sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

COM O QUE UM LÍDER SE PREOCUPA - PARASHAT KI TISSÁ 5776

"O Rav Elazar Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), o Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) de Ponovitch, em Bnei Brak, foi um dos maiores rabinos da geração passada. Além de ser um gigante em termos de conhecimento da Torá, estudando incessantemente e com muito fervor, ele era também uma pessoa extremamente preocupada com o bem estar do povo judeu.

Quando sua saúde começou a ficar fragilizada por causa da idade avançada, o Rav Shach se viu forçado a interromper as aulas que, por tantos e tantos anos, ele havia dado na Yeshivá. Porém, além da tristeza de não conseguir mais transmitir seus conhecimentos aos alunos, havia algo que começou a deixar o Rav Shach extremamente incomodado. Ele começou a ter dúvidas se poderia continuar recebendo seu salário e morando no apartamento que pertencia à Yeshivá, já que não estava mais conseguindo exercer as suas funções de Rosh Yeshivá. Extremamente preocupado com a situação, ele foi procurar o Rav Yossef Shalom Elyashiv zt"l (Lituânia, 1910 – Israel, 2012), que na época já era um dos maiores "Poskim" (legisladores) da geração. O Rav Shach contou ao Rav Eliashiv suas preocupações e acrescentou:

- Logo eu terei que me apresentar diante do Tribunal Celestial. Eu não quero receber nada que não me pertence, pois sei que serei severamente cobrado por isso.

- Não se preocupe – respondeu o Rav Eliashiv, após pensar por alguns instantes – A Yeshivá ainda precisa muito de você. O simples fato de você ainda estar aqui, de ser visto pelos alunos e pelos rabinos da Yeshivá, já é uma enorme fonte de inspiração para eles.

O Rav Shach ainda não estava satisfeito com a resposta do Rav Eliashiv. Ele questionou novamente:

- Desculpe, mas você está me dando sua opinião ou isto é um "Psak Halachá" (uma determinação legal)?

- É um "Psak Halachá" – respondeu o Rav Eliashiv - Você não pode ir embora. A Yeshivá e o povo judeu ainda precisam muito de você e de seus exemplos"

O mais impressionante é perceber que o Rav Shach não estava preocupado se seria despejado do seu apartamento em uma idade avançada ou se ficaria sem seu salário e não teria como se sustentar em sua velhice. Ele estava preocupado apenas com o bem estar do povo judeu. Após servir a Yeshivá por décadas, entregando-se de corpo e alma ao seu trabalho, ele achava que caso não pudesse mais contribuir com nada, que seria melhor para a Yeshivá que ele fosse embora. Estes são os verdadeiros líderes do povo judeu, cujo bem estar do povo vem antes de suas próprias necessidades pessoais. 
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Nesta semana lemos a Parashat Ki Tissá (que literalmente significa "Quando você fizer o levantamento"). A Parashat começa com a contagem do povo judeu através da doação de meio Shekel de prata cada um. A Parashat também descreve alguns utensílios e serviços feitos no Mishkan, como o "Ketoret", o incenso que era queimado no Mizbeach Hazahav (Altar de ouro), como está escrito: "E disse D'us para Moshé: Pegue para você especiarias..." (Shemot 30:34).

Mas se prestarmos atenção nestas palavras do versículo que descrevem o Ketoret, surge um grande questionamento. Por que a Torá utiliza a linguagem "pegue para você"? Por acaso o Ketoret era algo pessoal para Moshé? Ele era alguém egoísta, que buscava honras, prestígio e benefícios pessoais através da sua liderança sobre o povo?

Para entendermos estas palavras do versículo, precisamos nos aprofundar um pouco mais na Parashat Korach. Korach, movido pela inveja, conseguiu convencer um grupo de pessoas da tribo de Levi a participar de uma rebelião contra seu primo Moshé, para tentar derrubá-lo do poder. Korach tentou diminuir Moshé aos olhos do povo ridicularizando seus ensinamentos. D'us castigou todo aquele grupo de rebeldes, fazendo com que alguns fossem engolidos pela terra de uma maneira completamente sobrenatural, enquanto outros fossem consumidos por um fogo Divino. Porém, a morte de Korach e seus seguidores, ao invés de tranquilizar o povo, deixou as pessoas ainda mais irritadas, por acharem que Moshé era o culpado pelas mortes. D'us então mandou uma praga que começou a dizimar o povo, como está escrito: "E Moshé disse para Aharon: "Pegue a pá de incenso, e ponha fogo do altar, e coloque nela o Ketoret, e carregue ela rapidamente para a congregação, para trazer expiação para eles, pois a fúria saiu de D'us e a praga começou. E Aharon levou, conforme Moshé disse, e correu para o meio da congregação... e a praga foi interrompida" (Bamidbar 17:11-13).

Nestes versículos há algo interessante. Não foi D'us que ordenou Moshé a utilizar o Ketoret para salvar o povo, aparentemente Moshé já tinha este conhecimento. De onde Moshé sabia que o Ketoret poderia fazer a praga parar? A resposta está em um incrível ensinamento do Talmud (Shabat 89a), que afirma que quando Moshé subiu no Monte Sinai para receber a Torá, cada anjo deu a ele um presente. Entre eles estava o anjo da morte, que presenteou Moshé Rabeinu com o segredo de como interromper uma praga mortal. E o segredo era justamente a utilização do Ketoret, o incenso que Moshé utilizou para interromper aquela praga que devastava o povo judeu.

Mas como isto explica as palavras "pegue para você" em relação ao Ketoret, como se fosse algo entregue especialmente para Moshé? Explica o Rav Arie Leib Tzintz zt"l (Polônia1833), mais conhecido como Maharal Tzintz, que Moshé vivia pelo povo judeu. A honra de ter recebido segredos diretamente dos anjos não o preenchia tanto quanto poder servir e ajudar o seu povo. Ele não estava preocupado com a sua honra nem com os presentes que havia recebido dos anjos, e sim em como ele poderia utilizar tudo em prol do povo.

De todos os presentes que Moshé recebeu dos anjos, certamente para ele o mais precioso era o presente dado pelo anjo da morte. Salvar a vida de cada judeu era o motivo de sua existência. Mesmo quando ele estava no conforto do palácio do Faraó, ele saiu de casa para sentir junto com seus irmãos os sofrimentos da escravidão. Quando viu um egípcio golpeando um judeu, imediatamente arriscou sua posição, e até mesmo sua vida, para salvar o judeu. Não havia na vida de Moshé nada mais importante do que o seu povo. Porém, o Ketoret ensinado pelo anjo da morte era um presente ainda incompleto. Embora Moshé já sabia do segredo do Ketoret, este segredo não tinha nenhum valor para ele, pois era proibido fazer o Ketoret de maneira privada.

Por isso, somente quando D'us comandou Moshé a fazer o Ketoret é que o presente ficou completo. A partir daquele momento havia permissão de usar o Ketóret e, se necessário, salvar vidas com ele. É por isso que o versículo enfatiza "Pegue para você especiarias", pois somente a partir daquele momento Moshé realmente recebeu seu maior presente: a possibilidade de salvar a vida de um judeu.

Podemos aprender dois grandes ensinamentos desta Parashat. Em primeiro lugar, o quanto os bens materiais somente nos preenchem de verdade quando utilizamos para também ajudar o próximo. Um presente recebido de maneira egoísta pode até preencher em um primeiro momento, mas depois traz um grande vazio, enquanto saber dividir o que temos com os outros traz um preenchimento verdadeiro e duradouro. Em segundo lugar, aprendemos o que é ser um líder de verdade. Infelizmente estamos acostumados com líderes egoístas, que apenas querem chegar ao poder para obter benefícios pessoais. Mesmo aqueles com boas intenções acabam se corrompendo quando alcançam o poder e o acesso à grandes quantidades de dinheiro. Mas aprendemos de Moshé o que é ser um líder verdadeiro. Alguém cuja única preocupação, acima até mesmo das preocupações pessoais, era com o bem estar do seu povo. Que Moshé seja o nosso modelo, em um mundo onde os modelos verdadeiros de honestidade e preocupação com o próximo estão cada vez mais raros.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 30:11-34:35, 1Re. 18:1-39

sábado, 20 de fevereiro de 2016

AUTOESTIMA EM ALTA - PARASHAT TETZAVÊ 5776

"A abelha estava sempre contente, voando de flor em flor e produzindo seu delicioso mel. Certa vez um grilo encontrou-a e começaram a conversar. Em certo momento, não contendo a curiosidade, o grilo perguntou:

- Senhora abelha, desculpe a invasão de privacidade, mas há algo que sempre me intrigou e eu gostaria de saber. Como você consegue ser tão feliz e estar sempre de bem com a vida? Afinal, você trabalha muito, do momento em que o sol nasce até o momento em que o sol se põe. Você voa de flor em flor, em um incansável trabalho de recolher o pólen. Você se esforça no limite das suas forças para todos os dias fabricar seu delicioso mel. Porém, depois de todo este esforço, vem o ser humano, pega o seu mel e vai embora sem nem mesmo dar satisfação. Como pode ser que, mesmo assim, você nunca tira esse sorriso do rosto?

