sábado, 27 de agosto de 2016

PEQUENOS GRANDES ATOS DE AMOR - PARASHÁ EKEV 5776

Um garoto pobre, com cerca de doze anos de idade, vestido de forma muito humilde, entrou na perfumaria, escolheu um sabonete comum e pediu a Rafael, o proprietário, que embrulhasse para presente. Com orgulho, explicou que era um presente para sua mãe. Rafael ficou comovido diante da simplicidade daquele presente. Olhou com dó para o garoto e teve vontade de ajudá-lo. Pensou em embrulhar, junto com o sabonete comum, algum artigo mais significativo, mas ficou na dúvida. O garoto, notando a indecisão do homem, pensou que ele estava duvidando da sua capacidade de pagar. Colocou a mão no bolso, retirou as moedinhas que tinha juntado com dificuldade e colocou-as sobre o balcão. Rafael ficou ainda mais comovido quando viu as moedas, de valor tão insignificante. Concluiu que se o garoto pudesse, certamente compraria algo bem melhor para a mãe. Lembrou-se de sua própria mãe. Ele também tinha sido muito pobre em sua infância, e muitas vezes quis presentear sua mãe, mas nunca teve condições. Quando finalmente conseguiu seu primeiro emprego, ela já havia partido deste mundo. Impaciente com a demora, o garoto perguntou:

- Moço, falta alguma coisa?

- Não - respondeu Rafael - É que, de repente, eu me lembrei da minha mãe. Ela morreu quando eu ainda era muito jovem. Sempre quis dar um presente para ela, mas nunca consegui comprar nada.

Com a espontaneidade natural das crianças, o garoto perguntou:

- Nem um sabonete?

Rafael ficou em silêncio. Pensou um pouco e desistiu da ideia de melhorar o presente do garoto. Embrulhou o sabonete com o melhor papel que tinha na loja, colocou uma fita e entregou para o garoto sem dizer mais nada. Quando ficou sozinho, as lágrimas começaram a sair. Como é que nunca havia pensado em dar algo pequeno e simples para sua mãe? Sempre havia entendido que presente deveria ser alguma coisa significativa, tanto que, minutos antes, havia sentido dó da simples compra do garoto e chegou a pensar em melhorar o seu presente. Comovido, Rafael aprendeu naquele dia uma grande lição. Junto com o sabonete do menino vinha algo muito mais importante e grandioso, o melhor de todos os presentes: o gesto de amor. 
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A Parashá desta semana, Ekev (literalmente "Se"), começa com uma introdução que condiciona o recebimento de recompensas ao cumprimento das Mitzvót da Torá, como está escrito: "E será, se vocês escutarem estes mandamentos, e os observarem, e os cumprirem, então D'us cuidará de vocês... Ele os amará, e os abençoará, e os multiplicará" (Devarim 7:12,13). O entendimento simples destas palavras é que, se demonstrarmos o nosso amor por D'us, escutando Suas ordens e cumprindo Suas Mitzvót, então Ele se comportará conosco na mesma medida e nos amará.

Porém, algo nos chama a atenção nas palavras de Rashi (França, 1040 - 1105), um dos maiores comentaristas da Torá, conhecido por trazer normalmente a explicação mais simples e direta dos versículos. Porém, neste versículo, percebemos que ele "fugiu" da explicação mais simples, que seria dizer que a Torá condiciona a recompensa recebida ao cumprimento de todas as Mitzvót da Torá. Ao invés disso, Rashi cita um Midrash (parte da Torá Oral) que explica que a palavra "Ekev", que significa a condição "se", também significa "calcanhar". Ele diz que o versículo não se refere a todas as Mitzvót, e sim especificamente às Mitzvót que nós "pisamos sobre elas com o nosso calcanhar", isto é, Mitzvót que desprezamos por considerarmos como sendo menos importantes. De acordo com esta explicação, a Torá está nos advertindo a não desprezarmos estas Mitzvót que consideramos menos importantes.

Esta explicação de Rashi desperta um questionamento. A explicação mais simples do versículo é muito mais abrangente e incluiu todas as Mitzvót da Torá. Então por que Rashi abandonou a explicação mais simples e abrangente, e escolheu trazer uma explicação que se aplica somente a um grupo reduzido de Mitzvót? Por que o amor de D'us estaria condicionado apenas às Mitzvót que têm menos importância aos nossos olhos?

Uma pergunta semelhante surge em relação a outro ensinamento dos nossos sábios: "Seja tão meticulosos no cumprimento das Mitzvót menos importantes como no cumprimento das Mitzvót mais importantes, pois você não sabe como as Mitzvót serão recompensadas" (Pirkei Avót 2:1). Porém, o que esta Mishná (parte da Torá Oral) está nos ensinando? Se a própria Mishná reconhece que existem Mitzvót mais importantes e outras menos importantes, por que a conclusão é que talvez D'us não nos recompensará de maneira proporcional ao valor das Mitzvót? Se há Mitzvót mais importantes, não seria mais lógico dar ênfase ao cumprimento delas?

Explica o Rav Yohanan Zweig que quanto mais forte é o relacionamento entre duas pessoas, é mais comum elas sentirem liberdade de pedir coisas relativamente simples e triviais uma à outra. Entretanto, se o relacionamento não é tão forte, as duas partes tendem a limitar os pedidos a assuntos de maior importância. Por exemplo, uma pessoa não pensaria duas vezes em acordar algum conhecido às duas da manhã para pedir um auxílio médico urgente, mas a mesma pessoa acharia inconcebível a ideia de acordar um conhecido às duas da manhã para pedir a ele um pote de sorvete. No outro extremo, uma esposa não veria nenhum problema em pedir para que seu marido compre para ela um pote de sorvete às duas da manhã, em especial se ela estiver grávida. Isto quer dizer que sentir liberdade de fazer pedidos simples é uma demonstração de amor e conexão.

Esta ideia se aplica também espiritualmente. Nós somos naturalmente mais cuidadosos com as Mitzvót que consideramos como sendo mais importantes e fundamentais, enquanto naturalmente cumprimos com menos entusiasmo e cuidado as Mitzvót que não consideramos como princípios fundamentais. Entretanto, isto é um grande erro, pois quanto mais forte é um relacionamento, mais apta está a pessoa a concordar com pedidos aparentemente triviais e simples. Portanto, é justamente através das Mitzvót mais simples e básicas que nós demonstramos o nosso compromisso e expressamos o nosso amor por D'us. É por isso que o cumprimento das Mitzvót "leves", que parecem ser menos sérias, é justamente o que mede o nosso relacionamento com D'us.

Com este conceito podemos entender o que a Mishná de Pirkei Avót está nos ensinando. Há duas maneiras através das quais D'us pode definir a recompensa de uma Mitzvá: através da sua importância ou através do comprometimento e amor refletido no cumprimento desta Mitzvá. Como não nos foi revelado qual das duas medidas D'us usará na definição da nossa recompensa, então é importante sermos igualmente cuidadosos com ambos os tipos de Mitzvót, pois um tipo tem uma maior recompensa por sua importância, enquanto outro tipo tem uma maior recompensa pela sua demonstração de amor e comprometimento.

Assim também é possível entender o motivo pelo qual Rashi abandonou a explicação convencional, mais abrangente, e optou por trazer uma explicação baseada no Midrash, mais limitada. O versículo descreve explicitamente o cumprimento de certas Mitzvót cuja recompensa será o amor de D'us. Como D'us se comporta conosco "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), então certamente trata-se de Mitzvót que demonstram um nível maior do nosso amor por D'us. É por isso que Rashi entende que as Mitzvót às quais o versículo se refere são aquelas que consideramos menos importantes, pois são justamente elas que, quando cumpridas com cuidado, entusiasmo e alegria, verdadeiramente demonstram o nosso enorme amor por D'us.

Precisamos colocar no coração este ensinamento para conseguirmos cumprir com alegria e entusiasmo mesmo as Mitzvót mais simples do cotidiano. É fácil se sentir inspirado na Tefilá de Yom Kipur, mas o que demonstra de verdade o nosso amor por D'us é tentar se inspirar nas Tefilót do dia-a-dia, mesmo com toda a correria e obstáculos que surgem quando tentamos rezar com concentração. É fácil sentir a santidade da mesa de Shabat, mas o que ressalta o nosso amor pelas Mitzvót é sentir também a santidade da mesa durante a semana. É mais fácil sentir temor no cumprimento das Mitzvót da Torá, mas é uma demonstração muito maior de conexão espiritual e temor a D'us quando também conseguimos cumprir, com o devido respeito, as Mitzvót que foram decretadas pelos nossos sábios. Assim, os pequenos atos do cotidiano se transformam, através do entusiasmo e da alegria, em atos gigantescos.

