sábado, 1 de novembro de 2014

TORCIDA CONTRA - PARASHÁ LECH LECHÁ 5775

"Certa vez organizaram uma corrida de sapinhos, cujo objetivo era atingir o alto de uma grande torre. Havia no local uma multidão assistindo, vibrando e torcendo pelos sapos. Quando começou a competição, todos perceberam que seria muito difícil alcançar o alto da torre, pois era uma enorme subida. Os torcedores, ao invés de incentivar, começaram a dizer em voz alta: "Que pena, acho que eles não vão conseguir". Infelizmente os sapinhos iam vendo o quanto era difícil chegar lá em cima e começavam a desistir, um por um.

Havia um grupo que ainda persistia e continuava subindo, tentando alcançar o topo. Mas a multidão continuava gritando: "Uau, é muito difícil. Que pena que eles não vão conseguir". E mesmo neste grupo de sapinhos mais fortes muitos começaram a desistir.

Porém, havia um sapinho que, apesar da "torcida contra", continuava firme em sua subida. Embora cansado, ele não desistia. Mesmo que todos gritavam "ele não vai conseguir", ele juntava forças e, quando parecia impossível, conseguia vencer mais uma etapa. Assim, aos poucos, com perseverança, ele foi superando as dificuldades até que conseguiu completar a corrida. Ele havia alcançado o topo, havia chegado ao seu objetivo. Todos os outros sapos haviam desistido, menos ele.

Perguntaram aos outros sapos porque eles haviam desistido, e eles responderam que ao escutar a multidão gritando "eles não vão conseguir", acabavam desanimando até desistir. A curiosidade tomou conta de todos. Queriam  saber o que tinha acontecido como aquele sapo que havia vencido. Como ele havia superado as dificuldades? Como havia vencido o "ele não vai conseguir" da multidão? Quando foram perguntar ao sapinho, descobriram que  ele era surdo..."

Muitas vezes na vida decidimos crescer espiritualmente, alcançar níveis mais altos, mas às vezes as pessoas em volta nos desanimam e nos desencorajam. Precisamos ter a força de vencer nossas "dificuldades sociais" e aprender a ignorar aqueles que nos empurram para baixo, não deixando que eles abalem nosso crescimento.

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Nesta semana lemos a Parashá Lech Lechá, que começa a descrever alguns dos 10 grandes testes pelos quais Avraham Avinu passou durante sua vida. O primeiro teste que a Parashá traz é o de "Lech Lechá" (literalmente "vá para você"), quando D'us ordenou a Avraham abandonar sua casa, sua família e seus amigos e ir para uma terra estranha e incerta, sem saber que dificuldades o esperariam.

Porém, de acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, este não foi o primeiro teste de Avraham. Antes de ser comandado a ir embora de casa, Avraham desafiou sua geração de idólatras ao revelar a todos que acreditava em um D'us único. As declarações de Avraham chegaram aos ouvidos de Nimrod, o governante supremo da época, que também era um grande idólatra. Nimrod tentou convencê-lo, primeiro com palavras e depois com ameaças, a abandonar sua crença em um D'us único e a voltar para a idolatria. Apesar da grande dificuldade, Avraham conseguiu vencer seu primeiro teste e continuou firme em suas convicções, mesmo quando Nimrod ameaçou jogá-lo em uma fornalha. Avraham enfrentou Nimrod sem medo, e D'us o salvou do fogo com um grande milagre aberto.

Aparentemente o primeiro teste de Avraham, de estar disposto a ser atirado em uma fornalha para não ceder às pressões de voltar para a idolatria, é um teste muito maior do que o teste de "Lech Lechá". Porém, nossos sábios afirmam que os testes de Avraham foram crescendo em dificuldade. Em que aspecto o teste de ir embora de casa pode ter sido maior do que o teste de ser atirado vivo em uma fornalha?

Em primeiro lugar, quando Avraham foi jogado na fornalha, ele passou por um grande teste de Emuná (fé), pois confiou em D'us mesmo quando tudo parecia perdido, mesmo quando parecia não haver mais salvação. Mas em Lech Lechá Avraham também foi testado em sua Emuná, pois D'us queria que ele saísse de sua casa e fosse para uma terra estranha. De onde viria seu sustento neste novo lugar? Quem seriam seus novos vizinhos? Como ele seria recebido? Estava indo para uma ilha paradisíaca ou para um deserto inóspito? Muitos questionamentos e nenhuma resposta. Mesmo assim Avraham teve a força e a coragem de cumprir a vontade de D'us.

Mas fora a Emuná, o teste de "Lech Lechá" ainda trazia dificuldades sentimentais e psicológicas. Avraham teve que juntar forças para abandonar sua família e seus amigos, as pessoas mais queridas de sua vida. Não era uma despedida de poucos dias ou meses, mas uma despedida que provavelmente seria para toda a vida. Além disso, ir embora de casa significava sair da sua "zona de conforto", trocar um lugar onde as coisas eram mais fáceis e cômodas por uma grande incerteza.

Por último, o teste de "Lech Lechá" também tinha um forte componente social, e aqui talvez estava uma das maiores dificuldades encontradas por Avraham. Quando uma pessoa é ameaçada de morte por causa de suas convicções, ela consegue encontrar forças para colocar sua vida em perigo, pois sabe que as pessoas valorizam aqueles que dão a vida por suas crenças. Estas pessoas são vistas como mártires, e se tornam exemplos e fontes de inspiração para os outros. Foi isso o que aconteceu no teste da fornalha, Avraham estava disposto a dar sua vida pela sua convicção da existência de um único D'us, e isto era um motivo de orgulho. Porém, ao contrário, no teste de "Lech Lechá" Avraham foi submetido a uma grande humilhação pública. Por que?

Todos nós conhecemos pessoas que decidiram mudar de cidade ou até mesmo de país. E há diferentes motivos que podem justificar este tipo de decisão, que envolve muitos esforços, dificuldades e novos desafios. A mudança pode vir por uma vontade de se juntar à família que vive em outro lugar, pode ser por causa de uma boa proposta de emprego ou até mesmo para buscar melhores condições de vida e novas oportunidades. Quando escutamos que algum conhecido está se mudando de cidade ou de país, sempre nos interessamos em saber qual foi o motivo que o levou a tomar esta decisão.

Mas imagine uma pessoa que, de um dia para o outro, começa a dar indícios de que está se preparando para se mudar. Sem dar muitas satisfações, a pessoa começa a empacotar suas coisas e coloca a casa e o carro à venda. Os vizinhos então perguntam para onde ela pretende ir, mas ela não sabe responder. Os parentes questionam se há alguma razão que justifique a mudança, mas não recebem nenhuma resposta convincente. Esta pessoa não seria ridicularizada por todos? Os parentes e vizinhos não passariam a desconfiar que esta pessoa sofre de algum tipo de instabilidade psicológica?

Explica o Rav Itzchak Zilberstein que com este conceito podemos entender um pouco melhor a dificuldade social do teste de "Lech Lechá". Quando D'us comandou Avraham a abandonar sua casa, não disse para onde ele iria, nem qual o motivo da viagem, apenas falou "Vá para você... para a terra que Eu te mostrarei" (Bereshit 12:1). Certamente os vizinhos e parentes devem ter zombado de Avraham. Ele provavelmente virou o grande assunto das fofocas de sua cidade. Quando Avraham passava pelas ruas, as pessoas deviam cochichar e apontar para ele. Ele poderia ter desistido por causa da vergonha, pelas más influências sociais, mas ele teve a coragem de enfrentar seus sentimentos internos contraditórios e cumpriu a vontade de D'us.

