sábado, 16 de julho de 2011

A menina e o pássaro encantado

Ruben Alves


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
http://contadoresdestorias.wordpress.com/2008/01/07/a-menina-e-o-passaro-encantado-ruben-alves/

OPORTUNIDADES PERDIDAS CUSTAM CARO - PARASHÁ PINCHÁS 5771 (15 de julho de 2011)

"Fernando Rodrigues era um trabalhador esforçado que sonhava se tornar milionário. Trabalhava duro, mas mesmo assim o dinheiro não vinha. Certo dia escutou que haviam descoberto uma nova mina de pedras preciosas, que estava à disposição de todos os que quisessem escavar.
Fernando Rodrigues enxergou que aquela era a chance de enriquecer que ele tanto esperava. Mas não queria apenas para si, decidiu convidar também seus amigos mais próximos, para que todos aproveitassem aquela excelente oportunidade. Reuniu os amigos, contou a novidade e sugeriu que viajassem juntos, pois assim seria mais fácil agüentar o trabalho cansativo. Para sua decepção, todos deram as mais incríveis desculpas para não ir, pois no fundo não queriam se esforçar na viagem e no trabalho na mina. Muito triste, Fernando Rodrigues juntou suas ferramentas, arrumou as malas e foi sozinho.
Passaram-se alguns anos e Fernando Rodrigues voltou, trazendo uma enorme quantidade de pedras preciosas. Ele estava milionário. Aqueles poucos anos de trabalho foram suficientes para que ele vivesse com muito conforto e luxo para o resto de sua vida. As pessoas sempre o viam andando pelas ruas de carro novo, com um incrível sorriso no rosto.
Já os amigos de Fernando Rodrigues não estavam assim tão sorridentes. Eles invejavam toda a fortuna acumulada pelo amigo e se arrependeram profundamente por não terem aceitado o convite. Um pouco mais de esforço, um pouco mais de dedicação, e poderiam ter evitado o sofrimento que durou por toda vida"
Explica o Chafetz Chaim que tudo o que juntarmos de valores espirituais nesta vida, como Mitzvót e bons atos, as nossas verdadeiras "jóias", nos alimentarão e nos trarão prazer por toda a eternidade. Mas se desperdiçarmos a oportunidade, o que ficará para sempre será o arrependimento.
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Na Parashá desta semana, Pinchás, Moshé Rabeinu recebeu o aviso de D'us para que se preparasse para morrer, pois se aproximava o momento do povo judeu entrar na Terra de Israel. Moshé então pediu para que D'us nomeasse um novo líder, que cuidasse do povo judeu e o guiasse nesta nova jornada. D'us indicou Yoshua bin Nun, que constantemente servia Moshé e o acompanhava no estudo da Torá. E assim D'us comandou a Moshé: "E dê da sua majestade para ele, para que escute todo o povo judeu" (Bamidbar 27:20). D'us queria que fosse transmitida a majestade para que o povo honrasse e escutasse Yoshua como escutava Moshé.
Nos ensina o Talmud (Torá Oral - Baba Batra 75a) algo muito interessante. Da linguagem do versículo "Dê da sua majestade" aprendemos que Moshé passou para Yoshua apenas parte da sua majestade, não tudo, resultando que a face de Moshé era como a face do sol e a face de Yoshua era como a face da lua. O Talmud continua e nos ensina que os anciãos daquela época, ao verem que Yoshua havia sido escolhido para substituir Moshé, disseram "Pobre de nós pela "Bushá" (vergonha), pobre de nós pela "Klimá" (humilhação)". O que o Talmud está nos ensinando?
Poderíamos pensar que a vergonha dos anciãos era que Yoshua, o novo líder, tivesse um nível muito mais baixo do que o de Moshé. Mas a Torá diz explicitamente que Yoshua tinha um nível muito elevado, como está escrito "E disse D'us para Moshé: Pegue para você Yoshua Bin Nun, um homem que está repleto de espírito (de sabedoria)" (Bamidbar 27:18). Então de que vergonha os anciãos estão falando? E por que utilizaram duas linguagens diferentes, "vergonha" e "humilhação"?
Explica o Rabino Israel Meir HaCohen, mais conhecido como Chafetz Chaim, que quando os anciãos daquele geração viram que Yoshua, uma pessoa do mesmo nível deles, foi o escolhido para suceder Moshé, sentiram inveja e um grande arrependimento. Eles entenderam que Yoshua recebeu toda aquela grandeza pelo fato de ter passado o tempo inteiro próximo de Moshé, escutando a sua Torá e recolhendo "pedras preciosas". O sofrimento deles foi de ter entendido que eles também poderiam ter aproveitado a proximidade de Moshé para juntar uma enorme riqueza espiritual. Poderiam, com um pouco mais de esforço e dedicação, ter atingido altos níveis de profecia e sabedoria, como Yoshua atingiu.
