domingo, 10 de maio de 2015

BLOQUEANDO AS MÁS INFLUÊNCIAS - PARASHÁ EMOR 5775

 "O príncipe de certo reinado estava às vésperas de ser coroado rei, mas de acordo com as leis locais ele deveria ser casado para poder assumir o trono. Então ele convocou todas as moças jovens do reinado para que disputassem o cargo de futura rainha. Entre as moças que se apresentaram no palácio real estava Chana, uma jovem muito bonita mas muito pobre, que mesmo sabendo que tinha poucas chances de ser escolhida, resolveu participar da disputa. Quando Chana chegou ao palácio, lá estavam todas as mais belas moças, com as mais lindas roupas e finas joias. O príncipe então anunciou o desafio:

- Será entregue um vaso com uma semente para cada uma de vocês. Aquela que dentro de seis meses me trouxer a mais bela flor cultivada será escolhida como minha esposa e futura rainha.

Chana cuidava da sua semente com muita paciência e carinho. Mas passaram-se três meses e nada brotou. Ela tentou de tudo, usou todos os métodos que conhecia, mas nada adiantava. Ela saía na rua e via as flores das outras mulheres, crescendo e se tornando cada dia mais bonitas, e desanimava. Pensou em fazer algo desonesto e plantar outra semente, já que a sua não brotava. Porém, seus pais eram pessoas muito corretas e, ao escutarem seu plano, convenceram-na de que não valia a pena mentir, mesmo que o preço fosse perder a chance de se casar com o príncipe. Os seis meses se passaram e Chana não havia conseguido cultivar nada. Consciente do seu esforço e dedicação, mesmo sem nada para mostrar ao príncipe, ela decidiu retornar ao palácio na data e hora combinadas, levando seu pequeno vaso vazio.

Todas as pretendentes estavam lá, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. O príncipe observava tudo com muito cuidado e atenção, e as pretendentes abriam um enorme sorriso ao mostrar, orgulhosas, suas belas flores cultivadas. Quando o príncipe viu o vaso vazio de Chana, não pôde deixar de notar a expressão de vergonha e tristeza no rosto dela. Após verificar os vasos de todas as jovens que haviam comparecido, o príncipe anunciou o resultado: Chana seria sua futura esposa. Ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela moça que nada havia cultivado! Então ele calmamente esclareceu:

- Em um lugar onde a mentira e a enganação estão presentes com tanta força, esta moça foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma rainha: a flor da verdade. As sementes que eu entreguei para todas as mulheres eram estéreis, e não poderiam ter brotado nada..."

Estamos constantemente expostos a maus exemplos. A enganação, o roubo, a desonestidade e a traição estão cada vez mais presentes no nosso cotidiano. Temos que transformar nossas casas em verdadeiros santuários, nos quais apenas os bons valores podem entrar, para tentar nos proteger de toda esta má influência. 

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Na Parashá desta semana, Emor, a Torá nos ensina algumas leis mais rigorosas que eram aplicadas apenas aos Cohanim (sacerdotes) e ao Cohen Gadol (Sumo sacerdote), por eles terem um status espiritual mais elevado e serem os responsáveis pelos serviços do Mishkan (Templo Móvel). Existiam algumas restrições em relação a que tipo de mulheres eles poderiam se casar, e também havia restrições em relação a que grau de parentesco permitia aos Cohanim participarem de um enterro, pois quando um Cohen encostava ou ficava sob o mesmo teto que um corpo, ele se impurifica e ficava proibido por alguns dias de realizar os serviços espirituais no Mishkan, até que completasse seu processo de purificação.

A Torá define que os Cohanim tinham permissão de se impurificar apenas pelos seus parentes mais próximos, como seus pais e irmãos. Já o Cohen Gadol tinha rigorosidades ainda maiores, tanto em relação ao tipo de mulheres que poderia se casar, quanto em relação a se impurificar por um parente falecido. Por sua importância espiritual nos trabalhos do Mishkan, ele não podia se impurificar nem mesmo pelos seus pais, como está escrito: "Ele (Cohen Gadol) não deve sair do Mikdash (Santuário)" (Vayikrá 21:12). Ele não podia abandonar seus serviços no Mishkan para acompanhar um enterro, e deveria continuar normalmente seus serviços no Mishkan mesmo no caso de falecimento de parentes muito próximos.

Porém, deste versículo podemos aprender outro conceito espiritual muito importante, que nos ajuda a responder um interessante questionamento. O Talmud (Brachót 59a) nos conta a história de Yochanan, o Cohen Gadol, que serviu no Beit HaMikdash (Templo Sagrado) por 80 anos e depois acabou tornando-se um "Tzduki" (seita que acreditava apenas na Divindade da Torá escrita, mas ignorava a Torá Oral, se configurando uma das primeiras linhas "reformistas" do judaísmo, e foi responsável por afastar milhares de judeus do cumprimento das Mitzvót da Torá). Mas o Talmud (Ioma 38b) afirma que uma pessoa que já viveu a maioria dos seus anos e não transgrediu, então não vai mais transgredir. Então como pode ser que depois de 80 anos servindo como Cohen Gadol, entrando todo Yom Kipur no Kodesh HaKodashim, o lugar mais sagrado do mundo, Rabi Yohanan pôde ter caído tanto espiritualmente? Além disso, nossos sábios ensinam: "As transgressões não alcançam aqueles que trazem méritos para a comunidade" (Pirkei Avót 5:18). Se durante toda sua vida o Rabi Yohanan ocupou um cargo que trazia muitos méritos para todo o povo judeu, então como no final da vida ele se tornou um "Tzduki"?

Responde o Rav Ytzchak Zilberstein shlita que podemos aprender muitas lições espirituais prestando atenção no que ocorre no mundo material. Por exemplo, existem muitos remédios no mundo que curam alguns tipos específicos de doença. Porém, quando uma doença se espalha de maneira muito forte e descontrolada, transformando-se em uma epidemia, o ar ficar completamente contaminado com o vírus da doença. Nesta situação crítica, mesmo as pessoas mais saudáveis podem acabar se contaminando. Assim também ocorre espiritualmente, pois mesmo as pessoas mais elevadas espiritualmente podem se "contaminar" com "doenças espirituais contagiosas" que existem no ar. Foi exatamente o que ocorreu com Yohanan Cohen Gadol. Em sua geração a força dos Tzdukim era tão grande que até mesmo alguém elevado espiritualmente como ele acabou caindo na armadilha do Yetzer Hará (má inclinação). Os méritos citados pelo Talmud e pelo Pirkei Avót realmente funcionam para proteger a pessoa, mas quando as influências espirituais negativas são muito fortes e constantes, então estes méritos não são suficientes para bloquear completamente os efeitos negativos.

Atualmente não temos mais os Tzdukim nos ameaçando espiritualmente, mas infelizmente vivemos em uma sociedade onde valores como honestidade e integridade são cada vez mais raros. Nos noticiários somos bombardeados com notícias de fraudes, desvios, traições e divórcios. Isto nos faz perder a nossa sensibilidade, e cada vez ficamos menos chocados ao ver injustiças e roubos. Desvios de conduta que há até pouco tempo eram considerados abomináveis acabam se tornando aceitáveis. Então como fazer para nos proteger e não nos acostumarmos com o que é errado?

Explica o Rav Ytzchak Zilberstein shlita que a resposta está nas palavras do versículo "Ele não deve sair do Santuário". Não é um ensinamento apenas para o Cohen Gadol, mas para cada judeu. Apesar de o mundo estar repleto de más influências, existe um lugar onde podemos ficar imunes e protegidos: no Beit-Midrash, o local de estudo de Torá. Lá podemos receber boas influências, podemos crescer espiritualmente e bloquear tudo o que nos derruba espiritualmente, como ensinam os nossos sábios: "Se este pilantra (Yetzer Hará) aparecer, arraste-o para o Beit-Midrash. Se for pedra ele derreterá, e se for metal ele explodirá".

Mais do que isso, precisamos também transformar nossas casas em Santuários. Precisamos tomar muito cuidado com o que permitimos que entre em nossas casas, pois tudo pode afetar nossa espiritualidade. Atualmente os programas de televisão abusam da violência e da pornografia. Os jornais repetem o dia inteiro os casos de roubos e corrupção. Sem um bloqueio consciente das informações que entram em nossas casas, estamos sujeitos a destruir nossa sensibilidade espiritual.