Este conceito também se aplica ao nosso relacionamento com as outras pessoas. Muitas vezes queremos demonstrar o quanto gostamos ou nos importamos com alguém, e esperamos algum momento especial e grandioso para demonstrar o que sentimos. Mas isto é um grande erro, pois são justamente os pequenos atos do cotidiano que demonstram o quanto nos importamos com as pessoas. Quando damos um presente a alguém, muitas vezes o que mais toca a pessoa não é o conteúdo do embrulho, e sim as palavras que estão escritas no cartão. O nome "presente" já indica que o principal objetivo de darmos uma lembrança a alguém é demonstrar o quanto queremos estar presentes na sua vida. Por isso, a melhor maneira de demonstrar o nosso amor não são com grandes presentes, e sim com pequenas atitudes diárias de carinho, respeito e atenção.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 7:12-11:25, Is. 49:14-51:3

sábado, 20 de agosto de 2016

APRENDENDO A SER MISERICORDIOSO - PARASHÁ VAETCHANAN 5776

Dois judeus da Lituânia brigaram e um deles, completamente fora de si, começou a difamar o outro. Porém, como ele não era uma má pessoa, quando Rosh Hashaná e Yom Kipur começaram a se aproximar ele ficou extremamente incomodado e arrependido pelo seu mau ato. Juntando todas as suas forças para passar por cima do seu ego e da vergonha, ele dirigiu-se ao seu companheiro e pediu perdão com sinceridade. Porém, para sua surpresa, a vítima se recusou a perdoá-lo, citando uma Halachá (Lei judaica) de que não havia obrigação de perdoar uma difamação. O transgressor ficou desesperado, não sabia mais o que fazer. O Rav Yitzchak de Volozhin (Lituânia, 1780 - 1849), que havia presenciado a conversa, chamou a vítima de canto e disse:

- Sabe, você realmente tem razão, a Halachá não nos obriga a perdoar alguém que nos difamou. Mas não se esqueça que Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, está chegando. Neste dia, todos os nossos atos passam diante de D'us e são detalhadamente analisados. Quando somos misericordiosos com os outros e nos comportamos "Lifnim Mishurat HaDin" (além do que é exigido pela lei judaica), D'us se comporta "Midá Kenegued Midá" (medida por medida) e nos julga com Misericórdia, não sendo tão rigoroso. Mas se formos rigorosos no julgamento dos outros, então D'us também será extremamente rigoroso no nosso julgamento. Você está pronto para um julgamento tão rigoroso de D'us quanto o que você está fazendo com seu companheiro, usando a justiça estrita ao invés da misericórdia?

A vítima da difamação, ao escutar as palavras do Rav Yitzchak, imediatamente aprendeu a lição e perdoou o homem que o havia caluniado. 

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A Parashá desta semana, Vaetchanan (literalmente "E implorei"), enumera novamente os dez mandamentos que o povo judeu recebeu de D'us no Monte Sinai. E o final da Parashá traz um ensinamento muito importante: "E você fará o que é certo e bom aos olhos de D'us, para que Ele faça bem para você" (Devarim 6:18). Nossos sábios explicam que este versículo é a fonte de Torá de que devemos nos comportar "Lifnim Mishurat HaDin", isto é, que devemos evitar sermos muito rigorosos e exigentes com os outros em relação à aplicação da lei, e devemos  saber perdoar em certas situações, mesmo quando temos razão.

O Talmud (Baba Metsia 30b) traz um exemplo na prática: uma pessoa encontra um objeto perdido que, por certas condições específicas, poderia ficar com ele de acordo com a Halachá. Por outro lado, a pessoa sabe quem é o verdadeiro dono do objeto. Neste caso, baseado neste versículo da Parashá, o Talmud diz que o correto seria devolver o objeto ao dono, apesar da permissão técnica de ficar com ele. Outro exemplo trazido pelo Talmud (Baba Metsia 108a) é quando um terreno é colocado à venda e, apesar de haver outras pessoas interessadas, é necessário dar a preferência de compra ao dono do terreno vizinho. E como estes, há inúmeros exemplos de situações do nosso cotidiano nas quais devemos nos comportar "Lifnim Mishurat HaDin".

De acordo com o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), apesar da Torá não escrever explicitamente em todos os casos que devemos nos comportar "Lifnim Mishurat HaDin", aprendemos deste versículo da Parashá a constantemente nos esforçar para tratar as pessoas de uma maneira compreensiva, sempre buscando evitar o uso das leis da Torá de forma muito estrita e rígida. O Talmud (Baba Metsia 30b) nos ensina que o nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado) foi destruído porque naquela geração as pessoas eram muito rigorosas umas com as outras e aplicavam sempre a lei de forma muito estrita.

Porém, é difícil entender este ensinamento do Talmud. A priori, se comportar "Lifnim Mishurat HaDin" é justamente fazer mais do que somos obrigados. Então por que a falha em se comportar desta maneira teve uma consequência tão negativa e uma punição tão rigorosa de D'us? Faz sentido dizer que o Beit Hamikdash foi destruído apenas pelo fato das pessoas terem aplicado a lei de forma estrita e rigorosa?

A pergunta fica ainda mais difícil quando o Talmud (Yoma 9b) afirma que o Primeiro Beit Hamikdash foi destruído por causa das três transgressões mais graves da Torá, que são assassinato, idolatria e imoralidade, e o Segundo Beit Hamikdash foi destruído por causa do ódio gratuito que havia dentro do povo judeu. Afinal, qual foi a verdadeira causa da destruição dos Templos, estas graves transgressões ou a aplicação rígida da lei?

Explica o Rav Yehonasan Gefen que a falha em tratar as pessoas "Lifnim Mishurat HaDin" reflete um profundo equívoco na atitude da pessoa em relação ao seu Serviço Divino. De acordo com o Ramban, o ensinamento "e você fará o que é certo e bom" seria o paralelo da Mitzvá de "Kedoshim Tihiu" (Sejam Sagrados) aplicado à área de "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante). Segundo o Ramban, o "Kedoshim Tihiu" é uma advertência para evitar que a pessoa cumpra todas as Mitzvót e ainda assim seja um "mau-caráter com permissão da Torá". Mas como isto é possível? A pessoa pode ser extremamente rigorosa em não transgredir nenhuma Mitzvá da Torá e, ao mesmo tempo, pode não ter nenhum interesse em se elevar espiritualmente nas áreas de "Reshut" (atos que não são intrinsecamente Mitzvót) como, por exemplo, o que a pessoa faz em seus momentos de lazer, quanto ela dorme ou a quantidade de comida que ela come.

A razão por trás deste tipo de comportamento é que a pessoa acredita na veracidade da Torá e, portanto, que ela deve ser cumprida com todo o cuidado. Porém, a pessoa demonstra que não entendeu a verdadeira perspectiva da Torá, pois não se interessa em se elevar espiritualmente. A consequência é que ela fica presa em metas do mundo material, com objetivos como alcançar os desejos físicos e acumular riquezas. Por reconhecer a veracidade da Torá, ela nunca cometerá de forma intencional uma transgressão, mas ao mesmo tempo é completamente desinteressada de se elevar nas áreas nas quais não é "tecnicamente" obrigada.

Um paralelo deste fenômeno pode ocorrer na área de "Bein Adam LeHaveiró". A pessoa pode reconhecer a necessidade de seguir as leis da Torá, mas não ter nenhum interesse de se conectar com o que está por trás destas leis. A consequência disso é que a pessoa sempre vai aplicar a lei de forma estrita, mesmo quando isso causa sofrimentos para outras pessoas. Por exemplo, caso encontre um objeto perdido que tecnicamente é seu, não levará em consideração o sofrimento do seu companheiro que perdeu o objeto.

É por isto que a Torá nos ensinou o versículo "E você fará o que é certo e bom". Precisamos olhar para a Torá e para as Mitzvót da maneira correta, aprender o respeito que a Torá exige de nós, em relação a D'us e em relação ao nosso semelhante. Através das Mitzvót, a Torá nos ensina a sermos mais misericordiosos e não tão rigoroso com os outros, desenvolvendo um genuíno senso de amor ao próximo. Devemos tratar cada semelhante com o mesmo respeito e compaixão que gostaríamos de ser tratados. Quando alguém encontra um objeto perdido, deve sentir a dor daquele que perdeu o objeto. Quando alguém empresta dinheiro a um pobre que não tem como pagar, deve sentir misericórdia e ser flexível.

Com este ensinamento é possível entender o que o Talmud está nos transmitindo quando afirma que o Beit Hamikdash foi destruído pelo fato das pessoas estarem sendo muito rigorosas e estritas umas com as outras. Isto demonstra que aquela geração havia esquecido o "faça o certo e bom", havia perdido a lição de que não se deve tratar outro ser humano de maneira muito dura e sem misericórdia. Este comportamento rígido não se enquadra com o que a Torá espera de nós em relação aos outros seres humanos.