Ensinam nossos sábios que, de certa maneira, cada pessoa também passa em sua vida pelos mesmos testes que Avraham Avinu passou. Porém, também recebemos de Avraham a força espiritual para conseguir superá-los. Por isso é importante perceber onde estes testes ocorrem, para buscarmos a força necessária para vencê-los. "Lech Lechá" em geral é um teste pelo qual todos aqueles que fazem Teshuvá (pessoas afastadas do judaísmo que retornam ao cumprimento da Torá e das Mitzvót) passam em algum momento da vida. A Teshuvá começa com o componente da Emuná, pois precisamos confiar em D'us para conseguir mudar hábitos enraizados há tantos anos. Além disso, a Teshuvá também envolve o componente psicológico, pois nos obriga a sair da nossa "zona de conforto", a nem sempre fazer o que é gostoso, e sim o que é correto. E finalmente a Teshuvá é um enorme teste social, pois o Baal Teshuvá nem sempre é compreendido pelos amigos e familiares, e muitas vezes ainda não tem ferramentas para conseguir explicar os motivos de sua mudança. Muitos sofrem com a resistência de parentes e amigos em aceitar suas novas convicções.

Temos que saber que realmente não é um teste fácil. Para cada um a dificuldade social pode surgir em uma área diferente. Para alguns, a dificuldade é começar a aparecer em público usando uma Kipá. Para outros, a dificuldade é começar a usar uma saia ou uma blusa menos decotada, em uma sociedade onde "quanto mais se mostra do corpo, melhor". Alguns sentem dificuldade em assumir aos amigos e parentes que estão cumprindo Shabat ou que estão comendo apenas comida Kasher, com medo de serem tachados de "extremistas". Não é um teste fácil, pois nos importamos muito com o que os outros estão pensando sobre nós. Sempre há aquele parente ou amigo que gosta de fazer uma piada e nos questionar de forma provocadora, com deboches.

Por isso é tão importante entender os testes que Avraham Avinu passou. Nestes momentos, quando percebemos que estamos passando por testes semelhantes, devemos nos lembrar da força que herdamos de Avraham, do nosso potencial espiritual, para não deixar que esta "torcida contra" nos derrube. É importante nos preocuparmos com o que as outras pessoas pensam sobre nós, mas é mais importante ainda nos preocuparmos com o que D'us pensa sobre nós. Assim encontraremos a força necessária para vencer todos os obstáculos e alcançar nosso verdadeiro objetivo: fazer o que é o correto.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn.12:1-17:27, Is. 40;27-41:16
 
 

domingo, 26 de outubro de 2014

RECONHECENDO O VERDADEIRO DONO - PARASHÁ NOACH 5775

"Quando o pequeno Moishe foi ao banco pela primeira vez com seu pai, observou que o homem que trabalhava no caixa entregava muito dinheiro a um cliente e recebia uma quantia grande de outro. Ele encantou-se com a quantidade de dinheiro que passava pelo caixa. Ao sair, virou-se para o pai e disse:

- Aquele homem por trás do balcão deve ser um milionário. Viu só quanto dinheiro ele tem?

- Não é bem assim - disse o pai - Você e eu talvez sejamos mais ricos do que ele. O dinheiro que ele recebe e entrega não lhe pertence, é do banco. Se ele abusar deste privilegio e entregar ou guardar um real a mais, pode perder seu emprego e o privilegio de lidar com o dinheiro. Ele deve sempre ter em mente a origem do dinheiro e a quem ele realmente pertence."

Assim também devemos olhar a vida. Nossos talentos e as riquezas que acumulamos são nossos somente porque D'us nos deu, para utilizarmos no nosso trabalho espiritual. Mas se esquecermos de que Ele é o verdadeiro Dono e fizermos mau uso das nossas conquistas, podemos acabar perdendo tudo.

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Nesta semana lemos a Parashá Noach, que descreve dois episódios que mudaram a história da humanidade: o grande dilúvio que ocorreu nos dias de Noach (Noé) e que destruiu o mundo inteiro, e a construção da Torre de Bavel, que marcou o início da mistura das línguas no mundo. E estes dois eventos têm um importante ponto em comum: tanto o dilúvio quanto a mistura das línguas foram castigos aplicados por D'us por causa de erros que a humanidade estava cometendo.

Na geração do dilúvio, a humanidade havia se corrompido e se desviado dos caminhos corretos, e transgressões como o roubo e a promiscuidade se tornaram comuns. Já o erro da Torre de Bavel foi a própria construção da torre, como está escrito: "Venham, vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue aos céus" (Bereshit 11:4). Mas o que há de tão mal em construir uma torre que chegue até o céu? Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, explica que eles queriam chegar até o céu para lutar contra D'us. Porém, quem em sã consciência tentaria lutar contra o Criador do Universo? Por que aquela geração cometeu um erro assim tão grave?

Há ainda outra pergunta que surge quando prestamos atenção em um dos primeiros versículos que descrevem a construção da Torre de Bavel: "Venham, vamos fazer tijolos e queimá-los no fogo. E o tijolo servirá como pedra, e o betume servirá com argamassa" (Bereshit 11:3). Sabemos que a Torá não gasta nem mesmo uma letra de maneira desnecessária. Se o problema da Torre de Bavel era uma rebeldia contra D'us, então qual a importância de sabermos com que materiais a torre foi construída? E por que ressaltar que foi utilizado o tijolo ao invés da pedra?

Explica o Rav Yohanan Zweig que neste pequeno detalhe está a chave para entender qual foi a fonte do erro que aquela geração cometeu. Apesar de parecer apenas um detalhe construtivo, há uma diferença crucial entre uma casa construída com pedras e uma casa construída com tijolos. As pedras utilizadas nas construções eram retiradas de pedreiras naturais. Quando uma pessoa vive em uma casa de pedras, ela sente que está vivendo no mundo de D'us, pois está cercada por materiais que vêm diretamente da natureza, com pouca intervenção humana. Já quando uma pessoa fabrica tijolos e os utiliza para construir sua casa, ela pode ter a sensação de que sua moradia é desconectada de D'us, pois foi ele próprio o responsável por processar os materiais utilizados na construção.

O propósito da Torre de Bavel era ir contra o Criador do mundo, tentando negar Seu controle sobre todo o universo e atribuindo ao ser humano o poder de controlar o mundo. Isto é ressaltado pelo versículo inicial sobre a construção da Torre de Bavel: "E toda a terra tinha apenas uma linguagem e um propósito comum" (Bereshit 11:1). Rashi explica que a expressão "Dvarim Achadim" (propósito comum) tem um significado mais profundo. A palavra "Achadim" vem da mesma raiz que a palavra "Ichud", que significa "unicidade". Isto quer dizer que os seres humanos estavam querendo anular o "Ichudo Shel Olam", isto é, a noção da Unicidade de D'us, o único e verdadeiro Poder que controla todo o universo. E por que isto aconteceu justamente naquela geração? Pois quando eles começaram a alcançar avanços tecnológicos, acharam que podiam controlar o mundo. Por isso chegaram ao ponto de construir uma torre gigantesca para lutar contra D'us.

Explica o Rav Avraham ben Meir (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, que o versículo "e o tijolo servirá como pedra" demonstra que as pessoas intencionalmente deram preferência ao uso do tijolo, refletindo a percepção daquela geração de que eles estavam vivendo em um mundo em que eles mesmo haviam criado, na ilusão de que D'us não mais exercia Sua autoridade sobre o mundo.

Infelizmente nós muitas vezes cometemos os mesmos erros das gerações anteriores, e nos deixamos cegar pelos avanços tecnológicos da humanidade. Quanto mais o ser humano progride em suas buscas tecnológicas, mais ele se torna propenso a perder de vista que D'us é a única autoridade no mundo. Ao invés de utilizarmos os avanços tecnológicos para nos conectarmos a D'us, utilizamos para procurar novos fenômenos que possam explicar um mundo sem Ele.

