sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O QUE ESTÁ FALTANDO? - PARASHÁ DEVARIM E TISHÁ BE AV 5776

"Em uma época na qual os judeus eram proibidos de exercer trabalhos tradicionais, Moishe, um ator judeu desempregado, estava desesperado à procura de um trabalho. Foi quando ele viu, no cantinho do jornal, um pequeno e muito discreto anúncio. Um macaco, a principal atração do zoológico local, tinha morrido, e o zoológico estava procurando um ator para substituí-lo. Eles não queriam substituí-lo por outro macaco, pois as pessoas pagavam para ver suas palhaçadas originais, o que nenhum outro macaco faria. O zoológico não havia nem anunciado publicamente que o macaco tinha morrido por medo de perder visitantes.

Moishe fez o teste, foi contratado e fez um trabalho fantástico como macaco. Nenhum dos visitantes suspeitou que se tratava de um homem fantasiado. Moishe estava tão à vontade em seu papel que, com o passar do tempo, começou realmente a achar que era um macaco. Porém, certo dia, durante uma apresentação, Moishe se balançou forte demais em uma corda e saiu voando por cima da jaula, em direção à jaula do leão. Ele caiu a meio metro de distância de um leão com dentes muito afiados. Paralisado de medo, o susto fez com que Moishe "acordasse" e lembrasse que ele não era um macaco. Mas a única coisa que conseguiu fazer foi gritar "Shema Israel". O leão olhou para ele e respondeu "Hashem Elokeinu, Hashem Echad". Moishe reconheceu aquela voz. Curioso, ele perguntou:

- Shimi, é você?
- Sim, sou eu. É você, Moishe?
Antes que Moishe pudesse responder, a zebra na jaula ao lado sussurrou:
- Ei, pessoal, falem baixo ou todos nós perderemos nossos empregos..."

Vivemos em uma época de tanta confusão espiritual que não sabemos nem mesmo quem somos de verdade e qual é o nosso papel no mundo. Infelizmente perdemos nossa identidade e nos assimilamos. Então algumas vezes D'us precisa nos chacoalhar, para nos despertar do nosso sono espiritual. 
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, que consiste basicamente do discurso de despedida de Moshé antes da entrada do povo judeu em Israel. Este discurso é fortemente marcado por duras críticas de Moshé, que fez questão de relembrar muitos dos graves erros que o povo cometeu durante os 40 anos em que permaneceu no deserto. A intenção da bronca de Moshé era fazer o povo refletir sobre os erros passados e aprender com eles, evitando repeti-los no futuro. E este é um dos motivos que a Parashá Devarim sempre coincide com uma das datas mais tristes do judaísmo, Tishá Be Av, que neste ano começa logo após o término do Shabat. Tishá Be Av é um dia de jejum e luto, no qual recordamos, entre outras grandes tragédias, a destruição dos nossos dois Templos Sagrados. Como as broncas de Moshé, a essência de Tishá Be Av também é despertar os judeus, levando-os a refletir sobre as transgressões que nós e nossos antepassados cometemos. Porém, será que entendemos realmente o que significa a perda do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado)? Conseguimos sentir de verdade sua falta em nossas vidas?

Ao contrário de muitas gerações passadas, vivemos em uma época de muito conforto. Apesar do antissemitismo venenoso da mídia mundial, vivemos em uma época na qual não sofremos perseguições e podemos cumprir nosso judaísmo sem precisar nos esconder. Além disso, temos uma incrível abundância de alimentos e outros tipos de prazer. Vivemos em uma era tecnológica na qual tudo ficou mais fácil: horas de fila nos bancos foram substituídas por aplicativos de celular; viagens cruzando o oceano, que duravam meses, agora duram apenas horas; e o ato de cozinhar, que significava ficar horas diante de um fogão a lenha, agora se resume a apertar um botão do microondas.

Porém, com tudo mais fácil e abundante, sentimos que no fundo ainda falta alguma coisa. Pode ser uma confusão em relação aos nossos objetivos e a direção que nossa vida deve tomar, outras vezes é uma sensação de que ainda não conseguimos realmente atingir o nosso potencial, ou simplesmente um vazio incômodo, uma sensação de que a vida poderia e deveria oferecer mais. Um exemplo disso é a "crise da meia idade", uma época na qual as pessoas começam a procurar respostas e normalmente não as encontram. Porém, muito antes da meia idade, este sentimento de vazio já começa a borbulhar dentro de nós, indicando que há algo errado ou faltando. Mas vamos ignorando este sentimento, deixando para depois. Somente quando a velhice se aproxima e nossa condição mortal é forçadamente recordada, este sentimento aflora com toda a sua força, causando depressão e desânimo. Mas o que está faltando, se temos vidas com tanto conforto e abundância? Por que não nos sentimos completos mesmo tendo tudo?

Há mais de dois mil anos o povo judeu tinha o Beit Hamikdash em Jerusalém, que constantemente nos recordava quem somos, qual é a nossa verdadeira importância e para onde estamos indo. O Beit Hamikdash era nossa verdadeira "bússola espiritual" e, apesar de ser uma construção física, era um conceito e uma realidade espiritual, uma manifestação física da conexão do povo judeu com D'us. Quando os judeus trazem moralidade e verdade ao mundo, que são características Divinas, então D'us traz Sua presença para este mundo. O próprio comando da Torá sobre a construção do Mishkan (Templo Móvel) reforça o conceito da conexão de D'us com cada judeu: "E façam para Mim um Santuário, e Eu morarei dentro deles" (Shemot 25:8). Não está escrito que D'us morará dentro do Santuário, e sim dentro do coração de cada pessoa que quiser estar conectada a Ele.

Além disso, nossos sábios ensinam que o Beit Hamikdash foi construído em um lugar muito especial, onde a criação do mundo começou. É o mesmo lugar em que Adam e Chavá (Adão e Eva) foram criados. Este também foi o lugar para onde Avraham levou seu filho para ser sacrificado para D'us, e onde Yaacov sonhou com uma escada que chegava até o Céu, na qual subiam e desciam anjos. De acordo com as fontes místicas, este é o lugar onde o Céu e a terra literalmente se tocam. Por isso, era justamente neste lugar que entendíamos quem nós éramos, e podíamos nos conectar ao nosso verdadeiro "eu".

O Midrash (parte da Torá Oral) compara Israel a um olho, Jerusalém à sua pupila, e o Beit Hamikdash a um reflexo na pupila. O Midrash está identificando a Terra de Israel, Jerusalém e o Beit Hamikdash como lugares nos quais podemos alcançar níveis maiores de entendimento e iluminação espiritual. Mas por que a comparação do Beit Hamikdash com um reflexo no olho? Explica o Rav Simcha Barnett que há duas maneiras de ver nosso próprio reflexo em um olho. Uma maneira é através de um espelho, e outra maneira é olhando nos olhos de outra pessoa. Isto representa como o Beit Hamikdash ajudava o povo judeu a viver da maneira correta. O Beit Hamikdash era um espelho para onde podíamos olhar e enxergar a nós mesmos, e nos ajudava a entender quem éramos de verdade. Este espelho nos mostrava que fomos criados à imagem e semelhança de D'us, e nos motivava a viver de acordo com isso. E através desta claridade de quem éramos, estávamos prontos a perceber a Divindade que também havia em cada indivíduo, do mais simples ao mais importante. Podíamos olhar nos olhos dos outros e enxergar neles um pouco nós mesmos, e este reconhecimento permitiu o ponto de início da união verdadeira do povo judeu.

Mas quando nos afastamos das características Divinas, D'us também se afasta de nós. Uma das consequências de D'us se afastar do mundo é a perda do lugar onde Sua presença se manifestava. Quando o Beit Hamikdash foi destruído, o povo judeu ficou literalmente à deriva em um mar escuro e tempestuoso, como pouca orientação e estabilidade. A base de toda a alienação e da baixa autoestima que vemos atualmente no mundo tem sua raiz na destruição do Beit Hamikdash, e mais especificamente por termos "mandado D'us para o exílio" quando fomos exilados por causa das nossas transgressões. Quando uma pessoa verdadeiramente sabe e percebe que foi criado à imagem e semelhança de D'us, ela tem uma autoestima intrínseca. Nossos inimigos nunca conseguiram roubar nossa dignidade e nobreza, pois o judeu sempre soube que sua essência estava conectada a uma verdade que está acima da opressão dos outros povos. Porém, esta claridade já não existe mais.

