sexta-feira, 3 de abril de 2015

ROTULANDO AS PESSOAS - PESSACH 5775

 
Assim a história de Pessach teria sido relatada pela CNN ou pelo New York Times:

"O ciclo de violência entre os judeus e os egípcios continua no Egito, sem nenhuma perspectiva de que seja alcançada em breve a paz na região. Depois de oito pragas lançadas pelos judeus, que acabaram com a infraestrutura egípcia e destruíram a vida de civis egípcios inocentes, os judeus lançaram uma nova ofensiva esta semana, sob o nome de "Praga da Escuridão". Os jornalistas ocidentais ficaram especialmente enfurecidos com este ataque. "É simplesmente impossível conseguir informar quando você não pode ver um centímetro à sua frente", reclamou um frustrado repórter da CNN. "Escutei de uma fonte egípcia confiável ​​que, aproveitando a intensa escuridão, os judeus estão matando milhares de egípcios, homens, mulheres e crianças inocentes. A palavra desta fonte é uma evidência sólida o suficiente para mim".

Enquanto os judeus afirmam que as pragas se justificam e são uma resposta à dura escravidão imposta pelos egípcios, o Faraó, líder egípcio, refuta esta alegação: "Se apenas as pragas parassem, não haveria mais escravidão. Nós só queremos viver livre das pragas. É o direito de toda sociedade". O porta-voz da ONU argumenta que a escravidão é justificável, tendo em vista a superioridade dos armamentos dos judeus, que lhes foram fornecidos pela superpotência D'us. "O uso da força pelos judeus é algo completamente desproporcional", afirma ele.

Os europeus estão particularmente enfurecidos com a mais recente ofensiva judaica. "A agressão judaica deve ser interrompida para que seja alcançada a paz na região. Os judeus deveriam voltar para a escravidão, para o bem do resto do mundo", afirmou, irritado, o presidente francês. Até mesmo vários judeus concordam. Adam Shapiro, um judeu, afirma que, embora a escravidão não seja necessariamente uma coisa boa, ela é consequência das pragas, e quando as pragas acabarem, assim também a escravidão terminará. "Os judeus foram longe demais com as pragas, como gafanhotos e epidemia, que praticamente destruíram a economia egípcia", lamenta o Sr. Shapiro. "Os egípcios são realmente pessoas muito agradáveis, e o Faraó é um tipo de pessoa adorável uma vez que você começa a conhecê-lo de verdade", descreve Shapiro.

Os Estados Unidos estão exigindo que Moshé e Aharon, os líderes judeus, continuem a negociar com o Faraó. Moshé argumenta que o Faraó fez diversas promessas de libertar o povo judeu, mas logo em seguida as quebrou, impondo uma escravidão ainda mais dura. Porém, o Secretário do Departamento de Estado dos EUA condena a última ofensiva dos judeus. "O Faraó não pode ser responsabilizado, pois ele não tem controle completo sobre os capatazes egípcios", afirma ele. "Os judeus devem voltar à mesa de negociações, e não vão conseguir nada através do uso da força das pragas".

A última rodada de violência vem junto com uma nova proposta de paz saudita. "Se apenas os judeus desistirem de sua língua, mudarem seus nomes para nomes egípcios, trocarem suas roupas e deixarem de ter filhos do sexo masculino, as nações árabes se inclinarão para uma paz duradoura com eles", declarou o príncipe herdeiro saudita".

Qualquer semelhança infelizmente não é mera coincidência... (Adaptado do Site do Aish HaTorá) 

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Nesta semana o Shabat coincide com a Festa de Pessach, também conhecida como "Zman Cheruteinu" (Época da nossa Liberdade). Pessach é a festa na qual revivemos a saída do Egito, quando D'us revelou Sua força através de incríveis milagres e sinais. Um dos pontos centrais da Festa de Pessach é o Seder, no qual reunimos nossas famílias em volta da mesa e, durante toda a noite, nos sentimos parte da saída do Egito. Recontamos com alegria a história do povo judeu, desde a idolatria que havia na época dos patriarcas, passando pelos terríveis momentos da escravidão egípcia e culminando com a milagrosa salvação de D'us.

Mas como os egípcios puderam escravizar os judeus poucos anos após Yossef, um dos filhos de Yaacov, ter se tornado o vice-rei do Egito e, através de seus sábios conselhos, ter salvado todos os egípcios da fome? Como os egípcios, que deviam tanto reconhecimento ao povo judeu, tiveram coragem de nos escravizar? A resposta está nos versículos: "E ele (Faraó) disse ao seu povo: E eis que este povo, os Filhos de Israel, é mais numeroso e mais forte do que nós. Venham, vamos agir com ele com sabedoria, para que ele não se torne mais numeroso do que nós e, caso ocorra uma guerra, ele se junte aos nossos inimigos e guerreie contra nós, e nos expulsem da terra" (Shemot 1:9,10). De acordo com estes versículos, o Faraó teve medo que os judeus se tornariam uma perigosa ameaça à soberania do Egito, e por isso decidiu fazer algo para proteger seu povo.

O Faraó escravizou o povo judeu agindo com sabedoria. Ele bolou um plano para fazer a escravidão acontecer aos poucos. Primeiro ele convidou o povo judeu para fazer parte da construção do Egito, em um clima de união nacional. Os judeus quiseram aproveitar a oportunidade de fazer parte da sociedade egípcia e trabalharam com muita empolgação. Nesta primeira fase até mesmo o Faraó participou, para dar o exemplo de cidadania. Mas lentamente os egípcios foram abandonando o trabalho, restando apenas os judeus. O serviço começou a deixar de ser pago, até que aos poucos se transformou em uma brutal escravidão.

Este episódio é relembrado na Hagadá, que lemos durante o Seder de Pessach. E assim está escrito: "Vayareiu HaMitzrim (Os egípcios nos fizeram mal), como está escrito: 'Venham, vamos agir com eles com sabedoria' ". Mas esta passagem levanta um grande questionamento: por que, para retratar que os egípcios nos fizeram mal, a Hagadá cita justamente o versículo que descreve a estratégia do Faraó para iniciar a escravidão com sabedoria, se aparentemente a única intenção dele foi combater a iminente ameaça contra a segurança de seu povo? Por que especificamente isto foi visto como um ato maldoso contra o povo judeu, se houveram outros atos muito mais cruéis, como jogar os bebês recém-nascidos no Rio Nilo?

O Rav Yohanan Zweig responde através de um conceito interessante da psicologia humana. Ele explica que o ser humano está sempre à procura de métodos para classificar diferentes condições e comportamentos. Por que fazemos isto? Pois quando identificamos e rotulamos um problema, ganhamos mais confiança de que este problema será efetivamente resolvido. Mas infelizmente acabamos utilizando este conceito de maneira equivocada, trazendo consequências negativas. Muitas vezes, em nossa pressa de identificar uma situação na qual estamos tendo alguma dificuldade para controlar, acabamos rotulando esta situação de maneira equivocada e criamos em nossas cabeças um problema que não existe.

Foi exatamente isto o que aconteceu no Egito. O Faraó se preocupou com o crescimento do povo judeu e uma possível traição, que colocaria o Egito em perigo. Porém, isto certamente era algo completamente infundado, como foi demonstrado através da intensa participação dos judeus quando foram convocados para construir o Egito. Ao invés de lidar com um potencial problema e buscar alternativas para evitá-lo, o Faraó preferiu rotular os próprios judeus como sendo o "problema egípcio". Como os egípcios tinham uma grande admiração pelos judeus, por toda a contribuição de Yossef, parte da tática do Faraó foi iniciar uma virulenta campanha antissemita, que pregava que os judeus eram maus e queriam destruir o país. A propaganda antissemita foi muito eficiente, a ponto dos egípcios se alegrarem ao perseguir e causar sofrimentos aos judeus.

O termo "Vayareiu", que significa "nos fizeram mal", também pode ser lido como "nos transformaram em maus". Não apenas os egípcios nos fizeram mal ao nos escravizar, mas eles fizeram pior do que isso, eles nos rotularam como um "povo problema". Os sofrimentos físicos aos quais os judeus foram submetidos durante a escravidão duraram apenas o tempo em que eles estiveram no Egito, e atingiram apenas os que estavam presentes naquele momento. Mas o rótulo que o Faraó nos colocou, de que somos um "povo problema", nos assombra até os dias de hoje. Esta foi certamente a maior maldade do Faraó contra o povo judeu. Novamente sofremos duramente durante o Holocausto, quando a propaganda nazista bombardeou na cabeça dos educados alemães a mentira de que os judeus eram os vilões que causavam todos os problemas da Alemanha. E infelizmente a história se repete atualmente, com a "demonização" de Israel e dos judeus, que são vistos como "o problema do mundo" mesmo quando são vítimas da violência daqueles que, em nome da "paz", na verdade querem nos varrer do mapa.