- Vou te contar qual é a fonte da minha felicidade - respondeu a abelha, sorrindo - É verdade que eu me esforço e, depois de dias de trabalho, vêm o ser humano e leva todo o meu mel embora. Porém, há algo que ele nunca vai conseguir tirar de mim: o segredo de como se faz o delicioso mel. É por isso que eu sou tão feliz." 

Não são as circunstância da vida que determinam se vamos ser felizes ou não, e sim a consciência de como somos especiais. Ninguém pode levar embora a alegria daquele que sabe seu verdadeiro valor. 
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Nesta semana lemos a Parashat Tetzavê (que literalmente significa "Comande"), que descreve detalhes das roupas utilizadas pelos Cohanim (sacerdotes) e pelo Cohen Gadol (Sumo sacerdote). No final da Parashat também estão descritos alguns dos serviços feitos no Mishkan (Templo Móvel) como, por exemplo, o sacrifício do "Korban Tamid", que era oferecido duas vezes por dia, como está escrito: "Você deve oferecer um cordeiro de manhã, e o segundo cordeiro você deve oferecer no final da tarde" (Shemot 29:39).

Este versículo, que parece apenas um ensinamento "técnico", na verdade contém uma lição muito preciosa. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que discute qual é o ensinamento mais importante da Torá. De acordo com o Rabi Akiva, o principal ensinamento da Torá é "Ame ao próximo como a ti mesmo" (Vayikrá 19:18). Já de acordo com outro sábio, Ben Azai, o ensinamento mais importante está contido no seguinte versículo: "Esta é a conta dos descendentes de Adam: no dia em que D'us criou o ser humano, Ele o fez à semelhança de D'us" (Bereshit 5:1). Há outro Midrash que traz uma terceira opinião, de Rabi Shimon ben Pazi, que afirma que o ensinamento mais importante da Torá é justamente o versículo trazido na nossa Parashá: "Você deve oferecer um cordeiro de manhã, e o segundo cordeiro você deve oferecer no final da tarde". Mas afinal, qual é o motivo da discussão entre os sábios da Torá? E o que cada um destes versículos têm de tão especial?

Há três tipos de relacionamentos nos quais cada ser humano deve buscar atingir a perfeição: "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), "Bein Adam LaMakom" (entre a pessoa e D'us) e "Bein Adam LeAtzmó" (entre a pessoa e ela mesma). E estas três áreas de relacionamento são tão interdependentes que, se houver deficiência em uma delas, as três acabam ficando deficientes. Mas como fazer para conseguir ser completo nestas três áreas?

Explica o Rav Yohanan Zweig que uma das características mais importantes na capacidade humana de fazer realizações e ter sucesso em qualquer empreendimento na vida é o seu grau de autoestima. A pessoa com baixa autoestima não se sente motivada a realizar nada, e acaba ficando acomodada. Portanto, a discussão que existe entre os sábios sobre qual é o ensinamento mais importante da Torá é justamente para definir no que a pessoa deve focar para que consiga desenvolver uma definição positiva de si mesma, isto é, se deve ser no seu relacionamento com o próximo, com D'us ou consigo mesma.

De acordo com o Rabi Akiva, quando a pessoa faz atos de bondade e demonstra seu amor ao próximo, ela constrói uma percepção positiva de si mesma. Quando a pessoa aprende a amar os outros, a olhar os outros de maneira positiva, a buscar sempre no outro o que ele tem de melhor, ela também acaba amando e respeitando a si mesma. Por isso ele ensina que o versículo mais importante é "Ame ao próximo como a ti mesmo"

Ben Azai discorda de Rabi Akiva, pois opina que a pessoa que tem baixa autoestima, isto é, que não ama nem a si mesma, certamente não conseguirá amar os outros. Então o que a pessoa deve fazer para apreciar a si mesma? A Torá nos ensina que D'us criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Um exemplo impressionante deste conceito espiritual pode ser visto no caso de uma pessoa que recebe pena de morte por alguma grave transgressão, como aquele que blasfema o nome de D'us em público. Mesmo sendo uma transgressão abominável, a Torá ordena que o corpo do blasfemador morto pelo Beit Din (Tribunal Rabínico) seja enterrado no mesmo dia em que foi executado, como está escrito: "Seu corpo não deve permanecer pendurado na forca durante a noite, ele deve ser enterrado naquele dia, pois uma pessoa pendurada é uma maldição para D'us" (Devarim 21:23). Mas o que significa que manter aquele corpo sem ser enterrado é uma maldição para D'us? Rashi (França, 1040 - 1105) explica que deixar o corpo daquele transgressor exposto durante a noite seria depreciativo com D'us, em cuja imagem e semelhança aquele homem foi criado. Isto significa que mesmo alguém tão baixo e abominável quanto um blasfemador ainda mantém em seu corpo o "selo" da imagem e semelhança com D'us. Portanto, a consciência de que o ser humano é uma criatura Divina é suficiente para que ele receba uma definição positiva de si mesmo, possibilitando que ele consiga aperfeiçoar também o seu relacionamento com as outras pessoas.

Rabi Shimon ben Pazi acha que a resposta de Ben Azai não é satisfatória, pois saber que o homem foi criado à imagem e semelhança de D'us é apenas um indicativo do potencial do ser humano. A simples consciência deste potencial não pode ser a fonte de autoestima do ser humano, pois o efeito contrário pode acontecer caso a pessoa entenda que tem um tremendo potencial, mas que na realidade ela não o está alcançando. Por isso, o Rabi Shimon ben Pazi ensina que a nossa fonte de autoestima vem de outro tipo de entendimento. Na Parashat desta semana vimos que D'us exige que O sirvamos oferecendo Korbanót duas vezes por dia. Isto significa que, apesar de D'us ser Onipotente, Ele criou um relacionamento com o povo judeu no qual nós podemos dar algo para Ele, como se pudéssemos oferecer algo que preenchesse as "necessidades" de D'us. A consciência de que a pessoa é necessária em um relacionamento é um enorme construtor de autoestima. E o impulso final na nossa autoestima vem do reconhecimento de que Aquele que "necessita" de nós é D'us. O entendimento de que temos um relacionamento com D'us e que Ele deseja que O sirvamos dá ao ser humano autoestima.

Para que o ser humano possa perceber seu incrível potencial, ele deve antes de tudo desenvolver sua autoestima. De acordo com Rabi Akiva, isto pode ser alcançado focando no relacionamento com o próximo. Ben Azai opina que o relacionamento do ser humano consigo mesmo é a chave para uma autodefinição positiva. E finalmente Rabi Shimon ben Pazi opina que a consciência do ser humano de seu relacionamento com D'us é a fundação para obter sucesso em todos os tipos de relacionamento.