Quando chegarmos ao nosso Julgamento Celestial, uma das primeiras perguntas que teremos que responder será: "Você fixou tempos diários para o seu estudo de Torá?". D'us não vai nos questionar por que não passamos o dia inteiro imersos na Torá, mas Ele questionará se tivemos a claridade de que há um propósito espiritual na vida. Sofremos influências negativas o tempo inteiro, e a nossa ida diária ao Beit-Midrash se torna fundamental em nossa purificação. Não apenas pelo estudo da Torá por si só, mas também pela influência positiva que o Beit-Midrash traz sobre cada judeu que decide se abrigar ali contra as más influências.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
Lv 21:1-24:23, Ez 44:15-31

sábado, 2 de maio de 2015

CONTINUE ANDANDO - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5775

"Nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, os corredores estavam preparados para a largada da semifinal da prova de 400 metros rasos masculina. Entre eles estava um jovem inglês, Derek Redmond, um dos favoritos para a grande final. Quando foi dada a largada, os competidores começaram a disputa de forma acirrada, cada um no limite do seu esforço físico. Derek estava bem na corrida, e vinha com boas chances de classificação. Eram segundos decisivos na vida daqueles que haviam treinado e se preparado tanto, e estavam ali para fazer valer o esforço de uma vida de dedicação.
 Derek Redmond tinha um motivo a mais para querer a vitória. Quatro anos antes, nas Olimpíadas de Seul, ele havia passado por cinco operações em ambos os tendões. Após muito esforço, ele havia conseguido se recuperar e participar daquela olimpíada. Porém, no meio da corrida, seu tendão direito se rompeu. Derek foi ao chão, sentindo muita dor. Era o fim do sonho, e agora restavam apenas a tristeza e a dor. As câmeras não focalizaram Derek caído, e sim o campeão Steve Lewis, que havia completado a prova em 44s50.

Mas Derek Redmond não desistiu. Determinado a concluir a prova, ele se levantou com muita dificuldade e, saltando com apenas uma das pernas, retomou a corrida, obviamente sem a menor chance de classificação. Foi quando seu pai, Jim Redmond, de 49 anos de idade, desceu a arquibancada, escalou a cerca de proteção e saltou para a pista antes que qualquer fiscal pudesse impedi-lo. Ele alcançou seu filho, abraçou-o e ajudou-o a caminhar.

A multidão, de pé, começou a aplaudir ao perceber que Derek Redmond estava participando da corrida da sua vida. O jovem corredor apoiou sua cabeça no ombro direito do pai e juntos eles percorreram o que restava da pista até a linha de chegada, sob os aplausos de incentivo da multidão de mais de 60 mil espectadores. Derek não venceu a corrida, mas naquele dia ele saiu de lá como um grande vencedor".

Dificuldades e tropeços na vida sempre existirão. Mas não podemos parar, não podemos desistir. Temos que continuar sempre buscando o nosso crescimento, nos esforçando um pouco mais a cada dia. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót e Kedoshim. Enquanto a Parashá Acharei Mót descreve os serviços feitos pelo Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) em Yom Kipur, a Parashá Kedoshim traz várias Mitzvót "Bein Adam LeHaveiró" (entre o homem e seu semelhante), nos ensinando que, para chegarmos ao nível de sermos Kedoshim (pessoas sagradas), não podemos focar apenas no nosso relacionamento com D'us, também devemos ser muito cuidadosos no nossos relacionamento com o próximo.

Na Parashá Acharei Mót, no meio da descrição de algumas Mitzvót, a Torá nos traz um mandamento genérico: "E cumpram Minhas Leis, e guardem Meus Estatutos, para andar neles, Eu sou Hashem teu D'us" (Vayikrá 18:4). O que significa a expressão "andar" em relação às Mitzvót? E o que esta expressão acrescenta neste comando genérico de cumprir as Mitzvót da Torá?

Explica o Rav Avraham Shmuel Binyamin (Eslováquia, 1815 - 1872), mais conhecido como Ktav Sofer, que muitas vezes podemos aprender o verdadeiro significado de uma palavra estudando o seu oposto. Neste caso, o oposto de "andar" seria "ficar parado", que em hebraico é "omed". Em muitas situações o Tanach utiliza esta expressão em relação aos anjos, como em uma das visões do profeta Yeshayahu: "Os Serafim (tipo de anjo) estavam parados ("omdim") sobre ele" (Yeshaiahu 6:2). Mas qual é o sentido da Torá dizer que os anjos estavam "parados"? Segundo o Ktav Sofer, esta expressão é utilizada para ensinar que os anjos se mantêm estacionados em seu nível espiritual, isto é, eles não têm conexão com o conceito de "crescimento espiritual". Apesar de terem sido criados em um nível espiritual muito elevado, eles não crescem mais. Já a linguagem "andar" foi utilizada em relação ao ser humano, para ensinar sobre a sua possibilidade de crescer e melhorar continuamente seu nível espiritual através de seu esforço, evitando permanecer espiritualmente parado.

O mesmo conceito é utilizado pelo Ktav Sofer nas palavras iniciais da Parashá Bechukotai: "Se vocês andarem nos Meus Estatutos, e guardarem as Minhas Mitzvót, e as cumprirem" (Vayikrá 26:3). A expressão "andarem nos Meus Estatutos" significa que não é suficiente manter as Mitzvót todos os dias exatamente no mesmo nível em que as cumprimos nos dias anteriores, ao contrário, devemos constantemente crescer em nosso nível espiritual, cumprindo cada uma das Mitzvót de uma maneira melhor e mais louvável a cada dia.

Das palavras do Ktav Sofer aprendemos dois conceitos muito importantes. Em primeiro lugar, que não é suficiente nos acomodarmos na vida, achando que ao cumprir algumas Mitzvót já fazemos tudo o que é necessário no nosso trabalho espiritual. A Torá ressalta que devemos estar constantemente nos esforçando para continuar crescendo, não apenas acrescentando Mitzvót que ainda não cumprimos, mas tentando sempre melhorar ainda mais as Mitzvót que já cumprimos. Um segundo ponto interessante é perceber que, se a Torá repetidamente utiliza a linguagem de "parado" em relação aos anjos, isto significa que permanecer parado não é uma opção para os seres humanos. A Torá explicitamente nos comandou a "andar nas Mitzvót", isto é, a continuar crescendo sempre, pois apenas os anjos conseguem permanecer estacionados em sua espiritualidade sem cair para trás. Já os seres humanos, que não têm esta característica, caso não estejam crescendo, automaticamente estão caindo espiritualmente.

Este conceito também pode ser visto em uma interessante Halachá (Lei Judaica). A Torá nos ensina que em relação ao Mizbeach (Altar de Sacrifícios) há um pequeno detalhe construtivo, como está escrito: "Você não deve subir no Meu Mizbeach através de degraus" (Shemot 20:23). Como o Mizbeach tinha cerca de um metro e meio de altura, então os Cohanim subiam nele através de uma rampa. Explica o Rav Motty Berger que o final do versículo traz um motivo explícito para esta proibição de subir no Mizbeach através de degraus, que está relacionado com o conceito de "Tzniut" (recato). Porém, há outro incrível ensinamento por trás desta proibição. Quando uma pessoa está subindo uma rampa íngreme, se ela não faz nenhum esforço, a inclinação da rampa faz com que ela naturalmente caia para trás. O esforço precisa ser grande não apenas para subir, mas até mesmo para ficar parado no mesmo lugar. Já em uma escada, quando a pessoa está subindo, é possível ficar parada em um dos degraus sem o risco de cair para trás, pois a superfície onde ela está pisando é plana. Portanto, a proibição de utilizar degraus no Mizbeach nos ensina que, quando estamos fazendo o nosso Serviço Divino, não podemos ficar parados, pois nossa subida espiritual não ocorre como alguém que sobe em uma escada, e sim como alguém que sobe em uma rampa.

Mas por que uma pessoa que não faz esforços ativos para se manter espiritualmente acaba caindo, ao invés de ficar parada no mesmo nível? Pois o nosso Yetzer Hará (má inclinação) está o tempo inteiro nos puxando espiritualmente para baixo. Se a pessoa não aplica uma força ativa para crescer, então ela automaticamente cai, pois o Yetzer Hará a puxa para baixo e não há nenhuma força contrária para mantê-la estável. Já os anjos, que não têm Yetzer Hará, podem se manter constantes mesmo sem precisar de nenhum tipo de esforço.

Mas não é fácil colocar este conceito tão importante no coração. Uma das grandes dificuldades é que olhamos para pessoas que não demonstram estar fazendo nenhum esforço ativo para crescer, e mesmo assim parece que elas estão se mantendo no mesmo lugar, elas não demonstram estar se deteriorando espiritualmente. Mas a verdade é que o nosso Yetzer Hará nos derruba com sabedoria, de maneira que não conseguimos perceber. Ele vai atacando devagarzinho a pessoa, fazendo-a gradualmente se enfraquecer no cumprimento das Mitzvót. O processo é tão sutil que dificilmente é percebido pelos que estão observando-a de fora. Normalmente nem mesmo a própria pessoa está realmente consciente de seu processo lento de declínio espiritual. Ela fica tranquila, pensando que está estável, mas a verdade é que sem esforços a pessoa vai dando ao Yetzer Hará pequenos avanços que, somados, se tornam grandes derrotas.

