quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Causas sagradas

Escrito por Olavo de Carvalho 
É um impulso natural do ser humano evadir-se da estreiteza da rotina pessoal e familiar para aventurar-se no universo mais amplo da História, onde sente que sua vida se transcende e adquire um "sentido" superior.
A maneira mais banal e tosca de fazer isso, acessível até aos medíocres, incapazes e pilantras,é a militância num partido ou numa "causa", isto é, em algum egoísmo grupal embelezado de palavras pomposas como "liberdade", "igualdade", "justiça", "patriotismo", "moralidade"ou "direitos humanos".
Essas palavras podem representar algum valor substantivo, mas não quando o indivíduo adquire delas todo o valor que possa ter, em vez de preenchê-las com sua própria substância pessoal.
A mais criminosa ilusão da modernidade foi persuadir os homens de que podem enobrecer-se mediante a identificação com uma "causa", quando na verdade todas as causas, enquanto nomes de valores abstratos, só adquirem valor concreto pela nobreza dos homens que a representam.
O fundo da degradação se atinge quando algumas "causas" são tão valorizadas que parecem infundir virtudes, automaticamente, em qualquer vagabundo, farsante ou bandido que consinta em representá-las.
A palavra mesma "virtude" provém do latim vir, viri, que significa "varão", designando que
é qualidade própria do ser humano individual e não de ideias gerais abstratas, por mais lindos e atraentes que soem os seus nomes.
Não há maior evidência disso do que o próprio cristianismo, o qual, antes de ser um "movimento", uma "causa", uma instituição ou mesmo uma doutrina, foi uma pessoa de carne e osso, a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual, e unicamente da qual, tudo o que veio depois na história da Igreja adquire qualquer validação a que possa aspirar.
Quando tomada como medida máxima ou única de aferição do bem e do mal, a "causa" adquire o prestígio das coisas sagradas e se torna objeto de alienação idolátrica.
Ora, em maior ou menor medida isso acontece com todas, absolutamente todas as causas políticas, sociais e econômicas do mundo moderno, sem exceção. O comunismo, o fascismo, o feminismo, a negritude, o movimento gay, às vezes o próprio liberalismo ou, em escala menor e local, o petismo, não admitem virtude maior que a de aderir à sua causa, nem pecado mais hediondo que o de combatê-la.
Para os militantes, "bom" é quem está do seu lado, "mau" quem está contra. É um julgamento de última instância, contra o qual não se pode alegar, nem como atenuante, qualquer valor mais universal encarnado numa pessoa concreta.
Embora todos esses movimentos sejam historicamente localizados, não fazendo sentido fora de um estrito limite cronológico, os julgamentos morais baseados neles vêm com uma pretensão de universalidade atemporal, abolindo até mesmo o senso da relatividade cultural: para as feministas enragées, a autoridade do macho é odiosa em qualquer época, mesmo naquelas em que a dureza das condições econômicas, os perigos naturais e a ameaça das guerras constantes tornavam impensável qualquer veleidade de igualitarismo sexual.
Mais ainda: o esforço desenvolvido em público a favor da "causa" é um critério tão absoluto e definitivo de julgamento, que, uma vez atendido, dispensa o indivíduo de praticar na sua vida pessoal as próprias virtudes que o movimento diz representar.
Alegar, por exemplo, que Karl Marx instaurou em casa a mais rígida discriminação de classe, excluindo da mesa da família o filho ilegítimo que tivera com a empregada, é considerado um "mero" argumentum ad hominem que nada prova contra o valor excelso da "causa" marxista.
Do mesmo modo, o sr. Luiz Mott é louvado por seu combate em favor do casamento gay, embora se gabe de ter ido para a cama com mais de quinhentos homens, isto é, de não ter o mínimo respeito pela instituição do casamento, seja hetero, seja homo. Mutatis mutandis, as mais óbvias virtudes pessoais do adversário tornam-se irrelevantes ou desprezíveis em comparação com o fato de que ele está "do lado errado".
Moralmente falando, Francisco Franco, Charles de Gaule ou Humberto Castelo Branco, homens de uma idoneidade pessoal exemplar, foram infinitamente superiores a Fidel Castro ou Che Guevara, assassinos em série de seus próprios amigos, isto para não falar de Mao Dzedong, estuprador compulsivo. Mas qual comunista admitiria enxergar nesse detalhe um sinal, mesmo longínquo, de que a nobreza da causa que defende talvez não seja tão absoluta quanto lhe parece? Mesmo as virtudes dos mártires e dos santos nada significam, em comparação com um alto cargo no Partido.
Quando digo que esse fenômeno traduz a sacralização do contingente e do provisório, não estou fazendo figura de linguagem. Mircea Eliade, e na esteira dele praticamente todos os historiadores da religião, definem o "sagrado" como tudo aquilo a que se atribui um valor último, uma autoridade julgadora soberana e insuperável, imune, por sua vez, a todo julgamento.
Na medida em que tomam a adesão ou rejeição à sua causa como critério derradeiro e irrecorrível de julgamento das condutas humanas, os movimentos a que me referi acima se tornam caricaturas grotescas da religião e da moralidade, e por sua simples existência já produzem a degradação moral da espécie humana ao nível da simples criminalidade politicamente oportuna.
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia
 

Os críticos e os criticados nas igrejas evangélicas: quem nos salvará?