Talvez seja até mesmo irônico pensar que vivemos em uma geração com poucas dificuldades físicas, e na qual não sofremos perseguições ou proibições de colocar em prática nosso judaísmo, e ao mesmo tempo somos uma geração completamente alienada, na qual perdemos a noção de quem somos de verdade. Esta angústia existencial que sentimos é consequência direta da destruição do Beit Hamikdash. O Beit Hamikdash era um lugar cuja luz deveria brilhar e iluminar o mundo inteiro. Os judeus têm a enorme responsabilidade de se tornar uma luz para as nações. Não podemos evitar nem tentar fugir do nosso destino, pois D'us nos deu uma força que é completamente desproporcional ao nosso número reduzido. É fácil perceber o quanto os judeus se sobressaem em todas as áreas, estão sempre na "linha de frente" da humanidade. Mas é uma pena que, sem nossa "bússola espiritual", sem um direcionamento, este tremendo potencial acaba não sendo utilizado da maneira correta.

Somos os mensageiros de D'us para transmitir ao mundo uma mensagem significativa. Temos a responsabilidade de transmitir ao mundo valores como a dignidade do indivíduo, a justiça, a caridade e a paz, que darão ao mundo uma direção. Porém, o que acontece quando os mensageiros se perdem, deixam de entender a importância de sua mensagem e esquecem até mesmo que estão "sob contrato" com D'us? O que fazer quando a alienação é tanta que invertemos completamente nossa missão, a ponto de, ao invés de ensinar ao mundo nossos valores, nós é que estamos absorvendo e nos comportando com os valores do mundo?

Em Tishá Be Av devemos nos esforçar para sentir a dor de estarmos alienados, como indivíduos e como um povo. Em Tishá Be Av o remédio para nossa situação é através das lágrimas. O Talmud (Taanit 30b) afirma que aquele que chora lágrimas sinceras em Tishá Be Av terá o mérito de ver a reconstrução do Beit Hamikdash. Devemos chorar pelo povo judeu como um todo, que se desviou do caminho. Por nossos amigos e familiares que nunca puderam experimentar a santidade de um Shabat, a doçura do estudo da Torá ou uma vida de Mitzvót. E, principalmente, devemos chorar por nós mesmos, pois poderíamos e deveríamos esperar muito mais da nossa vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
DEUTERONÔMIO 1:1-3:22, Is.1:1-27

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O VALOR DE UMA VIDA - PARASHIÓT MATÓT E MASSEI 5776

Após o término da Segunda Guerra Mundial, uma carta anônima foi encontrada em um Campo de Concentração nazista, contendo a seguinte mensagem:

"Prezados professores, sou sobrevivente de um Campo de Concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver: câmaras de gás construídas por engenheiros formados, crianças envenenadas por médicos diplomados, recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas, mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas dúvidas sobre a educação. Meu pedido é: ajudem seus alunos a se tornarem humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e saber aritmética só será importante se nossas crianças forem mais humanas"

De nada adiantam os títulos e as condecorações se a pessoa não sabe o verdadeiro valor de uma vida humana. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Matót (literalmente "Tribos") e Massei (literalmente "Viagens"). A Parashá Matót fala sobre a importância de manter as promessas e os juramentos, sobre o ataque do povo judeu ao povo de Midian e sobre o desejo das tribos de Reuven e Gad de se estabelecer antes do Rio Jordão, fora da Terra de Israel. Já a Parashá Massei descreve as viagens que o povo judeu fez durante os 40 anos em que permaneceu no deserto, apontando todos os lugares onde o povo acampou. Além disso, a Parashá Massei descreve as "Cidades de Refúgio", locais para onde uma pessoa que havia assassinado de forma não intencional deveria ir e permanecer até a morte do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). O fato de a Torá chamar alguém que matou sem intenção de "assassino" já demonstra o quanto D'us é rigoroso com cada vida humana.

A Torá ressalta que as leis da Cidade de Refúgio somente se aplicavam a um assassinato acidental, como no caso da lâmina do machado de um lenhador que escapou do cabo e atingiu fatalmente outro lenhador. Porém, um assassino intencional não podia se abrigar nas Cidades de Refúgio, pois devia ser punido com a pena de morte. O final da Parashá ressalta que não devemos ser lenientes com um assassino intencional, como está escrito: "Você não deve aceitar um resgate pela vida de um assassino que merece morrer, você deve matá-lo... Você não deve corromper a terra onde você está, pois o sangue corrompe a terra" (Bamidbar 35:31,33). Estes versículos nos ensinam que não podemos ser tolerantes nem racionalizar e buscar permissões para permitir assassinatos, e aquele que intencionalmente tira uma vida não deve receber a possibilidade de "resgatar sua liberdade" através de algum tipo de pagamento. O versículo termina ressaltando que, caso um assassinato seja tolerado ou racionalizado, o sangue derramado será considerado uma abominação e contaminará a Terra de Israel, o local onde a Presença de D'us reside.

Porém, há algo que nos chama a atenção quando prestamos atenção na linguagem do versículo. A palavra "Iachnif", que significa "corromper", vem da mesma raiz de "Chanufá", que significa "bajulação". Qual é a conexão entre corromper e bajular? Como deixar um assassino vivo pode "bajular a terra"?

É interessante perceber que não é apenas a Torá que lida de forma tão rigorosa com o assassinato intencional. De acordo com as leis de todos os povos do mundo, o assassinato intencional é considerado um delito extremamente grave e é normalmente punido com a máxima rigorosidade, com penas que variam de muitos anos de detenção ou prisão perpétua até a morte do assassino. Mas será que a forma como a Torá enxerga a gravidade do assassinato é igual à forma como os povos do mundo enxergam?

Explica o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) que, apesar das aparentes semelhanças na rigorosidade com o qual os assassinos são tratados, há uma enorme e essencial diferença entre a forma como a Torá e as leis dos outros povos enxergam o assassinato intencional e sua consequente punição. Os outros povos olham o assassinato como algo que estraga e coloca em risco a continuidade do mundo, e por isso o assassino deve ser duramente punido. Os outros povos veem os duros castigos aplicados ao assassino como uma forma de erradicar do mundo aqueles que querem destruir a humanidade.

Porém, qual é o grande perigo de pensar desta maneira? Quando punimos de maneira muito rigorosa uma pessoa pelo fato de considerarmos que ela coloca em risco a humanidade, então corremos o risco dos limites e das definições de quem são os "perigos para a humanidade" mudarem de acordo com as vontades e as necessidades de cada sociedade. Pessoas inocentes podem ser mortas a sangue frio por assassinos que acreditam que estão salvando o mundo. Isto explica por que explodem tantas guerras, e por que surgem grupos como o Estado Islâmico, que em nome de garantir a continuidade de um mundo "correto" matam milhares de pessoas inocentes que nunca fizeram mal a ninguém. E se parece um exagero pensar assim, basta lembrar o assassinato a sangue frio de seis milhões de judeus durante o Holocausto. Quem eram os assassinos? Não eram os bárbaros, cossacos ou vikings. Eram médicos, engenheiros e policiais, pessoas que deveriam zelar pela vida, mas que escolheram assassinar homens, mulheres, crianças e bebês com requintes de crueldade.

Como tantos alemães participaram de assassinatos a sangue frio no Holocausto, ou simplesmente se calaram e foram coniventes com os crimes nazistas? A mídia alemã conseguiu, através de uma propaganda virulenta e mentirosa, convencer a maioria do povo alemão que os judeus eram a causa de todos os problemas do mundo. Ao transformar um judeu na "causa dos problemas", os nazistas conseguiram convencer as pessoas que matar um judeu não era um assassinato, e sim a eliminação de um problema, e que a morte deles seria pelo bem da humanidade.

Outra consequência negativa desta visão equivocada é não sabermos valorizar cada instante da vida de um ser humano. Por exemplo, os momentos finais de um doente terminal, a vida de uma pessoa muito idosa e até mesmo a vida de um feto vão perdendo seu valor em uma sociedade que pensa que, em prol da continuidade da humanidade, podemos decidir quem pode viver e quem deve morrer. A eutanásia vem ganhando cada vez mais adeptos, até mesmo entre os médicos, que acreditam que não há sentido em prolongar a vida de alguém que está em estado vegetativo, inclusive pelo fato desta pessoa não produzir mais nada para a humanidade. Infelizmente a eutanásia é defendida por muitos como um ato de bondade, mas sua raiz verdadeira vem dos nazistas. Os alemães permitiram o assassinato de milhares de doentes mentais e pessoas inválidas a partir de 1939, em um projeto chamado "Aktion T4". Deficientes físicos e mentais eram considerados partes "inúteis" da sociedade e, por isso, eram assassinados a sangue frio. O projeto somente foi possível pois recebeu intensa contribuição dos médicos alemães. Aqueles que haviam jurado, em suas formaturas, dedicar suas vidas para curar os doentes, participaram ativamente em mais de 250 mil assassinatos, apenas por que os mortos eram considerados "inúteis". Os alemães demonstraram claramente que não sabiam dar o devido valor a uma vida humana. Passar do assassinato de inválidos e doentes mentais ao assassinato de seis milhões de judeus foi apenas um passo.