O Chafetz Chaim também explica que existe uma grande diferença entre o termo "Bushá" (vergonha) e o termo "Klimá" (humilhação). O termo "Bushá" não está conectado com nenhum ato errado. É o que sentimos naturalmente quando, por exemplo, estamos diante de alguém que tem um nível espiritual muito mais alto que o nosso. Já o termo "Klimá" é utilizado para explicar o sentimento que é consequência de um ato errado que a pessoa cometeu, isto é, ter feito um ato proibido ou ter deixado de fazer um ato positivo.
Portanto, este é o entendimento das palavras do Talmud. Diante da grandeza de Moshé os anciãos sentiam "Bushá", tamanha era a diferença de nível espiritual entre eles. Porém, quando os anciãos viram Yoshua, alguém que inicialmente estava no mesmo nível que eles, mas que havia meritado que seu rosto brilhasse como a lua, refletindo o brilho de Moshé, perceberam que toda aquela grandeza e honra havia sido adquirida através de esforço, e o mesmo nível poderia ter sido atingido por qualquer um deles. Foi por isso que eles também sentiram "Klimá", pois entenderam que, por causa de sua preguiça, haviam perdido para sempre aquela oportunidade.
Explica o livro Messilat Yesharim que muitas pessoas pensam: "Para que se esforçar neste mundo? Para mim é suficiente não ser um malvado. Para que viver sob pressão apenas para chegar a níveis mais elevados do Mundo Vindouro? Ficarei satisfeito com uma porção pequena lá. Não vale a pena por isso aumentar meu esforço neste mundo". Mas será que este argumento é realmente verdadeiro e consciente?
Quando vemos um amigo que, mesmo neste mundo passageiro e limitado, se sobressaiu e teve mais sucesso que nós, nosso sangue ferve de inveja. Ficamos nos imaginando tendo o mesmo sucesso e nos lamentamos pelo outro ter conseguido o que sonhávamos. Se isto já ocorre aqui no mundo material, onde a vergonha é um sentimento passageiro, como nos sentiremos no Mundo Vindouro ao ver uma pessoa com o mesmo potencial que o nosso mas que, por ter se esforçado mais, chegou a níveis mais elevados? Não será um remorso e uma vergonha eterna? Certamente não estaremos contentes tendo uma pequena porção se soubermos que poderíamos ter recebido muito mais.
Este ensinamento do Messilat Yesharim parece algo muito simples e lógico. Por que não aplicamos para nossas vidas, para vencer o cansaço e a preguiça? Pois infelizmente vivemos de maneira cômoda, raramente paramos para pensar e refletir, mesmo sobre as coisas mais importantes da vida. Acordamos, passamos o dia inteiro ocupados com estudos ou trabalho e vamos dormir sem ter pensado ou questionado nossos atos. Vivemos sem verificar se estamos caminhando na direção correta.
Ensinam os nossos sábios que, de acordo com fontes místicas da Torá, quando a pessoa sai deste mundo ela assiste a um filme que contém todos os atos que ela fez em sua vida, em câmera rápida, mas com todos os detalhes. Alguns acrescentam que na verdade não é apenas um filme que assistimos, são dois filmes: um filme mostra a vida que vivemos, enquanto o outro mostra a vida que poderíamos ter vivido se tivéssemos nos esforçado e aproveitado nosso potencial. Assistir o potencial que poderíamos ter atingido mas perdemos por descaso ou falta de reflexão certamente será um grande sofrimento.
A Parashá desta semana vem para nos despertar, ao internalizarmos o sofrimento vivido pelos anciãos. Ver o sucesso do outro sabendo que, se nos esforçássemos um pouco mais, poderíamos chegar ao mesmo nível nos traz um terrível sentimento de inveja e arrependimento. Se isto vale para a vida limitada neste mundo, muito maior será a vergonha eterna no Mundo Vindouro, onde viveremos para sempre, se descobrirmos que, se tivéssemos nos esforçado um pouco mais, poderíamos ter chegado a níveis muito maiores.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/

Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21, Jo. 2:13-25

sexta-feira, 15 de julho de 2011

No Brasil, consumo de café cresceu 50%

Nos últimos 10 anos, o país aumentou em 50% seu consumo de café, que deve superar a marca das 20 milhões de sacas neste ano - um recorde. "Em todo o mundo, são os países produtores os grandes responsáveis pela expansão da demanda", afirma José Sette, diretor da Organização Internacional do café (OIC).
Esses países abocanharam metade do crescimento global acumulado desde o ano 2000 e ajudaram a impulsionar os preços, que praticamente dobraram desde o ano passado. Países em desenvolvimento, especialmente do leste europeu, onde o café já era um hábito cultivado, também se fazem notar.
A Rússia elevou suas importações de 1,8 milhão de sacas, no ano 2000, para mais de 4 milhões em 2009. Na Ucrânia, os desembarques saltaram de 184 mil para 1,8 milhão de sacas no mesmo período. "O fato de o consumo crescer em níveis tão favoráveis, sem que a China tenha tomado esse trem, é realmente animador", afirma Sette. (GFJ)
Fonte: Valor Economico
http://www.canaldoprodutor.com.br/comunicacao/noticias/no-brasil-consumo-cresceu-50#wrapper

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Presidente da CNA defende, no Senado, investimentos em logística de transporte

Só Notícias

Da Redação
A presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, criticou ontem (12/7), em discurso no Plenário do Senado, as deficiências da logística de transporte e lembrou que o investimento em 2.700 quilômetros de uma hidrovia, a Tocantins, permitiria o escoamento de tudo o que produzido na Zona Franca de Manaus e a distribuição de todo o combustível da região Norte do País e do Centro-Norte, reduzindo custos. “A hidrovia Tocantins está empatada por uma eclusa em Lajeado”, lembrou ao acrescentar que está sendo construída outra hidroelétrica em Estreito, também sem a eclusa. “Os barramentos próximos ao futuro Porto de Praia Norte impedem que essa hidrovia possa ser um instrumento poderoso para o Brasil diminuir custo”, afirmou. A construção da hidrovia Tocantins, estimou, custaria R$ 1,5 bilhão, valor inferior ao desviado, segundo denúncias da revista Veja, em apenas uma obra conduzida pelo Ministério dos Transportes no período de um ano.
A senadora Kátia Abreu avaliou, também, a condição do transporte hidroviário em países que concorrem com o Brasil no mercado internacional. Enquanto os Estados Unidos têm 41 mil quilômetros de hidrovias; a China tem 124 mil; a Rússia, 102 mil; e o Brasil, 7 mil quilômetros de hidrovias. “Essa condição empata o nosso crescimento. Estamos empatando os nossos Mississipis com as hidrelétricas sem as eclusas”, afirmou. Ao criticar a falta de investimentos em logística, a senadora Kátia Abreu citou denúncias de superfaturamento em obras do Ministério dos Transportes. “É por isso que o dinheiro não dá. Se é um sistema viciado, de anos e anos, vamos corrigir, vamos estancar essa ferida. Mas nós precisamos de logística. O País não pode continuar com o custo com que se encontra”, afirmou.
Para comprovar a ineficiência do sistema brasileiro de transporte, a presidente da CNA acrescentou, ainda, que são quatro milhões de quilômetros de rodovias asfaltadas nos Estados Unidos; na China, são 1,5 milhões de quilômetros asfaltados; e no Brasil, 196 mil quilômetros. “Esses são nossos concorrentes. Nossos concorrentes são os americanos, são os chineses, são os australianos, são os canadenses, que vão nos tirar do ramo, porque não temos logística”, afirmou. Acrescentou, ainda, as péssimas condições das estradas. “Nós sabemos que 70% das estradas do País são péssimas ou ruins”, avaliou.
Em seu discurso, a presidente da CNA citou ainda os problemas das ferrovias. Nos Estados Unidos, as ferrovias somam 226 mil quilômetros. Na China, são 74 mil quilômetros. “No Canadá, são 48 mil quilômetros, apesar das grandes extensões de gelo naquele país e de que muito pouca área daquele país produz. E no Brasil, são 29 mil quilômetros de ferrovias, enquanto o recurso público vai pelo ralo”, afirmou a senadora Kátia Abreu ao lembrar que o Ministério dos Transportes deveria “ser um ministério vital para o país, junto com a Agricultura, porque não existe produção, não existe industrialização, sem logística”.
Após apresentar uma radiografia da logística do País, a presidente da CNA avaliou os custos para implantação de cada um desses modais e afirmou que os governos anteriores não priorizaram as hidrovias sob alegação de que os custos de instalação são altos. “Mas quero dizer que construir um quilômetro de ferrovia custa R$ 6 milhões; de rodovias, R$ 2,5 milhões, mas de hidrovias não chega a R$ 50 mil, dependendo das condições do rio, como é o caso do rio Madeira, que já nasceu pronto. Basta a eclusa do Madeira, das hidrelétricas que estão sendo feitas em Jirau, para que oportunizássemos mais quatro hidrovias para fora do país”, afirmou. Em seu discurso, a senadora Kátia Abreu também lamentou que a partilha de cargos no governo seja feita por interesse de partidos. “Muitas vezes, os interesses dos estados são comprometidos. O povo não consegue entender como os cargos são divididos”, afirmou.
A senadora Kátia Abreu também destacou o artigo Por que os brasileiros não reagem?, de Juan Arias, correspondente do jornal El Pais no Brasil, texto publicado originalmente no periódico e reproduzido pelo jornal O Globo na última segunda-feira (11/7). A presidente da CNA classificou o artigo como "brilhante", mas disse que lia o texto "com muita tristeza". “Eu quero ler alguns trechos do artigo com muita tristeza. Não quero entrar em detalhes, nos méritos das culpas, dos erros, que são muitos, imensos, mas para uma reflexão de todos nós”, afirmou a senadora Kátia Abreu.
O artigo lembra que, em seis meses, a presidente Dilma Rousseff já afastou dois ministros importantes. Juan Arias diz que no Brasil não existe o "fenômeno dos indignados", comum em todo o mundo. "Será que os brasileiros não se importam que os políticos sejam salteadores do dinheiro público?", questiona o autor. Os senadores Armando Monteiro (PTB-PE) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) fizeram apartes e elogiaram o discurso da senadora Kátia Abreu.
Assista ao vídeo com o pronunciamento completo:
http://www.canaldoprodutor.com.br/comunicacao/videos/pronunciamento-da-presidente-da-cna-sobre-falta-de-log%C3%ADstica-no-brasil