Esta constante repetição das perseguições contra o povo judeu em diversas épocas históricas também está profetizada nas palavras da Hagadá: "Pois não apenas um se levantou para nos exterminar, mas em cada geração e geração se levantam para nos exterminar". Porém, esta profecia termina com um consolo, uma garantia de que não devemos temer: "E D'us nos salva das mãos deles". Todo momento em que estamos conectados com D'us e com Suas Mitzvót, temos a garantia de que Ele nos protegerá de nossos inimigos e daqueles que querem nos caluniar e nos tornar maus aos olhos do mundo. Este é um dos principais propósitos de Pessach, lembrar que, apesar de não faltarem inimigos e dificuldades em nossas vidas, podemos nos apoiar em D'us para nos proteger e garantir que mais uma geração estará celebrando o Seder de Pessach. Quem sabe, ainda neste ano, em Jerusalém espiritualmente reconstruída.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VESAMEACH

Rav Efraim Birbojm
Ex. 12:21-51 (Maftír – Nm. 28:16-25)

sexta-feira, 27 de março de 2015

SER HUMANO, UM PEQUENO GIGANTE - PARASHÁ TZAV 5775

"Certa vez um jovem de uma importante Yeshivá da Europa, que estava se tornando um grande estudioso da Torá e tinha excelentes traços de caráter, ficou noivo. No discurso de noivado ele fez vários agradecimentos, mas em especial agradeceu ao seu professor do 2° ano. Todos estranharam, pois não era muito comum o agradecimento a um professor que havia ensinado há tanto tempo. Mas o jovem explicou que somente por causa da sensibilidade daquele professor ele havia conseguido chegar até onde chegou. E, para que todos entendessem, contou uma história comovente.

Quando ele estava no 2° ano, na época com 7 anos, havia na classe um garoto de família muito rica. Certo dia este garoto rico levou para a escola um caríssimo relógio de pulso. As outras crianças ficaram com inveja, pois naquela época os relógios de pulso eram muitos raros, e nenhuma outra criança possuía um. Na hora do intervalo o garoto saiu para brincar e esqueceu o relógio em cima de sua mesa, mas quando voltou descobriu que o relógio havia desaparecido. Como suspeitaram que um dos colegas de classe havia roubado o relógio, o professor pediu para que todos se levantassem e ficassem de pé ao lado de suas carteiras, enquanto ele revistava os bolsos e as mochilas de cada aluno.

O noivo contou, com a voz emocionada, que ficou apavorado quando o professor começou a chegar perto, pois era ele quem havia roubado o relógio. Ele imaginava a humilhação pública que passaria quando fosse descoberto. Mas algo incrível aconteceu. Quando o professor aproximou-se dele e colocou a mão em seu bolso, encontrou o relógio. Porém, ao invés de anunciar que havia descoberto o ladrão, ele agiu com muita sabedoria. Sem ninguém perceber, escondeu o relógio dentro da manga do seu terno e continuou fingindo que procurava nos outros alunos. Quando terminou, ele voltou para seu lugar e anunciou:


- Eu encontrei o relógio. Mas ao contrário do que vocês imaginaram, não foi nenhum aluno desta sala que o roubou. Foi o Yetzer Hará (má inclinação), que entrou em um dos alunos e conseguiu convencê-lo a roubar o relógio. Mas como ele é um excelente menino, tenho certeza que de hoje em diante se o Yetzer Hará tentar convencê-lo a novamente fazer algo errado ele conseguirá juntar forças para vencê-lo.

Com sua incrível sensibilidade, o professor havia mudado a vida daquele rapaz. Quanta vergonha e humilhação ele poderia ter causado caso revelasse quem era o ladrão? Talvez o aluno até merecesse mesmo uma enorme bronca naquele momento, mas graças à misericórdia daquele professor, o jovem pôde continuar em um caminho correto e conseguiu chegar a ser um estudante de Torá de destaque.
 

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Na Parashá desta semana, Tzav, a Torá continua descrevendo alguns dos serviços executados no Mishkan (Templo Móvel) pelos Cohanim (sacerdotes). A Parashá começa descrevendo um dos serviços mais estranhos que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) fazia: o "Trumat HaDeshen", que consistia basicamente em limpar o Mizbeach (altar de sacrifícios). Os Korbanót, após serem abatidos, eram queimados durante todo o dia e parte da noite sobre o altar, acumulando uma grande quantidade de cinzas. O primeiro serviço matinal do Cohen Gadol era remover do Mizbeach as cinzas que haviam sobrado do dia anterior. Mas por que este serviço, aparentemente tão "baixo", era atribuído justamente ao Cohen Gadol, alguém espiritualmente tão elevado?

Explica o Rabeinu Bechaye (Espanha, 1255 - 1340) que este serviço demonstra o quanto devemos ser humildes diante de D'us, e mesmo o Cohen Gadol precisava se rebaixar e fazer um ato aparentemente degradante. O Rav Shlomo Ephraim (Polônia, 1550 - Praga, 1619), mais conhecido como Kli Yakar, ressalta que as cinzas eram um lembrete para o Cohen Gadol de que, apesar de seu elevado status, ele deveria se comportar com a mesma humildade de Avraham Avinu, que reconheceu o quanto o ser humano é pequeno e insignificante diante de D'us ao declarar: "E eu sou pó e cinzas" (Bereshit 18:27).

Há outro ensinamento que enfatiza a importância de reconhecer o quanto o ser humano é pequeno: "Saiba de onde você veio e para onde você vai... De onde você veio? De uma gota podre. E para onde você vai? Para um lugar de pó, vermes e larvas" (Pirkei Avót 3:1). Nossos sábios também ensinam: "Tenha um espírito muito muito humilde, pois a esperança do "Enosh" (ser humano) são as larvas" (Pirkei Avót 4:4).

Por outro lado, também há diversos ensinamentos dos nossos sábios que parecem ressaltar a grandeza inerente do ser humano. O Talmud (Sanhedrin 37a) afirma que aquele que salva uma única alma de Israel é considerado pela Torá como se tivesse salvado o mundo inteiro. Nossos sábios também ensinam: "O ser humano é muito precioso pois foi criado à Imagem [de D'us]" (Pirkei Avót 3:14).

Em uma análise superficial, parece que há uma enorme contradição entre os ensinamentos dos nossos sábios, pois de um lado parece que o homem é um ser muito elevado, mas de outro lado parece que o homem é um ser inferior. Como entender esta aparente contradição?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que, na realidade, não há absolutamente nenhuma contradição, pois as diferentes opiniões refletem duas diferentes abordagens em relação ao status do ser humano. Enquanto uma abordagem foca no corpo do ser humano, caracterizado pelos desejos materiais mais baixos, a outra abordagem foca a alma do ser humano, cuja grandeza é incomparável.

Uma análise mais detalhada das fontes citadas pelos nossos sábios demonstra esta diferença de abordagem. O serviço de "Trumat HaDeshen" era um lembrete ao Cohen Gadol da natureza passageira do seu corpo, recordando-o que seu final seria o pó. A Mishná no Pirkei Avót também foca apenas na parte corpórea do ser humano e utiliza a linguagem "Enosh" (ser humano), ao invés de utilizar a linguagem mais comum, "Ish". A linguagem "Enosh" representa os aspectos mais baixos do ser humano, como os seus desejos físicos. A Mishná está nos advertindo para não nos tornarmos orgulhosos por causa das nossas realizações materiais, pois como todas as coisas finitas, elas não duram muito. A Mishná não está ensinando que devemos nos sentir como pessoas inerentemente sem valor, e sim que o sucesso na área material não tem nenhum valor intrínseco. O mesmo vale para a Mishná que ensina que viemos de uma gota podre e iremos para um lugar de vermes e larvas, ela está se referindo apenas à natureza provisória e passageira do nosso corpo. Em contraste, o ensinamento do Talmud que ressalta a inerente grandeza de cada ser humano está focando no nosso potencial espiritual. A Mishná do Pirkei Avót também ressalta que somos queridos aos olhos de D'us pois fomos criados à Sua Imagem e Semelhança, o que certamente se refere à nossa alma.