Portanto, a conclusão da discussão dos nossos sábios é que na verdade os três têm razão, somente cada um deles focou em uma das nossas três áreas de relacionamento. Para chegar à perfeição não basta trabalhar em apenas uma delas, é necessário trabalhar nas três, e a chave do sucesso é ter uma boa autoestima. A pessoa que não tem uma boa autoestima não está bem com ela mesma, com os outros e nem mesmo com D'us. Acaba tornando-se alguém triste, mal humorado e acomodado espiritualmente. Já aquele que trabalha sua autoestima, que se esforça para olhar para si mesmo de uma maneira positiva, de procurar o que tem de melhor dentro de si, consegue estar bem consigo mesma, com os outros e com D'us, pois vai se transformar em uma pessoa positiva, alegre, bem humorada e com muita energia para fazer o seu trabalho espiritual.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 27:20-30:10, Ez.43:10-27

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

PRINCIPAL E SECUNDÁRIO - PARASHAT TERUMÁ 5776

"Em uma época em que as Yeshivót (Centros de estudo de Torá) da Lituânia estavam passando por uma situação econômica muito delicada, o Rav Zalman Sorotzkin zt"l (Lituânia, 1881 - Israel, 1966) e uma delegação enviada pelos grandes rabinos da geração fizeram um evento em Varsóvia, na Polônia, com o objetivo de tentar encontrar formas de salvar as Yeshivót. Algumas delas não tinham nem mesmo dinheiro para alimentar os estudantes e corriam o risco de fechar suas portas, deixando centenas de alunos sem um local para se dedicar dia e noite ao estudo da Torá. Entre os participantes do evento estavam vários editores de jornais judaicos, que foram convidados justamente para que a iniciativa desta delegação de tentar ajudar as Yeshivót fosse amplamente divulgada. Um dos editores, ao escutar os detalhes da difícil situação das Yeshivót, perguntou ao Rav Zalman:

- Desculpe a sinceridade, mas escutei que o Rav Meir Shapira (Império Austro-Húngaro, 1887 - Polônia, 1933) está construindo uma bela Yeshivá em Lublin, na Polônia, e teve êxito em juntar muito dinheiro para a construção. Não seria melhor ele utilizar este dinheiro para ajudar as outras Yeshivót já existentes? Por que ele não dedicou seu tempo e esforço para juntar comida para os alunos que mal tem o que comer?

- Sua pergunta é muito boa - respondeu o Rav Zalman - mas a resposta é muito simples. Mesmo que ele tentasse juntar dinheiro para as outras Yeshivót, ele não teria sucesso. As pessoas gostam de fazer generosas doações para a construção de Yeshivót bonitas e luxuosas, mas para manter o dia a dia das Yeshivót depois de prontas infelizmente são poucos os que querem participar. Tenho certeza de que quando a Yeshivá do Rav Meir Shapira estiver pronta, ele terá as mesmas dificuldades das outras Yeshivót da Europa para se manter.

E infelizmente foi exatamente o que aconteceu. Apesar da facilidade que o Rav Meir Shapira teve para construir a "Yeshivá Chochmei Lublin", depois de pronta ele passou muitas dificuldades e contraiu enormes dívidas para poder mantê-la funcionando".

Assim é a natureza do ser humano. Fazemos grandes doações para prédios e construções faraônicas, mas são poucos os que estão dispostos a ajudar a manter os lugares de Torá depois de prontos. 
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Nesta semana lemos a Parashat Terumá (que literalmente significa "doação"), que descreve a construção do Mishkan (Templo Móvel), o local onde D'us escolheu para repousar a Sua presença junto ao povo judeu. O Mishkan e seus utensílios, como a Menorá e o Mizbeach (Altar de sacrifícios), foram construídos com madeiras nobres e metais preciosos, como ouro e prata. De onde vieram estes materiais? De doações do povo, como está escrito: "Fale com os Filhos de Israel e peguem para Mim uma Terumá (doação ou porção), de cada pessoa cujo coração for generoso peguem a Minha Terumá. E esta é a Terumá que vocês pegarão deles..." (Shemot 25:2,3).

Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que nestes versículos aparece três vezes a palavra Terumá, referindo-se aos três tipos diferentes de doações feitas pelo povo judeu. A primeira era uma doação obrigatória, no valor de meio Shekel de prata por pessoa, destinado à construção das bases do Mishkan. A segunda era uma doação anual obrigatória, no valor de meio Shekel de prata por pessoa, destinada a um fundo para a compra dos Korbanót (sacrifícios) comunitários oferecidos diariamente no Mishkan. E a terceira era uma doação voluntária, sem valor definido, cujo objetivo era reunir os materiais necessários para a construção do Mishkan e seus utensílios.

Mas desta explicação trazida por Rashi surge um grande questionamento. Para a construção das bases do Mishkan e para o fundo dos Korbanót comunitários, D'us decretou que as doações do povo fossem obrigatórias, com um valor fixo por pessoa, e esta obrigatoriedade incluía até mesmo os pobres, enquanto na construção do Mishkan, que tinha uma importância fundamental para o povo judeu, D'us deixou para que cada um doasse de forma voluntária, apenas quem quisesse e o valor que quisesse. Não deveria ter sido o contrário?

Responde o Rav Zalman Sorotzkin zt"l que a Torá está se aprofundando na psicologia do ser humano e nos ensinando uma incrível lição. Normalmente somos muito ágeis para fazer doações para projetos que envolvem a construção de salas e prédios, mas temos mais dificuldade em doar para manter o propósito do prédio após ele estar pronto. Mas será que isto é correto? Por exemplo, o que é mais importante e querido aos olhos de D'us, a construção do Mizbeach ou a manutenção dos Korbanót que eram oferecidos ali diariamente? Obviamente que o propósito é mais importante do que os meios, isto é, a oferenda dos Korbanót é muito mais importante do que o Mizbeach, que é apenas um meio para que a oferenda seja realizada.

Há uma prova interessante que demonstra como nos enganamos ao achar que as construções são mais importantes do que seus propósitos posteriores. Apesar de ser proibido fazer Shechitá (abate Kasher) em um animal no Shabat, por ser uma das 39 Melachót (trabalhos criativos proibidos), há uma exceção em relação à Shechitá dos Korbanót oferecidos no Shabat, que é permitida. Já a construção do Mishkan, apesar de sua importância e santidade, não fazia parte de nenhuma exceção e deveria parar completamente durante o Shabat. Portanto, enquanto a oferenda dos Korbanót tinha uma permissão especial para ocorrer no Shabat, a construção do Mizbeach era proibida, demonstrando que aos olhos de D'us os Korbanót eram ainda mais importantes do que o próprio Mizbeach.

Porém, apesar de ser mais querido para D'us a oferenda diária dos Korbanót do que a construção do Mishkan, e apesar das doações para a construção do Mishkan serem voluntárias, em um único dia o povo doou até mais do que era necessário para a construção do Mishkan, e as pessoas somente pararam de doar quando foi dado um aviso para que parassem de trazer materiais. Como D'us conhece as inclinações do coração de Suas criaturas, Ele sabia que para a construção do Mishkan todas as pessoas correriam para trazer sua doação, o que é bastante compreensível, pois todos querem deixar sua marca para a posteridade. Por isso não foi necessário que esta doação tivesse um caráter obrigatório, pois as pessoas naturalmente trariam até mais do que era necessário, como ocorreu. Mas para o objetivo final da construção, isto é, a oferenda dos Korbanót propriamente dita, as pessoas não teriam doado a não ser que fosse uma obrigação. D'us, que conhece a natureza humana, sabe que esta doação é difícil, e por isso quis incentivar as doações garantindo que doar para a compra dos Korbanót traria expiação espiritual para o doador.

Infelizmente também podemos observar este fenômeno atualmente. O propósito da construção de uma Yeshivá ou de uma sinagoga é o estudo de Torá e a Avodat Hashem (Serviço Divino) que ocorrerão lá dentro depois de pronta e que trarão méritos para todo o povo judeu, enquanto a construção do prédio da Yeshivá e da sinagoga é apenas um meio. Apesar disso, vemos que muitas pessoas são extremamente generosas na construção dos prédios, doando fortunas para as paredes, portas, janelas, e tijolos, mas são poucos os que são generosos para manter as Yeshivót e sinagogas funcionando. Poucos se preocupam que na mesa dos estudantes de Torá haja comida e bebida suficiente para que possam ter força para estudar, ou que as contas de luz e de água da sinagoga sejam pagas.