Podemos entender também a contradição que existe no Talmud em relação ao motivo da destruição do Beit HaMikdash. De acordo com o Rav Yitzchak Vologzin, obviamente que a destruição do Beit HaMikdash foi consequência das terríveis transgressões descritas no Talmud, algumas tão graves que um judeu deveria estar disposto até mesmo a abdicar de sua vida para não transgredi-las. Porém, o Talmud quer nos ensinar que quando tratamos nossos companheiro com misericórdia, "Lifnim Mishurat HaDin", e não somos rigorosos demais em cobrar nossos semelhantes, Hashem também se comporta da mesma maneira, Midá Kenegued Midá, e nos perdoa mesmo das transgressões mais graves. Entretanto, quando D'us viu as pessoas se comportando uns com os outros de uma maneira muito estrita e rigorosa, não se perdoando, então Ele também foi extremamente rígido no julgamento do povo, o que resultou na destruição do nosso Beit Hamikdash.

Quando se trata de aplicar a lei em relação às outras pessoas, devemos ser lenientes e compreensivos. Se queremos ser rigorosos, que sejamos em relação a nós mesmos, para que possamos cumprir cada Mitzvá de maneira detalhada e correta. Cobrando cada vez mais de nós mesmos e cada vez menos dos outros, certamente estaremos dando a nossa maior contribuição para a reconstrução do nosso Beit Hamikdash.


SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Dt. 3:23·7:11, Is. 40:1-26

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O QUE ESTÁ FALTANDO? - PARASHÁ DEVARIM E TISHÁ BE AV 5776

"Em uma época na qual os judeus eram proibidos de exercer trabalhos tradicionais, Moishe, um ator judeu desempregado, estava desesperado à procura de um trabalho. Foi quando ele viu, no cantinho do jornal, um pequeno e muito discreto anúncio. Um macaco, a principal atração do zoológico local, tinha morrido, e o zoológico estava procurando um ator para substituí-lo. Eles não queriam substituí-lo por outro macaco, pois as pessoas pagavam para ver suas palhaçadas originais, o que nenhum outro macaco faria. O zoológico não havia nem anunciado publicamente que o macaco tinha morrido por medo de perder visitantes.

Moishe fez o teste, foi contratado e fez um trabalho fantástico como macaco. Nenhum dos visitantes suspeitou que se tratava de um homem fantasiado. Moishe estava tão à vontade em seu papel que, com o passar do tempo, começou realmente a achar que era um macaco. Porém, certo dia, durante uma apresentação, Moishe se balançou forte demais em uma corda e saiu voando por cima da jaula, em direção à jaula do leão. Ele caiu a meio metro de distância de um leão com dentes muito afiados. Paralisado de medo, o susto fez com que Moishe "acordasse" e lembrasse que ele não era um macaco. Mas a única coisa que conseguiu fazer foi gritar "Shema Israel". O leão olhou para ele e respondeu "Hashem Elokeinu, Hashem Echad". Moishe reconheceu aquela voz. Curioso, ele perguntou:

- Shimi, é você?
- Sim, sou eu. É você, Moishe?
Antes que Moishe pudesse responder, a zebra na jaula ao lado sussurrou:
- Ei, pessoal, falem baixo ou todos nós perderemos nossos empregos..."

Vivemos em uma época de tanta confusão espiritual que não sabemos nem mesmo quem somos de verdade e qual é o nosso papel no mundo. Infelizmente perdemos nossa identidade e nos assimilamos. Então algumas vezes D'us precisa nos chacoalhar, para nos despertar do nosso sono espiritual. 
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, que consiste basicamente do discurso de despedida de Moshé antes da entrada do povo judeu em Israel. Este discurso é fortemente marcado por duras críticas de Moshé, que fez questão de relembrar muitos dos graves erros que o povo cometeu durante os 40 anos em que permaneceu no deserto. A intenção da bronca de Moshé era fazer o povo refletir sobre os erros passados e aprender com eles, evitando repeti-los no futuro. E este é um dos motivos que a Parashá Devarim sempre coincide com uma das datas mais tristes do judaísmo, Tishá Be Av, que neste ano começa logo após o término do Shabat. Tishá Be Av é um dia de jejum e luto, no qual recordamos, entre outras grandes tragédias, a destruição dos nossos dois Templos Sagrados. Como as broncas de Moshé, a essência de Tishá Be Av também é despertar os judeus, levando-os a refletir sobre as transgressões que nós e nossos antepassados cometemos. Porém, será que entendemos realmente o que significa a perda do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado)? Conseguimos sentir de verdade sua falta em nossas vidas?

Ao contrário de muitas gerações passadas, vivemos em uma época de muito conforto. Apesar do antissemitismo venenoso da mídia mundial, vivemos em uma época na qual não sofremos perseguições e podemos cumprir nosso judaísmo sem precisar nos esconder. Além disso, temos uma incrível abundância de alimentos e outros tipos de prazer. Vivemos em uma era tecnológica na qual tudo ficou mais fácil: horas de fila nos bancos foram substituídas por aplicativos de celular; viagens cruzando o oceano, que duravam meses, agora duram apenas horas; e o ato de cozinhar, que significava ficar horas diante de um fogão a lenha, agora se resume a apertar um botão do microondas.

Porém, com tudo mais fácil e abundante, sentimos que no fundo ainda falta alguma coisa. Pode ser uma confusão em relação aos nossos objetivos e a direção que nossa vida deve tomar, outras vezes é uma sensação de que ainda não conseguimos realmente atingir o nosso potencial, ou simplesmente um vazio incômodo, uma sensação de que a vida poderia e deveria oferecer mais. Um exemplo disso é a "crise da meia idade", uma época na qual as pessoas começam a procurar respostas e normalmente não as encontram. Porém, muito antes da meia idade, este sentimento de vazio já começa a borbulhar dentro de nós, indicando que há algo errado ou faltando. Mas vamos ignorando este sentimento, deixando para depois. Somente quando a velhice se aproxima e nossa condição mortal é forçadamente recordada, este sentimento aflora com toda a sua força, causando depressão e desânimo. Mas o que está faltando, se temos vidas com tanto conforto e abundância? Por que não nos sentimos completos mesmo tendo tudo?

Há mais de dois mil anos o povo judeu tinha o Beit Hamikdash em Jerusalém, que constantemente nos recordava quem somos, qual é a nossa verdadeira importância e para onde estamos indo. O Beit Hamikdash era nossa verdadeira "bússola espiritual" e, apesar de ser uma construção física, era um conceito e uma realidade espiritual, uma manifestação física da conexão do povo judeu com D'us. Quando os judeus trazem moralidade e verdade ao mundo, que são características Divinas, então D'us traz Sua presença para este mundo. O próprio comando da Torá sobre a construção do Mishkan (Templo Móvel) reforça o conceito da conexão de D'us com cada judeu: "E façam para Mim um Santuário, e Eu morarei dentro deles" (Shemot 25:8). Não está escrito que D'us morará dentro do Santuário, e sim dentro do coração de cada pessoa que quiser estar conectada a Ele.

Além disso, nossos sábios ensinam que o Beit Hamikdash foi construído em um lugar muito especial, onde a criação do mundo começou. É o mesmo lugar em que Adam e Chavá (Adão e Eva) foram criados. Este também foi o lugar para onde Avraham levou seu filho para ser sacrificado para D'us, e onde Yaacov sonhou com uma escada que chegava até o Céu, na qual subiam e desciam anjos. De acordo com as fontes místicas, este é o lugar onde o Céu e a terra literalmente se tocam. Por isso, era justamente neste lugar que entendíamos quem nós éramos, e podíamos nos conectar ao nosso verdadeiro "eu".

O Midrash (parte da Torá Oral) compara Israel a um olho, Jerusalém à sua pupila, e o Beit Hamikdash a um reflexo na pupila. O Midrash está identificando a Terra de Israel, Jerusalém e o Beit Hamikdash como lugares nos quais podemos alcançar níveis maiores de entendimento e iluminação espiritual. Mas por que a comparação do Beit Hamikdash com um reflexo no olho? Explica o Rav Simcha Barnett que há duas maneiras de ver nosso próprio reflexo em um olho. Uma maneira é através de um espelho, e outra maneira é olhando nos olhos de outra pessoa. Isto representa como o Beit Hamikdash ajudava o povo judeu a viver da maneira correta. O Beit Hamikdash era um espelho para onde podíamos olhar e enxergar a nós mesmos, e nos ajudava a entender quem éramos de verdade. Este espelho nos mostrava que fomos criados à imagem e semelhança de D'us, e nos motivava a viver de acordo com isso. E através desta claridade de quem éramos, estávamos prontos a perceber a Divindade que também havia em cada indivíduo, do mais simples ao mais importante. Podíamos olhar nos olhos dos outros e enxergar neles um pouco nós mesmos, e este reconhecimento permitiu o ponto de início da união verdadeira do povo judeu.