Outra forma do Yetzer Hará nos atacar é através da força do costume. Quando uma pessoa não se esforça para melhorar em áreas onde ela ainda tem alguma deficiência, ela vai caindo cada vez mais na armadilha do hábito. E quanto mais uma pessoa repete um mau hábito, mais vai se tornando difícil se separar deste comportamento errado. Cada transgressão cria uma pequena "linha" que nos conecta um pouco mais aos maus hábitos. Aquela frágil linha, que em um primeiro instante poderia ser facilmente rompida, vai se acumulando até tornar-se uma corda grossa, muito difícil de ser arrebentada.

D'us poderia ter criado o mundo da maneira que quisesse. Portanto, tudo o que Ele criou é necessário, e tem como um de seus propósitos nos ensinar como funcionam as regras do mundo espiritual. Por exemplo, uma das coisas que D'us criou foi a força da gravidade. O que podemos aprender com a força da gravidade? Que o tempo inteiro estamos sendo puxados "para baixo". Mesmo ficar parado de pé exige esforço. Para saltarmos é necessário um esforço ainda maior. D'us nos dá, através da força da gravidade, um exemplo de que estamos o tempo inteiro sendo espiritualmente puxados para baixo. Sem nenhum esforço, acabamos no chão, sem nenhuma espiritualidade. Mesmo para nos mantermos parados de pé é necessário continuamente nos esforçar. E para subir precisamos utilizar ainda mais energia.

Aprendemos deste conceito da Parashá o quanto é fundamental nos esforçarmos ativamente para continuar crescendo espiritualmente, e que não existe para o ser humano a possibilidade de ficar parado constantemente no mesmo nível espiritual. Este ensinamento é ainda mais importante nesta época do ano. Passamos pela festa de Pessach, que representa a força de renovação do povo judeu, e estamos agora nos dias da Contagem do Omer, que fazem a conexão entre a saída do Egito e o recebimento da Torá no Monte Sinai. Da mesma forma que nestes dias o povo judeu cresceu, do pior nível de impureza até o nível de estarem prontos para receber a Torá, assim também temos a enorme oportunidade de crescer, nestes dias tão propícios, em todas as áreas espirituais. O mais importante é nunca desistir, apesar das dificuldades que surgem no nosso caminho, e continuar "andando nas Mitzvót", para conseguirmos vencer a corrida da vida.

SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Lv 16:1-18:30, Am 9:7-15 (Ash.), Ez. 22:1- 16 (Sef.)
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.)




 
 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

CRESCENDO COM AS DIFICULDADES - PARASHIÓT TAZRIA E METZORÁ 5775

"Depois de um dia de caminhada pela floresta, um sábio retornava para sua casa, seguindo por uma longa estrada. De repente, escutou um fraco gemido vindo de trás de uma árvore. Foi verificar e descobriu um homem caído, pálido e com uma grande mancha de sangue ao seu lado. Ele tinha sido ferido e já estava quase inconsciente. Com muita dificuldade, o sábio carregou-o até sua casa e tratou do ferimento. Uma semana depois, já curado, o homem contou que havia sido assaltado e que, ao reagir, fora ferido por uma faca. Disse também que conhecia seu agressor, e que não descansaria enquanto não se vingasse dele. Quando estava pronto para partir, o homem disse ao sábio:

- Agradeço muito por você ter salvado a minha vida. Mas preciso partir, pois quero encontrar aquele que me atacou, e garanto que vou fazer com que ele sinta a mesma dor que eu senti.

- Vá e faça o que você deseja - respondeu o sábio, olhando fixamente para o homem - Entretanto, devo informar que você me deve três mil moedas de ouro, como pagamento pelo tratamento que eu lhe fiz.

O homem ficou assustado. Explicou que era um simples trabalhador, que não tinha como pagar aquele valor tão alto. Ao escutar aquelas palavras, o sábio olhou com serenidade para aquele homem e disse:

- Se você não pode pagar pelo bem que recebeu, com que direito quer cobrar o mal que lhe fizeram? Antes de cobrar alguma coisa, procure saber quanto você deve. Não faça cobrança pelas coisas ruins que acontecem em sua vida, pois a vida pode lhe cobrar tudo de bom que ela lhe ofereceu".

Quando passamos por sofrimentos, ao invés de gastar nossas energias reclamando ou procurando culpados, o principal é buscarmos formas de crescer e aprender com as dificuldades.
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Tazria e Metzorá. O ponto em comum das duas Parashiót é que elas falam sobre as diversas formas de "Negaim", manchas que apareciam na pele, nas roupas e nas paredes das casas das pessoas, e eram manifestações físicas de uma doença espiritual chamada "Tzaráat". Explicam os nossos sábios que desde a destruição do Beit Hamikdash (Templo Sagrado) as leis que envolvem os "Negaim" não se aplicam mais. Então por que estas Parashiót são relevantes para nós? Quais lições podemos aprender de uma doença espiritual com manifestações físicas que já não se aplicam aos nossos dias?

Explica o Sefer HaChinuch (Mitzvá 169) que toda a impureza que atingia uma pessoa que estava com Tzaráat era consequência de algumas transgressões específicas que a pessoa havia cometido, entre elas o Lashon Hará (denegrir o próximo, causando sofrimento, danos físicos ou psicológicos). Portanto, o sofrimento da Tzaráat não era uma coincidência, vinha diretamente de D'us e era direcionado para aquele que havia transgredido. A pessoa contaminada com a Tzaráat precisava passar por um doloroso processo de isolamento, durante o qual ela poderia aproveitar a oportunidade para refletir sobre o seu comportamento e reconhecer seu erro. Em outras palavras, a conduta correta e ideal de alguém que era atingido pelos sofrimentos dos "Negaim" era refletir e consertar seu erro, que era a verdadeira causa dos sofrimentos.

Apesar de não termos mais o sofrimento dos "Negaim", esta lição da Parashá é sempre atual, pois somos afligidos com vários outros tipos de sofrimentos e dificuldades em nossas vidas. Podem ser doenças, problemas no trabalho, falta de dinheiro e falta de Shalom Bait (paz na família). Os "Negaim" nos transmitem a mensagem de que os sofrimentos não são uma coincidência, ao contrário, são uma forma de D'us se comunicar conosco.

Isto fica ainda mais claro quando a Parashá ensina sobre um tipo específico de "Negaim" chamado "Netek", que atacava a cabeça e a barba das pessoas, como está escrito: "Um homem ou uma mulher que tiverem neles uma "Nega" (mancha), em seu couro cabeludo ou em sua barba" (Vayikrá 13:29). A pessoa contaminada com o "Netek" passava por uma semana de isolamento e depois era novamente examinada pelo Cohen. Se a mancha não tivesse se espalhado, então a área em torno dela deveria ser raspada. A Torá acrescenta um detalhe muito interessante: havia uma proibição de raspar o local que estava contaminado com o "Netek".

O Sefer HaChinuch (Mitzvá 170) explica que esta proibição da Torá de raspar o local da contaminação do "Netek" traz uma mensagem profunda. A Torá está nos ensinando que devemos aceitar os sofrimentos e dificuldades que D'us nos manda. Não devemos "dar um coice" nos sofrimentos, nem pensar que temos a habilidade de simplesmente anulá-los e escondê-los das pessoas. Por que esta mensagem é tão importante para nós? Pois a tendência natural do ser humano é se comportar de maneira equivocada em relação aos sofrimentos. Há dois comportamentos equivocados, que são simbolizadas pela transgressão de raspar o local do "Netek". Em primeiro lugar, temos a tendência de "dar um coice" em D'us por causa dos sofrimentos que nos atingem, questionando a Justiça Divina. A famosa pergunta "Por que justamente comigo?" é uma demonstração de que não aceitamos a vontade de D'us e não confiamos na perfeição da Sua Justiça. E mesmo que a pessoa não culpe D'us, ela pode ainda escorregar em outro tipo de erro: a tentativa de remover os sofrimentos sem aprender a verdadeira lição que aquele sofrimento trouxe consigo. Muitas vezes a pessoa se preocupa com o que os outros vão pensar, e acaba focando mais em esconder dos outros seus sofrimentos do que na real oportunidade de crescimento. A proibição de raspar o lugar onde havia o "Netek" nos ensina que não devemos "enfiar a cabeça na terra" quando passamos por alguma dificuldade, ao contrário, devemos nos esforçar para crescer com esta dificuldade.

