sexta-feira, 26 de maio de 2017

O VALOR DA TORÁ - PARASHÁ BAMIDBAR E SHAVUÓT 5777

"Certa vez um pobre bateu na porta de Shimon, um grande erudito de Torá, um homem extremamente justo e piedoso. Quando Shimon viu que não tinha nada para dar ao pobre, ficou muito triste. Em total desespero, viu na mesa da sala uma pulseira de sua esposa. Achou que era uma pulseira simples, algo de pouco valor. Sem pensar duas vezes, pegou a pulseira e deu ao pobre, que agradeceu e foi embora.

Alguns minutos se passaram e a esposa de Shimon entrou em casa. Quando ela percebeu que a pulseira não estava na mesa, começou a procurar desesperada por toda a casa. Foi então que Shimon contou que um pobre faminto havia batido na porta e havia pedido dinheiro, mas como ele não tinha encontrado nada para dar ao pobre, acabou dando a pulseira. A mulher, não acreditando no que havia acabado de escutar, falou:

- Shimon, você ficou louco? Aquela pulseira valia muito dinheiro! Custou mais de R$ 500,00!

Quando Shimon escutou aquilo, imediatamente saiu correndo atrás do pobre, gritando. O pobre não estava muito longe quando viu Shimon correndo em sua direção, com o rosto desesperado. O pobre se assustou, achando que aquele homem havia se arrependido de sua doação e estava vindo pegar a pulseira de volta. Quase que instintivamente ele começou a correr, fugindo de Shimon. As pessoas da cidade, quando viram Shimon perseguindo o pobre aos berros, também se uniam à perseguição. Quando finalmente o pobre foi alcançado, ele gritou:

- Me deixem! Por que vocês estão me perseguindo? Eu não sou ladrão! Este homem me deu a pulseira, ela é minha!

Shimon tratou de acalmar os ânimos. Pediu desculpas a todos pelo transtorno causado. Depois, com uma voz tranquila e amigável, virou-se para o pobre e disse:

- Meu querido, D'us me livre querer pegar a pulseira de volta. Eu dei de coração, ela é sua. Eu estou correndo atrás de você apenas porque descobri que a pulseira é valiosa, muito mais do que eu imaginei. Portanto, quando você for vender, não peça menos do que R$ 500,00".

Esta é a essência de Shavuót, a Festa da entrega da Torá. Porém, mais do que nos entregar a Torá, D'us também quer que saibamos o verdadeiro valor dela, para que não a desprezemos ou a troquemos por coisas baratas.

Nesta semana começamos um novo livro da Torá, Bamidbar (literalmente "No deserto"). Neste livro são detalhados muitos acontecimentos importantes que ocorreram durante os 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto, como o erro dos espiões, as constantes reclamações por água e comida e as guerras contra outros povos. A Parashá desta semana, Bamidbar, descreve a formação do povo judeu durante as viagens e a forma como acampavam, divididos em tribos, cada tribo com sua posição muito bem definida.

Quando refletimos sobre os 40 anos do povo judeu no deserto, algo nos chama a atenção. Foram anos de muitas dificuldades. O deserto é um local inóspito, difícil para o ser humano viver. É um local sem água, sem comida e com muitos perigos naturais. Além disso, D'us testou muitas vezes o povo judeu, fazendo-os acampar por longos períodos em locais não muito agradáveis, enquanto algumas vezes, quando chegavam a um oásis paradisíaco, ficavam apenas poucos momentos. Os judeus já haviam passado 210 anos como escravos, submetidos às maiores crueldades, com castigos físicos e psicológicos. Por que D'us não os tirou do Egito de uma maneira mais tranquila, sem tantas dificuldades?

A resposta está na próxima Festividade do calendário judaico, Shavuót, o dia da entrega da Torá no Monte Sinai. Na próxima 3ª feira de noite (30 de maio) começa a Festa de Shavuót e os homens do povo judeu têm o importante costume de passar a noite inteira acordados, estudando Torá. Mas a entrega da Torá não foi um evento simples, envolveu detalhes que nos ensinam lições preciosas. Por exemplo, quando Moshé fez uma "revisão" de toda a Torá, no livro de Devarim, ele trouxe um ensinamento interessante: "E disse (Moshé): "D'us veio do Sinai. Ele brilhou para eles desde Seir, tendo aparecido para eles desde o Monte Paran" (Devarim 33:2). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que este versículo se refere ao momento em que D'us, antes de entregar a Torá ao povo judeu, também a disponibilizou às outras nações do mundo. D'us ofereceu a Torá aos descendentes de Essav, que viviam na terra de Seir. Porém, quando eles descobriram que a Torá continha o mandamento de "Não assassinarás", eles a rejeitaram, argumentando que eles eram pessoas violentas por natureza e, portanto, não poderiam cumprir este mandamento. Algo similar aconteceu com os descendentes de Ishmael, que viviam no Monte Paran. Eles também rejeitaram a Torá ao escutar que ela continha o mandamento "Não furtarás", argumentando que o roubo era algo que já fazia parte de sua natureza.

Porém, este ensinamento precisa de esclarecimentos. Em primeiro lugar, estas duas Mitzvót que os outros povos rejeitaram, "Não matarás" e "Não furtarás", também fazem parte das "7 Mitzvót de Bnei Noach", que são as Mitzvót que todos os povos do mundo têm obrigação de cumprir. Portanto, se eles já estavam automaticamente obrigados a cumprir estas Mitzvót, por que as utilizaram como justificativa para não receber a Torá?

Além disso, as Mitzvót que aparecem nas "7 Mitzvót de Bnei Noach" são aparentemente muito mais rigorosas do que as Mitzvót da Torá. Por exemplo, de acordo com a Torá, se alguém furta, sua punição é pagar o dobro do valor furtado. Já as Mitzvót de Bnei Noach preveem uma punição capital para esta mesma transgressão, um castigo muito mais duro. Outra diferença importante é que, para uma pessoa ser condenada de acordo com a Torá, é necessário que o transgressor tenha sido previamente avisado de que seu ato é passível de castigo e que duas testemunhas tenham visto a transgressão. Isto não é exigido para aplicar uma punição de acordo com as Mitzvót de Bnei Noach. Portanto, por que os outros povos rejeitaram a Torá argumentando que eles não poderiam cumprir justamente as mesmas Mitzvót que eles já estavam obrigados a cumprir, e de uma maneira muito mais rigorosa?

A resposta está em um interessante ensinamento do Rambam (Espanha, 1135 - Egito, 1204), na introdução dos seus comentários sobre o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas). Ele faz o seguinte questionamento: Qual é o maior nível espiritual no nosso serviço Divino, quando naturalmente não temos o desejo de fazer uma transgressão ou quando temos um intenso desejo e, após uma intensa luta interna, finalmente conseguimos vencer nosso Yetser Hará (má inclinação) e cumprir a vontade de D'us? O Rambam chega à conclusão de que há na Torá duas categorias de Mitzvót negativas (transgressões que devemos evitar). Há transgressões que naturalmente sentimos a obrigação de evitá-las, pois entendemos que não evitá-las é algo intrinsecamente errado, como assassinar, roubar ou cometer adultério. A segunda categoria de Mitzvót são aquelas que não teríamos intelectualmente a consciência de que são proibidas e somente evitamos porque D'us nos proibiu, como cozinhar carne com leite e vestir roupas com Shaatnez (mistura de lã com linho).

Em relação às Mitzvót que não teríamos consciência de que são intrinsecamente erradas, o maior nível de cumprimento é, apesar de desejar transgredi-las, conseguir se conter porque D'us nos comandou, como diz o Midrash: 'Ensina o Rav Elazar ben Azaria: "A pessoa não deve dizer "Eu me abstenho de comer porco porque não gosto", e sim "Eu gosto de porco, é saboroso, mas eu não como apenas porque D'us me comandou a não comer"'. Já em relação às transgressões que naturalmente identificamos como sendo erradas, a Torá nos ordena a nem mesmo desejar fazê-las. A pessoa que evita fazer estes tipos de transgressão, mas no seu interior ainda deseja fazê-las, está cumprindo estas Mitzvót de maneira incompleta. O maior nível de cumprimento deste tipo de Mitzvá é a pessoa abominar estes atos errados em seu coração.

Explica o Rav Yohanan Zweig que a diferença entre as 613 Mitzvót da Torá e as 7 Mitzvót de Bnei Noach não é apenas quantitativa, mas também qualitativa. As 7 Mitzvót de Bnei Noach são essencialmente leis que garantem que a sociedade não se autodestruirá. Das pessoas que cumprem as Mitzvót de Bnei Noach é exigido apenas que elas façam ou deixem de fazer alguns tipos de atos, como não roubar ou não matar, mas não é exigido que elas transformem a Mitzvá em parte de suas próprias essências. Não há, nas Mitzvót de Bnei Noach, nenhuma obrigação em relação aos pensamentos e à sensibilidade. Já as Mitzvót da Torá são mais do que apenas garantias de uma sociedade harmônica e equilibrada. As Mitzvót da Torá exigem que nos transformemos em um reflexo do nosso Criador. Isto somente pode ser alcançado se incorporarmos as Mitzvót à nossa essência. Quando cumprimos o "Não furtarás", não estamos apenas deixando de cometer um crime, é exigido de um judeu que ele abomine o ato de furtar e que internalize isso em sua própria essência.

As Mitzvót que os outros povos do mundo rejeitaram na entrega da Torá se enquadram na categoria das que naturalmente sentimos que são erradas. Na realidade, todas as Mitzvót de Bnei Noach estão nesta categoria. Porém, enquanto os povos cumprem estas Mitzvót como sendo Mitzvót de Bnei Noach, eles não entram na proibição de desejar transgredi-las. O que D'us estava oferecendo para os outros povos era um nível completamente diferente de cumprimento das Mitzvót, que causaria neles uma mudança qualitativa como seres humanos. Há uma enorme diferença entre ser comandado a evitar transgredir algo e ser comandado a repudiar este ato em sua essência, isto é, até mesmo em pensamentos. Foi este novo nível, o cumprimento das Mitzvót de maneira que elas nos transformem, que os outros povos rejeitaram.