Já a visão da Torá em relação ao assassinato é completamente diferente em sua essência. A gravidade do assassinato não está relacionada com o conceito da continuidade da humanidade como um todo, e sim com o inestimável valor intrínseco de cada vida. A diferença na prática é que, mesmo quando uma pessoa não contribui mais nada para a humanidade, ainda assim é proibido matá-la. Cada minuto da vida de um paciente terminal é visto pela Torá com a mesma santidade que a vida da pessoa mais importante do mundo. Mesmo em relação a um doente mental ou um doente terminal com poucas horas de vida existe a gravíssima proibição de diminuir seu tempo de vida, mesmo que seja em alguns instantes. A Halachá (Lei Judaica) permite inclusive que um judeu desrespeite as leis de Shabat mesmo que seja apenas para prolongar um pouco mais a vida de um paciente terminal. A "bondade" de desligar os aparelhos de um doente é vista pela Torá com um ato bárbaro de assassinato e de desprezo pelo valor da vida humana. É por isso que a Torá trata o assassino intencional de maneira tão rigorosa, pois ele desprezou uma das coisas mais sagradas: uma vida humana.

Esta diferença entre a visão judaica e a visão dos outros povos é justamente o que o versículo está ressaltando. Quando alguém mata baseando-se no fato da outra pessoa estar "estragando a continuidade da humanidade", é como se ela estivesse "bajulando a terra", pois de acordo com seu ponto de vista equivocado, cada indivíduo é apenas secundário em relação à terra, isto é, em relação à humanidade como um todo, e a humanidade não deseja esta pessoa. Este ponto de vista faz com que o valor de uma vida não seja absoluto, e sim relativo. Portanto, matar alguém "em prol da humanidade" é como se fosse um ato de bajulação da humanidade.

O versículo vem nos ensinar que a "bajulação da terra" é um ato de corrupção da verdade, pois de acordo com a Torá a terra é secundária em relação a cada indivíduo. Cada ser humano foi criado à imagem e semelhança de D'us e, portanto, sua vida e sua existência têm valores inestimáveis. Cada ser humano é um mundo por si só, como afirma o Talmud (Sanhedrin 37a): "Quem salva uma vida é como se tivesse salvado o mundo inteiro". Este conceito não se aplica apenas em relação a não assassinar, mas também em relação ao respeito que devemos dar a cada pessoa, pois, apesar dos nossos defeitos, temos um valor inestimável aos olhos de D'us.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Matôt    Nm. 30:1- 32:42, Je 1:1-2:3
Mass’êi  Nm. 33:1-36:13, Je 2:4 – 28, 3:4, 4:1-2

sexta-feira, 29 de julho de 2016

ESCUTANDO OS NOSSOS SÁBIOS - PARASHÁ PINCHÁS 5776

"Certa vez soldados do exército russo vieram até a casa do Rav Yitzchak Zev Soloveitchik zt"l (Bielorússia, 1886 - Israel, 1959), mais conhecido como Brisker Rav, intimando-o a acompanhá-los. Um soldado judeu havia sido condenado à morte por dormir durante seu período de sentinela, e que este soldado havia pedido para falar com um rabino antes de morrer. Porém, para espanto dos seus alunos e dos soldados russos, o Brisker Rav se recusou a ir falar com o prisioneiro condenado à morte.

Após algum tempo, uma segunda delegação de soldados chegou à casa do Brisker Rav, exigindo que ele se apresentasse imediatamente na prisão, sob o risco de receber um duro castigo caso se recusasse. Mas o Brisker Rav não se dobrou diante das ameaças e reafirmou que não iria. Os alunos ficaram visivelmente confusos, pois além de colocar a própria vida em risco, por que o rabino não se importava com os sofrimentos daquele pobre judeu condenado à morte? Por que não queria ir confortá-lo na prisão e ajudá-lo naqueles últimos momentos difíceis?

Foi então que uma terceira delegação de soldados bateu na porta. Porém, desta vez eles não vinham para intimar o Brisker Rav a comparecer à prisão, e sim para avisá-lo que sua presença não era mais necessária. A família daquele jovem soldado havia apelado à Suprema Corte de Justiça e a sentença de morte havia sido revogada. Quando os alunos questionaram de onde o Brisker Rav havia conseguido reunir forças para aquela atitude heroica, ele explicou:

- Eu simplesmente cumpri a Halachá (Lei Judaica). De acordo com o Rambam (Maimônides), se um judeu inocente é injustamente condenado à morte por um tribunal não judaico, é proibido a um judeu entregá-lo às autoridades para que ele seja executado, mesmo que para isso seja necessário colocar a própria vida em risco. Se eu tivesse ido à prisão, o rapaz teria sido executado tão logo eu saísse. Ao seguir a Halachá, a vida daquele jovem judeu acabou sendo salva".

Muitos ensinamentos e decretos rabínicos parecem não fazer sentido. Mas eles são os verdadeiros conhecedores da Torá, e em suas atitudes eles levam em consideração muitos detalhes que nós desconhecemos. 
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Nesta semana lemos a Parashá Pinchás, que começa descrevendo um ato heroico de Pinchás, neto de Aharon HaCohen. No final da Parashá da semana passada, os povos de Moav e Midian haviam intencionalmente causado com que o povo judeu transgredisse com imoralidades e idolatria, transgressões que D'us abomina, e uma praga começou a dizimar os judeus. Até mesmo pessoas importantes transgrediram, como o príncipe da tribo de Shimon, Zimri, que cometeu um ato público de imoralidade com uma princesa de Midian chamada Kosbi. Pinchás, tomado por um espírito de "Kanaut" (zelo pela honra de D'us), se levantou e, mesmo arriscando a vida, aplicou aos dois transgressores ilustres a pena de morte, fazendo com que a praga cessasse. O total de mortos na praga foi de vinte e quatro mil judeus, e se não fosse a intervenção de Pinchás, a tragédia teria sido ainda pior.

Este ato de Pinchás é semelhante a outro evento descrito na Torá. Quando Yaacov estava voltando para casa, depois de passar muitos anos trabalhando para seu tio Lavan, sua filha Diná foi sequestrada e violentada pelo príncipe Shechem. Dois filhos de Yaacov, Shimon e Levi, inconformados com aquele ato de desonra, quiseram aplicar a justiça ao príncipe e ao resto da população, pois haviam presenciado aquela violência e não fizeram nada. Eles bolaram um plano para enfraquecer os homens da cidade e em seguida mataram todos. Aparentemente Shimon e Levi agiram corretamente, pois estavam motivados pela mesma "Kanaut" de Pinchás, isto é, o zelo pela honra de D'us e a abominação pelos atos imorais.

Porém, o que nos chama a atenção é a diferença do desfecho nos dois casos. O ato de Pinchás agradou muito a D'us, e ele foi recompensado de uma maneira especial por ter colocado a própria vida em risco pela honra de D'us. Quando Aharon e seus filhos foram apontados como Cohanim (sacerdotes) e ungidos, somente os descendentes que nasceram daquele momento em diante se tornaram Cohanim. Mas Pinchás, neto de Aharon, já havia nascido naquele momento e, portanto, não seria Cohen, apenas Levi. D'us concedeu a Pinchás, como recompensa por seu esforço, que ele e seus descendentes se tornassem Cohanim. Já o desfecho do ato de Shimon e Levi foi que, no momento do falecimento de Yaacov, enquanto alguns dos seus filhos receberam Brachót (bênçãos), Shimon e Levi foram duramente repreendidos. Porém, se Shimon e Levi também estavam movidos pela mesma "Kanaut" de Pinchás, e também colocaram suas vidas em risco para fazer o que era correto, por que o desfecho das duas histórias foi tão diferente?

Explica o Rav Yitzchak Zilberstain shlita que a característica de "Kanaut", de agir motivado pelo zelo com a honra de D'us, exige um equilíbrio perfeito de cálculos e um nível muito grande de precisão. É necessário checar o ato de acordo com diferentes pontos de vista, e deve ser levado em consideração cada detalhe, inclusive o momento e o local em que o ato será realizado. Além disso, para uma pessoa estar apta a fazer um ato de "Kanaut", ela deve ser uma profunda conhecedora das Halachót, em especial daquelas relacionadas com seu ato, pois somente assim é garantido que seu ato está completamente de acordo com a vontade de D'us. E, finalmente, a pessoa deve refletir e checar se seu ato não está sendo influenciado por nenhum desejo ou inclinação pessoal.

Em geral, para ter certeza de que não estamos sendo parciais em nosso julgamento, é necessário o aconselhamento com um grande sábio de Torá, que pode ajudar a decidir se o ato planejado é realmente correto e aplicável. E esta foi uma das diferenças fundamentais entre o ato de Pinchás e o ato de Shimon e Levi. Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Pinchás, antes de executar seu ato de "Kanaut", se aconselhou com Moshé Rabeinu, o grande sábio da geração. Ao escutar o caso, Moshé fez todos os cálculos necessários e confirmou a Pinchás que, naquele caso e naquelas circunstâncias, aplicar a pena de morte era realmente o correto. Por isso Pinchás recebeu uma recompensa tão grande.