Mas por que algumas vezes nossos sábios focam na parte baixa e finita do nosso corpo, enquanto outras vezes eles focam na parte elevada e infinita da nossa alma? Nos ensina o Rav Shlomo Wolbe zt"l (Alemanha, 1914 - Israel, 2005) que há momentos na vida nos quais devemos focar no status baixo e pequeno do nosso corpo, enquanto em outros momentos devemos focar na elevação e na grandeza da nossa alma. O ideal seria lembrarmos sempre que somos limitados, que nossas conquistas materiais e nosso corpo são finitos, pois assim evitaríamos o orgulho e a busca desenfreada pela satisfação dos desejos físicos. Mas é muito arriscado focarmos em como somos pequenos sem antes apreciar nossa grandeza intrínseca. Se a pessoa não tem uma autoestima saudável, focar no quanto ela é pequena pode ser algo muito perigoso. Ao invés da pessoa perceber que não deve se portar com arrogância em relação às suas conquistas e realizações materiais, isto pode fazer a pessoa questionar o valor da sua própria essência. Somente uma pessoa sintonizada com a inerente grandeza da sua essência pode utilizar de uma maneira positiva a ideia de que sua parte física é extremamente baixa.

Este mesmo conceito deve ser aplicado aos pais e professores. É muito comum os educadores focarem nos aspectos negativos de seus alunos ou filhos, justificando que da mesma forma que eles receberam uma educação severa de seus pais e por isso conseguiram se transformar em pessoas saudáveis, assim também eles querem educar seus alunos e filhos. Mas muitos educadores defendem a ideia de que as pessoas das gerações passadas tinham a autoestima muito mais saudável e, portanto, os pais e professores podiam utilizar uma educação mais rígida sem medo de consequências negativas. Porém, atualmente as crianças e jovens são muito mais sensíveis e têm menos autoestima. Por isso é muito perigoso focar de forma muito severa o lado negativo delas, mesmo que seja com a intenção de educar.

Além disso, mesmo se um pai ou um professor sente que seu aluno ou seu filho pode lidar com um tipo de abordagem mais rigorosa, é bom levar em consideração um importante ensinamento do Talmud (Sotá 47a): "Sempre a mão esquerda deve afastar, enquanto a mão direita deve aproximar". O Talmud está nos ensinando que a abordagem mais rígida deve ser utilizada com a nossa mão mais fraca, a esquerda, enquanto que a abordagem mais leve e bondosa deve ser utilizada com nossa mão mais forte, a direita. O Talmud enfatiza a palavra "sempre", indicando que é um princípio que deve ser utilizado sem exceções. Alguns educadores atuais sugerem que, para cada crítica feita a um filho ou um aluno, devem ser feitos quatro comentários positivos.

Do serviço de "Trumat HaDeshen" aprendemos que, para manter nossa humildade, é necessário lembrar sempre da natureza passageira e finita do nosso corpo. Mas apesar desta ser uma lição muito importante, não é uma lição completa, e devemos sempre nos lembrar também do nosso incrível valor espiritual. Pois o segredo do verdadeiro sucesso no judaísmo, em todas as áreas, é o equilíbrio.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
 
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24

sábado, 21 de março de 2015

NASCENDO DE NOVO - PARASHÁ VAYIKRÁ 5775

 
"Jason, um jovem rapaz judeu, era o típico adolescente californiano, que gostava de liberdade e não queria saber de responsabilidades. Estava sempre "curtindo a vida", e não escutava os apelos dos pais, que preocupados com sua vida desregrada, imploravam para que ele tomasse um rumo na vida. Não levava a sério os estudos na faculdade, não pensava no futuro e desde seu Bar-Mitzvá estava completamente desconectado do judaísmo.

Certa vez Jason decidiu passar o dia caminhando sozinho pelo Parque Nacional de Redwood. Depois de um dia inteiro curtindo o contato com a natureza, quando começou a escurecer ele decidiu dormir para recobrar as forças. Procurou um bom lugar para arrumar suas coisas e encontrou, quando já estava bem escuro, uma pequena clareira na floresta. O chão era de pedra, e parecia que havia alguns desenhos no piso, mas ele estava cansado demais para verificar o que era aquele local. Longe de qualquer preocupação, esticou seu "sleeping bag" e dormiu.

Jason acordou de manhã se sentindo desconfortável e um pouco perturbado. Quando ele se sentou, ainda sonolento, percebeu que estava coberto de teias de aranha. Assustado, ele deu um salto e começou a limpar sua roupa. Quando olhou para trás, levou um grande susto ao ver uma enorme lápide ao lado do seu "sleeping bag". Sem perceber, Jason havia dormido sobre o túmulo de alguém.

O choque foi muito grande. Jason, aquele garoto livre e sem responsabilidades, entendeu que aquele era um sinal de que estava vivendo uma vida sem sentido. Decidiu que a partir daquele dia ele mudaria. Começou a se esforçar mais nos estudos, decidiu frequentar as aulas de Torá em uma sinagoga e pediu para que as pessoas o chamassem pelo seu nome em hebraico, Yaacov. Em pouco tempo Yaacov havia se tornado um Baal Teshuvá (pessoa afastada do judaísmo que se reconecta à Torá e às Mitzvót). Quando as pessoas questionavam os motivos de sua mudança tão repentina, ele contava, dando risada:

- Na verdade foi como um novo nascimento. Eu deitei em um túmulo como Jason, e acordei para a vida como Yaacov" (História Real, retirada do livro "Major Impact!", de autoria de Dovid Kaplan. 
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Nesta semana começamos o terceiro livro da Torá, Vayikrá, que descreve principalmente os serviços realizados pelos Cohanim (sacerdotes) no Mishkan (Templo Móvel). E a Parashá desta semana, Vayikrá, começa justamente falando sobre um dos principais serviços feitos pelos Cohanim: a oferenda de Korbanót (sacrifícios), como está escrito: "Quando um 'Adam' (pessoa) entre vocês trouxer um Korban para D'us (Vayikrá 1:2). Mas algo nos chama a atenção neste versículo, pois normalmente a Torá utiliza a expressão "Ish" para descrever uma pessoa, e não a expressão "Adam". Então por que justamente neste versículo a Torá utilizou a linguagem "Adam"?

Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que este versículo está fazendo uma alusão a Adam Harishon (Adão), o primeiro homem criado por D'us. Qual a conexão entre os Korbanót oferecidos no Mishkan e Adam Harishon? Da mesma maneira que não havia como Adam Harishon trazer um Korban que fosse roubado, pois tudo pertencia a ele, então também aprendemos que é proibido oferecer para D'us um Korban roubado.

Mas este ensinamento do Midrash é difícil de ser entendido. Existem muitas Mitzvót da Torá que não têm nenhuma validade caso sejam feitas com objetos roubados. Por exemplo, a Mitzvá das 4 espécies de Sucót só pode ser cumprida se a pessoa adquiriu para si as 4 espécies, mas a Mitzvá não é válida caso a pessoa as tenha roubado, pois a Torá afirma: "E pegarão para vocês no primeiro dia" (Vayikrá 23:40). Como a Torá enfatiza "para vocês", nossos sábios aprendem que para a Mitzvá ser válida, as 4 espécies devem pertencer à pessoa. Portanto, vemos que a Torá tem formas diretas de invalidar o uso de objetos roubados no cumprimento de uma Mitzvá. Então por que em relação aos Korbanót foi necessário fazer uma conexão indireta com Adam Harishon para nos ensinar a proibição de oferecer um Korban roubado?

Outro questionamento vem de um ensinamento do Talmud (Baba Metzia 114b), que afirma que a palavra "Adam" se refere especificamente ao povo judeu e não aos outros povos do mundo. Então por que este termo é utilizado em relação à oferenda de Korbanót, se havia Korbanót que podiam ser oferecidos também pelos outros povos, como os Korbanót de "Olá" (elevação) voluntários?

Além disso, o Talmud Yerushalmi (Shekalim 1:4) aprende da palavra "Adam" que este versículo da Parashá se aplica também àqueles que se converteram ao judaísmo. Mas por que nós precisaríamos de um versículo para incluir os convertidos na Mitzvá de oferecer Korbanót, se a Torá nos ensina que mesmo os não judeus já estavam incluídos nesta Mitzvá?

E finalmente o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) nos ensina que o posicionamento do Mizbeach (altar de sacrifícios) do Beit Hamikdash de Jerusalém precisou ser feito de forma muito meticulosa, pois ele deveria ficar no exato local onde Noach (Noé), Cain e Hevel (Cain e Abel) e Adam Harishon haviam oferecido seus Korbanót para D'us. O Rambam conclui afirmando que foi daquele exato local que D'us retirou a terra utilizada para criar Adam Harishon. Por que o Mizbeach precisava ficar exatamente no local da criação de Adam? Para que o homem recebesse expiação dos seus pecados exatamente no mesmo lugar em que havia sido criado. Porém, qual é a conexão entre a expiação de uma transgressão e o local onde o ser humano foi criado?