Quando D'us nos deu a Torá, Ele não nos deu apenas mandamentos. Ele nos deu a possibilidade de nos transformarmos em pessoas melhores, de quebrarmos os nossos traços de caráter negativos e transformá-los em características positivas. Isto não é algo fácil, exige trabalho e dedicação. A saída do povo judeu do Egito não foi através de um caminho fácil, pois D'us já estava nos preparando para uma vida de desafios e dificuldades, que é o que nos leva a um crescimento. O descanso e o comodismo podem ser agradáveis ao corpo, mas não nos leva a níveis mais elevados de espiritualidade.

Shavuót significa receber novamente a Torá em nossas vidas. Não somente o cumprimento dos mandamentos apenas como atos no nosso cotidiano, mas como ferramentas para nos transformar em pessoas mais justas, mais honestas, mais tranquilas e mais bondosas. Em Shavuót podemos reconhecer o maravilhoso presente que D'us nos deu, de valor inestimável. E esta nova energia conquistada em Shavuót pode, e deve, ser levada para o nosso ano inteiro.

Shabat Shalom e Chag Sameach

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
NÚMEROS l:l – 4:20, Os 2:1-22

sexta-feira, 19 de maio de 2017

TAPAS POR AMOR - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5777

"Reuven era um garoto muito agitado. Infelizmente não escutava os conselhos e broncas de seus pais e estava sempre metido em terríveis confusões. Certa vez Reuven foi jogar futebol no gramado em frente à sua casa. Apesar de seu pai tê-lo advertido muitas vezes sobre o cuidado com os carros da rua, todas as vezes em que a bola caía no meio da rua ele saía correndo feito um louco e atravessava a rua sem nem mesmo olhar para os lados.

Da primeira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou sem olhar, um carro que estava passando teve que desviar com uma manobra arriscada. O motorista, muito irritado, parou o carro, abriu a janela e começou a gritar com Reuven, repreendendo-o por sua irresponsabilidade. Mas quando o carro partiu, Reuven simplesmente deu gargalhada do que havia acontecido. Alguns minutos depois a bola novamente caiu na rua e, sem pensar, Reuven foi mais uma vez atravessar de forma irresponsável. Um carro que passava naquele momento precisou dar uma freada brusca, deixando marcas de borracha no asfalto. O motorista saiu do carro, agarrou Reuven pelo braço e deu uma severa bronca nele. Porém, quando o motorista foi embora, mais uma vez o pequeno Reuven deu gargalhada, se divertindo com a situação.

Porém, da terceira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou de maneira irresponsável, o motorista que vinha dirigindo precisou frear forte e desviar do garoto, quase causando um acidente mais grave. O homem saiu do carro com o rosto vermelho de raiva. Quando Reuven olhou para o motorista, ficou apavorado. Ele largou a bola no meio da rua e saiu correndo. Mas o motorista não deixou barato e saiu correndo atrás dele. Eles passaram por vários quintais, pularam várias cercas, até que, finalmente, Reuven se viu diante de um beco sem saída. Era o fim da linha, não havia mais para onde correr. O motorista então o alcançou e lhe deu uma bela surra por causa de seu ato irresponsável. Quem era este homem? Obviamente que era seu pai. Os outros motoristas ficaram irritados com o ato irresponsável de Reuven, mas somente um pai leva tão a sério atos perigosos dos filhos para querer que eles nunca mais se repitam. Um pai se irrita com atitudes perigosas de seu filho e dá duras broncas nele, mas isto é uma demonstração de amor, não de raiva".

Existe um paralelo do mundo material com o mundo espiritual. Quando D'us nos vê cometendo erros que podem colocar nossa vida eterna em risco, Ele chama a nossa atenção, como um Pai responsável que ama seus filhos.

Nesta semana lemos duas Parashiót, Behar (literalmente "Na montanha") e Bechukotai (literalmente "Nas Minhas leis"). A Parashá Behar fala sobre a Mitzvá de Shmitá, que nos ensina que devemos deixar os campos que se encontram na Terra de Israel "descansando" uma vez a cada 7 anos, sem arar, plantar ou ter qualquer proveito financeiro de suas colheitas. Esta Mitzvá sempre foi difícil de ser cumprida, principalmente se nos lembrarmos que antigamente dependíamos basicamente da agricultura para nossa sobrevivência. Mesmo assim, cumprir esta Mitzvá e "descansar" nosso campo por um ano inteiro é uma demonstração de Emuná de que é D'us que controla tudo e que é Dele que vem o nosso sustento.

Já a Parashá Bechukotai começa listando as Brachót (Bênçãos) que recebemos quando andamos nos caminhos corretos e cumprimos as Mitzvót contidas na Torá. Porém, depois disso a Parashá muda o tom e começa a descrever, de forma profunda e detalhada, as terríveis tragédias que futuramente atingiriam o povo judeu caso nos desviássemos dos comandos de D'us. Mas como pode ser que um D'us bondoso permite tantas tragédias e sofrimentos? Quando vemos esta parte da Parashá fora de contexto, podemos chegar a conclusões completamente equivocadas.

Imagine um dia no qual você está em casa, conversando tranquilamente com seus amigos, quando seu pai entra. Ele está visivelmente irritado e começa a se comportar com você de maneira estranha. Ele está muito bravo, quase descontrolado. Mesmo que você tenha esquecido de arrumar seu quarto ou tenha tirado uma nota baixa na escola, nada justificaria este tipo de reação dele. Com este comportamento ele se parece um total estranho, alguém que você nem conhece. Você chegaria à conclusão de que aquele na verdade não é seu pai, ou você procuraria alguma explicação lógica para o comportamento dele? Certamente tentaríamos entendê-lo. E mesmo que não conseguíssemos entender naquele momento, esperaríamos que ele futuramente viesse explicar seu comportamento atípico. Daríamos crédito ao nosso pai, pois ele certamente conquistou, ao longo dos muitos anos de convivência, a nossa confiança.

Assim acontece com o povo judeu. D'us nos tirou do Egito, nos salvou dos nossos inimigos, nos sustentou no deserto por 40 anos, nos deu a Sua Torá, um tesouro que pode ser utilizado para trazer vida ao mundo, e nos deu a Terra de Israel, uma terra especial e sagrada. Definitivamente parece que D'us é bom e se preocupa com o nosso bem estar. Ele já tem créditos conosco. Portanto, se de repente este mesmo D'us muda de tom e nos avisa que coisas terríveis nos atingirão, devemos também presumir que existe uma explicação e uma bondade por trás. Há coisas que entenderemos sozinhos durante a vida, outras teremos que esperar até um momento futuro no qual D'us mesmo colocará as coisas no seu devido contexto. Mas uma coisa podemos ter certeza: da mesma maneira que ocorre em relação aos nossos pais, sempre há um significado nos atos de D'us e, em última instância, tudo foi planejado com amor, para o nosso bem verdadeiro.

Parte da nossa falta de entendimento do contexto dos atos de D'us está na nossa falta de compreensão da gravidade dos nossos atos e do que é esperado de nós durante a vida. Imagine uma pessoa muito simples, do interior, que vem à cidade grande visitar seu amigo no hospital. O doente está em estado grave, respirando com a ajuda de aparelhos. Por causa do tubo em sua boca, o doente não consegue falar nada. O amigo, em um ato de "bondade", quer ajudá-lo a falar e tira o tubo de sua boca. Apesar das melhores intenções contidas neste ato, em alguns minutos o doente morre por falta de oxigênio. Pelo fato de o amigo não enxergar o quadro completo, ele não consegue entender a consequência dos seus atos. Aos seus olhos, ele está apenas ajudando seu colega, de maneira inofensiva, retirando de sua boca o tubo que o impedia de falar. Ele faz isso com a mesma naturalidade do que alguém que tira uma sujeira do casaco de seu companheiro. Sem perceber e sem entender as consequências de seu ato, ele cometeu um assassinato.

Da mesma maneira, sem saber e sem entender as conseqüências dos nossos atos, podemos estar até matando outras pessoas. Por exemplo, o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica a gravidade do nosso Lashon Hará (causar danos a outras pessoas, que podem ser físicos, monetários ou psicológicos, através do mau uso da nossa fala). Ele diz que toda vez que alguém fala Lashon Hará, três pessoas morrem: aquele que fala, aquele que escuta e sobre quem está sendo dito coisas negativas. Porém, acabamos falando muito Lashon Hará sem perceber o mal que estamos causando ao mundo. Sempre temos justificativas para os nossos maus atos, sempre temos desculpas para enganar aos outros e a nós mesmos, nos convencendo de que o nosso ato não foi uma transgressão, e sim uma Mitzvá.

Mas pior do que o mal que causamos aos outros com nossas transgressões é o mal que causamos a nós mesmos. A forma como utilizamos equivocadamente nosso bem mais precioso, o tempo, se compara a uma pessoa que comprou um caríssimo computador de última geração e o utiliza como peso de papel, por não saber o que este computador pode produzir. Viver a vida sem ter a claridade de para onde estamos indo é uma forma lenta de suicídio, algo que muitas pessoas fazem sem perceber.