Uma mensagem para os evangélicos em suas crises
Julio Severo
Eu estava ouvindo a pregação de um pastor pentecostal contra os pregadores da prosperidade. As palavras dele, cheias de emoção e indignação, estavam corretíssimas, denunciando “servos de Deus” vivendo no luxo, com carrões, aviões, helicópteros, mansões, etc.
Fui tentado a me perguntar: o pai desse pastor, no passado um famoso televangelista da Assembleia de Deus, virou manchete por um escândalo onde foi flagrado com uma prostituta. Mas meu pensamento foi logo vencido pela lógica cristã de que os filhos não devem pagar pelos pecados dos pais — sem mencionar que a graça de Deus abunda muito mais do que o pecado.
Mas, poucas horas depois, me chegaram informações de que o pastor pentecostal se divorciou duas vezes… Crítico e criticados em barcos furados.
Outro pregador, outrora um ícone da Igreja Presbiteriana do Brasil, ataca tradicionais, pentecostais e neopentecostais, e tem um histórico ainda mais bizarro: traiu a esposa, depois traiu a secretária-amante e mais tarde casou com uma “pastora”. Como amante do PT, ele acabou se envolvendo em grandes escândalos políticos e financeiros. Mesmo assim, ele é um grande criticador — e até eu sou um de seus criticados.
Que mundo louco, não?
Se ficamos então decepcionados com as igrejas pentecostais e neopentecostais, podemos então pensar que a solução é as igrejas tradicionais. Mas aí vem outro problema pós-moderno: as igrejas tradicionais estão correndo como manadas de vacas loucas para apriscos politicamente corretos, onde as ovelhas podem pastar sob a liderança de pastoras lésbicas que se aliam a bruxas!
Grandes denominações evangélicas dos EUA e Europa estão nesses pastos há algum tempo, e se você visitar uma dessas igrejas não estranhe se o pastor gay apresentar seu “marido”.
Aparentemente, as igrejas tradicionais do Brasil ainda não estão nos novos pastos de suas igrejas-mães dos EUA e Europa, mas algumas denominações timidamente ensaiam passos nessa direção. É uma questão de tempo.
O que o pastor pentecostal divorciado duas vezes faz, denunciando a extravagância de pastores neopentecostais, está certo. Mas sua vida está errada.
Da mesma forma, os frequentes ataques de certo blogueiro evangélico tradicional aos neopentecostais não estão totalmente sem razão (por incrível que pareça, ele consegue acertar dez por cento ou menos), embora ele mesmo esteja envolvido em vigarices e tenha uma vida sexual suspeita — além de ser fã de um dos maiores vigaristas evangélicos do Brasil. Outro famoso criticador de neopentecostais, igualmente fã do vigarista evangélico, tenta esconder sua homossexualidade, mas sua paixão por Philip Yancey sugere que ele pode estar preparando o público evangélico para uma triunfante saída evangélica do armário. Um adora o deboche, o outro a malícia. E ambos adoram a mentira.
Quando um famoso televangelista brasileiro apresentou em seu programa de TV pastores americanos pedindo muito dinheiro, ninguém foi obrigado a dar. Eu não dei. Muitos o criticaram, inclusive o blogueiro vigarista e o evangélico homossexual enrustido. E quando em seguida a essa petição de dinheiro, o televangelista comprou um jatinho, as criticas se tornaram “onipresentes” na rádio, televisão, jornais, revistas, blogs, sites, etc.
Contudo, até agora não vi evangélicos usando seus espaços em rádio, televisão, jornais, revistas, blogs e sites para denunciar o maior Ladrão do Brasil. O governo federal, com sua política abusiva de impostos, não precisa chamar americanos para pedir uma oferta de 900 reais. O governo tem roubado literalmente bilhões da população do Brasil, e os ladrões estatais têm investido não só em jatinhos e jatões, mas têm também engordado organizações que estão trabalhando ativamente para destruir as famílias do Brasil, sem que o blogueiro vigarista e o evangélico homossexual enrustido deem um pio de contrariedade.
Os “onipresentes” críticos do televangelista brasileiro também fazem vista grossa ao maior Ladrão do Brasil.
Com esse panorama desanimador, onde críticos e criticados estão em barcos furados, o que fazer?
Um homem jovem, convertido há dois anos, me perguntou o que eu achava das “igrejas caseiras”. Com tanto escândalos nas igrejas tradicionais, pentecostais e neopentecostais, muitos estão recorrendo a igrejas nos lares, achando que essa é a única salvação.
Minha resposta a ele foi:
O problema é o homem. Onde há o homem, há pecado. Daí, qualquer lugar onde há o homem, seja numa igreja grande ou numa reunião caseira, há propensão ao pecado e ao escândalo. Há alguns grupos caseiros que são heréticos. Outros julgam que a heresia está somente nas igrejas e que esses grupos caseiros são a salvação. Eu creio que Jesus Cristo é a única salvação.
Claro que, mesmo indo a uma igreja grande ou pequena, nada deve nos impedir de ter “reuniões caseiras”, isto é, independente dos cultos de domingo, é saudável termos reuniões em nossos lares, para ensinar nossos filhos, louvar a Deus, orar, ler um trecho da Palavra de Deus, etc.
A maioria dos cristãos conseguiria fazer esse tipo de reunião em seus lares, se conseguisse dar o horário nobre para Jesus, não para a telinha…
Então, até mesmo dentro dos nossos lares, enfrentamos desafios, onde muitas vezes deixamos que nosso precioso tempo, que deveria ser dado a Deus, seja desperdiçado em banalidades como a novelinha da Globo. A glória de Deus, que poderia ser experimentada na oração e leitura da Palavra de Deus no ambiente do próprio lar, é trocada por “gloriosas” cenas de nudez e sexo, divórcio, traições, etc.
Onde há ser humano — seja na igreja grande, pequena, na igreja caseira, ou mesmo em nossos lares —, há pecado. Quem poderá nos livrar? Jesus! Ele pode nos salvar dos nossos pecados, dos pecados dos nossos lares, das igrejas tradicionais, das igrejas pentecostais e das neopentecostais.
Se amamos a Jesus, devemos segui-Lo. Se amamos a Jesus, devemos colocar a Palavra dEle acima da nossa palavra e acima da palavra dos pastores, sejam tradicionais, pentecostais e neopentecostais. Do contrário, enfrentaremos ruína.
Minha esposa me conta que a igreja luterana onde ela nasceu, foi batizada e criada ensinava frequentemente contra as manifestações dos dons do Espírito Santo hoje como se fossem meros produtos fabricados pelas igrejas pentecostais ou exclusivamente para as igrejas pentecostais, de forma que os membros estavam vacinados contra a influência “pentecostal”. Mas, ao se deparar com enfermidades ou outros problemas graves, vários membros passaram para o espiritismo em busca de ajuda “sobrenatural”, porque o pastor não costumava pregar contra os perigos do espiritismo. Sua preocupação era o “pentecostalismo”.