sábado, 9 de julho de 2011

Pegando no santo pé da santidade

Dizem que pego no pé de Marina Silva. É falso! Não é que não pudesse fazê-lo, mas é falso. Tenho outras prioridades. Confesso, os meus leitores sabem disto, ter um lado meio parnasiano, formalista mesmo. Não chego a dizer que a forma determina o conteúdo, mas nunca senti bom perfume em frasco ruim. Se alguém me diz,tentando parecer profundo, que “o frasco não faz o perfume”, o diabinho que habita em mim logo cutuca: “Mas por que fará o mais, o bom perfume, quem não sabe fazer o menos, o frasco?” Eu me deixo tentar pelo diabo da lógica. O bicho é feio, mas a palavra é linda, procurem. O “diabo” é aquilo que desune, que divide, que desafina o coro dos contentes. Nesse estrito sentido, Marina é pura, e eu sou diabólico. Ela fica juntando gente dos mais diferentes matizes, e eu fico desunindo…
A mulher saiu do PV e agora montou o que ela chama “movimento”, que, segundo diz, congrega pessoas dos mais diversos partidos. Marina ainda era uma socialista da floresta quando eu já era um pós-Milton Friedman. Eu descobri com ele, e com outros, faz tempo, que não existe almoço grátis — muito menos creme anti-rugas da Natura. Alguém sempre paga a conta. O jornalismo brasileiro não se ocupa de tentar descobrir quem paga as contas de Marina porque também resolveu ser militante e militonto. Eu escrevi acima, notem ali, “pós-Milton Friedman”. À sua maneira, mesmo sabendo que não existe almoço grátis, ele era um idealista. No modelo de Friedman, não cabe um BNDES financiando os “capitalistas”, os “liberais”. No Brasil, o liberalismo tem sala quase contígua à de Dilma Rousseff, como Jorge Gerdau Johannpeter. O mundo civilizado descobriu a sociedade que coíbe o estado; o Brasil descobriu o estado que coíbe a sociedade em nome do bem comum. Não é a minha praia. Eu sou um idealista exigente. Em matéria de metafísica, comigo, é Deus ou é nada. Se não é Deus, é humano. Se é humano, indago: quem paga a conta?
Marina concedeu uma entrevista ao Estadão. O jornalismo anda mais ou menos — na verdade, “mais” — embasbacado com aquele ódio liofilizado à política, que ela oferece. Ah, meu Deus! Se as galinhas não me aborrecessem depois de um ou dois dias, eu iria criar galinhas! Não é preciso muitos livros, apenas os certos, para perceber que o discurso de Marina tem matriz e matiz fascistóides. Supõe que a verdade, nas ciências humanas e na política, tem um lugar, um ponto de chegada, uma síntese definitiva — que ela, evidentemente, encarnaria.
Não há um só repórter que tenha se interessado em saber: “Mas, afinal, o que esta senhora queria do PV?” Eu revelo: ela queria o comando do partido no Distrito Federal, por onde pretendia se lançar candidata ao senado em 2014 — ainda não era a Presidência. Era uma esforço para mudar o domicílio eleitoral porque o Acre não elege mais Marina Silva! Na disputa pela Presidência da República, ela ficou em terceiro lugar em seu estado natal. A eleição para o Senado também é majoritária, como a Presidência. O PT local (que é a turma de Marina no Acre) agoniza. O que parece ser uma causa transnacional é, na verdade, um problema paroquial, entenderam? E o presidente do PV, o demonizado deputado federal José Luiz Penna (SP), não quis lhe entregar o partido no DF. O resto é história.