Mas quando nos afastamos das características Divinas, D'us também se afasta de nós. Uma das consequências de D'us se afastar do mundo é a perda do lugar onde Sua presença se manifestava. Quando o Beit Hamikdash foi destruído, o povo judeu ficou literalmente à deriva em um mar escuro e tempestuoso, como pouca orientação e estabilidade. A base de toda a alienação e da baixa autoestima que vemos atualmente no mundo tem sua raiz na destruição do Beit Hamikdash, e mais especificamente por termos "mandado D'us para o exílio" quando fomos exilados por causa das nossas transgressões. Quando uma pessoa verdadeiramente sabe e percebe que foi criado à imagem e semelhança de D'us, ela tem uma autoestima intrínseca. Nossos inimigos nunca conseguiram roubar nossa dignidade e nobreza, pois o judeu sempre soube que sua essência estava conectada a uma verdade que está acima da opressão dos outros povos. Porém, esta claridade já não existe mais.

Talvez seja até mesmo irônico pensar que vivemos em uma geração com poucas dificuldades físicas, e na qual não sofremos perseguições ou proibições de colocar em prática nosso judaísmo, e ao mesmo tempo somos uma geração completamente alienada, na qual perdemos a noção de quem somos de verdade. Esta angústia existencial que sentimos é consequência direta da destruição do Beit Hamikdash. O Beit Hamikdash era um lugar cuja luz deveria brilhar e iluminar o mundo inteiro. Os judeus têm a enorme responsabilidade de se tornar uma luz para as nações. Não podemos evitar nem tentar fugir do nosso destino, pois D'us nos deu uma força que é completamente desproporcional ao nosso número reduzido. É fácil perceber o quanto os judeus se sobressaem em todas as áreas, estão sempre na "linha de frente" da humanidade. Mas é uma pena que, sem nossa "bússola espiritual", sem um direcionamento, este tremendo potencial acaba não sendo utilizado da maneira correta.

Somos os mensageiros de D'us para transmitir ao mundo uma mensagem significativa. Temos a responsabilidade de transmitir ao mundo valores como a dignidade do indivíduo, a justiça, a caridade e a paz, que darão ao mundo uma direção. Porém, o que acontece quando os mensageiros se perdem, deixam de entender a importância de sua mensagem e esquecem até mesmo que estão "sob contrato" com D'us? O que fazer quando a alienação é tanta que invertemos completamente nossa missão, a ponto de, ao invés de ensinar ao mundo nossos valores, nós é que estamos absorvendo e nos comportando com os valores do mundo?

Em Tishá Be Av devemos nos esforçar para sentir a dor de estarmos alienados, como indivíduos e como um povo. Em Tishá Be Av o remédio para nossa situação é através das lágrimas. O Talmud (Taanit 30b) afirma que aquele que chora lágrimas sinceras em Tishá Be Av terá o mérito de ver a reconstrução do Beit Hamikdash. Devemos chorar pelo povo judeu como um todo, que se desviou do caminho. Por nossos amigos e familiares que nunca puderam experimentar a santidade de um Shabat, a doçura do estudo da Torá ou uma vida de Mitzvót. E, principalmente, devemos chorar por nós mesmos, pois poderíamos e deveríamos esperar muito mais da nossa vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
DEUTERONÔMIO 1:1-3:22, Is.1:1-27

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O VALOR DE UMA VIDA - PARASHIÓT MATÓT E MASSEI 5776

Após o término da Segunda Guerra Mundial, uma carta anônima foi encontrada em um Campo de Concentração nazista, contendo a seguinte mensagem:

"Prezados professores, sou sobrevivente de um Campo de Concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver: câmaras de gás construídas por engenheiros formados, crianças envenenadas por médicos diplomados, recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas, mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas dúvidas sobre a educação. Meu pedido é: ajudem seus alunos a se tornarem humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e saber aritmética só será importante se nossas crianças forem mais humanas"

De nada adiantam os títulos e as condecorações se a pessoa não sabe o verdadeiro valor de uma vida humana. 
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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Matót (literalmente "Tribos") e Massei (literalmente "Viagens"). A Parashá Matót fala sobre a importância de manter as promessas e os juramentos, sobre o ataque do povo judeu ao povo de Midian e sobre o desejo das tribos de Reuven e Gad de se estabelecer antes do Rio Jordão, fora da Terra de Israel. Já a Parashá Massei descreve as viagens que o povo judeu fez durante os 40 anos em que permaneceu no deserto, apontando todos os lugares onde o povo acampou. Além disso, a Parashá Massei descreve as "Cidades de Refúgio", locais para onde uma pessoa que havia assassinado de forma não intencional deveria ir e permanecer até a morte do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). O fato de a Torá chamar alguém que matou sem intenção de "assassino" já demonstra o quanto D'us é rigoroso com cada vida humana.

A Torá ressalta que as leis da Cidade de Refúgio somente se aplicavam a um assassinato acidental, como no caso da lâmina do machado de um lenhador que escapou do cabo e atingiu fatalmente outro lenhador. Porém, um assassino intencional não podia se abrigar nas Cidades de Refúgio, pois devia ser punido com a pena de morte. O final da Parashá ressalta que não devemos ser lenientes com um assassino intencional, como está escrito: "Você não deve aceitar um resgate pela vida de um assassino que merece morrer, você deve matá-lo... Você não deve corromper a terra onde você está, pois o sangue corrompe a terra" (Bamidbar 35:31,33). Estes versículos nos ensinam que não podemos ser tolerantes nem racionalizar e buscar permissões para permitir assassinatos, e aquele que intencionalmente tira uma vida não deve receber a possibilidade de "resgatar sua liberdade" através de algum tipo de pagamento. O versículo termina ressaltando que, caso um assassinato seja tolerado ou racionalizado, o sangue derramado será considerado uma abominação e contaminará a Terra de Israel, o local onde a Presença de D'us reside.

Porém, há algo que nos chama a atenção quando prestamos atenção na linguagem do versículo. A palavra "Iachnif", que significa "corromper", vem da mesma raiz de "Chanufá", que significa "bajulação". Qual é a conexão entre corromper e bajular? Como deixar um assassino vivo pode "bajular a terra"?

É interessante perceber que não é apenas a Torá que lida de forma tão rigorosa com o assassinato intencional. De acordo com as leis de todos os povos do mundo, o assassinato intencional é considerado um delito extremamente grave e é normalmente punido com a máxima rigorosidade, com penas que variam de muitos anos de detenção ou prisão perpétua até a morte do assassino. Mas será que a forma como a Torá enxerga a gravidade do assassinato é igual à forma como os povos do mundo enxergam?

Explica o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) que, apesar das aparentes semelhanças na rigorosidade com o qual os assassinos são tratados, há uma enorme e essencial diferença entre a forma como a Torá e as leis dos outros povos enxergam o assassinato intencional e sua consequente punição. Os outros povos olham o assassinato como algo que estraga e coloca em risco a continuidade do mundo, e por isso o assassino deve ser duramente punido. Os outros povos veem os duros castigos aplicados ao assassino como uma forma de erradicar do mundo aqueles que querem destruir a humanidade.

Porém, qual é o grande perigo de pensar desta maneira? Quando punimos de maneira muito rigorosa uma pessoa pelo fato de considerarmos que ela coloca em risco a humanidade, então corremos o risco dos limites e das definições de quem são os "perigos para a humanidade" mudarem de acordo com as vontades e as necessidades de cada sociedade. Pessoas inocentes podem ser mortas a sangue frio por assassinos que acreditam que estão salvando o mundo. Isto explica por que explodem tantas guerras, e por que surgem grupos como o Estado Islâmico, que em nome de garantir a continuidade de um mundo "correto" matam milhares de pessoas inocentes que nunca fizeram mal a ninguém. E se parece um exagero pensar assim, basta lembrar o assassinato a sangue frio de seis milhões de judeus durante o Holocausto. Quem eram os assassinos? Não eram os bárbaros, cossacos ou vikings. Eram médicos, engenheiros e policiais, pessoas que deveriam zelar pela vida, mas que escolheram assassinar homens, mulheres, crianças e bebês com requintes de crueldade.

Como tantos alemães participaram de assassinatos a sangue frio no Holocausto, ou simplesmente se calaram e foram coniventes com os crimes nazistas? A mídia alemã conseguiu, através de uma propaganda virulenta e mentirosa, convencer a maioria do povo alemão que os judeus eram a causa de todos os problemas do mundo. Ao transformar um judeu na "causa dos problemas", os nazistas conseguiram convencer as pessoas que matar um judeu não era um assassinato, e sim a eliminação de um problema, e que a morte deles seria pelo bem da humanidade.