Se tivessem medido a palavra do pastor com a Palavra de Deus saberiam que as manifestações sobrenaturais de Deus não pertencem aos pentecostais, que apenas se abrem (ou se abriam) para o que Deus dá, e não precisariam recorrer ao espiritismo.
Portanto, não deixe de ir à igreja, mas tenha a consciência de que você é fraco e também o pastor. Tanto você quanto o pastor precisam de salvação. Tenha a consciência de que, por melhor que seja a igreja ou pastor, nenhum deles salva. Nenhuma igreja salva. Só Jesus Cristo salva, resgata e nos liberta de nossos pecados.
Se frequentar uma igreja tradicional onde o pastor nega ou ignora que Deus atua sobrenaturalmente hoje, fique com a Palavra de Deus. As igrejas que estão de portas fechadas para o Espírito Santo são hoje as mais escancaradas para a ordenação de pastores gays. Portanto, mantenha a porta da sua vida aberta para o Espírito Santo e sua santificação.
Se frequentar uma igreja pentecostal onde o pastor impõe usos e costumes, especialmente o que a mulher deve ou não usar, fique com a Palavra de Deus. Siga o Espírito, não a carnalidade religiosa.
Se frequentar uma igreja neopentecostal onde o pastor pede dinheiro sem parar, fique com a Palavra de Deus. Lembre-se: por mais “persuasiva” que seja a pregação, você não é obrigado a dar nada. Se o pastor disser que quem der tudo receberá uma bênção especial, não vá na palavra do pastor. Siga o Espírito Santo e o bom senso.
Por mais radical que seja a igreja que pede dinheiro, tudo o que ela pode fazer é pedir. Nós temos sempre a escolha de decidir dar ou não. E nenhum pastor pode nos obrigar a dar tudo ou pouco. Pena que não tenhamos essas mesmas escolhas diante do chamado Estado “laico” adorador de homossexualismo, aborto e bruxaria como “cultura” sagrada.
Quando o governo “pede” dez por cento do seu salário, você não tem escolha, pois suas leis de impostos não são opcionais, mas obrigatórias.
Quando o governo “pede” vinte por cento do seu salário, prometendo saúde, educação, etc., você é obrigado a obedecer.
Quando o governo “pede” quarenta por cento do seu salário, você até pode dizer (para você mesmo e sua família) que é roubo, mas você está de mãos atadas, pois com governo está a “lei”, que ele faz do jeito que quiser.
Felizmente, o governo não “pede” dez por cento do seu salário. Se pedisse, seria como igreja pedindo dízimo. (O PT não é igreja, mas “pede” um dízimo de seus filiados!)
Felizmente, o governo hoje já não “pede” vinte por cento do seu salário. “Pedia” assim mais de dois séculos atrás, mas então havia no Brasil um Tiradentes para se revoltar contra esse roubo estatal.
Infelizmente, o governo hoje “pede” quarenta por cento do seu salário! E ai de você se tentar imitar Tiradentes contra o roubo estatal!
Você tem toda liberdade de não dar dinheiro para uma igreja que pede muito dinheiro. Mas, acorde: você não tem liberdade nenhuma de não dar quando o governo lhe “pede” muito dinheiro.
No entanto, você tem a liberdade garantida por Deus de colocar a Palavra de Deus acima o roubo estatal justificado por abusivas leis de impostos, que tiram dos cidadãos muito, muito além do que deveriam. Se até Tiradentes, usando o bom senso, pôde se revoltar contra isso, por que é que nós estamos de braços cruzados e boca fechada? Onde fica nosso bom senso e a Palavra de Deus?
Se um dos Dez Mandamentos diz que Deus proíbe roubar, por que ficamos calados e parados enquanto o governo rouba de todos os cidadãos? Só porque os outros cidadãos, dormindo em berços esplêndidos, não se importam com o sistemático roubo estatal, deveríamos imitar sua apatia? Ou será que imaginamos que Deus deu isenção para roubo somente quando praticado pelo Estado, significando que o governo está livre para fazer qualquer lei de imposto e cobrar o tanto que quiser?
As igrejas que são acusadas de “roubar” dos membros não atingem nem 10 por cento da população, ainda que ninguém nunca tenha sido obrigado a dar nada ali, com ou sem força de lei. Mesmo assim, esse “roubo igrejeiro” desperta a ira de certos cristãos, alguns dos quais são notórios por seu caráter vigarista.
Mas quem se ira contra o “onipresente” roubo estatal? Quem escapa do roubo governamental? Quem se ira contra o destino do nosso dinheiro sistematicamente roubado através de impostos tão absurdamente elevados que teriam deixado Tiradentes com revolta dobrada? As vítimas do governo atingem 100 por cento da população. Ninguém escapa das leis de impostos. Até produtos básicos, comprados por pobres, vem taxado pelo maior Ladrão do Brasil.
Essa, na minha opinião, é a maior luta. Por isso, me esforço para que, com todas as suas fraquezas, igrejas tradicionais, pentecostais e neopentecostais se unam contra o inimigo comum, que está usando o governo para destruir todas as bases morais e éticas da família e da sociedade.
Há uma grande revolução do mal ocorrendo, onde a população cristã, que é maioria no Brasil, está sendo involuntariamente cúmplice, através do seu dinheiro pago em impostos, usados pelo governo para financiar a promoção do aborto, do homossexualismo e de outras perversões ideológicas, inclusive da bruxaria como “cultura” sagrada.
Cruzar os braços e manter a boca fechada diante desse mal é confirmar nossa cumplicidade.
Eu não tenho um programa de TV, mas se tivesse, eu faria exatamente o que tenho feito no meu blog há anos: denunciar para todo o Brasil o mesmo ladrão que Tiradentes já denunciava mais de duzentos anos atrás. Mas se Deus quiser, e outros se unirem nesse propósito, um dia ainda poderemos ter um programa de TV para fazer essas denúncias públicas, quer o maior Ladrão goste ou não.
Se podemos sempre dizer “não” para os televangelistas que precisam de nosso dinheiro para comprar mansões, jatinhos e helicópteros, por que não podemos dizer “não” para o governo que usa nosso dinheiro para investir no homossexualismo, aborto e outras perversões?
Se temos o direito de não ter nosso bolso sugado por pastores que pedem muito, façamos também uso de nosso direito de não ter nosso bolso sugado pelo governo que exige muito, muito mais do que lhe é devido.
Fonte: www.juliosevero.com