Explica o Rav Yohanan Zweig que, ao fazer com que o local da expiação dos pecados através do oferecimento de Korbanót fosse exatamente o mesmo lugar da criação do ser humano, D'us estava dando ao homem a capacidade de se "recriar" toda vez que ele oferecia um Korban. O Korban era a representação simbólica do próprio dono do animal, e por isso não podia ser algo roubado, deveria ser um animal de sua propriedade. Quando a pessoa trazia um Korban, ela estava declarando sua vontade de se reconectar a D'us e voltar ao ponto no qual o relacionamento ainda não havia sido manchado pela transgressão, como se ela estivesse se recriando. É por isso que nos Korbanót a Torá utiliza a linguagem "Adam", pois aquele que oferece o Korban demonstra que gostaria de voltar ao ponto da criação de Adam Harishon, antes do seu pecado, no qual ele ainda estava completamente puro.

Apesar de todos os povos também terem a permissão de oferecer Korbanót "Olá" para D'us, entretanto os Korbanót deles não têm a mesma função dos Korbanót do povo judeu. Os Korbanót dos outros povos eram uma forma de pagamento de uma dívida ou uma demonstração de gratidão, mas não serviam como uma forma de recriação do ser humano, pois esta função dos Korbanót estava reservada apenas ao povo judeu. É por isso que a Torá precisou "gastar" este versículo também para incluir os convertidos, para nos ensinar que, ao se unir ao povo judeu, os convertidos também recebiam esta capacidade de se recriar através da oferenda de Korbanót.

Realmente havia várias maneiras diretas de a Torá ter invalidado a utilização de um animal roubado como Korban, mas a Torá escolheu ensinar esta lição através da conexão com Adam Harishon para nos transmitir o conceito de que a criação do ser humano foi no exato local onde ocorre sua expiação espiritual, ressaltando o potencial dos Korbanót de nos recriar, de nos dar a chance de um recomeço, de refazer nossa conexão com D'us mesmo após termos transgredido contra Ele.

Cada vez que cometemos uma transgressão, manchamos nossas almas e nos desconectamos de D'us. O Korban não consistia apenas em oferecer um animal para ser sacrificado após uma transgressão. A parte mais importante era o arrependimento pelo erro cometido e a vontade de não voltar a transgredir. Apesar de não termos mais a oportunidade de oferecer Korbanót por nossos erros, ainda nos restou a possibilidade de nos recriar através da Teshuvá (retorno aos caminhos corretos). O povo judeu vive um milagre de renascimento, com milhares de judeus, no mundo inteiro, voltando às suas raízes espirituais após um terrível período de assimilação. Judeus completamente afastados praticamente renasceram e se recriaram. Famílias inteiras, completamente afastadas do cumprimento de Mitzvót, voltam lentamente aos caminhos da Torá. Jovens que viviam sem nenhum propósito se reconectam e decidem frequentar aulas de Torá. É uma verdadeira "ressurreição dos mortos" que ocorre dentro do povo judeu, um movimento de Teshuvá que já mudou a vida de milhares de pessoas no mundo inteiro.

A linguagem "Korban" vem da mesma raiz de "Karov", que significa "estar próximo". Não podemos por enquanto oferecer Korbanót para D'us, mas podemos nos recriar e querer voltar, com todo nosso coração, ao mesmo nível de Adam Harishon antes de seu pecado, no qual sua conexão com D'us era completamente limpa e perfeita. E como ensina o Talmud (Shabat 104a): "Todo aquele que quer se purificar recebe uma ajuda especial dos Céus". Se quisermos de verdade nos reaproximar de D'us, certamente teremos uma enorme ajuda espiritual em nossos caminhos de crescimento, pois D'us é um Pai Misericordioso que espera ansiosamente o momento em que Seus filhos decidirão voltar para casa.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
LEVÍTICO l:1-6:7, Is. 43:21-44:23

sexta-feira, 13 de março de 2015

INFLUÊNCIA DOS NOSSOS ATOS - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5775

 
"Yaacov era um homem de bom coração, sempre que podia ajudava os outros. Certo dia ele caminhava com alguns amigos por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. Yaacov teve misericórdia e não pensou duas vezes, correu pela margem do rio, entrou na água e pegou o escorpião na mão para salvá-lo. Porém, quando o trazia para fora, o escorpião picou sua mão. Devido à dor, Yaacov deixou o escorpião cair novamente no rio, e ele foi arrastado novamente pelas águas. Mas Yaacov não desistiu, ele foi até a margem, pegou um galho de árvore caído, alcançou novamente o  escorpião e o salvou, mas desta vez sem encostar a mão no bicho. Os amigos, que haviam assistido a cena, ficaram perplexos e disseram:

- Yaacov, deve estar doendo muito. Por que você foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse, seria um a menos! Veja como ele retribuiu a sua ajuda, picando a mão que o havia salvado! Este bicho não merecia sua misericórdia.

Yaacov, sem demonstrar nenhum tipo de arrependimento, respondeu:

- O escorpião me picou porque agiu conforme a sua natureza, e eu o salvei pois agi de acordo com a minha natureza".

De acordo com os nossos atos nós moldamos a nossa natureza e o nosso coração. Bons atos repetidos continuamente resultam em um bom coração, enquanto maus atos repetidos continuamente resultam em um mau coração. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Vayakel e Pekudei, que descrevem respectivamente as atividades de construção do Mishkan e a prestação de contas que Moshé fez dos materiais doados para a construção o Mishkan. A Parashá Vayakel também descreve o momento em que as pessoas escolhidas para construir o Mishkan terminaram seu serviço: "E eles trouxeram o Mishkan para Moshé: a Tenda e todos os seus utensílios..." (Shemot 39:33). Por que o Mishkan foi levado até Moshé, e já não foi montado pelos próprios construtores?

Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que quando Moshé anunciou ao povo que todos poderiam participar na construção do Mishkan através da doação dos materiais, eles se alegraram muito e doaram com entusiasmo e agilidade, atingindo a meta em apenas dois dias. Depois que os trabalhos foram concluídos, o povo inteiro ficou muito ansioso, esperando pelo momento em que a "Shechiná" (Presença de D'us) repousaria entre eles. Os sábios construtores tentaram montar o Mishkan, mas ele não conseguia se manter de pé e caía. Por que eles não conseguiam montar o Mishkan, se D'us havia dado a eles a sabedoria necessária para construir cada parte do Mishkan e cada um dos seus utensílios?

Continua o Midrash e explica que Moshé estava sofrendo muito por não ter participado ativamente na construção do Mishkan. D'us viu o sofrimento de Moshé e disse para ele: "Como você está sofrendo por não ter participado da construção do Mishkan, então Eu não deixarei que os homens sábios que construíram o Mishkan consigam montá-lo sem você, para que todo o povo judeu saiba que somente através de você o Mishkan pode ser montado". É por isso que o versículo enfatiza que o Mishkan foi levado até Moshé, pois ele foi o único que realmente conseguiu montá-lo.

Mas desta explicação surge uma grande pergunta, pois o Midrash afirma que Moshé estava muito triste por não ter participado da construção do Mishkan. Porém, há outro Midrash que afirma que Moshé estava muito presente durante toda a construção do Mishkan e teve uma participação fundamental, pois ele circulava o tempo inteiro entre os profissionais que estavam construindo o Mishkan para ensiná-los como fazer cada parte e cada utensílio com perfeição, sem nenhum erro. Moshé foi tão zeloso e tão minucioso em construir o Mishkan exatamente da maneira como D'us havia ensinado que diversas vezes a Torá repete que os objetos foram feitos "conforme D'us ordenou a Moshé".

Além disso, está escrito na Torá: "E foi no dia em que Moshé terminou de construir o Mishkan" (Bamidbar 7:1). Rashi questiona por que está escrito que foi Moshé quem construiu o Mishkan, como se ele tivesse o mérito de ter construído o Mishkan sozinho, ao invés de atribuir o mérito a Betzalel, Ahaliav e os outros tantos homens sábios que haviam se voluntariado para fazer as atividades construtivas do Mishkan? Ele responde que Moshé se entregou completamente à tarefa de construir o Mishkan, checando uma por uma todas as formas de todos os utensílios e partes do Mishkan e ensinando a cada construtor todos os minuciosos detalhes conforme D'us havia mostrado para ele no Monte Sinai. E o empenho de Moshé teve frutos, pois nenhum formato continha nenhum erro, tudo saiu exatamente como D'us havia mostrado. A dedicação de Moshé foi tanta que ele meritou um versículo que atribui a ele sozinho a construção de todo o Mishkan. quem estabeleceu o Mishkan, e nbçstruçatamente da maneira como D'turesençade  Então por que ele se entristeceu por não ter "colocado a mão na massa", se sua participação na construção havia sido tão fundamental? O que faltava para Moshé?