Já no caso de Shimon e Levi, o grande sábio da geração era seu pai, Yaacov. Porém, de acordo com Rashi, ele não foi consultado antes da execução do plano. E se Shimon e Levi tivessem se aconselhado, certamente Yaacov os teria convencido a não colocar o plano em prática, pois havia um erro no cálculo deles. Apesar da indignação de Shimon e Levi ser totalmente válida, pois a falta de justiça diante de uma desonra tão grande era algo realmente vergonhoso e imoral, eles não levaram em consideração todas as condições necessárias para fazer o ato de "Kanaut".

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), Yaacov tinha um forte motivo para que aquele ato não fosse feito, como está escrito: "E disse Yaacov para Shimon e Levi: Vocês me causaram problemas, me envergonhando diante dos habitantes da terra" (Bereshit 34:30). O Sforno explica que Yaacov estava preocupado com o "Chilul Hashem" (denegrir o Nome de D'us) que o ato de Shimon e Levi poderia causar, pois para colocar seu plano em prática, eles haviam enganado os habitantes da cidade, podendo fazer com que Yaacov, o símbolo da verdade e da retidão, fosse visto pelos outros povos como um mentiroso e enganador. Mas qual foi a enganação?

Para poder matar todos os habitantes da cidade do príncipe Shechem, Shimon e Levi bolaram um plano. Eles disseram que queriam morar junto com os habitantes, e que também aceitariam se casar entre si. Porém, com astúcia, Shimon e Levi afirmaram que havia um impedimento, pois não poderiam viver com eles como se fossem um único povo enquanto as pessoas não fizessem o Brit Milá (circuncisão). Eles garantiram que, caso todos os homens da cidade aceitassem fazer o Brit Milá, então a família de Yaacov permaneceria vivendo com eles. A verdade é que Shimon e Levi nunca tiveram a intenção de viver com eles como se fossem um povo só. Eles exigiram que os homens fizessem Brit Milá apenas para enfraquecê-los e tornar mais fácil o ato de vingança. De acordo com a Torá, o terceiro dia depois do Brit Milá é o dia em que a pessoa está mais fraca e debilitada, e foi justamente neste dia que Shimon e Levi executaram seu plano e mataram todos os habitantes, inclusive o príncipe Shechem, que havia cometido o ato de desonra com Diná.

Portanto, a grande crítica de Yaacov, e que de acordo com o seu entendimento estava acima da "Kanaut" de Shimon e Levi, é que eles não poderiam ter matado todos os habitantes depois de terem garantido a eles que, caso fizessem o Brit Milá, poderiam se unir e viver em paz com a família de Yaacov. Como eles realmente fizeram o Brit Milá, ter matado os habitantes foi uma atitude de mentira e enganação. O maior erro de Shimon e Levi foi ter garantido que viveriam com o povo do príncipe Shechem e se casariam entre si, pois eles sabiam que esta mistura e assimilação estava proibida. Estes fatores fizeram com que o ato de "Kanaut", ao invés de ter sido uma Mitzvá, acabasse sendo uma transgressão, resultando em uma merecida repreensão a Shimon e Levi. Eles ficaram tão cegos com a desonra de sua irmã que tomaram uma atitude precipitada. Apesar da grandeza deles, faltou o aconselhamento com um sábio de Torá.

Mas não é apenas um "Kanai" que precisa se aconselhar com os sábios de Torá. Cada um de nós também tem a obrigação de estar em contato com os sábios, para nos aconselharmos, escutarmos seus ensinamentos e aprendermos com seus atos. Muitas vezes tomamos decisões importantes utilizando apenas nossa lógica, mas que é muitas vezes limitada e não leva em consideração todos os aspectos necessários para uma decisão completamente equilibrada. Somos pouco conhecedores da Halachá e, portanto, suscetíveis a cometer erros por desconhecimento. Os grandes sábios de cada geração, além dos conhecimentos de Torá, ainda recebem uma "Siata Dishmaia" (ajuda especial dos Céus) para saber lidar com as questões que surgem em cada época e para vencer os desafios que se renovam.

Normalmente nossas decisões são muito influenciadas pelos nossos desejos e inclinações. Somos parciais em nossos julgamentos, e isto nos faz cometer erros em nossos cálculos. Somente nos aconselhando com alguém "de fora", que não está sob os mesmos tipos de influências, é que podemos decidir com ponderação o que é realmente o correto a se fazer em cada situação. Por isso, é muito importante ter contato com algum sábio de Torá, para nos aconselharmos nas mais diversas áreas da vida, em especial nos momentos em que fazemos escolhas que terão impactos de longo prazo.

Como na história do Brisker Rav, muitas vezes não entendemos os ensinamentos e o comportamento dos nossos sábios. Mas precisamos ter a humildade de saber que nossa dificuldade é proveniente do nosso desconhecimento da Halachá. Nossos sábios estão muito mais conectados com a espiritualidade e conhecem de maneira muito mais profunda o que D'us quer de nós. Por isso, nas decisões importantes da vida, é fundamental nos aconselharmos com um sábio de Torá se quisermos fazer o que é correto de verdade. Isto pode evitar que a pessoa cometa, de maneira equivocada, uma transgressão achando que está fazendo uma grande Mitzvá.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21

sábado, 23 de julho de 2016

EQUILÍBRIO ENTRE O MATERIAL E O ESPIRITUAL - PARASHÁ BALAK 5776

"O Sr. Jorge estava reunido com um grupo de amigos da sinagoga, no meio de uma animada conversa. De repente, ele fez um desabafo:

- Eu tenho ido à sinagoga por trinta anos. Durante este tempo, ouvi pelo menos duas mil prédicas do rabino. Porém, não consigo lembrar de quase nenhuma. Penso que estou perdendo meu tempo, e os rabinos estão desperdiçando o tempo deles dando semanalmente estas prédicas!

A conversa tomou ares de discussão, todos querendo falar ao mesmo tempo, alguns criticando, outros concordando com o argumento filosófico do Sr. Jorge. O Sr. David, que até aquele momento havia permanecido em silêncio, pediu permissão para falar:

- Eu estou casado há mais de trinta anos. Durante todo este tempo, minha esposa deve ter cozinhado pelo menos vinte mil refeições. Apesar disso, eu não consigo me lembrar do cardápio de quase nenhuma delas. Mas de uma coisa eu sei: todas elas me nutriram e me deram a força que eu precisava para fazer o meu trabalho. Se minha esposa não tivesse me dado estas refeições, hoje eu não estaria mais vivo.

- Da mesma maneira - conclui sabiamente o Sr. David - se eu não tivesse ido à sinagoga para alimentar minha fome espiritual, hoje eu não estaria vivo espiritualmente."

Precisamos nos alimentar para manter o nosso corpo, mas também precisamos nos alimentar de espiritualidade para manter a nossa alma. Somente o material e o espiritual juntos, em equilíbrio, podem nos manter vivos de verdade. 
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A Parashá desta semana, Balak, começa descrevendo o desespero do rei do povo de Moav, chamado Balak, com a aproximação esmagadora do povo judeu, que havia vencido todos os inimigos que haviam aparecido no seu caminho. Sabendo que não tinha chances de lutar contra um povo que tinha uma proteção Divina especial, Balak contratou o profeta Bilaam, que tinha o poder de amaldiçoar até mesmo povos inteiros. Porém, apesar dos esforços de Bilaam, D'us protegeu o povo judeu e as maldições se transformaram em Brachót (bênçãos).

No final da Parashá, a Torá nos descreve que Bilaam finalmente teve uma ideia de como derrotar o povo judeu: fazendo-os cometer transgressões, para que perdessem a proteção Divina e fossem castigados. Com a ajuda do povo de Midian, que nutria um ódio gratuito pelo povo judeu, a ideia de Bilaam funcionou. Seduzidos por jovens mulheres de Midian, os judeus transgrediram e terminaram fazendo idolatria, e foram castigado com uma terrível praga. Esta tragédia foi um evento muito tristes na história do povo judeu.

A tristeza que esta tragédia causou nos recorda do período de três semanas que vamos entrar na próxima semana, chamado de "Bein Hametsarim" (literalmente "entre os apertos"), que vai do dia 17 de Tamuz até o dia 9 de Av. O nome "Bein HaMetsarim" é baseado em um versículo do profeta Yirmiahu: "Todos seus perseguidores alcançaram-na dentro dos apertos" (Eichá 1:3). E este Domingo (24/07) é o dia 17 de Tamuz, um dia de luto e muita tristeza para o povo judeu, no qual jejuamos. A causa de tanta tristeza é que justamente neste dia aconteceram cinco eventos trágicos na nossa história. Neste dia Moshé quebrou as Tábuas que continham os Dez Mandamentos; durante o cerco ao Primeiro Templo, neste dia terminou o estoque de animais utilizados para os Korbanót (sacrifícios); na época do Segundo Templo, foi neste dia que as muralhas de Jerusalém foram rompidas pelos nossos inimigos; neste dia Apostamus, um oficial romano, rasgou e queimou um Sefer Torá; e também neste mesmo dia uma idolatria foi colocada dentro do Templo Sagrado.