O povo judeu tem uma missão especial no mundo. Somos parte da "tripulação do barco da vida", o exército de D'us cuja principal missão é transmitir ao mundo o sentido da vida. Porém, infelizmente para D'us, para nós mesmos e para o mundo inteiro, esquecemos o nosso papel e pensamos que somos apenas passageiros do barco. Ao invés de ajudar o barco a chegar ao seu destino, passamos o dia jogando boliche no convés. Se não cumprimos o nosso papel, o barco pode acabar afundando. Mas D'us nunca vai deixar isto acontecer. Ele nunca vai deixar destruirmos a nós mesmos e ao Seu barco. Ele muitas vezes precisa nos relembrar que não somos apenas passageiros curtindo a viagem. Este é o ponto de partida para entender as dificuldades pelas quais o povo judeu passou durante sua história. Apesar de ser trágico, o antissemitismo acaba trazendo um benefício para nós. Nada tem mais força para unir o povo judeu do que as ameaças externas. Não é o que D'us gostaria de fazer, mas muitas vezes nós O deixamos "sem escolha".

Muitas pessoas questionam como D'us pôde permitir que tragédias tão grandes recaíssem sobre o povo judeu. A implicação filosófica para quem faz este tipo de pergunta é que talvez não exista D'us. Porém, imaginar isto é como o caso de um pai que tem um filho rebelde. Repetidas vezes o pai adverte o filho que, caso ele se comporte de maneira indesejável, receberá um duro castigo. Quando este filho desobedece a ordem do pai, ele fica surpreso por receber os castigos? Certamente que não, pois ele foi avisado. A única questão válida seria "Qual é o propósito destes castigos?". Mas certamente nunca viria à cabeça do filho a pergunta se o pai existe ou não. A verdade é justamente o contrário. Se o pai avisou que um castigo recairia sobre o filho caso ele fizesse coisas erradas, não há prova maior da existência e da autoridade do pai do que os castigos realmente acontecerem após os atos de rebeldia.

Explica o Rav Simcha Barnett que este é o entendimento por trás de todas as tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a história. Elas vieram justamente para comprovar a existência de D'us, não para negá-la. Como um povo poderia, durante os milênios de sua existência, passar por tantas tragédias e ainda se manter de pé, firme e forte, se não fosse por uma intervenção Divina? Portanto, a chave para colocar os sofrimentos do povo judeu na perspectiva correta é entender o contexto nos quais eles nos atingem e o papel fundamental do povo judeu no palco do mundo. Muitas vezes nos comportamos como um mensageiro que esqueceu sua mensagem. Mas D'us não desiste de Seus mensageiros. Por isso, algumas vezes Ele é "forçado" a nos dar um "tapa", para nos acordar do nosso sono espiritual e nos recordar do nosso papel de mensageiros. O mais impressionante é perceber que Ele nos avisou com antecedência que isto aconteceria.

Sem esta perspectiva correta, muitos acham que a forma de escapar do antissemitismo é sendo menos judeus, isto é, se assimilando e tentando se encaixar no mundo não judaico à nossa volta, abandonando de vez a nossa identidade e as nossas diferenças. É uma estratégia que talvez funcionaria com outros povos, mas não com o povo judeu. A Parashá Bechukotai afirma que a única maneira de prevenir as tragédias é sendo mais judeus. Através do estudo da Torá podemos entender o que D'us considera importante neste mundo. Somente então ficará mais fácil de entender as tragédias profetizadas na Parashá Bechukotai, que já se cumpriram diversas vezes durante a história do povo judeu. E com este entendimento também poderemos nos esforçar para viver a vida da maneira correta, de forma que poderemos receber as Brachót também profetizadas no início da Parashá.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 25:1-26:2, Jr 32:6-27 (Shabat Mevarchim)
Lv 26:3-27:34, Jr 16:19-17:14

sexta-feira, 12 de maio de 2017

APROVEITANDO AS OPORTUNIDADES ESPIRITUAIS - PARASHÁ EMOR 5777

"Era um fim de tarde normal, como qualquer outro dia. Yaacov estava dirigindo de volta para casa, após um dia difícil de trabalho. Ele ligou o rádio para escutar o noticiário, que falava sobre coisas de pouca importância. Entre elas, o repórter noticiou que em uma cidadezinha distante da Índia haviam morrido 3 pessoas de uma gripe desconhecida.

Alguns dias se passaram. Yaacov escutou nas notícias que já não eram mais apenas três mortos por causa daquela gripe misteriosa, mas trinta mil. Um grupo do Controle de Doenças dos Estados Unidos foi acionado para investigar o caso. Em poucos dias aquela já era a noticia mais importante, ocupando a primeira página de todos os jornais, pois a gripe havia começado a se espalhar pelo mundo. Já não era mais só na Índia, mas também no Paquistão, Irã e Afeganistão. Todos se perguntavam: "O que faremos para controlar esta epidemia?". A Europa fechou suas fronteiras, seguida pelos Estados Unidos e Japão. Mas um doente com os sintomas da gripe misteriosa apareceu em um hospital da França. Começou o pânico, o vírus havia se alastrado por todo o mundo. Quando a pessoa contraía o vírus, após quatro dias de terríveis sofrimentos ela morria. O mundo todo assistia, sem poder fazer nada, milhares de pessoas morrendo diariamente. Cientistas trabalhavam dia e noite em busca de um antídoto, mas nada funcionava. De repente, veio a notícia mais esperada: haviam conseguido decifrar o código de DNA do vírus. Seria possível fabricar o antídoto, mas ainda era preciso conseguir a doação de células da medula óssea de alguém compatível e que não tivesse sido infectado pelo vírus.

Todos levaram suas famílias aos hospitais, para que os médicos pudessem identificar um doador compatível. A filha de Yaacov foi a escolhida entre milhares de pessoas. A notícia se espalhou por todos os lados de que um doador havia sido encontrado. O médico então se aproximou de Yaacov e da sua esposa e disse: "Não sabíamos que o doador seria uma criança. A quantidade de medula óssea necessária para a doação é muito grande, provavelmente ela não sobreviverá. Mas estamos falando de uma cura para toda a humanidade. Por favor, vocês concordam?" Foi uma difícil escolha para Yaacov e sua esposa. A filhinha foi consultada e aceitou doar sua vida para salvar a humanidade. E assim foi feito, a medula óssea foi retirada e o antídoto pôde ser fabricado, mas a pequena menina infelizmente não sobreviveu.

Na semana seguinte, a situação já estava sob controle. Apesar do enorme número de mortos, o vírus havia sido neutralizado e não oferecia mais perigo. A ONU decidiu então fazer uma cerimônia para honrar a filha de Yaacov. Mas nem todos foram à homenagem. Algumas pessoas ficaram em casa dormindo, outras preferiram fazer um passeio ou assistir um jogo de futebol na televisão. Agora que tudo estava tranquilo, não souberam dar valor àquela valente menina, que havia dado sua própria vida pela continuidade da humanidade"

Nossos bisavós e avós morreram para transmitir o judaísmo aos seus descendentes. Em épocas de perseguição, preferiram dar a vida a abandonar sua fé. Será que estamos honrando o que eles fizeram por nós? Em épocas de tolerância e tranquilidade, sentimos orgulho de sermos e vivermos como judeus?

Nesta semana lemos a Parashá Emor (literalmente "Diga"), que começa descrevendo a importância de os Cohanim (sacerdotes) manterem um nível muito elevado de pureza e espiritualidade. A Parashá também descreve detalhes das Festas do ciclo do calendário judaico, como Pessach, Shavuót, Sucót e Rosh Hashaná.

Um dos detalhes que a Parashá nos ensina é a Mitzvá de "Sefirat HaOmer", a contagem diária que conecta a Festa de Pessach, que representa a liberdade física do povo judeu, com a Festa de Shavuót, o dia da entrega da Torá ao povo judeu no Monte Sinai, que representa a nossa liberdade espiritual. A Mitzvá consiste em fazer uma contagem diária progressiva, como uma pessoa que está ansiosa para receber um presente valioso. Porém, este período de contagem, que deveria ser um período de alegria, se transformou em uma época de luto e tristeza. Vinte e quatro mil alunos de Rabi Akiva, um dos maiores sábios da história do povo judeu, morreram durante uma terrível praga justamente durante os dias da Contagem do Omer. Nossos sábios explicam o motivo pelo qual eles morreram: não honravam uns aos outros.

Porém, este ensinamento não é fácil de ser entendido. Certamente os alunos do Rabi Akiva eram gigantes espirituais, pessoas quase no nível de anjos. Não honrar uns aos outros certamente não quer dizer que eles se ofendiam de maneira baixa e descontrolada. No enorme nível espiritual no qual eles se encontravam, houve alguma fagulha de falta de honra entre eles. Mas se foi apenas algo tão pequeno, por que eles morreram de forma tão prematura e trágica? Além disso, se eles estavam cometendo este erro, certamente não foi algo que começou do dia para a noite. Então por que D'us "guardou" a punição justamente para esta época do ano, nos dias da contagem do Omer?

Para responder estas perguntas, antes de tudo precisamos entender dois conceitos espirituais importantes. Em primeiro lugar, de acordo com o Rav Elyahu Dessler zt"l (Império Russo, 1892 - Israel, 1953), o objetivo de tudo o que existe no mundo material é que isto se transforme em um "receptáculo de santidade". Por exemplo, quando uma pessoa utiliza um objeto de acordo com o seu propósito, então este objeto se eleva e se santifica. Mas quando algo não atinge seu objetivo, então a impureza espiritual se espalha sobre ele. Quanto maior o potencial de santidade, pior é o nível de impureza caso seu objetivo não seja atingido. É por isso que um corpo morto é a maior fonte de impureza existente, pois o objetivo do corpo é algo muito elevado: se transformar em uma "carruagem" para a nossa alma. Este potencial gigantesco termina no momento em que a pessoa morre e sua alma se separa do seu corpo, fazendo com que aquele corpo morto, que já não pode mais cumprir seu objetivo, se torne uma enorme fonte de impureza espiritual. Outro exemplo é quando o povo judeu está no exílio. Pelo fato de não estarmos cumprindo o nosso objetivo, então ficamos com um status de impureza espiritual. Foi isto o que ocorreu no exílio egípcio, no qual o povo judeu atingiu o nível 49 de impureza espiritual. É por isso que os dias após a saída do Egito rumo ao Monte Sinai se transformaram em uma época de purificação e preparação para o recebimento da Torá, pois era o fim do exílio e a volta ao nosso objetivo.

