sexta-feira, 27 de maio de 2016

ENGANANDO A SI MESMO - PARASHAT BEHAR 5776

Este é o "testamento ético" que um médico escreveu antes do seu falecimento, na expectativa de transmitir aos seus filhos os ensinamentos que ele aprendeu na vida:

"Meus queridos filhos, quando eu me formei na faculdade de Medicina, a minha grande ambição era me dedicar à pesquisa na área médica e descobrir a cura para uma grande enfermidade. Eu sentia que tinha o talento e as habilidades necessárias para fazê-l,o e queria fazer algo grandioso, algo importante, que melhoraria a saúde de inúmeras pessoas e prolongaria suas vidas. Eu queria ser médico no sentido literal da palavra. Mas eu também queria ter segurança financeira. Eu não queria me preocupar com as contas e com o financiamento de uma casa. Eu queria dar um padrão de vida confortável para a sua mãe. Então eu decidi abrir um consultório em um bairro de classe alta e praticar aí medicina durante dez ou quinze anos. Eu ganharia muito dinheiro e me aposentaria. Depois, eu estaria livre para dedicar a minha vida à pesquisa.

O que eu posso lhes dizer, meus filhos queridos? Vocês sabem o resto da história. A minha clínica foi muito bem-sucedida e eu ganhei muito dinheiro. Eu sempre adiava a minha aposentadoria para ganhar ainda mais dinheiro. Um ano se passou, depois outro e outro. Antes que eu me desse conta, eu passei os melhores anos da minha vida acumulando uma grande fortuna. E o meu sonho de encontrar uma cura? Eu sinto dizer que ele simplesmente continuou sendo isto: um sonho não realizado. Eu desperdicei os melhores anos da minha vida. Eu desperdicei os meus melhores talentos. Eu desperdicei uma oportunidade de ganhar a imortalidade. E tudo isto pelo quê? Por um pote de ouro.

O pior de tudo é que, olhando para trás, a sua mãe teria me apoiado na minha decisão de fazer pesquisa. Eu dizia para mim mesmo que eu fazia isto para dar a ela o padrão de vida que ela merecia, mas eu sabia que ela teria concordado em ter um padrão de vida mais simples, que ela teria me estimulado a perseguir os meus objetivos se eu tivesse pedido a ela.

Meus filhos queridos, o que eu posso dizer? O pote de ouro eu deixo para vocês. Deve ser suficiente para lhes libertar das preocupações financeiras. Não cometam o meu erro. Não passem as suas vidas preciosas enchendo o pote de ouro".

Explica o Rav Yssocher Frand que, após muitos anos de trabalho árduo, este médico compreendeu que desperdiçou décadas da sua vida na busca por riqueza material. Um tempo que poderia ter sido passado com a família ou na busca de ideais nobres foi direcionado na busca interminável por dinheiro. E este tempo nunca voltará...
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Nesta semana lemos a Parashat Behar (que literalmente significa "No Monte"). A Parashat começa descrevendo uma Mitzvá difícil de ser cumprida, e que tem um grande impacto na forma como nos relacionamos com D'us e como enxergamos o nosso trabalho neste mundo: a Mitzvá de "Shemitá" (Ano Sabático), que se aplica apenas às terras de Israel. Durante seis anos o povo judeu pode arar o campo, semear, irrigar e colher o produto do seu esforço. Porém, no sétimo ano, o ano de Shemitá, o povo judeu não pode arar, plantar e nem mesmo ter proveito financeiro dos frutos do seu campo. As portas de todos os campos devem ser abertas, para que os pobres e todos que tiverem vontade possam comer livremente das frutas. Isto nos ensina que o verdadeiro provedor de tudo o que temos é D'us, pois apesar de passarmos um ano inteiro sem cultivar o campo e sem vender as frutas, nunca faltou sustento ao povo judeu no ano de Shemitá em mais de 3.000 anos. A Torá inclusive nos garante que não apenas não haverá fome, mas também haverá uma grande abundância, como está escrito: "E Eu comandarei a Minha Benção para vocês no sexto ano, e a produção será equivalente a três anos" (Vayikrá 25:21).

Porém, o Talmud (Kidushin 20a) descreve as terríveis consequências àquele que não cumpre a Mitzvá de Shmitá e busca lucros com a venda de produtos agrícolas durante o sétimo ano. O Talmud também ressalta que a severidade dos castigos vai aumentando progressivamente caso a pessoa persista na transgressão. Por exemplo, aquele que desrespeitou as leis de Shmitá inicialmente começará a perder seus lucros, precisando vender seus móveis e outros objetos de sua casa para se sustentar. Posteriormente ela acabará sendo obrigada a vender até mesmo a terra que herdou de seus antepassados. As consequências dos seus atos vão aumentando em severidade, até que a pessoa se vê obrigada a se vender como escrava para fazer serviços em um templo de idolatria.

O Talmud ressalta que a razão pela qual as consequências se tornam mais severas é porque a pessoa não abandona a transgressão nem ao perceber os castigos que está recebendo. Por que a pessoa não se arrepende? Pois quanto mais a transgressão fica profundamente enraizada dentro do transgressor, é menos provável que ele sinta remorso por seus erros, como afirma o Talmud: "Quando uma pessoa repete o seu delito, ele torna-se permitido aos seus olhos".

Mas por que o Talmud resolveu transmitir este ensinamento justamente associado à Mitzvá de Shemitá, se isto se aplica a qualquer transgressão da Torá? Explica o Rav Yohanan Zweig que, para responder esta pergunta, antes precisamos entender o que leva alguém a desrespeitar a Mitzvá de Shemitá. A motivação mais óbvia seria o medo de não conseguir sustento no sétimo ano. Mas esta é uma motivação sem sentido, pois D'us prometeu abundância para todos aqueles que cumprirem a Mitzvá de Shemitá, garantindo que nada faltará para eles. E isto pôde ser verificado nos últimos três mil anos, quando o povo judeu cumpriu a Mitzvá e nada faltou. Então qual é a motivação verdadeira que leva alguém a transgredir esta Mitzvá?

A Torá nos ensina que "o ser humano foi criado para trabalhar" (Yov 5:7). Isto significa que o ser humano somente consegue se preencher através do seu esforço e de suas realizações. Por isso, o ser humano acaba se definindo justamente pelas ações através das quais ele busca seu preenchimento. Em condições ideais, o ser humano deveria receber esta sensação de preenchimento através dos seus esforços no serviço Divino. Porém, na maioria das vezes, a pessoa acaba se definindo de maneira completamente equivocada, através do produto do seu trabalho profissional. É por isso que uma das depressões que mais atingem a humanidade está relacionada justamente com a época em que as pessoas se aposentam. Como elas sentem que seu valor está diretamente ligado à sua produção profissional, a aposentadoria representa o fim do valor da pessoa e, por isso, muitos passam por sofrimentos psicológicos profundos quando param de trabalhar.

Com este conceito fica mais fácil entender a motivação por trás de quem transgride a Mitzvá de Shemitá. Aquele que trabalha com agricultura acaba se identificando com este trabalho da terra como se fosse parte da sua própria essência. Por isso, não é uma opção desejável ficar um ano inteiro parado, sem produzir nada, pois isto traz para a pessoa uma sensação de vazio existencial. Por outro lado, como a pessoa vê sua essência como uma consequência de seus atos, então fazer uma transgressão de maneira aberta e descarada também causaria na pessoa a mesma sensação de vazio, pois o definiria como sendo um transgressor. A única forma de fugir deste paradoxo é a pessoa racionalizar seus atos e procurar desculpas para encobrir sua transgressão, como assumir que está trabalhando por causa do medo de não ter sustento. Desta maneira, a pessoa pode se sentir tranquila, trabalhando na terra durante o sétimo ano, que é o que define a sua essência, e ao mesmo tempo sentindo que não está fazendo nada de errado.

Quando a pessoa se esforça para encobrir seus erros buscando racionalizações, normalmente ela entra na regra de "quando uma pessoa repete o seu delito, ele torna-se permitido aos seus olhos". Com isso a pessoa acaba se afundando cada vez mais na transgressão e se tornando cada vez mais insensível às consequências espirituais negativas. É por isso que a Shemitá é o cenário ideal para ensinar este conceito, pois justamente a racionalização dos erros é o que está por trás da transgressão da Shemitá. O medo de não ter sustento, apesar de D'us ter garantido que nada faltará, é apenas uma "justificativa racional" para tirar o peso na consciência da pessoa.

Desta Parashat ficam dois ensinamentos muito importantes. Em primeiro lugar, aprendemos que o nosso verdadeiro valor não deve ser definido através de nossos empregos e formação profissional. Não somos engenheiros, advogados ou médicos, somos seres humano, e temos dentro de nós uma alma eterna, que deseja cumprir sua missão e se conectar com D'us. Podemos gostar do que fazemos, mas nossas profissões devem ser vistas apenas como uma forma de termos o nosso sustento, de podermos ter a tranquilidade material suficiente para nos permitir fazermos o nosso serviço espiritual, e não como nossa meta na vida. Nosso valor verdadeiro é medido de acordo com o quanto estamos próximos do nosso preenchimento espiritual, que é o verdadeiro motivo pelo qual D'us nos colocou neste mundo. Os lucros que tivemos na empresa e o sucesso profissional não servirão para nada quando terminar o nosso tempo neste mundo. O que ficará para sempre serão as nossas bondades, as nossas contribuições para a humanidade. Não precisam ser atos grandiosos, pois mesmo pequenos bons atos ajudam a iluminar o mundo, e cada luz acesa com uma Mitzvá nunca mais se apagará.

