o que resultou na destruição do nosso Beit Hamikdash.

Quando se trata de aplicar a lei em relação às outras pessoas, devemos ser lenientes e compreensivos. Se queremos ser rigorosos, que sejamos em relação a nós mesmos, para que possamos cumprir cada Mitzvá de maneira detalhada e correta. Cobrando cada vez mais de nós mesmos e cada vez menos dos outros, certamente estaremos dando a nossa maior contribuição para a reconstrução do nosso Beit Hamikdash.


SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26

sexta-feira, 31 de julho de 2015

ENSINANDO PARA APRENDER - PARASHÁ VAETCHANAN 5775

Certa vez o Rav Avraham Yeshayahu Karelitz zt"l (Bielorrússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido como Chazon Ish, foi fazer uma visita à Yeshivá de Ponovitz, que ficava na mesma cidade em que ele morava, Bnei Brak. Ele percebeu que havia novos estudantes na Yeshivá que estavam tendo muita dificuldade para acompanhar as aulas e se aprofundar nos estudos. O Chazon Ish sugeriu que os alunos mais velhos da Yeshivá, que já tinham um maior domínio do assunto estudado, dedicassem uma pequena parte do dia para estudar com os alunos mais novos. Os alunos mais velhos responderam que gostariam muito, mas que infelizmente não tinham tempo sobrando para isso, pois estavam extremamente ocupados com seu próprio estudo de Torá. Mas o Chazon Ish não desistiu. Ele pediu para que a seguinte mensagem fosse transmitida aos alunos mais velhos:

- Eu sei que vocês colocam Tefilin todos os dias. Mas como isto é possível, se é um ato que tira o tempo de estudo de Torá de vocês? A resposta é que vocês encontram tempo para colocar Tefilin todos os dias pois sabem que é uma Mitzvá da Torá. Porém, vocês estão desprezando uma Mitzvá que não é menos importante do que a Mitzvá de Tefilin: a Mitzvá de dedicar parte do tempo de vocês para ajudar os alunos mais novos com o estudo de Torá deles.

O Chazon Ish estava transmitindo aos alunos de Ponovitz que ensinar Torá aos outros deve ser visto como uma obrigação, com as mesmas rigorosidades que aplicamos a todas as outras Mitzvót da Torá. Por isso, o argumento de "não tenho tempo" torna-se algo completamente infundado e sem sentido. 

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Na Parashá desta semana, Vaetchanan, Moshé continuou seu discurso de despedida, relembrando muitos erros cometidos pelo povo judeu, inclusive o erro que o levou a ser castigado por D'us e não entrar na Terra de Israel. Depois disso a Parashá fala também sobre as cidades de refúgio, repete os 10 Mandamentos e traz o primeiro parágrafo do Shemá Israel, incluindo o famoso trecho "Escuta, Israel. Hashem é nosso D'us, Hashem é um" (Devarim 6:4).

Há algo interessante na continuação do Shemá Israel: "E que estas palavras que Eu ordeno hoje a vocês estejam sobre seus corações. E você deverá ensiná-las aos seus filhos, e deverá falar delas quando se sentar na sua casa, quando você andar no caminho, quando você se deitar e quando você se levantar" (Devarim 6:6,7). Nossos sábios explicam que esta é a fonte da Mitzvá de "Talmud Torá" (Estudo da Torá), a Mitzvá que é descrita como sendo equivalente a todas as outras Mitzvót juntas. Mas por que, surpreendentemente, a Mitzvá de estudar Torá não diz "você deve estudar", e sim "você deve ensinar"?

O Rav Avraham Shmuel Binyamin Sofer zt"l (Hungria, 1815 - 1871), mais conhecido como Ktav Sofer, explica que o versículo sim nos instrui a estudar a Torá, ao afirmar "vedibarta bam" (e deverá falar delas). Mas mesmo assim a dúvida continua, pois apesar do versículo estar nos instruindo a estudar Torá, isto é falado somente depois da instrução de ensiná-la. Como alguém pode ensinar algo que ainda não estudou? Por que a Torá inverteu a ordem? Ele responde que, ao inverter a ordem, a Torá nos ensina um fundamento muito importante da Mitzvá de "Talmud Torá": mesmo o estudo particular da pessoa deve ser feito com o propósito final de ensinar Torá aos outros. A fonte principal de "Talmud Torá" é "deverá ensiná-las" pois o propósito do nosso estudo de Torá é nos tornarmos pessoas capazes de transmiti-la aos outros.