O próprio nome dado a Noach traz este conceito. Noach vem da mesma raiz de "Menuchá", que significa "descanso". Por que o pai de Noach deu a ele este nome? Explicam nossos sábios que desde o erro de Adam Harishon, a terra havia sido amaldiçoada. Quando o trigo era plantado, ao invés de nascerem espigas, praticamente nasciam apenas espinhos. Mas o pai de Noach sabia que a maldição se aplicaria com toda a sua força apenas enquanto Adam estava vivo. Noach foi o primeiro ser humano a nascer depois da morte de Adam e, portanto, seu pai sabia que seu nascimento marcaria uma época de descanso e tranquilidade ao mundo. E Noach realmente fez uma grande diferença, pois inventou equipamentos agrícolas, desenvolveu novas técnicas e facilitou o trabalho no campo.

Porém, a Torá nos ensina que foi justamente a geração de Noach, aquela geração que usufruiu dos benefícios dos primeiros avanços tecnológicos, que foi destruída no terrível dilúvio que quase apagou a humanidade da face da Terra. Por que? Pois eles também não souberam utilizar os avanços tecnológicos para se conectarem com D'us. Com as novas técnicas e equipamentos, as pessoas precisavam trabalhar menos. Mas ao invés de fazer algo construtivo com o tempo livre que surgiu, as pessoas acabaram utilizando-o para pensar em besteiras, se corrompendo e chegando a grandes desvios.

Se o mal uso das tecnologias já foi suficiente para desviar a geração de Noach, muito maior deve ser o nosso cuidado, pois vivemos em um tempo no qual os avanços tecnológicos praticamente nos atropelam. Nos 200 anos após a Revolução Industrial foram feitas mais invenções do que nos 5 mil anos anteriores. Estamos agora em uma nova fase, a Revolução Digital, na qual as mudanças são ainda mais frenéticas. Quando compramos um celular novo, no dia seguinte já há um novo modelo, como uma nova função que até ontem não existia. Em todas as áreas vemos mudanças constantes. Mas será que utilizamos estas melhorias para o bem? As tecnologias cada vez mais nos isolam, criando verdadeiros "casulos" dentro das casas. Atualmente não há mais momentos em família, pois cada um tem a sua televisão, seu computador e seu celular, fazendo que as pessoas vivam na mesma casa mas, ao mesmo tempo, em mundos independentes.

Outro perigo das grandes e frenéticas evoluções tecnológicas é novamente cairmos no erro de pensar que o ser humano está no controle das coisas. Isto é apenas uma grande ilusão, pois a verdade é que D'us está no comando. É Ele quem permite as novas descobertas e é Ele quem faz com que as pessoas tenham novas ideias. Portanto, se soubermos utilizar as novas tecnologias da maneira correta, elas podem nos trazer Brachót (Bençãos). Mas aprendemos de Noach e da Torre de Bavel que utilizar as novas tecnologias da maneira incorreta pode nos trazer muitos sofrimentos e dificuldades.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Gn.6:9-11:32, Is 54:1-55:5, 1 Pe. 3: 18-22
 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

TESTE DE LEALDADE - SUCÓT 5775

"Sentados num bar russo e bebendo vodca, alguns amigos conversavam e expressaram seu sincero amor pelo czar e seu governo. Sentindo-se repleto de lealdade, um dos homens proclamou:

- Se eu tivesse um palácio magnífico, eu o dedicaria ao czar!

- É mesmo? - perguntaram os amigos, impressionados - E se você tivesse uma carruagem de luxo puxada por cavalos de raça, ou uma fazenda com animais, você também dedicaria ao czar?

- Claro que sim! Pelo czar, Sua Majestade, eu daria qualquer coisa que eu tivesse - declarou o homem.

Os outros duvidaram do amigo, imaginando que ele estava afetado pelo álcool. Então o desafiaram de novo:

- E se você tivesse duas galinhas, então você as daria para o czar?

O homem ficou sério e admitiu, em voz baixa, que não daria. Percebendo a expressão de perplexidade dos amigos, o homem explicou com franqueza:

-Estas são as coisas que eu realmente possuo".

Em Rosh Hashaná , e principalmente em Yom Kipur, dissemos para D'us: "Por favor, me dê mais um ano de vida e eu vou cumprir a Sua vontade. Serei uma pessoa completamente diferente". Mas passado Yom Kipur, será que estamos cumprindo nossa palavra, ou o que dissemos foi apenas da boca para fora?

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Após passarmos por Rosh Hashaná e Yom Kipur, finalmente chegamos à festa de Sucót, que começa na próxima 4ª feira de noite (08/10). Rosh Hashaná e Yom Kipur são festas relacionadas com nosso julgamento e, portanto, são dias mais solenes. Já Sucót, também chamada de "Zman Simchateinu" (a época da nossa alegria), tem como tema central a alegria. Então qual a relação entre Sucót, Rosh Hashaná e Yom Kipur, festas comemoradas em datas tão próximas, mas que parecem ser tão diferentes?

Há outra pergunta interessante sobre Sucót. Uma das Mitzvót que simbolizam esta festa são os Arba Minim (as 4 espécias – Etróg, Lulav, Adass e Aravá), sobre os quais fazemos uma Brachá especial todos os dias do Chag. E assim começa o versículo que fala sobre os Arba Minim: "E você deve pegar para você no primeiro dia..." (Vayikrá 23:40). Mas por que a Torá chama Sucót de "primeiro dia", ao invés de se referir a Sucót como "o dia 15 do sétimo mês", como normalmente faz em relação aos Chaguim?

Ensina o Rav Yaacov ben Asher (Alemanha, 1270 - Espanha, 1340), mais conhecido como Tur, que a resposta está em um interessante Midrash (parte da Torá Oral) que explica de onde vem o costume Ashkenazi de jejuar na véspera de Rosh Hashaná. O Midrash responde que o primeiro dia de Sucót é identificado como "primeiro dia" pois é considerado o "primeiro dia para a contabilidade das nossas transgressões". Para explicar este conceito, o Midrash traz a seguinte parábola: uma cidade devia a um poderoso rei uma enorme quantia de dinheiro em impostos. Como resultado da falta de pagamento, o rei marchou contra a cidade com um enorme exército. Antes que o exército chegasse, uma pequena delegação composta pelos anciãos da comunidade, apenas as pessoas mais distintas, foi enviada para tentar apaziguar o rei. O encontro teve sucesso e o rei descontou um terço da dívida, mas continuou avançando com seu exército. Temendo pela sua segurança, os moradores mandaram uma segunda delegação enorme, composta por pessoas comuns, para se encontrar com o rei. Eles também tiveram sucesso e conseguiram convencer o rei a descontar mais um terço da dívida. Entretanto, o rei não deteve o avanço de suas tropas. Em desespero, todos os habitantes da cidade saíram de suas casas e começaram a implorar ao rei, que já havia alcançado os portões da cidade, para que ele os tratasse com gentileza. Comovido com esta exibição de humildade, o rei descontou o último terço da dívida que havia restado.

Qual é o paralelo com as festas judaicas? Durante o ano, o povo judeu acumula uma enorme quantidade de transgressões. Na véspera de Rosh Hashaná, as pessoas mais distintas do povo têm o costume de jejuar, fazendo com que D'us perdoe um terço das nossas transgressões. Durante os "Asseret Yemei Teshuvá" (10 dias de Arrependimento, entre Rosh Hashaná e Yom Kipur), outro terço das transgressões é perdoado. Então chega Yom Kipur, quando o povo inteiro jejua e grita para D'us, e somos absolvidos do último terço das transgressões. Por isso, em Sucót se inicia uma nova contabilidade de transgressões para o ano.