Outra consequência negativa desta visão equivocada é não sabermos valorizar cada instante da vida de um ser humano. Por exemplo, os momentos finais de um doente terminal, a vida de uma pessoa muito idosa e até mesmo a vida de um feto vão perdendo seu valor em uma sociedade que pensa que, em prol da continuidade da humanidade, podemos decidir quem pode viver e quem deve morrer. A eutanásia vem ganhando cada vez mais adeptos, até mesmo entre os médicos, que acreditam que não há sentido em prolongar a vida de alguém que está em estado vegetativo, inclusive pelo fato desta pessoa não produzir mais nada para a humanidade. Infelizmente a eutanásia é defendida por muitos como um ato de bondade, mas sua raiz verdadeira vem dos nazistas. Os alemães permitiram o assassinato de milhares de doentes mentais e pessoas inválidas a partir de 1939, em um projeto chamado "Aktion T4". Deficientes físicos e mentais eram considerados partes "inúteis" da sociedade e, por isso, eram assassinados a sangue frio. O projeto somente foi possível pois recebeu intensa contribuição dos médicos alemães. Aqueles que haviam jurado, em suas formaturas, dedicar suas vidas para curar os doentes, participaram ativamente em mais de 250 mil assassinatos, apenas por que os mortos eram considerados "inúteis". Os alemães demonstraram claramente que não sabiam dar o devido valor a uma vida humana. Passar do assassinato de inválidos e doentes mentais ao assassinato de seis milhões de judeus foi apenas um passo.

Já a visão da Torá em relação ao assassinato é completamente diferente em sua essência. A gravidade do assassinato não está relacionada com o conceito da continuidade da humanidade como um todo, e sim com o inestimável valor intrínseco de cada vida. A diferença na prática é que, mesmo quando uma pessoa não contribui mais nada para a humanidade, ainda assim é proibido matá-la. Cada minuto da vida de um paciente terminal é visto pela Torá com a mesma santidade que a vida da pessoa mais importante do mundo. Mesmo em relação a um doente mental ou um doente terminal com poucas horas de vida existe a gravíssima proibição de diminuir seu tempo de vida, mesmo que seja em alguns instantes. A Halachá (Lei Judaica) permite inclusive que um judeu desrespeite as leis de Shabat mesmo que seja apenas para prolongar um pouco mais a vida de um paciente terminal. A "bondade" de desligar os aparelhos de um doente é vista pela Torá com um ato bárbaro de assassinato e de desprezo pelo valor da vida humana. É por isso que a Torá trata o assassino intencional de maneira tão rigorosa, pois ele desprezou uma das coisas mais sagradas: uma vida humana.

Esta diferença entre a visão judaica e a visão dos outros povos é justamente o que o versículo está ressaltando. Quando alguém mata baseando-se no fato da outra pessoa estar "estragando a continuidade da humanidade", é como se ela estivesse "bajulando a terra", pois de acordo com seu ponto de vista equivocado, cada indivíduo é apenas secundário em relação à terra, isto é, em relação à humanidade como um todo, e a humanidade não deseja esta pessoa. Este ponto de vista faz com que o valor de uma vida não seja absoluto, e sim relativo. Portanto, matar alguém "em prol da humanidade" é como se fosse um ato de bajulação da humanidade.

O versículo vem nos ensinar que a "bajulação da terra" é um ato de corrupção da verdade, pois de acordo com a Torá a terra é secundária em relação a cada indivíduo. Cada ser humano foi criado à imagem e semelhança de D'us e, portanto, sua vida e sua existência têm valores inestimáveis. Cada ser humano é um mundo por si só, como afirma o Talmud (Sanhedrin 37a): "Quem salva uma vida é como se tivesse salvado o mundo inteiro". Este conceito não se aplica apenas em relação a não assassinar, mas também em relação ao respeito que devemos dar a cada pessoa, pois, apesar dos nossos defeitos, temos um valor inestimável aos olhos de D'us.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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Mass’êi  Nm. 33:1-36:13, Je 2:4 – 28, 3:4, 4:1-2

sexta-feira, 29 de julho de 2016

ESCUTANDO OS NOSSOS SÁBIOS - PARASHÁ PINCHÁS 5776

"Certa vez soldados do exército russo vieram até a casa do Rav Yitzchak Zev Soloveitchik zt"l (Bielorússia, 1886 - Israel, 1959), mais conhecido como Brisker Rav, intimando-o a acompanhá-los. Um soldado judeu havia sido condenado à morte por dormir durante seu período de sentinela, e que este soldado havia pedido para falar com um rabino antes de morrer. Porém, para espanto dos seus alunos e dos soldados russos, o Brisker Rav se recusou a ir falar com o prisioneiro condenado à morte.

Após algum tempo, uma segunda delegação de soldados chegou à casa do Brisker Rav, exigindo que ele se apresentasse imediatamente na prisão, sob o risco de receber um duro castigo caso se recusasse. Mas o Brisker Rav não se dobrou diante das ameaças e reafirmou que não iria. Os alunos ficaram visivelmente confusos, pois além de colocar a própria vida em risco, por que o rabino não se importava com os sofrimentos daquele pobre judeu condenado à morte? Por que não queria ir confortá-lo na prisão e ajudá-lo naqueles últimos momentos difíceis?

Foi então que uma terceira delegação de soldados bateu na porta. Porém, desta vez eles não vinham para intimar o Brisker Rav a comparecer à prisão, e sim para avisá-lo que sua presença não era mais necessária. A família daquele jovem soldado havia apelado à Suprema Corte de Justiça e a sentença de morte havia sido revogada. Quando os alunos questionaram de onde o Brisker Rav havia conseguido reunir forças para aquela atitude heroica, ele explicou:

- Eu simplesmente cumpri a Halachá (Lei Judaica). De acordo com o Rambam (Maimônides), se um judeu inocente é injustamente condenado à morte por um tribunal não judaico, é proibido a um judeu entregá-lo às autoridades para que ele seja executado, mesmo que para isso seja necessário colocar a própria vida em risco. Se eu tivesse ido à prisão, o rapaz teria sido executado tão logo eu saísse. Ao seguir a Halachá, a vida daquele jovem judeu acabou sendo salva".

Muitos ensinamentos e decretos rabínicos parecem não fazer sentido. Mas eles são os verdadeiros conhecedores da Torá, e em suas atitudes eles levam em consideração muitos detalhes que nós desconhecemos. 
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Nesta semana lemos a Parashá Pinchás, que começa descrevendo um ato heroico de Pinchás, neto de Aharon HaCohen. No final da Parashá da semana passada, os povos de Moav e Midian haviam intencionalmente causado com que o povo judeu transgredisse com imoralidades e idolatria, transgressões que D'us abomina, e uma praga começou a dizimar os judeus. Até mesmo pessoas importantes transgrediram, como o príncipe da tribo de Shimon, Zimri, que cometeu um ato público de imoralidade com uma princesa de Midian chamada Kosbi. Pinchás, tomado por um espírito de "Kanaut" (zelo pela honra de D'us), se levantou e, mesmo arriscando a vida, aplicou aos dois transgressores ilustres a pena de morte, fazendo com que a praga cessasse. O total de mortos na praga foi de vinte e quatro mil judeus, e se não fosse a intervenção de Pinchás, a tragédia teria sido ainda pior.

Este ato de Pinchás é semelhante a outro evento descrito na Torá. Quando Yaacov estava voltando para casa, depois de passar muitos anos trabalhando para seu tio Lavan, sua filha Diná foi sequestrada e violentada pelo príncipe Shechem. Dois filhos de Yaacov, Shimon e Levi, inconformados com aquele ato de desonra, quiseram aplicar a justiça ao príncipe e ao resto da população, pois haviam presenciado aquela violência e não fizeram nada. Eles bolaram um plano para enfraquecer os homens da cidade e em seguida mataram todos. Aparentemente Shimon e Levi agiram corretamente, pois estavam motivados pela mesma "Kanaut" de Pinchás, isto é, o zelo pela honra de D'us e a abominação pelos atos imorais.

Porém, o que nos chama a atenção é a diferença do desfecho nos dois casos. O ato de Pinchás agradou muito a D'us, e ele foi recompensado de uma maneira especial por ter colocado a própria vida em risco pela honra de D'us. Quando Aharon e seus filhos foram apontados como Cohanim (sacerdotes) e ungidos, somente os descendentes que nasceram daquele momento em diante se tornaram Cohanim. Mas Pinchás, neto de Aharon, já havia nascido naquele momento e, portanto, não seria Cohen, apenas Levi. D'us concedeu a Pinchás, como recompensa por seu esforço, que ele e seus descendentes se tornassem Cohanim. Já o desfecho do ato de Shimon e Levi foi que, no momento do falecimento de Yaacov, enquanto alguns dos seus filhos receberam Brachót (bênçãos), Shimon e Levi foram duramente repreendidos. Porém, se Shimon e Levi também estavam movidos pela mesma "Kanaut" de Pinchás, e também colocaram suas vidas em risco para fazer o que era correto, por que o desfecho das duas histórias foi tão diferente?