Obviamente que estudar Torá não é apenas um meio para estarmos apto a ensiná-la aos outros. A pessoa precisa estudar Torá para conseguir construir seu relacionamento com D'us, pois a Torá é o nosso "Manual de instruções" espiritual. Apesar disso, fica claro através dos comentários do Ktav Sofer o quanto estudar Torá sem ensiná-la deixa um grande "vazio" no cumprimento da Mitzvá de "Talmud Torá". Baseado nisto, os nossos sábios ensinam: "Aquele que estuda para ensinar é dado a ele a oportunidade de estudar e ensinar" (Pirkei Avót 4:5). Isto significa que querer ensinar é um requisito essencial para o foco do nosso estudo, e aquele que apenas estuda e não ensina nunca chegará a ser completo em seu "Talmud Torá". É por isso que o versículo ressalta o "ensinar" antes do "estudar".
Há mais um detalhe no versículo que ensina outro aspecto da Mitzvá de "Talmud Torá". Normalmente o verbo utilizado para "ensinar" é "Lelamed", mas neste versículo o verbo utilizado é "Veshinantam". Rashi (França, 1040 - 1105) explica que a linguagem "veshinantam" implica em um maior nível de claridade no entendimento de algo, de maneira que caso alguém faça uma pergunta, a pessoa pode responder sem gaguejar. Daqui aprendemos que, quando uma pessoa estuda como uma preparação para ensinar, ela ganha um nível de entendimento e claridade muito maior. Como a pessoa sabe que será desafiada no seu entendimento e na sua explicação, isto serve como um incentivo para que ela estude com mais interesse e cuidado. É isto o que o Talmud quis transmitir ao afirmar: "Aprendi muita Torá dos meus professores, mais ainda dos meus amigos, e acima de tudo dos meus alunos" (Makót 10a).

Porém, poderíamos pensar que tudo isto se aplica apenas às situações nas quais nós também temos benefício direto do que estamos ensinando, como quando os alunos já conhecem Torá e nos deixarão mais "afiados" com suas perguntas e comentários. Mas explica o Rav Moshé Schreiber zt"l (Alemanha, 1762 - Eslováquia, 1839), mais conhecido como Chatam Sofer, que isto também é valido para aquele que abre mão do seu próprio crescimento pessoal em prol da espiritualidade dos outros. Aprendemos isto do comportamento de Avraham Avinu, que dedicou seu tempo e seus esforços para ensinar ateus ignorantes sobre a existência de D'us, ao invés de focar em seu próprio crescimento. Neste tipo de situação, apesar de parecer que a pessoa deixará de ganhar ao abrir mão do seu próprio crescimento, a verdade é que ocorre justamente o contrário. É óbvio que devemos nos esforçar, mas todo o conhecimento que adquirimos não é fruto do nosso esforço, e sim consequência da misericórdia de D'us, o Dono de todo o conhecimento. Quando Ele vê alguém se esforçando, tem misericórdia e dá para ele conhecimento e entendimento das coisas. Já aquele que abandona seus próprios interesses em prol dos outros recebe ainda mais misericórdia de D'us. Apesar de ter menos tempo para investir no seu próprio crescimento espiritual, D'us faz com que ele possa conseguir crescer em menos tempo e atingir níveis espirituais que vão além do entendimento lógico do ser humano.

Das palavras do Shemá aprendemos que ensinar Torá aos outros é parte essencial da Mitzvá de "Talmud Torá", e que aquele que ensina pode colher benefícios incalculáveis, diretos e indiretos. Como outras Mitzvót, ensinar Torá aos outros não é apenas um ato de Chessed (bondade), e sim uma obrigação. Muitos sábios de Torá, como o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986), legislaram que, da mesma maneira que uma pessoa deve doar para pessoas necessitadas parte do dinheiro que recebe mensalmente, assim também todo aquele que tem recursos e aptidões está obrigado a doar parte do seu tempo para ajudar na espiritualidade dos outros.

Um último ponto interessante deste versículo do Shemá Israel é a linguagem "deverá ensiná-la aos seus filhos". Rashi explica que não se refere aos filhos biológicos, e sim aos alunos. Então por que a Torá não escreveu "deverá ensiná-la aos seus alunos"? Para ressaltar que há um paralelo muito forte entre ensinar Torá a um aluno e conceber um filho. Quando uma pessoa traz uma criança ao mundo, ela está dando a esta criança o incrível presente da vida. De maneira semelhante, quando uma pessoa ensina Torá para outra pessoa, está dando a ela a oportunidade de alcançar a vida eterna. Portanto, ao ensinar Torá, a pessoa alcança o mesmo potencial que tem os pais: o potencial de dar vida. De acordo com o Talmud (Baba Metsia 33a), ensinar Torá para uma pessoa é considerado um Chessed ainda maior do que concebê-la, pois os pais trazem os filhos para o Olam Hazé (mundo material), enquanto o professor de Torá tem o potencial de, ao ensinar sabedoria e Torá ao próximo, trazê-lo para o Olam Habá (Mundo Vindouro), para a vida eterna.