Outro conceito espiritual importante é explicado pelo Rav Shlomo Alkabetz zt"l (Grécia, 1500 - Israel, 1576). Segundo ele, todo rabino que ensina Torá aos seus alunos alimenta-os com sua alma, isto é, com a essência da sua própria espiritualidade. Este é um dos motivos pelo qual os alunos de Torá de uma pessoa são considerados como se fossem seus próprios filhos. Porém, cada aluno pega apenas uma pequena faísca desta espiritualidade. Somente quando estão todos os alunos unidos é que a influência espiritual do rabino consegue brilhar sobre eles em seu máximo potencial. Se por causa de um comportamento indevido os alunos causam uma separação entre si, acabam perdendo a influência espiritual plena que poderiam receber do rabino e fazem com que ela perca seu propósito.

Os alunos da Rabi Akiva, apesar de toda a sua grandeza espiritual, ao não honrarem uns aos outros no nível em que poderiam, causaram um afastamento entre eles. A consequência foi que eles não permitiram que a influência espiritual de Rabi Akiva, um gigante espiritual, um verdadeiro pilar do povo judeu, atingisse seu propósito. E, conforme explicado pelo Rav Dessler, quando algo não atinge seu objetivo surge a impureza espiritual. Quando chegaram os dias da Contagem do Omer, nos quais brilham as luzes da entrega da Torá e temos a oportunidade de aproveitar o brilho desta luz tão sagrada, se não nos esforçamos para aproveitar os méritos desta luz, isto se torna uma enorme acusação espiritual contra nós. Foi isto o que aconteceu com os alunos do Rabi Akiva. Por um erro que cometeram, eles fizeram com que o seu potencial de Torá diminuísse. Nos dias da Contagem do Omer, o desperdício do potencial espiritual fez com que eles acabassem pagando um preço muito caro.

Este conceito espiritual não se aplica somente à época da Contagem do Omer e à trágica morte dos alunos do Rabi Akiva. Ele nos ajuda a entender muitas épocas de tragédia que recaíram sobre o povo judeu durante a nossa história. Conforme nos ensinou Shlomo Hamelech (Rei Salomão), "Não há nada de novo sob o sol" (Kohelet 1:9), isto é, as coisas no mundo material se repetem em ciclos. Se quisermos aprender sobre o futuro, devemos estudar sobre o passado. Há algo que nos chama a atenção na história do povo judeu por ter se repetido diversas vezes: em geral, as grandes tragédias que recaíram sobre o povo judeu foram precedidas por épocas de tranquilidade, na qual os outros povos nos aliviaram do peso do exílio. Por exemplo, na época da Idade Média os judeus estavam completamente excluídos da sociedade, sendo desprezados e não tendo nenhum tipo de direito. Então chegou a época do Iluminismo, o fim da "Idade das trevas", e os judeus começaram a se emancipar. Todos os países da Europa passaram a aliviar o peso sobre o povo judeu. Recebemos direitos de cidadania e passamos a ser tratados como iguais perante a lei.

Como D'us controla cada pequeno detalhe de tudo o que ocorre, é óbvio que todos os períodos de tranquilidade e de emancipação que tivemos na história foram "encomendados" por Ele, para que pudéssemos nos preparar para a vinda do Mashiach. Em alguns momentos o peso do exílio foi intencionalmente aliviado, pois a preparação para os dias do Mashiach exige um enorme trabalho espiritual para chegarmos ao nível de merecermos a redenção, e viver imerso em problemas frequentes e degradações constantes nos impede de atingir o impulso necessário para o nosso crescimento.

Isto significa que estes períodos de "luz" e alívio na situação do povo judeu vieram para que pudéssemos ter a tranquilidade para investir no nosso crescimento espiritual. Porém, ao invés de reconhecer a mensagem celestial e nos prepararmos para a redenção com alegria e com o aumento do conhecimento, infelizmente o povo judeu algumas vezes utilizou esta nova situação para se assimilar e perder sua essência espiritual. Como são épocas de muito potencial, então a consequência desta perda espiritual acabou sendo trágica. D'us sempre utiliza Sua Misericórdia para adiar a tragédia, dando tempo ao povo judeu de se arrepender de seu desvio. Porém, quando infelizmente o povo judeu não se arrepende, as consequências nos atingem de maneira dolorosa.

Estamos novamente em uma época de tranquilidade e liberdade religiosa. Apesar de o antissemitismo colocar às vezes a cabeça para fora, fantasiado de "antissionismo", os judeus espalhados pelo mundo têm a liberdade de cumprir Torá e Mitzvót sem nenhum tipo de perseguição. Porém, toda oportunidade vem junto com uma cobrança. Será que estamos utilizando esta tranquilidade para nos aproximarmos de D'us, ou infelizmente estamos nos assimilando, nos acomodando e repetindo o mesmo erro dos nossos antepassados? É responsabilidade de cada um de nós cuidar para que esta fase de tranquilidade possa ser um trampolim para o nosso crescimento espiritual e possa nos levar, em breve, para os dias da nossa redenção final.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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Lv 21:1-24:23, Ez 44:15-31

sexta-feira, 5 de maio de 2017

GARANTINDO UM BOM LUGAR - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5777

"A filha do homem mais rico daquela pequena cidade ficou noiva. Todos os moradores da cidade se alegraram muito, em especial pois sabiam que a festa de casamento seria grandiosa e inesquecível. Uma das pessoas mais ricas e importantes da cidade era Joseph, o banqueiro. O dono da festa, querendo demonstrar seu apreço por Joseph, enviou um funcionário, muito bem vestido, para convidá-lo pessoalmente. No dia da festa, Joseph chegou ao salão vestindo seu terno mais elegante. Quando o dono da festa soube da chegada de Joseph, foi pessoalmente recebê-lo na porta, dando-lhe muitas honrarias. Após agradecer imensamente a sua presença, o dono da festa levou-o para se sentar em uma mesa especial, em um lugar de honra reservado apenas para as pessoas mais importantes da cidade.

Mas esta não foi a sorte de Levi, um dos pobres da cidade que pedia esmolas de porta em porta. Quando ele soube da festa, se animou muito, apesar de nem mesmo ter sido pessoalmente convidado. Ele sabia que o dono da festa era um homem generoso e que mesmo os pobres eram bem-vindos em suas festas. Quando Levi chegou ao salão, vestindo suas roupas velhas e rasgadas, não foi recebido por ninguém. Não foi chamado para se sentar nem mesmo nas mesas onde ficavam os convidados mais simples. Levi ficou de pé, em um canto do salão, junto com os outros pobres da cidade, avançando sobre todos os restos de comida que os garçons levavam de volta para a cozinha".

Explicam os nossos sábios que esta será a diferença no Mundo Vindouro entre os que chegarem "ricos", isto é, cheios de méritos espirituais, e os que chegarem "pobres", isto é desprovidos de méritos espirituais. E devemos lembrar que enquanto a diferença entre ricos e pobres neste mundo material é por apenas alguns anos, a diferença no Mundo Vindouro será por toda a eternidade.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót (literalmente "Depois da morte") e Kedoshim (literalmente "Sagrados"). A Parashá Acharei Mót descreve os serviços realizados pelos Cohanim no dia mais sagrado do ano, Yom Kipur, e traz a lista de muitos tipos de relacionamentos íntimos proibidos pela Torá. Já a Parashá Kedoshim traz uma série de Mitzvót, em especial "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante), tais como ajudar os pobres, ser honesto nos negócios, não adulterar pesos e medidas e amar o próximo.

A Parashá Acharei Mót começa nos recordando sobre a trágica morte dos filhos de Aharon, que ocorreu justamente no dia da inauguração do Mishkan (Templo Móvel), por eles terem oferecido um incenso que D'us não havia ordenado. Quando estamos diante da morte, normalmente paramos para refletir. Será que estamos aproveitando bem a vida? Será que nossos esforços estão sendo bem aplicados? O que acontecerá conosco depois da nossa morte?

O judaísmo nos tranquiliza ao ensinar que a vida não termina com a morte, ao contrário, a morte é o início da nossa vida verdadeira, a vida espiritual eterna. Porém, há uma aparente contradição entre as fontes que falam sobre a nossa vida eterna. Um Tratado do Talmud (Sanhedrin 90a) afirma que "Todo judeu tem uma porção no Mundo Vindouro", nos ensinando que todos nós já temos a vida eterna garantida. Porém, outro Tratado do Talmud (Nidá 73a) afirma que "Todo aquele que estuda Halachót (neste caso referindo-se às partes de transmissão oral da Torá) todos os dias, é garantido que ele será um "morador" do Mundo Vindouro", nos ensinando que aquele que quer ter parte no Mundo Vindouro deve diariamente estudar Torá. Como entender esta contradição entre as duas citações do Talmud? Afinal, todos nós já temos automaticamente o Mundo Vindouro garantido ou é necessário estudar Torá todos os dias para garantir nossa porção no Mundo Vindouro?