Destes incidentes, talvez o que mais nos chama a atenção é a quebra das Tábuas. Moshé havia subido no Monte Sinai para receber a Torá, e avisou ao povo que voltaria quarenta dias depois. Porém, o povo judeu errou nos seus cálculos e ficou desesperado quando o prazo expirou e Moshé não voltou. Quando finalmente Moshé desceu do Monte Sinai, trazendo em suas mãos as Tábuas contendo os Dez Mandamentos, ele se deparou com o povo judeu cantando e dançando alegremente pela construção do bezerro de ouro, o seu novo "líder". Ao ver aquela cena terrível, Moshé quebrou as Tábuas que trazia nas mãos. O que esta quebra significou ao povo judeu?

Há um versículo que descreve um detalhe interessante sobre as Tábuas: "E as Tábuas eram feitas por D'us, e a escrita era a escrita de D'us, gravada nas Tábuas" (Shemot 32:16). A Torá está nos ensinando que as letras das Tábuas eram esculpidas, e não simplesmente escritas com tinta. A Mishná (Pirkei Avót 6:2) se aprofunda ainda mais e nos ensina que a linguagem "Charut", que significa "gravada", vem da mesma raiz de "Cherut", que significa liberdade. Desta semelhança entre as duas linguagens a Mishná aprende que somente é livre de verdade aquele que se dedica ao estudo da Torá.

Porém, este ensinamento do Pirkei Avót é difícil de ser entendido. A Torá é composta por centenas de Mitzvót, que acabam limitando muito nossa vida. Tomando como exemplo a Kashrut (leis alimentares), há muitos tipos de comidas saborosas que a Torá nos proíbe de consumir, como a carne de porco e os frutos do mar. A Torá nos traz regras para todas as áreas da vida, desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir. Então como a Mishná pode afirmar que apenas aquele que estuda Torá pode ser livre de verdade? De que liberdade a Mishná está falando? Além disso, qual é a conexão entre o entendimento mais simples das palavras do versículo, de que as palavras dos Mandamentos eram gravadas nas Tábuas, com a interpretação mais profunda dos nossos sábios, de que apenas a Torá nos dá a liberdade verdadeira?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a dificuldade para entender a Mishná do Pirkei Avót vem do nosso conceito equivocado sobre liberdade. De acordo com o nosso entendimento, a liberdade é normalmente definida como o direito ou privilégio de agir ou se expressar sem nenhum tipo de coerção, da maneira que desejamos. Já a definição de liberdade da Torá leva em consideração o fato de que normalmente nos comportamos de uma maneira que se esconde sob o disfarce de "liberdade de expressão", mas na realidade estamos submetidos às mais diversas forças. Pensamos que somos livres, mas sem nenhum tipo de limite, na realidade somos completamente controlados pelas pressões sociais ou pelos nossos desejos físicos e emocionais. Estamos conscientes da natureza destrutiva dos nossos atos, mas nos sentimos impotentes para superar a ilusão da aceitação social e da autogratificação.

Utilizando novamente como exemplo o assunto alimentar, as pessoas acham que são livres, pois podem comer o que têm vontade, no momento em que quiserem. Mas será que somos livres de verdade? Alguma vez deixamos de comer algo gostoso por saber que faz mal à saúde? Conseguimos manter nosso autocontrole diante de uma mesa de sobremesas, mesmo sabendo do mal que o açúcar causa em nosso corpo? Quantas pessoas continuam fumando, apesar de todos os estudos que comprovam os terríveis males à saúde deste vício? Quantas vezes vestimos uma roupa apenas porque está na moda, mesmo que não é o que gostamos? Isto é liberdade?

A solução para nos libertarmos destes tipos de influências é a Torá, que nos capacita e nos dá a habilidade de superarmos estas forças coercitivas. A Torá auxilia na remoção do conflito que existe no processo de tomada de decisões, nos possibilitando nos comportar da maneira apropriada em relação aos nossos desejos. Podemos e devemos usar os nossos sentidos físicos, mas de maneira ponderada. Os desejos devem nos trazer energia, não consumi-la. É por isso que estar limitado por restrições não implica em uma perda da liberdade. As restrições da Torá são, em última instância, para o nosso próprio benefício. Elas nos impedem de fazer atos que nós realmente gostaríamos de evitar. A Torá nos dá autocontrole, e as Mitzvót são um treinamento diário para que nosso lado racional tome as decisões, não o nosso lado emocional ou os nossos desejos. A Torá nos ajuda a fazer o que é realmente bom para nós, mesmo que não seja socialmente o mais popular nem traga mais prazeres imediatos.

Este conceito também está implícito nas palavras do versículo mencionado anteriormente. As palavras dos Dez Mandamentos representam a espiritualidade, enquanto as Tábuas representam o mundo material. Se os Dez Mandamentos tivessem sido apenas escritos, como tinta sobre o pergaminho, então isto implicaria em uma imposição e coerção das palavras sobre as Tábuas. Mas o Talmud (Meguilá 2b) nos ensina que D'us fez com que as letras dos Dez Mandamentos estivessem milagrosamente suspensas nas Tábuas. Explica o Rav Yohanan Zweig que parte do milagre foi que as Tábuas se enrolaram em volta das palavras, dando forma para as letras. O que isto nos ensina? Que o material e o espiritual não são concorrentes, e sim complementares, podendo coexistir sem nenhum tipo de conflito. É possível, através do estudo da Torá, utilizar o material e o espiritual de maneira equilibrada.

Todos nós temos uma tendência natural de nos comportarmos da maneira correta. Temos um "alarme interno", chamado consciência, que nos avisa quando estamos fazendo algo errado. Mas este "alarme" pode ser abafado dentro de nós, e até mesmo desligado, por impedimentos sociais ou desejos internos que mascaram nossos verdadeiros sentimentos. A Torá nos ajuda a retirar estes impedimentos, vencendo os conceitos errados e os sistemas de valor equivocados criados pela sociedade.

Agora podemos entender, de maneira mais profunda, que a quebra das Tábuas representou a perda da liberdade verdadeira. Esta é uma das maiores tragédias do ser humano, ser escravo achando que é livre, ser dominado por seus desejos ou pelas imposições sociais e pensar que está livre para decidir. A Torá nos dá a liberdade verdadeira, pois é através dos limites e das restrições que poderemos ser quem nós queremos ser de verdade.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

sexta-feira, 15 de julho de 2016

REFLETINDO SOBRE A VIDA - PARASHÁ CHUKAT 5776

"Um rabino certa vez perguntou para um de seus mais destacados alunos:

- Você consegue frequentemente pensar sobre D'us durante o dia?

O aluno pensou por alguns instantes e respondeu:

- Rabino, eu acordo todos os dias às 5 da manhã e estudo até o horário da reza de Shacharit. Depois eu tomo um rápido café da manhã e volto para o Beit Midrash (local de estudo de Torá), onde passo toda a manhã estudando sem parar. Faço uma curta pausa para comer algo no almoço e rezar Minchá, e depois já volto correndo para o Beit Midrash para continuar meus estudos. De noite faço mais uma pequena e rápida pausa para o jantar e a reza de Arvit, e continuo estudando até o limite das minhas forças. Quando eu já não aguento mais, eu me arrasto até o meu quarto e desabo de cansaço na cama.

Então, em um tom de desabafo, ele concluiu:

- Rabino, com tantas coisas que eu faço durante o dia, com tanto estudo de Torá e Tefilót (rezas), como você ainda queria que sobrasse tempo para pensar em D'us?"

Parece piada, mas às vezes estamos tão envolvidos com a nossa "Avodat Hashem" (Serviço Divino) que acabamos perdendo de vista o propósito do que estamos fazendo: desenvolver nosso relacionamento com D'us. 
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A Parashá desta semana, Chukat (literalmente "Lei, decreto"), termina descrevendo a história de como o povo judeu conquistou a cidade de Cheshbon das mãos dos Emorim. Na verdade, esta cidade originalmente pertencia ao povo de Moav, até que Sichon, rei dos Emorim, conseguiu derrotar Moav e conquistar a cidade, como diz o versículo: "Por isso dizem os 'Moshlim': venham para Cheshbon, que ela possa ser construída e estabelecida como a cidade de Sichon" (Bamidbar 21:27).