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Produtor rural tem dificuldades em toda a cadeia produtiva

Rural Centro

Da Redação

O Brasil é uma das maiores nações agrícolas do planeta e o mundo todo está de olho em tudo o que se faz e se produz aqui.

 Mas a vida do produtor rural não tem sido fácil por conta dos entraves que ele encontra no meio do caminho, na hora de levar o produto até o consumidor.
O sul de Minas Gerais nasceu com vocação para a agricultura. A fartura é grande: frutas, legumes, flores, ovos, grãos e, os mais importantes, leite e café. Essa mistura de culturas é uma herança dos colonizadores. Os agricultores de hoje aprenderam com os antepassados que uma propriedade deve ter de tudo.
“Toda produção agrícola e pecuária vem das tradições familiares, de pessoas que têm uma tradição na terra, que administram como o avô administrou, como o pai administrou, eles vão herdando”, diz Ricardo Setti, professor de administração rural da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
O maior desafio para os agricultores é conciliar a parte boa da herança dos antigos com os novos métodos de produção. Segundo o professor, no mundo conectado que vivemos, é necessário se profissionalizar para enfrentar as dificuldades do mercado. “Os tradicionais que não encararem a propriedade como uma empresa estão fadados ao fracasso e vão sair da atividade.”
A  pecuarista Rosângela Alves Fonseca ainda tenta entender como as coisas funcionam na fazenda. Ela passou por maus momentos na ordenha e teve que aprender a conviver com a chegada da tecnologia. “Se eu não abrisse mão dos conhecimentos antigos e usasse essa tecnologia existente aí eu não conseguiria produzir.”
A roça é como uma empresa. Na maior região produtora de café do Brasil, quem vive da cultura também sabe que não é nada fácil equilibrar as contas. Os avanços tecnológicos ajudam, mas o cafeicultor depende mesmo é da mão de obra. A maior parte das lavouras está nas encostas dos morros. No final, pesam os salários e encargos sociais.
Na fazenda de Eduardo Duarte, em Guaranésia, são produzidas 1,2 mil sacas de café todo ano. Ele investiu em máquinas para reduzir os custos e aumentar a segurança. A sacaria usada para armazenar a produção foi extinta, os R$ 4 mil que ele gastava para ensacar o café empregou num equipamento moderno, que manda o café a granel para a cooperativa. “É uma estrutura barata, com duas pessoas você carrega um caminhão a qualquer hora”, conta.
Da porteira para fora, o produtor ainda vai encontrar outros desafios. O primeiro deles é de escoamento da produção, depois a dificuldade de comercialização e encontrar melhores preços para o produto, além de aspectos políticos e legais.
“A alternativa que o produtor tem é do associativismo, seja através do sindicalismo para uma representação política, seja através do cooperativismo para que ele possa ajudar na comercialização, força na compra de insumos de maneira mais barata e também na própria venda e escoamento da sua produção”, afirma o professor Ricardo Setti.
O porto seco de Varginha resolveu estender o horário de carregamento e despacho dos containers de café. Os caminhões eram liberados até as 16h, agora, o expediente vai até as 20h. O resultado foi que as exportações de café pelo porto seco quase dobraram.
Trabalhar no campo atualmente exige dedicação e muito conhecimento. Ficar na roça requer muito mais. “Eu e o Gilmar temos uma herança de família, todos produtores rurais. Então a paixão pela atividade é grande, isso que nos motivou a chegar até onde nós estamos e pretendemos melhorar mais”, diz Rosângela.