Mas qual a forma de encontrar, através dos sofrimentos, o erro que cometemos? Na época do Beit Hamikdash era mais fácil, pois quando a pessoa tinha Tzaráat, ela já sabia quais transgressões poderiam estar associadas. Mas como nós podemos, através dos nossos sofrimentos, descobrir o que é necessário consertar? Como saber que tipo de mensagem D'us está nos transmitindo através de cada sofrimento que passamos na vida?

Nas épocas em que havia profecia, os profetas podiam nos transmitir com segurança até mesmo quais eram os detalhes que necessitavam de algum tipo de conserto. Atualmente é impossível ter certeza absoluta de qual o erro necessita ser consertado através apenas da reflexão. Mas nossos sábios explicam que D'us nos dá sempre uma dica do que é necessário trabalhar. Os sofrimentos que D'us nos manda em geral são "Midá Kenegued Midá" (Medida por medida), isto é, a forma como somos castigados é um "lembrete" de D'us sobre o erro que cometemos. O Talmud (Sotá 9b) traz alguns exemplos desta regra espiritual. Shimshon (Sansão) transgrediu com seus olhos, e foi punido através da cegueira, causada pelos seus maiores inimigos, os Plishtim. Avshalom, filho de David HaMelech, sentia muito orgulho de seu cabelo, e justamente seu cabelo foi a causa de sua morte, pois ficou enroscado nos galhos de uma árvore e possibilitou que ele fosse alcançado e morto pelos seus perseguidores. Por isso é recomendado que as pessoas procurem sempre a causa que pode estar de alguma maneira conectada com o sofrimento que ela está passando. Por exemplo, alguém que está com dor de dente deve procurar que tipo de erro ela pode estar cometendo na área da fala, pois é muito provável que exista alguma conexão entre a dor de dente e algum mau uso da fala. Porém, mais importante do que adivinhar exatamente qual é a transgressão "correta" que devemos consertar é o fato de estarmos procurando o que consertar. Por exemplo, se naquele caso em que a pessoa estava com dor de dente por causa das mentiras que estava falando, mas equivocadamente começa a se cuidar mais para não falar Lashon Hará, ela alcançou o principal propósito dos sofrimentos, que é tentar crescer com eles.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que nosso Yetzer Hará (má-inclinação) nos induz a errar até mesmo em áreas que parecem ser "kasher". Por exemplo, muitas pessoas acabam procurando "Segulót" (práticas que tentam trazer sucesso em certas áreas) para acabar com dores e sofrimentos. Mas será que isto não vai contra a lição transmitida pelo Sefer HaChinuch, de que não devemos nos esforçar meramente para anular nossos sofrimentos, sem nenhum reflexão e busca de nossos erros? Até a prática de pedir Brachót (Bençãos) a grandes rabinos da geração também deve ser utilizada com muito cuidado, sempre sem esquecer de que o principal objetivo de um sofrimento é nos fazer crescer. As "Segulót" e Brachót são condutas corretas sempre que vêm acompanhadas de reflexão e tentativas de corrigir eventuais erros associados ao sofrimento pelo qual estamos passando.

Esta é a lição dos "Negaim": os sofrimentos não são coincidência e D'us não erra Seus cálculos. Se estamos passando por alguma dificuldade, devemos olhar como uma oportunidade de crescimento e uma chance de consertar algo que estávamos errando. Pode não ser simples passar o obstáculo, mas é o momento de desenvolver um potencial que ainda não havíamos atingido.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Lv l2:1-13:59, 2 Rs. 4:42·5:19, Mt. 8: 1-4 Mechubarot
 
Lv14:1-15:33, 2 Rs. 7:3-20, Rm. 6: 8-23

sábado, 18 de abril de 2015

MEDIDA POR MEDIDA - PARASHÁ SHEMINI 5775

O enterro do Rav Pinchas Yossef Rabinovitz zt"l foi um dos mais marcantes da cidade de Petach Tikva. Não apenas por causa dos milhares de estudantes de Torá e grandes rabinos que saíram às ruas para dar o último adeus àquele grande Tzadik (Justo), mas também por um fato inusitado que aconteceu. Ao chegar no cemitério, muitos perceberam que naquele momento também estava acontecendo o enterro de uma senhora que havia falecido aos 103 anos. Mas diferente da multidão que acompanhava o enterro do Rav Rabinovitz, o grupo que vinha acompanhar o enterro daquela senhora era muito pequeno, pois ela tinha poucos familiares e a maioria das suas amigas já havia falecido. Porém, por algum motivo, aquela senhora meritou que milhares de pessoas, a grande maioria estudantes de Torá e grandes rabinos, acompanhassem seu enterro, pois os dois enterros aconteceram exatamente no mesmo horário e no mesmo local.

Mais do que isso, revelou-se que ela vivia na cidade de Haifa, e lá ela seria enterrada. Na última hora, quando os preparativos do enterro já tinham começado, alguém se lembrou que o marido daquela senhora havia falecido há dezenas de anos, mas ninguém sabia onde ele estava enterrado e se ela havia adquirido o jazigo ao lado dele. Foi iniciada uma verdadeira "operação de busca" em todos os cemitérios de Israel, com todos os funcionários da Chevra Kadisha se esforçando ao máximo, sem descanso, até que finalmente descobriram o túmulo dele no cemitério de Petach Tikva. A maior surpresa foi que, apesar de aquela senhora não ter adquirido o jazigo ao lado do marido, e já terem passado dezenas de anos, o lugar ao lado dele era um dos poucos jazigos do cemitério que ainda estavam vagos. Muitos dos que acompanharam o enterro começaram a se interessar em saber qual havia sido o mérito daquela mulher para receber tanta honra no momento do seu falecimento e ter seu lugar "guardado" ao lado de seu marido por tantos anos. Ao conversar com parentes daquela senhora, tudo foi se esclarecendo.

Há mais de 80 anos, quando aquela senhora tinha pouco mais de 20 anos, chegou aos ouvidos dela a triste notícia de que a Yeshivá "Torah Vadaat", que havia sido fundada naquela época nos Estados Unidos, estava passando por enormes dificuldades financeiras. Era uma época de crise, e juntar dinheiro para Yeshivót era uma tarefa muito difícil, que exigia uma dedicação sobre-humana. Mesmo assim, sem se intimidar com as dificuldades, aquela senhora decidiu começar a juntar dinheiro para a Yeshivá, batendo de porta em porta, até conseguir uma enorme quantia, suficiente para tirar a Yeshivá daquela situação difícil e dar aos jovens estudantes tudo o que eles necessitavam para manter seu estudo de Torá.
Quem ainda se lembrava daquele ato tão grande daquela senhora? Tanto tempo já havia se passado que talvez nem ela mesma se lembrava. Mas D'us, que nos faz tantas bondades, se lembrava, pois Ele nunca se esquece de nada. Como ela havia permitido, com o esforço de suas mãos, que centenas de jovens pudessem se dedicar ao estudo de Torá, ela teve o mérito de ter um grupo tão grande de estudantes de Torá acompanhando seu enterro para um último adeus. 
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Nesta semana lemos a Parashá Shemini, que começa descrevendo a cerimônia de inauguração do Mishkan (Templo Móvel). Por sete dias consecutivos Moshé montou o Mishkan, fez todos os serviços e depois o desmontou. Somente no oitavo dia ("Shemini", em hebraico) o Mishkan foi permanentemente erguido e Moshé consagrou Aharon e seus filhos como os Cohanim (sacerdotes) do povo judeu. A partir daquele momento os serviços do Mishkan seriam feitos apenas pelos Cohanim. E assim o versículo descreve o primeiro Korban (sacrifício) oferecido por Aharon durante a inauguração do Mishkan: "E ele (Moshé) disse para Aharon: pegue um bezerro para o (Korban) Chatat" (Vayikrá 9:2).
O Korban Chatat era oferecido para expiar erros cometidos de forma não intencional. Por que Aharon foi comandado a oferecer justamente um bezerro? O Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, explica que D'us estava mandando uma mensagem para Aharon, de que aquele Korban Chatat, um bezerro, vinha justamente para expiar a participação de Aharon no terrível pecado do bezerro de ouro. Apesar de Aharon ter participado da construção do bezerro de ouro com as intenções mais puras, tentando apenas ganhar tempo até que Moshé descesse do Monte Sinai, mesmo assim ele acabou causando, de forma não intencional, que o povo transgredisse com mais alegria. Por isso ele recebeu parte da culpa, e naquele momento D'us quis ressaltar que aquele bezerro oferecido vinha para consertar o erro cometido com o outro bezerro.