Por que isto acontece? Normalmente as pessoas querem investir seu dinheiro em coisas duráveis. Quando alguém doa para a construção de uma sinagoga, sabe que daqui a muitos anos seu investimento ainda estará de pé e seu esforço estará presente naquelas paredes, enquanto aquele que doa para comprar comida está doando para coisas não duráveis, pois as comidas são imediatamente consumidas. Mas este é um grande equívoco, pois o alimento é o que mantém os estudantes saudáveis e fortes para poderem estudar com concentração e alegria, e toda a Avodat Hashem realizada nestes prédios certamente é eterna, muito mais duradoura do que as construções de tijolo e cimento, apesar de não percebermos isto com os nossos olhos. Nas sinagogas, a luz, a água e outros gastos, apesar de também serem investimentos não duráveis, é o que mantém o propósito do lugar. Os tijolos, cimento, móveis, pintura e acabamentos são apenas meios para que as pessoas tenham um lugar físico para sua Avodat Hashem, mas o principal, a meta, é o estudo diário da Torá e as Tefilót, que são tão queridos aos olhos de D'us e são eternos.

Mas se este conceito é verdadeiro, então por que a doação das bases do Mishkan também era obrigatória? Apesar das pessoas se interessarem em doar para a construção de prédios, isto ocorre apenas depois que já se iniciaram as fundações, isto é, depois que as pessoas já viram que o projeto realmente vai acontecer. Antes das fundações as pessoas ainda não acreditam que o projeto realmente sairá do papel, e ainda não se interessam em doar. Por isso D'us teve que obrigar a doação da prata para as bases de sustentação do Mishkan, enquanto para o restante das estruturas o povo correu para doar até mais do que era necessário.

Da Parashat aprendemos que doar para a construção de Yeshivót e sinagogas é algo muito grandioso e valoroso, porém mais valoroso ainda para D'us é a manutenção dos lugares de Torá já existentes. Ao manter uma sinagoga ou uma Yeshivá, apesar de não estarmos construindo paredes físicas, certamente estamos construindo paredes espirituais eternas.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 25:1-27:19, 1 Re. 5:12 -6:13

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

SABENDO PEDIR PERDÃO - PARASHAT MISHPATIM 5776

"Michel ganhou de presente um papagaio. Mas o que poderia ser uma diversão para a família acabou se tornando um verdadeiro "presente de grego". O papagaio se comportava mal e tinha um péssimo vocabulário. De cada dez palavras que ele falava, oito eram palavrões.

Michel se esforçou para reeducar o pássaro. Ele ficava constantemente dizendo palavras educadas e tocando músicas suaves, mas nada funcionava. Então ele mudou a tática e tentou reeducá-lo através de castigos. Ele gritou, ameaçou, chacoalhou o pássaro, mas o papagaio ficou ainda mais irritado e rude.

Certo dia, quando Michel estava com convidados importantes em casa, o papagaio começou a falar palavrões. Desesperado, Michel pegou o papagaio, colocou-o no congelador e fechou a porta. Por alguns momentos ele ouviu o pássaro gritando e bicando a porta, mas de repente tudo ficou quieto. Michel ficou com medo de ter machucado o pássaro e rapidamente abriu a porta do congelador. O papagaio estava com os olhos esbugalhados, visivelmente assustado. Ele subiu no braço estendido de Michel e disse:

- Por favor, eu sinto muito por ter te ofendido com a minha linguagem baixa e meus maus atos. Eu peço perdão e vou me esforçar para corrigir meu comportamento.

Michel ficou espantado com a drástica mudança de atitude do pássaro. De repente ele havia ficado educado, tranquilo, e havia até pedido perdão! Mas Michel não entendia como um castigo de apenas um minuto havia feito algo tão milagroso. Anteriormente ele já havia tentado trancar o papagaio em uma caixa, sem nenhum resultado. Por que no congelador havia funcionado? Então o papagaio fez uma pergunta que esclareceu tudo:

- Desculpe a curiosidade, mas posso saber quais palavras feias aquele frango que está no congelador falou para você?"

A piada pode ser engraçada, mas não é engraçado causar mal aos outros e não ter a dignidade de pedir perdão. Assumir um erro e pedir perdão é uma demonstração de grandeza. Como no caso do papagaio, saber pedir perdão pode nos ajudar a não entrar em muitas frias na vida... 
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Nesta semana lemos a Parashat Mishpatim (que literalmente significa "juízos"). A Parashat traz diversas leis "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), que visam manter uma convivência harmoniosa entre as pessoas. Entre os ensinamentos da Parashat estão as leis de compensação por qualquer tipo de dano causado. A Torá traz como exemplo o caso de dois homens brigando, e um deles causa acidentalmente lesões corporais a uma terceira pessoa. Neste caso, aquele que causou o dano é considerado completamente responsável pelas consequências do seu ato. A Torá, ao descrever a compensação exigida do agressor, utiliza uma famosa expressão: "Olho por olho, dente por dente" (Shemot 21:24).

Os babilônios se basearam neste versículo da Torá para criar a famosa "Pena de Talião", que consta no Código de Hamurabi. De acordo com a Pena de Talião (que vem do latim "talis", que significa "idêntico"), o "olho por olho, dente por dente" deveria ser aplicado ao pé da letra, isto é, aquele que quebrasse o dente de outra pessoa era castigado com a quebra do seu dente. Porém, esta aplicação prática feita pelos babilônios demonstra que eles entenderam o versículo da Torá de uma forma completamente equivocada. De acordo com a transmissão oral dos nossos sábios, o "olho por olho, dente por dente" significa que a pessoa que causou uma lesão corporal ao outro deve pagar como indenização o valor monetário do membro que foi atingido. O Talmud (Baba Kama 84a) comprova esta declaração ao afirmar que seria impossível infligir ao agressor uma lesão física exatamente igual à que ele causou em sua vítima, pois não existem duas pessoas fisicamente ou emocionalmente idênticas.

Porém, se pararmos para refletir, surge uma grande dúvida. Se toda a intenção do versículo é apenas ensinar que a vítima pode cobrar do agressor uma compensação monetária, então por que a Torá se expressa com uma linguagem que, se tomada literalmente, indica que o agressor estaria sujeito a uma punição física? A Torá não deveria ter explicitado que se trata apenas de uma compensação monetária, escrevendo literalmente "pagamento de um olho por olho", para evitar uma interpretação tão equivocada quanto à dos legisladores do Código de Hamurabi?

Além disso, o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), em seu livro de Halachót (Leis), na seção "Leis de Lesões e Danos", nos ensina as diversas exigências legais na compensação de danos causados a outra pessoa. Ele ressalta o grande contraste que existe entre a restituição exigida em casos de danos à propriedades e em casos envolvendo lesões corporais. O Rambam afirma que quando alguém causa uma lesão corporal, o pedido de perdão à vítima é obrigatório para que ocorra uma restituição completa.

Porém, este comentário do Rambam é um pouco difícil de ser entendido. Por que ele incluiu a exigência de pedir perdão no meio de leis que falam sobre a compensação monetária de um dano? Além disso, o Rambam também inclui esta exigência na seção "Leis de Teshuvá (arrependimento)". Ele afirma que mesmo que a pessoa tenha feito uma restituição monetária completa pelo dano que causou, seu erro não é expiado até que ele peça perdão e consiga apaziguar a pessoa que sofreu o dano. Mas por que a necessidade do pedido de perdão se a pessoa já foi completamente compensada por sua perda monetária? Já não foi devolvido à vítima tudo o que foi retirado dela?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em um interessante ensinamento do Talmud (Brachót 33a), que afirma que apesar da vingança normalmente ser uma forma de comportamento inaceitável, há algumas poucas exceções, em situações muito específicas, na qual ela é permitida. A palavra "vingança" em hebraico é "Nekamá", que vem da mesma raiz de "Kam", que significa "reestabelecer". Quando uma pessoa sofre um dano, não apenas suas posses ou seu corpo são atingidos, mas também a sua dignidade. Isto é ainda mais acentuado quando a pessoa sofre lesões corporais, pois o agressor exerceu sobre a vítima uma dominação física, diminuindo sua autoestima. Portanto, a vingança, quando permitida, é uma forma de reestabelecer a dignidade da pessoa insultada.