Mas o que significa a linguagem "Moshlim"? A explicação mais simples é que o versículo se refere àqueles que falam "Mashalim" (poemas). De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), refere-se à Bilaam, o grande profeta das nações do mundo, e seu pai Beor. Sichon tentou por diversas vezes conquistar a cidade de Cheshbon, mas falhou. Então ele contratou Bilaam e Beor, que conseguiram ajudá-lo a conquistar a cidade utilizando suas maldições. Para celebrar a vitória, Bilaam e Beor declamaram um poema, anunciando que Cheshbon, que até então era a grande fortaleza de Moav, havia se tornado a capital de Sichon, e que de lá os Emorim avançariam como fogo, devorando as outras cidades de Moav.

Porém, o Talmud (Baba Batra 78b) traz outra mensagem "oculta" nas palavras deste versículo. A linguagem "Moshlim" também significa "aqueles que dominam", e a linguagem "Cheshbon" também significa "fazer as contas". O Talmud ensina que o versículo pode ser lido da seguinte maneira: "Por isso dizem os 'Moshlim', isto é, aqueles que dominam suas más inclinações: venham para 'Cheshbon', isto é, vamos fazer as contas do mundo, considerar as perdas que temos quando fazemos uma Mitzvá comparado com o que ganhamos com ela, e o que ganhamos com uma transgressão comparado com o que perdemos com ela".

Nossos sábios explicam que "Cheshbon Hanefesh" é o ato de refletir sobre as nossas atitudes, e envolve a revisão de quais são os nossos objetivos na vida e a avaliação se estamos ou não vivendo de acordo com estes objetivos. As Mitzvót têm seus preços, que são os investimentos financeiros, o nosso tempo e a nossa dedicação, mas trazem recompensas eternas no Olam Habá (Mundo Vindouro). Já as transgressões têm seus benefícios momentâneos, que pode ser algum tipo de prazer material, mas o preço a ser pago é uma perda por toda a eternidade. Aquele que faz Cheshbon HaNefesh reflete sobre as perdas e ganhos, e certamente se esforçará para cumprir mais Mitzvót e evitar a todo custo as transgressões.

Mas este ensinamento do Talmud desperta um grande questionamento, pois aparentemente apenas aqueles que dominam suas más inclinações nos incentivam a fazer "Cheshbon Hanefesh", implicando que aqueles que não dominam suas más inclinações não acreditam que a pessoa deva fazer "Cheshbon Hanefesh". Mas será que há alguém que acha que não devemos refletir sobre os nossos atos? Que mensagem o Talmud quer nos transmitir?

Explica o Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), mais conhecido como Ramchal, em sua obra "Messilat Yesharim", que "aqueles que dominam suas más inclinações" são as pessoas que conseguiram desenvolver um entendimento mais profundo sobre as artimanhas do Yetser Hará (má inclinação), e por isso estão conscientes da necessidade de estarem sempre vigilantes contra as táticas que ele utiliza para nos fazer transgredir. Estas pessoas sabem que a ferramenta mais importante para vencer o Yetser Hará é o Cheshbon Hanefesh constante, e por isso sempre incentivam as outras pessoas a também fazerem Cheshbon HaNefesh.

Já "aqueles que não dominam suas más inclinações" são aqueles que não estão conscientes de como o Yetser Hará está constantemente nos enganando e nos encaminhando para os maus atos e para um estilo de vida indesejável. Esta pessoa vive de forma tão despreparada em relação às forças do Yetser Hará que passa a vida inteira tropeçando, como um cego que caminha na escuridão, inconsciente dos numerosos obstáculos que a aguardam pela frente. O Talmud não quer ensinar que este tipo de pessoa não concordaria sobre a importância do Cheshbon Hanefesh. Porém, por não entender como funcionam os ataques do seu Yetser Hará, ela não reconhece sozinha a necessidade de fazer Cheshbon Hanefesh, e acredita que está sempre tudo bem.

Qual é o principal fator que causa com que uma pessoa perca o entendimento de qual é o propósito verdadeiro da vida? Explica o Ramchal que as pessoas ficam tão absorvidas em suas atividades diárias que acabam não tendo a oportunidade de parar e verificar a direção que suas vidas estão tomando. Na realidade, esta é uma das principais táticas do Yetser Hará, de nos trazer cada vez mais ocupações e atividades, pois o Yetser Hará sabe que se a pessoa parasse para refletir e analisasse suas ações, então ela reconheceria as drásticas mudanças necessárias e consertaria seus atos. Então o Yetser Hará nos deixa tão ocupados que não sobra tempo livre nem mesmo para pensarmos sobre a direção das nossas vidas.

De acordo com o Rav Yehonasan Gefen, este conceito pode ser resumido em uma simples frase: "Há uma grande diferença entre uma atividade e uma realização". Uma pessoa pode ser extremamente ocupada, mas se ela parar e examinar o que está realmente realizando de maneira significativa na vida, pode ficar decepcionada. Muitas vezes estamos ocupados, realmente ocupados. Mas o que estamos fazendo hoje em dia fará alguma diferença em longo prazo? Estamos investindo nosso tempo e nossas energias nas coisas certas?

Se o Rav Moshe Chaim Luzzato já apontava como grande problema, há mais de 300 anos, as avalanches de atividades que surgem no nosso cotidiano, o que dizer do nosso desafio atual, em um mundo moderno e digital? Estamos saturados com aparelhos e tecnologias que conseguem nos manter ocupados e distraídos 24 horas por dia. Praticamente não conseguimos manter mais nenhuma conversa sem sermos interrompidos por uma chamada de celular, por um e-mail ou por uma mensagem no whatsapp. A consequência é que não estamos nenhum instante "a sós" para avaliar a direção das nossas vidas. O Cheshbon Hanefesh regular e constante nos ajuda a lembrar do nosso objetivo verdadeiro e verificar se estamos indo no caminho correto. Com o nosso novo desafio digital, um momento ideal para o Cheshbon Hanefesh é o Shabat, um dia no qual nos desconectamos dos nossos aparatos tecnológicos e podemos nos conectar com as nossas almas.

Porém, diferente do que poderíamos pensar, esta dificuldade não é encontrada apenas entre os que estão afastados da espiritualidade. Mesmo aqueles que vivem de acordo com a Torá e cumprem Mitzvót também podem ser atacados pelo mesmo tipo de Yetser Hará, que nos impede de viver a vida de uma maneira efetiva. Como na história do estudante ocupado com seus estudos, é mais difícil encontrarmos 5 minutos para fazermos Cheshbon Hanefesh do que encontrarmos 10 horas para estudar Torá. Podemos estudar Torá e cumprir Mitzvót o dia inteiro, mas fazer isso de uma maneira completamente mecânica e sem nenhuma Kavaná (intenção). Sem reflexão, sem a conscientização do nosso objetivo de se conectar constantemente com D'us, podemos estar o dia inteiro ocupados e, ao mesmo tempo, completamente desconectados.

Tudo o que é espiritualmente difícil de ser realizado é um sinal de que neste ato há muita santidade e o Yetser Hará quer fazer de tudo para nos impedir. O Cheshbon HaNefesh constante é difícil, sempre surgirão motivos e desculpas para não fazê-lo. Porém, se nos esforçarmos e vencermos nossa má inclinação, poderemos usar esta ferramenta especial, que pode mudar nossa vida e nos ajudar a não estar apenas ocupados, mas realmente viver a vida de uma maneira plena e significativa.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DISCUSSÕES CONSTRUTIVAS - PARASHÁ KORACH 5776

"O Rav Yehuda Zev Segal zt"l (Inglaterra, 1910 - 1993), Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) de Manchester, certa vez criticou publicamente certa organização. Sua opinião encontrou uma enorme resistência das pessoas, e muitos se declararam abertamente contra ele. Apesar de toda a repercussão negativa, o Rav Segal estava convicto de suas palavras e se manteve firme em seu posicionamento.

Algum tempo depois, um dos diretores daquela organização que havia sido criticada resolveu visitar o Rav Segal para discutir com ele o assunto. Quando o homem chegou à Yeshivá, recebeu do Rav Segal um presente. O homem abriu o pacote e viu que era um livro, o "Sefer Chafetz Chaim", e notou que na primeira página estava escrito uma calorosa Brachá (benção) a ele. O homem ficou atônito, sem entender por que seu "adversário", que estava falando de forma tão dura contra sua organização, agora o estava presenteando e lhe dando tantas Brachót. O Rosh Yeshivá, ao perceber o questionamento nos olhos do homem, explicou:

- Aprendi a me comportar desta maneira com o Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883). Escutei que sempre que ele se envolvia em um debate ideológico com alguém, antes ele presenteava a pessoa, para deixar claro que a discordância era puramente ideológica e não havia nada pessoal envolvido"

Esta é a forma como devemos nos comportar. Mesmo nos casos em que seja realmente justificável se envolver em algum tipo de discussão, temos que deixar claro que não se trata de algo pessoal. 
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Nesta semana lemos a Parashá Korach, cujo tema central é a rebelião de Korach contra seu primo Moshé e as trágicas consequências desta grave transgressão. A rebelião de Korach é citada como o modelo de "Machloket" (discussão, disputa) que não é "Leshem Shamaim" (em nome dos Céus), como está escrito: "Toda Machloket que é Leshem Shamaim está destinada a se manter; mas aquela que não é Leshem Shamaim não está destinada a se manter. Qual é a Machloket que é Leshem Shamaim? A Machloket entre Hilel e Shamai. E qual é a Machloket que não é Leshem Shamaim? A Machloket de Korach e seu grupo" (Pirkei Avót 5:17). Nossos sábios estão ensinando que a Machloket de Korach foi apenas por motivos egoístas e interesses pessoais.