Explica o Rav Yitzchak Zilberstain shlita que a característica de "Kanaut", de agir motivado pelo zelo com a honra de D'us, exige um equilíbrio perfeito de cálculos e um nível muito grande de precisão. É necessário checar o ato de acordo com diferentes pontos de vista, e deve ser levado em consideração cada detalhe, inclusive o momento e o local em que o ato será realizado. Além disso, para uma pessoa estar apta a fazer um ato de "Kanaut", ela deve ser uma profunda conhecedora das Halachót, em especial daquelas relacionadas com seu ato, pois somente assim é garantido que seu ato está completamente de acordo com a vontade de D'us. E, finalmente, a pessoa deve refletir e checar se seu ato não está sendo influenciado por nenhum desejo ou inclinação pessoal.

Em geral, para ter certeza de que não estamos sendo parciais em nosso julgamento, é necessário o aconselhamento com um grande sábio de Torá, que pode ajudar a decidir se o ato planejado é realmente correto e aplicável. E esta foi uma das diferenças fundamentais entre o ato de Pinchás e o ato de Shimon e Levi. Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Pinchás, antes de executar seu ato de "Kanaut", se aconselhou com Moshé Rabeinu, o grande sábio da geração. Ao escutar o caso, Moshé fez todos os cálculos necessários e confirmou a Pinchás que, naquele caso e naquelas circunstâncias, aplicar a pena de morte era realmente o correto. Por isso Pinchás recebeu uma recompensa tão grande.

Já no caso de Shimon e Levi, o grande sábio da geração era seu pai, Yaacov. Porém, de acordo com Rashi, ele não foi consultado antes da execução do plano. E se Shimon e Levi tivessem se aconselhado, certamente Yaacov os teria convencido a não colocar o plano em prática, pois havia um erro no cálculo deles. Apesar da indignação de Shimon e Levi ser totalmente válida, pois a falta de justiça diante de uma desonra tão grande era algo realmente vergonhoso e imoral, eles não levaram em consideração todas as condições necessárias para fazer o ato de "Kanaut".

De acordo com o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), Yaacov tinha um forte motivo para que aquele ato não fosse feito, como está escrito: "E disse Yaacov para Shimon e Levi: Vocês me causaram problemas, me envergonhando diante dos habitantes da terra" (Bereshit 34:30). O Sforno explica que Yaacov estava preocupado com o "Chilul Hashem" (denegrir o Nome de D'us) que o ato de Shimon e Levi poderia causar, pois para colocar seu plano em prática, eles haviam enganado os habitantes da cidade, podendo fazer com que Yaacov, o símbolo da verdade e da retidão, fosse visto pelos outros povos como um mentiroso e enganador. Mas qual foi a enganação?

Para poder matar todos os habitantes da cidade do príncipe Shechem, Shimon e Levi bolaram um plano. Eles disseram que queriam morar junto com os habitantes, e que também aceitariam se casar entre si. Porém, com astúcia, Shimon e Levi afirmaram que havia um impedimento, pois não poderiam viver com eles como se fossem um único povo enquanto as pessoas não fizessem o Brit Milá (circuncisão). Eles garantiram que, caso todos os homens da cidade aceitassem fazer o Brit Milá, então a família de Yaacov permaneceria vivendo com eles. A verdade é que Shimon e Levi nunca tiveram a intenção de viver com eles como se fossem um povo só. Eles exigiram que os homens fizessem Brit Milá apenas para enfraquecê-los e tornar mais fácil o ato de vingança. De acordo com a Torá, o terceiro dia depois do Brit Milá é o dia em que a pessoa está mais fraca e debilitada, e foi justamente neste dia que Shimon e Levi executaram seu plano e mataram todos os habitantes, inclusive o príncipe Shechem, que havia cometido o ato de desonra com Diná.

Portanto, a grande crítica de Yaacov, e que de acordo com o seu entendimento estava acima da "Kanaut" de Shimon e Levi, é que eles não poderiam ter matado todos os habitantes depois de terem garantido a eles que, caso fizessem o Brit Milá, poderiam se unir e viver em paz com a família de Yaacov. Como eles realmente fizeram o Brit Milá, ter matado os habitantes foi uma atitude de mentira e enganação. O maior erro de Shimon e Levi foi ter garantido que viveriam com o povo do príncipe Shechem e se casariam entre si, pois eles sabiam que esta mistura e assimilação estava proibida. Estes fatores fizeram com que o ato de "Kanaut", ao invés de ter sido uma Mitzvá, acabasse sendo uma transgressão, resultando em uma merecida repreensão a Shimon e Levi. Eles ficaram tão cegos com a desonra de sua irmã que tomaram uma atitude precipitada. Apesar da grandeza deles, faltou o aconselhamento com um sábio de Torá.

Mas não é apenas um "Kanai" que precisa se aconselhar com os sábios de Torá. Cada um de nós também tem a obrigação de estar em contato com os sábios, para nos aconselharmos, escutarmos seus ensinamentos e aprendermos com seus atos. Muitas vezes tomamos decisões importantes utilizando apenas nossa lógica, mas que é muitas vezes limitada e não leva em consideração todos os aspectos necessários para uma decisão completamente equilibrada. Somos pouco conhecedores da Halachá e, portanto, suscetíveis a cometer erros por desconhecimento. Os grandes sábios de cada geração, além dos conhecimentos de Torá, ainda recebem uma "Siata Dishmaia" (ajuda especial dos Céus) para saber lidar com as questões que surgem em cada época e para vencer os desafios que se renovam.

Normalmente nossas decisões são muito influenciadas pelos nossos desejos e inclinações. Somos parciais em nossos julgamentos, e isto nos faz cometer erros em nossos cálculos. Somente nos aconselhando com alguém "de fora", que não está sob os mesmos tipos de influências, é que podemos decidir com ponderação o que é realmente o correto a se fazer em cada situação. Por isso, é muito importante ter contato com algum sábio de Torá, para nos aconselharmos nas mais diversas áreas da vida, em especial nos momentos em que fazemos escolhas que terão impactos de longo prazo.

Como na história do Brisker Rav, muitas vezes não entendemos os ensinamentos e o comportamento dos nossos sábios. Mas precisamos ter a humildade de saber que nossa dificuldade é proveniente do nosso desconhecimento da Halachá. Nossos sábios estão muito mais conectados com a espiritualidade e conhecem de maneira muito mais profunda o que D'us quer de nós. Por isso, nas decisões importantes da vida, é fundamental nos aconselharmos com um sábio de Torá se quisermos fazer o que é correto de verdade. Isto pode evitar que a pessoa cometa, de maneira equivocada, uma transgressão achando que está fazendo uma grande Mitzvá.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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Nm. 25:10-29:40, 1 Rs. 18:46-19:21

sábado, 23 de julho de 2016

EQUILÍBRIO ENTRE O MATERIAL E O ESPIRITUAL - PARASHÁ BALAK 5776

"O Sr. Jorge estava reunido com um grupo de amigos da sinagoga, no meio de uma animada conversa. De repente, ele fez um desabafo:

- Eu tenho ido à sinagoga por trinta anos. Durante este tempo, ouvi pelo menos duas mil prédicas do rabino. Porém, não consigo lembrar de quase nenhuma. Penso que estou perdendo meu tempo, e os rabinos estão desperdiçando o tempo deles dando semanalmente estas prédicas!

A conversa tomou ares de discussão, todos querendo falar ao mesmo tempo, alguns criticando, outros concordando com o argumento filosófico do Sr. Jorge. O Sr. David, que até aquele momento havia permanecido em silêncio, pediu permissão para falar:

- Eu estou casado há mais de trinta anos. Durante todo este tempo, minha esposa deve ter cozinhado pelo menos vinte mil refeições. Apesar disso, eu não consigo me lembrar do cardápio de quase nenhuma delas. Mas de uma coisa eu sei: todas elas me nutriram e me deram a força que eu precisava para fazer o meu trabalho. Se minha esposa não tivesse me dado estas refeições, hoje eu não estaria mais vivo.

- Da mesma maneira - conclui sabiamente o Sr. David - se eu não tivesse ido à sinagoga para alimentar minha fome espiritual, hoje eu não estaria vivo espiritualmente."

Precisamos nos alimentar para manter o nosso corpo, mas também precisamos nos alimentar de espiritualidade para manter a nossa alma. Somente o material e o espiritual juntos, em equilíbrio, podem nos manter vivos de verdade. 
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A Parashá desta semana, Balak, começa descrevendo o desespero do rei do povo de Moav, chamado Balak, com a aproximação esmagadora do povo judeu, que havia vencido todos os inimigos que haviam aparecido no seu caminho. Sabendo que não tinha chances de lutar contra um povo que tinha uma proteção Divina especial, Balak contratou o profeta Bilaam, que tinha o poder de amaldiçoar até mesmo povos inteiros. Porém, apesar dos esforços de Bilaam, D'us protegeu o povo judeu e as maldições se transformaram em Brachót (bênçãos).