Mas por que D'us revelou para Aharon sobre sua expiação desta maneira, associando o bezerro do Korban com o bezerro de ouro? Para nos ensinar uma de Suas características mais predominantes: o "Midá Kenegued Midá" (Medida por Medida), através da qual D'us se comporta com os seres humanos exatamente da mesma maneira que eles se comportaram, tanto para o bem quanto para o mal.

Explica o Rav Ytzchak Zilberstain shlita que enxergar esta característica de D'us é muito importante para o nosso trabalho espiritual, pois permite ao ser humano entender porque ele está recebendo dos céus uma bondade ou um castigo. O ser humano se esquece de seus atos, mas D'us não se esquece de nada, como afirmam os nossos sábios: "Reflita sobre três coisas e você não chegará a pecar. Saiba o que existe acima de você: um Olho que vê, um Ouvido que escuta, e todos seus atos estão registrados em um Livro" (Pirkei Avot 2:1). D'us não se esquece de dar uma recompensa por cada Mitzvá feita e por cada bom ato, mesmo que a pessoa já nem se lembra mais deste ato. E, de maneira similar, Ele não se esquece de dar um castigo por cada transgressão feita e cada mau ato.
Este entendimento nos ajuda a fugir de um erro conceitual cometido por um grande número de pessoas. Muitas vezes não entendemos o conceito de que D'us é Misericordioso, e achamos que isto significa que D'us "fecha os olhos" e simplesmente ignora nossos erros e transgressões. Alguns chegam a acreditar que não existe castigo para as nossas transgressões pelo fato de D'us ser Misericordioso. Mas isto vem de uma falha de compreensão sobre o que significa a Misericórdia Divina. Se a Misericórdia simplesmente anulasse qualquer transgressão que cometemos, onde estaria a justiça? Seria correto que todas as Mitzvót fossem lembradas, mas as transgressões fossem simplesmente esquecidas por D'us? Isto seria "Emet" (Verdade)?

Então como funciona a Misericórdia Divina, sem contradizer a característica da Justiça? Explica o Rav Moshe Chaim Luzzato (Itália, 1707 - Israel, 1746) que quando uma pessoa faz um erro, ela deveria ser castigada imediatamente, em um momento de "fúria espiritual" de D'us e sem chances de seu erro ser consertado. Isto quer dizer que, de acordo com a justiça estrita, as consequências de uma transgressão seriam imediatas e trágicas. A Misericórdia faz com que o castigo da pessoa seja postergado para um momento em que a "fúria espiritual" de D'us tenha passado, dando a chance dela se arrepender e consertar seu erro, minimizando as consequências espirituais. Mas o conceito de que D'us se esquece de uma transgressão ou perdoa mesmo sem a pessoa se arrepender não é uma realidade espiritual. Quando alguém comete uma transgressão, ela fica guardada, mesmo que seja por muito tempo, para ser cobrada no momento certo.

Nossos sábios ensinam que a característica de bondade de D'us é muito maior do que a Sua característica de justiça. Isto quer dizer que, se D'us não esquece nenhuma transgressão, mesmo as menores e mais insignificantes, certamente Ele também não esquece nenhum bom ato que fazemos. Muitas vezes não recebemos nenhum tipo de retribuição pelos bons atos imediatamente, mas D'us deixa guardado para nos recompensar quando Ele decidir que é o momento ideal, de acordo com Seus cálculos perfeitos.

Precisamos internalizar este importante conceito da "Midá Keneged Midá" de D'us, pois isto nos ajuda em nosso crescimento espiritual. Quando entendemos que tudo está sendo "anotado", cada pequeno detalhe, e que D'us não se esquece de nada, então nos tornamos mais cuidadosos, tanto para não cometermos transgressões quanto para sermos mais ágeis e aproveitarmos cada oportunidade de fazer uma Mitzvá ou um bom ato.

Parte do nosso trabalho de Emuná (fé) é saber que todos os nossos bons atos serão recompensados, sem exceção. Mesmo quando não enxergamos imediatamente os bons frutos dos nossos atos, nada é esquecido nos mundos espirituais. Algumas vezes leva dias, outras vezes meses, pode ser que leve até anos. Mas no final a bondade de D'us será revelada, e veremos como cada pequeno bom ato valerá uma enorme recompensa.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
Lv 9:1-11:47, 2 Sm. 6:1-7:17

sexta-feira, 10 de abril de 2015

AMOR RECÍPROCO - SHVII DE PESSACH 5775

"O Rav Yosef Chaim Shneur Kotler zt"l (Bielorússia, 1918 - EUA, 1982), filho de um dos gigantes de Torá dos Estados Unidos, o Rav Aharon Kotler zt"l (Bielorússia, 1891 - EUA 1962), ficou noivo de uma moça pouco antes de começar a 2ª Guerra Mundial. Por causa da guerra eles foram separados antes de conseguirem se casar, e ficaram muitos anos sem nenhum contato.

Quando a guerra terminou, a noiva do Rav Yossef Chaim, que havia ficado muito doente após tantos sofrimentos nas mãos dos nazistas, escreveu para seu noivo isentando-o do compromisso de se casar com ela. Ela argumentou em sua carta que estava muito doente e não conseguiria ser uma boa esposa. O Rav Yossef Chaim respondeu para ela:

- Você já perdeu seu pai, perdeu todo o seu dinheiro e perdeu sua saúde. Você acha realmente que eu vou deixar você perder também o seu noivo?"

Este é o nível de comprometimento exigido pela Torá entre um marido e sua esposa: chegar ao ponto de um estar mais preocupado com o outro do que consigo mesmo. E este é um modelo do nível que também devemos almejar na nossa conexão com D'us. 
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Nesta 5ª feira de noite (09/04) começa o "Shvii de Pessach", um novo Yom Tov. Diferente do que ocorre em Sucót, quando apenas o primeiro dia é Yom Tov, em Pessach também o sétimo dia é Yom Tov. Por que? Pois neste dia aconteceu mais um grande milagre: a abertura do Mar Vermelho, que permitiu aos judeus atravessarem o mar como se fosse terra seca e escaparem dos egípcios que os perseguiam no deserto. O impacto de mais este milagre foi tão grande que os judeus fizeram um cântico de agradecimento a D'us, chamado "Shirat HaYam" (Cântico do Mar).

Mas também há outro Cântico que está conectado com Pessach: o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos), escrito por Shlomo Hamelech (Rei Salomão). Algumas pessoas leem o Shir Hashirim depois do Seder de Pessach, e também é costume ler o Shir Hashirim em público na sinagoga durante o Shabat de Pessach. Entendemos que o Shirat HaYam está conectado com Pessach, pois é parte central da nossa libertação do Egito, mas qual é a conexão entre o Shir Hashirim e a Festa de Pessach? E por que sua leitura foi estabelecida justamente no Shabat?

A chave para começarmos a entender está em uma leitura mais atenta dos versículos do Shir Hashirim, que revelam que a narrativa não é escrita a partir de uma perspectiva clara. Os versículos continuamente se alternam entre a narração na perspectiva de D'us e na perspectiva do povo judeu. O Midrash (parte da Torá Oral) traz uma explicação para esta "irregularidade", afirmando que há três casos na Torá onde o relacionamento entre o povo judeu e D'us foi expresso através de um "Shir" (Cântico). O primeiro é o "Shirat HaYam", entoado por Moshé e pelo povo judeu quando eles emergiram sãos e salvos do Mar Vermelho, e que mostra a perspectiva do povo judeu em seu relacionamento com D'us. O segundo é o "Haazinu", que retrata o relacionamento do povo judeu com D'us através da história e é escrito sob a perspectiva de D'us. E o terceiro é o Shir Hashirim, que de acordo com o Midrash é uma combinação de três Cânticos, pois "shir" significa "um cântico" e "shirim" significa "dois Cânticos", o que resulta em três Cânticos. Quais são os três Cânticos dentro do Shir HaShirim? Um cântico é quando D'us expressa Seus "sentimentos" em relação ao povo judeu, um segundo cântico é quando o povo judeu expressa seus sentimentos em relação à D'us, e um terceiro cântico é quando são expressados os sentimentos combinados do povo judeu e de D'us. O Midrash também afirma que o Shir Hashirim supera todos os Cânticos dedicados a D'us. Mas afinal, o que há de tão especial no Shir Hashirim?

Também se prestarmos atenção nas Tefilót de Shabat, notaremos algo interessante. Enquanto a Amidá (reza silenciosa) dos Yamim Tovim é a mesma para Shacharit, Minchá e Arvit, no Shabat cada Tefilá tem um formato diferente. Por exemplo, no Arvit dizemos "Ata Kidashta" (Você nos santificou) e "Veyanuchu ba" (descansarmos nela), no feminino. No Shacharit dizemos "Ysmach Moshé" (Moshé se alegrou) e "Veyanuchu bo" (descansarmos nele), no masculino. Já em Minchá dizemos "Atá Echad" (Você é um) e "Veyanuchu bam" (descansarmos neles), no plural. Por que estas diferenças? E o que cada uma das Tefilót do Shabat nos ensina?