A resposta está em um versículo da Parashá Acharei Mót: "E cuidem das Minhas leis e juízos, que o ser humano cumprirá e viverá com elas" (Vayikrá 18:5). Unkelos (Roma, 35 - Israel, 120), um grande sábio que foi responsável pela tradução de toda a Torá para o aramaico, traduz a expressão "Vechai Bahem" (E viverá com elas) como "Veiechei Behon Bechaiei Alma", que significa "E viverá com elas a vida eterna". Mas o que Unkelos nos ensina ao acrescentar palavras, explicando que o versículo não se trata da vida neste mundo, e sim no Mundo Vindouro?

Explica o Rav Israel Meir HaCohen (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, que todas as criaturas, desde as mais baixas que vivem na Terra, como o ser humano e as outras criaturas abaixo dele, até as criaturas que vivem nos Céus, chamadas de "exército celestial", que inclui até as criaturas espirituais mais elevadas, todos necessitam do "sustento" de D'us, como está escrito: "Você fez os Céus, e os Céus dos Céus e todos os seus exércitos. A terra e tudo o que está contido nela, os mares e tudo o que está contido neles. E Você sustenta a todos eles" (Nechemia 9:6). Isto quer dizer quer todas as criaturas, sem distinção, necessitam do "sustento" de D'us para se manterem. A diferença está no tipo de "alimento" que cada criatura necessita. Enquanto as criaturas que vivem na Terra dependem de alimentos materiais para se manterem vivas, as criaturas que vivem nos Céus dependem de um alimento espiritual refinado, como está escrito: "O ser humano comeu o pão dos poderosos" (Tehilim 28:25). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que "pão dos poderosos" trata-se do alimento dos anjos.

Portanto, desta explicação do Chafetz Chaim aprendemos que a nossa Neshamá (alma), que é completamente espiritual, também precisa de um alimento para o momento em que ela se desconectar do nosso corpo. Os alimentos do mundo materiais não podem alimentar a nossa Neshamá, pois ela é espiritual e eterna e, portanto, necessita de um alimento espiritual para se saciar. Por isso D'us nos deu a Torá, que também é eterna, e através do seu cumprimento podemos despertar a Luz de D'us sobre nossa Neshamá. Esta Luz nos traz um imenso prazer espiritual, como explica o Talmud (Brachót 17a): "No Mundo Vindouro não haverá comida nem bebida... ao invés disso, os Tzadikim se sentarão, com suas coroas sobre suas cabeças, e terão prazer do brilho da Presença Divina". Este prazer é muito maior do que qualquer prazer limitado do mundo material e é isto o que alimentará nossa Neshamá por toda a eternidade.

É isto que dizemos quando pronunciamos a Brachá justamente depois da leitura da Torá em público: "E a vida eterna Você plantou dentro de nós". D'us plantou dentro do povo judeu algo que poderemos "colher" no Mundo Vindouro e viver para sempre. Esta força vital espiritual não trará apenas vitalidade eterna para a Neshamá, mas também para o corpo, como afirma o Talmud (Ketubot 111a) que a Luz da Torá também dará vida eterna ao nosso corpo no Mundo Vindouro. Porém, infelizmente este não será o destino dos ateus e daqueles que dedicarem suas vidas às idolatrias, pois não estão "plantando" nada neste mundo e não terão o "sustento" necessário para a vida eterna. Por isso, enquanto suas almas estiverem conectadas aos seus corpos, a pessoa será alimentada pelo alimento do corpo. Porém, no momento em que a alma se desconectar do corpo, não terá mais nenhum tipo de "alimento" para manter sua vitalidade e, portanto, deixará de existir.

Esta é a explicação das palavras do versículo da nossa Parashá: "E cuidem das Minhas leis e juízos, que o ser humano cumprirá e viverá com elas". Somente o cumprimento das Mitzvót da Torá poderá garantir a nossa vida verdadeira, a vida eterna no Mundo Vindouro. E isto explica as lindas palavras que pronunciamos diariamente em Arvit (Tefilá da noite), imediatamente antes da leitura do Shemá Israel: "Um amor eterno pelo povo judeu, Teu povo, Você amou. Torá e Mitzvót, leis e juízos, Você nos ensinou... Pois esta é a nossa vida e a longevidade dos nossos dias". Como o amor de D'us é um amor eterno, então Ele nos deu a Torá, para que sua Luz possa nos dar vitalidade para sempre. Pois a vida eterna é a vida verdadeira, e com a Torá nossa vida limitada e finita no mundo material se alonga e se transforma em vida eterna.

Da mesma forma que o pão é o alimento para o corpo, a Torá é o alimento para a nossa Neshamá, como ensina Shlomo HaMelech: "Venha, coma do Meu pão e beba do vinho que Eu misturei" (Mishlei 9:5). "Pão" é uma alusão às Halachót (Leis) que estão na Torá, enquanto "vinho" é uma alusão aos segredos que estão ocultos dentro da Torá, como o vinho que está escondido dentro das uvas. Da mesma forma que a pessoa coloca todos os seus esforços para conseguir seu sustento, com o objetivo de conseguir dinheiro para ao menos comprar pão para manter seu corpo, para que não se enfraqueça e não se encurtem seus dias, muito maior deve ser seu esforço para preparar o alimento de sua Neshamá, através do cumprimento da Torá e das Mitzvót, para que quando termine seu tempo de vida neste mundo sua Neshamá não deixe de existir.

É muito grande o mérito do estudo de Torá, como ensinam os nossos sábios (Mishná Peá 1:1): "Estas são as coisas que a pessoa já come os frutos neste mundo, mas o "fundo" fica guardado para ela para o Mundo Vindouro: Honrar os pais, Fazer Chessed (bondade), Trazer a paz entre a pessoa e seu companheiro; e o Estudo da Torá é equivalente a todos eles juntos". Apesar de a lista conter Mitzvót importantes, vemos o incrível valor do estudo da Torá. Um dos principais motivos desta afirmação é trazida pelo Rav Eliahu (Lituânia, 1720 - 1797), mais conhecido como Gaon MiVilna. Quantas vezes podemos fazer Chessed ou fazer paz entre duas pessoas que brigaram? Poucas vezes por dia. Mas o estudo da Torá é algo que pode nos trazer méritos incríveis, pois cada palavra e palavra é uma Mitzvá por si só. Por isso, através do estudo da Torá podemos aumentar os nossos méritos de forma quase infinita.

Mas precisamos saber que o principal objetivo do estudo da Torá deve ser o estudo que leve aos atos. Através do estudo das Halachót a pessoa garante a sua vida eterna. Como na história do rico e do pobre na festa, apesar de todos terem uma porção garantida no Mundo Vindouro, aqueles que estudam Halachót todos os dias e, portanto, cumprem as Mitzvót da maneira correta, está garantido que estarão no Olam Habá como convidados de honra. O mesmo não ocorre com aqueles que não estudam Halachót e, portanto, não cumprem as Mitzvót da maneira correta. Elas também estarão no Mundo Vindouro, mas como pobres, envergonhados no canto do salão de festas, comendo apenas os "restos". Portanto, apesar de estar garantido que teremos uma parte no Mundo Vindouro, vale a pena se esforçar nesta vida para que possamos ter uma boa porção guardada para nós.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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Acharêi MôtLv 16:1-18:30, Am 9:7-15
K’doshímLv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9 (Ash.), Ez 20:2-20 (Sef.)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

MATERIALISMO EXCESSIVO - PARASHIÓT TAZRIA E METZORÁ 5777



Yossef era uma pessoa extremamente materialista. Ele era comerciante e estava sempre pensando em como ganhar mais e mais dinheiro.  Costumava se aproveitar do desespero das pessoas, cobrando dos clientes preços exorbitantes. Quanto maior a necessidade do cliente, maior o preço que ele cobrava. Mas algo fez Yossef mudar sua atitude.

Há cerca de 20 anos, Yossef estava com sua família de férias em um local de acampamento. Depois de alguns dias muito agradáveis, era hora de voltar para casa. Yossef tentou dar a partida no carro, mas nada aconteceu. Desesperado, ele caminhou para fora do acampamento em busca de ajuda, porém não havia mais ninguém. Sem alternativa, Yossef decidiu ir a pé até a vila mais próxima e procurar ajuda.

Depois de uma hora de caminhada e um tornozelo torcido, Yossef se alegrou muito ao avistar um posto de gasolina. Porém, ao se aproximar, percebeu que estava fechado. Lembrou-se então, desesperado, que era domingo. Yossef não tinha mais forças para continuar caminhando. Foi então que viu um telefone público e uma lista telefônica com as folhas tão velhas que já estavam rasgando. Conseguiu ligar para a única companhia de auto-socorro que encontrou na lista, que se localizava a cerca de 30 quilômetros dali. "Não tem problema", disse a pessoa do outro lado da linha, de forma muito simpática, "normalmente estou fechado aos domingos, mas posso ajudar. Chego aí em mais ou menos meia hora".

Yossef se sentiu momentaneamente aliviado. Porém, começou a ficar preocupado com as implicações financeiras que aquela oferta de ajuda causaria. Se o homem do telefone fosse como ele, aproveitaria a situação de desespero para cobrar uma fortuna.

Algum tempo depois Yossef escutou uma buzina e viu um caminhão-guincho se aproximando. Marcos, o mecânico, se apresentou e foram juntos ao acampamento. Quando desceram do caminhão, Yossef observou que Marcos andava com a ajuda de muletas. Foi então que Yossef percebeu que Marcos não tinha uma perna. Yossef voltou aos  cálculos de quanto aquela ajuda custaria e foi ficando cada vez mais preocupado. Certamente aquele homem "enfiaria a faca" na hora de cobrar. Então Marcos chamou-o, interrompendo seus pensamentos:

- Não se preocupe, senhor, é só uma bateria descarregada. Vou dar uma pequena carga, deixamos o motor ligado para recarregar um pouco a bateria e em 10 minutos vocês podem seguir viagem.