No final da Parashá, a Torá nos descreve que Bilaam finalmente teve uma ideia de como derrotar o povo judeu: fazendo-os cometer transgressões, para que perdessem a proteção Divina e fossem castigados. Com a ajuda do povo de Midian, que nutria um ódio gratuito pelo povo judeu, a ideia de Bilaam funcionou. Seduzidos por jovens mulheres de Midian, os judeus transgrediram e terminaram fazendo idolatria, e foram castigado com uma terrível praga. Esta tragédia foi um evento muito tristes na história do povo judeu.

A tristeza que esta tragédia causou nos recorda do período de três semanas que vamos entrar na próxima semana, chamado de "Bein Hametsarim" (literalmente "entre os apertos"), que vai do dia 17 de Tamuz até o dia 9 de Av. O nome "Bein HaMetsarim" é baseado em um versículo do profeta Yirmiahu: "Todos seus perseguidores alcançaram-na dentro dos apertos" (Eichá 1:3). E este Domingo (24/07) é o dia 17 de Tamuz, um dia de luto e muita tristeza para o povo judeu, no qual jejuamos. A causa de tanta tristeza é que justamente neste dia aconteceram cinco eventos trágicos na nossa história. Neste dia Moshé quebrou as Tábuas que continham os Dez Mandamentos; durante o cerco ao Primeiro Templo, neste dia terminou o estoque de animais utilizados para os Korbanót (sacrifícios); na época do Segundo Templo, foi neste dia que as muralhas de Jerusalém foram rompidas pelos nossos inimigos; neste dia Apostamus, um oficial romano, rasgou e queimou um Sefer Torá; e também neste mesmo dia uma idolatria foi colocada dentro do Templo Sagrado.

Destes incidentes, talvez o que mais nos chama a atenção é a quebra das Tábuas. Moshé havia subido no Monte Sinai para receber a Torá, e avisou ao povo que voltaria quarenta dias depois. Porém, o povo judeu errou nos seus cálculos e ficou desesperado quando o prazo expirou e Moshé não voltou. Quando finalmente Moshé desceu do Monte Sinai, trazendo em suas mãos as Tábuas contendo os Dez Mandamentos, ele se deparou com o povo judeu cantando e dançando alegremente pela construção do bezerro de ouro, o seu novo "líder". Ao ver aquela cena terrível, Moshé quebrou as Tábuas que trazia nas mãos. O que esta quebra significou ao povo judeu?

Há um versículo que descreve um detalhe interessante sobre as Tábuas: "E as Tábuas eram feitas por D'us, e a escrita era a escrita de D'us, gravada nas Tábuas" (Shemot 32:16). A Torá está nos ensinando que as letras das Tábuas eram esculpidas, e não simplesmente escritas com tinta. A Mishná (Pirkei Avót 6:2) se aprofunda ainda mais e nos ensina que a linguagem "Charut", que significa "gravada", vem da mesma raiz de "Cherut", que significa liberdade. Desta semelhança entre as duas linguagens a Mishná aprende que somente é livre de verdade aquele que se dedica ao estudo da Torá.

Porém, este ensinamento do Pirkei Avót é difícil de ser entendido. A Torá é composta por centenas de Mitzvót, que acabam limitando muito nossa vida. Tomando como exemplo a Kashrut (leis alimentares), há muitos tipos de comidas saborosas que a Torá nos proíbe de consumir, como a carne de porco e os frutos do mar. A Torá nos traz regras para todas as áreas da vida, desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir. Então como a Mishná pode afirmar que apenas aquele que estuda Torá pode ser livre de verdade? De que liberdade a Mishná está falando? Além disso, qual é a conexão entre o entendimento mais simples das palavras do versículo, de que as palavras dos Mandamentos eram gravadas nas Tábuas, com a interpretação mais profunda dos nossos sábios, de que apenas a Torá nos dá a liberdade verdadeira?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a dificuldade para entender a Mishná do Pirkei Avót vem do nosso conceito equivocado sobre liberdade. De acordo com o nosso entendimento, a liberdade é normalmente definida como o direito ou privilégio de agir ou se expressar sem nenhum tipo de coerção, da maneira que desejamos. Já a definição de liberdade da Torá leva em consideração o fato de que normalmente nos comportamos de uma maneira que se esconde sob o disfarce de "liberdade de expressão", mas na realidade estamos submetidos às mais diversas forças. Pensamos que somos livres, mas sem nenhum tipo de limite, na realidade somos completamente controlados pelas pressões sociais ou pelos nossos desejos físicos e emocionais. Estamos conscientes da natureza destrutiva dos nossos atos, mas nos sentimos impotentes para superar a ilusão da aceitação social e da autogratificação.

Utilizando novamente como exemplo o assunto alimentar, as pessoas acham que são livres, pois podem comer o que têm vontade, no momento em que quiserem. Mas será que somos livres de verdade? Alguma vez deixamos de comer algo gostoso por saber que faz mal à saúde? Conseguimos manter nosso autocontrole diante de uma mesa de sobremesas, mesmo sabendo do mal que o açúcar causa em nosso corpo? Quantas pessoas continuam fumando, apesar de todos os estudos que comprovam os terríveis males à saúde deste vício? Quantas vezes vestimos uma roupa apenas porque está na moda, mesmo que não é o que gostamos? Isto é liberdade?

A solução para nos libertarmos destes tipos de influências é a Torá, que nos capacita e nos dá a habilidade de superarmos estas forças coercitivas. A Torá auxilia na remoção do conflito que existe no processo de tomada de decisões, nos possibilitando nos comportar da maneira apropriada em relação aos nossos desejos. Podemos e devemos usar os nossos sentidos físicos, mas de maneira ponderada. Os desejos devem nos trazer energia, não consumi-la. É por isso que estar limitado por restrições não implica em uma perda da liberdade. As restrições da Torá são, em última instância, para o nosso próprio benefício. Elas nos impedem de fazer atos que nós realmente gostaríamos de evitar. A Torá nos dá autocontrole, e as Mitzvót são um treinamento diário para que nosso lado racional tome as decisões, não o nosso lado emocional ou os nossos desejos. A Torá nos ajuda a fazer o que é realmente bom para nós, mesmo que não seja socialmente o mais popular nem traga mais prazeres imediatos.

Este conceito também está implícito nas palavras do versículo mencionado anteriormente. As palavras dos Dez Mandamentos representam a espiritualidade, enquanto as Tábuas representam o mundo material. Se os Dez Mandamentos tivessem sido apenas escritos, como tinta sobre o pergaminho, então isto implicaria em uma imposição e coerção das palavras sobre as Tábuas. Mas o Talmud (Meguilá 2b) nos ensina que D'us fez com que as letras dos Dez Mandamentos estivessem milagrosamente suspensas nas Tábuas. Explica o Rav Yohanan Zweig que parte do milagre foi que as Tábuas se enrolaram em volta das palavras, dando forma para as letras. O que isto nos ensina? Que o material e o espiritual não são concorrentes, e sim complementares, podendo coexistir sem nenhum tipo de conflito. É possível, através do estudo da Torá, utilizar o material e o espiritual de maneira equilibrada.

Todos nós temos uma tendência natural de nos comportarmos da maneira correta. Temos um "alarme interno", chamado consciência, que nos avisa quando estamos fazendo algo errado. Mas este "alarme" pode ser abafado dentro de nós, e até mesmo desligado, por impedimentos sociais ou desejos internos que mascaram nossos verdadeiros sentimentos. A Torá nos ajuda a retirar estes impedimentos, vencendo os conceitos errados e os sistemas de valor equivocados criados pela sociedade.

Agora podemos entender, de maneira mais profunda, que a quebra das Tábuas representou a perda da liberdade verdadeira. Esta é uma das maiores tragédias do ser humano, ser escravo achando que é livre, ser dominado por seus desejos ou pelas imposições sociais e pensar que está livre para decidir. A Torá nos dá a liberdade verdadeira, pois é através dos limites e das restrições que poderemos ser quem nós queremos ser de verdade.
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm
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sexta-feira, 15 de julho de 2016

REFLETINDO SOBRE A VIDA - PARASHÁ CHUKAT 5776

"Um rabino certa vez perguntou para um de seus mais destacados alunos:

- Você consegue frequentemente pensar sobre D'us durante o dia?

O aluno pensou por alguns instantes e respondeu:

- Rabino, eu acordo todos os dias às 5 da manhã e estudo até o horário da reza de Shacharit. Depois eu tomo um rápido café da manhã e volto para o Beit Midrash (local de estudo de Torá), onde passo toda a manhã estudando sem parar. Faço uma curta pausa para comer algo no almoço e rezar Minchá, e depois já volto correndo para o Beit Midrash para continuar meus estudos. De noite faço mais uma pequena e rápida pausa para o jantar e a reza de Arvit, e continuo estudando até o limite das minhas forças. Quando eu já não aguento mais, eu me arrasto até o meu quarto e desabo de cansaço na cama.