Responde o Rav Bentzion Bamberg zt"l (Alemanha, 1920 - Israel, 1981) que da tristeza de Moshé aprendemos qual é a importância de fazer bons atos na prática. Apesar de toda a sua dedicação e sua participação "intelectual" no Mishkan, Moshé estava triste por não ter participado diretamente na construção física do Mishkan, isto é, por não ter colocado a mão na massa, com atos físicos de construção. Mas o que teria mudado se ele tivesse feito algum ato na prática? Por que não foi suficiente sua participação "intelectual"?

Um dos motivos pelos quais D'us nos ordenou Mitzvót que necessitam da utilização de objetos e partes do nosso corpo, como colocar Tefilin no braço e na cabeça ou segurar os Arba Minim em Sucót, é para que as Mitzvót possam ser internalizadas, através dos atos, em nossos corações. O ser humano não consegue, apenas através de seu intelecto, canalizar seus desejos e mudar características que estão naturalizadas. Cada ato externo que fazemos funciona como um contrapeso para as tendências naturais do nosso corpo, como ensinam os nossos sábios: "Atrás dos nossos atos é levado o nosso coração". Por isso muitas Mitzvót envolvem atos físicos, para poderem nos ajudar no processo de purificação e elevação espiritual.

Há uma Mitzvá interessante que demonstra o quanto este conceito é verdadeiro. Em relação ao Korban Pessach (sacrifício de Pessach), há uma proibição na Torá de quebrar qualquer osso do Korban. Qual é o motivo desta Mitzvá? Ensina o Sefer HaChinuch (Mitzvá 16) que quebrar os ossos é a forma como os animais e as pessoas pobres e famintas comiam. Mas como o povo judeu foi tirado do Egito para se tornar uma luz para as nações do mundo, um povo sagrado e elevado, não era apropriado que eles se comportassem com atos que não condiziam com o seu novo status, pois os atos que uma pessoa faz ficam gravados em sua alma para sempre. O coração e os pensamentos de uma pessoa sempre vão atrás de seus atos, tanto para o bem quanto para o mal.

O Sefer HaChinuch revela algo ainda mais impressionante: mesmo um Rashá Gamur (pessoa completamente má), se ele começar a fazer constantemente bons atos, como estudar Torá, cumprir Mitzvót e fazer atos de caridade, mesmo que não seja com as intenções corretas, sua natureza finalmente penderá para o lado positivo, pois cada ato externo influencia seu interior. E assim nos ensina o Talmud (Makot 23b): "D'us quis trazer méritos ao povo judeu, por isso multiplicou para eles a Torá e as Mitzvót". Como há muitas Mitzvót na Torá, praticamente o dia inteiro estamos nos ocupando com elas. Quando acordamos, quando nos vestimos, quando nos alimentamos, e até mesmo quando vamos ao banheiro. A repetição constante de Mitzvót nos torna, a cada instante, pessoas melhores. O mesmo conceito é ensinado em outro Tratado do Talmud (Menachót 43b): "Aquele que tem Tefilin no braço e em sua cabeça, fios de Tsitsit em sua roupa e uma Mezuzá em sua porta, é garantido que não vai cometer transgressões". Por que justamente estas Mitzvót? Pois são Mitzvót constantes, que cumprimos o tempo inteiro, e por isso elas vão purificando nosso coração e nos afastando das transgressões.

Desta Parashá aprendemos o quanto devemos ter cuidado com nossos atos, pois atrás dos nossos ato
s será levado o nosso coração. Moshé sofreu por não ter colocado a mão na massa na construção do Mishkan, pois sabia o quanto cada bom ato que fazemos nos influencia para o bem e purifica nossos corações e pensamentos. Mesmo Mitzvót pequenas e bons atos aparentemente sem importância contribuem para o nosso crescimento constante. Por isso devemos procurar o tempo inteiro oportunidades de cumprir Mitzvót e fazer bons atos, mesmo que em um primeiro momento não façamos com as intenções mais puras e elevadas, pois a repetição de bons atos faz com que nos elevemos e consigamos, em algum momento, atingir também as intenções puras e elevadas, como afirmam os nossos sábios: "Através da repetição de bons atos, mesmo que em um primeiro momento sejam sem intenções puras, virão atos com as intenções mais puras e elevadas".

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 35:1-38:20
Ex. 38:21-40:38

sexta-feira, 6 de março de 2015

NÃO SE ENGANE - PARASHÁ KI TISSÁ 5775

 
"As filas na porta da casa do Rav Simcha Bunim Alter (Israel, 1898 - 1992), mais conhecido como Gerer Rebe, normalmente eram muito longas. Ele era muito querido, e por isso multidões iam diariamente à sua casa, para pedir uma Brachá (Benção) ou simplesmente para vê-lo. Certo dia a fila estava especialmente longa e as pessoas começaram a ficar impacientes. No desespero, um homem começou a empurrar os outros para forçar sua entrada na casa do Rebe, mas o Gabai (pessoa responsável pelo controle de entrada das pessoas nas casas de grandes rabinos) o empurrou de volta. O homem, muito irritado, protestou em voz alta, e o Gabai, não aguentando aquele desaforo, lhe deu um sonoro tapa na cara. Ao ver aquela cena, todos na fila ficaram em silêncio e pararam de reclamar e empurrar. O Gabai ficou feliz, imaginando que o Rebe ficaria orgulhoso ao saber de sua atitude, que havia colocado ordem na casa.

Mais tarde, naquele mesmo dia, um grupo de homens estava reunido na sala do Rebe para Minchá (reza da tarde). Apesar de já haver dez homens, o Gabai estranhou que o Rebe não autorizava o início da reza, como se ainda estivesse esperando alguém para completar o Minian. O Gabai perguntou se podia começar a reza, mas o Rebe, com sofrimento no olhar, respondeu:

- Eu sinto muito, mas nós não podemos começar ainda, pois falta uma pessoa para o Minian. Apesar de termos 10 homens aqui na sala, você não pode ser contado como parte do Minian, pois a Halachá diz que alguém que bate em seu companheiro é desqualificado para fazer parte de um Minian..."

O Gabai pensou que havia feito uma grande Mitzvá, mas descobriu, de forma amarga, que na realidade havia feito uma grave transgressão. Precisamos tomar cuidado com cada ato que fazemos, para não nos enganarmos e cometermos transgressões achando que estamos fazendo Mitzvót. 
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Nesta semana lemos a Parashá Ki Tissá, que descreve um dos erros do povo judeu mais difíceis de serem entendidos: a construção do Bezerro de Ouro. Como os judeus puderam fazer um erro tão grave como este, de construir uma estátua de ouro, apenas quarenta dias após D'us ter se revelado diante de todo o povo no Monte Sinai? Como abandonaram tão rapidamente Moshé, o líder que havia tirado o povo judeu do Egito, e criaram o Bezerro de Ouro como um novo intermediário?

Nossos sábios explicam como o erro começou. Moshé subiu no Monte Sinai para receber a Torá, e avisou que permaneceria no alto da montanha por 40 dias. Porém, houve um erro no cálculo de quando Moshé deveria retornar, e o povo esperou por ele um dia antes da data correta. Como Moshé não voltava, o povo se desesperou. O Talmud (Shabat 89a) se aprofunda um pouco mais e explica que o Yetser Hará (nossa má inclinação) tentou confundir os judeus com argumentos de que Moshé tinha morrido, mas não conseguia convencê-los. Então ele mostrou aos judeus uma imagem de Moshé morto, deitado em uma cama. Aquela imagem mostrada pelo Yetser Hará causou um enorme pânico no povo, que acreditou no que viu e passou a exigir de Aharon um novo intermediário, através do qual eles reestabeleceriam sua conexão com D'us.

Mas há algo nesta explicação do Talmud que nos chama a atenção: o método utilizado pelo Yetser Hará para confundir o povo judeu em relação à morte de Moshé. Mostrar falsas imagens não é a tática tradicionalmente utilizada pelo Yetser Hará para nos enganar. Normalmente ele causa em nós apenas a confusão de ideias, como tentou fazer em um primeiro momento com o povo judeu. Por que neste caso o Yetser Hará mudou sua forma de atuação e mostrou ao povo judeu uma imagem falsa?