Mas se pararmos para refletir sobre os ensinamentos contidos neste Midrash, surgem muitas perguntas. Em primeiro lugar, Sucót começa só alguns dias depois de Yom Kipur. Então por que a nova contabilidade não começa imediatamente no dia seguinte ao Yom Kipur? Outro detalhe que nos chama a atenção é que o jejum da véspera de Rosh Hashaná tem o mesmo peso do jejum de Yom Kipur, já que, de acordo com o Midrash, cada um deles tem o poder de descontar um terço das nossas transgressões. Mas sabemos que Yom Kipur é o dia mais sagrado do ano, então por que o Midrash aparentemente iguala os dois? E finalmente, em Sucót temos três diferentes Mitzvót: se sentar durante os 7 dias na Sucá, trazer os Korbanót (sacrifícios) relacionados ao Chag ao Beit Hamikdash (Templo Sagrado) e os Arba Minim. Então por que a Torá escolheu justamente os Arba Minim para transmitir a mensagem da nova contabilidade de transgressões que se inicia em Sucót, e não alguma outra Mitzvá de Sucót?

Explica o Rav Yochanan Zweig que há uma incrível semelhança entre o sistema de perdão Divino com uma prática comum no mundo dos negócios, e isto pode nos ajudar a entender o que o Midrash está nos ensinando. Antigamente, quando alguém não conseguia pagar uma dívida, estava sujeito a ir para a prisão. Atualmente, na grande maioria das sociedades civilizadas, existem leis relativas à falência, que permitem que uma pessoa possa se isentar de suas dívidas caso não tenha condições de pagá-las, protegendo-se assim dos seus credores. Mas qual a lógica que está por trás das leis de falência? Por que a sociedade permitiria que uma pessoa se desviasse da prestação de contas por suas ações?

A resposta é que uma pessoa atolada em dívidas, incapaz de sair desta situação negativa, pode acabar deixando de ser um membro produtivo da sociedade e se tornar alguém passivo. Quando permitimos a esta pessoa descontar suas dívidas, totalmente ou parcialmente, estamos permitindo que ela continue andando com suas próprias pernas, ao invés de ter que ficar dependendo dos outros, podendo facilmente voltar a ser um membro produtivo e contribuinte da sociedade, o que acaba sendo bom para todos.

Por outro lado, as leis de falência devem ser exercidas com muito cuidado e atenção, para termos a certeza de que estas leis não serão usadas de forma abusiva por pessoas cuja única intenção seja se esquivar de suas obrigações. Mas sempre existe o perigo potencial da pessoa utilizar a falência como uma "muleta" para se apoiar e se proteger da sua própria negligência e de seu comportamento irresponsável.

Este é o paralelo com o perdão dos nossos erros. É um grande erro pensar que D'us nos perdoa apenas por causa de Sua enorme benevolência, sem que nada precise ser feito da nossa parte. Precisamos entender que esta absolvição não pode se tornar uma "muleta", na qual podemos continuamente nos apoiar para diminuir as consequências do nosso comportamento irresponsável. Ao contrário, recebemos de D'us um "alívio" para que possamos outra vez voltarmos a ser membros ativos da sociedade, sem o enorme peso nas costas das nossas inúmeras transgressões. Mas se nós errarmos na forma de ver a expiação dos nossos erros, ao invés dela ser utilizada como uma ferramenta que nos ajuda a nos tornarmos responsáveis pelos nossos atos, justamente o efeito contrário pode ocorrer, e a expiação dos nossos erros pode se tornar uma "muleta" que apenas gera mais irresponsabilidade.

Se uma pessoa que decretou falência fica ainda responsável por parte das dívidas, então o risco da falência ser utilizada para encorajar um comportamento irresponsável diminui. Portanto, embora Yom Kipur desconte a mesma quantidade de transgressões do que o jejum da véspera de Rosh Hashaná, há uma enorme diferença entre as duas absolvições. Depois de Rosh Hashaná a pessoa ainda tem nas costas o peso de parte das transgressões que ainda não foram descontadas, e por isso ainda não se sente tranquila. Mas em Yom Kipur ocorre a absolvição total, e o perigo desta expiação ser mal utilizada é muito maior. Por isso, somente um dia tão sagrado como Yom Kipur pode nos proporcionar esta expiação total sem estar acompanhada de um sentimento de irresponsabilidade.

Mas para a expiação dos nossos erros ser completa, ela deve ser acompanhada do compromisso de começarmos a pagar nossas dívidas e da aceitação da responsabilidade por nossas ações. Sucót é a época em que novas responsabilidades são colocadas sobre nós e, portanto, serve como um teste da veracidade do nosso compromisso. É o primeiro momento em que nossas propostas de mudança apresentadas para D'us em Rosh Hashaná e Yom Kipur são colocada à prova. É por isso que Sucót é chamado de "o primeiro dia da contabilidade das nossas transgressões".

Os Arba Minim de Sucót precisam ter certas características para serem considerados aptos para o uso. Por exemplo, o Talmud Yerushalmi afirma que um Lulav, que é a folha de uma palmeira, não pode estar demasiadamente seca, e aprendemos isso do seguinte versículo: "E os mortos não louvam a D'us" (Tehilim 115:17). O Lulav é o símbolo de frescor e vitalidade, que representa a nova concessão de vida que recebemos depois de Yom Kipur. Nós utilizamos o Lulav como uma ferramenta para louvar e agradecer a D'us por Sua bondade desta nova chance. É por isso que a Torá considera mais apropriado transmitir o conceito do recomeço, da nova contabilidade dos nossos erros, através dos Arba Minim, que representam justamente o frescor de um recomeço.

O Midrash nos ensina que Sucót é um grande teste das nossas convicções. Sair do conforto de casa para passar a semana na Sucá, uma construção provisória e desprotegida, e cumprir a Mitzvá dos Arba Minim com todos os seus detalhes não são atitudes simples. Somente é possível cumprir estas Mitzvót com alegria se conseguirmos internalizar o conceito de fazer a vontade de D'us mesmo quando não é exatamente a nossa vontade. Em Rosh Hashaná e Yom Kipur pedimos para D'us mais um ano de vida para podermos cumprir as Suas Mitzvót e atingirmos as nossas metas, e Sucót é o momento de demonstrar que vamos cumprir nossa palavra. Assim, teremos mais crédito com Ele quando for necessário pedir qualquer outra coisa durante o ano.

CHAG SAMEACH E SHABAT SHALOM
 

sábado, 4 de outubro de 2014

Mensagem de Yom Kippur 5775

 
Yom Kipur é um dos maiores presentes que D'us deu ao povo judeu. Um dia muito especial, uma oportunidade de começarmos o novo ano renovados, com nossas almas limpas e purificadas. A Teshuvá, composta pelo arrependimento sincero, a decisão de não voltar a cometer os mesmo erros, e a confissão para D'us das nossas transgressões, tem o incrível poder de transformar os nossos erros em méritos. Yom Kipur é um dia de misericórdia, uma das maiores demonstrações do amor de D'us pelo povo judeu. Neste dia podemos e devemos abrir nossos corações e implorar para que D'us nos perdoe pelos nossos erros.


Infelizmente não é apenas contra D'us que transgredimos durante o ano. Erramos, e muito, com as pessoas. Fomos egoístas, enganamos, não nos importamos com as dificuldades e sofrimentos dos outros. E o pior de tudo é que achamos que não foi tão grave assim. Mas nossos sábios ensinam que, apesar da enorme força de expiação das transgressões que existe em Yom Kipur, ela somente funciona para limpar os erros que cometemos contra D'us. Porém, os erros que cometemos contra o próximo não são perdoados por D'us até que sejamos perdoados pela pessoa com quem erramos. Por isso, a Halachá (Lei Judaica) nos ensina que é necessário apaziguar a pessoa que machucamos, prejudicamos ou magoamos através de um sincero pedido de perdão.