Então, em um tom de desabafo, ele concluiu:

- Rabino, com tantas coisas que eu faço durante o dia, com tanto estudo de Torá e Tefilót (rezas), como você ainda queria que sobrasse tempo para pensar em D'us?"

Parece piada, mas às vezes estamos tão envolvidos com a nossa "Avodat Hashem" (Serviço Divino) que acabamos perdendo de vista o propósito do que estamos fazendo: desenvolver nosso relacionamento com D'us. 
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A Parashá desta semana, Chukat (literalmente "Lei, decreto"), termina descrevendo a história de como o povo judeu conquistou a cidade de Cheshbon das mãos dos Emorim. Na verdade, esta cidade originalmente pertencia ao povo de Moav, até que Sichon, rei dos Emorim, conseguiu derrotar Moav e conquistar a cidade, como diz o versículo: "Por isso dizem os 'Moshlim': venham para Cheshbon, que ela possa ser construída e estabelecida como a cidade de Sichon" (Bamidbar 21:27).

Mas o que significa a linguagem "Moshlim"? A explicação mais simples é que o versículo se refere àqueles que falam "Mashalim" (poemas). De acordo com Rashi (França, 1040 - 1105), refere-se à Bilaam, o grande profeta das nações do mundo, e seu pai Beor. Sichon tentou por diversas vezes conquistar a cidade de Cheshbon, mas falhou. Então ele contratou Bilaam e Beor, que conseguiram ajudá-lo a conquistar a cidade utilizando suas maldições. Para celebrar a vitória, Bilaam e Beor declamaram um poema, anunciando que Cheshbon, que até então era a grande fortaleza de Moav, havia se tornado a capital de Sichon, e que de lá os Emorim avançariam como fogo, devorando as outras cidades de Moav.

Porém, o Talmud (Baba Batra 78b) traz outra mensagem "oculta" nas palavras deste versículo. A linguagem "Moshlim" também significa "aqueles que dominam", e a linguagem "Cheshbon" também significa "fazer as contas". O Talmud ensina que o versículo pode ser lido da seguinte maneira: "Por isso dizem os 'Moshlim', isto é, aqueles que dominam suas más inclinações: venham para 'Cheshbon', isto é, vamos fazer as contas do mundo, considerar as perdas que temos quando fazemos uma Mitzvá comparado com o que ganhamos com ela, e o que ganhamos com uma transgressão comparado com o que perdemos com ela".

Nossos sábios explicam que "Cheshbon Hanefesh" é o ato de refletir sobre as nossas atitudes, e envolve a revisão de quais são os nossos objetivos na vida e a avaliação se estamos ou não vivendo de acordo com estes objetivos. As Mitzvót têm seus preços, que são os investimentos financeiros, o nosso tempo e a nossa dedicação, mas trazem recompensas eternas no Olam Habá (Mundo Vindouro). Já as transgressões têm seus benefícios momentâneos, que pode ser algum tipo de prazer material, mas o preço a ser pago é uma perda por toda a eternidade. Aquele que faz Cheshbon HaNefesh reflete sobre as perdas e ganhos, e certamente se esforçará para cumprir mais Mitzvót e evitar a todo custo as transgressões.

Mas este ensinamento do Talmud desperta um grande questionamento, pois aparentemente apenas aqueles que dominam suas más inclinações nos incentivam a fazer "Cheshbon Hanefesh", implicando que aqueles que não dominam suas más inclinações não acreditam que a pessoa deva fazer "Cheshbon Hanefesh". Mas será que há alguém que acha que não devemos refletir sobre os nossos atos? Que mensagem o Talmud quer nos transmitir?

Explica o Rav Moshe Chaim Luzzato zt"l (Itália, 1707 - Israel, 1746), mais conhecido como Ramchal, em sua obra "Messilat Yesharim", que "aqueles que dominam suas más inclinações" são as pessoas que conseguiram desenvolver um entendimento mais profundo sobre as artimanhas do Yetser Hará (má inclinação), e por isso estão conscientes da necessidade de estarem sempre vigilantes contra as táticas que ele utiliza para nos fazer transgredir. Estas pessoas sabem que a ferramenta mais importante para vencer o Yetser Hará é o Cheshbon Hanefesh constante, e por isso sempre incentivam as outras pessoas a também fazerem Cheshbon HaNefesh.

Já "aqueles que não dominam suas más inclinações" são aqueles que não estão conscientes de como o Yetser Hará está constantemente nos enganando e nos encaminhando para os maus atos e para um estilo de vida indesejável. Esta pessoa vive de forma tão despreparada em relação às forças do Yetser Hará que passa a vida inteira tropeçando, como um cego que caminha na escuridão, inconsciente dos numerosos obstáculos que a aguardam pela frente. O Talmud não quer ensinar que este tipo de pessoa não concordaria sobre a importância do Cheshbon Hanefesh. Porém, por não entender como funcionam os ataques do seu Yetser Hará, ela não reconhece sozinha a necessidade de fazer Cheshbon Hanefesh, e acredita que está sempre tudo bem.

Qual é o principal fator que causa com que uma pessoa perca o entendimento de qual é o propósito verdadeiro da vida? Explica o Ramchal que as pessoas ficam tão absorvidas em suas atividades diárias que acabam não tendo a oportunidade de parar e verificar a direção que suas vidas estão tomando. Na realidade, esta é uma das principais táticas do Yetser Hará, de nos trazer cada vez mais ocupações e atividades, pois o Yetser Hará sabe que se a pessoa parasse para refletir e analisasse suas ações, então ela reconheceria as drásticas mudanças necessárias e consertaria seus atos. Então o Yetser Hará nos deixa tão ocupados que não sobra tempo livre nem mesmo para pensarmos sobre a direção das nossas vidas.

De acordo com o Rav Yehonasan Gefen, este conceito pode ser resumido em uma simples frase: "Há uma grande diferença entre uma atividade e uma realização". Uma pessoa pode ser extremamente ocupada, mas se ela parar e examinar o que está realmente realizando de maneira significativa na vida, pode ficar decepcionada. Muitas vezes estamos ocupados, realmente ocupados. Mas o que estamos fazendo hoje em dia fará alguma diferença em longo prazo? Estamos investindo nosso tempo e nossas energias nas coisas certas?

Se o Rav Moshe Chaim Luzzato já apontava como grande problema, há mais de 300 anos, as avalanches de atividades que surgem no nosso cotidiano, o que dizer do nosso desafio atual, em um mundo moderno e digital? Estamos saturados com aparelhos e tecnologias que conseguem nos manter ocupados e distraídos 24 horas por dia. Praticamente não conseguimos manter mais nenhuma conversa sem sermos interrompidos por uma chamada de celular, por um e-mail ou por uma mensagem no whatsapp. A consequência é que não estamos nenhum instante "a sós" para avaliar a direção das nossas vidas. O Cheshbon Hanefesh regular e constante nos ajuda a lembrar do nosso objetivo verdadeiro e verificar se estamos indo no caminho correto. Com o nosso novo desafio digital, um momento ideal para o Cheshbon Hanefesh é o Shabat, um dia no qual nos desconectamos dos nossos aparatos tecnológicos e podemos nos conectar com as nossas almas.

Porém, diferente do que poderíamos pensar, esta dificuldade não é encontrada apenas entre os que estão afastados da espiritualidade. Mesmo aqueles que vivem de acordo com a Torá e cumprem Mitzvót também podem ser atacados pelo mesmo tipo de Yetser Hará, que nos impede de viver a vida de uma maneira efetiva. Como na história do estudante ocupado com seus estudos, é mais difícil encontrarmos 5 minutos para fazermos Cheshbon Hanefesh do que encontrarmos 10 horas para estudar Torá. Podemos estudar Torá e cumprir Mitzvót o dia inteiro, mas fazer isso de uma maneira completamente mecânica e sem nenhuma Kavaná (intenção). Sem reflexão, sem a conscientização do nosso objetivo de se conectar constantemente com D'us, podemos estar o dia inteiro ocupados e, ao mesmo tempo, completamente desconectados.

Tudo o que é espiritualmente difícil de ser realizado é um sinal de que neste ato há muita santidade e o Yetser Hará quer fazer de tudo para nos impedir. O Cheshbon HaNefesh constante é difícil, sempre surgirão motivos e desculpas para não fazê-lo. Porém, se nos esforçarmos e vencermos nossa má inclinação, poderemos usar esta ferramenta especial, que pode mudar nossa vida e nos ajudar a não estar apenas ocupados, mas realmente viver a vida de uma maneira plena e significativa.
SHABAT SHALOM
R' Efraim Birbojm
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