Em segundo lugar, aprendemos o quanto precisamos ser sinceros com nossas atitudes na vida. D'us sabe quais são as nossas verdadeiras intenções, e Ele sabe quando estamos apenas buscando racionalizações e justificativas para os nossos erros. Na vida podemos enganar as outras pessoas, podemos até mesmo conseguir enganar a nós mesmos, mas nunca conseguiremos enganar a D'us, que enxerga até cada pequena vontade do nosso coração.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 25:1-26:2, Je 32:6-27

sexta-feira, 20 de maio de 2016

RENOVANDO AS FORÇAS - PARASHA EMOR 5776

"Mark, um homem de negócios dos EUA, estava passando por muitas dificuldades financeiras na sua empresa. Parecia que nada mais dava certo: as vendas pararam, os fornecedores dificultavam cada vez mais as condições de pagamento e os funcionários, cansados dos atrasos salariais, começaram a pedir demissão um após o outro. Parecia que a empresa de Mark estava realmente fadada à falência. Certa manhã, em depressão e precisando espairecer um pouco, Mark foi dar uma volta no Central Park. Depois de caminhar um pouco, sentou-se em um dos bancos do parque, ao lado de um senhor de idade. Eles começaram a conversar e Mark acabou desabafando sobre a situação da sua empresa, contando sobre as dificuldades e o provável encerramento das atividades. Depois de ouvir aquele desabafo, o senhor tirou um talão de cheques da carteira, arrancou uma folha, escreveu algo e entregou a Mark. Quando ele olhou para o cheque, quase desmaiou: eram U$ 500.000! O senhor disse para Mark:

- É um empréstimo, para te ajudar a reerguer sua empresa. Eu confio em você. Você pode me devolver este dinheiro dentro de um ano, sem pressão. Sua empresa vai ficar bem, não se preocupe.

Mark não sabia nem como agradecer. Foi quando prestou atenção à assinatura do cheque. Aquele homem era Warren Buffett, um dos maiores milionários dos EUA. Parecia que a Providência Divina o havia colocado justamente ao lado daquele homem, e no momento em que ele mais precisava!

Mark sentiu seu espírito se renovando. A depressão desapareceu, e no lugar veio uma incrível vontade de lutar. Ao invés de depositar o cheque no banco, Mark foi para casa e guardou o cheque em um cofre. Recomeçou o trabalho na empresa com as forças renovadas, pois sentia que havia um leão dentro dele. Contratou uma nova equipe, trabalhou até de madrugada e se esforçou no limite. Após um ano a empresa já havia se recuperado, sem a necessidade de usar aquele cheque. Mark havia descoberto um novo potencial dentro de si.

Quando chegou o dia do pagamento, Mark foi ao parque devolver o cheque. Ele viu de longe o senhor que havia emprestado o dinheiro e caminhou em sua direção. Abraçou aquele senhor e devolveu o cheque, explicando que não havia sido necessário utilizá-lo. Enquanto conversavam, uma enfermeira aproximou-se e perguntou a Mark se aquele senhor o estava importunando. Mark, com um enorme sorriso, disse que aquele senhor o havia ajudado muito na vida. A enfermeira então cochichou no ouvido de Mark:

- Tome cuidado com este senhor. Ele vive em uma casa de repouso há anos, desde que perdeu a esposa. O pior é que, de alguns anos para cá, ele tem vivido em um mundo de fantasia. Ele finge que é Warren Buffet, diz isto para todos que encontra e chega até mesmo a se vestir como ele. Mas ele não tem nem onde cair morto..."

O maior presente que D'us nos dá não é quando Ele nos manda pronto o que precisamos, e sim quando Ele nos dá a oportunidade de descobrir as forças que temos dentro de nós mesmos.
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Nesta semana lemos a Parashat Emor (que literalmente significa "Diga"). Entre outros assuntos, a Parashat fala sobre a santidade dos Cohanim (sacerdotes), e ressalta que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) deveria ser uma pessoa ainda mais elevada. De acordo com o Talmud (Yoma 18a), o Cohen Gadol deveria ser superior aos outros Cohanim em quatro atributos: força, beleza, intelecto e dinheiro. Há um Midrash que cita versículos que comprovam a necessidade do Cohen Gadol se destacar em cada um destes quatro atributos. Por exemplo, o Midrash traz o seguinte versículo como fonte da necessidade do Cohen Gadol ser mais forte do que os outros Cohanim: "E Aharon deverá balançar os Leviim" (Bamidbar 8:11). O versículo refere-se à cerimônia de consagração dos Leviim, no qual parte do processo consistia em Aharon HaCohen levantar vinte e dois mil Leviim sobre sua cabeça em um único dia.

O Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) explica que a façanha de erguer em um único dia vinte e duas mil pessoas somente pôde ocorrer com a intervenção Divina. Por mais forte que fosse Aharon, não seria possível um ser humano realizar algo assim. Porém, de acordo com esta explicação, surge um grande questionamento: se o ato de Aharon foi algo sobrenatural, que somente ocorreu com intervenção Divina, então por que este versículo foi trazido pelo Midrash como a fonte da grande força de Aharon se, na verdade, esta grande força foi consequência de um evento milagroso?

O Midrash acrescenta ainda que esta exigência de uma força superior também era um pré-requisito para os reis. Como prova disto, o Midrash cita um interessante diálogo que ocorreu entre David HaMelech e Shaul HaMelech, relatado no "Sefer Shmuel" (um dos livros do Tanach). Goliat (Golias), um guerreiro dos Pelishtim (Filisteus), havia desafiado o povo judeu a mandar seu maior guerreiro para lutar contra ele, e David se voluntariou para representar o povo judeu nesta luta. Quando Shaul perguntou a David porque ele se achava capaz de derrotar Goliat, David respondeu que quando ele era um pastor, certa vez seus rebanhos foram ameaçados por um leão e um urso. Apesar da dificuldade e do perigo da situação, David conseguiu se levantar e matar os dois animais. Mas Shaul não se convenceu com as palavras de David e argumentou que matar animais selvagens ainda não indicava que ele seria capaz de matar um guerreiro tão experiente quanto Goliat. David então explicou que, da mesma maneira que D'us o havia ajudado a matar os animais selvagens, Ele também o ajudaria a matar Goliat (Shemuel I 17:32-38).

Esta conversa de Shaul com David não é fácil de entendida. Por que David, em seu primeiro argumento, mencionou apenas o fato de ter conseguido matar os animais, ao invés de já ter dito desde o início que, da mesma forma que D'us o havia ajudado a matar os animais, Ele também o ajudaria a matar Goliat? Por que ele quis inicialmente demonstrar a sua própria força, ao invés de ressaltar que é D'us que faz tudo?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em um interessante ensinamento do Talmud Yerushalmi (Bikurim 3:3), que afirma que quando uma pessoa é elevada a um novo cargo, com um nível de responsabilidade maior, então é concedido a ela o perdão por suas transgressões. Mas qual é a relação entre assumir um novo cargo e o perdão? Quando uma pessoa assume um novo cargo, a posição por si só já desperta nela novos talentos e habilidades que ela não possuía anteriormente. Por causa desta transformação, ela é considerada como se fosse uma nova pessoa e, portanto, é concedido a ela o perdão por seus erros anteriores.

É justamente isto que o Midrash vem nos ensinar. As novas habilidades e talentos que a intervenção Divina desperta na pessoa é apenas uma amplificação e um aprimoramento de um potencial já pré-existente. D'us ajuda a pessoa, em uma certa área na qual ela já tem uma propensão natural, a se desenvolver ainda mais. Quando David mencionou para Shaul que ele havia matado o leão e o urso, ele estava transmitindo que D'us já havia dado a ele a habilidade natural de ser um guerreiro. E David também sabia que, quando fosse colocado em uma circunstância que exigia maiores habilidades, D'us então aprimoraria seus talentos naturais para assegurar que ele saísse vitorioso. Por isso ele ressaltou inicialmente sua própria força, isto é, sua tendência natural, e somente depois ressaltou a ajuda Divina na batalha contra Goliat.

Este conceito de crescimento e adequação às novas responsabilidades é ressaltado nas palavras finais do Midrash, que nos ensina que, apesar de Shaul ser um dos homens mais altos do povo judeu, quando ele retirou sua armadura e colocou-a sobre David, ela coube perfeitamente. A ajuda Divina que veio com as novas responsabilidades de David fez com que ele aumentasse sua estatura física, a ponto dele caber perfeitamente na armadura de Shaul.

Ao entender as palavras de David no seu diálogo com Shaul, podemos entender também porque que o Midrash cita a consagração dos Cohanim como sendo a fonte para a força física do Cohen Gadol. Embora a façanha de levantar vinte e dois mil homens em um dia somente pode ser realizada através da ajuda Divina, Aharon foi escolhido justamente por já possuir a habilidade natural da força física, que pôde ser aprimorada através da intervenção milagrosa de D'us. Se ele não tivesse esse potencial, então não teria sido o escolhido para esta função. Por isso o versículo serve como prova da força do Cohen Gadol, pois apesar de não ter a força sobre-humana de levantar milhares de pessoas, Aharon já tinha o talento natural, o suficiente para que a intervenção Divina tornasse a façanha de consagrar os Leviim algo possível.