Portanto, gostaria de aproveitar a oportunidade para pedir perdão a qualquer um de vocês, leitores do "Shabat Shalom M@il", tanto aqueles que eu conheço pessoalmente quanto aqueles cujo meu único contato é através dos emails semanais, por qualquer atitude minha que possa ter ofendido ou magoado, ou por ter causado qualquer tipo de tristeza. Tanto os erros intencionais quanto os não intencionais, tanto os erros que eu me lembro quanto aqueles que eu já me esqueci, de todos eles eu me arrependo profundamente e espero que vocês me perdoem. Falta de tempo, stress e "cálculos errados" são apenas desculpas, e Yom Kipur é o momento de assumirmos nossos erros sem procurar desculpas. Eu sei que errei e peço sinceramente perdão. Se alguém tiver alguma mágoa, por favor me escreva para que eu possa pedir perdão pessoalmente.

Existe uma incrível fórmula para sermos perdoados em Yom Kipur: "Todo aquele que passa por cima da sua honra e perdoa a alguém que lhe fez mal, D'us passa por cima de todas as suas transgressões e o perdoa". Portanto, eu perdoo de todo o coração a qualquer um que possa ter feito algum mal para mim, intencionalmente ou não intencionalmente.

Que possamos ter um ano muito bom, com muita saúde, crescimento espiritual, paz e respeito ao próximo. Que possamos ter paz dentro do povo judeu, para que tenhamos o mérito da vinda imediata do Mashiach e possamos receber todas as Brachót que ele nos trará.

Shaná Tová e Gmar Chatimá Tová

Com carinho,

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Lv 16:1-34, (Maftír -Nm. 29:7-11), Is. 57:14-58:14 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

JULGANDO NOSSA PROXIMIDADE COM D'US - PARASHIÓT NITZAVIM, VAYELECH E ROSH HASHANÁ 5775

O Rav Saadia Gaon (Egito, 882 – Iraque, 942), um verdadeiro gigante de Torá, foi visto certa vez por um aluno se repreendendo de forma muito dura. O aluno questionou o porquê de ele estar sendo tão rigoroso consigo mesmo. Então o Rav Saadia Gaon explicou:

- Alguns meses atrás eu decidi que a honra que eu recebia das pessoas estava interferindo no meu serviço religioso. Sem humildade não é possível servir D'us com alegria. Decidi passar alguns meses em lugares onde ninguém me conhecia. Coloquei roupas simples e comecei meu exílio, vagando de cidade em cidade. Uma noite, cheguei a uma pequena pousada de um judeu idoso, um homem gentil e simples. Conversamos um pouco antes de ir dormir, e na manhã seguinte me despedi e segui meu caminho. Horas depois, alguns alunos que estavam me procurando apareceram e perguntaram ao judeu idoso se ele havia me visto. O homem riu e perguntou: "o que uma pessoa tão grande como o Rav Saadia estaria fazendo em um lugar como a minha pousada?". Mas quando os jovens explicaram como provavelmente eu estaria vestido, o homem deu um pulo e gritou: "Meu D'us, o Rav Saadia esteve aqui! Vocês estão certos!"

- Ele correu, pulou em sua carruagem e voou na direção em que eu tinha ido - continuou o Rav Saadia Gaon - Depois de um tempo ele me alcançou, saltou da carruagem e caiu aos meus pés, chorando: "Por favor, me perdoe, Rav Saadia, eu não sabia que era você!". Fiz ele se levantar e disse que ele havia me tratado muito bem, que não precisava se desculpar por nada. Mas ele continuava inconformado, dizendo: "Não, não, rabino. Se eu soubesse quem você era, eu teria te tratado de forma completamente diferente".

- Naquele momento eu percebi que aquele homem estava me ensinando uma lição muito importante e que o propósito do meu exílio havia se cumprido - finalizou o Rav Saadia Gaon - Agradeci, abençoei-o e ele voltou para casa. Agora, todas as noites, quando vou deitar, penso em como servi D'us o dia inteiro. Então me lembro daquele senhor e digo para mim mesmo: "Se eu soubesse sobre você, D'us, no início do dia o que sei agora, eu O teria tratado de forma completamente diferente!". E é justamente por isso que eu estava me arrependendo agora".

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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Nitzavim e Vayelech. A Parashá Nitzavim nos ensina a Mitzvá de Teshuvá, que inclui o arrependimento pelos nossos maus atos e o comprometimento em mudar. Esta Parashá normalmente é lida antes de Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, dia que todas as pessoas são julgadas. Isto ocorre justamente para nos despertar, para nos ensinar que temos a possibilidade de nos arrepender por nossos erros e mudar, influenciando de forma positiva nosso julgamento. Mas será que sabemos realmente o que está em jogo em Rosh Hashaná?

O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), em seu livro "Mishnê Torá", nos explica um pouco mais sobre o que ocorre em Rosh Hashaná. Ele diz que todas as pessoas têm méritos e transgressões. Aquele cujos méritos são mais numerosos que suas transgressões é Tzadik (Justo), e aquele cujas transgressões são mais numerosas dos que seus méritos é Rashá (malvado) (Hilchót Teshuvá Capítulo 3 Halachá 1). Já na Halachá (lei) seguinte, o Rambam explica que aqueles cujas transgressões são mais numerosas do que seus méritos imediatamente morrem por causa de sua maldade, e o mesmo se aplica a uma cidade ou ao mundo inteiro. Ele cita como exemplos a destruição da cidade de Sdom (Sodoma) e o dilúvio que ocorreu na época de Noach (Noé), que quase apagou toda a humanidade.

Mas estes ensinamentos do Rambam levantam alguns questionamentos. Em primeiro lugar, por que o Rambam dividiu seu ensinamento em duas Halachót diferentes, se elas tratam do mesmo tema, isto é, do que ocorre com alguém que tem mais méritos ou mais transgressões? Além disso, o Rambam cita Sdom e a destruição do mundo através do dilúvio como exemplos de decretos que se cumprem imediatamente. Porém, sabemos que ambos os decretos somente ocorreram muito tempo depois das pessoas já terem atingido níveis terríveis de maldade. Em especial o dilúvio, cuja destruição já havia sido decretada 120 anos antes dele ocorrer. Então como entender as palavras do Rambam?

Outra dúvida surge quando observamos a terceira Halachá deste capítulo e percebemos uma aparente contradição. O Rambam diz que, da mesma forma que após a morte a pessoa é julgada por seus atos, isto também ocorre uma vez por ano, em Rosh Hashaná. Aquele que é considerado Tzadik é selado para a vida, enquanto aquele que considerado Rashá é selado para a morte. Mas por que nesta Halachá o Rambam diz que o Rashá é selado para a morte, se ele havia dito que o Rashá morre imediatamente?

E a principal dificuldade nas palavras do Rambam é algo que nos questionamos todos os anos: como pode ser que aqueles que têm mais transgressões do que méritos recebem imediatamente o decreto de morte em Rosh Hashaná, se nós vemos pessoas ruins que já passaram por vários julgamentos de Rosh Hashaná e nada aconteceu? E por que nunca mais o mundo foi destruído, como no dilúvio? Com tantas gerações corruptas, imorais e sanguinárias que existiram na história da humanidade, será que nunca mais as transgressões foram mais numerosas do que os méritos?

O Rav Baruch Leff traz uma possível explicação que nos ajuda a responder todos estes questionamentos. Ele explica que há dois aspectos diferentes no julgamento de Rosh Hashaná. Um dos aspectos é que a pessoa recebe em Rosh Hashaná um "rótulo", que define seu status espiritual e seu relacionamento com D'us, independente de qualquer castigo ou consequência direta. É isso o que o Rambam está discutindo na primeira Halachá. Já na segunda Halachá o Rambam está descrevendo como ocorre a aplicação da justiça de acordo com o status espiritual que a pessoa recebeu. Mas nem sempre o julgamento e a aplicação da justiça acontecem juntos, pois D'us nos julga e aplica Sua justiça apenas em alguns momentos específicos, que podem ser épocas específicas do ano ou após certas atitudes das pessoas que podem despertar o julgamento ou a aplicação de um castigo.