Para entendermos a transgressão do Bezerro de Ouro, precisamos voltar ao primeiro erro da história da humanidade, o erro de Adam e Chavá (Adão e Eva), que comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, apesar de D'us ter proibido. Explica o Rav Chaim Vologziner (Lituânia, 1749 - 1821) que antes desta transgressão, Adam e Chavá não tinham Yetser Hará dentro deles. Porém, isto não quer dizer que eles não tinham livre arbítrio, pois eles também tinham um relacionamento com o mal, através do contato com a serpente que existia no Gan Éden. Mas a forma de contato com o mal era completamente diferente, pois o mal era algo externo, completamente fora deles. O objetivo do mal era persuadir Adam e Chavá a fazerem atos que fossem repugnantes ou logicamente errados, como convencer uma pessoa de que seria bom para ela pisar em uma fogueira acesa. De alguma maneira a serpente conseguiu convencê-los a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, causando consequências como convencer uma pessoa de que seria bom para ela pisar em uma fogueira acesa para eles e para todos os seus descendentes. Ao comer do fruto proibido, Adam e Chavá trouxeram aquele Yetser Hará, que antes era algo apenas externo, para dentro deles. A partir daquele momento eles se transformaram em seres cuja essência era uma combinação de bom e mal.

O resultado foi que eles e seus descendentes ficaram sujeitos à principal força do Yetser Hará: a confusão. Quando uma pessoa sabe que um ato é claramente errado, ele não o comete. Da mesma maneira que uma pessoa não coloca a mão no fogo pois sabe das consequências negativas deste ato, assim também as pessoas deveriam racionalmente se cuidar das transgressões por causa de todas as suas consequências negativas. Porém, a tática do Yetser Hará é convencer a pessoa de que aquele ato equivocado não é uma transgressão, ao contrário, é a coisa certa a se fazer. É por isso que o Talmud (Sotá 3a) nos ensina que uma pessoa somente comete uma transgressão quando entra nela um espírito de estupidez ou insanidade, isto é, quando ela perde completamente o senso de certo e errado, e faz o que é errado por estar plenamente convencido de que é realmente a coisa certa a se fazer.

O Talmud (Shabat 146a) explica que este novo status da humanidade continuou até a entrega da Torá no Monte Sinai, mas naquele momento o "veneno" engolido por Chavá foi completamente anulado. Os judeus conseguiram se elevar ao ponto de atingir o mesmo nível de Adam Harishon antes de seu pecado, alcançando novamente a imortalidade. Neste novo status, eles estavam tão elevados que não havia mais Yetser Hará dentro deles, e novamente o mal havia se tornado algo apenas externo. De acordo com este nível que eles atingiram, não havia mais sentido para o Yester Hará enganá-los com sua arma tradicional de confusão interna. A forma de persuasão precisou ser algo externo, da mesma maneira que a serpente fez com Chavá, e por isso o Yetser Hará apelou para a falsa imagem de Moshé morto em uma cama. Quando o povo judeu caiu na enganação do Yetser Hará, o "veneno" da transgressão de Adam e Chavá voltou para dentro do ser humano, permitindo ao Yetser Hará novamente causar em nós confusão interna.

Deste ensinamento podemos entender o nosso Yetser Hará e sua forma de atuação. Desde o momento em que o Yetser Hará entrou em nós e passou a fazer parte de nossa própria essência, vivemos com a difícil tarefa de discernir entre o bem o mal que há dentro de nós. A principal arma do Yetser Hará é nos convencer que a transgressão que estamos fazendo é algo permitido. Em alguns casos o Yetser Hará consegue nos convencer de que o erro é até mesmo uma Mitzvá. Isto pode acontecer até mesmo em transgressões graves, como o Lashon Hará (maledicência). Muitos denigrem outras pessoas com sua fala e se justificam dizendo que aquele tipo de comentário é permitido, ou que é permitido falar Lashon Hará daquela pessoa em particular. A pessoa que transgride não assume para si mesma que está falando Lashon Hará, ao contrário, ela racionaliza que está completamente coberta pela Halachá (Lei judaica) em suas palavras. Se oferecêssemos muito dinheiro para que uma pessoa que cumpre as Mitzvót da Torá falasse Lashon Hará, ela certamente recusaria, pois reconhece, intelectualmente, que nenhuma quantia de dinheiro vale a transgressão de uma única Mitzvá da Torá. Então como pode ser que esta mesma pessoa fala Lashon Hará muitas vezes durante o dia sem receber absolutamente nenhum ganho monetário? Pois ela engana a si mesma e se convence de que não está falando Lashon Hará.

Na prática, como podemos discernir entre o bem e o mal que há dentro de nós? Explica o Rav Yehonasan Gefen que uma das ferramentas mais importantes é o estudo da Torá e de todos os detalhes de suas Mitzvót. Se uma pessoa estuda diariamente as Halachót de Shmirat Halashon (cuidados com a fala), por exemplo, será muito mais difícil para ela racionalizar que o Lashon Hará que ela quer falar é permitido. Outra ferramenta fundamental é o estudo diário de Mussar (ética), que auxilia nossos passos de autoaprimoramento e nos ajuda a entender como o Yetser Hará funciona, para sabermos como lutar contra ele. E, por último, outra ferramenta essencial é o "Cheshbon Hanefesh" (reflexão sobre os nossos atos) diário. Normalmente o Yetser Hará nos ataca e nos engana nos momentos em que os desejos nos puxam em direção às transgressões. Na hora em que os desejos estão muito fortes, tudo parece permitido. Mas quando fazemos uma reflexão diária, nos momentos em que o Yetser Hará já não está nos atacando de maneira tão forte, este é o momento propício para enxergarmos que a "Mitzvá" que pensamos ter feito foi na verdade uma grande transgressão. O Cheshbon Hanefesh diário nos permite olhar para trás e racionalmente analisar a verdadeira natureza dos nossos atos.

A combinação destas três ferramentas, associado a um investimento de longo prazo, certamente nos colocará no caminho correto, o caminho que nos trará a clareza de ideias necessária para um real autoconhecimento. Somente assim conseguiremos discernir entre o bem e o mal que existe dentro de nós, para investirmos sempre no bem e anularmos, como no momento da entrega da Torá, o lado negativo que existe em nós.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 30:11-34:35, 1Rs. 18:1-39

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RECATO EM TODOS OS ATOS - PARASHÁ TETZAVÊ E PURIM 5775

"Um Gabai Tzedaká (pessoa que recolhe dinheiro para distribuir aos necessitados) foi certa vez até a casa de um homem muito rico para pedir dinheiro para sua organização, que distribuía comida de Shabat para famílias carentes. O homem rico, após ouvir a diferença que sua doação poderia fazer para muitas famílias necessitadas, ofereceu doar quinhentos dólares, mas com a condição que o Gabai revelasse o nome das pessoas para quem o dinheiro iria. O Gabai se desculpou, afirmando que a organização não divulgava a identidade das pessoas que eram ajudadas. O homem rico ainda tentou insistir, aumentando a oferta de doação para mil dólares, mas exigindo em troca saber quem estaria desfrutando do Shabat por causa de sua doação. Novamente o Gabai se desculpou e se negou a lhe dar este tipo de informação. O homem rico então se exaltou e falou em voz alta e firme:

- Escute, vou doar dez mil dólares para sua organização, mas com uma condição: eu tenho o direito de saber quem eu estou ajudando com o meu dinheiro!
- Nós nunca divulgamos e nunca divulgaremos as identidades das pessoas que nós ajudamos - respondeu o Gabai, sem perder a calma - Você pode me oferecer até mesmo um milhão de dólares, e ainda assim eu não vou revelar a você para quem o seu dinheiro está indo.

Ao escutar a resposta do Gabai, o homem rico baixou a voz e disse, quase sussurrando:

- Agora eu vejo que posso realmente confiar em você. Por favor, me coloque na sua lista de pessoas que necessitam ser ajudadas. Todos pensam que eu ainda sou rico, mas na realidade eu perdi todo o meu dinheiro no mercado de ações. Eu tinha vergonha de te procurar, pois não queria que as pessoas ficassem sabendo. Mas agora eu sei que vai ser realmente mantido em segredo..."