Eu fico verdadeiramente fascinado por esses processos porque posso entender, mas não endossar, as razões que levam as massas, em determinados momentos, a fazer certas tolices. Mas continua a desafiar a minha inteligência o que leva minorias informadas a aderir a certas idéias estúpidas, como é o marinismo. Notem bem: Marina tentou dar um golpe e assumir o comando do PV. Como ela não conseguiu, então declara uma espécie de falência não exatamente do partido, mas do sistema partidário como um todo. E lança o seu “movimento”. Em suma: se Marina não consegue ser a primeira numa vila, então quem está em crise é a República. É brincadeira!
Muito bem” Este “movimento”, COMO SABEM TODOS OS JORNALISTAS, EMBORA OMITAM ESTA INFORMAÇÃO DOS LEITORES, conta com assessoria de imprensa, assessoria de imagem, assessoria política, essas coisas. Afinal, quem os pauta? Embora Friedman tivesse um lado “sonhático”, fazia boas perguntas com seu lado pragmático: “QUEM PAGA O ALMOÇO?” Por outra: quem paga a conta do “Movimento Marina”? Não devem ser apenas os cremes anti-rugas da Natura.
Eu sou aborrecidamente lógico. E também tenho certas tentações. Se me proponho perguntar, fico louco para responder eu mesmo. NÃO DEVEM pagar a conta do “Movimento Marina” os setores manufatureiros da economia porque eles, no fim das costas, apresentam um passivo alto de carbono, entenderam? É uma gente horrorosa, que fica destruindo a natureza para dar uma vida melhor aos desdentados. Não que esses capitalistas pérfidos atuem com esse objetivo. Eles querem é lucro. Ocorre que, invariavelmente, sempre que um desses ogros obtém lucro, também geram empregos e acabam melhorando a vida dos pobres de um modo como um verde ou um socialista jamais conseguiriam. A turma da manufatura, que está suja na rodinha do carbono, não deve financiar o movimento de Marina Silva.
Seria o setor agroindustrial? Duvido! A agroindústria, as cidade e as obras de infra-estrutura ocupam apenas 27,5% do território nacional. Mesmo assim, Marina conseguiu demonizar o agronegócio e as hidrelétricas. Não devem ser os “capitalistas do campo” a sustentar o proselitismo na nossa Santa Verde. Certo! Descartando-se a manufatura e agroindústria, com seu pendor para destruir a natureza, quem sobra para financiar o tal movimento suprapartidário da Santa da Floresta? Qual setor da economia? Qual empresário?
Marina diz querer uma política diferente. Uma das pregações do nosso tempo é a tal “transparência”. Muito bem! Em nome dela, pergunto: quem paga as contas do tal movimento suprapartidário de Marina? Quem arca com o custo da campanha, digamos, pré-eleitoral? Almoço grátis, já sabemos, não existe. Quando menos, devemos a nosso anfitrião o decoro!
Não! Eu não dou, de hábito, a menor bola para as minorais fim-do-mundistas, vocês sabem disso. Mas Marina chama a minha atenção. Partidos políticos são obrigados a dizer quem os sustenta. Pergunto: quem paga a conta do “movimento Marina”, que se apresenta como ombudsman dos partidos? A pergunta não é nova, já tem mais de 400 anos e foi feita por Padre Vieira: “Quem remedeia os remédios?”
É nossa obrigação tentar saber.
Por Reinaldo Azevedo
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