Foi justamente por este motivo que a Torá escreveu que a restituição de uma lesão corporal deve ser "olho por olho, dente por dente". Esta expressão tem um significado de castigo físico ao agressor, e nos ensina que a única maneira de realmente restaurar a autoestima da vítima seria aplicando ao agressor exatamente o mesmo dano que ele causou. Porém, nossos sábios explicam que na prática este tipo de restituição seria impossível, pois de qualquer maneira a consequência não seria idêntica para o agressor e o agredido e, portanto, acabaria sendo injusta. Por este motivo a punição física foi substituída por uma compensação monetária. Mas por outro lado, o dinheiro também não é capaz de restaurar a autoestima destruída da pessoa. Então o que fazer para que a justiça seja feita? Além da compensação monetária, o agressor também deve implorar pelo perdão de sua vítima, pois no momento em que o agressor busca apaziguar sua vítima, um pouco de sua dignidade danificada é restaurada.

Aprendemos daqui que pedir perdão e apaziguar uma pessoa que possamos ter ofendido através de algum dano ou agressão é um componente integral da restituição dos prejuízos causados. É por isso que o Rambam inclui o pedido de perdão no meio das leis que discutem a compensação monetária dos danos causados. Além disso, espiritualmente a pessoa não consegue alcançar a expiação do seu erro até que devolva o que foi retirado do seu companheiro. Isto vale para a parte material do dano, mas também se aplica para a parte psicológica. Portanto, o pedido de perdão e o apaziguamento é um dos pré-requisitos para receber expiação pelo erro cometido, pois ajuda a devolver a dignidade que havia sido retirada da vítima. E é por isso que o Rambam inclui também a necessidade de pedir perdão em suas "Leis de Teshuvá".
 
Diz o ditado que errar é humano. E realmente é impossível que um ser humano nunca erre, magoe ou cause danos aos outros, mesmo que seja sem intenção. Porém, está em nossas mãos consertar os erros que cometemos, tanto materialmente quanto psicologicamente. Um simples "me desculpe, eu errei" pode derrubar muitas barreiras criadas por brigas e discussões. Assumir o erro e pedir perdão é uma demonstração de maturidade e grandeza espiritual. Por isso, apesar de errar ser humano, saber pedir perdão é Divino.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

VOCÊ CONFIA EM D'US? - PARASHAT ITRÓ 5776

"Muitos conhecem o Rav Noach Weinberg zt"l (EUA, 1930 - Israel, 2009), o Rosh Yeshivá (Diretor espiritual) do Aish HaTorá, por sua incrível capacidade de aproximar judeus que estavam completamente afastados da Torá. Porém, poucas pessoas sabem que suas gigantescas conquistas emanavam da mais pura Emuná (fé) e Bitachón (confiança) em D'us. Durante a Shivá (semana de rezas que ocorre após o falecimento) do Rav Noach Weinberg, sua filha contou uma história incrível, que demonstra o altíssimo nível de conexão que ele tinha com D'us.

Certa vez chegou à Yeshivá Aish HaTorá um jovem rapaz que demonstrou uma inteligência acima do normal. Ele não passou mais do que alguns poucos dias na Yeshivá, mas foi o suficiente para se destacar nos estudos de maneira impressionante. Porém, para a surpresa de todos, certo dia o rapaz arrumou suas coisas e se preparou para voltar aos Estados Unidos. O Rav Noach Weinberg, muito triste por ver um rapaz com um futuro tão promissor nos estudos de Torá abandonar a Yeshivá assim tão de repente, questionou os motivos daquela decisão. O rapaz explicou que, apesar de estar gostando muito da Yeshivá, ele era um jogador profissional de xadrez e estava voltando aos Estados Unidos para participar de uma importante competição.

O Rav Noach Weinberg poderia tentar convencê-lo a ficar com dezenas de argumentos lógicos. Porém, ele não tentou argumentar nem convencer o rapaz a ficar. Ao invés disso, fez um desafio a ele: propôs que eles disputassem uma partida de xadrez, uma única partida, e se o rapaz ganhasse, poderia ir embora e voltar aos Estados Unidos, mas caso o rabino ganhasse, o rapaz ficaria na Yeshivá e continuaria seus estudos e seu caminho de crescimento espiritual.

Para um campeão de xadrez, aquela proposta pareceu uma piada, pois certamente o rabino não estava tão bem preparado quanto ele. Por isso, com um sorriso de satisfação no rosto, o rapaz aceitou o desafio. Porém, o jogo foi ficando extremamente complicado, e o que parecia ser um jogo fácil, que não duraria mais que poucos minutos, se transformou em uma difícil batalha de mais de uma hora. O mais incrível foi que, no final, o Rav Noach Weinberg acabou vencendo.

As pessoas não podiam acreditar naquela vitória. O rabino, que nunca havia revelado a ninguém sobre suas incríveis habilidades no xadrez, havia derrotado um grande campeão! Quando questionado, o Rav Noach Weinberg explicou:

- Eu joguei xadrez poucas vezes na vida, quando ainda era pequeno. No decorrer do jogo eu fui aos poucos me lembrando das regras de movimentação das peças. Eu sabia que através das minhas poucas e limitadas habilidades no xadrez seria impossível vencer o jogo. Porém, eu tive a coragem de propor o jogo pois acreditava, com todas as minhas forças, que se D'us quisesse que aquele rapaz ficasse na Yeshivá, Ele poderia me fazer vencer a partida. E foi isto o que aconteceu.

O rapaz acabou ficando na Yeshivá. Ele estudou com dedicação, tornando-se um aluno brilhante e uma fonte de inspiração para outros jovens. Tudo graças à incrível confiança que o Rav Noach Weinberg tinha em D'us. 
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Nesta semana lemos a Parashat Itró que, entre outros assuntos, nos ensina sobre os 10 mandamentos entregues por D'us no Monte Sinai, diante de todo o povo judeu. E o primeiro Mandamento entregue foi: "Eu sou Hashem, teu D'us, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão" (Shemot 20:2). Este Mandamento refere-se à importante Mitzvá de Emuná. De acordo com o Rambam zt"l (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204), esta Mitzvá pode ser cumprida ao acreditarmos que há um D'us que é a causa de toda a existência, e que constantemente recria e mantém toda a criação. Porém, há outro conceito fundamental que está conectado com a Emuná: o Bitachon, que é a confiança em D'us. Será que o Bitachon é parte da Mitzvá de Emuná ou é um conceito separado, que não está diretamente conectado a nenhuma Mitzvá específica?

Explica o Rav Avraham Yeshayahu Karelitz zt"l (Bielorússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido com Chazon Ish, que Bitachon não é algo independente, e sim uma consequência natural da Emuná verdadeira. A Emuná é a obrigação de acreditar em princípios fundamentais sobre D'us, como por exemplo a Hashgachá Pratid (Supervisão particular que D'us tem sobre todo o universo, nos mínimos detalhes), enquanto o Bitachon é a aplicação desta crença nas questões práticas do cotidiano. Se a pessoa acredita na Supervisão de D'us, mas não consegue colocar isto na prática em seu cotidiano, então é um sinal de que há alguma deficiência em sua Emuná.

O Chazon Ish exemplifica isto através de uma pessoa que constantemente expressa sua Emuná de que tudo o que ele tem vem de D'us. Ele declara publicamente que reconhece que seu sustento vem diretamente de D'us e que não há nenhum motivo para ficar preocupado ou ansioso com o futuro. Entretanto, quando alguém abre uma loja concorrente perto da sua, de repente sua Emuná desaparece e ele se torna uma pessoa preocupada e desconfiada. A sua Emuná parecia ser muito forte quando tudo estava indo bem, mas quando ele passou por um teste, falhou em demonstrar o Bitachon necessário. Isto, por sua vez, demonstra que sua Emuná nunca foi completa e verdadeira, e tudo o que ele declarava em público era apenas da boca para fora. Portanto, de acordo com o Chazon Ish, o Bitachon é um aspecto essencial da Emuná, e significa aplicar a Emuná nas situações reais da vida, em especial nos momentos de dificuldade e teste.