Marcos era impressionante. Enquanto a bateria recarregava, distraiu o filho de Yossef com truques de mágica e chegou a tirar uma moeda da orelha, presenteando-a ao garoto.  Enquanto ele colocava os cabos de volta no caminhão, Yossef tomou coragem e perguntou quanto devia pelo serviço. Marcos respondeu que não devia nada. Yossef não entendeu, achou que tinha escutado errado e insistiu mais uma vez. Marcos então falou:

- Há muitos anos, alguém me ajudou a sair de uma situação de desespero, quando perdi a minha perna. A pessoa que me socorreu simplesmente disse: "Somos todos anjos de uma asa só, precisamos nos abraçar para alçar vôo. Quando tiver uma oportunidade, passe isso adiante". Esta é a minha oportunidade.

Aquilo foi um verdadeiro "tapa na cara" de Yossef. A partir daquele dia, ele mudou a forma de viver sua vida. Parou de se aproveitar do desespero dos outros para ganhar mais dinheiro e passou a pensar mais em como ajudar as pessoas em situações de necessidade.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Tazria (literalmente "Concebe") e Metzorá (literalmente "Pessoa contaminada com Tzaráat"). O ponto em comum entre as duas Parashiót é que elas descrevem uma terrível doença espiritual chamada Tzaráat, que contaminava pessoas que cometiam certos tipos específicos de transgressão. A manifestação física desta doença era através de manchas que podiam atingir as paredes da casa, as roupas e até mesmo a própria pele do transgressor. A Parashá Metzorá descreve o difícil e doloroso processo de purificação quando a Tzaráat atingia as paredes da casa. Neste processo estava incluída a retirada de todas as pedras da parede que estavam manchadas, exigindo a substituição por novas pedras, e a retirada de todos os objetos de dentro da casa, que precisavam ficar do lado de fora até o final do processo de purificação, pois tudo o que ficasse dentro da casa com Tzaráat automaticamente também ficava espiritualmente contaminado.

Porém, há uma aparente contradição sobre o motivo pelo qual D'us mandava a Tzaráat que atingia as paredes das casas. De acordo com o Talmud (Arachin 16a), a Tzaráat era uma punição pela transgressão da mesquinhez. O castigo que D'us mandava estava conectado com a transgressão cometida. Uma pessoa que é mesquinha não gosta de dividir o que é seu com os outros. Quando alguém pedia algo emprestado ao mesquinho, ele negava ter em casa o objeto pedido. Como punição, sua casa era atingida pela Tzaráat e o mesquinho tinha que colocar todos os seus objetos para fora de casa. Consequentemente, todos os que tinham pedido objetos emprestados viam que o mesquinho tinha o objeto em casa e que não havia emprestado por puro egoísmo. Portanto, de acordo com o Talmud, fica claro que a Tzaráat era a punição por uma transgressão.

Mas Rashi (França, 1040 - 1105), citando um Midrash (parte da Torá Oral), explica que a Tzaráat que atingia a casa das pessoas era algo bom. Os Emorim, que moravam na Terra de Knaan, quando viram o povo judeu se aproximando, esconderam todos os seus objetos de valor dentro das paredes de casa, na esperança de algum dia voltar para reaver seus bens. Quando os judeus conquistaram Knaan, foram morar nas casas construídas pelos Emorim, sem saber que aquelas paredes escondiam incríveis tesouros. De maneira natural seria impossível encontrar aqueles objetos de valor, pois estavam muito bem escondidos. Porém, D'us fazia com que as manchas da Tzaráat aparecessem justamente nas partes das paredes que ocultavam os tesouros. Assim, quando as pedras manchadas eram retiradas, revelavam incríveis fortunas. Isto implica que a Tzaráat nas casas não era uma punição por algum mau ato, e sim uma recompensa, uma forma de dar às pessoas grandes riquezas.

Portanto, existe uma enorme contradição entre a explicação trazida pelo Midrash e a explicação trazida pelo Talmud. Afinal, a Tzaráat que aparecia nas casas era uma recompensa ou era um castigo? Além disso, se era uma recompensa, por que vinha junto com o terrível sofrimento da Tzaráat? E se era um castigo, por que a pessoa terminava encontrando um enorme tesouro nas paredes da sua casa?

Explica o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) que a pessoa que recebia a Tzaráat na sua casa e depois encontrava o tesouro merecia as duas coisas, isto é, o castigo e a recompensa. Se a pessoa não tivesse cometido uma transgressão, D'us teria dado o dinheiro que ela merecia de outra maneira, certamente muito mais prazerosa. E se a pessoa tivesse cometido alguma transgressão e não merecesse encontrar o tesouro dos Emorim, então D'us teria feito com que as manchas aparecessem em outros lugares da parede e não nos lugares onde os tesouros estavam escondidos. Portanto, a pessoa cuja casa teve suas paredes atingidas pela Tzaráat e, ao fazer os procedimentos de purificação, encontrou os tesouros dos Emorim, deveria olhar para ambos os aspectos da Providência Divina. Por um lado deveria se alegrar por D'us ter concedido a ela a bondade de encontrar os tesouros. Porém, ao mesmo tempo, deveria fazer Teshuvá (se arrepender e consertar seu erro), não permitindo que as "boas notícias" o distraíssem de escutar a "bronca" de D'us.

Desta explicação aprendemos algo incrível. A Providência Divina é tão espetacular que D'us pode, em Sua Sabedoria Infinita, recompensar e castigar uma pessoa ao mesmo tempo. De acordo com a Torá, os castigos não são simplesmente formas de D'us nos causar dor sem nenhuma justificativa. Ao contrário, as punições de D'us são formas Dele se comunicar conosco, nos permitindo mudar e melhorar em certas áreas. Portanto, devemos estar sempre atentos às mensagens de D'us. Mesmo quando ocorrem coisas boas em nossas vidas, é sempre importante observar se estas coisas boas também carregam certos aspectos negativos. Muitas vezes há mensagens de consertos necessários que estão ocultas dentro das recompensas, como no caso dos tesouros encontrados nas paredes das casas com Tzaráat.

De acordo com o Rav Yehonasan Gefen, há ainda outro ensinamento importante que aprendemos do fato da recompensa da Tzaráat nas paredes de casa estar conectada com o castigo. De acordo com o Talmud, a pessoa teve Tzaráat por ter sido excessivamente mesquinha e por ter recorrido a táticas desonestas para proteger seus bens. Seu erro está baseado em olhar para suas posses e bens de uma maneira exclusivamente material, esquecendo que há um lado espiritual por trás de tudo o que ocorre. A pessoa seguiu apenas as "leis da natureza" que dizem, por exemplo, que dar Tzedaká (caridade) e emprestar objetos aos outros causa uma diminuição das nossas posses. A pessoa acredita que, sendo mesquinha e egoísta, ela pode proteger suas riquezas. Por isto o castigo vem "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), com o transgressor passando por uma substancial perda financeira através dos danos nas paredes da sua casa. Além disso, o transgressor passa pela vergonha de ser exposto como uma pessoa desonesta e egoísta, que evita emprestar seus bens com mentiras.

Talvez a própria recompensa de encontrar o tesouro era um "tapa na cara" que o transgressor recebia de D'us, para ajudá-lo a enxergar a fonte do seu erro. A pessoa que foi mesquinha acreditou que precisava recorrer a métodos desonestos para manter seu dinheiro, mas D'us o ensinava que Ele, em Sua infinita bondade, pode dar riquezas de diversas maneiras, como ensinam os nossos sábios: "Muitos são os 'mensageiros' que podem cumprir a vontade de D'us". É por isso que a pessoa encontrava uma fortuna de maneira completamente improvável, até mesmo irônica: dentro das paredes da sua própria casa. Além de beneficiar a pessoa, este tesouro trazia consigo a importante mensagem de que não devemos gastar energias de forma excessiva para adquirir riquezas, pois é D'us Quem nos provê tudo o que necessitamos.

A Tzaráat nos ensina que se esforçar demasiadamente para adquirir bens materiais é vão e inútil. Isto se aplica ainda mais nos casos de pessoas que juntam riquezas de maneira desonesta ou através de mesquinharia. Devemos ser sempre retos e honestos, utilizando nosso dinheiro e nossos bens para fazer bondades com os outros. E com Emuná (fé) completa de que D'us sempre vai nos mandar o que necessitamos, principalmente se estivermos utilizando o que temos em prol dos outros.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm

http://ravefraim.blogspot.com.br/

TazríaLv l2:1-13:59, 2 Rs. 4:42·5:19
Metsorá Lv14:1-15:33, 2 Rs. 7:3-20

sexta-feira, 21 de abril de 2017

QUEM É O TOLO? - PARASHÁ SHEMINI 5777

"Conta-se que há muito tempo, em uma pequena cidade do interior, um grupo de jovens se divertia diariamente com um tolo que vivia na região. Era um pobre coitado, que aparentava pouca inteligência e vivia de pequenos trabalhos e de esmolas nas ruas. Todos os dias os jovens da cidade chamavam o tolo ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas: uma grande, de quatrocentos réis, e outra menor, de dois mil réis. O tolo sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos. Certo dia, um dos jovens do grupo de zombadores chamou o tolo e disse:

- Desculpe perguntar, mas depois de tanto tempo você ainda não percebeu que a moeda maior vale menos?
 
- É claro que eu percebi - respondeu o homem, demonstrando não ser tão tolo assim quanto parecia - eu sei que ela vale cinco vezes menos do que a moeda pequena.

- Se você sabe, então por que toda vez você pega a moeda menos valiosa?

- Pois eu sei que, no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda..."

Qual é a conclusão desta história? Que os zombadores, que achavam que estavam se divertindo e enganando, eram os verdadeiros tolos que estavam sendo enganados. Assim também acontece em nossas vidas. Não nos preocupamos com as pequenas transgressões que cometemos no dia-a-dia. Porém, de pequenos em pequenos erros, vamos deixando o nosso Yetser Hará (má-inclinação) nos controlar.