Fonte original: JCNET

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Anastasia cria o “bolsa drogado”

Leiam o que informa o blog em.com.br, do jornal o Estado de Minas. Volto em seguida.
Usuários de drogas em Minas terão bolsa de R$ 900 para custear tratamento
O governador Antonio Anastasia (PSDB) afirmou, nesta quinta-feira, na entrevista oficial Palavra do Governador, que mil famílias nos municípios de Teófilo Otoni - Norte de Minas - e de Juiz de Fora - Zona da Mata -, que tenham parentes usuários de drogas receberão do estado uma quantia em dinheiro para ajudar a custear o tratamento. Intitulado Aliança pela Vida, o cartão dará direito a um auxílio mensal de R$ 900. “É fundamental a participação das famílias, da sociedade, das empresas, das instituições todas nessa luta tão importante a favor da vida e contra as drogas. É um projeto que vai aproximar a família daquela clínica ou comunidade terapêutica em que o familiar está sendo tratado”, afirma Anastasia.
Segundo o governo estadual, a previsão é de que a cota de R$ 800 se destine ao pagamento da clínica de reabilitação e os demais R$ 100 são previstos para as despesas de deslocamento e transporte dos familiares até o paciente.
Anastasia acrescentou que o canal telefônico criado para dar apoio aos dependentes químicos ou parentes, chamado Disque Drogas, passou a atender de 3 mil a 30 mil ligações por mês. O serviço pode ser acionado pelo número 155.

VolteiGoste da iniciativa quem quiser. Eu reprovo. Sei que vou apanhar dos tucanos mineiros mais do que dos petistas - com alguma freqüência, alguns deles conseguem ser ainda mais violentos porque se apegam àquela piada que consiste em jogar São Paulo contra Minas… E eu, para estes ao menos, cultivo o mau gosto de ser paulista… Fazer o quê? Acho o bairrismo uma tolice. Até porque, se a questão é a minha “pátria”, eu sou mesmo é da Fazenda Santa Cândida… Como nasci só em 1961, bem depois de 1932, não dou bola…
A notícia ainda é um tanto precária, mas uma coisa é certa: o tratamento de um dependente custa bem mais do que R$ 800. Fosse assim, tudo seria muito fácil e tranqüilo. Não entendi, e não está claro, se o dinheiro poderia ser usado apenas nas clínicas de reabilitação, sendo vedado o seu emprego em outros estabelecimentos. Sendo assim, qual é a rede de clínicas conveniadas e qual é o protocolo de tratamento? Como será acompanhada a qualidade do trabalho e como se vai medir a sua efetividade?
Se o uso do recurso for, vamos dizer, de livre provimento, aí é o pior dos mundos. Uma coisa é entregar dinheiro nas mãos de um carente, como faziam os vários programas de bolsa do governo FHC, depois reunidos no Bolsa Família. Outra, diferente, é entregá-lo a famílias com dependentes químicos. Caso estes se saibam o motivo de uma doação…
Parece-me haver na proposta o indisfarçável cheiro da solução fácil e errada para um problema de difícil solução. Por que os dependentes químicos hão de merecer pensão de R$ 900 do poder público, mas não, sei lá, os que têm as suas respectivas casas destruídas pelas chuvas ou que padecem de outras doenças crônicas, adquiridas não por vontade, com tratamento precário do SUS?
O Brasil vai mesmo se tornando um país muito especial. Por aqui, pagam-se um “auxílio reclusão” e um “auxílio drogado” (no caso de Minas) bem superior ao salário mínimo percebido por quem não está preso nem é viciado. O operário, assim, pode trabalhar para o bem do Brasil e de Minas, certo de estar gerando a riqueza da qual se tirarão os recursos para sustentar os presos e os viciados, que “merecem” um salário maior…
Um país sui generis.
Por Reinaldo Azevedo
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