Isto quer dizer que, mesmo que a pessoa seja um Rashá, não significa que ela será julgada imediatamente. E mesmo se for julgada e "rotulada" como Rashá, não quer dizer que vai morrer imediatamente. A linguagem utilizada pelo Rambam, "miad", que significa "imediatamente", também pode ser entendida como "inevitavelmente, certamente". Isto quer dizer que, a partir do momento em que uma pessoa, uma cidade ou o mundo inteiro forem considerados "Reshaim", então a morte ou a destruição certamente ocorrerão. Em Sua sabedoria infinita, D'us apenas decidirá quando será o momento correto.

Foi o que aconteceu em Sdom. Certamente eles já tinham o "rótulo" de Reshaim, mas a destruição foi precedida por eventos que despertaram a aplicação da justiça, como está escrito: "E assim disse D'us: 'Pois os gritos de Sdom e Amorá se tornaram muito grandes' "  (Bereshit 18:20). Nossos sábios explicam que naquele momento as injustiças chegaram a um nível insuportável, despertando a aplicação imediata do castigo. No dilúvio, o mundo inteiro já havia se corrompido há mais de uma centena de anos, mas o que despertou a aplicação do castigo foi a imoralidade, como está escrito poucos versículos antes da descrição do dilúvio: "E os Nefilim (gigantes) estavam na terra naqueles dias. E também depois disso, quando os filhos dos governantes vieram até as filhas dos homens" (Bereshit 6:4).

Após o dilúvio, D'us escolheu não castigar mais o mundo como um todo, mesmo que tivesse o "rótulo" de Rashá, como ele prometeu a Noach: "E Eu não mais golpearei todos os seres vivos, como Eu fiz" (Bereshit 8:21). Por isto o mundo inteiro nunca mais foi destruído, apesar de certamente já termos passado por algumas gerações nas quais as transgressões foram mais numerosas do que os méritos.

Agora é possível entender porque o julgamento de Rosh Hashaná é tão importante. Não apenas pelas consequências que podem vir do julgamento, mas principalmente pelo "rótulo" com o qual seremos classificados. E isto muda todo o nosso relacionamento com D'us, como o Rambam explica: "Grande é a força da Teshuvá, que aproxima o ser humano de D'us... ontem ele era odiado por D'us, e considerado repugnante e abominável, e hoje ele é amado e querido". (Halachót Teshuvá, Capítulo 7, Halachót 6). E na Halachá seguinte ele explica: "Quanto é elevado o nível da Teshuvá. Ontem ele estava separado de D'us... gritava e não era escutado, cumpria Mitzvót e elas eram rasgadas diante dele... Hoje ele está conectado com D'us... grita e é respondido imediatamente... faz Mitzvót e elas são recebidas com agrado e alegria".

Ninguém gosta de ser chamado de Rashá, muito menos por D'us. Em Rosh Hashaná nosso status espiritual é decidido. Se somos Tzadikim ou Reshaim, se somos amados ou desprezados por Ele. E apesar de todos os erros que cometemos durante o ano, D'us nos deu um presente, que é a força da Teshuvá, a possibilidade de mudarmos nossos atos, de nos arrependermos pelos nossos erros. Quando nos arrependemos com sinceridade, nossos erros são apagados. Se nos arrependemos por amor a D'us, nossos erros são transformados em Mitzvót. A Teshuvá não apenas nos salva das punições, mas tem a incrível força de recriar nossa conexão com D'us e mudar nosso status espiritual. Toda a ajuda espiritual que teremos para crescer no próximo ano depende do julgamento de Rosh Hashaná.

O principal pensamento de Teshuvá em Rosh Hashaná deve ser de voltar a fazer de D'us o nosso Melech (rei). Apesar de Ele ser o nosso Pai, Ele é também o nosso Rei, e por isso devemos respeitar Suas leis e escutar Seus ensinamentos. Devemos saber que tudo o que Ele nos comandou é apenas para o nosso bem, para que possamos viver uma vida mais harmônica, para que possamos fazer o bem às outras pessoas e trabalharmos nossos traços de caráter. Somente através do estudo da Torá, do cumprimento das Mitzvót e do arrependimento sincero pelos nossos erros é que vamos conseguir atingir um dia a perfeição.

Na próxima 4ª feira de noite (24/09) começa Rosh Hashaná. Que possamos nos esforçar neste "sprint final" para melhorarmos nossos atos, e assim possamos todos ser "rotulados" como Tzadikim, para que nossas Tefilót (rezas) sejam recebidas de bom grado por D'us e possamos ter um ano com muitas Brachót (bençãos) e boas notícias para toda a humanidade.

SHETIKATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida)

SHABAT SHALOM e SHANÁ TOVÁ
Dt. 29:10-30:20, Is. 61:10-63:9, Rm. 10: 1-13
Dt. 31:1-30,Os.14:2-10, Jl 2:11-27, Mq.7:18-20, Is.55:6-56:8, Rm. 7: 7-12
 
 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A ESPIRITUALIDADE DOS OUTROS - PARASHÁ Ki TAVÔ 5774

"Certa vez, um rabino que dedicava sua vida a tentar aproximar da Torá os judeus que estavam mais afastados foi duramente questionado por outro judeu observante:

- Você não acha que é uma grande tolice se expor tanto às influências externas? Ao invés de gastar seu tempo e sua energia para ensinar Torá aos judeus afastados, será que você não deveria dedicar-se completamente ao seu próprio crescimento espiritual e ao fortalecimento dos seus filhos?

- Imagine uma casa pegando fogo – continuou o homem, visivelmente exaltado – Somente parte da mobília pode ser salva. Alguns móveis estão um pouco queimados, enquanto outros estão em perfeito estado. Me diga, você salvaria os móveis queimados? Certamente que não! Você trataria de salvar apenas os móveis em perfeito estado, e deixaria os móveis queimados para trás. Então por que você não faz isso? Será que não é mais importante salvar você e seus filhos, ao invés de dedicar-se aos judeus afastados?

- Caro amigo – respondeu com carinho o rabino – entendo sua preocupação e achei excelente o exemplo que você utilizou. Certamente estamos em uma geração na qual os judeus se encontram cercados pelo fogo da assimilação, e nosso judaísmo corre um sério risco de se extinguir. Porém, o que você falou se aplicaria somente em relação aos móveis que estão em uma casa pegando fogo. Mas o que você faria em relação às pessoas que estão presas dentro da casa? Com um pouco de esforço podemos ajudar aqueles que estão saudáveis, pois eles podem correr e salvar suas próprias vidas. Mas um grande esforço é necessário para salvar a vida daqueles que estão feridos, pois eles não conseguem sair sozinhos. Você os deixaria para trás?"

Obviamente temos uma enorme responsabilidade de nos fortalecer e educar nossos filhos dentro dos valores judaicos, e para isso precisamos dedicar muito tempo e energia. Mas isto não nos isenta de nos preocuparmos com os outros judeus, principalmente aqueles que estão mais afastados da Torá.

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Na Parashá desta semana, Ki Tavô, Moshé comandou o povo judeu a se reunir em duas montanhas, Guerizin e Eval, para uma nova aceitação da Torá logo que entrassem na Terra de Israel. Doze mandamentos da Torá deveriam ser enumerados, e as pessoas deveriam reconhecer publicamente que aqueles que cumprissem os mandamentos receberiam Brachót (bênçãos), enquanto maldições atingiriam aqueles que os desprezassem. Mas observando com atenção estes mandamentos, algo nos chama a atenção. Cada um deles discute algum ato específico, com exceção do último mandamento, que parece ser mais genérico: " 'Maldito aquele que não mantém as palavras desta Torá, para cumpri-las'. E todo o povo deverá dizer 'Amém' " (Devarim 27:26). O que significam estas palavras tão vagas?