Este ensinamento pode ser aplicado em nossas vidas. Muitas vezes temos medo de arriscar, de assumir novas responsabilidades e enfrentar novos desafios na vida. Da Parashat aprendemos que, quando queremos fazer o que é correto, D'us nos ajuda e revela novas habilidades que nem imaginávamos ter dentro de nós. Devemos sempre almejar crescer mais e alcançar novos patamares, andando sempre no caminho correto e de acordo com as nossas inclinações e aptidões naturais. Devemos fazer a nossa parte e descobrir as nossas forças, mas sem esquecer que, em última instância, quem realmente faz tudo acontecer é D'us.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

Lv 21:1-24:23, Ez 44:15-31

sábado, 14 de maio de 2016

ESFRIANDO OS ÂNIMOS - PARASHAT KEDOSHIM 5776

"Nachum e Chani eram dois jovens judeus que haviam chegado à idade de se casar. Eles foram apresentados um ao outro por um "Shadchan" (profissional que apresenta pessoas com o propósito de casamento) e, após alguns encontros, perceberam que tinham muito em comum. Os encontros estavam indo tão bem que chegaram a pensar em ficarem noivos.

Porém, antes do noivado se concretizar, o Shadchan recebeu uma grande soma de dinheiro para procurar um bom rapaz para uma garota americana que estava estudando em Israel. Pensando em todos os rapazes que conhecia, o Shadchan chegou à conclusão de que Nachum seria perfeito para aquela menina americana. Completamente cego pelo dinheiro, ele bolou um plano perverso para terminar o relacionamento de Nachum e Chani. Em primeiro lugar, ele contatou os pais de Nachum e disse a eles: "Ouçam, estou feliz com este belo Shiduch do Nachum com a Chani, mas eu gostaria de dizer algo a vocês, para que não surjam queixas contra mim após o casamento: os pais da Chani estão espalhando maus rumores sobre vocês". Os pais de Nachum ficaram arrasados com aquela notícia, e imediatamente decidiram interromper o Shiduch.

Não querendo correr riscos, o Shadchan ainda foi falar com os pais de Chani: "Escutem bem, eu não quero que vocês tenham problemas depois do casamento. Eu sei que parece um belo Shiduch da Chani com o Nachum e que tudo está indo bem, mas quero que vocês saibam que a família de Nachum está espalhando rumores desagradáveis ​​sobre vocês". Ao escutar isso, os pais de Chani também prontamente decidiram interromper o Shiduch. Nachum, que agora estava livre para conhecer outras moças, foi apresentado à garota americana, mas o Shiduch acabou não dando certo.

Três meses depois, Nechemia, o pai de Nachum, pensando sobre todo o incidente, não conseguia entender por que Efraim, o pai de Chani, teria espalhado rumores sobre eles. Ele o conhecia desde os tempos em que ainda eram jovens estudantes da Yeshivá e sabia que Efraim não era este tipo de pessoa. Ele decidiu conversar com Efraim pessoalmente para esclarecer a história.

- Por que você fez isso, de espalhar maus rumores sobre nós? - perguntou Efraim, muito chateado - Nós te fizemos algo?

- Eu? - perguntou confuso Efraim - Fomos informados de que vocês fizeram isso, Nechemia! Estávamos muito chateados, pois escutamos que vocês estavam espalhando maus rumores sobre nossa família!

Após alguns instantes de confusão, Efraim e Nechemia entenderam que tudo havia sido um plano do Shadchan que, por ganância, havia causado toda aquela confusão. Chamaram os filhos, conversaram com eles e, naquela mesma noite, um prato foi quebrado e o noivado de dois jovens que não cabiam em si de tanta alegria foi realizado".

Quantos aborrecimentos e sofrimentos poderiam ter sido evitados se, ao invés de guardarmos rancor no coração, tivéssemos a grandeza de julgar as pessoas para o bem e tentássemos esclarecer a situação antes de tomarmos decisões precipitadas? (História real, retirada do livro "Impact!", de autoria de Dovid Kaplan).
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Nesta semana lemos a Parashat Kedoshim (que literalmente significa "Sagrados"), que está repleta de Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), nos ensinando que, para atingirmos um nível de santidade elevado, não é suficiente apenas nos preocuparmos com o nosso relacionamento "Bein Adam LaMakom" (entre o homem e D'us), também é fundamental sermos muito cuidadosos nos nossos relacionamentos interpessoais. E entre as Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" trazidas na Parashat, há uma que é extremamente importante para o nosso cotidiano: "Não odeie seu companheiro em seu coração; advirta seu companheiro e não carregue sobre ele a transgressão" (Vayikrá 19:17).

É importante lembrar que, quando a Torá utiliza a palavra "ódio", não se refere apenas a um nível de ódio venenoso e prejudicial, mas inclui também níveis muito menores de descontentamento com o próximo. Por isso, precisamos ser muito cuidadosos nos nossos relacionamentos e com os nossos sentimentos em relação às outras pessoas. Porém, este versículo desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, a Torá está ressaltando que é proibido odiar outra pessoa no coração, o que aparentemente nos ensina que o problema é apenas quando o ódio fica guardado no coração. Pode ser que o ódio expressado externamente não está proibido pela Torá? Isto parece estranho, em especial por sabermos que o sentimento de ódio gratuito é tão grave que causou a destruição espiritual do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Além disso, qual é a conexão entre as diferentes partes do versículo, que aparentemente não tem nenhuma relação entre si? E, finalmente, o que significam as palavras "e não carregue sobre ele a transgressão"?

De acordo com o Talmud (Erchin 17b), realmente a proibição descrita no versículo se refere apenas ao ódio que fica guardado no coração da pessoa e não inclui, por exemplo, o ódio expressado externamente. Obviamente que é proibido expressar o descontentamento com outra pessoa de uma maneira hostil, que causa sofrimentos, e caso a pessoa faça isso, pode transgredir uma série de outras graves transgressões, como "não se vingar" e "não guardar rancor". Porém, aquele que expressa seu rancor e seu descontentamento não transgride a Mitzvá de "Não odeie seu companheiro em seu coração", pois neste caso o ódio não ficou guardado no coração. De acordo com o Sefer HaChinuch (Mitzvá 238), apenas transgride esta Mitzvá aquele que, ao ser machucado por alguém, guarda o ódio dentro de si e não tenta expressar seus sentimentos para a pessoa que o machucou. Mas por que a Torá focou, nesta Mitzvá, apenas o ódio do coração?

Quando a pessoa machucada discute com o agressor e vai tirar satisfações, normalmente o ódio diminui. Porém, quando a pessoa não toma nenhuma atitude, ela faz com que o ódio cresça dentro dela, causando consequências ainda mais graves. Um exemplo disso é o incidente descrito no Tanach sobre os filhos de David HaMelech (Rei David), Amnon, Tamar e Avshalom. Amnon cometeu um erro gravíssimo com sua meia-irmã Tamar, causando em Avshalom, irmão de Tamar, um ódio enorme. Nossos sábios afirmam que se Avshalom tivesse ido falar com Amnon sobre o que aconteceu, seu ódio teria se dissipado. Mas, ao invés disso, Avshalom guardou o ódio em seu coração, causando com que este ódio fosse crescendo e se tornando doentio, até o ponto em que ele se levantou e, dois anos depois, assassinou Amnon. Apesar do ato de Amnon ter sido abominável e de Avshalom ter aparentemente o direito de estar furioso com o que aconteceu, no entanto o grande erro de Avshalom foi não ter ido falar com Amnon, e assim ter deixado o ódio crescer até chegar ao ponto de causar, além do assassinato, outras terríveis consequências futuras descritas no Tanach.

Foi por isso que nesta Mitzvá a Torá focou justamente no ódio guardado dentro do coração, pois é um ódio que tem um agravante não encontrado no ódio expressado externamente. Guardar no coração pode resultar em uma intensificação do ódio e pode trazer consequências ainda mais desastrosas, o que poderia ter sido evitado se tivesse sido colocado para fora. O Sefer HaChinuch explica que esta diferença faz com que o ódio no coração seja ainda pior do que o ódio expressado, pois causa um enorme mal entre as pessoas, além de conflitos permanentes entre irmãos e amigos.

Com este conceito podemos entender a continuação do versículo: "Advirta seu companheiro". Em um entendimento mais simples, estas palavras referem-se à Mitzvá de repreender o próximo quando o vemos cometendo alguma transgressão. Da mesma maneira que existe o crime de "omissão de socorro", quando alguém não faz nada para salvar uma pessoa que está em risco de vida, também existe a "omissão de socorro espiritual", quando alguém vê seu companheiro fazendo uma transgressão, isto é, manchando sua própria alma e colocando seu futuro espiritual em risco, e não faz nada para salvá-la. Porém, estas palavras do versículo também têm outro significado, e inclui uma situação na qual a pessoa foi ferida verbalmente por seu companheiro. Neste caso, a pessoa não deve guardar a mágoa para si, em seu coração, ao contrário, ela deve falar com quem a agrediu. "Advirta seu companheiro" significa que, ao invés de guardar no coração, coloque o que está incomodando para fora, de uma maneira educada e controlada, advertindo quem lhe agrediu.