Para podermos compartilhar da nossa espiritualidade com os outros não é necessário ser rabino. Convidar uma pessoa afastada para experimentar uma refeição de Shabat, compartilhar com os outros alguma ideia bonita que escutamos em uma aula de Torá ou dedicar parte do nosso tempo para ensinar pessoas a cumprir Mitzvót são apenas alguns exemplos de como podemos dedicar parte do nosso tempo para ajudar outras pessoas.

Quando estivermos procurando algum bom ato para fazer, algo que possa ajudar os outros, não devemos esquecer que ensinar Torá para alguém e compartilhar da nossa espiritualidade é uma das maiores e mais completas bondades que um ser humano pode fazer na vida.

SHABAT SHALOM                                         

Rav Efraim Birbojm
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26

sexta-feira, 19 de julho de 2013

INVEJA, HONRA E DESEJOS – PARASHÁ VAETCHANAN 5773

 
"O Rav Yonatan Eibshitz, além de ser um grande e respeitado sábio de Torá, era também conselheiro particular do rei. Certa vez, quando passeava pelas ruas de Viena, o rei encontrou seu conselheiro e amigo. Após se cumprimentarem, o rei perguntou ao seu conselheiro para onde ele estava indo. O Rav Yonatan Eibshitz respondeu, com toda a franqueza:

- Não sei, Vossa majestade.

Os olhos do rei brilharam de raiva. Amigo ou não, mesmo sendo conselheiro do rei, como aquele homem ousava brincar com Sua Majestade? Irado, o rei ordenou aos seus guardas que levassem o conselheiro para a prisão. No final do dia, quando a fúria do rei já havia passado, ele pensou consigo mesmo: "Preciso conversar com meu conselheiro. Afinal, este homem é tão sábio e sempre me aconselha de maneira tão correta. Provavelmente sua intenção não foi de zombar do rei. Talvez haja uma explicação razoável para o seu comportamento". Decidiu então visitar o conselheiro em sua cela e questionar o seu comportamento.

- Como você ousou zombar do rei com tanto descaramento? – perguntou duramente o rei.

- D'us me livre, minha intenção nunca foi zombar de Vossa majestade – respondeu o Rav Yonatan Eibshitz, com expressão muito séria – mas o rei não perguntou para onde eu estava planejando ir, somente perguntou para onde eu estava indo. Eu realmente não sabia para onde estava indo. Isto ficou mais claro ainda agora. Veja, hoje de manhã eu tinha planejado ir para a sinagoga rezar e estudar, mas em vez disso eu vim para a prisão.

O rei sorriu e, mais uma vez, aprendeu uma enorme lição com seu sábio conselheiro"

Temos que lembrar sempre que é D'us que controla tudo o que acontece, cada pequeno detalhe. Mas apesar de não controlarmos nem mesmo nossa própria vida, muitas vezes achamos que podemos controlar também a vida dos outros.


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Na Parashá desta semana, Vaetchanan, a Torá lista novamente os Dez Mandamentos, que foram entregues a Moshé no Monte Sinai. Mas percebemos algo interessante quando observarmos atentamente os Mandamentos. No sétimo Mandamento está escrito: "Não cometerás adultério" (Devarim 5:17), enquanto no décimo Mandamento está escrito "Não cobiçarás a mulher do próximo, não desejarás a casa do próximo, nem seu campo, nem seu escravo..." (Devarim 5:18). Aparentemente estes dois Mandamentos estão ensinando a mesma coisa, pois se o sétimo Mandamento já proibiu o adultério, por que foi necessário escrever, no décimo Mandamento, a proibição de cobiçar a mulher do próximo?

Além disso, há uma diferença entre os dois Mandamentos. No Mandamento de "Não cometerás adultério", não está escrito "com a mulher do próximo", isto é, a Torá não escreve explicitamente que se trata de uma transgressão envolvendo uma mulher casada. Mas no Mandamento de "Não cobiçarás", a Torá enfatiza o status de casada da mulher desejada. Por que esta diferença?