Explica o Ramban (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) que esta maldição se aplica àquele que estuda, ensina, guarda e cumpre os mandamentos da Torá, mas que apesar de ter a possibilidade de aproximar judeus afastados e fortalecer a Torá deles, não faz nada a respeito. Isto quer dizer que esta maldição se aplica até mesmo para aqueles que são completamente justos e retos em seus atos, mas que não se esforçam para fortalecer os conhecimentos de Torá daqueles que não a cumprem. Todos aqueles que têm o poder de influenciar positivamente os outros e não o fazem, recebem sobre si a maldição proferida no Monte Eval, mas aqueles que se esforçam e tentam influenciar os outros de maneira positiva recebem a Brachá proferida no Monte Guerizim.

Temos uma inclinação natural de pensar que não se importar com a espiritualidade dos outros não é algo tão grave. Porém, observando as transgressões que são enumeradas nas outras maldições, podemos começar a ter uma ideia mais clara da gravidade de deixar de aproximar aqueles que estão mais afastados. Por exemplo, a Torá traz as proibições de fazer imagens esculpidas (idolatria), de desprezar os pais, de se envolver em relações imorais e de ferir o companheiro de maneira secreta (que se refere ao Lashon Hará, isso é, denegrir o próximo pelas costas, de maneira covarde). Se o fato de deixar de se importar com a espiritualidade dos outros foi listado junto com transgressões tão graves, isto quer dizer que certamente também esta negligência é considerada grave aos olhos de D'us.

O Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin (Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, viveu em uma geração na qual já havia um grande fluxo de judeus que abandonavam a Torá e as Mitzvót para se conectarem a outros tipos de ideologia. Na época, muitos judeus observantes acreditavam que o ideal era se isolar de qualquer tipo de influência negativa e continuar com seu próprio trabalho de crescimento espiritual. Mas o Netziv se levantou fortemente contra esta ideia, pois acreditava que enquanto o mundo estava sendo espiritualmente destruído, não era hora de focar na sua própria espiritualidade. Para incentivar as pessoas de sua geração, ele utilizava como exemplo a história do Rei Yoshiahu, que nasceu em uma geração completamente sem conhecimentos de Torá. O Rei Yoshiahu assumiu o trono com 8 anos, após a morte de seu pai, e decidiu fazer uma reforma no Beit Hamikdash (Templo Sagrado). No meio das obras, Chilkiahu, um dos Cohanim (sacerdotes), encontrou um Sefer Torá escondido. Eles viram que o Sefer Torá, ao invés de estar enrolado até o começo, na Parashá Bereshit, estava aberto no meio do Sefer, justamente na parte onde está o versículo "Maldito é aquele que não mantém as palavras desta Torá". Quando o Rei Yoshiahu escutou estas palavras, ele imediatamente rasgou suas roupas e disse: "Está sobre mim a responsabilidade de manter a Torá". Após muitos esforços e dedicação, ele realmente teve sucesso em trazer de volta o povo judeu ao estudo e ao cumprimento da Torá e das Mitzvót.

Há um versículo interessante na história do Rei Yoshiahu. Após encontrar o Sefer Torá, ele falou para os Cohanim e Leviim: "Agora vão e sirvam Hashem, seu D'us, e o Seu povo, Israel" (Divrei Haiamim II 35:3). Mas o que significa servir a D'us e ao Seu povo? Explica o Netziv que após os terríveis reinados de Menashé e Amon, reis que vieram antes de Yoshiahu e que levaram o povo judeu aos caminhos da idolatria, os únicos que haviam conseguido manter um nível espiritual elevado eram os Cohanim e os Leviim. Por isto, eles acabaram se refugiando em seu próprio mundo, para evitar o perigo da assimilação que os rondava. Eles dedicavam-se ao seu próprio crescimento espiritual e à sua conexão com D'us, mas negligenciaram a espiritualidade do resto do povo. Yoshiahu quis dar a eles um forte recado após encontrar o Sefer Torá. Ele os estimulou a mudar de comportamento e, a partir daquele momento, dedicar suas energias para espalhar a Torá entre aqueles que estavam tão afastados e desconectados. E o Rei Yoashiahu ressaltou que, ao servir o povo judeu, ao mesmo tempo eles estariam servindo a D'us, pois certamente esta era a vontade Dele naquele momento.

Se aquele que não se importa com a espiritualidade dos outros entra na maldição contida nesta Parashá, o contrário também é válido, e todo aquele que se esforça para influenciar positivamente os outros para que aumentem sua observância da Torá e das Mitzvót recebe um grande louvor de D'us. Um exemplo de dedicação ao próximo aprendemos com o Rav Isroel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim. Ele não se preocupava apenas com o seu próprio serviço Divino, ele estava sempre preocupado com a espiritualidade dos outros. Certa vez, quando estava viajando pela Letônia, o Chafetz Chaim chegou a uma cidade chamada Riga. Lá havia uma grande comunidade judaica, mas completamente assimilada, que não cumpria as Mitzvót da Torá. Durante sua estadia de três semanas, o Chafetz Chaim fez tantos esforços que conseguiu convencer 300 judeus a não abrirem suas lojas no Shabat. Em outro momento ele escutou que alguns soldados judeus, por estarem no exército, comiam pão em Pessach. Ele ficou tão triste que criou um "Fundo para cozinha Kasher", para fornecer comida Kasher àqueles que iam para a guerra, e pessoalmente recolheu dinheiro para isso. Ele também entrava em contato pessoal com os soldados, para tentar influenciá-los a cumprir as Mitzvót. E quando grupos de soldados passavam pela sua cidade, Radin, durante o verão, o Chafetz Chaim carinhosamente os convidava para um verdadeiro banquete em sua casa, recebendo-os com amor paternal e encorajando-os a crescer espiritualmente.

Existem várias maneiras através das quais podemos ajudar outros judeus a estarem mais conectados com sua espiritualidade. Pode ser dando aulas, estabelecendo novos centros de estudo de Torá, ajudando a manter os centros de Torá já existentes ou simplesmente se aproximando das pessoas mais afastadas da Torá e convidando-as, por exemplo, para uma deliciosa refeição de Shabat.

Se o Rei Yoshiahu e o Netziv já ficavam tão preocupados em suas gerações, maior ainda é a nossa responsabilidade, em uma geração na qual os números da assimilação chegam a mais de 70% em vários lugares do mundo. Apesar de não nos sentirmos preparados, devemos saber que não estamos isentos de participar nesta importante missão. Se acreditarmos no nosso potencial e, mais ainda, assumirmos a nossa responsabilidade na continuidade da Torá, certamente D'us nos ajudará e teremos muito sucesso em trazer de volta aqueles que estão tão afastados de sua espiritualidade. Além de ajudar outras pessoas, estaremos garantindo mais Brachót para as nossas vidas.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Dt. 26:1-29:9, Is. 60:1-22, At. 7: 30-36

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A FORÇA DO HÁBITO - PARASHÁ KI TETSÊ 5774

"O rabino estava dando um belo discurso, explicando a importância de estarmos sempre conectados com a nossa espiritualidade, mesmo quando não estamos na sinagoga. Ele ressaltou a importância de termos pensamentos de espiritualidade até mesmo quando estamos no trabalho, no meio dos negócios. Um dos frequentadores, querendo fazer uma piadinha, se levantou e gritou:

- Ei, rabino, eu não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. Como você quer que eu consiga fazer negócios e mesmo assim ainda pensar em Torá e Mitzvót?