De acordo com o Rav Chaim ben Atar zt"l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Or HaChaim, há dois possíveis resultados de expor para a pessoa que nos agrediu, de forma equilibrada, a dor que ela nos causou: a pessoa pode explicar o seu lado da situação, mostrando que, na realidade, tudo não passou de um grande mau entendido, ou ela pode admitir que se comportou de maneira inadequada e, agora que percebeu o dano que causou, pedirá desculpas e se comprometerá a não errar novamente. Isto explica as palavras finais do versículo: "Não carregue sobre ele a transgressão", isto é, mesmo que alguém te machuque, você não deve imediatamente assumir que a pessoa fez uma transgressão intencional. Ao contrário, não jogue sobre ela a culpa, julgue-a de maneira favorável e dê a ela uma chance de se explicar. Dê o benefício da dúvida a todas as pessoas, pois mesmo que alguém tenha errado, ao conversarmos com ela sobre o seu erro, ela poderá se arrepender de coração ao perceber os danos que causou.

Explica o Rav Yehonasan Gefen que desta Mitzvá aprendemos o quanto é grave e condenável guardar ódio em nossos corações, e o quanto uma simples conversa pode ser importante para dissipar o ódio acumulado. A experiência demonstra que, quando seguimos as instruções da Torá nesta área, o resultado quase sempre é que a pessoa se explica ou pede desculpas pelos danos não intencionais causados. A grande maioria das pessoas não é ruim e não tem intenção de causar danos e machucar. Por isso, quando a pessoa que foi agredida com duras palavras explica ao agressor como ela está se sentindo mal, o resultado é quase sempre positivo, evitando uma desnecessária intensificação do ódio e acabando com futuras dores e sofrimentos.

Não é fácil abordar alguém que nos machucou, ainda mais de uma maneira calma e educada. Porém, o medo de que não dará certo não nos isenta da obrigação da Torá de tentarmos esclarecer a situação. Existe uma importante Mitzvá de julgar para o bem e nunca acreditar nas primeiras impressões. Esta Mitzvá pode nos salvar da transgressão de "Não odeie seu companheiro em seu coração" e suas terríveis consequências. Muito sofrimento e dor são causados por problemas que nem mesmo existem na realidade, e tudo poderia ser resolvido com uma conversa franca e aberta.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 19:1-20:27, Ez. 22:1-l9

sábado, 7 de maio de 2016

DO FUNDO DO POÇO PARA O CÉU - PARASHAT ACHAREI MÓT 5776

"Por volta do ano de 1900 havia um judeu em Jerusalém muito pobre, chamado Sr. Pessach, que se mudou para a cidade de Tzefat. Tudo o que ele tinha era um volume do Talmud com dois Tratados, Beitzá e Rosh Hashaná, que ele revisou três mil vezes. Depois que ele faleceu, sua família decidiu escrever este fato em sua lápide, para que as pessoas que visitassem seu túmulo vissem o que é o amor verdadeiro pelo estudo da Torá.

Mais de cem anos depois, um garoto de dezesseis anos chamado David (nome fictício) estava tendo problemas na Yeshivá. Ele simplesmente não conseguia entender o Talmud e não conseguia se concentrar nas aulas. Sem se aconselhar com ninguém, David decidiu abandonar a Yeshivá. Infelizmente, depois disso ele começou a andar com um grupo de rapazes de má índole, e os amigos da Yeshivá ficaram sem escutar notícias dele por um bom tempo.

Porém, certo dia, cerca de seis meses depois, David ressurgiu de repente na Yeshivá. Sentou-se na sua mesa, abriu seu livro do Talmud e começou a estudar com fervor, como se houvesse fogo dentro dele. O Rosh Yeshivá (Diretor espiritual), curioso, aproximou-se dele e perguntou:

- David, o que aconteceu com você? Sinceramente, eu achei que não te veria nunca mais na Yeshivá. O que te fez voltar, e com tanto fervor?

- Rav, eu vou te contar - respondeu David - Quando eu saí da Yeshivá, me envolvi com um grupo de amigos que eram uma péssima influência. Eles não levavam a vida a sério, estavam sempre com bebidas e drogas, se envolviam em pequenos furtos e ficavam vagando sem destino. Nós saímos de Jerusalém e fomos para Tel Aviv, depois para Netanya, e para várias outras cidades, dormindo em bancos de praça e em albergues. Nossa vida era completamente vazia e sem sentido, ninguém naquele grupo tinha qualquer objetivo na vida. Um dia chegamos à cidade de Tzefat e, quando estávamos vagando por um velho cemitério, uma das lápides chamou minha atenção. A inscrição dizia: "Aqui jaz o Sr. Pessach, que revisou os Tratados de Beitzá e Rosh Hashaná três mil vezes". Foi um grande choque para mim, pois pensei: "Enquanto eu estou vivendo uma vida completamente vazia e sem sentido, há pessoas que realmente levam a vida a sério". Eu odiei tanto continuar naquela vida vazia e sem sentido que decidi voltar para a Yeshivá, com uma vontade renovada, e desta vez eu garanto que não vou mais embora" (História Real)

Muitas pessoas acabam, em algum momento da vida, se questionando sobre viver sem sentido. Algumas tomam atitudes e mudam, outras infelizmente ficam apenas nos questionamentos.
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A Parashat desta semana, Acharei Mót (que literalmente significa "Depois da morte"), descreve todos os serviços que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) fazia no Beit Hamikdash (Templo Sagrado) no dia mais sagrado do ano, Yom Kipur, o "Dia da Expiação" do povo judeu. Além disso, a Parashat também traz uma lista de vários tipos de relacionamentos íntimos proibidos, muitos que implicavam até mesmo em pena de morte. Porém, antes de listar os relacionamentos proibidos, a Torá faz uma interessante introdução: "Não façam as práticas da terra do Egito, na qual vocês moraram; e não façam as práticas da terra de Knaan, para onde Eu trago vocês" (Vayikrá 18:3). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que os egípcios e os habitantes de Knaan eram as nações moralmente mais decadentes da face da Terra. E, em especial, as regiões onde os judeus moravam eram as piores e mais corrompidas de todas. Sabemos que não existem coincidências, então por que D'us intencionalmente colocou o povo judeu em lugares tão corrompidos e moralmente degradados?

Responde o Rav Eliyahu Dessler zt"l (Império Russo, 1892 - Israel, 1953) que deste ensinamento podemos aprender algo muito importante sobre como reagir às más influências dos ambientes onde vivemos. Normalmente somos fortemente influenciados pela sociedade na qual vivemos, e quando esta sociedade fica repleta de pessoas com má índole, mesmo as boas pessoas acabam recebendo influências negativas. Porém, se a pessoa é forte o suficiente para superar estas más influências, não permitindo que elas afetem seus valores morais, então acontece algo incrível: estas más influências podem até mesmo ajudá-la a fortalecer sua espiritualidade e seu serviço Divino. Mas como pode ser que más influências podem nos deixar espiritualmente mais fortes?

Tudo o que D'us faz no mundo material nos ensina algo sobre o mundo espiritual. Por exemplo, como funcionam as vacinas, que nos protegem de vários tipos de doenças? No processo de imunização, a vacina injeta no corpo da pessoa os próprios vírus e bactérias que causam certas doenças, mas já mortos ou enfraquecidos. O nosso sistema imunológico, ao perceber a presença destes "corpos estranhos", produz anticorpos, um verdadeiro "exército de proteção" contra estes vírus e bactérias. A partir do momento em que o corpo produziu os anticorpos, mesmo que o vírus e a bactéria entrem na pessoa, são facilmente combatidos e não conseguem infectá-la. Isto quer dizer que o princípio ativo da vacina é justamente utilizar a doença para produzir uma pessoa mais forte e saudável.

Este mesmo princípio pode se aplicar em nossa espiritualidade. Explica o Rav Dessler que quando a pessoa vê em volta de si um ambiente negativo e consegue vencer as más-influências, o mal se torna ainda mais repugnante aos seus olhos, pois ela consegue alcançar um reconhecimento mais profundo das falhas e defeitos da sociedade onde vive, permitindo que ela se fortaleça ainda mais em sua apreciação do bem. Isto explica o movimento tão forte dos "Baalei Teshuvá", pessoas que abandonaram vidas seculares e se conectaram aos valores milenares da Torá. Normalmente os "Baalei Teshuvá" são pessoas que enxergaram que estavam vivendo em sociedades sem objetivos e sem sentido, e cuja moralidade se degradava diante dos seus olhos em uma velocidade impressionante. E é justamente por terem enxergado este lado tão baixo da sociedade que os "Baalei Teshuvá" acabam se tornando "militantes" na tentativa de ajudar outras pessoas a despertarem do sono espiritual e começarem a viver uma vida com mais sentido e moralidade.