É muito importante desenvolver nossa sensibilidade com o próximo e controlar o que falamos, mesmo que a consequência seja perder oportunidades ou até mesmo dinheiro (História Real).
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Nesta semana lemos a Parashá Tetzavê, que descreve as roupas que os Cohanim (sacerdotes) e o Cohen Gadol (Sumo sacerdote) utilizavam durante os Serviços Divinos feitos no Mishkan (Templo Móvel). E na próxima 4ª feira de noite (04 de março) começa a festa de Purim, na qual relembramos a incrível salvação do povo judeu nos dias de Mordechai e Esther. Haman, descendente do povo de Amalek, o maior inimigo do povo judeu, havia decretado a "Solução Final" dos judeus da Pérsia, mas D'us, de forma oculta, nos salvou. Normalmente a festa de Purim coincide com a Parashá Tetzavê. Qual a conexão entre elas?
A Meguilat Esther, que conta a história de Purim, é composta por vários acontecimentos que isoladamente parecem irrelevantes, mas quando conectados demonstram que tudo estava sendo orquestrado de forma magistral por D'us. A história descreve o exílio do povo judeu na época do Rei Achashverosh, o governador do Império Persa. Após ser desacatado por sua esposa, a rainha Vashti, o Rei Achashverosh decidiu matá-la e coroar outra rainha em seu lugar. Centenas de jovens foram levadas ao palácio real para um concurso, e entre elas estava Esther, uma moça judia. Mas a Meguilá nos conta um detalhe interessante: Esther não quis revelar sua origem e seu povo. Por que ela guardou este segredo?

A resposta está em um pequeno detalhe da Parashá Tetzavê. Uma das oito roupas que o Cohen Gadol usava chamava-se "Choshen" (Peitoral), e era composta por engastes de ouro nos quais eram colocadas 12 pedras preciosas, onde cada pedra representava uma das tribos de Israel. Segundo o Midrash (parte da Torá Oral), a última pedra do "Choshen", chamada de "Yashpe" (jaspe), estava relacionada com a Tribo de Biniamin. O Midrash explica que o nome "Yashpe" é uma contração das palavras "Yesh" e "Pe", que literalmente significam "tem boca". Por que justamente esta pedra preciosa foi escolhida para representar a Tribo de Biniamin? Pois seu nome reflete um louvável traço de caráter demonstrado por Biniamin, um dos filhos de Yaacov. O Midrash nos conta que, apesar de Biniamin saber que seu irmão Yossef havia sido vendido como escravo por seus próprios irmãos, ele nunca revelou isto para seu pai. Portanto, ele foi louvado pelo seu silêncio.

Porém, este ensinamento do Midrash levanta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, se Biniamin estava sendo louvado pelo seu silêncio, por que a pedra preciosa que o representava era chamada de "Yashpe", que significa "tem boca"? Não seria mais apropriado o nome da pedra ser "Einpe", que significa "não tem boca"? E que bom traço de caráter Biniamin demonstrou através do seu silêncio?

Explica o Rav Yochanan Zweig que para entender qual é o bom traço de caráter de Biniamin precisamos observar o comportamento de sua mãe, Rachel, quando ela estava em um momento de enorme pressão. O Talmud (Meguilá 13b) nos ensina que quando Yaacov decidiu casar-se com Rachel, ele suspeitou que seu sogro Lavan utilizaria todos os tipos de artimanhas e malandragens para  substituir Rachel por sua irmã Lea. Como medida preventiva, Yaacov deu a Rachel uma senha secreta que a identificaria na noite do casamento. Mas ao levar em consideração a humilhação pública que sua irmã passaria, Rachel revelou para Lea a senha secreta, permitindo que a enganação de Lavan tivesse sucesso. O Talmud identifica o comportamento de Rachel como um exemplo de "Tzniut" (recato), e afirma que por causa desta "Tzniut" ela meritou grandes descendentes que também demonstraram atos exemplares de "Tzniut". O Talmud cita como exemplo a rainha Esther, que demonstrou sua "Tzniut" ao não revelar sua origem e seu povo durante o concurso de escolha da nova rainha. Mas o que o ato de Rachel, e principalmente o de Esther, tem a ver com "Tzniut"?

Normalmente "Tzniut" é definido como sendo um "código de recato", que determina a forma de como vamos nos vestir e nos comportar. Olhamos a "Tzniut" como uma obrigação apenas na área de "Bein Adam LaMakom" (entre a pessoa e D'us). Porém, o Talmud está aumentando a abrangência do conceito de "Tzniut", incluindo na exigência de recato também obrigações na área de "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante), isto é, dando à "Tzniut" uma responsabilidade social.

As leis de "Tzniut" exigem que a pessoa viva de uma maneira que ela não invada o espaço dos outros. Nossas ações devem ser medidas em termos de como elas vão impactar os outros, e isto deve levar em consideração a sensibilidade de cada um. A maneira de se vestir exigida pela Halachá (Lei judaica) não é ditada apenas por quanto do nosso corpo deve estar coberto, mas também leva em conta a consciência social de que se vestir de uma maneira provocativa pode ser um ataque à sensibilidade dos outros. Roupas que atendem às especificações "Haláchicas" em termos do comprimento das peças ainda assim podem transgredir as leis de "Tzniut" se forem roupas que chamam muita atenção.

Mas permanecer dentro do nosso próprio espaço e não invadir o espaço dos outros não se aplica apenas ao vestuário. A fala é uma área na qual temos muita dificuldade para levar em consideração a sensibilidade dos outros. Frequentemente nós falamos por causa do benefício que teremos com o que estamos dizendo, mas não percebemos que podemos estar causando danos aos outros com o conteúdo, o volume de voz e o quanto nos alongamos nas nossas conversas.

Todos os exemplos de "Tzniut" atribuídos à nossa matriarca Rachel e seus descendentes envolvem o domínio sobre as palavras pronunciadas. No caso de Rachel, foi ressaltado o fato de ela ter conseguido o discernimento do tempo correto para divulgar informações importantes. Em relação aos seus descendentes, foram ressaltadas suas habilidades de se abster de revelar informações, mesmo envolvendo custos pessoais. De acordo com o Rav Yochanan Zweig, o motivo de Esther não ter revelado sua origem foi porque ela tinha uma ascendência real, era descendente direta de Shaul Hamelech, o primeiro rei de Israel. Ela entendeu que revelar esta informação colocaria as outras participantes do concurso em desvantagem, e por isso ficou quieta. Assim Esther demonstrou que havia herdado de Rachel as características de "Tzniut", isto é, a sensibilidade com o próximo mesmo quando isto envolve uma perda pessoal.

E onde vemos a "Tzniut" de Biniamin? Uma pessoa que passou por uma experiência terrivelmente traumática frequentemente é incapaz de falar abertamente sobre o tema, pelo medo que, ao trazer novamente o assunto à tona, isto causará com que a experiência negativa seja reavivada. Uma das formas de superar este medo é conversando com uma pessoa que se preocupa com ela, pois isso ajuda a aliviar um pouco o peso do trauma. Biniamin certamente passou por uma experiência tremendamente traumática quando seu único irmão materno, Yossef, foi vendido como escravo por seus irmãos paternos. Foi uma perda irreparável para Biniamin, e o único com quem ele poderia dividir seus sentimentos era seu pai. Mesmo assim, o Midrash nos ensina que ele se conteve e não falou nada para seu pai.

Ao atibuir a "Yashpe" como a pedra preciosa que representa Biniamin, a Torá está atestando que o motivo pelo qual Biniamin não contou ao seu pai sobre o destino verdadeiro do seu irmão não foi o resultado de sua inabilidade de lidar com o seu trauma. Ao contrário, a Torá ressalta que "Yesh pe", "tem boca", isto é, Biniamim tinha todas as condições psicológicas de lidar com seu trauma e contar tudo o que sabia para o seu pai. Embora ele certamente obteria um enorme benefício emocional ao desabafar com seu pai, a consciência da dor que seu pai sentiria quando ficasse claro para ele o terrível ato de seus filhos fez com que Biniamin decidisse permanecer calado. Esta sensibilidade aguçada de proteger os outros da dor, mesmo que o preço seja um sacrifício pessoal, deriva da perfeição do traço de caráter de "Tzniut" que Biniamin herdou de sua mãe.

Da Parashá aprendemos que tão importante quanto a "Tzniut" das nossas roupas é a "Tzniut" das nossas bocas. Precisamos nos cuidar muito com o que falamos, como falamos e porque falamos, para que nossas palavras não sejam piores do que o nosso silêncio.

SHABAT SHALOM e PURIM SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
 http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 27:20-30:10, Ez.43:10-27
 
 
 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

TZEDAKÁ NUNCA É DEMAIS - PARASHÁ TERUMÁ 5775

"O Rav Yoel Teitelbaum zt"l (Império Austro-Húngaro, 1887 - EUA, 1979), mais conhecido como Satmer Rebe, foi um dos maiores "Gabaim Tzedaká" (pessoa que recolhe fundos para distribuir aos necessitados) de sua geração. Todo o dinheiro que chegava às suas mãos, milhares de dólares todos os meses, era imediatamente distribuído entre os pobres e necessitados.