Estes questionamentos se conectam, de maneira interessante, com os testes que Avraham Avinu passou na vida. Está escrito no Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas 5:3) que Avraham Avinu foi testado por 10 vezes e passou por todos os testes. Explica o Rambam (Maimônides) que o propósito de um teste é dar para a pessoa a consciência do seu próprio potencial. A partir do momento em que uma pessoa passou por um teste e percebeu seu potencial, não há mais nenhum sentido em repetir o mesmo teste. Mas sabemos que Sara foi raptada por duas vezes, uma vez pelo Faraó, rei do Egito, e outra vez por Avimelech, rei dos Plishtim. Segundo muitos comentaristas, cada sequestro de Sara é contado separadamente como um dos testes de Avraham. Mas se o Pirkei Avót diz explicitamente que ele teve sucesso nos 10 testes, então por que D'us fez com que ele passasse duas vezes pelo mesmo teste?

Podemos responder esta pergunta prestando atenção nos detalhes descritos em cada uma das vezes em que Sara foi sequestrada. Quando Avraham e Sara se aproximaram do Egito, ele pediu para que ela dissesse que era sua irmã, pois havia percebido o quanto a beleza de Sara contrastava com a das mulheres do Egito. Avraham notou que os egípcios eram tão dominados pelos seus desejos materiais que sua própria vida corria risco, pois os egípcios eram pessoas imorais e promíscuas, certamente estariam dispostos a matá-lo para ficar com sua esposa. E suas suspeitas se mostraram verdadeiras, pois logo que eles chegaram ao Egito, Sara foi sequestrada por oficiais egípcios e entregue ao Faraó. Já nos versículos que descrevem o sequestro de Sara pelo rei Avimelech, não há menção da beleza de Sara ter sido o fator motivador da transgressão. Explica o Rav Nissim, mais conhecido como Ran, que o sequestro foi motivado pelo desejo de Elimelech de incorporar um membro da família de Avraham em sua casa. Avimelech sequestrou Sara motivado pelo desejo de poder e dominação. Ele estava usando seu poder de rei para afirmar-se sobre Avraham, tomando à força um membro de sua família como sua esposa.

Portanto, os dois sequestros de Sara são dois testes diferentes de Avraham, pois desenvolveram diferentes sensibilidades nele. A vítima do primeiro sequestro era Sara, e o teste de Avraham era a maneira como ele reagiria à perda de sua amada esposa. Já a vítima do segundo sequestro era Avraham, sobre quem Avimelech estava tentando exercer seu poder e controle, um teste completamente diferente. Os próprios nomes dos reis representam a motivação de cada um deles. O nome "Faraó", em hebraico, vem da raiz "Parua", que significa "nu, imoral", enquanto o nome "Avimelech" significa "o pai do poder".

Esta explicação nos ajuda a entender que há uma diferença entre o sétimo e o décimo Mandamentos. Explica o Rav Yochanan Zweig que o adultério pode ocorrer por dois motivos diferentes: pode ser por um desejo descontrolado, uma atração física muito forte, como aconteceu com o Faraó, mas também pode ser pelo desejo de exercer controle sobre o marido da mulher casada, como aconteceu com Avimelech. O décimo Mandamento, "Não cobiçarás", está enfatizando a proibição de controlar outra pessoa. Por isso, neste Mandamento a Torá lista as coisas com as quais a pessoa cria mais conexão: sua esposa, sua casa, seu campo e seus escravos. A Torá também ressalta neste Mandamento o status de comprometimento da mulher, pois este é o fator motivador da transgressão, isto é, a vontade de exercer controle sobre o próximo. Já o sétimo Mandamento se refere ao ato de adultério motivado pelo desejo físico. Por isso, embora a transgressão só ocorra realmente se a mulher for casada, o status marital da esposa é deixado de lado e não é nem mesmo mencionado, pois o fator motivador principal, neste caso, é a busca por desejos.

Estamos acostumados a ver o invejoso apenas como alguém que está insatisfeito com o que tem e quer tirar o que é do outro. Mas a Parashá nos ensina algo impressionante: a inveja também é motivada pela vontade de querer controlar o próximo, envolve também a utilização do poder e da influência para dominar e controlar outras pessoas. Este sentimento vem da falta de entendimento de que o mundo tem um Criador, que criou e mantém o mundo a cada instante com supervisão particular. Vem da prepotência de pensar que somos nós que temos o controle. Pois aquele que sabe que nem mesmo da sua própria vida ele tem controle, como vai querer controlar a vida dos outros?