Isto quer dizer que D'us intencionalmente colocou o povo judeu no Egito, um lugar moralmente degradado e baixo, para que os judeus pudessem desenvolver um profundo ódio por toda aquela impureza. De acordo com o Rav Dessler, a repugnância que eles desenvolveram pela impureza espiritual do Egito, mais do que os sofrimentos físicos, foi o que verdadeiramente motivou os judeus a gritarem para que D'us os libertasse daquele lugar terrível. E foi justamente esta repugnância que permitiu que eles crescessem espiritualmente de maneira tão intensa e rápida, saindo do nível 49 de impureza e atingindo, em pouco tempo, o nível de santidade necessária para poderem receber a Torá no Monte Sinai. Se eles estivessem em um ambiente menos imoral, não teriam sido capazes de crescer tanto e de maneira tão rápida.

Isto também explica por que o povo judeu teve que ir para uma terra igualmente repugnante. Parte do plano de D'us era que o povo judeu visse o comportamento completamente imoral dos habitantes da terra de Knaan e desenvolvesse uma aversão ao mal, o que elevaria sua apreciação pela moralidade contida na Torá. Obviamente os judeus tinham o livre arbítrio, isto é, podiam tanto rejeitar completamente os maus hábitos dos habitantes de Knaan quanto aceitá-los como vizinhos e, com isso, serem influenciados de forma negativa. Infelizmente a história nos ensina que eles não destruíram completamente seus vizinhos e, com o tempo, acabaram sendo influenciados de forma negativa por eles. É justamente o mesmo teste que cada um de nós passa na vida: aceitar os valores imorais da sociedade e, infelizmente e sem perceber, acabar vivendo de acordo com eles, ou refutá-los completamente e enxergá-los como sendo hábitos ruins e repugnantes.

É por isso que vemos que, durante toda a história do povo judeu, fomos colocados por D'us em ambientes muito negativos e corrompidos, desde a época dos nossos patriarcas. Na verdade, todas as vezes que D'us queria que alguém alcançasse níveis espirituais extremamente elevados, Ele lançava esta pessoa nos ambientes mais baixos e corrompidos, para que esta pessoa pudesse aprender o quanto o mal pode ser algo baixo e negativo, e assim se fortalecer para buscar o extremo oposto, o bem absoluto.

Este conceito do Rav Dessler nos ajuda a entender uma passagem interessante da Hagadá de Pessach, que descreve o processo de libertação do povo judeu da terrível escravidão do Egito. No início da Hagadá mencionamos que nossos antepassados foram idólatras. Porém, como isto se conecta com a história da saída do Egito? A resposta é que justamente pelo fato de Avraham Avinu estar rodeado por tanta negatividade é que ele conseguiu chegar a um nível tão alto de santidade, a ponto de sua força espiritual nunca mais ser anulada. A redenção do Egito brotou diretamente da santidade alcançada por Avraham. Por isso mencionamos na Hagadá que nossos antepassados foram idólatras, justamente para ressaltar que o crescimento de Avraham e o incrível nível espiritual que ele chegou foi consequência direta da impureza do ambiente no qual ele vivia, e foi esta grandeza que plantou a semente da saída do Egito.

Ensina o Rav Yehonasan Gefen que é por isso também que a Hagadá menciona muitas más influências, que incluem nossos ancestrais idólatras, os egípcios malvados e Lavan, o arameu, conhecido por sua maldade e malandragem. Talvez a intenção dos nossos sábios que compilaram a Hagadá era despertar o nosso desgosto e aversão por comportamentos tão imorais, elevando assim nossa apreciação de D'us por ter nos salvado deles, fisicamente e espiritualmente, e por ter nos dado a Torá, nosso "Manual" de boas condutas.

No mundo de hoje é quase inevitável sermos "contaminados" pelas más influências. Somos bombardeados diariamente, através das notícias, dos filmes e das pessoas à nossa volta, com mensagens negativas. Comportamentos promíscuos, enganação, roubo e todos os tipos de desonestidade se banalizaram. Atualmente a exceção é ser correto e honesto. Obviamente que o mais aconselhável é nos esforçarmos para reduzir ao máximo estes tipos de influências negativas em nossas vidas. Apesar disso, devemos estar conscientes de que é impossível estarmos completamente "blindados". O ensinamento do Rav Dessler nos ajuda a ver nossa realidade de uma maneira diferente, para aprendermos a lidar com estas influências negativas, e talvez até mesmo utilizá-las para o bem. Quando observamos a decadência da sociedade ocidental, e para onde a falta de moralidade está levando a vida das pessoas, podemos melhorar nossa apreciação da beleza do estilo de vida equilibrado ensinado pela Torá. Pois quanto mais escuro, mais apreciamos o brilho de uma luz.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv 16:1-18:30, Am 9:7-15 (Ash.), Ez. 22:1- 16

sábado, 30 de abril de 2016

VENCENDO AS TENTAÇÕES - PESSACH II 5776

O Conde Valentine Potocki vinha de uma família nobre da Polônia. Ao viajar pelo mundo, encontrou-se com um erudito judeu estudando o Talmud (Torá Oral) e se interessou pela sabedoria milenar da Torá. Em pouco tempo ele se converteu ao judaísmo e ficou conhecido como Avraham ben Avraham, o famoso "Ger Tzedek (convertido) de Vilna". Naquela época, a Inquisição perseguia todos aqueles que abraçavam outra fé. Avraham foi aconselhado pelo Rav Eliahu zt"l (Lituânia, 1720 - 1797), mais conhecido como Gaon MiVilna, a se esconder em uma sinagoga na pequena cidade de Ilya.

Naquela cidade havia alguns jovens garotos judeus sem educação, que ficavam o tempo inteiro zombando de Avraham e insultando-o, chamando-o de "falso" e "farsante". Avraham escutava as ofensas em silêncio e nunca respondia de volta. Porém, um dia ele acabou perdendo a paciência e gritou com um dos garotos, ensinando-lhe a ter bons modos. O garoto ficou assustado e contou o ocorrido ao pai, obviamente sem mencionar o quanto eles haviam humilhado o homem. O pai do garoto, que tinha contato com as autoridades, ficou muito irritado e delatou Avraham aos inquisidores da Igreja, informando seu esconderijo na sinagoga. Infelizmente Avraham ben Avraham foi preso, julgado pela Inquisição e, ao se recusar a abandonar o judaísmo e voltar à sua crença anterior, foi condenado a morrer na fogueira em praça pública. No dia marcado para a execução, pouco antes de acender a fogueira, um dos monges disse para ele de maneira cínica:

- Não se preocupe, neste mundo nós vamos matá-lo, mas no Mundo Vindouro você poderá se vingar de nós.

Avraham ben Avraham tinha muita Emuná (fé) em D'us. Sem perder a tranquilidade, ele deu um sorriso e, olhando diretamente nos olhos do monge, respondeu:

- Você realmente acha que no Mundo Vindouro eu estarei pensando sobre esse ato insignificante de queimar o meu corpo finito? No momento em que minha alma estiver sendo exposta à verdade suprema, certamente a vingança será o pensamento mais distante da minha mente.

O monge ficou surpreso ao escutar aquela declaração de fé de um homem que não se abalava mesmo diante de uma morte dolorosa e terrível. Mas Avraham ben Avraham ainda não havia terminado, e acrescentou:

- E eu garanto que não vou descansar no Mundo Vindouro até conseguir que o homem que me delatou seja salvo do Gehinom (local onde as pessoas passam por sofrimentos espirituais após a morte, para expiar erros cometidos em vida).

Avraham ben Avraham morreu santificando o nome de D'us, de forma corajosa e heroica. Como muitos do povo judeu, ele conseguiu chegar ao nível de colocar a vontade de D'us na frente de suas próprias vontades, chegando a um nível mais alto até mesmo que os anjos (História Real).
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A partir do anoitecer desta quinta-feira (28/04) novamente teremos um Yom Tov, o "Shevii de Pessach" (Sétimo dia de Pessach). O primeiro dia de Pessach é Yom Tov, pois foi o dia em que o povo judeu saiu do Egito. Mas o que houve de especial no sétimo dia para que também fosse Yom Tov? Explicam os nossos sábios que, apesar de já terem saído fisicamente do Egito, os judeus ainda se sentiam escravos, incapazes de lutar contra seus opressores. A prova disso é que os egípcios voltaram a perseguir os judeus no deserto e, apesar dos judeus estarem em esmagadora maioria, eles ainda não conseguiam se levantar contra seus opressores. Vendo-se diante do Mar Vermelho, intransponível, e perseguidos pelos egípcios, os judeus gritaram desesperadamente para D'us. Era o sétimo dia depois da saída do Egito, e neste dia aconteceu o incrível milagre da abertura do Mar Vermelho, permitindo a passagem do povo judeu em terra firme. Mesmo vendo aquele incrível milagre, os egípcios continuaram perseguindo os judeus até dentro do mar, até que as águas fecharam-se sobre os egípcios, matando-os. Os judeus somente se sentiram seguros e livres de verdade quando viram na praia o corpo dos seus opressores. A escravidão havia acabado de vez.