Porém, este ensinamento do Pirkei Avót levanta um grande questionamento. Aparentemente Korach e seu grupo confrontaram Moshé com questões ideológicas genuínas, não simplesmente ataques pessoais. Segundo o que a Parashá escreve explicitamente, Korach argumentou que todo o povo judeu era sagrado, pois todos haviam pessoalmente escutado D'us no momento da entrega da Torá no Monte Sinai. Portanto, de acordo com esta lógica, Moshé e Aharon não tinham o direito de pegar para si as duas maiores posições da nação. Korach e seu grupo alegavam que deveria haver uma divisão igualitária de poder entre todos do povo judeu, e alguns poucos não deveriam ser mais beneficiados do que outros. Apesar de, em última instância, haver uma grave falha na lógica de Korach, pois a escolha de Moshé e Aharon havia sido Divina, sua rebelião estava aparentemente baseada em argumentos racionais e na luta por igualdade. Então por que o Pirkei Avót afirma, com tanta convicção, que a Machloket de Korach não era Leshem Shamaim?

A resposta está em um Midrash (parte da Torá Oral), que afirma que a verdadeira motivação de Korach era atacar pessoalmente Moshé e Aharon. Korach esperava ser o próximo na linha de liderança da família "Kehati", uma das famílias da tribo de Levi, e ficou extremamente irritado e decepcionado quando seu primo, Elizafan, que era mais novo do que ele, foi o indicado para a posição. Este foi o verdadeiro motivo que desencadeou em Korach a vontade de se rebelar contra a liderança de Moshé e Aharon, um motivo egoísta e baseado nos seus próprios interesses.

Portanto, de acordo com as palavras do Midrash, fica claro que a luta ideológica de Korach e sua força de argumentação eram, na realidade, apenas um pretexto para encobrir seu desejo por honra. Korach se apresentou como sendo um "defensor do povo", alguém que buscava a igualdade entre todos, mas na verdade ele estava apenas buscando seus próprios interesses egoístas. Infelizmente tudo o que Korach conseguiu foi causar a si mesmo, à sua família e aos seus seguidores terríveis castigos aplicados diretamente por D'us.

Mas por que a Torá nos deixa a impressão de que havia uma lógica na argumentação de Korach, a ponto de ser necessário um Midrash para esclarecer que a sua Machlóket não era Leshem Shamaim? Pois se perguntássemos a Korach se ele considerava seus atos Leshem Shamaim, ele certamente responderia, sem sombra de dúvidas, que sim. Ele se convenceu, e convenceu outras pessoas, de que estava certo em sua Machloket, e racionalizou que seus atos eram justificáveis e corretos. Korach queria a grandeza, mas terminou em total esquecimento.

Há muitas lições que podemos aprender de Korach, mas uma das principais é que uma pessoa pode se convencer de que está agindo Leshem Shamaim quando critica os outros, enquanto está apenas sendo enganada pelo seu Yetzer Hará (má inclinação). Muitas vezes acreditamos que estamos defendendo a verdade, e estamos dispostos a ir até o fim por ela. Porém, este comportamento vem sempre acompanhado de um grande risco, como ocorreu com Korach, de que a motivação verdadeira por trás dos nossos atos é apenas o egoísmo, que pode desencadear uma Machloket que não é Leshem Shamaim e causar danos a todos os envolvidos.

É muito fácil encontrar justificativas para criticar pessoas, ou até mesmo grupos inteiros, utilizando a premissa de que é permitido por ser "Leshem Shamaim". Entretanto, é necessário um grande esforço de autoavaliação para termos a certeza de que estamos realmente agindo com as motivações corretas. De acordo com o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 – Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, para que palavras que denigrem outro ser humano não sejam consideradas Lashon Hará (maledicência), não é suficiente que apenas traga benefício para quem está escutando. Ele enumera sete condições que devem ser preenchidas para nos permitir expressar qualquer tipo de crítica sobre outra pessoa. Uma destas condições, talvez uma das mais difíceis de serem cumpridas, é que aquele que faz a crítica não pode sentir absolutamente nenhuma satisfação por estar criticando o próximo. E para entender o quanto esta condição é difícil, basta refletirmos sobre quantas vezes na vida conseguimos fazer alguma crítica sem nenhum sentimento interno de satisfação com a vergonha causada àquele sobre quem estamos falando.

De acordo com o Rav Yehonasan Gefen, se não tomarmos muito cuidado, podemos facilmente cair nas armadilhas do Lashon Hará e gerar uma Machloket que não é Leshem Shamaim. Isto já causou, durante a história do povo judeu, com que diferentes grupos judaicos se olhassem entre si com desprezo, um rotulando o outro de maneira negativa. Este tipo de erro pode não parecer tão grave, mas de acordo com o Rav Naftali Tzvi Yehuda Berlin zt"l (
Rússia, 1816 - Polônia, 1893), mais conhecido como Netziv, foi este tipo de atitude que levou à destruição do nosso Segundo Templo. Apesar das pessoas daquela geração serem grandes Tzadikim (Justos), que se dedicavam ao estudo da Torá, eles acabaram desenvolvendo um ódio gratuito em seus corações, e qualquer um que agia de forma diferente do que eles achavam correto era imediatamente rotulado como "Apikoires" (negador de D'us). Se passados mais de dois mil anos ainda não tivemos o mérito de reconstruir nosso Templo, é sinal de que continuamos tropeçando neste mesmo erro, geração após geração. Precisamos dar um basta e terminar este terrível círculo vicioso de ódio gratuito que, apesar de ser muito grave, vem sempre disfarçado de "discussão Leshem Shamaim".

Então qual é a maneira correta de lidar com uma discordância de opinião? A resposta está no Pirkei Avót: "Qual é a Machloket que é Leshem Shamaim? A Machloket entre Hilel e Shamai". As discussões entre Hilel e Shamai, dois dos maiores sábios de sua geração, e posteriormente entre os alunos de Hilel e os alunos de Shamai, apesar de terem sido muito intensas, foram consideradas Leshem Shamaim por não envolverem motivações pessoais, e sim somente o desejo verdadeiro de chegar à "Emet" (verdade). Uma das provas de que as discussões eram Leshem Shamaim é que, conforme o Talmud (Yevamot 13b), apesar de eles discutirem fortemente em várias áreas da Halachá (Lei Judaica), isto não impediu que seus filhos se casassem entre si. Não há nada de errado em discordar, mas somente se a discordância é baseada em um desejo sincero de chegar à Emet. Pois se for assim, as duas partes não vão confundir diferenças ideológicas com hostilidades pessoais.

O principal é sempre fazer uma separação entre o indivíduo e seu comportamento ou conduta. Alguém pode errar, e mesmo assim continuar sendo uma boa pessoa. Fazer esta separação não é uma tarefa fácil, e por isso precisamos melhorar muito na área de "Bein Adam LeHaveiró" (entre o homem e seu semelhante), através de muito estudo de Torá, para aprendermos a olhar as outras pessoas da maneira correta, mesmo quando elas estiverem agindo de uma maneira que julgamos ser errada. O "ódio gratuito", que destrói nossos relacionamentos, destruiu também o nosso Templo Sagrado. Somente com o devido cuidado com o próximo poderemos começar a consertar este erro que causa, há tantos séculos, muita dor e sofrimento.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 16:1-18:32, 1 Sm. 11:14-12:22

sexta-feira, 1 de julho de 2016

OÁSIS DE TRANQUILIDADE - PARASHÁ SHELACH LECHÁ 5776

"Havia uma nação que vivia em paz e harmonia. As pessoas se respeitavam e se amavam, e havia um espírito de tranquilidade pairando no ar. Porém, certo dia, a paz foi quebrada por uma ameaça que se aproximava de longe. Outra nação ameaçava a soberania e a tranquilidade daquele lugar paradisíaco. Milhares de soldados foram enviados com a missão de impedir a aproximação dos inimigos.