Código Ambiental Internacional

Denis Lerrer Rosenfield

O Rio de Janeiro organizará, em 2012, a Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável (UNCSD 2012, denominada de Rio+20), em cuja ocasião terá lugar igualmente a Cúpula dos Povos para o Desenvolvimento Sustentável — também chamada de Rio+20. Será, portanto, uma oportunidade de reunião de países, ONGs e movimentos sociais, tendo como objetivo a preservação do meio ambiente. O seu mote é, portanto, uma grande discussão sobre o que a ONU denomina de “economia verde” e de desenvolvimento em “harmonia com a natureza”. A mídia internacional se debruçará sobre esses eventos.
Logo, a oportunidade será única para todos os países levarem a sério o que se propõem, e não fazerem apenas uma mera encenação, que sirva somente para impor regras aos países em desenvolvimento, em particular o Brasil, um dos países que mais conservaram suas florestas nativas. Não deixa de ser estranho que o país mais preservacionista seja o alvo das atenções mundiais, sobretudo dos países desenvolvidos. Uma proposta simples e singela seria a elaboração de um Código Ambiental Internacional, que fosse seguido por todos os países, a começar pelos EUA e pelos países europeus. O atual Código Florestal e o próximo estipulam que os empreendedores rurais e o agronegócio em geral devem, em todo o país, preservar a vegetação e a floresta nativas de 20% de suas propriedades, chegando a 35% no Cerrado, na zona de transição para a Floresta Amazônica, e de 80% nesta última. Isto se chama de “reserva legal”.
Nesta perspectiva, os EUA e os países europeus deveriam, também, criar o instituto da “reserva legal”, estipulando um percentual mínimo de 20%. Como se trata de países desmatadores, que devastaram suas vegetações e florestas nativas, teriam um belo trabalho de recomposição de seus biomas originários. Meios científicos, tecnológicos e financeiros certamente não faltariam. Seria uma extraordinária contribuição à preservação ambiental, à “economia de verde” e ao desenvolvimento em “harmonia com a natureza”. Não é isso que defendem? Por que não aplicam em seus próprios países?
Imaginem um planeta em que, uniformemente, em todos os Estados, houvesse uma preservação de 20% de suas vegetação e florestas nativas, obrigando os produtores rurais e o agronegócio desses países a renunciarem a essa parcela de suas propriedades. O índice poderia ser, inclusive, maior, dependendo do maior interesse ambiental. Penso que deveriam fazer isto voluntariamente, pois não cansam de defender essa ideia para o Brasil e outros países como a Indonésia. Guardariam a coerência e os seus discursos não seriam meros disfarces. Não esqueçamos que o Brasil preserva, até hoje, 61% de suas florestas nativas, chegando esse índice a pouco mais de 80% na Amazônia. Nos EUA e nos países europeus, esse índice não chega, em média, a 5%. O ganho ambiental para eles, e para o planeta, seria enorme.
O ministro Antônio Patriota, em recente viagem aos EUA, foi obrigado a se explicar junto a um “Think tank” sobre a legislação ambiental brasileira a partir da aprovação pela Câmara dos Deputados do novo Código Florestal. Como assim se explicar? Ele é que deveria pedir explicações para a pouca atenção desse país com suas vegetação e flores ta nativas. Deveria perguntar por que os produtores rurais americanos e o seu agronegócio não dispõem da “reserva legal”. Não deveriam criá-la? Têm medo do lobby desse setor americano? Por que vociferam aqui e se calam lá?
Um princípio elementar da ciência consiste na validade universal de suas proposições, que de hipóteses se tornam, então, verdades científicas. Se, por exemplo, a “reserva legal” ganha o estatuto de uma verdade científica, ela não poderia ser válida apenas para o Brasil, mas para todos os países do planeta. A SBPC e a ABC deveriam se engajar junto às suas organizações congê-neres nos EUA e na Europa a defenderem a mesma posição, sob pena de estarem a serviço particular de uma causa, em cujo caso não haveria nisto nenhuma ciência, mas tão só um posicionamento parcial e político.
Imaginem o ganho “científico”, se essas entidades congêneres americanas e europeias se engajassem nos mesmos tipos de estudos e, sobretudo, na aplicação de políticas, pressionando os seus respectivos governos e se comprometendo, como fazem no Brasil, junto às editorias de jornais e dos meios de comunicação em geral.
Continua sendo um enigma, digamos de maneira polida, a omissão de ONGs e movimentos sociais em relação à preservação do meio ambiente nos países desenvolvidos. Ressalte-se que os ditos movimentos sociais no Brasil são, em sua maioria, patrocinados e financiados por entidades religiosas católicas, protestantes e anglicanas, tendo suas sedes em países como Grã-Bretanha, Canadá, Alemanha e Áustria.
Deveria ser provocada uma grande campanha internacional para a criação de reserva legal ou de conservação de APPs (áreas de preservação permanente) nos mesmos índices dos que são válidos no Brasil. Por que não utilizam, por exemplo, os mesmos critérios para os rios Douro, Sena, Tamisa e Reno? Por que não fazem campanha contra as plantações de tulipas na Holanda e o cultivo de uvas e a produção de vinho em França, Alemanha, Itália e Portugal? No Brasil não se pode cultivar à beira de rios, encostas e topos de morro e lá pode? De onde provém essa parcialidade?
Ressalte-se ainda que algumas dessas ONGs internacionais e, mesmo, nacionais são atuantes nesses países, algumas tendo neles seus escritórios centrais. Ademais, muitos países europeus financiam ONGS brasileiras, o que mostra uma mistura, diria “impura”, entre interesses estatais e atuação ambientalista no Brasil.
A Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável e a Cúpula dos Povos para o Desenvolvimento Sustentável, ou seja, o megaevento Rio+20, seriam uma ocasião única para levantar o véu da hipocrisia. Por que não um Código Ambiental Internacional?

DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-globo/2011/06/06/codigo-ambiental-internacional-artigo-denis-lerrer

sexta-feira, 8 de julho de 2011

NÃO TROQUE O CERTO PELO INCERTO - PARASHÁ BALAK 5771 (08 de julho de 2011)

"Há cerca de 20 anos passava na televisão um programa dominical, conduzido pelo famoso apresentador Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos. O programa era conhecido como "A cabine do Silvio Santos", pois o elemento principal era uma cabine à prova de som colocada no meio do palco. Uma pessoa sorteada entrava na cabine e ficava fechada lá dentro, sem saber o que acontecia do lado de fora. Enquanto isso o Silvio Santos perguntava para a pessoa se ela queria trocar certo objeto por outro. Uma luz vermelha acendia-se na cabine e o participante tinha que dizer "Sim" ou "Não". Após algumas trocas o jogo terminava e a pessoa recebia o prêmio que havia restado após a última rodada.
Certa vez Antônio Golçalves foi sorteado. Ele não acreditou na imensa sorte de participar do programa do Silvio Santos, pois além dos 15 minutos de fama, os prêmios oferecidos eram muito bons. Fogões, geladeiras, motos e até carros. Antônio estava nervoso quando começou o jogo. Ansioso, ele permanecia em silêncio absoluto, esperando a luz vermelha. Então a luz acendeu e ele gritou "Sim", trocando uma bicicleta por um fogão. Na outra rodada ele decidiu gritar "Não", salvando-se de trocar seu fogão por uma boneca. A sorte parecia estar do lado de Antônio. Na penúltima rodada Antônio estava com uma moto. Então o Silvio Santos trouxe um carro para o palco e perguntou: "Você troca sua moto por este carro zero quilômetros? Antônio viu a luz acendendo e, sem saber o que acontecia do lado de fora, gritou "Sim". Chegou a rodada final e Antônio tinha um carro em suas mãos. Foi então que o Silvio Santos, fez a última pergunta: "Você troca seu carro por uma coxinha?". A luz vermelha acendeu-se e Antônio, confiante, fechou seus olhos e gritou com toda sua força: "Siiiiiiim".
A porta da cabine foi aberta e Antônio saiu, esperançoso. Que grande prêmio teria ganhado? Viu no palco uma televisão, um fogão e uma geladeira. Seus olhos viram também um carro parado no palco e brilharam de alegria. Foi então que o Silvio Santos veio trazendo uma coxinha. Era a coxinha pela qual Antônio havia trocado seu carro. Que decepção! Antônio Golçalves queria sumir de tanta vergonha. Ao sair do palco levava em sua mão a coxinha que havia trocado pelo seu carro zero quilômetros"
Algumas vezes nos equivocamos e, no jogo da vida, nos comportamos como o Antônio Gonçalves. Nos esquecemos que os prazeres do mundo material são limitados e temporários, enquanto os prazeres do mundo espiritual são infinitos. Algumas vezes D'us nos pergunta se queremos trocar os prazeres eternos por prazeres limitados e, na ingenuidade, respondemos "Siiiiiiiim".
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Na Parashá desta semana, Balak, a Torá descreve uma pessoa de personalidade interessante chamada Bilaam. Ele tinha um nível muito elevado de profecia, ao ponto de falar diretamente com D'us, mas preferiu utilizar seu potencial espiritual para ganhar dinheiro e fama vendendo seus "serviços" para interessados em amaldiçoar pessoas e até mesmo povos inteiros. Um dos "clientes" de Bilaam foi o rei Balak, do povo de Moav, que temeu muito o iminente confronto com o povo judeu após ver sua esmagadora vitória contra o povo de Amorá. Balak sabia que a vitória na guerra não dependia de força física, mas sim de méritos espirituais, por isso contratou Bilaam por uma enorme soma de dinheiro para amaldiçoar o povo judeu, possibilitando assim vencer na guerra.
Bilaam, que era famoso pelo grande sucesso em seus "trabalhos espirituais", aceitou a generosa oferta de Balak e, por três vezes, tentou amaldiçoar o povo judeu, mas em todas elas D'us protegeu os judeus, fazendo com que as maldições que saíam da boca de Bilaam se transformassem em Brachót (Bençãos).
Na terceira vez, antes de tentar amaldiçoar o povo judeu, Bilaam pediu para subir em uma montanha e observar o acampamento dos judeus, garantindo que assim poderia amaldiçoá-los. Porém, da sua boca saíram as seguintes palavras de louvor ao povo judeu: "Quão belas são tuas tendas, Yaacov, teus tabernáculos, Israel". Mas que tipo de louvor é esse? O que havia de especial nas tendas do povo judeu? Além disso, por que o versículo mistura as linguagens "Yaacov" e "Israel", já que ambas são utilizadas para se referir ao povo judeu? E finalmente, para que Bilaam precisava ver o povo judeu para poder amaldiçoá-lo?