Novamente vemos a grandeza dos ensinamentos dos nossos sábios, que declararam: "A inveja, a busca pelos desejos e a honra tiram a pessoa do mundo" (Pirkei Avót 4:28). Estas são três transgressões tão terríveis que fazem com que a pessoa se desvie, perdendo o seu mundo material e seu mundo espiritual. Perdem o seu mundo material, pois se autodestroem com atos motivados por sentimentos e desejos duvidosos. E perdem o seu mundo espiritual, pois acumulam transgressões. Não é por acaso que os Dez Mandamentos terminam com a inveja. O "Não cobiçarás" é tão forte que engloba todos os outros Mandamentos anteriores. Quem sente inveja pode acabar roubando, matando e até mesmo cometendo idolatria. Pois não há idolatria pior do que pensar que somos nós que estamos no controle, e não D'us.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26, Mc. 12: 28-34 (Shabat Nachamú)

sábado, 4 de agosto de 2012

QUEM É COMO D'US? - PARASHÁ VAETCHANAN 5772

 "Carlos entrou na sala do psicólogo, visivelmente irritado, para sua primeira consulta. Deitou-se no divã, mas não conseguiu relaxar. Tentando começar uma conversa amigável, o psicólogo perguntou:
- Boa tarde, Sr. Carlos. Em que posso ajudá-lo? Algum problema em especial? Algo o incomoda?
- Vou ser sincero, doutor - responde Carlos - Não sei nem mesmo porque estou aqui. Minha família me trouxe à força. Eles dizem que eu estou ficando louco, mas não é verdade, eu sou completamente normal.
- Está bem - riu o psicólogo - Mas o que a sua família diz sobre o seu comportamento? Por que eles estão incomodados a ponto de achar que você é louco?
- Eles é que são loucos, doutor - continuou afirmando Carlos, já um pouco mais exaltado - Eles dizem que eu sou megalomaníaco, que estou com mania de grandeza. Mas você pode ver que não é verdade!
- Está bem, fique calmo - tranquilizou o psicólogo – Para que possamos nos conhecer, me conte um pouquinho da sua vida. Comece do princípio.
- Bom, doutor - disse Carlos, com um grande sorriso - No primeiro dia eu criei os Céus e a Terra..."
Pode parecer uma grande piada, mas muitas vezes nos comportamos assim. Esquecemos o quanto somos pequenos e sentimos que temos controle de tudo, como se fossemos D'us. Mas a verdade é que não controlamos absolutamente nada.
********************************************Na Parashá desta semana, Vaetchanan, a Torá traz alguns dos versículos que compõe o Shemá Israel, a nossa maior declaração de Emuná (fé) e amor por D'us, que recitamos duas vezes por dia. E entre outros ensinamentos, estes versículos falam sobre a Mitzvá de colocar uma Mezuzá nas portas de nossas casas, como está escrito: "E as escreverá nos batentes de sua casa e nos seus portões" (Devarim 6:9).
A Mitzvá de Mezuzá tem algumas particularidades interessantes que a diferem das outras Mitzvót da Torá. Em geral, o objeto utilizado para cumprir a Mitzvá dá nome à Mitzvá. É o que ocorre, por exemplo, nas Mitzvót do Shofar e Tefilin. Mas a Mitzvá da Mezuzá é diferente, pois a palavra "Mezuzá" significa literalmente "batente". Isto quer dizer que o objeto por si só, isto é, o pergaminho que contém os versículos do Shemá Israel, não define o nome da Mitzvá. O que dá o nome à Mitzvá é o batente, que é apenas o local onde o pergaminho é colocado. Comparando com outras Mitzvót, isto soa tão estranho quanto chamar a Mitzvá do Tefilin de "Mitzvá do braço".
Além disso, o Talmud (Baba Metzia 102a) nos ensina que quando alguém se muda de uma casa e sabe que os próximos inquilinos também serão judeus, ele é obrigado a deixar as Mezuzót fixadas nas portas e não pode retirá-las para levar para sua nova casa. O Talmud descreve o caso de um homem que tirou as Mezuzót de sua casa e teve uma punição muito rigorosa. Comparando com outras Mitzvót, isto seria como obrigar uma pessoa que se muda de casa a deixar seus Tefilin, seu Talit e seus livros de Torá para o próximo inquilino judeu. Por que a Mitzvá da Mezuzá é tão diferente das outras Mitzvót e a punição daquele que tira as Mezuzót de sua casa é tão rigorosa?