Infelizmente a guerra se estendeu por muitos e muitos anos. Neste intervalo, o bondoso rei daquela nação de paz teve um filho. O príncipe herdeiro foi crescendo e, desde pequeno, foi sendo treinado para ser um bom líder e guerreiro. Quando completou 18 anos, foi enviado para a frente de batalha para liderar seus soldados. Por seis dias na semana o príncipe permanecia comandando os soldados naquele ambiente hostil de batalha, mas sempre o rei exigia que o filho voltasse ao palácio no sétimo dia. Certa vez o príncipe questionou a conduta de seu pai. Ele não entendia porque devia voltar e interromper a guerra uma vez por semana. O rei então explicou:

- Filho, você nasceu no meio de uma terrível guerra. Mas eu quero que você saiba que a vida verdadeira não é essa. A vida verdadeira é de paz, tranquilidade e alegria. Por isso eu peço para que você volte uma vez por semana para a tranquilidade do palácio, para que você sinta o que é a vida verdadeira e não se esqueça".

Assim também é o nosso Shabat. Por seis dias nós vamos para a "guerra" do dia-a-dia, a luta pelo sustento, com dificuldades, estresse e muita correria. Porém, esta não é a vida verdadeira. Então o Shabat nos recorda da nossa essência espiritual e da nossa conexão com D'us. Um dia por semana, no Shabat, nós voltamos à tranquilidade do "Palácio do Rei", para não esquecermos como é a vida real.
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A Parashá desta semana, Shelach Lechá (literalmente "Envie para você"), continua descrevendo alguns dos erros trágicos cometidos pelo povo judeu no deserto. A Parashá começa com o erro dos espiões, que falaram mal da Terra de Israel, causando com que o resto do povo perdesse sua Emuná (fé) em D'us e chorasse. Toda aquela geração que chorou recebeu um decreto Divino de não entrar em Israel.

Além desta transgressão coletiva, a Parashá também descreve uma transgressão feita por um indivíduo do povo judeu, como está escrito: "Quando o povo judeu estava no deserto, encontraram um homem recolhendo lenha no dia do Shabat" (Bamidbar 15:32). Este homem, apesar de ter sido advertido sobre a gravidade de seu ato, continuou recolhendo lenha. Recolher lenha espalhada é uma das 39 Melachót (trabalhos construtivos) que D'us nos proibiu fazer no Shabat, e aquele homem ignorou a proibição, sendo condenado à morte. Porém, algo nos chama a atenção no início do versículo que descreve a transgressão. Não era óbvio que o povo judeu estava no deserto quando isto aconteceu?

Rashi (França, 1040 - 1105) explica que pelo fato da Torá identificar o episódio como tendo ocorrido quando o povo judeu estava no deserto, algo aparentemente desnecessário, nós podemos deduzir que a transgressão ocorreu imediatamente depois deles terem entrado no deserto. E como sabemos que o povo judeu cumpriu o primeiro Shabat no dia da entrega da Torá, então Rashi conclui que esta transgressão ocorreu no segundo Shabat do povo judeu.

Mas por que a Torá escreveu que o povo judeu estava no deserto se o versículo se refere ao erro de um único indivíduo? Explica o Rav Eliahu zt"l (Lituânia, 1720 - 1797), mais conhecido como Gaon MiVilna, que na realidade este incidente não envolveu apenas o erro de um único indivíduo. O povo inteiro havia sido displicente no cumprimento do Shabat, e a transgressão feita em público foi apenas o reflexo desta displicência do povo todo. Apesar de ter sido o erro de um único indivíduo, é como se o povo inteiro tivesse participado. 

Porém, como entender esta explicação do Gaon MiVilna? O Midrash (parte da Torá Oral) nos ensina que guardar o Shabat é equivalente a guardar todas as outras Mitzvót da Torá juntas. Como aquela geração, chamada de "Geração do Conhecimento", pessoas que haviam recém recebido a Torá diretamente de D'us no Monte Sinai, puderam ser negligentes no cumprimento do Shabat? Como pode ser que, ainda no segundo Shabat que eles cumpriram, já houve um descuido tão grande, e envolvendo o povo inteiro?

Poderíamos pensar que o desleixo no cumprimento do Shabat foi consequência desta Mitzvá ter sido imposta sobre os judeus, e que esta nova obrigação havia pesado demais para eles. Porém, de acordo com outro Midrash, é difícil utilizar este argumento, pois o Midrash afirma que enquanto os judeus ainda eram escravos no Egito e Moshé morava no palácio do Faraó, ele conseguiu convencer o Faraó a dar o dia de Shabat como um dia de descanso para o povo judeu. Com grande astúcia, Moshé argumentou ao Faraó que um dia de descanso semanal faria com que houvesse um aumento na produtividade durante o resto da semana. Isto quer dizer que, mesmo enquanto ainda estavam no Egito, os judeus já estavam há anos acostumados com a Mitzvá de Shabat. Então por que neste momento eles mudaram de atitude em relação ao cumprimento do Shabat?

Explica o Rav Yohanan Zweig que podemos encontrar a resposta em um fenômeno que está sendo observado neste século: há um segmento inteiro do povo judeu que, apesar de viver na Terra de Israel, está completamente desconectado do cumprimento da Torá e das Mitzvót. Isto parece estranho, pois a Torá afirma que a Terra de Israel é um lugar de santidade, onde a conexão com D'us é mais direta e onde podemos desenvolver um relacionamento de maior conexão espiritual. Então como é possível um segmento inteiro do nosso povo viver neste lugar tão sagrado e, ainda assim, estar tão afastado de D'us?

A explicação é que, infelizmente, existe o conceito equivocado de que o único propósito para um judeu cumprir as Mitzvót é manter nossa identidade judaica e garantir a nossa continuidade. A consequência deste equívoco é que as pessoas tendem a pensar que viver na Terra de Israel substitui a necessidade de cumprir as Mitzvót, como se viver na nossa pátria fosse suficiente para manter a nossa identidade judaica e a nossa continuidade. A própria bandeira de Israel contém um "Talit", como se estivesse transmitindo a mensagem: "É suficiente que o Talit esteja em nossa bandeira, e não é necessário mais cumprir esta Mitzvá".

A grande falha neste tipo de pensamento é o total desconhecimento das leis espirituais da Torá. As Mitzvót são o veículo através do qual nós estabelecemos e mantemos nosso relacionamento com D'us. O Midrash nos ensina que as Mitzvót foram entregues justamente para "Letzaref" o povo judeu, isto é, para unir aqueles que estão comandados com Aquele que comandou. Se não há Mitzvót, simplesmente não é criado um relacionamento com D'us. O Ramban zt"l  (Espanha, 1194 - Israel, 1270), também conhecido com Nachmânides, ressalta que, pelo fato de conseguirmos estabelecer um relacionamento mais íntimo com D'us na Terra de Israel, temos uma responsabilidade ainda maior de cumprir as Mitzvót estando lá.

Este foi o grande erro do povo judeu no deserto. Como eles estavam vivendo como anjos, sendo alimentados com o Man, uma comida sobrenatural, e isolados das outras nações, eles acreditaram que não precisavam mais do Shabat para se conectarem com D'us e manterem sua identidade. Além disso, como eles já tinham um relacionamento com D'us muito elevado todos os dias da semana, eles acreditaram que o Shabat não era mais necessário. Eles falharam em reconhecer que são as Mitzvót que criam este relacionamento com D'us. Esta percepção equivocada infelizmente levou o povo inteiro a ser displicente no cumprimento do Shabat, afetando o cumprimento desta Mitzvá. A consequência foi o primeiro judeu que desrespeitou o Shabat de forma pública.

Além de ser um Mandamento de D'us, que nos conecta a Ele e energiza nossa alma, o Shabat também ajuda a manter a nossa identidade judaica e permite a cada judeu desfrutar, uma vez por semana, de um dia de relacionamento íntimo com D'us. O Shabat é um oásis no meio das "guerras" que travamos durante a semana inteira, com preocupações, pressa e estresse. Uma vez por semana nos desconectamos do material para nos conectarmos, de forma verdadeira, ao espiritual.

Em hebraico, "vida" é "Chaim". Porém, "Chaim" é uma palavra no plural, não no singular. Não existe apenas uma vida, a vida material, mas sim a combinação desta nossa vida material com a nossa vida espiritual, eterna. Quem nos sustenta no mundo material são os elementos físicos, como a comida, a água e o ar. Mas o que nos sustenta espiritualmente, e nos sustentará por toda a eternidade, são as Mitzvót que cumprimos. Quando a Torá concluiu que aquele que juntou gravetos no Shabat foi punido com pena de morte, estava dando um importante aviso para todo o povo: não existe vida verdadeira sem as Mitzvót. Quando nos desconectamos de D'us, a Fonte de toda a energia vital, nos desconectamos da nossa vida eterna. O Shabat, entre todas as Mitzvót, é um ótimo lembrete de que usufruir do mundo material é apenas algo passageiro, enquanto desenvolver o nosso lado espiritual é a nossa meta verdadeira.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Nm. 13:1-15:41, Js 2:1-24