Explicam nossos sábios que D'us criou e dirige o mundo baseado em misericórdia, pois se Ele julgasse nossos atos com justiça estrita, o mundo não sobreviveria. Mas existem alguns poucos instantes em cada dia em que D'us sim julga o mundo com justiça estrita. Bilaam não tinha o poder de amaldiçoar ninguém. Ele tinha, na realidade, o potencial espiritual de saber qual era o momento da justiça estrita de D'us. Como ele aproveitava este dom espiritual? No exato momento da justiça estrita ele mencionava para D'us alguma transgressão da pessoa ou povo, causando uma "maldição", que nada mais era do que a consequência de uma punição espiritual mais severa. Por isso ele subiu na montanha, para observar o acampamento do povo judeu e procurar qualquer defeito que pudesse ser mencionado no momento da justiça estrita de D'us.
O que Bilaam esperava ter visto? Um erro comum de acontecer entre vizinhos: a falta de recato, resultado da curiosidade que temos de sempre querer saber o que está acontecendo na vida dos outros. Vivemos sem privacidade, janela com janela, um olhando sempre o que os vizinhos estão fazendo. Porém, Bilaam viu no acampamento do povo judeu justamente o contrário. As tendas eram montadas de forma recatada, isto é, nunca a abertura de uma tenda ficava de frente para a abertura de outra tenda. O povo judeu se preocupava com a privacidade e o recato de cada família. Ao invés de uma maldição, Bilaam pronunciou uma Brachá.
Explica o Rav Moshe Shterenbuch que, além desta explicação mais simples, a Brachá de Bilaam pode ser entendida de uma maneira mais profunda, necessitando apenas uma pequena introdução. A Torá se refere ao povo judeu de duas maneiras diferentes. Pessoas mais simples, com um nível espiritual mais baixo, são chamadas de "Yaacov", enquanto pessoas em um nível espiritual mais elevado são chamadas de "Israel".
O que significa "Quão belas são tuas tendas, Yaacov"? A tenda simboliza coisas provisórias e temporárias. Elas não são moradias fixas, são utilizadas apenas como uma solução temporária por pessoas que estão fora de casa. Este foi o louvor que Bilaam deu ao povo judeu: da mesma forma que eles moravam em tendas porque estavam apenas de passagem pelo deserto, assim eles também viviam suas vidas. Eles colocavam no coração que a vida no Olam Hazé (Mundo Material) é provisória e passageira, apenas uma preparação para o Olam Habá (Mundo Vindouro), que é a vida verdadeira e eterna. Bilaam ressaltou como é bom viver com esta certeza, mesmo para as pessoas mais simples chamadas de "Yaacov", pois assim podem dedicar suas vidas ao que realmente é importante, sem investir mais do que o necessário no que é passageiro e limitado.
E o que significa "Teus tabernáculos, Israel"? Que as pessoas mais elevadas, chamadas de "Israel", podem viver em um nível espiritual ainda mais alto. Para elas não é suficiente apenas viver com a certeza de que o mundo material é temporário, elas conseguem transformar suas vidas em um pequeno Mishkan (tabernáculo ou Templo Móvel). Qual a característica de um Mishkan? Através da utilização de objetos do mundo material, da maneira como D'us ensinou, conseguimos trazer a Sua presença para o mundo. Viver uma vida de Mishkan significa utilizar o mundo material e seus prazeres de uma forma tão sagrada que podemos elevar tudo o que é material a um nível espiritual.
Deste ensinamento aprendemos algo muito interessante: não é abdicando dos prazeres do mundo material e vivendo uma vida de pobreza e privações que podemos nos tornar pessoas espiritualmente mais elevadas. A maneira verdadeira de criar uma conexão com D'us é utilizando o mundo material, tendo proveito dos prazeres que ele pode nos oferecer, mas canalizando estes prazeres ao mundo espiritual. As Mitsvót nos ajudam nesta difícil tarefa. Por exemplo, podemos ter o prazer de uma boa comida, mas a comida Kasher e as Brachót feitas antes e depois de termos proveito transformam a comida gostosa em alimento para a alma. E assim funciona com todos os prazeres do mundo material que, ao serem obtidos da maneira correta, podem virar prazeres espirituais, transformando nossas casas e nossas vidas em um verdadeiro Templo Móvel.
A Brachá de Bilaam não foi apenas para o povo judeu que estava no deserto, foi para cada um de nós. Foi uma Brachá para que possamos ter claridade durante o tempo limitado em que estamos neste mundo material e possamos focar corretamente os nossos atos. Não apenas para não gastarmos o nosso tempo na busca incessante de prazeres limitados que não nos preenchem, mas para que possamos trazer espiritualidade para o mundo com cada pequeno ato que fazemos.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com/
Nm. 22:2-25:9, Mq 5:6-6:8, Rm. 11:25-32