E finalmente, a Torá nos conta um detalhe interessante sobre Ruth, uma mulher nobre do povo de Moav que abandonou uma vida de conforto e tranquilidade para se converter ao judaísmo. E pelo seu ato tão elevado, ela teve o mérito de ser a bisavó de David Hamelech (Rei David). Quando a sogra de Ruth, Naomi, decidiu deixar a terra de Moav e voltar para Israel, Ruth decidiu que iria junto com ela e que se converteria ao judaísmo, como está escrito: "Onde você for, eu irei. E onde você dormir, eu dormirei. Seu povo é meu povo, seu D'us é meu D'us" (Ruth 1:16). Para testar se as intenções de Ruth eram realmente sinceras, Naomi tentou dissuadi-la, mencionando as Mitzvót que ela seria obrigada a cumprir caso realmente quisesse se converter. Explica o Midrash (Ruth Raba 2:23) que uma das Mitsvót mencionadas foi a Mezuzá. Qual o motivo de mencionar esta Mitzvá, aparentemente fácil de cumprir, na tentativa de testar a verdadeira intenção de alguém que quer se converter?
Explica o Rav Yohanan Zweig que a maioria das sociedades vive apenas focada em seus próprios direitos. As passeatas e greves exigindo direitos se multiplicam, enquanto os deverem são deixados cada vez mais de lado. Um caso clássico de descaso com o direito dos outros tem repetidamente acontecido em São Paulo. Trechos da Avenida Paulista são tomados, quase diariamente, por manifestações dos mais diversos grupos exigindo seus direitos. Mas estes grupos não se importam que este tipo de manifestação, na maior avenida de São Paulo, interfere na vida de centenas ou milhares de pessoas, que perdem o seu direito de ir e vir.
Se este descaso com os nossos deveres já acontece nas ruas, ainda pior é o efeito que acontece dentro de nossas casas. Quando as pessoas estão nas ruas, elas sabem que não podem fazer o que querem, pois existem as leis do país. Citando como exemplo o trânsito, as pessoas sabem que não podem dirigir da maneira que desejam. Mas na privacidade de suas casas, a pessoa acha que é soberana, isto é, que nenhuma autoridade pode decidir o que ele pode ou não pode fazer entre quatro paredes. O ser humano sente que é o rei em sua própria casa, que tem o domínio e pode tomar suas próprias decisões e atitudes sem que ninguém interfira. Para que todos saibam quem tem o controle sobre a casa, é comum que as pessoas escrevam o nome da família na porta ou no batente, demarcando o seu território.
Mas esta não é a forma como se comporta o povo judeu. Vivemos o tempo inteiro com a consciência da presença de D'us. Não há nenhum momento em nossas vidas que sentimos que estamos sozinhos e, portanto, isentos de seguir regras. Mesmo quando estamos dentro de casa, sabemos que há um Criador que vê tudo e controla tudo, e por isso devemos nos comportar de acordo com as Suas leis. Portanto, esta é a grande importância da Mitzvá de Mezuzá. Quando colocamos a Mezuzá no batente de nossas portas, é como se estivéssemos escrevendo na nossa porta o nome de D'us, declarando que, apesar de ser um domínio particular, o nosso próprio "reinado", é Ele quem tem domínio sobre o lugar, Ele é a verdadeira autoridade daquela morada. Assim deve ser a casa de um judeu.
Naomi sabia que Ruth vinha de uma sociedade idólatra e decadente, onde as pessoas realmente acreditavam que tinham o controle total dentro de suas próprias casas, que podiam fazer o que quisessem sem nenhuma prestação de contas. Então Naomi advertiu Ruth que, caso ela quisesse se converter, deveria mudar sua forma de viver a vida, mesmo quando estivesse na privacidade de sua casa. Por isto Naomi mencionou a Mezuzá, para ressaltar que o comportamento de um judeu deve ser diferente, pois mesmo entre quatro paredes nós continuamos com a obrigação de cumprir as Mitzvót de D'us.
Quando uma pessoa muda-se de casa e deixa para trás as suas Mezuzót fixadas nas portas, ela está afirmando que esta é uma casa que pertence a D'us. Mas quando a pessoa tira suas Mezuzót, ela está negando qualquer controle de D'us sobre aquela casa. Por isso o castigo de alguém que arranca o "nome de D'us" de uma casa é tão rigoroso. E é por isso que o nome da Mitzvá é "batente", pois como a Mezuzá transforma a casa em um ambiente que pertence a D'us, o objeto da Mitzvá é a própria casa, e não apenas o "nome" grudado na porta.
Destes ensinamentos sobre a Mezuzá aprendemos a importância de manter a santidade e a pureza dos nossos atos, mesmo quando estamos dentro de nossas casas, entre quatro paredes. Não há nenhum lugar e nenhum momento do dia em que estamos isentos de cumprir a vontade de D'us, pois é Ele que tem controle, mesmo quando estamos dentro do nosso domínio. Quando nos comportamos como "donos da casa", estamos sendo orgulhosos. A Mezuzá nos ajuda a ter a humildade de saber que, mesmo no nosso local de "reinado", é D'us quem comanda sempre.

SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26, Mt 23:31-39

sábado, 13 de agosto de 2011

AUTOCONTROLE – PARASHÁ VAETCHANAN 5771 (12 de agosto de 2011)

O rabino Moshe Feinstein foi um dos maiores sábio de Torá dos Estados Unidos durante grande parte do século passado. Escreveu diversos livros, em especial sobre Halachá, a lei judaica, demonstrando um incrível conhecimento. Mas além do seu estudo, Rav Moshe, como era carinhosamente conhecido por todos, era um modelo de bondade, compaixão e preocupação com os outros. Ele conseguiu, através do estudo da Torá e do cumprimento das Mitsvót, trabalhar seu caráter pessoal em um nível quase sobre humano. Isto pode ser verificado em várias histórias contadas por seus parentes e alunos mais próximos.
Entre as histórias, uma nos chama a atenção pelo grande nível de autocontrole atingido pelo Rav Moshe Feinstein. Certo dia ele estava na sinagoga, concentrado nos seus estudos, fazendo anotações em sua Guemará (livro da Torá Oral). Alguém o interrompeu em certo momento e ele deixou brevemente sua mesa para resolver algo fora da sinagoga. Enquanto ele estava fora, um dos seus alunos teve curiosidade de ler as anotações que o rabino havia feito na Guemará. Mas ao se aproximar, acidentalmente ele derrubou um frasco de tinta azul sobre a Guemará do Rav Moshe Feinstein, deixando a página completamente azul.
O aluno entrou em pânico. Ele havia estragado a Guemará de um dos maiores rabinos da geração! Se sentiu tão envergonhado que não conseguiu nem mesmo se mover para se afastar dali. Quando o Rav Moshe Feinstein voltou para sua mesa e viu sua Guemará completamente arruinada e seu aluno paralisado de medo, abriu um grande sorriso e disse carinhosamente:
- Sabe que azul é a minha cor favorita? O livro ficou ainda mais bonito agora do que antes.
Então o Rav Moshe Feinstein sentou-se e voltou a estudar, como se nada tivesse acontecido"
Muitas pessoas gostariam de ter autocontrole para nunca ofender outro ser humano. Mas apenas querer não é suficiente. A única maneira de atingir níveis espirituais elevados é através de muito esforço e dedicação.
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Na Parashá desta semana, Vaetchanan, Moshé continuou com seu discurso de despedida. A Parashá também traz o Shemá Israel, uma das maiores expressões de Emuná (fé) do povo judeu, e a repetição dos 10 Mandamentos, que já haviam sido ensinados na Parashá Itró.
No final da Parashá, aprendemos a importância da transmissão da Torá aos filhos. E assim está escrito: "E quando seu filho perguntar no futuro: 'O que são os testemunhos, os estatutos e as leis que Hashem, nosso D'us, comandou a você?'. E você deve contar ao se filho: 'Nós fomos escravos do Faraó no Egito, e D'us nos tirou do Egito com mão forte... E D'us nos comandou a cumprir todos estes estatutos, e temer a D'us, para o nosso bem, todos os dias, para nos dar vida como este dia" (Devarim 6:20,21,24).
Mas este versículo, muito conhecido por fazer parte da Agadá de Pessach, na pergunta do filho Chacham (sábio), desperta uma pergunta. Se o filho perguntou ao pai "o que são estas Mitsvót", por que o pai respondeu "D'us nos tirou do Egito"? Por que não disse diretamente que são as leis que D'us nos comandou?
Uma pergunta semelhante surge ao observarmos atentamente os Mandamentos da Torá. Logo no primeiro Mandamento está escrito "Eu sou teu D'us, que te tirei da terra do Egito" (Devarim 5:6). A saída do Egito foi acompanhada de muitos milagres, mas que envolviam apenas modificações da natureza existente. Já na criação do mundo os milagres foram muito maiores, pois toda a natureza foi criada a partir do nada. Portanto, a demonstração do poder e da grandeza de D'us foi muito maior na criação do mundo do que na saída do Egito. Então por que não está escrito no primeiro Mandamento "Eu sou teu D'us, que criou o mundo"?