O Rav Shalom Noach Berezovsky zt"l (Bielorússia, 1911 - Israel, 2000), em sua obra intitulada "Netivot Shalom", se aprofunda um pouco mais no conceito de Bitachón. Ele explica que, na realidade, existem dois tipos de Bitachon: um tipo inativo e um tipo proativo. O Bitachón inativo se aplica quando a pessoa se encontra em uma situação difícil e na qual não há nada que ela pode fazer para revertê-la. Nestas circunstâncias, sua "Avodat Hashem" (Serviço Divino) é confiar que tudo o que acontece é, em última instância, para o nosso bem. Já o Bitachón proativo se torna necessário quando é exigido da pessoa que ela faça algo que demonstre sua confiança em D'us. Por exemplo, durante a abertura do Mar Vermelho, Moshé Rabeinu e o povo estavam chorando e clamando a D'us para que Ele os salvasse do exército egípcio, que avançava na direção deles. Em resposta, D'us falou para que eles parassem de rezar e entrassem no mar. Mas por que D'us não abriu o mar Vermelho enquanto o povo judeu estava tranquilamente na praia, como é retratado (de forma completamente equivocada) nos filmes e novelas? Por que a necessidade de entrar no mar revolto e só depois fazer o milagre?

De acordo com o Rav Shalom Noach, para que o povo judeu pudesse ter o mérito de D'us transcender as leis da natureza através da abertura do mar Vermelho, eles deveriam demonstrar uma confiança em D'us que também transcendesse as leis da natureza. Eles deveriam acreditar que, se era a vontade de D'us que eles cruzassem o mar, então eles deveriam ter a confiança de que Ele era capaz de permitir que isto acontecesse, mesmo que eles não tinham a mínima ideia de como seria possível ocorrer na prática. Portanto, se jogar no mar revolto antes da sua abertura foi uma demonstração de Bitachón proativo, que fez o povo judeu ter direito ao mérito do grande milagre da abertura do mar.

A conclusão é que a Emuná verdadeira somente se manifesta em uma pessoa que está disposta a agir com uma inabalável confiança em D'us, com a crença de que, se for a vontade de D'us que ele se comporte de certa maneira, então ele pode, e deve, apesar das dificuldades, fazer o que é correto, e desta maneira D'us permitirá que ele tenha sucesso em seus empreendimentos.

Parece algo difícil de ser alcançado, mas muitas pessoas se esforçaram e conseguiram. Foi com esta certeza que o Rav Noach Weinberg zt"l conseguiu trazer de volta à Torá milhares de judeus que estavam completamente afastados. Ele costumava dizer que quando vemos problemas no mundo, não há nenhum motivo para não sairmos e enfrentarmos as dificuldades quando acreditamos que esta é a vontade de D'us, pois Ele não tem nenhum tipo de limitação ou dificuldade para cumprir a Sua vontade. Para o Rav Noach Weinberg isto não era apenas algo teórico, que ele dizia da boca para fora em momentos de tranquilidade. Em uma época em que o Kiruv (movimento para aproximar judeus afastados da Torá) era praticamente desconhecido no mundo, o Rav Noach Weinberg sentiu a necessidade de fazer algo pelos milhares de judeus que estavam se assimilando no mundo inteiro. Muitas pessoa ridicularizaram seus sonhos e ideais, alegando que não era algo realista, e ele foi chamado por muitos de tolo.

Porém, apesar das dificuldades, sua convicção de estar cumprindo a vontade de D'us deu forças para que ele superasse muitos contratempos e realizasse verdadeiros milagres ao despertar um movimento de Teshuvá (retorno aos caminhos da Torá) que salvou milhares e milhares de judeus de perderem sua identidade judaica. A idealização da gigantesca Yeshivá do Aish HaTorá, que atualmente fica em frente ao Kotel (Muro das Lamentações), um dos lugares mais sagrados do judaísmo, começou em uma pequena salinha no bairro de Kriat Sanz, em Jerusalém, com o Rav Noach Weinberg e mais três jovens que acreditavam no que estavam fazendo.
 
 Mas a incrível Emuná e Bitachón do Rav Noach Weinberg não caíram do céu. Foram anos e anos de um trabalho constante para desenvolver este relacionamento de confiança em D'us. Através de reflexões e do estudo da Torá, ele foi crescendo aos poucos, até atingir este nível de certeza e tranquilidade de que tudo, em cada detalhe, está nas Mãos de D'us. Se tivermos esta claridade, então quando surgirem dificuldades em nossas empreitadas, basta fazermos o nosso esforço e Ele abrirá para nós os mares de dificuldades que surgem em nossas vidas.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A FORÇA DA PERSEVERANÇA - PARASHAT BESHALACH 5776

"Yaacov Waisman (nome fictício), aluno da famosa Yeshivá de Vologzin, era conhecido por seu enorme conhecimento de Talmud. Certa vez ele estava no meio de uma refeição quando um de seus colegas da Yeshivá se aproximou dele e perguntou a fonte no Talmud onde constava certa opinião. Enquanto Yaacov ainda se esforçava para tentar lembrar, outro aluno respondeu que a opinião era do Tassafot (um comentarista do Talmud), e indicou o Tratado do Talmud e a página onde este comentário se encontrava.

Quando Yaacov percebeu que não havia conseguido responder algo tão simples de ser lembrado, sentiu tanta vergonha que imediatamente parou de comer, levantou-se da mesa e correu para o Beit Midrash (Centro de estudos). Ele estudou aquele dia inteiro praticamente sem nenhuma interrupção, e o mesmo ocorreu no dia segunte, e na semana seguinte, e no mês seguinte. Durante sete anos Yaacov estudou com uma incrível constância e perseverança, até que ele se tornou um grande conhecedor da Torá e trouxe muita luz espiritual para o mundo.

Anos mais tarde, um dos alunos da Yeshivá que estava presente no episódio da pergunta no refeitório, Avraham Leibovitz (nome fictício), lembrou-se que Yaacov havia se levantado da mesa e corrido para o Beit Midrash de uma maneira tão repentina que havia se esquecido de fazer a Brachá Acharoná (benção posterior dos alimentos). Avraham foi perguntar ao Rosh Yeshivá (Diretor Espiritual), o Rav Chaim Vologziner zt"l (Lituânia, 1749 - 1821), se naquelas condições seria permitido a Yaacov não ter feito a Brachá. O Rav Chaim Vologziner, após refletir um pouco, respondeu:

- Eu não sei dizer se seria permitido ou não ele intencionalmente ter deixado de fazer a Brachá naquela situação. Mas há algo que eu sei: se ele tivesse parado para recitar a Brachá e não tivesse se levantado imediatamente e ido para o Beit Midrash estudar, ele nunca teria se transformado no grande estudante de Torá que ele virou. Naquele momento ele tinha sido atingido por uma profunda dor, pela vergonha da sua falta de conhecimento de Torá, e ele utilizou a força daquele momento para começar a estudar em outro nível. Se ele tivesse esperado, mesmo que fossem apenas alguns poucos minutos, ele teria perdido aquele momento de inspiração para sempre." (História Real)

Em nossas vidas muitas vezes temos momentos de inspiração, nos quais temos vontade de crescer, de tomar atitudes e de mudar nossos rumos. Mas se não aproveitarmos estes momentos com atos, infelizmente eles ficarão apenas como memórias do passado, e não como construções do futuro.   
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Nesta semana lemos a Parashat Beshalach, que descreve a triunfal saída do povo judeu do Egito, diante dos olhos dos egípcios que, esmagados pela força das dez pragas, nada puderam fazer para impedir o povo judeu de ir embora para sempre. Mas nem todos os judeus estavam apenas "aproveitando" aquele momento especial de liberdade. Moshé Rabeinu estava preocupado em cumprir o juramento que os judeus haviam feito para Yossef, há mais de 200 anos, de que quando eles fossem embora do Egito, levariam com eles os seus restos mortais para que fossem enterrados na Terra de Israel, como está escrito: "E Moshé levou com ele os ossos de Yossef" (Shemot 13:19).