Explica o Rav Yohanan Zweig que D'us se relaciona com o povo judeu de diversas maneiras. Algumas vezes é um relacionamento de Pai e filho, outras vezes é de Rei e súdito, e algumas vezes é de Senhor e escravo. Mas o Shir HaShirim, mais do que qualquer outro livro da Torá, foca em um relacionamento adicional: o relacionamento íntimo de um Marido com sua esposa.

De acordo com a Halachá (Lei Judaica), o casamento é composto de três estágios. O primeiro estágio é o "Kidushin" (noivado), quando o noivo dá para a noiva um objeto de valor e, caso aceite, ela fica proibida a partir daquele momento de se relacionar com qualquer outro homem do mundo. O segundo estágio é o "Nissuin" (casamento), a partir do qual o noivo assume a responsabilidade financeira do bem estar de sua noiva. Neste estágio é feita uma grande festa, e no final da festa os convidados acompanham os noivos, cantando e dançando, até a sua nova casa. O terceiro estágio é o "Yichud" (isolamento), no qual o noivo e a noiva ficam sozinhos em uma área isolada, guardados por duas testemunhas que garantem a privacidade completa deles. Atualmente estes três estágios são feitos em uma única cerimônia.

O Shir HaShirim é o Cântico que expressa a intimidade do relacionamento entre D'us e o povo judeu, enquanto a espiritualidade do Shabat é o cenário que favorece este relacionamento. As três Seudót (refeições) e as três Tefilót do Shabat correspondem aos três estágios do casamento. No Arvit dizemos "Atá Kidashta" (Você nos santificou) e de noite temos a Mitzvá da Torá de fazer Kidush, refletindo o estágio de Kidushin. Em Shacharit dizemos "Ysmach Moshé" (Moshé se alegrou), que reflete a natureza festiva do Nissuin, e é marcado pela refeição festiva do dia. Em Minchá dizemos "Atá Echad VeShimchá Echad, Umi Keamchá Israel Goi Echad Baaretz" (Você é Um, e Seu nome é Um, e quem é como Israel, um povo único no mundo), que descreve a Unicidade de D'us e Seu relacionamento único e especial com o povo judeu, uma conexão eterna, que reflete o estágio do Yichud. Até mesmo as Zemirot (canções) de Shabat refletem estes três estágios do casamento. As músicas cantadas durante o dia têm um ritmo muito mais animado do que as músicas cantadas durante a noite, refletindo o caráter mais festivo do Nissuin. Já as músicas cantadas na Seudá Shlishi, após a reza de Minchá, têm um tom mais voltado à música ambiente, algo mais sublime. E a própria Tefilá de Minchá também é feita em um tom menor, refletindo o caráter de intimidade.

E por que a diferença de gêneros nas Tefilót de Shabat? Explica o Rav Yohanan Zweig que o Kidushin causa um efeito muito maior sobre a noiva, pois ela fica proibida de se casar com outros homens, e por isso a Tefilá de Arvit está escrita em uma linguagem feminina. Já o Nissuin causa um impacto muito maior sobre o noivo, pois ele passa a estar financeiramente responsável pela noiva, e por isso a Tefilá de Shacharit está escrita em uma linguagem masculina. O Yichud representa a união do noivo e da noiva, e por isso a Tefilá de Minchá está escrita em uma linguagem no plural, pois o relacionamento entrou no estágio em que ambas as partes são igualmente afetadas, já que elas se tornaram uma só.

Os três Cânticos também refletem os três estágios do casamento. O "Shirat HaYam" é o Kidushin, pois foi composto no momento da abertura do Mar Vermelho, o início da nossa jornada através do deserto, descrita pelo Profeta Yirmiahu como o início do casamento do povo judeu com D'us, como está escrito: "Eu lembro da bondade da sua juventude, do amor dos seus dias de noiva; você Me seguiu no deserto, em uma terra não semeada" (Yirmiahu 2:2). O "Haazinu" foi recitado antes da iminente entrada do povo judeu na Terra de Israel, e o Midrash compara a lamentação de Moshé, que não poderia entrar junto com o povo judeu, com o sofrimento de um pai que não consegue ver sua filha entrando na Chupá (que é parte do "Nissuin"). Já "Shiur HaShirim" contém ambos os aspectos anteriores, isto é, o Kidushin e o Nissuin, mas também contém o Cântico entoado por ambas as partes, o povo judeu e D'us, em uníssono. É este terceiro aspecto do Shir HaShirim, que descreve o nível de intimidade do relacionamento entre o povo judeu e D'us, que levou nossos sábios a afirmarem que, enquanto os outros Cânticos são "Kodesh" (Sagrados), o Shir HaShirim é "Kodesh Kodashim".

Este amor recíproco entre o povo judeu e D'us pode ser percebido nos diferentes nomes da Festa de Pessach. Enquanto o povo judeu chama esta festa de "Pessach", a Torá chama esta festa de "Chag HaMazót". Por que esta diferença? Enquanto nós louvamos a D'us por Ele ter nos salvado do Egito, e em especial por ter poupado a vida dos nossos primogênitos ao saltar nossas casas durante a Praga da Morte dos Primogênitos (Pessach vem do hebraico "Passach", que significa "saltar"), D'us nos louva por termos confiado Nele ao ponto de irmos ao deserto, um lugar inóspito e sem alimentos nem água, levando apenas algumas Matzót que não tiveram tempo de fermentar. Este é o amor verdadeiro entre D'us e o povo judeu, quando cada um se preocupa antes com o bem estar do outro. Por isso o Shir Hashirim é tão adequadamente lido durante o Shabat de Pessach, a Festa na qual revivemos a criação deste vínculo eterno de amor recíproco entre D'us e o povo judeu.

Pessach Kasher Ve Sameach e Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm
Lv 9:1-11:47, 2 Sm. 6:1-7:17

sexta-feira, 3 de abril de 2015

ROTULANDO AS PESSOAS - PESSACH 5775

 
Assim a história de Pessach teria sido relatada pela CNN ou pelo New York Times:

"O ciclo de violência entre os judeus e os egípcios continua no Egito, sem nenhuma perspectiva de que seja alcançada em breve a paz na região. Depois de oito pragas lançadas pelos judeus, que acabaram com a infraestrutura egípcia e destruíram a vida de civis egípcios inocentes, os judeus lançaram uma nova ofensiva esta semana, sob o nome de "Praga da Escuridão". Os jornalistas ocidentais ficaram especialmente enfurecidos com este ataque. "É simplesmente impossível conseguir informar quando você não pode ver um centímetro à sua frente", reclamou um frustrado repórter da CNN. "Escutei de uma fonte egípcia confiável ​​que, aproveitando a intensa escuridão, os judeus estão matando milhares de egípcios, homens, mulheres e crianças inocentes. A palavra desta fonte é uma evidência sólida o suficiente para mim".

Enquanto os judeus afirmam que as pragas se justificam e são uma resposta à dura escravidão imposta pelos egípcios, o Faraó, líder egípcio, refuta esta alegação: "Se apenas as pragas parassem, não haveria mais escravidão. Nós só queremos viver livre das pragas. É o direito de toda sociedade". O porta-voz da ONU argumenta que a escravidão é justificável, tendo em vista a superioridade dos armamentos dos judeus, que lhes foram fornecidos pela superpotência D'us. "O uso da força pelos judeus é algo completamente desproporcional", afirma ele.

Os europeus estão particularmente enfurecidos com a mais recente ofensiva judaica. "A agressão judaica deve ser interrompida para que seja alcançada a paz na região. Os judeus deveriam voltar para a escravidão, para o bem do resto do mundo", afirmou, irritado, o presidente francês. Até mesmo vários judeus concordam. Adam Shapiro, um judeu, afirma que, embora a escravidão não seja necessariamente uma coisa boa, ela é consequência das pragas, e quando as pragas acabarem, assim também a escravidão terminará. "Os judeus foram longe demais com as pragas, como gafanhotos e epidemia, que praticamente destruíram a economia egípcia", lamenta o Sr. Shapiro. "Os egípcios são realmente pessoas muito agradáveis, e o Faraó é um tipo de pessoa adorável uma vez que você começa a conhecê-lo de verdade", descreve Shapiro.