DESPERTANDO UM GIGANTE – PARASHÁ SHEMOT 5772

O Rav Naftali Tzvi Berlin, mais conhecido como Netziv, viveu há cerca de 150 anos e foi o Rosh Yeshivá (líder espiritual) da Yeshivá de Vologin, na Lituânia. Não apenas foi o maior estudioso de Torá de sua geração, mas também um prolífico escritor, compilando dezenas de livros durante sua vida, entre eles comentários da Torá e do Talmud (Torá Oral). Como o Netziv chegou a ser o maior de sua geração? Ele era muito constante no estudo, aproveitava cada segundo para conhecer um pouco mais da Torá ou entender algum assunto de maneira mais profunda e completa.
Mas nem sempre foi assim. Quando ele era criança, não gostava de estudar. Apesar dos esforços do pai, ele não levava os estudos de Torá a sério. Um dia ele estava brincando em casa quando escutou seu pai chorando. Seu pai estava conversando com sua mãe na cozinha e não percebeu que o Netziv podia escutar tudo. Ao escutar que a conversa era sobre ele, ficou curioso e chegou mais perto para prestar atenção. Escutou o pai, chorando muito, dizendo:
- Eu já tentei de tudo para fazer com que nosso filho se interessasse pelos estudos de Torá. Até já ofereci para ele prêmios, mas foi tudo em vão. Não sei mais o que fazer. Acho que devemos desistir dele ser um grande estudioso.
O Netziv percebeu que, enquanto o pai falava, lágrimas corriam em seu rosto. Ele ficou profundamente tocado com a dor e as lágrimas do seu pai. Quando o pai terminou de falar, o Netziv correu até ele e prometeu que, daquele dia em diante, se esforçaria para se tornar um bom estudante. E realmente cumpriu suas palavras. Em pouco tempo se tornou o melhor aluno de sua sala e nunca mais parou de crescer, até tornar-se o maior de sua geração.
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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, também conhecido como "Sefer Galut VeHagueulá" (O livro do exílio e da redenção), pois começa descrevendo todo o sofrimento da escravidão do povo judeu no Egito e sua posterior salvação.
E a Parashá desta semana, Shemot, descreve o nascimento e o crescimento, tanto físico quanto espiritual, do homem escolhido por D'us para ser o salvador do povo judeu, Moshé Rabeinu. E assim a Torá descreve seu nascimento: "Um homem da Casa de Levi foi e casou-se com uma filha de Levi. A mulher engravidou e deu a luz" (Shemot 2:1,2). Mas se a Torá estava falando de Amram e Yocheved, por que não mencionou explicitamente o nome dos pais de Moshé?
A mesma pergunta surge ao observarmos o início da Meguilat Ruth, livro que conta a história de Ruth, uma mulher Tzadeket (Justa) do povo de Moav que decidiu se converter ao judaísmo. Assim começa o livro: "E foi nos dias em que julgavam os Juízes, e houve uma fome na terra. E um homem saiu de Beit Lechem, em Yehudá, para morar nos campos de Moav..." (Ruth 1:1). Poderíamos pensar que o nome do homem não era importante e por isso não foi mencionado, mas assim começa o próximo versículo: "O nome do homem era Elimelech..." (Ruth 1:2). Por que o primeiro versículo já não disse que foi Elimelech quem saiu de Beit Lechem? E qual a conexão da história de Ruth com a Parashá desta semana?
Explica o Rav Pessach Krohn que é uma grande desgraça quando uma pessoa conhece seu potencial e não o aproveita. Mas é uma desgraça ainda maior quando a pessoa nem mesmo conhece seu potencial. Quantas pessoas poderiam ter mudado o mundo mas se acomodaram, achando que nada podiam fazer? Quantos gigantes passaram a vida adormecidos, sem imaginar seu verdadeiro potencial? Por que tantos não percebem seu verdadeiro valor?
Quando conhecemos alguém espiritualmente elevado, qual o primeiro pensamento que vem em nossas cabeças? "Nunca poderei ser como ele, pois ele veio de uma família elevada, eu não". Nos limitamos, achando que apenas alguns poucos "pré-escolhidos" podem chegar a níveis muito elevados. Assim nem tentamos nos esforçar para atingir um nível maior na vida.
A fórmula para não cairmos neste equívoco está ensinada na Parashá da semana e na Meguilat Ruth. De Amram e Yocheved saiu Moshé, o salvador do povo judeu, o maior de todos os tempos. Elimelech foi o sogro de Ruth, a chave que abriu as portas para sua conversão. O bisneto de Ruth foi o David Hamelech (Rei David) e, portanto, dela virá também o Mashiach, que reinará sobre todo o mundo com sua grandeza. Poderíamos pensar que Moshé somente chegou a ser Moshé Rabeinu pois era filho de Amram e Yocheved, respectivamente o líder de sua geração e uma grande Tzadeket (Justa) cujo temor a D'us estava acima de tudo. Poderíamos pensar que a descendência de David Hamelech e do Mashiach somente poderia começar com alguém do nível de Elimelech, o líder de sua geração. Por isso os versículos escrevem apenas que "um homem saiu", sem mencionar os nomes, para nos ensinar que, apesar de realmente serem descendentes de pessoa muito elevadas, os níveis espirituais de Moshé Rabeinu, David Hamelech e do Mashiach somente podem ser alcançados através de um grande e constante esforço.
Durante a Parashá é possível ver a dificuldade do trabalho espiritual de Moshé para chegar a ser o líder do povo judeu. Mesmo morando no palácio real, cercado de riquezas e mordomias, ele não esqueceu o sofrimento dos seus irmãos e abandonou tudo para ajudá-los. Além disso, Moshé aceitou o papel de salvador do povo, mesmo que isto significava desafiar o faraó, o homem mais poderoso do planeta, colocando sua própria vida em risco. Nenhum crescimento veio sem esforço, sem auto-sacrifício.
Portanto, achar que existem pessoas grandes apenas porque nasceram em "berço especial" é um grande erro. As pessoas que chegaram a níveis elevados trabalharam e se esforçaram muito para isso. Apesar de D'us ser o único responsável por todo sucesso, eles fizeram sua parte. Foi necessária muita dedicação, constância e perseverança para chegar aonde chegaram. Gigantes espirituais, como o Netziv e muitos outros, apesar de terem vindo de boas famílias, se não tivessem se esforçado, não teriam se tornado os líderes de suas gerações.
O Netziv, ao contar a história de sua vida, sempre acrescentava uma importante idéia. O que teria acontecido se ele não tivesse escutado seu pai chorando e não tivesse se sensibilizado? Por causa da excelente educação que teve em casa, certamente teria sido um judeu honesto, temente a D'us. Teria seu negócio, estudaria um pouco de Torá no final do dia, cumpriria as Mitzvót de maneira adequada. Mas quando chegasse ao seu Julgamento Celestial e lhe perguntassem onde estavam todos os livros que ele deveria ter escrito, o que ele responderia? Se dissesse que não tinha potencial para isto, eles lhe mostrariam todos os livros que ele efetivamente escreveu e diriam que potencial ele tinha, apenas tinha deixado de aproveitá-lo.
Quando achamos que os grandes líderes do povo judeu somente chegaram a um elevado nível por causa de suas famílias, acabamos utilizando isto como desculpa para não nos esforçarmos. Quando pensamos que apenas os outros podem ser elevados, desistimos mesmo sem tentar. Infelizmente não é um argumento que utilizamos para enganar aos outros, e sim a nós mesmos.
Nem todos chegarão a ser o líder de sua geração, mesmo com esforço, pois nem todos têm este papel no mundo. Mas não sabemos os planos de D'us, não sabemos até onde vai a nossa verdadeira contribuição, por isso temos que fazer a nossa parte e nos esforçar. Todos têm um potencial gigantesco, um trabalho individual que apenas cada um de nós pode cumprir no mundo. Ao invés de procurar desculpas, precisamos despertar o gigante adormecido que está dentro de nós. Somente assim poderemos mudar o mundo de verdade.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com
Ex. l:1-6:1, Is. 27:6-28:13, 29:22-23, Jr. 1:1-2:3, I Co.14:13-25