Pessach é a festa do agradecimento e do louvor a D'us por todas as bondades e milagres que Ele fez, nos libertando fisicamente e espiritualmente do Egito. Durante todos os dias de Pessach recitamos o Halel, que é composto por diversos capítulos de Tehilim (Salmos) que trazem louvores a D'us. Em um dos Tehilim está escrito: "Quando o povo judeu saiu do Egito... O mar viu e fugiu" (Salmos 114:1,3). Segundo nossos sábios, este versículo refere-se à abertura do Mar Vermelho. Mas o que fez o mar "fugir", isto é, se abrir? Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que o mar se abriu ao ver Moshé carregando o caixão de Yossef. Mas por que Moshé estava carregando o caixão de Yossef?

Yossef, filho do nosso patriarca Yaacov, após ter sido vendido como escravo, acabou tornando-se o vice-rei do Egito e conseguiu salvar toda a sua família da terrível fome que também atingiu a terra de Israel. Yossef já sabia que o povo judeu permaneceria por muitos anos no Egito, mas que um dia voltariam para Israel. Antes de falecer, Yossef pediu para que os judeus prometessem que, quando saíssem do Egito, levassem seu corpo para ser enterrado em Israel. No momento em que finalmente saíram do Egito, enquanto o povo judeu inteiro estava preocupado em pedir aos egípcios ouro e prata, para sair  com riquezas, Moshé estava preocupado em cumprir a promessa e se ocupou pessoalmente em pegar o caixão de Yossef, como disse o mais sábio de todos os homens, Shlomo HaMelech (Rei Salomão): "Aquele que é sábio no coração pega Mitzvót" (Mishlei 10:8).

Porém, se D'us havia ordenado ao mar que abrisse suas águas para permitir a passagem do povo judeu, então por que foi necessário que o mar visse o caixão de Yossef? Não era suficiente a ordem do Criador do Universo? Responde o Rav Yaacov Naiman zt"l (Bielorússia, 1909 - EUA, 2009) que se D'us realmente tivesse ordenado ao mar que se abrisse, certamente o mar teria cumprido imediatamente a vontade de D'us e não haveria necessidade de nenhum outro elemento externo. Mas neste caso D'us não havia ordenado nada diretamente ao mar, e sim havia pedido para Moshé: "Levante seu cajado, estenda sua mão ao mar e abra-o" (Shemot 14:16). Isto quer dizer que não foi D'us que ordenou diretamente ao mar que se abrisse, e sim Moshé que deveria ordenar. Mas com que força Moshé poderia fazer algo tão incrível?

Podemos aprender regras espirituais importantes prestando atenção nos pequenos detalhes do cotidiano. Por exemplo, o que podemos aprender de um simples jogo de damas? Em primeiro lugar, aprendemos que somente podemos ir para frente, nunca para trás. Também aprendemos que não podemos saltar casas, apenas caminhar uma de cada vez. Mas há uma regra ainda mais interessante no jogo de damas: quando você chega ao outro lado do tabuleiro e faz uma dama, as regras anteriores já não se aplicam mais. A peça pode se movimentar em qualquer direção e saltar quantas casas quiser.

Explica o Rav Naiman que o mesmo se aplica em nossas vidas. O mundo material foi criado com certas leis físicas que se aplicam a todos os seres humano. Porém, a pessoa que é um Tzadik (Justo), isto é, que se elevou ao se comportar de uma maneira exemplar, quebrando suas próprias vontades para cumprir a vontade de D'us, torna-se um sócio de D'us na Criação do Universo. O Tzadik tem o poder de ordenar ao mar que ele se abra, não apenas como um intermediário de D'us, mas pelo seu próprio potencial alcançado. Ao se elevar e se conectar de uma maneira especial com D'us, ele adquire o poder de mudar as leis da natureza, como afirma o Talmud (Moed Katan 16b) que quando um Tzadik decreta, D'us cumpre. Foi baseado nisso que D'us pediu a Moshé que ordenasse ao mar que se abrisse para a passagem do povo judeu. Porém, apenas a ordem de Moshé não foi suficiente, pois de acordo com o Midrash o mar argumentou: "É verdade que ele cumpre a vontade de D'us, mas eu também cumpro, então por que eu deveria escutá-lo?". Somente quando o mar viu o caixão de Yossef e percebeu a verdadeira grandeza do ser humano é que ele se rendeu e escutou a ordem de Moshé.

Cada um dos nossos antepassados que se destacaram recebeu um "apelido", que descreve a área em que ele se destacou. Por exemplo, nossos patriarcas são chamados de "Avinu" (nosso pai), pois deles herdamos a nossa "genética espiritual". Moshé é chamado de "Rabeinu" (nosso mestre), pois dele recebemos a Torá. Yossef é chamado de "Tzadik" (Justo). Por que? Pois ele era um homem extremamente rico, poderoso e bonito. Tinha o Egito inteiro aos seus pés, a ponto das mulheres egípcias subirem nos muros da cidade para vê-lo passar, e mesmo assim ele teve autocontrole e nunca se corrompeu. Porém, seu maior teste aconteceu quando ele ainda era um simples escravo do Potifar, um dos ministros do Faraó. A esposa de Potifar, encantada com a beleza de Yossef, por diversas vezes tentou seduzi-lo, mas Yossef conseguiu resistir. O teste foi extremamente difícil, pois ela era uma mulher muito atraente e persistente, e causava tentações diárias a Yossef. Um dia ela perdeu a paciência com as constantes recusas de Yossef e agarrou-o pela roupa. Yossef sabia que era mais forte que ela e que poderia facilmente lutar e se soltar, mas teve medo de ser vencido pelo seu Yetzer Hará (má inclinação) se continuasse perto dela por mais alguns instantes. Ele preferiu deixar seu casaco nas mãos dela e fugir da tentação, apesar de saber das possíveis consequências do seu ato. E como ele temia, aquele casaco foi usado como prova da culpa de Yossef em uma falsa acusação feita pela esposa do Potifar contra ele, o que lhe custou 12 anos na prisão.

É por isso que o Midrash disse que o mar fugiu quando viu o caixão de Yossef. Da mesma forma que Yossef fugiu da transgressão, de forma heroica, vencendo seus próprios desejos para cumprir a vontade de D'us, assim também o mar "fugiu", isto é, se rendeu diante de Yossef HaTzadik e abriu suas águas. Quando uma pessoa passa por testes difíceis e consegue vencer, ela se eleva a um nível acima até mesmo dos anjos. Diante da grandeza de Yossef, o mar entendeu que não podia ir contra a vontade dos Tzadikim, que passam por testes e conseguem vencê-los.

A Festa de Pessach é chamada de "Zman Cheruteinu" (A época da nossa liberdade). Não apenas a liberdade física da saída do Egito, mas também a liberdade espiritual. A palavra "Egito", em hebraico, é "Mitzraim", e vem da mesma raiz de "Metzarim", que significa "limitações". Sair do Egito significou sair de tudo o que nos limita e nos prende às regras do mundo material. Através das Mitzvót, que nos ajudam a desenvolver nosso autocontrole, podemos nos elevar acima dos anjos e controlar até mesmo as forças da natureza.

Passamos na vida por muitos testes difíceis. Há duas maneiras de reagir às dificuldades: podemos reclamar da vida e questionar D'us, ou podemos entender que cada teste é uma oportunidade de crescimento. Com cada teste podemos nos elevar e nos libertar dos desejos e vontades que nos aprisionam. Os anjos e o restante de toda a criação fazem a vontade de D'us, mas eles não têm livre arbítrio e não passam por testes. Quando passamos por testes e vencemos, nos elevamos acima de todas as criaturas, inclusive dos anjos. O mundo é sustentado pelos Tzadikim, que conseguem deixar de lado suas vontades e desejos para cumprir a vontade de D'us, mesmo quando é difícil e os desejos parecem ser tentadores.
SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VÊ SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/

sábado, 23 de abril de 2016

Escravos do Mundo Material - Pessach 5776

Eduardo e Fernando eram vizinhos. Eduardo era um fazendeiro muito pobre e simples, enquanto Fernando era um grande latifundiário, com centenas de cabeças de gado e plantações a perder de vista. Apesar das dificuldades, Eduardo costumava estar sempre feliz e de bem com a vida. Ele nunca se preocupava em trancar as portas e janelas de sua casa, e de noite dormia um sono profundo e tranquilo. Por estar sempre de bem com a vida, era uma pessoa pacífica e amigável. Fernando, ao contrário, apesar da tranquilidade financeira, costumava estar sempre muito tenso e irritado. Ele fazia questão de checar sempre se as portas e janelas de sua casa estavam trancadas. De noite ele não conseguia dormir bem, pois estava sempre preocupado que alguém poderia entrar em sua casa e roubar seu dinheiro.

Apesar de serem tão diferentes, Eduardo e Fernando eram muito amigos e gostavam de ficar conversando nos finais de tarde. Certo dia, após escutar de Eduardo as dificuldades que ele tinha para pagar suas contas, Fernando teve uma ideia. Na manhã seguinte, bateu na porta da casa simples de Eduardo e entregou a ele um baú. Eduardo abriu e viu que estava cheio de moedas de ouro, uma verdadeira fortuna. Fernando percebeu a confusão no olhar de Eduardo e explicou:

- Querido amigo, graças a D'us eu fui abençoado com muitas riquezas. Dói ver um amigo tão próximo viver nesta pobreza. Por favor, aceite este presente, para que você possa viver com mais tranquilidade.