Porém, há um versículo do Tanach (Profetas e Escrituras) que parece contradizer este ensinamento da Torá: "Os ossos de Yossef, que os Filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterrados em Shechem" (Yoshua 24:32). Afinal, quem levou os ossos de Yossef do Egito, Moshé ou outros judeus? O Talmud (Sotá 13b) responde com um incrível conceito espiritual: quando uma pessoa começa uma Mitzvá mas não a termina, e outra pessoa completa a Mitzvá, então a Torá dá crédito para a pessoa que terminou a Mitzvá como se ela tivesse feito a Mitzvá completa. Moshé começou a Mitzvá de enterrar Yossef na Terra de Israel, mas como não foi ele que terminou a Mitzvá, então o crédito foi dado para aqueles que completaram a Mitzvá, e não para Moshé.

Mas há um Midrash (parte da Torá Oral) que aparentemente contradiz este princípio espiritual. O nosso Primeiro Beit HaMikdash (Templo Sagrado), em sua enorme grandeza e esplendor, foi construído e inaugurado por Shlomo HaMelech. David, seu pai, não viu o Beit HaMikdash (Templo) terminado, apenas participou de suas fundações. Porém, há um versículo que refere-se a David como se ele tivesse construído o Templo, como está escrito: "Um Salmo, um Cântico de inauguração da Casa (Templo), de David" (Salmos 30:1). De acordo com um Midrash (parte da Torá Oral), aprendemos deste versículo que, apesar de David ter apenas começado a construção do Templo, é creditado a ele os méritos de toda a construção. Isto não é contraditório com o conceito ensinado pelo Talmud?

O Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) desvenda a aparente contradição. Toda vez que alguém começa uma Mitzvá e não consegue completá-la por motivos de "força maior", isto é, que não são de sua responsabilidade, então ele é creditado como se tivesse realizado a Mitzvá inteira, mesmo que na realidade ele não a terminou. Entretanto, se aquele que começa a Mitzvá tem alguma culpa no fracasso de completá-la, então ela é creditada àquele que a terminou. Isto explica a diferença entre o caso dos ossos de Yossef e a construção do Beit HaMikdash. David HaMelech não teve absolutamente nenhuma responsabilidade por não ter completado a construção do Beit HaMikdash, pois foi uma ordem explícita de D'us que a construção fosse feita por seu filho Shlomo HaMelech e não por ele, e por isso é creditado como se ele tivesse construído tudo. Já no caso dos ossos de Yossef, Moshé não conseguiu completar a Mitzvá por causa de um erro que ele cometeu ao bater com seu cajado na pedra para dar água ao povo, ao invés de ter pedido a água para a pedra conforme D'us havia ordenado. Como a consequência deste erro foi D'us ter decretado que Moshé não entraria na Terra de Israel, então de certa maneira Moshé não conseguiu terminar a Mitzvá de enterrar Yossef em Israel devido às suas próprias ações, e é por isso que a Mitzvá não foi atribuída a ele.

Se refletirmos sobre este ensinamento do Rav Moshe Feinstein, despertamos um pouco da nossa apatia. Apesar de todos os esforços de Moshé para cumprir a Mitzvá de entrerrar Yossef em Israel, uma culpa mínima que ele teve em não terminar a Mitzvá fez com que ele perdesse o mérito dela. E se não tomarmos muito cuidado com nossos atos, por causa de falhas pequenas nós também podemos acabar perdendo o mérito de muitas Mitzvót.

Há muitas situações nas quais temos a oportunidade de completar algum tipo de Mitzvá, mas que acabamos falhando por falta de perseverança. Isto se aplica muito ao estudo de Torá, pois normalmente as pessoas começam a frequentar algum Shiur ou palestra semanal, mas acabam desistindo no meio. Por exemplo, quando é iniciado um novo ciclo de estudos de "Daf Yomi" (grupos que se reúnem para estudar uma folha do Talmud por dia, visando terminar todos os Tratados em um período de 7 anos), normalmente as aulas ficam lotadas, mas conforme o tempo vai passando, as salas de aula vão se esvaziando, pois muitos desistem do projeto no meio do caminho.

Outra área onde normalmente as pessoas falham é em seu próprio crescimento espiritual. Por exemplo, em certos momentos da vida, como em Rosh Hashaná ou após passar por algum perigo de vida, as pessoas se sentem inspiradas a tomar decisões de crescimento espiritual. Porém, com o passar do tempo, estas decisões se tornam apenas distantes memórias e não se transformam em atos concretos.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a chave do sucesso é a característica de perseverança. Quando tomamos uma decisão, devemos nos esforçar para não desistir no meio do caminho, apesar das dificuldades que acabam surgindo. Um exemplo de perseverança foi dado pelo Rav Israel Meir HaCohen zt"l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim. Uma de suas maiores obras, a Mishná Brurá, que discute uma parte importante do Shulchan Aruch (Código de Leis Judaico), levou 25 anos para ficar pronta. Mas por que tantos anos para escrever um livro? Pois durante estes anos ele passou por muitas dificuldades e adversidades que o impediam de continuar escrevendo. A grande maioria das pessoas certamente teria desistido caso tivesse passado por tantas dificuldades, e inclusive teriam enxergando as dificuldades como "sinais" de que aquele investimento não estava destinado a ter sucesso. Mas o Chafetz Chaim percebeu que todas as dificuldades eram, na verdade, artimanhas do Yetser Hará (má inclinação), que queria evitar a todo custo que a Mishná Brurá fosse escrita. Ele reuniu forças, persistiu e conseguiu terminar sua obra, que se tornou um dos livros de Torá mais importantes do século passado.

Qual foi o segredo do sucesso do Chafetz Chaim? Por que ele conseguiu persistir enquanto a maioria teria desistido? Pois ele entendia a importância vital do que estava tentando fazer. Isto permitiu que ele superasse todos os desafios e conseguisse completar seu trabalho. Portanto, uma das dicas mais importantes para alcançarmos o sucesso nos nossos empreendimentos espirituais é manter o foco na importância do que estamos tentando fazer, e só assim conseguiremos persistir e vencer as adversidades.

Outra maneira prática de não deixar o tempo desgastar nossas aspirações e vontade de crescer é tomar atitudes imediatas logo após algum momento de inspiração. Por exemplo, quando escutamos alguma aula de Torá que nos toca profundamente, se não fizermos nenhum ato, em pouco tempo a "marca" deixada no nosso coração se apagará. Mas se imediatamente começarmos alguma mudança, alguma melhoria, por menor que seja, isto nos ajudará a guardar a força daquele momento.

Quando surgem oportunidades na vida, não podemos desperdiçá-las. A combinação de perseverança, foco, entendimento da grandeza dos nossos ideais e atitudes práticas imediatas pode nos ajudar a não apenas começarmos empreendimentos na vida, mas também terminá-los com sucesso.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

APROVEITE CADA MOMENTO - PARASHAT BÔ 5776

Há muitos anos o Sr. Zaks fez a sua primeira viagem de avião. Era uma longa viagem, e o voo parecia interminável. O Sr. Zaks sentia-se sufocado em seu assento apertado, entre dois desconhecidos, quase sem ar para respirar e sem espaço para esticar as pernas. Para completar o quadro desastroso, uma criança sentada no banco de trás não parava de chutar seu assento, e havia outra criança por perto que chorava sem parar. O Sr. Zaks sentiu que precisava fugir daquele lugar. Levantou-se para caminhar um pouco, mesmo sabendo que não tinha muitas opções para onde ir.

Na parte da frente do avião, o Sr. Zaks viu uma cortina. Ao abrir, levou um susto. Seus olhos não acreditaram quando viu a primeira classe. Silêncio e tranquilidade, com assentos amplos e cômodos, muitos lugares vazios. Seria um sonho viajar daquela maneira. Sentou-se em um dos assentos da primeira classe, esticou suas pernas, começou a ler seu livro e acabou adormecendo.

- Senhor, você não pode ficar aqui - foram as palavras que o Sr. Zaks escutou enquanto uma aeromoça o sacudia, despertando-o do seu delicioso sonho - Você deve regressar imediatamente ao seu assento na classe econômica!

- Sabe, decidi trocar minha passagem - disse o Sr. Zaks, com inocência - A partir de agora quero viajar de primeira classe. Estou disposto a pagar a diferença. Pago qualquer valor, tudo para não precisar voltar às torturas do meu assento anterior.

A aeromoça balançou a cabeça negativamente e respondeu:

- Sinto muito, senhor, mas a compra de passagens ocorre unicamente em terra. Não se pode mudar de lugar aqui em cima...