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A nova vanguarda do atraso

O Estado de S. Paulo

José Serra

O desempenho da economia brasileira em 2011 foi modesto: o PIB cresceu menos de 3%, a segunda pior performance desde 2004

O freio da economia foi a indústria de transformação, que permaneceu estagnada.
A produção de bens de consumo durável declinou quase 2%. Pior foi o caso dos não duráveis: no ramo têxtil, a produção caiu 15%; em calçados e artigos de couro, -10%; no vestuário, -3,3%. De fato, o setor industrial anda de lado, ou, dependendo de onde, para trás. Até hoje não retomou o nível de produção anterior à crise de 2008-2009.
O leitor pode perguntar-se: como é possível isso, se o consumo nos últimos anos aumentou tão rapidamente? Desde 2007 as vendas a varejo cresceram perto de 40% reais; em 2011, 5%.
A resposta é simples: crescem vertiginosamente as importações de produtos manufaturados. O déficit da balança comercial da indústria de transformação em 2011 (janeiro/novembro) cresceu 37% em relação a 2010, chegando a US$ 44 bilhões! Em 2006 a balança era superavitária em US$ 30 bilhões. Assim, boa parte dos empregos gerados pela febre de consumo dos últimos anos foi para o exterior.
Há uma desindustrialização em marcha no Brasil. Além do encolhimento do setor em relação ao PIB (faz mais de uma década), há uma desintegração crescente de cadeias produtivas, tornando algumas atividades industriais parecidas com as "maquiadoras" mexicanas.
Mas atenção! Os produtos manufaturados que importamos não são mais baratos e os que exportamos, mais caros porque a indústria brasileira seja mais ineficiente que a chinesa ou a coreana, embora, pouco a pouco, num círculo vicioso, isso possa ocorrer. A explicação principal é o elevado custo sistêmico da economia brasileira.
Primeiro, a carga elevada e distorcida de impostos sobre a indústria. Um exemplo simples: de cada R$ 1 do custo do kw de energia elétrica, R$ 0,52 vão para tributos e encargos setoriais!
Segundo, a péssima infraestrutura. O governo federal destina pouco para investir e investe pouco daquilo que destina, em razão de falta de planejamento, prioridades e capacidade executiva. O País realiza um dos menores investimentos públicos do mundo como fração do PIB. Mais ainda, por causa desses fatores, acrescidos de populismo e preconceitos, os governos do PT não conseguiram fazer parcerias amplas com o setor privado na infraestrutura.
Há uma terceira condição decisiva para a desindustrialização: a persistente sobrevalorização da moeda brasileira ante as moedas estrangeiras - cerca de 70% desde 2002, segundo estimativa de Armando Castelar. Isso aumenta fortemente os custos brasileiros de produção em dólares, dos salários à energia elétrica.
Isoladamente, a sobrevalorização é o fator mais importante que barateia nossas importações e encarece as exportações de manufaturados. Levá-la em conta ajuda a compreender por que temos o Big Mac mais caro do mundo e os nossos turistas em Nova York, embora em menor número que os alemães e os ingleses, gastam mais do que estes dois somados.
Economistas e jornalistas de fora do governo falam contra a ideia de existir uma política específica para a indústria. Opõem-se à teoria e à prática de uma política industrial, que, segundo eles, geraria distorções e injustiças. Já o pessoal do governo e seus economistas falam enfaticamente a favor da necessidade e da prática de política industrial. Nessa discussão se gastam papel, tempo de TV a cabo e horas de palestras.
É uma polêmica interessante, mas surrealista, pois não existe de fato uma política econômica abrangente e coerente, de médio e de longo prazos, que enfrente as causas da perda de competitividade da indústria. O programa Brasil Maior? Faltam envergadura e capacidade de implantação, sobram distorções. E a anarquia da política de compras de máquinas e equipamentos para a área do petróleo ou a confusão dos critérios de crédito subsidiado do BNDES, têm alguma racionalidade em termos uma política industrial? Nenhuma!
Alguém poderia questionar: "E daí? Qual é o problema de o Brasil se desindustrializar? Temos agricultura pujante, comércio próspero e outros serviços se expandindo. Tudo isso gera empregos e renda. Devemos seguir comprando mais e mais produtos industriais lá fora, pois dispomos dos dólares para tanto: vendemos minérios e alimentos e recebemos muitos investimentos externos".
Desde logo, nada contra sermos grandes exportadores de produtos agrominerais. Os EUA fizeram isso no século 19 e em boa parte do século 20 e ainda viraram a maior potência industrial do planeta, expandindo ao máximo a exportação de manufaturas. A riqueza em commodities não é a causa necessária de retrocesso industrial. Pode, sim, ser fator de avanço. O retrocesso só existe porque os frutos dessa riqueza não estão sendo utilizados com sensatez e descortino.
Ao se desindustrializar, o País está perdendo a sua maior conquista econômica do século 20. Estamos a regredir bravamente à economia primário-exportadora do século 19; a médio e a longo prazos, esse modelo é vulnerável no seu dinamismo, por ser muito dependente do centro (hoje asiático) da economia mundial. Os países com desenvolvimento brilhante têm sido puxados pela indústria, setor que é o lugar geométrico do progresso tecnológico e da geração dos melhores empregos em relação à média da economia.
O Brasil tem 190 milhões de habitantes, a 77.ª renda per capita e o 84.º IDH do mundo. É preciso ter claro: sua economia continental não proporcionará a renda e os milhões de empregos de qualidade que o progresso social requer tendo como eixo dinâmico o consumo das receitas de exportação de commodities.
A indagação retórica que fiz acima envolve um conceito que tornaria o futuro da economia brasileira vítima de um presente de leniência e indecisão. Conceito que pauta, de fato, o lulopetismo. É que um marketing competente consegue dar uma roupagem moderna a essa nova vanguarda do atraso.