Ibn Ezra, um famoso comentarista da Torá, nos ensina que o filho não está questionando "o que são as Mitsvót", e sim "por que recebemos um jugo maior do que as outras pessoas?". Quando a Torá começa respondendo que D'us nos tirou do Egito, está nos ensinando uma importante lição: as Mitsvót foram entregues para o nosso próprio bem. Da mesma forma que D'us nos tirou do Egito por bondade, assim também o comando das Mitsvót foi uma grande bondade. D'us também preferiu associar o primeiro Mandamento à saída do Egito para nos ensinar que da mesma maneira que toda a redenção do Egito foi para o nosso benefício, assim também as Mitsvót são para o nosso próprio benefício.
Poderíamos pensar que a Torá se refere aos benefícios que teremos no Mundo Vindouro, onde aproveitaremos, por toda a eternidade, o prazer da proximidade de D'us. Mas explica o Sforno, comentarista da Torá, que apesar do principal benefício das Mitsvót realmente ser no Mundo Vindouro, elas também nos trazem vida neste mundo.
Nossos sábios utilizam muito a expressão "jugo das Mitsvót". Por que? Jugo é uma palavra utilizada para descrever a peça de madeira que fica sobre o pescoço do boi durante seu trabalho no campo. O jugo, à primeira vista, é algo negativo, que prende o boi. Mas o que aconteceria se o boi trabalhasse sem o jugo? O tempo inteiro ele se desviaria do caminho, não conseguindo fazer seu trabalho. O jugo é justamente o que mantém o boi em linha reta, ajudando-o a fazer o que ele necessita. O mesmo benefício obtemos com as Mitsvót. À primeira vista parece que elas nos prendem e nos limitam, parecem um peso sobre nossos pescoços, mas a verdade é que as Mitsvót nos ajudam a não desviar do caminho correto. As Mitzvót nos dão autocontrole, nos dão equilíbrio e estabilidade emocional. Em um mundo tão complicado, com relacionamentos humanos cada vez mais difíceis, a Torá surge como uma bóia que não nos deixa afundar. Isto explica porque a cada dia mais pessoas, por mais afastados que estejam, começam a voltar ao cumprimento das Mitsvót.
Estes conceitos nos ajudam a entender um difícil Midrash (parte da Torá Oral) que se refere à época da destruição do nosso Beit-Hamikdash (Templo Sagrado). Assim está escrito: "Eles pecaram duplamente, foram castigados duplamente e serão consolados duplamente" (Yalkut Eichá). O que significa que o erro, o castigo e o consolo serão em dose dupla?
A resposta está na explicação de Ibn Ezra de que as Mitsvót foram comandadas para o nosso próprio benefício. Por isso, quando uma pessoa comete uma transgressão, ela comete dois crimes: um é a rebeldia contra D'us, o outro é um crime contra si mesmo, por ter causado para si a perda de uma Mitzvá. Consequentemente o castigo também é em dobro: não apenas D'us castiga a pessoa pela desobediência, como um pai que castiga seu filho para discipliná-lo e fazê-lo voltar aos caminhos corretos, mas também a pessoa é castigada com a perda do benefício que receberia pela Mitzvá. E finalmente o consolo também será em dobro: um dia finalmente entenderemos o benefício real de cada Mitzvá e, além disso, enxergaremos que os castigos que D'us nos mandou também foram para o nosso bem, para nos prevenir de perdermos nossa recompensa eterna.
Precisamos mudar nossa forma de olhar para as Mitsvót. D'us não ganha nada quando colocamos Tefilin, fazemos uma Tefilá (reza) ou acendemos as velas de Shabat. Quem ganha somos nós mesmos, tanto neste mundo quanto no Mundo Vindouro. E o maior ganho neste mundo é o nosso autocontrole. A Torá nos ajuda a ser donos da nossa vontade, transformando o corpo material em algo espiritual. Apenas querer crescer não é suficiente, as Mitsvót nos levam a praticar e a conquistar avanços diários. Não apenas para competirmos, mas para chegarmos a ser como o Rav Moshe Feinstein, entre tantos outros grandes rabinos, que se tornaram verdadeiros campeões de bondade, sensibilidade e autocontrole.
Shabat Shalom
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26, Mt 23:31-39