Nesta semana lemos a Parashá Shemini (literalmente "Oitavo"). Por que este nome? Pois a Parashá começa descrevendo o processo de inauguração do Mishkan (Templo Móvel). Por sete dias Moshé montou sozinho o Mishkan, fez os serviços diários e o desmontou. No oitavo dia Moshé montou definitivamente o Mishkan e os Cohanim (sacerdotes) assumiram os serviços diários, como a oferenda dos Korbanót (sacrifícios) e do incenso.

Em relação ao momento em que o serviço do Mishkan foi oficialmente passado aos Cohanim, há um versículo interessante que nos chama a atenção: "E disse Moshé para Aharon: Aproxime-se do Mizbeach e faça a sua oferenda de pecado e a sua oferenda de elevação" (Vayikrá 9:7). Mas por que Moshé precisou pedir para que Aharon se aproximasse do Mizbeach? Não era óbvio que para fazer os Korbanót ele deveria se aproximar do Mizbeach?

Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que Aharon, ao entrar no Mishkan, viu que o Mizbeach tinha o formato de um touro e por isso teve medo de se aproximar. Moshé, vendo o receio de Aharon de se aproximar do Mizbeach, o tranquilizou. Somente então Aharon se aproximou do Mizbeach. É por isso que a Torá precisou ressaltar que Moshé pediu para que Aharon se aproximasse do Mizbeach.

Porém, este Midrash é difícil de ser entendido. O que significa que Aharon viu que o altar tinha o formato de um touro? Além disso, por que isto teria deixado Aharon com medo de se aproximar? E, finalmente, como Moshé fez para convencer Aharon a se aproximar do Mizbeach?

De acordo com o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), pelo fato de Aharon ser uma pessoa tão sagrada e elevada, não havia em sua alma nenhuma marca de transgressão, com exceção de sua participação na construção do bezerro de ouro. Este erro estava muito fixo em seus pensamentos o tempo inteiro, a ponto de Aharon enxergar o Mizbeach como se ele tivesse o formato de um touro, tamanha era sua preocupação que a sua participação na construção do bezerro de ouro pudesse impedir sua expiação espiritual. Foi então que Moshé o consolou e disse: "Acalme-se e não fique tão triste, pois D'us já te perdoou e já aceitou seus atos novamente". Somente então Aharon concordou em se aproximar do Mizbeach.

Porém, esta explicação do Ramban também é difícil de ser entendida. A participação de Aharon na construção do bezerro de ouro foi algo quase irrelevante. Quando o povo errou as contas e achou que Moshé havia morrido no Monte Sinai, os judeus exigiram que Aharon construísse para eles um bezerro de ouro. Hur, o sobrinho de Aharon, tentou se levantar contra o povo para impedi-los, mas foi assassinado. Aharon percebeu que não adiantava usar a força, pois o povo estava obstinado. Era necessário utilizar a astúcia para tentar impedir o povo de fazer o bezerro de ouro. Por diversas vezes ele tentou ganhar tempo, na esperança que Moshé chegaria a qualquer instante, mas mesmo assim o bezerro acabou sendo construído. Por isso, apesar das boas intenções, a Torá considera que Aharon teve certa responsabilidade na construção do bezerro de ouro. Mas foi certamente uma participação secundária, com a intenção de fazer o bem, e não um erro intencional.

Além disso, quando Moshé bateu na pedra para dar água ao povo, ao invés de falar com a pedra, Aharon também foi duramente castigado e nenhum dos dois entrou na Terra de Israel. Os comentaristas da Torá se esforçam muito para descobrir exatamente qual foi a "fagulha" de erro cometido por Aharon neste episódio da pedra. Se no caso do bezerro de ouro Aharon não recebeu um castigo tão duro, isto significa que certamente o erro foi algo ainda menor do que o erro cometido no episódio da pedra. Então por que Aharon teve medo de se aproximar do Mizbeach por causa de sua participação na construção do bezerro de ouro se foi algo tão insignificante? E mesmo se ele realmente tivesse feito algum "estrago" espiritual com seu erro, D'us já tinha demonstrado que o havia perdoado ao escolhê-lo como Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). Então por que tanta preocupação?

Responde o Rav Leib Chassman zt"l (Lituânia,1869 - Israel, 1935) que desta atitude de Aharon podemos aprender algo muito importante para nossas vidas. Mesmo que foi um erro muito pequeno, este erro doeu tanto em Aharon e causou nele uma impressão tão forte que ele chegou ao ponto de ver o Mizbeach com a forma de um touro e não quis nem se aproximar dele. Este era o nível no qual Aharon aprofundava seus pensamentos de arrependimento e amargura pelo erro cometido, cumprindo as palavras de David Hamelech: "Minhas transgressões estão sempre diante de mim" (Tehilim 51:5).

Se isto se aplica a alguém tão sagrado quanto Aharon, que fez um erro tão pequeno e ainda rodeado de boas intenções, o quanto deve ser grande a preocupação de quem cometeu uma transgressão intencional? Quanto devemos nos envergonhar por termos ido contra a vontade de D'us? Infelizmente vemos pessoas que caminham na direção oposta de Aharon, pessoas que chegam ao nível de "um homem que bebe como água suas transgressões" (Yov 15:16). Por que a comparação do transgressor com aquele que bebe água? Pois da mesma forma que a pessoa bebe água com facilidade, sem grandes esforços, assim também é aquele que faz transgressões sem sentir nenhuma amargura ou arrependimento.

O que faz uma pessoa chegar neste nível espiritual tão baixo? De acordo com o Rav Leib Chassman, quanto mais a pessoa reflete sobre os seus atos e sobre a grandeza de D'us, mais ela vai ser cuidadosa com cada pequeno ato. Porém, a pessoa que não fica atenta aos seus atos e aos caminhos que está seguindo em sua vida acaba vivendo apenas de acordo com as vontades do seu coração. Seus pequenos maus atos cotidianos vão bloqueando seu coração de perceber a grandeza de D'us e, automaticamente, de perceber a gravidade dos estragos causados por cada transgressão que comete. Como na história do tolo, o nosso Yetser Hará vai nos fazendo tropeçar em pequenas transgressões, que vão se acumulando. Aquele que não reflete, quando percebe já está atolado de transgressões até o pescoço. Apesar de achar que está enganando seu Yetser Hará ao evitar as grandes transgressões, na verdade é ele quem está sendo feito de tolo.

Nossos sábios comparam nossa vida com uma corda que está esticada desde o dia do nosso nascimento até o nosso último dia de vida, e sobre ela nós precisamos caminhar, como um equilibrista que caminha sobre a corda bamba esticada sobre um abismo. Quando prestamos atenção em um equilibrista que caminha sobre a corda bamba, percebemos sua incrível concentração a cada passo dado. Por que ele se concentra tanto? Pois ele sabe que apenas um único passo errado pode custar sua vida. Ele precisa de foco e de todo o cuidado. Assim era o sentimento de Aharon, completamente concentrado e focado em cada pequeno passo. Por isso ele sentiu tanto o peso de sua participação na construção do bezerro de ouro. Como ele refletia e se sentia em uma corda bamba sobre um abismo, mesmo seu pequeno erro pareceu aos seus olhos algo gigantesco.

Aquele que reflete sempre e acerta a cada instante seu passo conseguirá terminar sua travessia com segurança e alcançará uma incrível recompensa pela travessia de sucesso. Mas aquele que deixa a vida levá-lo corre o enorme risco de cometer, mais cedo ou mais tarde, um tropeço fatal.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 9:1-11:47, 2 Sm. 6:1-7:17

sexta-feira, 14 de abril de 2017

TROPEÇANDO NO PRÓPRIO ORGULHO - PESSACH II 5777

TROPEÇANDO NO PRÓPRIO ORGULHO - PESSACH II 5777 (14 de abril de 2017)
"David foi ao barbeiro para cortar o cabelo, como sempre fazia todo mês. Ele começou a conversar com o barbeiro sobre vários assuntos. A conversa então tomou um rumo mais espiritual e eles começaram a falar sobre D'us. Enquanto David era uma pessoa de imensa Emuná (fé) em D'us, o barbeiro era um ateu convicto. O barbeiro disse:

- Eu não preciso deste seu D'us para nada. Através do meu esforço eu consigo garantir meu sustento e manter minha família e minha saúde. Além disso, eu não acredito que seu D'us realmente exista. Você só precisa sair na rua para ver que D'us não existe. Se D'us existisse, você acha que haveria tantas pessoas doentes? Haveria crianças abandonadas? Haveria dor e sofrimento? Eu não consigo imaginar um D'us que permite todas essas coisas.

David não quis dar imediatamente uma resposta, para evitar uma discussão mais acalorada. Quando o barbeiro terminou o corte e David se preparava para sair, passou na rua um homem com barba e cabelos longos. Ele tinha uma aparência péssima, parecia que não cortava o cabelo ou fazia a barba há um bom tempo. Então David disse ao barbeiro:

- Sabe de uma coisa, acho que são os barbeiros que não existem.

- Como assim os barbeiros não existem? - perguntou o barbeiro - Eu estou aqui e sou um barbeiro!!!

- Não! - afirmou David - Os barbeiros não existem, porque se existissem, não haveria pessoas com barba e cabelos tão longos como aquele homem que está andando ali na rua. Veja, que homem de aparência horrível! Se os barbeiros existissem, eles permitiriam uma pessoa andar pela rua desta maneira?

- Que argumento mais tolo - disse o barbeiro para David - é óbvio que barbeiros existem, mas há pessoas não procuram os barbeiros. Isto é uma opção delas. Se a pessoa quer ficar com a aparência desleixada como este jovem que passou na rua, isto é uma escolha dela, não tem nada a ver com a existência dos barbeiros.