Os Estados Unidos estão exigindo que Moshé e Aharon, os líderes judeus, continuem a negociar com o Faraó. Moshé argumenta que o Faraó fez diversas promessas de libertar o povo judeu, mas logo em seguida as quebrou, impondo uma escravidão ainda mais dura. Porém, o Secretário do Departamento de Estado dos EUA condena a última ofensiva dos judeus. "O Faraó não pode ser responsabilizado, pois ele não tem controle completo sobre os capatazes egípcios", afirma ele. "Os judeus devem voltar à mesa de negociações, e não vão conseguir nada através do uso da força das pragas".

A última rodada de violência vem junto com uma nova proposta de paz saudita. "Se apenas os judeus desistirem de sua língua, mudarem seus nomes para nomes egípcios, trocarem suas roupas e deixarem de ter filhos do sexo masculino, as nações árabes se inclinarão para uma paz duradoura com eles", declarou o príncipe herdeiro saudita".

Qualquer semelhança infelizmente não é mera coincidência... (Adaptado do Site do Aish HaTorá) 

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Nesta semana o Shabat coincide com a Festa de Pessach, também conhecida como "Zman Cheruteinu" (Época da nossa Liberdade). Pessach é a festa na qual revivemos a saída do Egito, quando D'us revelou Sua força através de incríveis milagres e sinais. Um dos pontos centrais da Festa de Pessach é o Seder, no qual reunimos nossas famílias em volta da mesa e, durante toda a noite, nos sentimos parte da saída do Egito. Recontamos com alegria a história do povo judeu, desde a idolatria que havia na época dos patriarcas, passando pelos terríveis momentos da escravidão egípcia e culminando com a milagrosa salvação de D'us.

Mas como os egípcios puderam escravizar os judeus poucos anos após Yossef, um dos filhos de Yaacov, ter se tornado o vice-rei do Egito e, através de seus sábios conselhos, ter salvado todos os egípcios da fome? Como os egípcios, que deviam tanto reconhecimento ao povo judeu, tiveram coragem de nos escravizar? A resposta está nos versículos: "E ele (Faraó) disse ao seu povo: E eis que este povo, os Filhos de Israel, é mais numeroso e mais forte do que nós. Venham, vamos agir com ele com sabedoria, para que ele não se torne mais numeroso do que nós e, caso ocorra uma guerra, ele se junte aos nossos inimigos e guerreie contra nós, e nos expulsem da terra" (Shemot 1:9,10). De acordo com estes versículos, o Faraó teve medo que os judeus se tornariam uma perigosa ameaça à soberania do Egito, e por isso decidiu fazer algo para proteger seu povo.

O Faraó escravizou o povo judeu agindo com sabedoria. Ele bolou um plano para fazer a escravidão acontecer aos poucos. Primeiro ele convidou o povo judeu para fazer parte da construção do Egito, em um clima de união nacional. Os judeus quiseram aproveitar a oportunidade de fazer parte da sociedade egípcia e trabalharam com muita empolgação. Nesta primeira fase até mesmo o Faraó participou, para dar o exemplo de cidadania. Mas lentamente os egípcios foram abandonando o trabalho, restando apenas os judeus. O serviço começou a deixar de ser pago, até que aos poucos se transformou em uma brutal escravidão.

Este episódio é relembrado na Hagadá, que lemos durante o Seder de Pessach. E assim está escrito: "Vayareiu HaMitzrim (Os egípcios nos fizeram mal), como está escrito: 'Venham, vamos agir com eles com sabedoria' ". Mas esta passagem levanta um grande questionamento: por que, para retratar que os egípcios nos fizeram mal, a Hagadá cita justamente o versículo que descreve a estratégia do Faraó para iniciar a escravidão com sabedoria, se aparentemente a única intenção dele foi combater a iminente ameaça contra a segurança de seu povo? Por que especificamente isto foi visto como um ato maldoso contra o povo judeu, se houveram outros atos muito mais cruéis, como jogar os bebês recém-nascidos no Rio Nilo?

O Rav Yohanan Zweig responde através de um conceito interessante da psicologia humana. Ele explica que o ser humano está sempre à procura de métodos para classificar diferentes condições e comportamentos. Por que fazemos isto? Pois quando identificamos e rotulamos um problema, ganhamos mais confiança de que este problema será efetivamente resolvido. Mas infelizmente acabamos utilizando este conceito de maneira equivocada, trazendo consequências negativas. Muitas vezes, em nossa pressa de identificar uma situação na qual estamos tendo alguma dificuldade para controlar, acabamos rotulando esta situação de maneira equivocada e criamos em nossas cabeças um problema que não existe.

Foi exatamente isto o que aconteceu no Egito. O Faraó se preocupou com o crescimento do povo judeu e uma possível traição, que colocaria o Egito em perigo. Porém, isto certamente era algo completamente infundado, como foi demonstrado através da intensa participação dos judeus quando foram convocados para construir o Egito. Ao invés de lidar com um potencial problema e buscar alternativas para evitá-lo, o Faraó preferiu rotular os próprios judeus como sendo o "problema egípcio". Como os egípcios tinham uma grande admiração pelos judeus, por toda a contribuição de Yossef, parte da tática do Faraó foi iniciar uma virulenta campanha antissemita, que pregava que os judeus eram maus e queriam destruir o país. A propaganda antissemita foi muito eficiente, a ponto dos egípcios se alegrarem ao perseguir e causar sofrimentos aos judeus.

O termo "Vayareiu", que significa "nos fizeram mal", também pode ser lido como "nos transformaram em maus". Não apenas os egípcios nos fizeram mal ao nos escravizar, mas eles fizeram pior do que isso, eles nos rotularam como um "povo problema". Os sofrimentos físicos aos quais os judeus foram submetidos durante a escravidão duraram apenas o tempo em que eles estiveram no Egito, e atingiram apenas os que estavam presentes naquele momento. Mas o rótulo que o Faraó nos colocou, de que somos um "povo problema", nos assombra até os dias de hoje. Esta foi certamente a maior maldade do Faraó contra o povo judeu. Novamente sofremos duramente durante o Holocausto, quando a propaganda nazista bombardeou na cabeça dos educados alemães a mentira de que os judeus eram os vilões que causavam todos os problemas da Alemanha. E infelizmente a história se repete atualmente, com a "demonização" de Israel e dos judeus, que são vistos como "o problema do mundo" mesmo quando são vítimas da violência daqueles que, em nome da "paz", na verdade querem nos varrer do mapa.

Esta constante repetição das perseguições contra o povo judeu em diversas épocas históricas também está profetizada nas palavras da Hagadá: "Pois não apenas um se levantou para nos exterminar, mas em cada geração e geração se levantam para nos exterminar". Porém, esta profecia termina com um consolo, uma garantia de que não devemos temer: "E D'us nos salva das mãos deles". Todo momento em que estamos conectados com D'us e com Suas Mitzvót, temos a garantia de que Ele nos protegerá de nossos inimigos e daqueles que querem nos caluniar e nos tornar maus aos olhos do mundo. Este é um dos principais propósitos de Pessach, lembrar que, apesar de não faltarem inimigos e dificuldades em nossas vidas, podemos nos apoiar em D'us para nos proteger e garantir que mais uma geração estará celebrando o Seder de Pessach. Quem sabe, ainda neste ano, em Jerusalém espiritualmente reconstruída.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VESAMEACH

Rav Efraim Birbojm
Ex. 12:21-51 (Maftír – Nm. 28:16-25)

sexta-feira, 27 de março de 2015

SER HUMANO, UM PEQUENO GIGANTE - PARASHÁ TZAV 5775

"Certa vez um jovem de uma importante Yeshivá da Europa, que estava se tornando um grande estudioso da Torá e tinha excelentes traços de caráter, ficou noivo. No discurso de noivado ele fez vários agradecimentos, mas em especial agradeceu ao seu professor do 2° ano. Todos estranharam, pois não era muito comum o agradecimento a um professor que havia ensinado há tanto tempo. Mas o jovem explicou que somente por causa da sensibilidade daquele professor ele havia conseguido chegar até onde chegou. E, para que todos entendessem, contou uma história comovente.

Quando ele estava no 2° ano, na época com 7 anos, havia na classe um garoto de família muito rica. Certo dia este garoto rico levou para a escola um caríssimo relógio de pulso. As outras crianças ficaram com inveja, pois naquela época os relógios de pulso eram muitos raros, e nenhuma outra criança possuía um. Na hora do intervalo o garoto saiu para brincar e esqueceu o relógio em cima de sua mesa, mas quando voltou descobriu que o relógio havia desaparecido. Como suspeitaram que um dos colegas de classe havia roubado o relógio, o professor pediu para que todos se levantassem e ficassem de pé ao lado de suas carteiras, enquanto ele revistava os bolsos e as mochilas de cada aluno.