O Sr. Zaks não teve outra alternativa a não ser voltar, completamente decepcionado, ao seu assento.

Mais tarde o Sr. Zaks refletiu e percebeu a importante lição que havia aprendido: a aquisição do nosso lugar no Mundo Vindouro se realiza unicamente aqui, neste mundo. Não poderemos mudar nosso nível depois que terminarmos nosso trabalho neste mundo e formos lá para cima. Por isso vale a pena se esforçar e aproveitar cada oportunidade na vida para adquirirmos um pouco mais de espiritualidade e méritos para o Mundo Vindouro. 
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Nesta semana lemos a Parashat Bô, que descreve as últimas três pragas que D'us mandou sobre os egípcios, quebrando definitivamente a resistência deles. O povo judeu, após dois séculos de convívio com os egípcios, um povo de idólatras sem valores morais, acabou se "contaminando" e também sofreu uma enorme queda espiritual. Poucas gerações após a morte dos nossos patriarcas, que atingiram incríveis níveis de conexão com D'us, o povo judeu acabou se afundando em práticas espiritualmente negativas, chegando a níveis extremos de Tumá (impureza espiritual). Se os judeus tivessem permanecido mais alguns instantes no Egito, eles teriam atingido um nível espiritual tão baixo que não haveria mais volta. Por isso D'us precisou tirar correndo o povo judeu do Egito, tão rápido que a massa que eles estavam assando não teve tempo de fermentar, e eles levaram como provisão para o deserto apenas Matzót, um tipo de pão não fermentado.

A Mitzvá de comer Matzá, que tem um simbolismo muito profundo, foi transmitida de geração em geração. Até hoje, durante a semana inteira da festa de Pessach, comemos Matzá no lugar dos pães fermentados. E assim nos comanda o versículo: "E cuidem das Matzót" (Shemot 12:17). O entendimento mais simples deste versículo é que quando preparamos nossas Matzót devemos tomar muito cuidado, pois a partir do momento em que a farinha entra em contato com a água, o atraso em assar a massa faz com que ela fermente, tornando-se "Chametz" e invalidando a Matzá para o seu consumo durante Pessach.

Porém Rashi (França, 1040 - 1105), citando um Midrash (parte da Torá Oral), nos ensina um significado mais profundo. A palavra "Matzót" é escrita com as mesmas letras da palavra "Mitzvót". De acordo com este ensinamento do Midrash, o versículo se transforma na exigência de que nossas Mitzvót sejam cumpridas com "zrizut" (agilidade), sem nenhum tipo de demora ou postergação. Quando temos a oportunidade de cumprir uma Mitzvá, não devemos permitir que ela "fermente", isto é, não podemos ser desleixados nem preguiçosos, e devemos cumpri-la imediatamente.
Mas esta comparação entre Matzót e Mitzvót ensinada pelo Midrash desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, se uma pessoa prepara Matzót sem a devida agilidade, ele as invalida completamente. Porém, apesar de não ser a maneira ideal de fazer o Serviço Divino, a pessoa que adia o cumprimento de uma Mitzvá ou a cumpre com desleixo e preguiça não a invalida. Então como entender a comparação feita pelo Midrash, entre Matzót e Mitzvót? Será que é apenas uma semelhança entre as letras?

Além disso, este ensinamento do Midrash aparentemente contradiz um ensinamento do Talmud (Sanhedrin 105b), que afirma que a pessoa deve estar sempre envolvida com Torá e Mitzvót, mesmo que seja com motivações incorretas, pois através do cumprimento das Mitzvót ela terminará cumprindo-as pela motivação correta. Mas como pode ser que cumprir uma Mitzvá com as motivações incorretas tem méritos, enquanto cumprir uma Mitzvá com a motivação correta, porém sem agilidade, é comparado com o Chametz, algo sem valor?

Explica o Rav Yohanan Zweig que podemos responder estas perguntas com uma interessante analogia. Imagine uma mãe que pede para que seu filho faça algumas compras no mercado que fica a duas quadras de casa. Com um senso de obrigação, o filho interrompe o que estava fazendo e vai às compras. Mas assim que ele volta a mãe informa que esqueceu de pedir um produto, então o filho tem que ir novamente ao mercado, mas desta vez já um pouco mais irritado e relutante. Se este cenário se repetir diversas vezes, isto é, cada vez que o filho voltar do mercado a mãe lembrar que esqueceu algo, obrigando o filho a fazer uma nova viagem, o nível de relutância do filho vai ficando cada vez maior, até ele chegar ao ponto de sentir ressentimento por sua mãe ter pedido para que ele fosse ao mercado. O filho pode até mesmo acaba externando este ressentimento, falando com a mãe de uma maneira desrespeitosa. Era preferível que a mãe nem mesmo tivesse pedido ao filho para ir ao mercado, pois algo que começou como um ato de respeito do filho acabou se transformando em uma terrível demonstração de desrespeito.

Mas há uma maneira como a mãe poderia ter feito para que o filho não ficasse ressentido. Se ela tivesse oferecido algum tipo de prêmio para cada vez que ele fosse ao mercado, ele certamente não se incomodaria de ir tantas vezes, ao contrário, faria a tarefa com alegria, pois saberia que em cada uma das vezes estava ganhando algo, não apenas perdendo seu tempo.

Este conceito se aplica ao cumprimento de qualquer tarefa. Quanto mais tempo a pessoa cumpre uma tarefa com algum tipo de incômodo ou resistência, mais relutante ela ficará. Aos poucos ela chegará ao ponto de se ressentir tanto desta tarefa que poderá até mesmo chegar a odiar seu cumprimento. Entretanto, algum tipo de incentivo pode aliviar sua relutância, e pode até mesmo levá-la a sentir prazer com o cumprimento desta tarefa.

Ensina o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) que é muito importante criar incentivos para estimular as crianças, como dar doces, quando elas fazem uma Mitzvá, pois assim elas vão associar a experiência de cumprir Mitzvót com algo positivo e gostoso, não algo pesado e difícil. Esta é a explicação do "homem das balas" que existe em muitas sinagogas no Shabat. A experiência já demonstrou que se forçarmos uma criança a ir para a sinagoga e a criança sair com um sentimento negativo, no momento em que os pais já não tiverem mais controle sobre o filho, ele deixará de frequentar a sinagoga. Mas ao contrário, se as crianças considerarem a experiência positiva e gostosa, mesmo que seja pelas razões incorretas, é muito provável que elas continuarão a ir à sinagoga, com grandes chances de que, ao amadurecerem, frequentarão a sinagoga com gosto e pelos motivos corretos.

Já a pessoa que cumpre uma Mitzvá com as motivações corretas, porém a cumpre de maneira desleixada, isto indica que ela está cumprindo a Mitzvá com algum nível de resistência. Esta resistência pode ir crescendo até chegar ao ponto da pessoa odiar cumprir a Mitzvá. É por isso que o Midrash comparou uma Mitzvá feita sem agilidade ao Chametz, pois da mesma forma que o Chametz é uma Mitzvá nula, assim também será, no fim das contas, a Mitzvá daquele que a cumpre de maneira desleixada, pois ele acabará até mesmo odiando cumpri-la. Por outro lado, se a pessoa cumpre as Mitzvót com entusiasmo, ela vai chegar ao nível de amar o cumprimento desta Mitzvá, mesmo que o entusiasmo seja inicialmente gerado por recompensas ou incentivos. É por isso que o Talmud incentiva o cumprimento das Mitzvót mesmo que seja inicialmente pela motivação incorreta.


Devemos chegar ao nível de cumprir as Mitzvót pelo simples fato de D'us, o nosso Criador, ter nos comandado. Porém, como combustível motivador, podemos usar o conceito de que cada Mitzvá e cada bom ato nos ajuda a construir um pouco do nosso Mundo Vindouro. Assim saberemos dar mais valor para cada oportunidade de Mitzvá quer surgir na nossa frente, pois esta vida é limitada e passageira, mas o Mundo Vindouro, criado com cada Mitzvá e bom ato, será para toda a eternidade.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex. 10:1-13:16, Je 46:13-28