José Serra, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Dez metas para Rio+20

O Globo

Cláudio Motta

ONU divulga primeiro rascunho da pauta para os debates de junho

A criação de dez metas de desenvolvimento sustentável — que incluirão normas de consumo, produção, proteção dos oceanos, segurança alimentar, energia limpa e redução de desastres naturais — deverá marcar os debates da Rio+20. A proposta aparece no primeiro rascunho de pauta publicado ontem de noite pela ONU para a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, em junho, no Rio. As 19 páginas do documento resumem 672 propostas vindas de países de todo o mundo: um calhamaço cuja pilha tem mais de dois palmos de altura.
Os negociadores tentarão, ainda, costurar um acordo para fortalecer uma agência ambiental, e nomear um alto comissário global responsável por receber críticas, sugestões e reclamações. Também ganha força a criação de medidas de redução de combustíveis fósseis e subsídios a fontes alternativas de energia. Haverá muita diplomacia até a pauta da Rio+20 ser concluída, quatro dias antes da conferência, que começará no dia 20 de junho.
Não são esperadas, porém, propostas para acordos legalmente vinculantes, como ocorreu na Rio 92, a Cúpula da Terra realizada há 20 anos na cidade. Desta vez, os negociadores serão convidados a definir suas próprias metas e trabalhar voluntariamente para o estabelecimento de uma economia verde global, reduzir a pobreza e diminuir os níveis de consumo.
De acordo com Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF, as metas de desenvolvimento sustentável foram propostas da Colômbia, e logo apoiadas pela Guatemala e Brasil.
— A discussão de metas de desenvolvimento sustentável anima. É algo concreto. A Rio+20 é uma conferência que não prevê decisão mais rígida, formal. O que poderia deixá-la vazia — analisa Maretti. — As metas têm que começar a valer já. E o Brasil precisa se comprometer com o desmatamento zero até 2020. Economia verde é a mesa posta para o Brasil ser campeão mundial. Mas não adianta esconder seus problemas ambientais.
Porém, os objetivos globais de desenvolvimento sustentável não deverão vigorar antes de 2015. Tampouco vão substituir os dez objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU, lançados em setembro de 2000. Além disso, as novas metas não ficaram imunes de críticas.
— É bom ter um norte, mas, sem os meios para atingir os objetivos, eles podem ficar apenas na retórica — alerta a subsecretária estadual de Economia Verde do Rio Suzana Kahn, que está em Nova York para desenvolver acordos ambientais com os Estados Unidos. — Precisamos construir soluções regionais, envolvendo estados e municípios.
O fortalecimento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) será discutido na Rio+20, o que também é defendido pelo Brasil. Com sede em Nairobi, a agência poderá ganhar o mesmo nível de importância da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da agência para Alimentação e Agricultura (FAO).
— Não há muita surpresa no rascunho, há um certo consenso — disse o diretor do Centro de Informação da ONU no Brasil Giancarlo Summa. — Já a questão do Pnuma enfrenta divergências. Uns defendem seu fortalecimento, outros a criação de uma nova agência ambiental.
O Subsecretário-Geral de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, destacou o fato de que as propostas brasileiras, como as metas sustentáveis, já têm visibilidade no primeiro rascunho. Mas lembrou que o processo de negociação ainda é longo:
— A primeira rodada de debate deste texto será em Nova York, nos dias 25, 26 e 27 de janeiro.
São esperados dezenas de chefes de Estado, líderes políticos e celebridades. Porém, o primeiro-ministro britânico David Cameron já declarou que não planeja vir ao Rio de Janeiro, de acordo com o jornal britânico “The Guardian”, apesar de ter prometido liderar o governo mais verde da história de seu país. Além disso, a Rio+20 foi adiada para evitar a coincidência de datas com as comemorações do jubileu de diamante da rainha da Inglaterra Elizabeth II. Inicialmente marcada para o início do mês, a cúpula está prevista agora para os dias 20 a 22 de junho.
O encontro paralelo que o Brasil está organizando, chamado de “Diálogos sobre sustentabilidade”, vem ganhando repercussão mundial. A sociedade civil será convidada a debater e a criar um documento para pressionar os negociadores oficiais.