Certa vez chegou ao Rebe de Satmer um homem muito pobre, que começou a se queixar das adversidades e dificuldades pelas quais passava na vida. Comentou que havia perdido precocemente sua esposa, e ela havia deixado vários órfãos sob seus cuidados. Disse também que era manco de uma perna, o que causava muita dificuldade para conseguir um bom emprego. Falou ainda que não tinha nem mesmo condições para comprar comida para alimentar seus filhos pequenos. Após desabafar por alguns minutos, com os olhos cheios de lágrimas, o homem estendeu a mão ao Rebe de Satmer para receber algum dinheiro. Como de costume, o Rebe de Satmer ficou muito sensibilizado e deu àquele homem uma boa quantia de dinheiro. Ele se despediu do pobre com muitas Brachót, desejando que sua situação melhorasse. O homem pobre agradeceu e saiu de lá mancando.

Após alguns minutos entrou na sala do Rebe de Satmer o zelador da sinagoga. Como ele estava aflito e visivelmente alterado, o Rebe percebeu que havia algo errado. O homem, quase sem fôlego, começou a falar:

- Rebe, sabe aquele homem que saiu daqui há alguns minutos, dizendo que era manco? Ele é um mentiroso! Eu o vi saindo da sinagoga mancando, mas quando ele virou a esquina, apoiou o pé no chão e começou a andar normalmente! Além disso, ele disse que era viúvo, mas sua esposa o estava esperando na esquina. Rebe, tudo o que ele contou é mentira!!!

O zelador da sinagoga viu que o Rebe ficou agitado com o que escutou. Ele achou que o Rebe o mandaria correr atrás daquele homem para recuperar o dinheiro, já que tratava-se de um impostor. Mas, para sua surpresa, o Rebe deu um grande suspiro e disse:

- Uau, que enorme alegria você me deu com esta notícia. Baruch Hashem que este homem não é manco, que ele não é viúvo, e que não existem as dificuldades que ele contou…"

Quando damos Tzedaká (caridade) para uma pessoa necessitada, o principal que devemos usar não é a carteira, e sim o coração. 
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Na Parashá desta semana, Terumá, a Torá começa a descrever a construção do Mishkan (Templo Móvel), o lugar onde residia a Presença Divina. O Mishkan também era o local onde eram feitos vários Serviços Divinos, como a oferenda de Korbanót (sacrifícios), a oferenda de incensos e o acendimento da Menorá. Para estes Serviços Divinos foram construídos, junto com a estrutura do Mishkan, vários utensílios, tais como o altar de sacrifícios, o altar de incensos e a Menorá, feitos de ouro puro ou de outros materiais nobres. De onde saíram estes materiais nobres utilizados na construção do Mishkan e de seus utensílios?

A resposta está nas primeiras palavras da Parashá: "Fale com os Filhos de Israel e peguem para mim uma doação" (Shemot 25:2). Todos os materiais para a construção do Mishkan e seus utensílios foram doados pelo povo, e cada um doou de acordo com sua vontade. Estes materiais nobres vieram dos objetos preciosos que os judeus pegaram dos egípcios quando estavam saindo do Egito. Nossos sábios ressaltam que há algo interessante na palavra "Terumá" (תרומה), que significa "doação". As mesmas letras desta palavra, rearranjadas, formam a palavra "Hamotar" (המותר), que significa "o excesso". Qual a relação entre doações e excessos?

Explica o Rav Ytzchak Zilberstain shlita que quando D'us nos julga, Ele utiliza duas medidas: Din (Julgamento) e Cheshbon (Cálculos). Din é o julgamento que leva em consideração somente o ato no momento em que a pessoa o cometeu, enquanto Cheshbon é o julgamento que também leva em consideração os atos da pessoa em outros momentos. Por exemplo, quando alguém com necessidades financeiras pede ajuda a uma pessoa e ela se nega a ajudar, argumentando que não tem condições financeiras, neste momento esta pessoa é julgada por D'us por sua omissão. Como o Din julga a pessoa apenas naquele momento, isto dá para ela o benefício da dúvida e é levada em consideração a possibilidade da pessoa realmente não ter condições de ajudar por estar "apertada". Mas este julgamento não é encerrado imediatamente, ele fica suspenso, até que na semana seguinte esta mesma pessoa passa o dia inteiro no shopping, "torrando" dinheiro em coisas completamente supérfluas. Neste momento entra o Cheshbon, e a pessoa passa a ser duramente questionada: por que ela não foi comedida nos seus gastos do shopping da mesma maneira que foi comedida nos seus gastos de doação aos necessitados? Onde foi parar a dificuldade financeira que não a deixava ajudar os pobres? O Cheshbon prova que, na verdade, a "falta de dinheiro" era apenas uma desculpa egoísta para não ajudar alguém com necessidades.

Este conceito ajuda a responder nossa pergunta. Quando D'us encontra na casa de uma pessoa certos excessos, esta pessoa é imediatamente colocada em um grande teste. Pelos móveis caros da casa, é perceptível que o dono não se importa em gastar dinheiro e está disposto a esbanjar, sem peso na consciência, altas quantias em coisas completamente desnecessárias e luxos apenas ostensivos. Isto é considerado "excesso", pois a pessoa não necessita realmente de grande parte das coisas que compra. Então D'us fica aguardando o momento em que um pobre ou alguém recolhendo dinheiro para alguma causa importante for bater na porta daquela pessoa. Neste momento, no qual a pessoa tem a possibilidade de gastar seu dinheiro fazendo uma doação, D'us observa se a quantia doada será proporcional aos gastos com as coisas supérfluas da casa. Será que a mesma característica de ser "mão aberta" demonstrado na compra daquele magnífico sofá na loja mais cara da cidade se repetirá quando o assunto em questão for os gastos com Mitzvót?

Portanto, esta é a relação entre "doação" e "excesso". Enquanto para os nossos luxos pessoais, nosso "excessos", não medimos gastos, será que o mesmo acontece em relação à nossa ajuda aos necessitados? Nosso Ipad precisa ser o mais moderno e o nosso Iphone precisa ser o mais atual, mas será que nossos gastos com Tzedaká também são assim tão "caprichados"? Achamos que testes são apenas as dificuldades e os desafios pelos quais passamos, mas na verdade todas as coisas boas que D'us nos dá também são testes. Por exemplo, quando Ele nos dá dinheiro em abundância, Ele está testando se utilizaremos a Brachá (benção) que recebemos para também beneficiar pessoas menos favorecidas ou se utilizaremos de forma egoísta o que Ele nos presenteou. Por isso nossos sábios nos advertem que o teste da abundância é ainda mais difícil do que o teste da escassez.

Porém, se por um lado vimos que há uma enorme cobrança se tivermos a possibilidade e não dermos Tzedaká aos necessitados, por outro lado nossos sábios ressaltam os enormes benefícios recebidos por aqueles que dão Tzedaká e ajudam a sustentar os pobres e necessitados. Quando cumprimos qualquer Mitzvá da Torá, os méritos adquiridos ficam guardados para o Olam Habá (Mundo Vindouro), mas neste mundo não recebemos nenhum tipo de recompensa, como afirma o Talmud (Kidushin 39b) "Não há recompensa pelas Mitzvót neste mundo". Outra fonte do Talmud (Eruvin 22a) também afirma: "Hoje (no Mundo Material) é para cumpri-las (as Mitzvót), e amanhã (no Mundo Vindouro) é para receber suas recompensas". Mas em relação à Mitzvá de Tzedaká o Talmud (Taanit 9a) afirma: "Doe seu dízimo (aos pobres e necessitados) para que você possa enriquecer". Isto quer dizer que, diferente do que ocorre nas outras Mitzvót, aquele que dá Tzedaká já recebe uma recompensa neste mundo, sem perder o que está guardado para ele no Mundo Vindouro.

A palavra "Tzedaká" normalmente é traduzida como "caridade", mas a tradução correta é "justiça". Significa que, quando uma pessoa que recebeu de D'us muitos bens ajuda alguém em piores condições, ela não está fazendo uma bondade, e sim um ato de justiça. Afinal, para que D'us deu para ela tanto dinheiro, para que ela gastasse de forma egoísta com excessos ou para que utilizasse para transformar este mundo em um lugar melhor? É indiscutível que o mundo material nos dá muitos prazeres, mas certamente não há prazer e alegria maior do que saber que fizemos a diferença na vida de alguém que precisava de ajuda.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Ex. 25:1-27:19, 1 Rs. 5:12 -6:13