- Que seus ouvidos escutem o que diz a sua boca! - respondeu David - Suas palavras são a resposta ao seu questionamento. D'us existe, mas há muitas pessoas não O procuram, por opção delas. Pessoas como você, que acham que tem tudo na vida por seu próprio esforço e mérito. E é justamente por isso que há tanta dor e sofrimento no mundo.

Neste Shabat continuamos revivendo a Festa de Pessach, na qual comemoramos a liberdade do povo judeu da terrível escravidão egípcia. E no domingo de noite (16 de Abril) novamente é Yom Tov, um dia com mais santidade, no qual nos abstemos de trabalhos construtivos. O primeiro dia de Pessach é um dia de santidade especial, pois foi neste dia que saímos do Egito, mas por que o sétimo dia também é um dia de mais santidade? Pois neste dia D'us fez o incrível milagre da abertura do Mar Vermelho. Por diversas vezes D'us ordenou ao Faraó que deixasse o povo judeu sair. Porém, em sua obstinação e orgulho, ele não escutava os avisos e ameaças. As pragas destruíram a infraestrutura do Egito, mas mesmo assim o Faraó se recusava a se curvar diante da demonstração de força de D'us. Depois que os judeus saíram do Egito, o Faraó ainda reuniu seu exército para persegui-los. O orgulho do Faraó só acabou quando D'us abriu o mar, para que os judeus passassem em terra firme, e fechou-o sobre os egípcios, afogando-os e terminando para sempre a escravidão.

Porém, observando o processo de salvação do povo judeu, há algo que nos chama muito a atenção. Em todos os acontecimentos, há um foco muito maior no Faraó do que no próprio povo judeu. Por exemplo, nas dez pragas, a Torá sempre descreve a reação do Faraó, mas raramente menciona o que estava acontecendo com o povo judeu. Por que a Torá colocou os "holofotes" sobre as reações do Faraó, ao invés de ressaltar as reações do povo judeu? Afinal, quem é o protagonista principal da saída do Egito, o Faraó ou o povo judeu?

Explica o Rav Shlomo Wolbe zt"l (Alemanha, 1914 - Israel, 2005) que a resposta está no entendimento da diferença entre as primeiras gerações da humanidade e as gerações mais recentes. Nas primeiras gerações, como a geração do dilúvio, a geração da Torre de Babel e a geração de Sdom (Sodoma), havia muitas pessoas com consciência plena da existência de D'us. Apesar disso, estas gerações intencionalmente se rebelaram contra Ele. Já nas gerações mais recentes, apesar do ateísmo ainda estar presente, não vemos movimentos organizados de rebelião contra D'us. Por que as primeiras gerações, que compreendiam a Onipotência de D'us, se rebelaram contra Ele, enquanto as gerações mais recentes não?

Além disso, o nível de rebeldia das primeiras gerações é assustador. Rashi (França, 1040 - 1105), ao comentar sobre o dilúvio (Bereshit 6:6), afirma que, apesar de D'us ter planejado a destruição de toda a humanidade através de um dilúvio, Ele se "consolou" pelo fato de ter criado o ser humano na terra e não nos céus, pois se o homem tivesse sido criado nos céus, ele teria convencido até mesmo os anjos a se rebelarem contra D'us. Rashi está nos ensinando até onde chegava o orgulho e a arrogância da geração do dilúvio. Mesmo sabendo da Onipotência de D'us, as pessoas daquela geração desejavam ser independentes a qualquer custo. Mesmo se o homem morasse nos céus, ainda assim ele não se subjugaria a D'us, apesar da certeza de que é Ele que controla os céus e a terra.
 
Algo semelhante podemos enxergar também na história do povo judeu. Quarenta dias depois de D'us ter se revelado ao povo inteiro e ter transmitido pessoalmente os 10 Mandamentos, os judeus fizeram o bezerro de ouro. Como pode ser que o povo judeu, após a maior revelação de D'us na história da humanidade, após ter visto D'us "face a face", construiu um bezerro de idolatria? Se era para seguir uma divindade, qual era a diferença entre servir a D'us ou ao bezerro de ouro?

Responde o Rav Wolbe que é mais fácil para o ser humano servir algo que foi criado com as suas próprias mãos do que servir a D'us. As gerações passadas sabiam que foi D'us quem nos criou e que é Ele quem dita as regras. É por isso que era mais fácil servir o bezerro de ouro, que não tem nenhuma força real e não exige nada de nós, do que servir a um D'us Onipotente e que definiu regras para o mundo. Quando D'us quis destruir o povo judeu após a construção do bezerro de ouro, Ele explicou a Moshé o motivo: "Eu vi esta nação, e eis que eles são uma nação de pessoas obstinadas" (Shemot 32:9). D'us quis deixar claro que a raiz da transgressão do bezerro de ouro não era a vontade de fazer idolatria, e sim a obstinação, uma consequência do orgulho e da arrogância do ser humano.

Agora podemos entender a diferença entre as primeiras gerações, que reconheciam a existência de D'us e mesmo assim se rebelavam contra Ele, e as gerações mais recentes. As primeiras gerações reconheciam a grandeza de D'us e Sua Onipotência e, justamente por isso, tinham dificuldade de se subjugar a uma Força que eles sabiam ser muito maior do que sua própria força. Já as gerações mais recentes estão tão afastadas da espiritualidade que nem reconhecem mais a verdadeira grandeza de D'us. Portanto, as gerações mais recentes não sentem a necessidade de se rebelar, pois não se sentem ameaçadas pela Onipotência de D'us.

Este também é o motivo pelo qual a Torá colocou os holofotes sobre o Faraó e não sobre os judeus quando descreveu o processo de libertação da escravidão. Os longos e terríveis anos de escravidão quebraram os judeus, fisicamente e espiritualmente. O único apoio dos judeus para continuarem vivos no inferno egípcio era a esperada redenção, prometida desde os dias de Avraham. Quando finalmente D'us se revelou, o povo judeu aceitou sobre si prontamente e de bom grado o jugo de D'us. Portanto, durante as pragas, a Torá não precisou focar no povo judeu, pois eles não se rebelaram contra a força de D'us. Eles não tinham nenhum tipo de orgulho que bloqueasse a conexão com o Criador. Já o Faraó, ao contrário, era muito orgulhoso e preferia afirmar: "Não conheço D'us" (Shemot 5:2). Ele se vangloriava que o Nilo, uma das maiores divindades egípcias, foi criado por ele, como está escrito: "Eis que o Nilo é meu. Eu o fiz, para o meu uso e proveito" (Yechezkel 29:3). Por isso a Torá coloca o foco sobre o Faraó, para nos ensinar que as pragas foram direcionadas de forma a sistematicamente subjugá-lo, quebrando sua arrogância e mostrando a ele a grandeza de D'us.

Portanto, uma das principais lições que a Torá quis nos ensinar foi a terrível consequência da falta de humildade. Não importa quão grande uma pessoa pensa que é, a realidade é que ela é apenas uma criação e, por isso, deve ser submissa e humilde perante seu Criador. Podemos aprender isto por bem ou, como o Faraó, por mal, através de sofrimentos que são enviados para quebrar a arrogância daqueles que se afastaram de D'us por causa de sua própria honra. Os ateus são, acima de tudo, pessoas arrogantes, pois mesmo diante das provas mais contundentes, ainda assim preferem continuar negando a força de D'us. Um exemplo impressionante é Francis Crick, o vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1953 pela descoberta da estrutura do DNA. Alguém que entendeu neste nível a complexidade e a perfeição do corpo humano deveria automaticamente entender que existe um "Desenhista" que projetou o mundo. Alguém que entende profundamente de microbiologia sabe que não existe acaso. Porém, Francis Crick preferiu explicar a criação do mundo através da "Panspermia Dirigida", uma teoria na qual credita-se a seres de outros planetas o início da vida na Terra, quando foram "plantadas" no mundo sementes de vida geneticamente programadas para evoluir até chegar ao ser humano. Para Francis Crick, vencedor do Prêmio Nobel, é mais fácil aceitar que fomos criados por seres de outro planeta, limitados e que não exigem nada de nós, do que por um Criador Onipotente, que tem exigências de conduta moral. O problema não é a falta de inteligência, e sim a falta de vontade de enxergar. O pior cego é aquele que não quer ver.

Mas isto não acontece somente com os ateus. Até mesmo aqueles mais conectados com as Mitzvót sentem as consequências de não trabalhar o traço de caráter da humildade. Pessoas podem estudar Torá por horas completamente concentradas, mas quando chega o momento da Tefilá (reza) sentem uma enorme dificuldade de concentração, pois são bombardeadas com incontáveis pensamentos aleatórios. Por que isto acontece? Quando fazemos Tefilá, estamos reconhecendo que existe uma Força Superior que controla tudo. Na Tefilá pedimos, entre outras coisas, sustento, saúde e conhecimento, demonstrando que tudo o que temos na vida vem de D'us. Mas o ser humano tem a tendência de "fugir" deste reconhecimento e, por isso, mesmo de forma subconsciente, permitimos que sentimentos de rebeldia surjam em nossas cabeças durante a Tefilá. Isto é uma consequência do nosso orgulho, de esquecermos que tudo vem de D'us.

A humildade verdadeira é saber que é D'us que dá tudo o que precisamos. É ele que nos dá a força para trabalharmos e a inteligência para entendermos. Aqueles que acham, como o Faraó, que não precisam de D'us, são justamente aqueles que descobrem, da pior maneira possível, que não somos nada sem Ele.

Shabat Shalom e Pessach Kasher VeSameach

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Ex 33:12-34:26; Nm 28:19-25, Ez 36:37-37:14