O noivo contou, com a voz emocionada, que ficou apavorado quando o professor começou a chegar perto, pois era ele quem havia roubado o relógio. Ele imaginava a humilhação pública que passaria quando fosse descoberto. Mas algo incrível aconteceu. Quando o professor aproximou-se dele e colocou a mão em seu bolso, encontrou o relógio. Porém, ao invés de anunciar que havia descoberto o ladrão, ele agiu com muita sabedoria. Sem ninguém perceber, escondeu o relógio dentro da manga do seu terno e continuou fingindo que procurava nos outros alunos. Quando terminou, ele voltou para seu lugar e anunciou:


- Eu encontrei o relógio. Mas ao contrário do que vocês imaginaram, não foi nenhum aluno desta sala que o roubou. Foi o Yetzer Hará (má inclinação), que entrou em um dos alunos e conseguiu convencê-lo a roubar o relógio. Mas como ele é um excelente menino, tenho certeza que de hoje em diante se o Yetzer Hará tentar convencê-lo a novamente fazer algo errado ele conseguirá juntar forças para vencê-lo.

Com sua incrível sensibilidade, o professor havia mudado a vida daquele rapaz. Quanta vergonha e humilhação ele poderia ter causado caso revelasse quem era o ladrão? Talvez o aluno até merecesse mesmo uma enorme bronca naquele momento, mas graças à misericórdia daquele professor, o jovem pôde continuar em um caminho correto e conseguiu chegar a ser um estudante de Torá de destaque.
 

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Na Parashá desta semana, Tzav, a Torá continua descrevendo alguns dos serviços executados no Mishkan (Templo Móvel) pelos Cohanim (sacerdotes). A Parashá começa descrevendo um dos serviços mais estranhos que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) fazia: o "Trumat HaDeshen", que consistia basicamente em limpar o Mizbeach (altar de sacrifícios). Os Korbanót, após serem abatidos, eram queimados durante todo o dia e parte da noite sobre o altar, acumulando uma grande quantidade de cinzas. O primeiro serviço matinal do Cohen Gadol era remover do Mizbeach as cinzas que haviam sobrado do dia anterior. Mas por que este serviço, aparentemente tão "baixo", era atribuído justamente ao Cohen Gadol, alguém espiritualmente tão elevado?

Explica o Rabeinu Bechaye (Espanha, 1255 - 1340) que este serviço demonstra o quanto devemos ser humildes diante de D'us, e mesmo o Cohen Gadol precisava se rebaixar e fazer um ato aparentemente degradante. O Rav Shlomo Ephraim (Polônia, 1550 - Praga, 1619), mais conhecido como Kli Yakar, ressalta que as cinzas eram um lembrete para o Cohen Gadol de que, apesar de seu elevado status, ele deveria se comportar com a mesma humildade de Avraham Avinu, que reconheceu o quanto o ser humano é pequeno e insignificante diante de D'us ao declarar: "E eu sou pó e cinzas" (Bereshit 18:27).

Há outro ensinamento que enfatiza a importância de reconhecer o quanto o ser humano é pequeno: "Saiba de onde você veio e para onde você vai... De onde você veio? De uma gota podre. E para onde você vai? Para um lugar de pó, vermes e larvas" (Pirkei Avót 3:1). Nossos sábios também ensinam: "Tenha um espírito muito muito humilde, pois a esperança do "Enosh" (ser humano) são as larvas" (Pirkei Avót 4:4).

Por outro lado, também há diversos ensinamentos dos nossos sábios que parecem ressaltar a grandeza inerente do ser humano. O Talmud (Sanhedrin 37a) afirma que aquele que salva uma única alma de Israel é considerado pela Torá como se tivesse salvado o mundo inteiro. Nossos sábios também ensinam: "O ser humano é muito precioso pois foi criado à Imagem [de D'us]" (Pirkei Avót 3:14).

Em uma análise superficial, parece que há uma enorme contradição entre os ensinamentos dos nossos sábios, pois de um lado parece que o homem é um ser muito elevado, mas de outro lado parece que o homem é um ser inferior. Como entender esta aparente contradição?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que, na realidade, não há absolutamente nenhuma contradição, pois as diferentes opiniões refletem duas diferentes abordagens em relação ao status do ser humano. Enquanto uma abordagem foca no corpo do ser humano, caracterizado pelos desejos materiais mais baixos, a outra abordagem foca a alma do ser humano, cuja grandeza é incomparável.

Uma análise mais detalhada das fontes citadas pelos nossos sábios demonstra esta diferença de abordagem. O serviço de "Trumat HaDeshen" era um lembrete ao Cohen Gadol da natureza passageira do seu corpo, recordando-o que seu final seria o pó. A Mishná no Pirkei Avót também foca apenas na parte corpórea do ser humano e utiliza a linguagem "Enosh" (ser humano), ao invés de utilizar a linguagem mais comum, "Ish". A linguagem "Enosh" representa os aspectos mais baixos do ser humano, como os seus desejos físicos. A Mishná está nos advertindo para não nos tornarmos orgulhosos por causa das nossas realizações materiais, pois como todas as coisas finitas, elas não duram muito. A Mishná não está ensinando que devemos nos sentir como pessoas inerentemente sem valor, e sim que o sucesso na área material não tem nenhum valor intrínseco. O mesmo vale para a Mishná que ensina que viemos de uma gota podre e iremos para um lugar de vermes e larvas, ela está se referindo apenas à natureza provisória e passageira do nosso corpo. Em contraste, o ensinamento do Talmud que ressalta a inerente grandeza de cada ser humano está focando no nosso potencial espiritual. A Mishná do Pirkei Avót também ressalta que somos queridos aos olhos de D'us pois fomos criados à Sua Imagem e Semelhança, o que certamente se refere à nossa alma.

Mas por que algumas vezes nossos sábios focam na parte baixa e finita do nosso corpo, enquanto outras vezes eles focam na parte elevada e infinita da nossa alma? Nos ensina o Rav Shlomo Wolbe zt"l (Alemanha, 1914 - Israel, 2005) que há momentos na vida nos quais devemos focar no status baixo e pequeno do nosso corpo, enquanto em outros momentos devemos focar na elevação e na grandeza da nossa alma. O ideal seria lembrarmos sempre que somos limitados, que nossas conquistas materiais e nosso corpo são finitos, pois assim evitaríamos o orgulho e a busca desenfreada pela satisfação dos desejos físicos. Mas é muito arriscado focarmos em como somos pequenos sem antes apreciar nossa grandeza intrínseca. Se a pessoa não tem uma autoestima saudável, focar no quanto ela é pequena pode ser algo muito perigoso. Ao invés da pessoa perceber que não deve se portar com arrogância em relação às suas conquistas e realizações materiais, isto pode fazer a pessoa questionar o valor da sua própria essência. Somente uma pessoa sintonizada com a inerente grandeza da sua essência pode utilizar de uma maneira positiva a ideia de que sua parte física é extremamente baixa.

Este mesmo conceito deve ser aplicado aos pais e professores. É muito comum os educadores focarem nos aspectos negativos de seus alunos ou filhos, justificando que da mesma forma que eles receberam uma educação severa de seus pais e por isso conseguiram se transformar em pessoas saudáveis, assim também eles querem educar seus alunos e filhos. Mas muitos educadores defendem a ideia de que as pessoas das gerações passadas tinham a autoestima muito mais saudável e, portanto, os pais e professores podiam utilizar uma educação mais rígida sem medo de consequências negativas. Porém, atualmente as crianças e jovens são muito mais sensíveis e têm menos autoestima. Por isso é muito perigoso focar de forma muito severa o lado negativo delas, mesmo que seja com a intenção de educar.

Além disso, mesmo se um pai ou um professor sente que seu aluno ou seu filho pode lidar com um tipo de abordagem mais rigorosa, é bom levar em consideração um importante ensinamento do Talmud (Sotá 47a): "Sempre a mão esquerda deve afastar, enquanto a mão direita deve aproximar". O Talmud está nos ensinando que a abordagem mais rígida deve ser utilizada com a nossa mão mais fraca, a esquerda, enquanto que a abordagem mais leve e bondosa deve ser utilizada com nossa mão mais forte, a direita. O Talmud enfatiza a palavra "sempre", indicando que é um princípio que deve ser utilizado sem exceções. Alguns educadores atuais sugerem que, para cada crítica feita a um filho ou um aluno, devem ser feitos quatro comentários positivos.

Do serviço de "Trumat HaDeshen" aprendemos que, para manter nossa humildade, é necessário lembrar sempre da natureza passageira e finita do nosso corpo. Mas apesar desta ser uma lição muito importante, não é uma lição completa, e devemos sempre nos lembrar também do nosso incrível valor espiritual. Pois o segredo do verdadeiro sucesso no judaísmo, em todas as áreas, é o equilíbrio.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
 
Lv 6:8 -8:36, Jr. 7:21-8:3; 9:23-24