Eduardo ficou incrivelmente feliz. Durante o dia inteiro ele ficou alegre, o sorriso não saía de seu rosto, às vezes ele até dava risada sozinho. Mas quando a noite chegou e Eduardo foi para a cama, como de costume, ele não conseguiu dormir. Lembrou-se que as portas e janelas estavam abertas, alguém poderia entrar para roubar seu baú de moedas de ouro. Levantou-se rapidamente, trancou as portas e janelas, verificou se o baú estava bem fechado e foi deitar-se novamente. Mas mesmo assim ele ainda não conseguia dormir. Decidiu trazer o baú para perto da sua cama e ficou deitado, de olhos abertos, vigiando o dinheiro, até que foi vencido pelo cansaço. Já era de madrugada quando adormeceu, e mesmo assim teve um sono leve e perturbado, acordando assustado ao menor ruído. Assim que amanheceu, Eduardo pegou o baú de dinheiro e levou-o de volta para a casa de Fernando. Bateu na porta, entregou a ele o baú e disse:

- Querido amigo, eu serei eternamente grato pelo seu incrível gesto de bondade, mas pegue de volta seu dinheiro. De que me adianta este dinheiro se ele não me deixa nem mesmo dormir tranquilamente? Eu sou pobre, tenho minhas preocupações, mas pelo menos eu durmo em paz. Da mesma forma que este dinheiro, em uma única noite, conseguiu tirar minha paz, tenho certeza de que se eu ficar com ele, ao invés de ganhar algo, eu vou apenas perder".

Passamos a vida buscando acumular bens e dinheiro. O problema é que não percebemos o quanto o mundo material nos escraviza e muda a nossa forma de viver. Preocupações, medos, desejos e arrogância são alguns dos efeitos colaterais do mundo material. Não é necessário fazermos voto de pobreza, mas é importante não deixar o mundo material nos escravizar. É o dinheiro que deve nos servir, e não nós que devemos servir o dinheiro.
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Este Shabat coincide com o início da Festa de Pessach, um dos fundamentos de "Emuná" (fé) do povo judeu e um dos pilares da transmissão, de pai para filho, dos ensinamentos da Torá desde os dias de Moshé Rabeinu. Na noite de Pessach nos sentamos com nossas famílias e fazemos o Seder, recontando e revivendo, com detalhes, os milagres da salvação do povo judeu da terrível escravidão egípcia depois de 210 anos de sofrimentos. E certamente um dos elementos mais marcantes da Festa de Pessach é o nosso "pão não fermentado", conhecido como "Matzá". A Matzá tem um papel de destaque na noite do Seder, quando há inclusive uma obrigação da Torá de comermos dela uma quantidade mínima.

O Rav Yehuda Loew zt"l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, aponta que há uma aparente contradição em relação ao que a Matzá representa. Começamos a Hagadá levantando a Matzá e declarando: "Este é o pão da pobreza, que nossos antepassados comeram na terra do Egito". Esta declaração demonstra um foco na Matzá como um símbolo da pobreza do povo judeu durante a escravidão no Egito. Já quase no fim da Hagadá nós levantamos novamente a Matzá e fazemos outra declaração, mas desta vez relembrando o fato de termos comido a Matzá no momento em que fomos libertados da escravidão do Egito, demonstrando um foco na Matzá como símbolo de liberdade. Como a Matzá pode representar, ao mesmo tempo, dois conceitos tão diferentes, e aparentemente até contraditórios, como pobreza e liberdade?

Para responder esta questão, antes precisamos entender o conceito de escravidão e liberdade, para depois examinarmos qual é a relação destes conceitos com a Matzá. Quando pensamos em escravidão, a primeira ideia que vem à nossa cabeça é uma pessoa acorrentada, obrigada a fazer trabalhos pesados e castigada com duras punições físicas. Porém, o Maharal de Praga define a escravidão de uma maneira muito mais abrangente. Segundo ele, uma pessoa é escrava quando está conectada a coisas que são externas à sua essência, e a pessoa necessita destas coisas externas para darem a ela um senso completo de identidade. A escravidão cria um nível de dependência tão grande que, quando a pessoa não tem as coisas externas que necessita, ela sente-se incompleta, como se faltasse parte de sua própria essência. Além disto, estas coisas externas transformam a pessoa em um escravo por definirem certos aspectos de como a pessoa vive sua vida. Por exemplo, as necessidades de uma pessoa viciada em bebidas ou em drogas são muito influentes em suas escolhas e determinam até o seu estilo de vida.

Mas não é apenas o vício em bebidas ou em drogas que escraviza o ser humano. Também é muito comum as pessoas se tornarem "viciadas" em suas posses materiais. A dependência que as pessoas desenvolvem pelos seus bens influencia de maneira negativa e prejudicial suas decisões de vida. Um triste exemplo, que nos traz dor e sofrimento até hoje, foi o que ocorreu com os judeus da Alemanha. Muitos anos antes do Holocausto acontecer, os judeus alemães já haviam reconhecido as ameaças do regime nazista. Os judeus mais pobres, ao perceberem o perigo iminente, deixaram seus poucos bens para trás e fugiram, conseguindo salvar suas vidas e as vidas de suas famílias. Mas os judeus ricos, que tinham muitas propriedades e bens, sentiram mais dificuldade para deixar tudo aquilo para trás. Infelizmente muitos decidiram ficar na Alemanha e acabaram tendo finais trágicos. A riqueza e as posses daquelas pessoas as levaram a tomar uma decisão completamente equivocada.

A liberdade verdadeira, por outro lado, é reconhecer que nossa essência verdadeira é a nossa alma, e não as nossas posses nem o nosso sucesso no mundo material. Por isso, a pessoa livre não corre o risco de ficar "presa" por causa de seus bens. A pessoa livre vê seus bens apenas como um meio para chegar a um final maior, mas nunca os vê como parte de sua própria essência.

O Maharal de Praga explica como a Matzá está relacionada a estes dois conceitos. A Matzá é uma combinação de farinha e água em suas formas mais básicas. Se a massa é deixada em repouso por algum tempo, ela fermenta e se torna "Chametz", que representa um acréscimo à essência pura da Matzá. Neste sentido, a Matzá representa o conceito de liberdade, isto é, estar livre de qualquer coisa externa à sua essência. O Chametz, ao contrário, é criado apenas quando a levedura cresce e acrescenta algo à combinação bruta de farinha e água. Neste sentido, o Chametz representa um acréscimo à essência pura da Matzá.

Com este entendimento é possível explicar como a Matzá pode representar dois conceitos aparentemente tão diferentes: a pobreza e a liberdade. Uma pessoa que é criada com um padrão de vida alto certamente ficará tão acostumada com este padrão de vida que dificilmente conseguirá, por vontade, se desconectar dele. De certa maneira, podemos dizer inclusive que a pessoa está escravizada, presa a este padrão de vida. Por exemplo, uma mulher que foi criada em uma casa grande, dormindo sozinha em um quarto com suíte particular, encontrará muita dificuldade para dividir o uso do banheiro com outra pessoa, mesmo quando esta outra pessoa for o seu próprio marido. Ao contrário, uma pessoa que começou a vida com pouca bagagem externa, isto é, com poucas posses materiais, considera muito mais fácil evitar tornar-se um escravo das coisas que são externas a ele.

Neste sentido, a pobreza é altamente favorável para alcançar a forma de liberdade descrita pelo Maharal de Praga. Uma pessoa pobre nunca se acostumou a possuir muitos bens, e por isso não está preso a eles. E isto explica como a Matzá pode representar, ao mesmo tempo, a pobreza e a liberdade. A pobreza é algo que contribui para a liberdade, pois a pessoa pobre não é escrava do mundo material e de suas posses materiais. De acordo com isso, o "pão da pobreza" que os judeus comeram no Egito representa que eles não tinham posses que eram externas à sua essência. E pelo fato de não terem nada, foi muito mais fácil para eles atingirem a liberdade de se identificar apenas com sua essência pura.

Mas por que foi importante aos judeus alcançarem este nível de liberdade justamente neste momento? Pois a saída do Egito foi o "nascimento" do povo judeu, um processo que os conduziria ao recebimento da Torá no Monte Sinai. Era essencial que naquele momento o povo estivesse completamente livre de qualquer "bagagem" externa que poderia contaminar sua essência verdadeira. Portanto, o fato deles serem tão pobres durante sua permanência no Egito facilitou que eles desenvolvessem as habilidades necessárias para começarem seu novo papel no mundo como o "Povo de D'us".

Em Pessach, e em especial na noite do Seder, nós tentamos recapturar e reviver este sentimento de liberdade que nossos antepassados atingiram quando saíram do Egito. Nós comemos a Matzá como um lembrete simbólico da necessidade de nos despojarmos das coisas que são externas a nós e procurarmos nossa verdadeira e pura essência. Por isso não é suficiente apenas fazer os rituais do Seder sem tentar internalizar suas mensagens.