- É fácil, meu querido - respondeu o rabino, sem se abalar - da mesma maneira que você consegue todos os dias pensar nos seus negócios mesmo estando no meio da sua Tefilá (reza), então você também vai conseguir pensar em espiritualidade mesmo quando estiver no meio dos seus negócios"

Pela força do hábito, muitas vezes acabamos cumprindo as Mitzvót de forma mecânica. Como na Tefilá, quando muitas vezes nosso corpo está na sinagoga, mas nossa cabeça está vagando em diferentes lugares do planeta...
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Na Parashá desta semana, Ki Tetsê, a Torá lista os povos que não podem fazer parte do povo judeu de forma completa. Para alguns povos, como os egípcios, a proibição é por apenas algumas poucas gerações, mas para outros povos, como Amon e Moav, a proibição é eterna. Mas por que esta rigorosidade com Amon e Moav? Eles foram piores do que os egípcios, que nos escravizaram e nos torturaram por 210 anos?

A Torá traz explicitamente dois motivos pelos quais Amon e Moav não são aceitos como parte do povo judeu, sendo o primeiro deles: "Pelo fato deles não terem recebido vocês com pão e água no caminho, quando vocês estavam saindo do Egito" (Devarim 23:5). Amon e Moav viram diante deles um povo de pessoas sofridas, que haviam passado por dois séculos de duros castigos e humilhações no Egito, e que estavam em um deserto inóspito, mas mesmo assim não tiveram a dignidade de nos oferecer nem mesmo pão e água. Seria o equivalente a ver um sobrevivente do Holocausto, magro e abatido, pedindo um prato de comida, e não sentir absolutamente nenhuma misericórdia por ele. Como a essência do povo judeu é o Chessed (bondade), característica que herdamos de Avraham Avinu, então pessoas tão desumanos como os habitantes de Amon e Moav não podem fazer parte do nosso povo.

Porém, esta extrema falta de bondade de Amon e Moav levanta um sério questionamento. Os dois povos são descendentes de Lót, o sobrinho de Avraham. E a Torá nos ensina que Lót, como Avraham, se destacou justamente na característica de Chessed, chegando ao ponto de arriscar sua vida e a integridade física de suas próprias filhas apenas para fazer bondade com dois beduínos, que na verdade eram anjos disfarçados. Sabemos que até hoje o Chessed é parte do povo judeu por causa da "genética espiritual" que herdamos de Avraham. Então por que Amon e Moav, que também deveriam ter esta característica de Chessed embutida em sua "genética espiritual" herdada de Lót, se comportaram de maneira tão desumana e mostraram tamanha indiferença diante de pessoas necessitadas?

Explica o Rav Yaacov Ashkenazy (Polônia, 1550, 1625), mais conhecido como "Melitz Yosher", que uma pessoa que cumpre uma Mitzvá ou pratica um bom ato por causa do reconhecimento interno da importância deste ato e pelo genuíno desejo de ajudar os outros, faz com que esta boa característica fique enraizada em seu coração, conseguindo transmiti-la para as futuras gerações. Mas se esta boa característica vem apenas pela força do hábito, então ela não fica enraizada no coração da pessoa e, portanto, não é transmitida para seus descendentes.

Esta foi a grande diferença entre os descendentes de Avraham e os descendentes de Lót. Avraham buscou D'us por toda a sua vida, para saber a quem agradecer por tudo de bom que recebia. Esta busca fez com que Avraham refletisse sobre a importância da bondade e entendesse de maneira profunda que o Chessed é um dos pilares que sustenta o mundo. Como ele internalizou esta Mitzvá em seu coração, esta característica foi transmitida também ao coração de seus descendentes. Já Lót não trabalhou em seu coração o valor do Chessed. Por sua longa convivência com Avraham, um homem que aproveitava cada pequena oportunidade para fazer Chessed, Lót aprendeu a fazer bondades simplesmente como um hábito, como parte natural da vida, mas nunca internalizou a sua importância, simplesmente fazia bondades de forma mecânica. Por isso esta característica não foi transmitida aos seus descendentes, que acabaram se transformando, poucas gerações depois, em pessoas egoístas e completamente insensíveis.

Com este ensinamento do "Melitz Yosher" podemos entender um triste fenômeno, que é o de jovens educados em casas observantes de Mitzvót, mas que acabam se afastando dos caminhos espirituais. Por que isto acontece? Pois quando os pais cumprem as Mitzvót sem internalizar o significado dos seus atos e a importância deles, cumprindo-as apenas por hábito e de maneira mecânica, então dificilmente conseguirão transmitir aos filhos a atitude correta em relação às Mitzvót. Assim, os filhos também apenas cumprirão as Mitzvót de maneira mecânica e, mais cedo ou mais tarde, acabarão abandonando-as.

Há outro ponto interessante sobre este incrível ensinamento do "Melitz Yosher". Apesar de muitas vezes estarmos dispostos a gastar esforços, tempo e até mesmo dinheiro para cumprir uma Mitzvá, ainda assim não é uma garantia que esta Mitzvá não está sendo cumprida apenas por hábito. Lót chegou ao ponto de arriscar a sua vida para cumprir uma Mitzvá, mas mesmo assim a Torá ainda considera que esta Mitzvá foi feita apenas pela força do hábito, tendo pouco valor espiritual. Portanto, precisamos o tempo inteiro verificar nossos atos, para checar se estamos cumprindo as Mitzvót com o coração, internalizando sua importância e o seu impacto espiritual, ou se estamos apenas cumprindo de maneira mecânica, por força do hábito, mas sem nenhuma profundidade espiritual.

Em Mitzvót que se repetem poucas vezes durante nossa vida é mais fácil sentir a espiritualidade do momento. Por exemplo, quando uma pessoa participa do Brit-Milá de seu filho, ou faz a Brachá sobre seus "Arba Minim" (4 espécies) em Sucót, ela consegue se concentrar e ter Kavaná (intenção) em suas palavras e seus atos. Mas a grande dificuldade está justamente nas Mitzvót constantes, que repetimos várias vezes todos os dias, como a Tefilá (reza). Pronunciamos 3 vezes por dia, 7 dias por semana, praticamente as mesmas palavras, e por isso é tão difícil manter a concentração. Muitas vezes estamos no meio da Tefilá e percebemos que nossa cabeça está distante, pensando nos negócios, na viagem de férias ou simplesmente naquele dinheiro que estamos devendo a um amigo. Como lutar contra a força do hábito nestes casos?

Explicam nossos sábios que precisamos todos os dias tentar trazer um gosto novo para nossas Mitzvót. Por exemplo, estudando sobre o significado das palavras que mencionamos na Tefilá, desde o entendimento mais simples até as implicações mais profundas de cada uma das palavras que nossos sábios fixaram no Sidur. Algumas vezes podemos mudar de Sidur, simplesmente para quebrar a rotina. Outras vezes podemos fazer a Tefilá em um lugar diferente da sinagoga, ou até mesmo em outra sinagoga, apenas pelo efeito de renovação que isto pode trazer, para fugir da força do hábito.

Estamos no mês de Elul, o mês de preparação espiritual para Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento. Certamente há muitas Mitzvót que ainda não cumprimos e que gostaríamos de começar a cumprir, e esta é a época propícia do ano para receber sobre nós um crescimento espiritual. Mas além de acrescentar na quantidade de Mitzvót que gostaríamos de cumprir, um trabalho muito importante é acrescentar na qualidade daquelas Mitzvót que nós já cumprimos, mas que, por causa da força do hábito, acabam se tornando apenas atos mecânicos.

Internalizar a importância de cada Mitzvá e enraizá-la nos nossos corações é a melhor forma de garantir que não apenas nosso próprio serviço espiritual será muito mais significativo, mas que também teremos mais sucesso na transmissão dos valores judaicos para todos os nossos descendentes.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Dt. 21:10-25:19, Is. 54:1-10