Pessach é o momento de examinarmos nosso nível de liberdade, de avaliar o quão estamos escravizados pelos nossos bens e por tudo o que é externo à nossa essência. E é o momento propício para nos lembrarmos da nossa verdadeira essência, nossas almas, e que as realizações espirituais são as únicas coisas que têm um valor verdadeiro.
SHABAT SHALOM E PESSACH KASHER VE SAMEACH

Rav Efraim Birbojm
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Ex. 12:21-51

sábado, 9 de abril de 2016

O QUE CADA UM TEM DE BOM - PARASHAT TAZRIA 5776

Roberto finalmente havia realizado seu sonho de entrar na faculdade de engenharia. Mas aquela empolgação inicial logo se transformou em desespero quando começaram as aulas e ele escutou os professores de Cálculo e Álgebra Linear falando em um dialeto que parecia chinês misturado com russo. Roberto via todos aqueles números anotados na lousa e não entendia nada.

A preocupação ficou ainda maior quando, depois de um mês de aulas, chegou o dia da primeira prova da faculdade. O professor entregou a prova aos alunos e orientou que todos lessem com atenção todas as questões. Roberto, apesar dos traumas iniciais, havia se preparado bem para a prova e começou a responder rapidamente todas as questões, até que chegou à última pergunta: "Qual é o nome da mulher que faz a limpeza das salas de aula?". Roberto pensou que tratava-se de algum tipo de piada. Naquele primeiro mês de aulas ele realmente tinha visto a moça da limpeza diversas vezes. Como ele chegava cedo, sempre a via se esforçando para terminar a limpeza da sala e deixar tudo pronto para o início das aulas. Era uma mulher baixa, de cabelos escuros, com cerca de 50 anos, mas como ele poderia saber o nome dela? Na verdade, ele nunca havia sequer se interessado em saber. Quando entregou sua prova, deixou a última questão em branco, imaginando que era apenas uma brincadeira do professor.

Porém, quando a prova terminou e todos os alunos voltaram para a sala de aula, Roberto tomou coragem e questionou se a última pergunta era séria e se seria levada em consideração na nota da prova. O professor olhou fixamente nos olhos dele e respondeu:

- Obviamente que será levada em consideração, pois esta foi a pergunta mais séria de toda a prova. Na vida profissional você encontrará muitas pessoas. Saiba desde agora que todas elas são importantes e significativas. Todas elas merecem ser valorizadas e terem seu trabalho reconhecido, mesmo que seja através de um sorriso e um "Bom dia".

- Quando vocês chegam à sala de aula de manhã, está tudo limpo e arrumado, pronto para a aula começar, graças a esta moça que faz a limpeza - continuou o professor, se dirigindo a todos os alunos da sala - Se não fosse por ela, perderíamos tempo e despenderíamos esforços na arrumação, ao invés de focarmos na aula. Por isso, temos que saber valorizá-la. O mínimo que vocês deveriam saber era o nome dela, para poder agradecer pela ajuda que ela nos dá todos os dias.

Naquela aula, Roberto aprendeu uma das lições mais importantes de sua vida, que ele jamais esqueceu. Ele aprendeu a enxergar o que cada um tem de melhor, aprendeu a dar importância para cada pessoa e parar de julgar os outros de forma superficial. E também aprendeu que o nome da moça da limpeza era Yvone. 
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Nesta semana lemos a Parashat Tazria (que literalmente significa "Conceber"), que descreve algumas formas de impureza espiritual, entre elas uma doença chamada "Tzaráat". Apesar de ter manifestações físicas, na forma de manchas que surgiam na pele da pessoa contaminada, a Tzaráat era uma doença espiritual. A prova disso é que, caso surgissem manchas na pele de uma pessoa, levantando a suspeita de Tzaráat, ela não ia a um médico dermatologista fazer o diagnóstico, e sim a um Cohen (sacerdote), pois somente os Cohanim estavam aptos a definir se era ou não Tzaráat, como está escrito: "... ele deve ser trazido a Aharon, o Cohen, ou a um de seus filhos Cohanim" (Vayikrá 13:2). Caso a Tzaráat fosse confirmada, a pessoa contaminada precisava iniciar uma série de processos de purificação.

Porém, este versículo desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, por que somente os Cohanim podiam anunciar se aquelas manchas eram uma manifestação de Tzaráat ou não? Se o problema era a dificuldade no diagnóstico por causa dos inúmeros detalhes envolvidos nas leis sobre Tzaráat, então qualquer grande sábio de Torá com conhecimentos específicos nesta área também estaria apto a verificar se as manchas estavam dentro dos padrões estabelecidos pela Torá para a Tzaráat. Porém, por algum motivo, a Torá determinou que apenas os Cohanim estavam aptos a fazer este tipo de verificação. Por que outras pessoas não podiam fazer um "curso prático" de identificação de Tzaráat?

Além disso, é possível perceber que nos diversos serviços feitos no Mishkan (Templo Móvel), a Torá sempre indica quem são os responsáveis pela sua execução de uma maneira mais genérica, isto é, algumas vezes o serviço é atribuído ao "Cohen", enquanto outras ele é atribuído aos "filhos de Aharon, os Cohanim". Por exemplo, está escrito "Os filhos de Aharon, os Cohanim, deverão trazer o sangue e despejar o sangue no altar" (Vayikrá 1:5). Também está escrito: "... e o Cohen queimará tudo no altar" (Vayikrá 1:9). Porém, em relação à Tzaráat, a Torá foi bem específica, determinando que a pessoa contaminada deveria ser trazida diretamente para Aharon ou para um de seus filhos. Por que a Torá se preocupou que Aharon HaCohen estivesse pessoalmente envolvido quando se tratava de um procedimento de diagnóstico de Tzaráat, enquanto nos outros serviços a Torá não foi tão específica?

Responde o Rav Yohanan Zweig que muito frequentemente a maneira como a pessoa valida seu próprio status e aumenta sua autoestima é focando nas falhas e deficiências dos outros. Isto acaba nos transformando em "especialistas" em ver o lado negativo das pessoas, e acabamos sempre procurando as falhas e defeitos dos outros. Mas Aharon HaCohen era diferente, a ponto dos nossos sábios o descreverem da seguinte maneira: "Seja dos discípulos de Aharon: ame a paz e procure a paz; ame as criaturas e as aproxime da Torá" (Pirkei Avót 1:12). Aharon tinha a incrível habilidade de criar harmonia em relacionamentos que anteriormente haviam sido de hostilidade. Qual característica permitia que ele tivesse tanto sucesso nesta área? Ele estava sempre predisposto a focar nos traços positivos dos outros. Ver sempre o lado positivo era o que permitia a Aharon transformar alguém, que anteriormente era um odiado inimigo, em um indivíduo digno de amizade.

Era justamente este traço de caráter que fazia de Aharon a pessoa apta a diagnosticar a Tzaráat em alguém com suspeita de contaminação. Somente uma pessoa que procura o que é positivo no próximo está qualificada para também avaliar as suas falhas. Já a pessoa que tem predisposição de procurar no próximo suas falhas não é capaz de conduzir um julgamento de forma objetiva e imparcial.

É justamente por isso que a Torá atribuiu especificamente a Aharon o diagnóstico de uma pessoa com suspeita de Tzaráat. Em relação aos outros serviços realizados no Mishkan, qualquer Cohen poderia executá-los, pela força do direito adquirido pelos seus ancestrais, e por isso estava escrito "Cohen" de forma genérica. Porém, a habilidade de diagnosticar alguém com Tzaráat emanava da natureza positiva de Aharon, que sabia procurar o que cada um tinha de melhor, ao invés de procurar falhas e defeitos. A perfeição de Aharon nesta característica foi herdada por seus filhos e descendentes, o que deu a eles, e não a nenhum outro grande sábio conhecedor das leis, a objetividade necessária para conseguir enxergar se aquelas manchas eram realmente a manifestação de Tzaráat ou não.

O mais incrível é perceber que a cura da Tzaráat começava justamente com a característica oposta ao que havia causado a doença espiritual. Nossos sábios explicam que a Tzaráat era causada principalmente por causa da transgressão de Lashon Hará, que consiste em denegrir e apontar as falhas dos outros. E esta terrível transgressão é consequência de enxergar sempre o lado negativo das pessoas. Todos têm qualidade e defeitos, pontos fortes e pontos fracos. Portanto, somente fala Lashon Hará aquele que sempre procura nos outros os defeitos. Se procurasse as qualidades, não estaria gastando seu precioso tempo denegrindo o próximo.

Ensinam os nossos sábios: "Todo aquele que possui as três características seguintes é dos discípulos de Avraham... bom olhar, espírito humilde e alma dócil" (Pirkei Avót 5:19). O que significa que Avraham tinha um "bom olhar"? Mesmo em uma cidade repleta de Reshaim (malvados) como Sdom, Avraham sabia procurar o que eles tinham de bom, e rezou para que D'us tivesse misericórdia de toda a cidade. Mesmo sabendo que seu sobrinho Lót era uma pessoa de má-índole, ele não o abandonou, pois sabia enxergar as suas qualidades. Avraham tinha um bom olhar, procurava o melhor em cada um.

Se quisermos estar listados entre os discípulos de Avraham e de Aharon, precisamos trabalhar o nosso olho e o nosso coração para sempre focarmos o lado bom das pessoas. Pois as pessoas positivas trazem mais amor e harmonia ao mundo, enquanto as pessoas negativas trazem tristeza, desgosto e sofrimento.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
http://ravefraim.blogspot.com.br/
Lv l2:1-13:59, 2 Rs. 4:42·5:19